Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Consumo e felicidade*

Patrick Terrien, chef francês e diretor da escola de culinária Le Cordon Bleu, declarou à coluna "As últimas 10 coisas que comprei", do caderno Vitrine, da Folha, ter comprado champanhe, flores, foie gras, laranjas, cogumelos selvagens, água, jornal, pão, um CD e entradas para o cinema.

O que uma pessoa compra dá uma boa noção de como ela vive. No caso do chef, tudo o que ele comprou foi para o consumo em família, para presentear um amigo e sair com a mulher. Comprou coisas que não duram nem podem ser exibidas, mas podem tornar a relação entre as pessoas próximas a ele mais agradável e apetitosa.

A lista me surpreendeu, pois já havia notado que vários entrevistados da coluna falam de objetos que exibem seu poder aquisitivo, de modo a agregar valor a si próprios, digamos, convertendo-se em produtos. Tornar a si mesmo vendável é, para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, uma das tarefas mais importantes que as pessoas têm numa sociedade de consumo, além de conquistar a felicidade. Para ele, a felicidade é o principal objetivo da sociedade de consumo.

De fato, se estivéssemos na Grécia Antiga, nosso objetivo seria alcançar fama e glória. E, se vivêssemos na sociedade medieval, o fim de todo indivíduo seria cumprir a doutrina cristã para salvar sua alma. Mas, na sociedade de consumo, vivemos para sermos felizes por meio do que adquirimos. Paradoxalmente, por meio daquilo que descartamos.

A aquisição de mercadorias satisfaz nossos desejos e providencia nossa felicidade. Mas os desejos são inesgotáveis. Brotam de todo contato que temos com o que existe no mundo. Um dá lugar a outro, e satisfazê-los é tarefa impossível. Como as mercadorias são produzidas com a finalidade primeira de serem compradas, a sociedade de consumo precisa permanentemente provocar nossa insatisfação com o que temos e atiçar nosso desejo pelo que ainda não temos.

Toda propaganda de alguma mercadoria sugere, subliminarmente, que aquela que temos está ultrapassada e não pode nos oferecer o que a nova poderá. Não comprá-la é ficar em falta com nós mesmos e não pertencer ao círculo especial dos que já a adquiriram.

Enredados nesse moto contínuo de insatisfação/descarte/consumo, compreendemos a máxima da vida: sempre seremos felizes por pouco tempo. Toda suposta felicidade antecipa uma infelicidade. E, enquanto saltamos de uma infelicidade a outra, a almejada felicidade passa a ser um breve intervalo, sempre imperceptível.

A felicidade, substituída pela satisfação de desejos nunca aplacáveis, jamais é experimentada. O que nos resta é a ansiedade da felicidade. As compras do chef francês sugerem que ele se desvia dessa sedução consumista. Fruir, mais do que ter. E não apenas o sabor do foie gras ou dos cogumelos mas o prazer de repartir com amigos e familiares pequenos prazeres. Celebração e simplicidade.

[(*) Artigo escrito pela terapeuta existencial e professora de filosofia Dulce Critelli e publicado no caderno Equilíbrio do jornal Folha de S.Paulo, no dia 12. Gostei tanto que resolvi dividir com vocês]

Domingo, Novembro 15, 2009

Elvis e Madona: bacana do começo ao fim

A solidariedade com o próximo não poupa nem mesmo nossos momentos de lazer. Quem de vocês já não foi ao teatro ver alguma peça bem ruinzinha, só para dar uma força a um amigo querido que estava no elenco? Ou não comprou uma brochura de poesias pra lá de toscas, dessas que são oferecidas na Avenida Paulista, para ajudar algum escritor maltrapilho a sobreviver de sua arte? Ou mesmo não encarou aquela festinha de aniversário erradíssima, porque uma boa amizade justifica até certos micos?

Algo parecido se dá em nosso meio em relação aos produtos culturais "GLS". Existe um senso comum de que devemos prestigiar todas as iniciativas feitas por, com ou para gays, como forma de apoiar "a causa" e fortalecer nossa classe tão preterida e desfavorecida, numa espécie de "corporativismo pink". Nesse sentido, comprar revistas e ver filmes vira um ato político, revestido de um propósito nobre. No caso dos filmes (e até mesmo das novelas), a simples presença de personagens homossexuais na trama já justificaria nosso interesse - afinal, somos tão varridos para baixo do tapete pela sociedade, que qualquer um que nos tire do ostracismo merece nossa gratidão.

De fato, para alcançar a inclusão social e a conquista de direitos tão sonhados, é preciso que os gays [escrevo 'gays' sempre em sentido amplo, incluindo GLBTTXYZ, ok?] se articulem, da mesma forma como fazem os evangélicos e tantos outros grupos da sociedade. Quando damos ibope aos tais produtos, mostramos que somos um mercado, temos anseios e queremos ser reconhecidos. Mas esse gesto tão louvável exige de nós uma certa dose de boa vontade. Para proteger quem nos estende a mão, acabamos diminuindo o nosso nível de exigência: não raro, somos obrigados a fazer vista grossa à inconsistência do enredo do filme, ou ao gritante amadorismo da revista. Enfim, consumimos produtos que certamente não passariam no nosso crivo, se não fosse pelo fato de terem um ingrediente gay.

Felizmente, desse cenário despontam algumas boas exceções. Produtos que não têm no tal ingrediente gay o seu único predicado, mas se amparam em outras qualidades, transcendendo guetos e se comunicando com um público maior. Um ótimo exemplo é o filme Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte, uma das surpresas do Festival Mix Brasil deste ano. Elvis faz bicos entregando pizzas, enquanto não consegue ganhar dinheiro com a fotografia; Madona é cabelereira e luta para juntar dinheiro e produzir seu espetáculo musical. Do encontro desses dois caminhos, surgirá uma amizade, que aos poucos se transformará em algo mais forte. É mais uma história de amor, mas foge do lugar-comum por várias razões - a começar pelo fato de que Elvis é uma menina lésbica e Madona, uma travesti.

A história, que se passa no bairro carioca de Copacabana, tem ritmo e agilidade. O amor entre as personagens, além de nada óbvio, não vem de mão beijada, atravessando alguns conflitos e momentos de suspense, com direito a uma reviravolta no final. Madona é vivida pelo ator Igor Cotrim, que desbancou travestis de verdade nos testes para o papel. O moço deve ter feito um laboratório poderoso, pois conseguiu assimilar não só o vocabulário, mas também a atitude e o jogo de cintura dessas pessoas, que tentam extravasar em seus corpos de homem a feminilidade que carregam dentro de si. Para criar a personagem, foi inevitável a construção de uma caricatura, mas ao longo do filme Igor soube encontrar seu equilíbrio, defendendo o papel com honestidade e respeito, sem deixar o humor de lado.

Elvis e Madona é um filme simpático e nada pretensioso. O elenco conta com a participação de alguns atores globais consagrados, mas sempre em papéis secundários. Além disso, é palatável a vários tipos de público, conseguindo subverter com delicadeza os conceitos de normalidade impostos socialmente. Depois de enfrentar várias batalhas (incluindo a captação de patrocínio, que chegou a interromper as filmagens, por falta de verba), o longa ainda luta para encontrar uma distribuidora. Quem se animar com o vídeo abaixo e não quiser esperar pela estreia, ainda incerta, tem mais uma chance de conferir o filme no Mix: no próximo sábado (21/11), às 15h30 no Cinesesc.

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

Porto Alegre te despreza

Não poderia ter sido outro o título do post. Depois daquela traumática experiência de junho de 2008 (quando fui passar um inofensivo fim-de-semana em Porto Alegre e fiquei quatro dias trancado em casa, enquanto a cidade era varrida por uma tempestade e o aeroporto permanecia fechado), peguei um bode de lá. Resolvi dar uma segunda chance à capital gaúcha em uma época "segura", quando o tempo estivesse quente e ensolarado e eu poderia finalmente conhecer o tão falado sunset do Guaíba. Aproveitei o feirão da Gol em setembro e comprei passagens para voltar a Porto no último fim-de-semana. Qual não foi minha surpresa ao ver que, em plena primavera, a previsão era de chuva nonstop... meu pesadelo gaúcho se repetiria nos mínimos detalhes!

Até pensei em cancelar a viagem (colegas blogayros sugeriram que eu fosse para o Rio ou até BH, onde o finde de sol estava garantido), mas a saudade dos amigos gaúchos e a preguiça de passar pelo procedimento de reembolso da Gol falaram mais alto. Diante do mau tempo, fui checar o circuito cultural do Centro - a Feira do Livro e a Bienal do Mercosul ocupavam os principais espaços culturais da cidade. Visitei o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS, em cujo café comi uma cheesecake de chocolate maravilhooosa, fica a dica!), o Santander Cultural (lindo prédio), o Cais do Porto (meio chocho) e a famosa Casa de Cultura Mário Quintana (que deve ter vivido dias melhores, pois parecia meio abandonada; aliás, o café na cobertura tinha potencial para ser um lugar realmente bafônico, se sofresse uma repaginação bem planejada).

Não foi como eu havia imaginado, mas consegui ocupar o tempo sem ficar maldizendo a minha sina - e ainda tive um fim de tarde delicioso com um guri que conheci por ali. À noite, depois de jantar com meu atencioso anfitrião, segui a dica dele e fui conferir a festa Biônica, num clubinho da Cidade Baixa. Ótima surpresa: som bem legal, transitando entre house, breaks e electro (da dupla de DJs, só se viam as silhuetas contra o telão: eles tocavam no escuro, com umas perucas espetadas e uns óculos-lanterna acesos, tipo um "Information Society from hell, with lasers"), pista animada e cheia de gatitos, embalada por um ar condicionado polar (que compensou o calorão pegajoso do Ocidente na véspera). Mesmo com a chuva, fechei o sábado no lucro.

Para minha sorte, a cidade se redimiu no domingo e me presenteou com um lindo dia de sol. Primeiro, fui conhecer o Parcão, onde os chiques do bairro Moinhos de Vento vão para ficar com o cooper feito. Depois, segui para o miolinho da Padre Chagas (uma mistura do Batel de Curitiba com o Palermo Soho de Buenos Aires; o Z Café lembra muito o Bar 6 portenho). Na transversal Dinarte Ribeiro, vi vários restaurantes novos - seis deles bolaram uma iniciativa que permite ao cliente escolher pratos de uma casa e comer em qualquer das outras cinco. Não resisti e voltei ao Usina de Massas (que não participa da brincadeira), para matar a saudade do mítico nhoque com molho de carne de panela cremoso. Fiquei furta-cor com os novos preços: pela porção individual da massa e uma garrafinha de água, paguei R$67! Só valeu a pena porque esse prato é mesmo dos deuses.

Depois do êxtase gastronômico, fiz o programa clássico dos gaúchos: fui tomar sol (dispensei o chimarrão) vendo o movimento no Parque Farroupilha (ou Redenção), bem mais democrático e agitado que o Parcão. Amigos contavam que uma passada no Brique da Redenção, espécie de feirinha de artesanato que rola por lá, era programa obrigatório das bees locais, mas até que não vi tantas. Mesmo assim, foi bem interessante ver o vaivém da fauna local, com direito a famílias felizes, grupos de loiras legítimas, emos com looks de baixo custo e alguns homens de babar. De lá, fui correndo para o Gasômetro - se eu finalmente conseguisse ver o bendito pôr-do-sol, minha estada seria completa. Infelizmente, tive que ir para o aeroporto antes que o sol se pusesse, mas tudo bem: deixei Porto Alegre satisfeito e resolvi que vou ver o tal "espetáculo" pelo YouTube mesmo...

[Foto: Parque Moinhos de Vento com o chão coberto pelas pétalas dos ipês coloridos]

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Ensaio sobre a cegueira

(Eu ia falar do blecaute de ontem em um post cheio de personagens, na linha deste e deste que fiz na época da Parada Gay de 2008, mas o Celso acabou fazendo primeiro, então desisti da ideia). Querem saber? O apagão pode ter causado diversos transtornos em pelo menos sete Estados (diz que os cariocas nunca foram ensinados a dormir sem ar condicionado), mas eu me diverti bastante.

Quando as luzes se apagaram, eu estava no meio de uma aula-seminário desgastante, com alunos e professora trocando farpas; num passe de mágica, o blecaute desfez o climão imediatamente. Nos corredores do prédio, meninas davam gritinhos, e imagino que alguns casais mais espertos aproveitaram para engrenar um gato-mia erótico de ocasião. Afinal, um blecaute pode encerrar em si uma grande tensão sexual, especialmente em um prédio cheio de cantinhos e gente de várias orientações sexuais com os hormônios à flor da pele.

Na Paulista, estranhamente, senti um clima de inquietação e euforia (?) parecido com a semana do Natal (só que sem as luzes). Claro que alguns deveriam estar cansados e preocupados com a volta para casa, mas outros tantos aproveitaram a contingência para reunir a galera, beber e comemorar (!). Trezentos mil celulares faziam ligações incessantemente, e o inusitado entusiasmo só crescia quando se descobria que o mesmo apagão estava acontecendo no Rio, em Vitória, Minas e até no Centro-Oeste. "Nossa, que irado, é no Brasil inteiro, véi!", exclamou um rapaz de boné.

Desisti de ir para casa e tomei o rumo do Conjunto Nacional, atrás de um lanche. Por uma casualidade do destino, descobri que dois dos meus melhores amigos também estavam perdidos pela Paulista. Nós nos abraçamos felizes com a coincidência, e achamos graça de tudo aquilo, como três adolescentes. Difícil foi achar um lugar que nos recebesse para comer e beber, ou mesmo que vendesse algo para consumirmos na rua: temendo confusões e assaltos, os estabelecimentos só serviam quem já estava lá dentro. Aliás, um desses meus amigos estava prestes a entrar na 269 quando a luz acabou, e foi barrado; se tivesse chegado cinco minutos antes, sua noite teria sido no mínimo engraçada.

Depois de uma romaria danada, acabamos num boteco bem pé-sujo, onde churrasquinhos eram as opções mais dignas disponíveis. Comemos, bebemos e rimos muito, enquanto víamos o movimento e apreciávamos o clima de festa ao nosso redor. A escuridão nos instigava: o papo na mesa girava em torno dos temas e causos mais baixos, sórdidos e absurdos possíveis, enquanto imaginávamos o que não estaria acontecendo em certos lugares e regiões - no calor das elucubrações, houve até quem sugerisse uma expedição trash pelo Centrão ou pelo Autorama. Mas o fogo-de-palha acabou logo, e os três amigos por fim se separaram. Eu pelo menos voltei bonitinho para casa...

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

72 horas em Natal

EM FASE DE CRESCIMENTO
Pequena, limpa e segura (especialmente em comparação com Salvador e Recife), Natal ainda é pouco verticalizada e não tem cara de metrópole, mas de "cidade de praia". Tem apenas 800 mil habitantes e vive do turismo - que chega ao auge em dezembro, com o Carnatal, maior micareta do país. Deve crescer bastante nos próximos anos, com um incipiente boom imobiliário e investimentos para a Copa de 2014, que incluem a construção do maior aeroporto da América Latina. O sol nasce e se põe cedo: às 6h, já dá para ir à praia, e pouco depois das 17h já está completamente escuro e a lua brilha no céu (!). Como a cidade é espalhada e cortada por grandes avenidas, o turista precisa de carro o tempo todo - especialmente se ficar hospedado na Via Costeira, que alinha os hotéis mais novos e de maior porte.

AL MARE
Ponta Negra é a praia urbana mais famosa de Natal. No canto direito (emoldurado pelo Morro do Careca), existe um centrinho urbano meio bagaceiro, que lembra o Porto da Barra, em Salvador; ali, a presença gringa é constante. No canto esquerdo, a orla é menos muvucada e mais residencial; a moçada fica na altura dos quiosques 20 e 21, em frente ao Manary (hotel charmoso e friendly, com um ótimo restaurante). Ponta Negra é essencialmente uma praia de turistas: o natalense (que é bem menos praieiro do que os nordestinos de outros Estados) prefere ir para Redinha, na zona norte, ou para Cotovelo, Pirangi e Búzios, que ficam fora de Natal, no caminho para Pipa.

HAPPY PIPA
Aliás, uma esticada até Pipa, vila charmosinha uns 80km ao sul de Natal, vale muito a pena. A praia do centro é meio farofa: o belo visual é poluído por uma profusão de mesas e cadeiras de plástico, ocupadas por famílias em pacotes turísticos. Prefira a Praia do Amor, à direita (dá para ir andando, se a maré não estiver cheia): mais rústica, com espreguiçadeiras, reúne o povo jovem e bonito do pedaço. Para quem quiser ficar em Pipa (e estiver com o orçamento folgado), duas dicas top são a pousada Toca da Coruja e o restaurante Camamo, nova casa do chef do fantástico Beijupirá, de Porto de Galinhas. Se, por outro lado, você preferir relaxar em uma praia realmente low profile, troque Pipa por Galinhos, 150km ao norte de Natal.

BUGUE-WOOGIE
O passeio mais típico é feito a bordo de um bugue e toma um dia quase inteiro. O circuito começa nas lindas dunas de Genipabu (onde os mais empolgados fazem passeios de dromedário, com direito a turbante na cabeça e foto-recordação). O toque de aventura fica por conta do bugueiro, que sobe e desce as dunas em alta velocidade, fazendo manobras bruscas, especialmente se o turista pediu o passeio "com emoção". Nas próximas paradas, mais esportes radicais: esquibunda (descer uma longa duna sentado em uma prancha, caindo na água) e aerobunda (aqui, você despenca na água a partir de um teleférico improvisado). Antes de voltar para Natal, escala para almoço num desses restaurantes industriais para o turismo de massa. A real: as dunas são lindas e os 'esportes' são divertidos, mas... o que na primeira vez é novidade, numa segunda já se tornaria um programa de índio.

ENCHENDO O BUCHO
Tive excelentes surpresas no capítulo gastronomia: restaurantes grandes, vistosos e com preços camaradas, transitando entre o regional e o internacional. O que mais me impressionou foi o Camarões Potiguar, tão bom que visitei duas vezes (em apenas três dias de estada). Os pratos de camarão custam R$55 e servem duas pessoas; entre tantas opções, o Creme Shiitake e o Fondue são imperdíveis. Outro que não pode ficar de fora é o Mangai, um bufê regional gigantesco, divino, que coloca o Parraxaxá de Recife no chinelo. A carne de sol com natas é deliciosa, e a mesa de doces é uma afronta. Na churrascaria Tábua de Carne, você come um macio filé mignon de sol com acompanhamentos típicos e ganha de brinde uma bela vista panorâmica. Para algo menos típico, duas pedidas são o badalado Temaki Lounge, que investe nos sushis com toques fusion, e o versátil Guinza, que serve culinária japonesa e internacional. Os sucos do Mangaboo e os doces da Daguia Tortas Finas estão entre os melhores da cidade.

PUSSYCAT FORRÓ
Sabe qual é a música típica de Natal? Beyoncé, Pussycat Dolls... em versões forró, é claro. O hit da hora é uma versão de "Angel", do Jon Secada, que toca a cada cinco minutos; acho que cheguei a ouvir "Halo" (Beyoncé) com duas letras diferentes. Na balada, saem os DJs e entram as bandas: são elas as atrações das casas mais concorridas da cidade, como o Decky e o Sargent Pepper's (que tem programação na linha pop-rock e é tido como um dos melhores "esquentas" de Natal). Mesmo na principal boate gay, Vogue Natal, a pista de tribal-bate-cabelo (mal equalizado, distorcido, de agredir os ouvidos) é menos animada do que o ambiente com música ao vivo. A Vogue divide as bees com o Feitiço, outro espaço para shows dominado pelo público GLS. O único endereço que aparentemente tinha uma proposta mais eletrônica, o incrementado Crystal Club, acabou fechando as portas. O jeito é aprender a cantar "Halo" em português.

O LADO RUIM
Como nem tudo são flores, quem quiser se engraçar com os nativos precisa de muita paciência. Se em todo o Nordeste a cultura machista/ patriarcal deixa os gays acuados, em Natal o problema se agrava, porque todo mundo se conhece e morre de medo de se expor. Caçar pelo Disponível ou Manhunt? Choverão mensagens (sempre te chamando de "brother"!), mas 99,9% dos perfis mostram só o pipi e o popô - e marcar encontro com uma mula-sem-cabeça local pode gerar grandes sustos. Na balada, não é menos complicado: os caras te olham por horas, mas nunca tomam uma atitude; você faz a abordagem, o cara fica sem jeito e, meia hora de papo depois, você vê que a coisa não deslancha nunca. Isso se algum conhecido seu não vier te cumprimentar e o cara praticamente sair correndo, branco como papel, porque você conhecia alguém ali. Ou você fica com algum outro turista, ou faz a linha marginal e cai no perigón da pegação noturna de Ponta Negra, ou se contenta em provar os sabores da culinária.
[FOTOS: Morro do Careca, em Ponta Negra, símbolo de Natal; Praia do Amor, em Pipa]

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Do Começo Ao Fim: para sonhar sem pensar

Hoje fui convidado para uma sessão fechada do filme Do Começo Ao Fim, junto com outros blogueiros e jornalistas [para conhecer a história, confira o trailer aqui]. O longa de Aluizio Abranches vem ao mundo carregando um grande peso nas costas. O público gay ficou em polvorosa desde o vazamento precoce do vídeo promocional (que foi acessado por mais de 700 pessoas em apenas duas horas) e passou a depositar nele expectativas bastante altas. Além disso, o assunto central - a relação de dois irmãos que crescem juntos e descobrem que se amam - é polêmico e merece um tratamento cuidadoso.

Para dar conta do recado, o diretor optou por um caminho fácil: focou seu olhar exclusivamente no romance entre os rapazes, isolando-os do mundo ao seu redor. Após um olhar carinhoso sobre a infância de Francisco e Tomás, a narrativa sofre um abrupto corte de 15 anos, os dois protagonistas subitamente percebem o que sentem um pelo outro, e a partir de então passam a viver numa bolha de amor. Nessa fantasia, não há espaço para dilemas ou conflitos: a relação é, no mínimo, improvável, mas não enfrenta nenhum tipo de hostilidade ou obstáculo. O fato de os dois serem irmãos parece ficar em segundo plano e não ter grande importância.

Do Começo ao Fim tem muitos predicados. É superdelicado, tem belos cenários, fotografia e trilha sonora caprichadas. Julia Lemmertz (cada vez mais bonita) está impecável como a mãe dos rapazes. Amorosa e sensível, ela nem precisa de texto para expressar sua ternura - bastam-lhe os olhos e o sorriso. A love story é contada com doçura e intensidade: a declaração de amor (picotada no trailer) que Francisco faz para Tomás é tão bonita que dá para escrever e pendurar na parede; a seqüência dos dois dançando tango nus, embora curta, é marcante. O novato João Gabriel Vasconcellos se saiu muito bem como o irmão mais velho, Francisco, e parece ter um futuro promissor como galã.

Por outro lado, alguns diálogos são sofríveis (sobretudo os da "fase infantil", que soam completamente artificiais) e, se você não for do tipo sonhador, que se deixa levar pela fantasia, talvez comece a apontar vários furos e inverossimilhanças, aqui e ali. Por sorte, sou um romântico incorrigível e meu lado menininha falou mais alto. Como uma parte de mim sempre quis ser o "filhote", sempre procurou um homem um pouco mais velho que cuidasse de mim, me desse carinho e me protegesse, eu me identifiquei com a fantasia proposta e consegui me render à delicadeza da história, deixando o senso crítico de lado. Mesmo assim, senti falta de um fecho à altura: achei que o filme terminou "meio de qualquer jeito".

Para quem simpatiza com histórias água-com-açúcar, Do Começo ao Fim certamente vale o ingresso. Pela forma limpa de mostrar o desabrochar da sexualidade, o filme será uma referência positiva para adolescentes gays, que ainda estão se descobrindo (assim como o fundamental De Repente Califórnia). Às vezes, tudo o que precisamos é de um pouco de fantasia: muitos gays encherão os olhos com a beleza dos atores, e se permitirão sonhar com Francisco e Tomás. Mas não sei se o filme conseguirá convencer um público mais amplo. Não por ter incluído os temas homossexualidade e incesto, mas por ter dado a eles um desdobramento raso, desperdiçando a chance de ser um filme muito maior. No fim das contas, passado o encanto inicial, fica a sensação de que o diretor poderia ter ido mais longe.

Sábado, Outubro 31, 2009

Pré-verão

De repente já estamos em novembro, e daqui pra frente o ano vai escoar cada vez mais rápido. Este feriado será divinamente ensolarado em boa parte do Brasil - um prenúncio do verão que a gente sempre espera e adora. Tem Parada no Rio, tem festas em Floripa, Salvador... não faltarão opções para quem quiser sair da toca e se jogar. Quando vocês estiverem lendo este post, provavelmente estarei dourando o corpinho nas areias de Natal ou Pipa. Quem sabe eu não encontro uns cafuçus como os dessa foto [tirada do novíssimo livro de Mario Testino, MaRio de Janeiro Testino] para passar filtro solar nas minhas costas? Bom feriado a todos, e obrigado pelos 200 mil acessos no blog!

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

"CPF na nota?"

Quem mora em São Paulo já se acostumou a ouvir essa pergunta antes de fazer uma compra ou mesmo pagar o almoço no quilo do dia-a-dia. Para os que não são daqui, uma rápida explicação: para aumentar a arrecadação de ICMS, o governo daqui criou o Programa Nota Paulista, que neste mês está fazendo dois anos. Ao fazer uma compra, o cidadão informa seu CPF e pede a nota fiscal ao estabelecimento; do ICMS que é recolhido, a Secretaria da Fazenda restitui uma parte (30%) ao consumidor. Trocando em miúdos, o cidadão assume o papel de fiscal e o governo lhe oferece uma fatia do ganho como recompensa.

Todo mundo sabe que exigir nota fiscal e combater a sonegação é uma questão de cidadania - afinal, o imposto recolhido pelo governo, EM TESE, beneficia toda a população. Ao mesmo tempo, é uma postura que nunca fez parte da rotina da maioria, e até mesmo para estimular a criação do hábito é que a recompensa se torna importante. Pelo programa, o consumidor pode escolher a forma de receber os créditos (em dinheiro na conta, na poupança, em abatimento do IPVA), e ainda concorre a pequenos prêmios em dinheiro.

O problema é que o site que receberia as notas fiscais teve falhas operacionais nos três meses iniciais do programa, não creditando os valores, e por conta disso muita gente concluiu que o sistema era furado e o sacrifício de juntar quilos de notas fiscais não valia a pena. Além disso, existe por parte do cidadão comum, que enxerga o Fisco como um predador, o receio de ter seus gastos bisbilhotados e monitorados pelo governo. Resultado: a propaganda negativa se multiplicou, fazendo com que mais pessoas se desinteressassem pela ideia.

Confesso que eu mesmo não aderi ao sistema, por pura inabilidade para guardar quilos de notas fiscais, e influenciado pela tal propaganda negativa. Mas fiquei tentado a vencer a preguiça e rever minha posição quando soube que meu chefe já acumulou cerca de mil reais em pouco mais de um ano. Tudo bem que ele é bem mais disciplinado do que eu jamais conseguirei ser (ele pede nota paulista até de cafezinho, e chega a boicotar estabelecimentos que não fazem o crédito), mas pelo menos isso mostra que o sistema realmente funciona. O único senão: o governo está ampliando as hipóteses de substituição tributária para cada vez mais produtos. Com isso, o ICMS passará a ser pago pela indústria, não mais pelo varejo, e o consumidor que pedir a nota paulista acabará não recebendo nenhum crédito.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

O grande desafio

O mundo precisa de novas ideias. Uma pauta genial, tipo "como é que ninguém pensou nisso antes?", que renda uma reportagem incrível, alavanque a imagem de uma revista e justifique sua existência. Um novo seriado de TV, que desponte na programação e chame a atenção das pessoas, conquiste fãs e vire mania. Uma solução arquitetônica criativa para otimizar o espaço dos apartamentos cada vez menores. Uma estratégia de marketing que consiga convencer os consumidores de Coca-Cola de que a Pepsi é uma bebida saborosa e desejável. Uma nova batida musical - ou mesmo uma nova combinação dos velhos elementos - com um resultado diferente, contagiante, que faça as pessoas correrem para a pista, gritarem e levantarem os braços. Uma cura para o vírus HIV, o diabetes e o mau humor de segunda-feira. Um jeito gostoso de comer legumes. Uma lufada de ar fresco. Um novo olhar sobre a vida. O pulo do gato.

É fato que continuarão existindo seriados de tevê. E revistas. E propagandas de Omo, Apracur, Tintas Suvinil e Gleid Sachê. E coleções de roupas. E novelas. E hinos de axé music e house tribal. Até segunda ordem, as referências do passado, as fórmulas já testadas, tudo aquilo que deu certo terá que continuar servindo, quebrando o galho e dando conta do recado. As pessoas continuarão se vestindo, comendo e satisfazendo suas necessidades básicas de qualquer maneira. Difícil mesmo é bolar coisas novas - ou que não sejam tão novas assim, mas ostentem frescor, despertem desejo, provoquem as pessoas. Rompam a inércia, o marasmo, a letargia, e façam o mundo sair do piloto automático e dar um passo à frente. Existem riscos, claro - mas deles dependem o consumo, o lazer, a economia, nossa felicidade, tudo. Inovar é o desafio do mundo.

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Menos Bonner e mais William

Foi contratado pela Globo e ganhou exposição diária no horário nobre. Conquistou uma legião de fãs; passou a receber ainda mais carinho e assédio depois que abriu uma conta no Twitter, onde fala de igual para igual com seu público - dia desses, causou sensação ao dividir sua receita de brigadeiro. Tudo isso seria banal se estivéssemos falando de um ator de novelas. Mas a história se torna no mínimo curiosa quando se trata de um apresentador de telejornal - aliás, o editor-chefe do noticiário de maior audiência do país (o Jornal Nacional, da Rede Globo).

William Bonner está cada vez mais pop. Na tal conta no Twitter, onde já tem quase 160 mil seguidores, brinca com os interlocutores e retransmite os twits mais engraçadinhos a seu respeito. Aliás, ele mesmo parece bem mais soltinho ali do que o JN lhe permite. Entrevistado por Marília Gabriela na última edição de seu programa, que foi ao ar no dia 18/10 no canal GNT, ele explicou que quer mostrar que é "uma pessoa normal" e está adorando esse contato mais próximo com os fãs. Falou também sobre o casamento com Fátima Bernardes (como Tarcísio Meira faria com Glória Menezes, ou Alexandre Borges com Júlia Lemmertz) e, no final, deu uma palhinha dos seus dotes como cantor, entoando alguns versos do clássico "New York, New York", de Frank Sinatra.

Tudo isso me parece bastante inusitado. Mesmo sabendo que apresentadores sérios e sisudos no ar não precisam ser assim na intimidade, fiquei surpreso com essa "revelação" de que Bonner é um cara boa-praça, espontâneo e brincalhão. Ele sempre me passou a imagem de alguém meio arrogante (até mesmo pela posição de destaque que ocupa, e também quando comparou seu telespectador médio ao Homer Simpson) e que se leva a sério demais. Além disso, sua imagem se confunde com a imagem da própria emissora, com todos os juízos de valor e implicações ideológicas que possam estar contidos nisso, o que torna ainda mais complicado "isolar" o William do William Bonner. Cada um tem suas próprias convicções mas, convenhamos, não há como se ficar neutro diante do que a Rede Globo representa para o país.

Mas a reflexão que eu lanço aqui é de outra natureza. O que realmente me intrigou foi ver um apresentador de telejornal tendo com seus fãs o tipo de relação que se esperaria de um Cauã Reymond ou uma Ivete Sangalo. Em relação a artistas, é muito mais natural que exista esse tipo de troca - com admiração, assédio e até cumplicidade. Não estou dizendo que isso é "errado", ou que Bonner deveria se manter dentro da mesma redoma de sobriedade e distância que seus colegas de profissão. Mas o "novo status pop" do apresentador do JN não deixa de ser um bom exemplo da grande avidez voyeurística que os brasileiros nutrem pelas pessoas que aparecem na televisão, de quem desejam se aproximar a todo custo. Em que outro país o âncora do telejornal sofreria tamanha tietagem?

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Furor uterino


Que furor uterino esse em torno de Do Começo ao Fim, né? Vários amigos meus não veem a hora de o filme entrar logo em cartaz e, a julgar por tamanha expectativa, provavelmente temos pela frente um sucesso de bilheteria, pelo menos dentro da nossa bolha gay. Mesmo fora do mundinho, este é um filme que dificilmente vai passar em branco: tem dois protagonistas lindos, atores globais no elenco e, mais importante, um tema central bem delicado (mas que parece ter sido tratado com sobriedade). Promete uma acalorada repercussão em diversos níveis e searas.

Não vou me deter em maiores especulações depois de ter visto apenas o trailer, mas confesso que eu também estou curiosíssimo. O filme só vai estrear no circuito em 27/11, mas algumas pessoas poderão vê-lo antes disso. O Mix Brasil fará uma exibição fechada para convidados em 12/11, na abertura do festival de cinema em SP, e seguidores do filme no Twitter e Facebook também serão agraciados com sessões exclusivas. Enquanto isso, que tal participar da (difícil) escolha do cartaz oficial? Saiba mais detalhes entrando aqui.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Faroeste sem caboclos

Gostei da maioria dos filmes de Quentin Tarantino que vi, mas não lembro de ter saído do cinema tão satisfeito quanto ontem. Bastardos Inglórios é excelente. O filme reescreve a história da Segunda Guerra Mundial de uma forma muito peculiar: com uma inusitada revanche dos judeus. Brad Pitt lidera um grupo de soldados norte-americanos (os Bastardos Inglórios do título) que decide contra-atacar o III Reich. Eles formam uma espécie de "tropa de elite judia" que sai pela França exterminando nazistas, sempre com requintes de crueldade. É a deixa perfeita para o diretor dar o show de violência estilizada que é sua marca pessoal.

Não que o filme seja pesado. Divididas em capítulos, as produções de Tarantino têm algo de games ou histórias em quadrinhos: acompanhamos a saga dos heróis, torcemos por eles, mas sabemos que coisas horríveis virão pela frente, e gostamos disso. Existe um clima de tensão constante, já que reviravoltas sanguinolentas podem acontecer a qualquer momento (a seqüência do jogo de cartas na taverna é um bom exemplo). Além disso, boa parte do público acaba tendo uma certa empatia com o desejo de vingança dos judeus sanguinários, e vibra ao ver os nazistas se dando mal, com o crânio estraçalhado por um taco de beisebol e o couro cabeludo arrancado. O fã de Tarantino ama muito tudo isso, e sabe que dele não poderia esperar outra coisa. No fundo, a violência do cineasta não agride porque é de mentirinha, exala fantasia, é puro cinema. E vem recheada de bom humor. Bastardos Inglórios é um faroeste do século 21.

As cenas são longas, colocando à prova todo o talento do elenco. O material de divulgação do filme dá a entender que Brad Pitt é a estrela, mas não é. O galã e chamariz de bilheteria está correto como o caricato líder dos Bastardos (com direito a um sotaque sulista que fica entre o engraçado e o irritante), mas quem dá um show é o austríaco Christoph Waltz. Ele arrasa como o coronel nazista Hanz Landa - um vilão astuto, cínico e muito erudito (fluente em quatro idiomas!), que extrai um profundo prazer da própria perversidade. Com sutileza e muita personalidade, Waltz já garfou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e, se bobear, acaba levando um Oscar.

Como se não bastasse, o filme tem pelo menos dois colírios. Mélanie Laurent é uma francesa linda de doer, tipo bonequinha - é como se a Carla Camurati rejuvenescesse quinze anos e pegasse emprestado o cabelo da Uma Thurman. Já o troféu Delícia Cremosa vai para Till Schweiger, que interpreta um dos Bastardos caçadores de nazistas. Pense em um Val Kilmer germânico, loiro e viril, com olhos azuis muito ameaçadores, quase um psicopata. Já me imaginei em um calabouço qualquer de Berlim, levando uma boa dura dele e achando tudo lindo. Pena que ele morre na metade da história.

Com fotografia, som, figurino e direção de arte impecáveis, Bastardos Inglórios consegue a proeza de se sobressair em meio a tantos outros filmes notáveis da carreira de Quentin Tarantino. Um programão que agrada desde o cinéfilo mais atento até o freqüentador dos Cinemarks da vida, que está apenas em busca de um pouco de entretenimento. Até mesmo porque ele é cheio de referências cinematográficas subliminares, mas o espectador não precisa entender nenhuma delas para se divertir.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Entre tapas e beliscos

Quando fui conhecer o Venga!, primeiro bar de tapas do Rio de Janeiro, aberto recentemente, a pergunta que fiz foi: "Como é que ninguém aqui pensou nisso antes?" Afinal, esse delicioso hábito espanhol - encher uma mesa com pequenas porções de petiscos variados, e passar uma tarde preguiçosa de verão beliscando e jogando conversa fora - tem tudo a ver com a terra dos Jobis e Bracarenses, que traz a cultura de botequim em seu DNA.

Mas estamos na Dias Ferreira, corredor gastronômico do Leblon onde paparazzi se engalfinham para fotografar celebridades globais, e um prato de salada chega a custar o equivalente a US$45 por quilo (no Celeiro, provavelmente o quilo mais caro do país). Assim, não bastaria que o Venga! fosse mais um pé-sujo despojado e com bons acepipes, como tantos outros da cidade. A casa soube criar um ambiente vistoso e aconchegante (apesar de apertado, algo inevitável numa região onde o espaço é tão caro), com umas poucas mesas altas na parte da frente e mais algumas cadeiras ao longo de um balcão.

Vamos às tapas, então. As porções são pequenas, justamente para que se possam provar vários tipos de iguaria. As croquetas são vendidas por unidade - a camarão é boa, mas é a de jamón serrano e queijo emmenthal que rouba a cena. Aliás, para quem é adorador dos presuntos espanhóis, o menu inclui o célebre Pata Negra, tido como o melhor do mundo (a um preço correspondente). Eu e meu amigo pedimos também uma porção de calamari (finos aros de lula empanados), um par de bombas (bolinhos de batata recheados de filé picante), uma porção de patatas bravas (levemente condimentadas, com um dip de maionese) e um par de pintxos (primos espanhóis das bruschettas) de presunto cru com queijo manchego (de leite de ovelha).

O que gostamos de verdade foi dos pintxos e das croquetas de jamón. Achamos as patatas bravas meio sem graça, e as tais bombas dá para encontrar em qualquer padaria que tenha uma boa estufa de salgadinhos. Mas vimos outras tapas que pareciam interessantes, como pintxos de tartar de salmão e uma porção de pulpos (pedacinhos de polvo temperados) que a mesa ao lado comia com gosto. Só não provamos porque a conta já estava ficando salgada.

Aliás, o lado inconveniente da história está justamente na dinâmica das pequenas quantidades. Como os preços individuais não chegam a assustar, uma porção puxa a outra, e perde-se facilmente a noção da conta. Nossa brincadeira espanhola acabou saindo por uns R$90, sem bebidas alcóolicas - e ficou uma certa sensação de que gastamos o dinheiro de um jantar apenas para comer um punhado de salgadinhos.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Mochilando no Rio

O Rio de Janeiro sempre foi o primeiro cartão de visitas do Brasil para o mundo. Essa visibilidade internacional é muito bem-vinda, mas tem um efeito colateral: os preços da hospedagem, feitos para gringos, são salgados para bolsos brasileiros. A impressão que dá é que os hotéis da Zona Sul formaram um cartel para segurar as diárias lá em cima, e qualquer intruso que tente furar o cerco é banido. O grupo francês Accor, dono das competitivas bandeiras Ibis e Formule 1, teve que instalar seus hotéis bem longe dali: perto do Santos Dumont e na Praça Tiradentes, no Centro. Lugares bons para quem vem trabalhar, mas não para passear.

Para quem tem amigos na cidade, muitas vezes um sofá-cama ou colchonete básico pode resolver o problema. Mas ficar na casa dos outros exige tato e sensibilidade. Por um lado, é preciso não ocupar espaço demais e respeitar a liberdade dos donos da casa; por outro, não dá para ser aquele hóspede que fica tão solto e à vontade que mal dá as caras e só aparece para dormir. Além disso, a disponibilidade dos anfitriões pode não coincidir com a data em que você decidiu viajar; dizer/ouvir um 'não' faz parte e não pode ser constrangedor para nenhuma das partes.

A dois dias da minha última escapada carioca (que terminou ontem), a amiga que iria me receber avisou que tinha resolvido viajar, e meus outros amigos já tinham hóspedes. Como eu já tinha comprado as passagens, o jeito era procurar um hotel. Mas quatro fatores tornavam a ideia ainda mais cara. Eu estava indo sozinho; num feriado; reservando em cima da hora; e a lufada de autoestima do Rio 2016 parecia ter gerado uma espécie de ágio pré-olímpico nos preços. Acabei resolvendo ficar num albergue.

Quem anda distraidamente pelo Rio não imagina que a cidade tenha tantos hostels. Só entre Copacabana e Ipanema, são quase quarenta (tem uma ótima lista aqui). A maioria funciona em sobrados adaptados, muitos deles dentro de vilas, o que os torna ainda mais discretos (só na Barão da Torre, por exemplo, uma única vila tem nada menos que seis albergues). Existe também a opção de ficar em outros bairros, como Botafogo e Santa Teresa. Como eu já estava economizando no conforto, investi na localização e escolhi Ipanema. Todos os outros bairros têm seus prós e contras, mas Ipanema ainda é o mais gostoso e conveniente para o turista, que pode fazer praticamente tudo a pé.

A opção mais barata para o viajante é pegar uma cama em um dormitório coletivo. Conforme o lugar, dormem de 4 a 10 pessoas no mesmo quarto. Nesse esquema, gasta-se cerca de R$40 por dia (com café da manhã e roupa de cama incluídos; as toalhas costumam ser cobradas à parte). Para quem viaja acompanhado, compensa pegar um quarto duplo, com diárias entre R$120 e R$150: você tem a privacidade de um hotel, pela metade do preço. O que não impede que você também socialize com os outros hóspedes do albergue (aliás, um dos baratos da experiência é justamente a chance de conhecer gente nova, de vários lugares do mundo e de meios diferentes do seu).

Para escolher entre tantos hostels, o jeito é visitar as páginas na internet e fazer uma peneira. Fiquei no Rio Hostel Ipanema, um sobrado de vila na rua Caning. A casa não é muito grande, mas soube aproveitar o espaço, com soluções criativas. A laje foi transformada num agradável terraço, com redes, almofadas e um lounge praiano improvisado; ali, é servido um honesto café da manhã, com pães e frios (havia uma sanduicheira à disposição), frutas, sucos e bolo. O banho era ótimo (aliás, chuveiro a gás é uma das coisas de que mais gosto no Rio!). Os hóspedes tinham entre 20 e trinta e poucos anos e eram umas graças: simpáticos e falantes, mas ao mesmo tempo sabiam respeitar o sossego alheio.

Minha escolha se revelou ainda mais acertada quando, por curiosidade, fui visitar um outro albergue, o Terrasse Hostel. A localização era privilegiada (Farme com Prudente, em frente ao Devassa e ao lado do Cafeína e Colher de Pau), mas as instalações... quanta diferença! Os aposentos eram escuros e apertados. Um deles tinha cheiro de mofo; outro, todo forrado de madeira, com teto baixo e oito camas, era a perfeita tradução de um navio negreiro; e um terceiro não tinha sequer janelas. A cara dos hóspedes também não apetecia. Enfim, um muquifo.

Moral da história: é preciso ter olho crítico para separar o joio do trigo e fugir das roubadas. Se o site der muito mais destaque para as belezas da cidade do que para o próprio albergue, desconfie: é mau sinal. Com um pouco de paciência, porém, dá para garimpar tesouros como o jeitosinho Bamboo, que fica numa travessa tranqüila da Rua Santa Clara (Copa), ao pé de uma montanha, e o Ipanema Beach House, que tem uma área externa com piscina, algo raro no bairro. Duas alternativas para se hospedar de forma independente sem sucumbir aos preços dos grandes hotéis.

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Conclusões

Diante da surpreendente repercussão do post anterior, resolvi me manifestar novamente, até para dar um fecho a toda essa discussão. Assim, passo a fazer minhas últimas considerações e, com elas, dou o assunto por encerrado. Este post anterior e o anterior não receberão mais comentários: os 101 deixados já são mais do que suficientes. Obrigado a todos pelo interesse e até a próxima.

1) Fiquei surpreso com a comoção de algumas pessoas próximas ao Duda, que se mostraram chocadas com as minhas palavras – porque ele é novato, bem-intencionado e tal. De repente, eu virei o algoz que pegou pesado com o rapaz, e ainda fui responsabilizado por comentários que outras pessoas fizeram (!).Ora, tudo o que fiz foi relatar o que vi e vivi na porta da festa, da forma mais honesta possível, sem um pingo de má fé, nem ataques gratuitos. E outra: que melindre é esse, o menino não pode ser criticado?! Quem se relaciona com o público (produtores, artistas e até blogueiros) vai receber críticas sempre. Se o Duda for esperto, não vai levar isso pro lado pessoal e ainda vai tirar do episódio algo de válido, para aprimorar o seu trabalho. Não torço contra ninguém, e faço votos para que o Café Com Vodka contorne as falhas e dê conta do sucesso repentino.

2) Eu sei muito bem que dar tratamento diferenciado a algumas pessoas – e a entrada facilitada se insere nesse tipo de cortesia – é uma prática comum no mundo inteiro, e não tenho nenhum problema com isso. (O Vítor, por exemplo, ilustrou seu comentário com exemplos bastante coerentes). Ninguém da fila vai morrer porque meia dúzia de pessoas entrou na frente. O grande problema do Café Com Vodka foi que eles deixavam entrar levas de cinco, oito, doze pessoas, sucessivamente, enquanto a fila ficava completamente abandonada, à deriva, sem jamais dar um passo à frente, em uma situação que se prolongou indefinidamente. Isso não é atitude de lugar sério e profissional, sorry.

3) Aos adeptos do discurso de que “no Exterior também é assim”, vale lembrar que no Berghain-Panorama – um dos clubes mais concorridos do mundo, que fica em Berlim – todos sem exceção esperam pacientemente pela sua vez na fila, ainda que isso possa levar bem mais de uma hora. E os que se acham espertos e tentam furar a fila são barrados na porta e exemplarmente expulsos, na frente de todo mundo.

4) O que muitos leitores não puderam ou não quiseram ver é que o episódio do Sonique era um gancho para uma reflexão muito maior – que pelo visto foi bastante incômoda para alguns, dado o número de respostas agressivas e desaforadas que recebi. No mínimo, essas pessoas se olharam no espelho, não gostaram do que viram e prefeririam que ninguém tivesse parado para pensar nessas questões, não é mesmo?

5) Se minha intenção era saber dos leitores se furar fila se tornou uma prática aceitável, a verdade é que o post cumpriu seu papel, já que os comentários acabaram respondendo às minhas indagações. E uma grande parte endossou essa prática, considerando-a adequada em qualquer situação. Para essas pessoas, eu tinha mais é que passar na frente dos outros mesmo. Como não fiz isso, eu me tornei culpado pelo que passei ali (!) e, mais ainda, fiz o papel de “otário”. O que nos leva a uma conclusão interessante: educação, civilidade e respeito ao próximo são tidos como valores de otário. Anotaram? (O negócio é cada um por si: se o balcão do bar estiver cheio, é só dar um chute na canela de alguma bicha – a mais franzina, evidentemente – que o problema logo se resolve).

6) Aos eventuais desavisados, esclareço que eu deixei de furar a fila por opção – não por “falta de opção”. Não se trata de mágoa-de-cabocla ou chororô de quem “adoraria ser VIP, mas não é e não se conforma com isso”. Eu tinha meios para passar a perna nos demais e poderia ter lançado mão deles, mas não me acho melhor (nem pior!) do que as outras pessoas que estavam esperando por sua vez. E para falar com o Duda ali mesmo, na hora (o que muitos disseram que teria sido o correto), eu seria obrigado a furar a fila primeiro, já que ele obviamente não estava na calçada do clube.

7) Falando em melhor ou pior, é curioso como existem pessoas que se realmente consideram melhores do que as outras. Alguns anônimos (sempre eles) tiveram a capacidade de escrever coisas tão surreais que não dá nem para levar a sério (eu me absterei de transcrevê-las, para não dar um ibope que eles não merecem). Essas bichas iludidas juram mesmo que são diferenciadas, de uma casta superior – e não é todo mundo que pode ou merece freqüentar os mesmos espaços que elas. Só queria saber quem foi que colocou isso nessas cabecinhas ocas – que provavelmente não têm berço algum, a julgar pela péssima educação que tiveram. Aliás, um recado para o dono do Palio 95: você veio anunciar no lugar errado. É que todas aqui são riquíssimas, poderosíssimas, bem-relacionadas e lindíssimas, ou seja, “muita areia” para o seu carrinho. Mas cuidado: se bobear, alguma delas vai comprar seu Palio na surdina, e ainda pagar com um cheque sem fundos...

8) No fim das contas, eu agi conforme minha consciência e não me arrependo. Foi até bom saber que ninguém leva isso a sério: quando eu me deparar com uma grande fila, e por alguma razão importante eu não puder esperar, não me sentirei o último dos seres se alguém facilitar minha entrada. Mas ainda prefiro não fazer isso e, no caso de noites problemáticas (como o próprio Café Com Vodka), chegar cedíssimo e encontrar a festa vazia ainda é um mal menor. Acima de tudo, o que sei é que não pretendo viver esse episódio nunca mais. Acho que 20 minutos de fila é um limite razoável. Mais do que isso, você acaba perdendo o bom humor e estragando uma noite que poderia ser melhor passada em outro lugar.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Leite com manga e óleo de peroba

O fim de semana estava sendo tranqüilo e revigorante, até que eu resolvi terminá-lo no Café com Vodka, a domingayra quinzenal do Sonique que tem sido freqüentada pelos caras mais bonitinhos de SP. Das outras vezes, eu havia me divertido um bocado; dessa vez, não passei da porta, e o efeito do "café com vodka" esteve mais para leite com manga. Com direito a um dilema moral (que eu vim dividir com vocês e na verdade é o que mais importa neste texto).

As domingueiras do Sonique começam, em tese, às 17h. Nas minhas idas anteriores, eu chegava sempre às 18h30 e me arrependia, porque a casa só começava a encher depois das 20h. Dessa vez, segui o conselho de um amigo e cheguei às 20h30. Não foi uma boa ideia - tinha uma fila enorme na porta. Não desanimei, porém: fui para o último lugar e esperei pela minha vez. Pelo tamanho da fila, seria razoável esperar, digamos, vinte minutos. Meia hora, vá lá.

Mas a meia hora virou quarenta minutos,uma hora, uma hora e vinte... e nada da fila andar. Aí comecei a perceber que, enquanto eu e o pequeno exército de manés enfeitávamos a calçada e dávamos prestígio ao lugar, grupinhos de três, cinco, oito (!) pessoas despontavam do nada, perfumadas e saltitantes, furavam a muvuca e entravam na casa, com a maior tranqüilidade. Bastava um aceno ou um telefonema mágico, e logo a segurança abria a comporta e deixava os fofos entrarem. Estava explicado por que não saíamos do lugar: os amiguinhos tinham prioridade sobre os demais mortais. Só que não eram uns gatos-pingados eventuais: eram hordas de amiguinhos! Com certeza, o número de furões eles botaram para dentro foi muito maior do que o de pessoas em pé na calçada – o que significa que a fila inteira teria cabido no lugar, não fosse a má fé generalizada que reinou ali.

Fazia tempo que eu não me sentia tão desrespeitado, ultrajado, insultado. Mas ir embora naquele momento significaria tornar inútil toda a espera que eu já tinha passado, e insisti. Foi aí que vários amigos meus que estavam dentro da casa começaram a sair. Perguntei a um deles como estava a situação lá dentro, e ele me garantiu que a casa não estava mais tão cheia. Mas a fila do lado de fora continuava! Ou seja: além de preterir alguns em favor de outros, o Sonique fazia questão de continuar usando os burros da fila como enfeite para a sua fachada. Essa foi a gota d’água: finalmente dei as costas e evaporei dali. Àquela altura, eu já estava tão amargo que não conseguiria mais me divertir, e a última coisa que queria naquele momento era dar o meu dinheiro para eles. Na boa, isso estragou o meu fim de semana.

Sempre achei deplorável a atitude dessas pessoas que chegam a um clube, jogam a franja pro lado, empinam o nariz e furam a fila, na maior cara-de-pau. Penso que a vileza de caráter desse tipo de gente é a mesma dos velhacos que posam de bons moços para o eleitor, assumem cargos políticos e colocam dinheiro público no bolso. Nem mais, nem menos. Afinal, o fundamento é idêntico: a tal Lei de Gérson, pela qual o sujeito se dá o direito de garantir a própria vantagem às custas de quem quer que seja, e todos os demais que se fodam. O mais incrível é que, no fim do dia, esse tipo de gente repousa a cabeça tranquilamente no travesseiro. Ninguém acha que está errado, ou prefere não enxergar. As pheenas do Sonique que o digam.

Infelizmente, a noite paulistana está cada vez mais dominada por esse tipo de comportamento, que antigamente eu só via no Rio de Janeiro. O triste episódio de ontem me mostrou que, se quiser usufruir da “domingueira mais bombada da cidade”, serei obrigado a chegar cedíssimo, quando a casa ainda estiver às moscas, ou então me render à mesma atitude que eu considero abominável.

Qual seria minha solução instintiva para o dilema? Abandonar o Sonique, é claro. Não acho que o hype da casa mereça que eu passe por cima dos meus valores e me submeta a esse tipo de papelão, que me daria vergonha (um amigo de boa vontade até se ofereceu para caçar o produtor da festa e pedir para ele me botar para dentro, eu é que não quis). É bem mais fácil descartar aquilo e deixar que outros se descabelem no meu lugar. Por outro lado, essa é uma falsa solução, que não resolve o problema. Deixando de ir ao Sonique, não só serei indelicado com um amigo que me espera no seu aniversário na próxima edição do Café com Vodka, como fatalmente vou me deparar com a mesma palhaçada em outros lugares – o 00, para onde penso em ir na minha próxima ida ao Rio, é um forte candidato a repetir a mesma história.

A solução então é partir para um boicote geral aos lugares mais disputados, por uma questão de princípios? Será justo que eu me coloque à margem e me prive dos prazeres da vida, ao passo que os demais se divertem? Enquanto meus amigos que entraram no Sonique aparentemente tiveram uma noite ótima (alguns na base do óleo de peroba, como um conhecido ex-blogueiro que chegou às 21h40, me cumprimentou na fila e logo em seguida cavou seu acesso rápido), eu paguei o pato pelas minhas convicções, tive um enorme desgosto e voltei para casa amuado.


Estou sendo radical e levando a vida a sério demais? Sou um sujeito antiquado, que vive no século passado? Furar fila e passar os outros pra trás é um fundamento da modernidade, e só eu ainda não captei isso? O fato de que todas as pheenas fazem, com a conivência do próprio Sonique, me legitima a também fazer da próxima vez? Tudo o que “os outros” fazem se torna, por si só, correto – é essa a regra? Devo deixar de ser besta e adotar uma postura com a qual não concordo, por uma simples questão de sobrevivência? O que vocês me dizem?

Sábado, Outubro 03, 2009

Rapidinhas com um pouco de tudo

SORVETE NA TESTA 2.0 Zapeando os canais anteontem, acabei caindo no VMB 2009, a premiação anual da MTV (que um dia já foi bacana, lembram?). Duas palavras definem: vergonha alheia. Foi constrangedor. A pergunta que não quer calar: qual a idade mental do público-alvo com quem eles tentam se comunicar: oito anos? Alguém realmente acha graça nas palhaçadas da emissora? Fazer discurso de agradecimento berrando, e dizer que algo é "muito foda", por acaso é... muito foda? atitude, véi? Premiar o "Twitter do ano", êta falta do que fazer, hein!? E o Marcos Mion ainda existe? Devo ter virado um velho anacrônico, só pode ser. A única coisa que prestou foi ver a cara de bunda da Mallu Magalhães e do Nando Reis quando a banda Fresno foi anunciada como artista do ano.

SEGURE COM AS DUAS MÃOS Tenho mais uma larica superluxo para dividir com vocês. Desta vez, o destaque gastronômico não poderia ter um nome mais fuleiro: Zé do Hamburger. Quando me indicaram, logo pensei em uma Kombi estacionada em frente a um desses terminais de ônibus da periferia. Nada disso: é uma lanchonete apertada, mas charmosa, na rua Caiubi, em Perdizes. A carne do hambúrguer de picanha é suculenta, mesmo tendo quase dois dedos de espessura. E o Diner Burger - que leva alface, tomate, pedacinhos de bacon, molho de queijo, um toque de barbecue e finíssimas onion rings - é simplesmente arrebatador. O reinado do St. Louis como melhor hambúrguer de SP corre perigo.

JOGA PEDRA NA GENI O Don Diego tem sido um dos meus blogs gays preferidos ultimamente. Longe da superficialidade que domina tantos outros espaços, o rapaz propõe reflexões lúcidas e muito bem articuladas sobre comportamento, sexualidade e outros temas do nosso cotidiano - mas sem ser chato. Dia desses, ele me mandou o link deste post de um blog americano, comentando a repercussão do assassinato de um homem dentro de um parque em Atlanta, às 2 da manhã, em junho passado. Na opinião pública, houve um senso comum (latente, não escancarado) de que ele teve o que merecia, afinal estava ali fazendo pegação. O mais curioso é que muitos dos que endossaram tal discurso também eram gays - o que mostra como esse assunto ainda é tratado com recalque e hipocrisia até mesmo dentro do meio.

BRAINWASH CATÓLICA, NÃO "Você é favorável ao ensino religioso facultativo nas escolas públicas?" Essa pergunta é objeto de uma enquete que o Senado brasileiro está fazendo em seu site. Por trás disso, está um acordo que o Brasil assinou com a Santa-Sé e que é uma violação ao Estado laico. Por um simples motivo: não se trata de um ensino pluralista, que contemple as religiões em geral, mas tão somente a doutrina católica, que seria imposta goela abaixo nas escolas públicas. O próprio Vaticano já confirmou isso, e a Igreja Católica brasileira, como não poderia deixar de ser, está fazendo a maior propaganda para os fiéis votarem a favor. Se você não concorda com mais essa ingerência e acha que religião deve ser uma escolha pessoal, clique aqui e vote contra. A enquete está no canto direito inferior da página.

MALANDRO É O GATO E falando em religião, fiquei passado na manteiga de cacau com a entrevista com um ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que foi publicada pela revista Época, há coisa de duas semanas. A ovelha desgarrada, Gustavo Alves da Rocha, explica com detalhes como Edir Macedo forma seus pastores e os ensina a arrancar dinheiro dos fiéis. Lógico que temos de deixar a ingenuidade de lado, ler nas entrelinhas e lembrar que as motivações por trás de uma reportagem como essa não são necessariamente nobres - nem as do ex-pastor, que Edir deixou na miséria, nem as da Globo, que se sente acuada pelo avanço da Record. Ainda assim, a matéria vale o confere. Leia aqui.

A VITÓRIA É SÓ O COMEÇO Claro que fiquei superfeliz com a notícia de que nosso querido Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Simbolicamente, isso nos traz um reconhecimento e uma visibilidade que são muito bem-vindos (ainda que isso custe ao país um preço que certamente será cobrado). Comemoremos, então, pois temos todo o direito. Mas não deixemos que o ufanismo canarinho nos distraia e nos imbecilize, como já fez em tantos outros carnavais. O Rio - e o Brasil - têm muita lição de casa para fazer. Até a Copa e os Jogos, não dá pra virar Primeiro Mundo, mas dá pra promover melhorias drásticas em diversos aspectos, dos mais localizados (o transporte urbano) aos mais conjunturais (sobretudo a segurança). Não vamos desperdiçar essa chance de arrumar a casa - para os convidados e para nós mesmos. Se esse empurrão não servir, então o que servirá?

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Cada uma no seu quadrado

Sábado passado eu resolvi tomar uma overdose de boate gay. Primeiro, fui conferir a reinauguração da Megga; depois, terminei minha noite na The Week. Minha ideia original era escrever um post comparativo, na linha daqueles testes de revista que avaliam dois carros similares de fábricas concorrentes, analisando aspectos como desempenho, consumo, conforto, estilo, espaço interno e porta-malas. Enquanto eu me dirigia para a Barra Funda, minha cabeça já rascunhava os quesitos - pistas, música, bares, área externa, atendimento, público - e a estrutura do texto, que prometia dar um certo trabalho.

Depois que entrei na Megga, após esperar pacientemente pela minha vez na fila (o que pessoas que se consideram educadas sempre deveriam fazer, mas muitas vezes não fazem), acabei desistindo dessa ideia. É que essa segunda visita reforçou minha impressão de que a Megga e a The Week não são exatamente boates concorrentes. A proposta de ambos os clubes parece similar mas, na prática, os públicos são distintos e pouco se misturam. Os clientes da The Week não se animaram com a casa nova: nas duas inaugurações, preferiram continuar fiéis à casa de André Almada. Já os freqüentadores da Megga são seguidores do clã da Bubu - e, na falta da Megga, se aproximam mais da Flexx do que da TW. Claro que existem pessoas que não têm um clube preferido e pulam de galho em galho para variar, mas me parece que são minoria: não consigo enxergar que uma das casas roube o público da outra.

A Megga estava bem cheia. Da primeira inauguração para cá, praticamente nada mudou. A única diferença que percebi foi na área do antigo café: a insólita estufa de coxinhas deu lugar a um sushi bar, bem mais adequado. A pistona continua sendo o grande destaque da casa. Ampla e confortável, é mais clara que a da The Week, o que facilita aquele contato visual prévio antes de abordar o gato. Pena que dessa vez o som estava mal equalizado e estourando, o que não aconteceu na estreia original. No bar central, o número de funcionários era nitidamente insuficiente para atender à demanda - algo compreensível em um clube tão novo, que ainda está fazendo ajustes e treinando seu staff. Nesse aspecto, seria até injusto comparar o atendimento ao de uma casa que vem sendo lapidada há cinco anos. Em geral, essas pequenas falhas não incomodaram, e o clima geral era de alegria. E a decisão de abrir apenas uma vez ao mês certamente contribuirá para manter o público entusiasmado, sentindo-se parte de uma noite especial, não rotineira.

Se eu já tinha decidido não fazer comparações objetivas entre as duas baladas (até porque uma delas é semanal e a outra, mensal), emendar uma na outra me deu uma sensação mais clara de qual delas é mais a minha praia. Achei ótimo poder ver caras novas na Megga - incluindo vários rapazes bonitos, dos baby faces aos cafuçus. E o clima mais happy também me contagiou. Por outro lado, eu considero o espaço físico da The Week insuperável. A pista pode ser mais escura e não tão agradável se você não quiser fritar, mas sempre há a opção de fugir para a bela área externa, e isso não tem preço. Em relação à música, infelizmente o bate-cabelo é onipresente nas duas mas, na média, o som da TW ainda me convence mais - na Megga, o dispensável desenterro de "Chorando Se Foi", do Kaoma, foi a deixa que eu precisava para ir embora dali.

No fim das contas, consegui entender melhor por que o público gay de São Paulo é tão polarizado. Quando cheguei na The Week, senti uma agradável sensação de familiaridade, de encontrar muitos amigos, de estar num espaço conhecido, de ver o cuidado com certos detalhes. No fundo, é isso que faz os gays serem tão fiéis aos clubes que escolhem, quaisquer que sejam: a sensação de estarem em casa. Não acho que a TW seja um "universo perfeito" - para ficar num único exemplo, pagar a comanda é sistematicamente um suplício - mas, entre as opções gays que temos hoje, ela ainda é que mais me agrada. O que não me impede de apreciar o frescor da mudança para um clube com mais leveza e menos carão de vez em quando.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Rapidinhas do fim de semana

ÔLHA O PASSARRINHO Uma dica para aficcionados por fotografia é a exposição de fotos do francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) no SESC Pinheiros, dentro dos eventos do Ano da França no Brasil. Considerado um dos pais do fotojornalismo, ele fez registros belíssimos de suas andanças pelo mundo, a maioria deles usando uma antiga Leica, câmera alemã que virou objeto de culto. Seus flagras do cotidiano são uma verdadeira aula de enquadramento, composição e sensibilidade. A mostra, gratuita, se estende até meados de dezembro.

UM NEGÃO CHAMADO BASTIÃO Lembram que um passarinho verde cochichou no meu ouvido, há dois meses atrás, que Salvador estava prestes a ganhar um novo clube? A casa, chamada San Sebastian, será inaugurada amanhã, com os convidados Felipe Lira e Eric Cullemberg no som. Fica na Rua da Paciência, a poucos metros do Boomerangue e, a exemplo do já não tão concorrido vizinho, tem três andares e programação variada (apenas o sábado é gay). A novidade vem em boa hora: as bunitas da cidade já estavam enjoadas da Off e quase não saíam mais de casa, o que deixava a noite de Salvador com um certo quê de Porto Alegre. Se a casa agradar, é natural que se torne líder aos sábados, deixando para a Off o posto de melhor opção das sextas-feiras.

MARA OU MICO? E falando em Bahia, alguém aí vai se jogar no festival Heaven & Hell, na Costa do Sauípe? Sei que ainda faltam dois meses (o evento começa em 20 de novembro), mas já era para o burburinho ter começado. É claro que o evento não se destina apenas aos paulistas (até mesmo pela proximidade geográfica, faz mais sentido que Salvador e Recife estejam em polvorosa do que SP), mas a organização certamente também esperava receber muita gente destas bandas, e não estou vendo nenhum tititi em cima dele por aqui. O que vocês me dizem: decola ou não sai do chão?

NUEVOS BOLICHES Outra cidade cuja cena noturna parece estar sacodindo a poeira e dando a volta por cima é Buenos Aires. Depois que o Palacio Alsina deixou de fazer as melhores noites gays da cidade para receber apenas eventos eletrônicos, muita gente que não vive o culto aos DJs não gostou nadinha de ter que se contentar com o Amerika. Chegou aos meus ouvidos que agora há alternativas por lá. Na sexta, o que está pegando é o Rheo Bar, ali no Paseo de la Infanta, dentro dos Bosques de Palermo, onde nos anos 90 funcionava o Buenos Aires News (não entendi se é algo light tipo Sonique ou um clube mesmo). Já no sábado, o boliche gay do momento é o novíssimo Human, que fica perto do Aeroparque (o aeroporto doméstico de BsAs). O blogueiro Gurizão (que está se revelando um ótimo olheiro de beldades) foi e adorou.

A BRANCA E A MEGA Já em São Paulo, a chapa tá esquentando. Amanhã acontece a reabertura da Megga, que prometia ser o segundo grande clube gay da cidade, mas saiu misteriosamente de cena poucas semanas depois da inauguração [que eu descrevi aqui]. A casa abrirá apenas uma vez por mês, justamente para garantir a bombação e a expectativa - na pista principal, Paulo Agulhari prometeu menos bate-cabelo e mais progressive. Enquanto isso, a The Week lançará uma nova festa, Nuit Blanche, com decoração all-white e cenografia especial. Grá Ferreira, que fará seu casamento religioso na mesma noite, sairá da igreja direto para lá e se apresentará de véu e grinalda, na pista principal. No mínimo, vale pela oportunidade única de ver uma DJ tocando vestida de noiva.

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Comida com um pé atrás

Saiu a edição 2009-2010 do Comer & Beber, anuário de restaurantes, bares e comidinhas da Veja São Paulo. Minha mãe, tão ligada em comida quanto eu, manuseou o pesado volume por alguns minutos e depois o encostou, com um certo desinteresse. "Essas indicações são todas compradas. Não acredito mais nelas. A Dulca com o melhor doce da cidade? Pfff!", desdenhou. Quando falei sobre a edição do ano passado aqui no blog, recebi alguns comentários no sentido de que esse guia era "vendido". Para ilustrar seu raciocínio, um deles mencionara que um jurado que era "do ramo" havia indicado o insosso America como a melhor cozinha rápida da cidade.

A indicação de um restaurante como o melhor em uma certa categoria é uma escolha totalmente subjetiva de cada jurado. Mas alguns casos são intrigantes. Na categoria cozinha contemporânea, por exemplo, 9 entre 10 jurados escolheram o Maní, e sua dona, Helena Rizzo, ainda foi eleita a chef do ano. Gosto do lugar - agradável, charmosinho, com um pé no rústico-chique e uma chef linda - mas acho que existe um excesso de babação de ovo e deslumbramento no fato de as (diminutas) receitas serem preparadas com técnicas da vanguarda espanhola (o próprio Ferran Adrià já esteve lá). Pode até ser um dos dez contemporâneos mais interessantes (e hypados) de SP, mas não consigo enxergar nele o cacife de ser uma unanimidade absoluta. [Aliás, meu preferido é justamente o que o jurado dissidente escolheu: o Sal].

Essas desconfianças em torno da crítica gastronômica me lembraram um post que li em um blog especializado, o Que Bicho Me Mordeu, questionando o mérito do guia Josimar Melo (editado pelo próprio, que é crítico da Folha de S.Paulo). O que chamou minha atenção não foi propriamente o texto, mas sim os comentários exaltados de donos de restaurantes sobre Josimar. "Ele leu o cardápio durante 10 minutos e depois escolheu o RODÍZIO! E ainda teve a cara de pau de falar dos pratos à la carte na crítica!". "Novidades não muito bem sucedidas, como o nhoque de beterraba com molho de alho poró, ou de ricota defumada - Nunca servi tal aberração! Escreveu sobre o que não comeu e nem existe!""Ele foi só uma vez ao restaurante, logo na inauguração, mas o guia continuou atualizando e até deu estrelas. Será que ele está terceirizando seu serviço?" "Quem é do meio sabe a picaretagem!" Enfim, bafos e mais bafos.

É preciso saber relativizar o que se lê em uma crítica. Além da questão da subjetividade, existe a própria limitação da avaliação, que não dá conta de ir além de uma primeira impressão. Como bem observou um leitor do blog que eu citei, "na maior parte das vezes, nem 10% de um cardápio é avaliado. Então fica difícil tirar conclusões justas sobre o trabalho do restaurante todo. É como se um crítico de música escutasse apenas uma música do disco, ou visse apenas 10 minutos de um filme: será que daria pra confiar na opinião desse sujeito?".

Outro ponto importante: se for reconhecido, um crítico tem grandes chances de receber comida e tratamento diferenciados em relação aos demais mortais, produzindo resenhas artificiais, que não retratam a experiência do cliente comum. Os manuais de ética de órgãos como a Associação dos Jornalistas de Comida (EUA) e da própria Folha recomendam que os críticos permaneçam anônimos o tempo todo, mas isso não é fácil para os que mostram a cara em jornais, cursos e eventos (como o próprio Josimar). Moral da história: em meio a tantos conflitos de interesse, resta a mim e a você ler as resenhas com um saudável pé atrás. O guia da Veja pode ser um catálogo fantástico e imprescindível - mas quem tira as minhas conclusões sou eu.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Um livro cheio de bons modelos

Com a homossexualidade saindo das sombras e conquistando maior aceitação, é de se esperar que a indústria cultural passe a dar espaço para produtos que nos retratem com menos pudor e mais naturalidade. Estamos assistindo, inclusive, à gestação de dois seriados 100% brasileiros - caRIOcas e Farme 40° - em que os gays passarão de meros coadjuvantes a protagonistas. Mesmo longe de uma inclusão social efetiva, nossa geração sai da toca, consome e se conecta com o mundo, e suas histórias de vida também merecem ser contadas. Um recorte bastante fiel do gay urbano de hoje, que vive a era da internet, do sexo fácil e do culto ao corpo, está em Depois de sábado à noite, romance de estreia do escritor fluminense Kiko Riaze.

Cadu, o protagonista, é um rapaz bonito e inteligente, mas se sente incompleto por não ter um namorado. Em sua busca pelo amor, o mocinho vive uma série de desencontros e fracassos, ao se envolver com tipos variados que ele encontra em suas aventuras pelo Rio de Janeiro (mas que poderiam estar em qualquer lugar). Entre uma tentativa e outra, Cadu se apoia em sua fiel turma de amigos, que o leitor conhecerá melhor ao longo das diversas tramas paralelas que serão desenvolvidas no livro. Do enrustido que vive atormentado (Félix) até a fag hag fervida e devoradora de homens (Michele), passando pelo casal que se vê no impasse de abrir a relação (Laerte e Rubinho), o autor constrói um núcleo de amigos-que-são-uma-família que lembra muito a versão norte-americana do seriado Queer as folk.

Em entrevista concedida à revista Junior poucos meses depois do lançamento, Kiko declarou: "É um mundo praticamente invisível para a sociedade em geral. Quando existe um casal gay na novela, é totalmente estereotipado, eles não têm amigos gays, não fazem programas de gays. Isso precisa ser mostrado". Essa declaração diz muita coisa sobre o livro. Longe de ser uma obra hermética, impenetrável por quem não for do meio, Depois de sábado à noite parece ter sido feita para os héteros lerem e aprenderem sobre o "admirável mundo novo" dos gays. Da descrição dos cenários às gírias faladas por Michele, tudo é apresentado em tom didático, quase professoral, para que até os mais desenturmados consigam saber como as coisas funcionam. Dá para emprestar o livro pros pais tranquilamente - eles não terão dificuldades em aprender o que é uma barbie, por exemplo.

Mas é justamente nas melhores intenções que o livro encontra seu calcanhar de aquiles. O maior problema de Depois de sábado à noite é o excesso de bom-mocismo, que contamina toda a obra. Enquanto os homens que passam pela vida de Cadu (e frustram as expectativas do moço sonhador) são mostrados apenas em seus defeitos, todos os amigos do protagonista são fofos, certinhos, moralmente irrepreensíveis. Entendo que o autor queira construir uma imagem saudável e positiva dos homossexuais, reforçando sua autoestima e destoando dos retratos tradicionalmente angustiados e problemáticos da literatura tradicional, e acho esse esforço louvável. No entanto, na tentativa de passar o máximo de bons exemplos a um público maior, Riaze extrapola na dose do politicamente correto e cria alguns diálogos pouco críveis, transformando os personagens em professores e modelos de conduta. Chama a atenção, sobretudo, o tom exageradamente maniqueísta com que são tratadas questões como o sexo casual e as drogas. Mamãe certamente aprovaria, mas não é assim que a banda toca.

Feitas essas ressalvas, Depois de sábado à noite é um livro agradável e muito bem escrito. O texto hipercorreto de Riaze compromete a oralidade dos diálogos, mas dá conta de descrever as várias passagens de sexo do livro com riqueza e sofisticação, sem descambar para a pornografia. Além disso, os personagens são cativantes (meus prediletos foram o casal Laerte e Rubinho) e as tramas, muito bem amarradas, com desfechos nem sempre previsíveis. Dá para se identificar em vários trechos - e lembrar que a dificuldade de arranjar alguém é a mesma para todos. Agora que Kiko já deu seu bom exemplo à sociedade, vamos ver se no segundo livro (que já está no forno) ele se preocupa menos em ser correto o tempo todo e se solta mais, com personagens menos certinhos e mais humanos. Afinal, nós não precisamos provar nosso valor o tempo todo.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

A redenção da Koni Store

As temakerias chegaram a São Paulo em 2004, três anos antes de virarem febre Brasil afora. A primeira grande rede, Temaki Express, conquistou os baladeiros como uma opção leve, rápida e barata de lanche na madrugada - mas o arroz era ruim, o peixe tinha gosto de congelado e o salmon skin estava mais para "assolan skin", pois parecia uma palha de aço. Dois anos depois, surgiu no Itaim uma temakeria chamada Ícone, e nela finalmente me encontrei, elegendo o temaki do chef (salmão, shimeji e cream cheese) como meu preferido.

No verão 2007/2008, a mania dos cones chegou ao Rio de Janeiro. A rede Koni Store começou a espalhar suas lojinhas laranjas pela Zona Sul e fui conferir. Achei a qualidade da comida bastante irregular e acabei preferindo os temakis da Yiá!, que disputava o público da Farme. Mas o céu acabou caindo sobre a cabeça deles: a fachada da lanchonete vizinha desabou, colocando um fim precoce à simpática lojinha, que era toda decorada com mangás.

Como eu tinha ficado com um certo bode da Koni Store, mantive-a na geladeira por um bom tempo. No domingo passado, decidi dar uma segunda chance a ela. Saí da praia apressado para o aeroporto e entrei na loja da Farme para pedir dois temakis de salmão com shiitake para viagem. Tive uma impressão bem melhor: os cones eram caprichados, com o peixe fresquinho e as lascas do cogumelo bem macias, e vieram recheados até a base. Gostei tanto que ontem, depois da aula, resolvi ir conhecer a bonita filial que a rede abriu na Joaquim Floriano. Dessa vez, provei uns temakis meio diferentões. E não me arrependi.

Primeiro chamei um Roast Tuna, com rosbife de atum crocante ao shoyu e mel. Novamente muito bem recheado, com o toque suave do mel nos muitos cubos do peixe. Depois, seguindo a dica da simpática Keila, escolhi o Hot Steel, temaki mais pedido do cardápio. No recheio, cubos de truta-da-patagônia envoltos numa finíssima e crocante massinha de harumaki e, para dar o arremate, cream cheese e uma inusitada palha de alho-poró. Gamei: a combinação é mesmo muito boa, e o resultado fica ainda melhor com um reforcinho extra de cream cheese (politicamente incorreto, eu sei!) e da tal palha de alho-poró. Bye bye, Ícone: agora já tenho meu novo temaki favorito.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Verdinha simpática

Meu feriado no Rio deixou um gostinho de quero mais e resolvi, de sopetão, voltar à cidade no último fim de semana. Como decidi a viagem de última hora, ia ser difícil encontrar tarifas justas (em se tratando de ponte aérea, só pago mais de R$150 por trecho em caso de emergência). Fui cotar preços no Submarino Viagens e me deparei com a WebJet, companhia aérea da qual eu nunca havia ouvido falar (depois as aeromoças me contariam que a empresa, carioca, já tem cinco anos de mercado). Como o preço estava bem OK - R$ 139 por um trecho avulso, comprado com apenas 24 horas de antecedência - resolvi experimentar.

E tive uma ótima surpresa. O voo foi pontualíssimo e a tripulação, muito amável. E o que dizer da poltrona? O ângulo de reclinação do encosto é o maior que já vi em 31 anos de classe econômica. Para arrematar, um serviço de bordo muito além do que eu poderia esperar numa ponte aérea, com sanduíche de presunto defumado, queijo gouda e cream cheese e um úmido e fresquinho brownie com calda de chocolate. E o melhor: sem pedirem um tostão a mais por isso (enquanto a Gol passou a cobrar pelo lanche oferecido aos passageiros).

As companhias aéreas alegam que não podem oferecer serviços mais baratos por conta da carga tributária brasileira. Após a saída de cena de Vasp, Transbrasil e Varig, as duas empresas que dominaram o mercado doméstico (TAM e Gol) sentiram-se numa posição bastante confortável. Com a chegada de novos concorrentes, finalmente precisarão rebolar para fisgar e manter a clientela. Em abril, testei a Ocean Air até Belo Horizonte e também fiquei bem impressionado - o avião é confortável e tem bom espaço entre as fileiras. A Azul só não me pegou ainda porque a ideia do deslocamento até o aeroporto de Viracopos dá uma certa preguiça, ainda que a companhia ofereça ônibus de graça. Com a Webjet, passarei a ter uma quinta opção antes de recorrer aos ônibus-frigoríficos da Viação 1001. A única coisa que eu dispensaria é a saudação "uma web-boa noite a todos", que me lembrou os "pat-beijos" do Clube da Criança.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

All you can eat

"Que bom que você me procurou", disse-me o rapaz do Flamengo, cujo perfil eu havia visto em um desses sites de encontros, tipo Disponível. "Confesso que pensei que você não fosse ligar quando estivesse aqui no Rio". Estranhei: eu não tinha dado nenhum sinal de que fosse um daqueles enroladores que não ousam sair do virtual. E ele não era o tipo de cara que alguém em sã consciência colocaria na geladeira - gostoso, másculo, não havia mentido em nada no perfil e parecia ainda mais atraente ao vivo. Por que eu não ligaria, então?

"É que os caras de fora em geral nunca ligam. Quando combinam a coisa virtualmente, eles até acham que vão te ligar. Mas aí eles chegam aqui no Rio e ficam loucos com tanta oferta, e então simplesmente colocam você de lado, esquecem mesmo". Ele explicou que já estava acostumado com isso, mesmo quando o papo virtual era promissor e sugeria afinidades dentro e fora da cama. Apesar dos freqüentes desencontros, insistia na internet. Estava cansado desse jogo de consumo imediato do qual ele mesmo já participara tanto, e tinha a esperança de que ali pudesse encontrar pessoas que não o descartassem tão rápido.

Botar as asas para fora e tirar uma casquinha dos sabores locais é um prazer que faz parte da aventura de sair de casa e visitar um lugar novo - negar esse desejo é pura hipocrisia. No Rio de Janeiro, a cidade mais sacana do mundo, onde a carne é de primeira e o radar sexual das pessoas funciona 24 horas por dia, esse comportamento parece ainda mais justificável. Não estou aqui para ditar o "certo" ou condenar o "errado", em tom moralizador, mas parei e pensei nas pessoas que devoram todos os homens que aparecem pelo caminho, tudo ao mesmo tempo agora, mesmo quando não estão na pele do turista.

De fato, muitos encontram nesse tipo de atitude um caminho de realização plena - livre, saudável, bem resolvido e sem culpas. Mas outros tantos são o tipo de gente que não liga para o moreno do Flamengo, mas depois vive se queixando da solidão, sem se dar conta das chances que desperdiça a todo momento. Ao atirar para todos os lados e se empanturrar no bufê all you can eat, que fome é essa que eles estão tentando aplacar e não conseguem? Talvez nem eles saibam a resposta.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Férias cor-de-rosa

Quando eu troquei a esfiha pelo kibe, no final da década passada, a ideia de "turismo gay" no Brasil se resumia a uma única palavra: Rio. Rapazes do país inteiro se encontravam na Cidade Maravilhosa para o Réveillon, o Carnaval e as tão aguardadas festas X-Demente, em torno das quais o povo agendava viagens e programava a própria vida. Alguns anos depois, as cidades de Florianópolis e São Paulo também entraram no páreo, a primeira como destino alternativo de verão e a segunda por conta da Parada Gay, com visibilidade crescente e uma programação paralela de festas e eventos. O Brasil começava a descobrir que esse público exigente, consumista, hedonista e sem filhos tinha um potencial de consumo formidável: ganharia um bom dinheiro quem aprendesse a respeitá-lo e entender suas necessidades. Mas, tirando uma festa aqui e uma pousadinha acolá, não havia ainda sinal de produtos pensados especificamente para os LGBT.

Nos dias de hoje, parece que o mercado está finalmente dando um passo nesse sentido. Enquanto prefeituras de grandes centros como Recife, Rio e Salvador investem em capacitação - do setor turístico/hoteleiro aos policiais militares - para lidar com o público gay, a iniciativa privada vai ensaiando uma profissionalização e criando produtos específicos para esse nicho, nos moldes do que se vê no Exterior, onde a segmentação é tanta que há empresas diferentes para organizar cruzeiros para homens e mulheres. O Brasil começou a navegar por esses mares neste ano: em fevereiro zarpou de Santos o primeiro cruzeiro gay nacional, chamado Freedom on Board, que levou um grupo bem animado até Florianópolis. A experiência deu certo e a segunda edição já tem data marcada: 05/02/2010, desta vez com destino a Búzios.

Agora a mídia começa a divulgar um novo projeto que vai acontecer em novembro, na Costa do Sauípe (BA), chamado Heaven & Hell. O formato vem da América do Norte: um resort é fechado por alguns dias para uma programação direcionada ao público gay. No caso do H&H, o mote do evento são festas eletrônicas que acontecerão durante três dias, com produção a cargo de selos brasileiros, argentinos e norte-americanos. No lugar de famílias com crianças pentelhas, as piscinas serão tomada por marmanjos interessados em travessuras bem mais adultas. Se houver tempo hábil para que o evento seja promovido satisfatoriamente (não entendo por que demoraram tanto para começar a divulgação, se eu já estava sabendo do H&H desde abril!), o resultado pode ser bem interessante.

Ao mesmo tempo em que vejo essas novas iniciativas com entusiasmo, não deixo de pensar se realmente faz sentido a ideia de um turismo gay altamente segmentado. No fundo, isso se insere naquela discussão mais ampla, sobre se há ou não uma "cultura gay". Concordo que temos alguns gostos peculiares, mas será que realmente precisamos transportar nosso gueto para onde quer que viajemos? Será que somos tão diferentes e temos necessidades tão especiais assim? Talvez não seja essa a questão. No fundo, não precisaríamos de nada disso se pudéssemos nos divertir, brincar e trocar carinhos em qualquer lugar, sem nos preocuparmos com a reação de terceiros, sem sermos recriminados e perseguidos. Como não nos é dado esse direito, o jeito é permanecer na redoma, e prestigiar lugares onde sabemos que seremos bem tratados. Afinal, férias não rimam com frustração e constrangimento.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Rapidinhas de segunda

ÜBER FAIL Depois de tantos comentários sobre Brüno, tive que ir conferi-lo e tirar minhas próprias conclusões. Não consegui entender o hype: achei o filme muito, muito ruim. Diziam que era um tapa na cara dos homofóbicos, mas não vi ali nenhuma mensagem realmente educativa para os héteros. As pretensas "críticas" que o filme faz são rasas e superficiais e ele ainda reforça estigmas negativos, levando o público leigo a inevitáveis associações entre o ridículo protagonista e os gays em geral. Como espectador gay, não me senti vingado, e sim constrangido. Tudo isso seria perdoável se ao menos o filme fosse engraçado, mas o humor eurotrash de Sacha Baron Cohen consegue ser apenas infame, chulo, vulgar e de péssimo gosto. Talvez eu não teria tido uma surpresa tão ruim se tivesse visto Borat. Agora entendo que tê-lo evitado foi uma decisão acertada.

BOCA LIVRE Com as contas dos jantares cada vez mais altas, a gente fica bem feliz com a notícia de mais uma Restaurant Week em São Paulo. É uma ótima oportunidade para testar lugares novos, ou mesmo comer em restaurantes que normalmente não caberiam no orçamento. Depois do sucesso das edições anteriores, o número de casas participantes cresceu, assim como a duração do festival: agora são catorze dias (de hoje até o dia 13/9). Só os preços continuam os mesmos - R$27 no almoço e R$39 no jantar. Entre as novidades, endereços caros como Antiquarius (estrelado português com sede no Rio) e Porto Rubaiyat (que serve versões 'populares' de seus peixes em sistema de bufê). Confiram os menus no site no festival e programem-se - os endereços mais concorridos estão trabalhando com reservas e esgotando rapidamente a capacidade diária.

LUVA DE PELICA Já que é impossível elogiar e bater palmas para tudo, quem consegue dar seu recado sem criticar abertamente e ganhar desafetos se sai melhor. A coluna de Monica Bergamo na Folha de sábado mostrou a estreia de Jesus Luz como DJ no Royal, em São Paulo. Consta da coluna que o toy boy de Madonna tocou um insosso poperô comercial, levantando os braços com os dedinhos apontados para o alto, batendo palmas e gritando "uhu". Na tentativa de parecer cool (ou esconder sua insegurança), o moço escondeu o rosto com óculos escuros, cafonice típica de seu padrinho Paul Oakenfold. Esperto, o repórter conseguiu retratar o mico de Jesus sem se comprometer. Bastou colher a opinião do público: os gongos dos freqüentadores renderam ótimas aspas e, para todos os efeitos, o jornal não meteu o pau no menino.

CAFUÇU É O TEU C... Quem acompanha este blog há mais tempo já sabe que, quando o assunto é homem, tenho um especial apreço por tipos rústicos, morenos e bem brasileiros, desses que povoam as ruas de cidades como Recife e Salvador. Aprendi com os pernambucanos a chamá-los de cafuçus, incorporei o termo imediatamente e vários colegas blogueiros fizeram o mesmo. Dia desses eu estava conversando com um baiano lindo, chamei o cara de cafuçu e ele ficou enfezadíssimo! Eu disse a ele que, saindo da minha boca, aquilo era um elogio carinhoso (já chamei caras de "meu cafuçuzinho" mais de uma vez) e, mais calmo, ele explicou que eu deveria deletar essa palavra, especialmente quando estivesse na Bahia. Além de ser gíria de pernambucano, povo com o qual o baiano tem "quizila", ali ela tem uma conotação extremamente pejorativa. Prometi me policiar e fiquei agradecido: não quero correr o risco de perder nenhum cafuçu-delícia só por tê-lo chamado elogiosamente de cafuçu...

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Be Fresh: fresco, saudável e apetitoso

Pegando o gancho do post anterior, hoje vou recomendar um restaurante bem bacana que é especializado em comida saudável: o Be Fresh, no Itaim. Para quem está cansado de pedir frango grelhado com salada, o menu da casa é uma bênção - repleto de preparações criativas, entre saladas, sanduíches e pratos quentes. Dos pães aos queijos, tudo é produzido pela cozinha no mesmo dia e servido num ambiente claro e agradável, com muita luz natural e um quê de programa do canal GNT.

Difícil é escolher entre tantas opções apetitosas. Para quem quer ficar na salada, a Cogumelo Mix leva cogumelos shiitake, shimeji e portobello, parmesão, nozes, alface, croûtons e molho à base de azeite, mostarda, mel e alecrim. Entre os sandubas, há o Tostex Parma (presunto parma, rúcula, mussarela de búfala e chutney de figo, em pão de cereais) e o wrap Supremo (frango marinado, agrião, rúcula, tomate, cebola caramelizada e molho de iogurte). Para um belisco, muffins caseiros de ricota com espinafre, ou cacau com iogurte e nutella.

Os pratos quentes me surpreenderam. Quase escolhi o Linguado ao Pôr-do-Sol (com molho de laranja e gengibre com camarão, mais rolinho de abobrinha recheado de ricota), mas acabei ficando com a Lula Cheia (lula recheada de ricota e camarão, com molho de leite de coco e tomate concassé). Levíssima, só não foi melhor que o trio de bruschettas que comi de entrada (a de queijo brie, balsâmico e chutney de figo e a de queijo feta, tomate seco e pesto eram sensacionais). Quem não come peixe pode pedir filé mignon com vinho tinto e capim santo ou peito de frango recheado com aspargos frescos e queijo brie.

As sobremesas também seguem a linha saudável, e os sucos não são feitos com água nem açúcar. O perfumado Pantera Cor de Rosa, por exemplo, leva 1 cacho de uvas, 3 maçãs, 1 goiaba e hortelã, num resultado vistoso, de um vermelho escarlate muito vivo. Enfim, o Be Fresh pratica uma culinária fresca e convidativa, que passa longe das preparações pálidas dos naturebas tradicionais. A casa abre todo dia e ainda faz entregas pela região.

Sábado, Agosto 22, 2009

Todo dia ele faz tudo sempre igual

Só DEUS sabe o quanto me custou sair da cama às oito horas da manhã deste sábado gelado de inverno, para bater minha vitamina e ir expiar meus pecados na academia. Durante a semana, é pior ainda: como trabalho durante o dia e estudo à noite, para ter tempo de treinar eu preciso acordar às 6h - sendo que nunca consigo ir dormir antes da meia noite e meia. Procuro não parar muito para pensar, assim não desanimo diante de tanto sacrifício.

De onde eu tiro força e pique para isso? Não tenho nenhum truque na manga: nem efedrina, nem catuaba, nem supositório de wasabi. O que me faz investir horas preciosas do meu sono, do meu já escasso tempo livre e da minha vida é um ideal de beleza. Um ideal veiculado pela mídia, incensado pela pornografia, alimentado pela publicidade, movimentado por toda uma indústria, multiplicado por Ipanema e cultuado pelo meio gay. Um ideal que eu assimilei completamente, desde o desabrochar da minha sexualidade, a ponto de passar a considerá-lo como o único padrão desejável, na medida em que ele passou a orientar a minha libido e interferir de forma determinante na construção da minha própria identidade.

Hoje, aos 31 anos, ainda passo uma parte significativa da minha vida social em um mundo que gira em torno de baladas, festas, praias, corpos, flertes, fodas. E que mantém aceso esse ideal. Por enquanto, pagar de gatinho no verão e garantir um Carnaval sexualmente atribulado são preocupações com as quais ainda estarei sintonizado por algum tempo. Até mesmo porque elas têm um papel crucial na minha autoestima. Mas já começo a predizer uma mudança de mentalidade que virá pela frente na minha vida. A atividade física certamente continuará sendo importante, em nome da saúde e do bem-estar, mas o peso do tal ideal de beleza diminuirá. E, com isso, a tendência será que eu busque outras alternativas para me exercitar.

Deixando de lado os inegáveis benefícios na hora de arranjar parceiros sexuais, a verdade é que puxar ferro é uma atividade física burra e de perspectivas bastante limitadas. Você pode recorrer aos florais de barbie e turbinar seu ganho de massa muscular para além de suas limitações naturais ("quem cresce natural é planta", dizem os maiorais do supino). E só: todo o seu ganho pessoal se resume a quantos milímetros a mais você inchou. E esses ganhos evaporam no primeiro deslize. A musculação é mais ingrata do que a Maria de Fátima de Vale Tudo: duas semanas parado já detonam o resultado de meses de suor e sofrimento. E aí, o jeito é voltar... a fazer tudo sempre igual. Inspira, solta, no supino, no pulley e no cross over, em pirâmide e em supersérie. Por anos a fio, você vai trocando os treinos (e os arquivos de MP3), mas nunca sai do lugar, não evolui como pessoa. No máximo, desenvolve a paciência e a obstinação.

Por outro lado, existem atividades físicas com horizontes muito mais amplos do que os da musculação: além de trabalharem o corpo, fazem bem para a cabeça e proporcionam qualidade de vida. Ioga e pilates não deixam ninguém bombado, mas tonificam os músculos, trabalham a postura, a respiração, o equilíbrio, e fazem maravilhas pela flexibilidade. Artes marciais condicionam o físico e trazem crescimento pessoal - seja pelo autoconhecimento, seja pela canalização produtiva da agressividade, seja pela simples segurança de saber se defender. Nada é mais prazeroso do que se exercitar ao ar livre, correndo ou andando de bicicleta, sentindo o vento na cara, vendo a vida que existe do lado de fora da academia.

Claro que alguma musculação ainda será recomendável, para retardar a perda natural de tônus muscular que vem com a idade, mas para esse fim a freqüência e o tipo de treino serão bem diferentes. Afinal, para estar bem comigo mesmo, eu não precisarei ter o bíceps grande e o abdome ultrasseco a minha vida inteira. Pelo menos eu quero crer que não.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

O maluco dos quatro celulares

Sou uma daquelas pessoas que não conseguem lembrar como era a vida antes do celular. Mesmo me policiando para que as conversas não se alonguem demais, preciso de uma boa cota de minutos por mês. A TIM vivia fazendo promoções mirabolantes para abocanhar uma fatia do mercado, e numa dessas ela acabou me conquistando. Dei uma banana para a Vivo, que sempre foi mercenária e nunca fez a menor questão de prestigiar seus clientes, e peguei na TIM um número de celular tão fácil, mas tão fácil, que eu não quis mais trocar de operadora - pelo menos enquanto não fosse permitida a portabilidade.

Mesmo como cliente da mais barateira das companhias, às vezes minhas contas vêm bastante salgadas. Um dos vilões sempre foi o roaming. Viajo com freqüência para outros Estados, sobretudo Rio de Janeiro, e meu pacote permite míseros 40 minutos de deslocamento. Depois de um feriado marcando praias, festas e peguetes - e recebendo ligações dos amigos de SP que não sabiam que eu estava no Rio - sempre vinha a apunhalada no fim do mês. Quando era Réveillon ou Carnaval, as contas chegavam a bater os R$450. Eu não ganho para isso.

Resolvi então habilitar uma linha do Rio de Janeiro, e esses problemas acabaram. Os amigos cariocas adoraram poder falar comigo pagando tarifa local e eu não precisava ficar controlando o tempo quando atendia ligações. Coloquei o chip num aparelho velhinho da Motorola, então o desapego era total: não havia ônibus perigoso ou caminhada na madrugada que me amedrontasse. Se bobear, o ladrão ia acabar ficando com pena de mim e até me deixaria alguns trocados.

Mesmo eliminando o problema do roaming carioca, minhas contas ainda vinham altas. Antes de aceitar um desconto da TIM e me prender por doze meses, fiz a comparação com outras operadoras, e concluí que a TIM ainda era a mais barata. A Oi dava um bônus razoável, mas a opinião geral aqui em SP é que a empresa deveria colocar um ponto de interrogação na marca - "Oi?" - porque o sinal continua sofrível. Até gosto do fato de a comunicação visual da empresa ser fofa, turquesa e fashion, mas isso não é suficiente para atender às minhas necessidades de consumidor.

Dia desses, eu estava voltando do almoço para o escritório e vi um alvoroço de pessoas na banca de jornal, comprando chips da TIM. O motivo, fui descobrir, era uma promoção chamada Infinity Pré. Você fala com qualquer TIM do Brasil inteiro e paga apenas R$0,60 pela ligação inteira. É menos do que o minuto local do meu plano pós, e nos primeiros três meses o valor é menor ainda: incríveis R$ 0,25. Comprei correndo um chip e passei a usar essa terceira linha apenas para me comunicar com meus amigos TIM. Os que são de outros Estados estão adorando receber inusitadas ligações minhas. E com isso, eu aliviei o consumo da minha linha principal.

Eis que hoje descubro que a Claro também fez uma promoção interessante no pré, chamada 1+30. A cada minuto de ligação tarifada, você ganha 30 minutos grátis para usar em ligações locais para Claro. O bônus máximo é de 30 minutos por dia, que são cumulativos até o fim de cada mês. Basta fazer uma recarga mensal de R$11, e falar com os amigos Claro à vontade - dá 900 minutos grátis por mês.

Resultado: hoje habilitei minha quarta linha de celular. Agora tenho o pós-pago de sempre, com número facinho ("telefone de puta", disseram os baianos), que continuo dando pra todo mundo; um segundo telefone de SP, para falar à vontade com os amigos TIM de todo o Brasil; um terceiro também de SP, só para falar com Claro; e um quarto número, do Rio, que só ligo quando estou dando pinta por lá. Quatro chips para dois aparelhos. Te parece excêntrico? Bem, quando meus gastos mensais com celular tiverem caído de R$300 para R$60, a gente volta a conversar!

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Cheiro de confusão

A vigência da lei antifumo começou em SP com um estardalhaço tão grande ou maior do que o da Lei Seca. Há duas semanas atrás, eu estava almoçando em Pinheiros quando o quilo foi invadido por uma "blitz informativa" do governo, com fiscais de colete bege distribuindo folhetos e um enxame de repórteres e cinegrafistas de rádios e emissoras de TV cobrindo tudo e entrevistando os clientes. Fiquei surpreso (e imaginei como seria bom se o governo trabalhasse com o mesmo afinco nas áreas que rendem menos ibope).

Lendo o material distribuído, já senti um cheiro de encrenca no ar. Na parte que trata de restaurantes, bares e casas noturnas, o folheto diz que "fica proibido fumar no interior desses lugares. Nenhum tipo de fumódromo está autorizado". Mas o que seria "o interior" desses lugares: todas as dependências do estabelecimento, ou apenas aquelas que forem fechadas, cobertas, indoor? A verdade é que o folheto permite duas interpretações, que são absolutamente conflitantes. A primeira é que, se o restaurante tiver mesas num terraço, ou o clube tiver um pátio externo (tipo a The Week), então ali os clientes poderão fumar - afinal, aquela é uma área aberta, que não está dentro do lugar. Por outro lado, ao permitir que os clientes fumem ali, a casa estará, em última análise, criando um fumódromo - o que é proibido pela lei. Perceberam a dubiedade?

Acabei sendo entrevistado por alguns jornalistas e levantei esse problema. Um fiscal do governo ouviu, veio falar comigo e perguntei a ele qual seria afinal o critério utilizado para solucionar o impasse das áreas externas. E a resposta que recebi foi a pior possível: "O bom senso de cada fiscal". Ah, tá: "bom senso de cada fiscal" = fiscais exigindo todo tipo de propina = a lei já nasceu toda cagada. Não é à toa que algumas casas, como a própria The Week, optaram por seguir logo a orientação mais radical: para fumar, o cliente tem que pagar a comanda, sair da boate e acender o cigarro na calçada, junto com o pessoal que está esperando aquele ônibus verde-limão que vai para a Cohab Taipas.

Eu sou totalmente favorável à restrição do fumo em lugares públicos. Muitos alegam que o Estado está invadindo uma liberdade individual, mas o problema é justamente quando essa liberdade individual viola os direitos das outras pessoas. Ao acender um cigarro num bar, o fumante exerce seu livre-arbítrio para se envenenar, mas faz os outros pagarem o pato, obrigando-os a se intoxicar por causa dele. Só acho que, como tudo que é feito às pressas, essa lei vai causar muita confusão, servindo inclusive como pretexto para outros tipos de retaliação. A Gambiarra, festinha hype do semestre passado, foi a primeira vítima.

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Os 7 mandamentos da passagem barata

Com carga tributária alta e concorrência baixa, viajar de avião no Brasil é bem mais caro do que deveria. Mas dá para garimpar preços justos. Dependendo da sua esperteza, com R$500 você pode comprar uma única "perna" de ponte aérea para o Rio de Janeiro, ou uma viagem completa para Fortaleza. É tudo uma questão de você entender a lógica do sistema - quem determina a flutuação dos preços não são pessoas, mas computadores, a partir de certas regras tarifárias e conforme a oscilação da demanda - e então passar a dançar conforme a música. Divido com vocês os meus macetes para comprar passagens aéreas sem ser explorado.

1) PLANEJARÁS TUA VIAGEM COM ANTECEDÊNCIA. Eu não poderia deixar de começar a lista com o conselho clássico: quanto maior a antecedência entre a data da compra e a data da viagem, menores os preços. No Exterior, nem sempre é assim: há companhias que oferecem verdadeiras pechinchas para quem resolve viajar em cima da hora (jogue "last minute trips" no Google). O raciocínio delas é óbvio: depois que o avião decolar, os assentos que não forem ocupados serão perdidos, portanto é melhor tentar vendê-los por menos do que deixá-los vazios. Já no Brasil, a mentalidade é diferente: quem quer viajar na hora tem urgência, portanto aceitará pagar o preço que a companhia quiser, por mais abusivo que seja.

2) FARÁS A PESQUISA DE PREÇOS FORA DO HORÁRIO COMERCIAL. Muitas companhias aéreas, como Gol e OceanAir, costumam fazer feirões de passagens no sábado e no domingo. Outras lançam ofertas-relâmpago na madrugada, entre 23h e 6h. A maioria envia e-mails para os clientes previamente cadastrados, avisando quando há promoções. Para economizar tempo, aproveite a comodidade do Submarino Viagens: você joga as informações (destino, data, horário) e o site faz a cotação em todas as companhias aéreas, mostrando em qual delas o preço está mais barato.

3) FUGIRÁS DE ÉPOCAS BOMBADAS. É a lei da oferta e da procura: quando a demanda por passagens for mais alta, o sistema encarecerá as tarifas. Por isso, se você não estiver cursando uma faculdade, fuja dos meses de férias escolares (dezembro, janeiro e julho), considerados alta estação e sempre mais caros. Pelo mesmo motivo, é bem mais difícil encontrar boas oportunidades nos feriados do que em finais de semana comuns.

4) PRESTIGIARÁS OS AEROPORTOS MAIS DISTANTES. Em São Paulo, a Infraero tenta esvaziar Congonhas, que opera no limite da sua capacidade; no Rio, todos querem a vista deslumbrante do Santos Dumont e ninguém quer saber do Galeão, com acesso difícil e pouco seguro pela Linha Vermelha. A consequência, você já sabe: melhores ofertas nos aeroportos rejeitados. Entre SP e Salvador, por exemplo, a TAM oferece 9 voos diretos diários por Guarulhos e apenas 4 por Congonhas - e a diferença de preço chega a R$ 200,00 por trecho. Para se deslocar até o aeroporto, você pode usar o ônibus executivo; em muitos casos, a diferença de preço continuará compensando mesmo se você for de táxi (o que não vale, evidentemente, para o aeroporto de Viracopos).

5) ACEITARÁS HORÁRIOS ALTERNATIVOS. Novamente, a lei da oferta e da procura. Os horários mais nobres são aqueles inflacionados pelo viajante de negócios: de manhã cedo, entre 6h e 9h, e depois do "expediente", entre 18h e 20h. Se esse não for seu caso, é mais tranquilo e barato voar das 11h às 16h. Outra opção mais radical (e barata) são os voos em horários bizarros, em geral durante a madrugada. Se suas férias não forem muito curtas, você terá tempo de sobra para compensar a noite maldormida no avião. Para saber se a economia compensa, inclua também o custo do táxi (a menos que você se disponha a pegar o último ônibus executivo e esperar no saguão do aeroporto até a hora do embarque).

6) JAMAIS COMPRARÁS UM TRECHO ÚNICO. Como você não quer gastar muito dinheiro, que tal ir de ônibus e voltar de avião, ou vice-versa? É uma PÉSSIMA ideia. Pelos critérios do sistema, sabe-se lá quais sejam, sai bem mais barato comprar uma viagem ponto a ponto, com ida e volta, do que um trecho avulso. Para efeito de ilustração, com o valor que desembolsaria por um único trecho Confins-Congonhas, dá para você comprar a ida, a volta e mais o ônibus executivo de Confins até o centro de Belo Horizonte.

7) FINGIRÁS UMA VIAGEM MAIS LONGA. Quanto maior é a permanência no destino, mais o preço das passagens cai (e cai drasticamente). E se você não tiver tanto tempo? Aí entra o truque: se você tiver duas viagens planejadas, combine a ida da primeira com a volta da segunda e a volta da primeira com a ida da segunda. Com isso, você "enganará" o sistema e obterá uma tarifa menor. Exemplo: você quer passar os próximos 2 feriados no Rio. Se comprar SPRJ 5/9 + RJSP 7/9 e SPRJ 10/10 + RJSP 12/10, pagará caro, pois permanecerá apenas 2 noites no destino. No entanto, se você emitir SPRJ 5/9 + RJSP 12/10 e RJSP 7/9 + SP 10/10, o sistema entenderá que você vai passar, respectivamente, 35 e 33 noites no Rio. E o preço do trecho despencará (no meu caso, R$300 viraram R$69). Malandragem? De jeito nenhum: é só uma questão de entender as regras de tarifação e se aproveitar delas.

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Recepção azeda

"A hostess Isadora, do Vegas, é sempre muito mal educada com os clientes. Uma turma e eu esperamos 30 minutos, pois só entrava a fila VIP dela. Depois, fomos atendidos com grosseria pela hostess, que cobrou R$50, valor diferente do que constava do Guia, entre R$20 e R$40. Pedi educadamente um desconto e ela fez carão. Respondeu: 'nem para os meus amigos' ". A queixa publicada na seção de cartas do Guia da Folha mostra que o fundamento do carão na porta, marca registrada da cena clubber dos anos 90 (quem não lembra da door policy dos primórdios do Lov.e?), ainda está mais presente na noite do que deveria.

Por baixo de uma atitude pretensamente cool e superior, o esnobismo e o carão revelam despreparo, insegurança e falta de profissionalismo. Além disso, deixam uma impressão ruim que o cliente dificilmente esquecerá. Passei por uma dessas na porta do finado Stereo (onde hoje funciona o D-Edge), há nove anos. Noite disputada, duas filas opostas e nenhuma explicação sobre elas. Peguei a da direita, esperei cerca de 40 minutos e, quando chegou a minha vez, a hostess Anna Gelinskas me humilhou na frente de quase cem pessoas, porque eu deveria ter esperado na fila oposta.

Com uma grosseria surpreendente, ela impediu minha entrada e ordenou que eu fosse para o fim da outra fila, como se eu tivesse pego aquela para entrar mais rápido. Argumentei que ninguém havia orientado os fregueses e eu já havia esperado 40 minutos ali, ao que ela respondeu algo como "vai esperar outros quarenta, ou vai voltar pra sua casa: aqui você não vai entrar". Sou uma pessoa educada, levo tempo para colocar a agressividade para fora, e por isso na hora fiquei absolutamente sem reação. Hoje, se ela me destratasse da mesma maneira, eu até poderia perder minha noite - mas antes faria questão de colocá-la no seu devido lugar. Algumas pessoas precisam que alguém lhes mostre que são muito menos do que pensam.

Domingo, Agosto 02, 2009

A fantástica fábrica de sonhos

Esta noite fiz algo que havia muito tempo que eu não fazia: dormi DOZE horas. Fui tirar minha disco nap às 21h e cataploft!: capotei na cama e só fui acordar às 9 da manhã. Meu corpo provavelmente estava precisando de um descanso maior, e o tempo frio ajudou os edredons a ficarem ainda mais convidativos. Foi um sono perfeito e com muitos sonhos. Sonhar é normal, mas eu raramente me lembro do que sonhei depois que acordo. Nos últimos dias, por algum motivo que desconheço, tenho lembrado de todos os meus sonhos. O mais engraçado é vários deles têm pé e cabeça e são até bastante coerentes, mas misturam lugares e pessoas de épocas totalmente diferentes, gerando histórias pra lá de inusitadas. Mas o melhor de tudo é entrar numa saia-justa, arregalar os olhos e pluft! terminar o sonho e se ver livre do problema na mesma hora.

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Rapidinhas baladeiras

NOITE DOS SONHOS Um dos mais concorridos festivais gays do mundo, o Black & Blue faz milhares de belos circuiteiros baterem cartão em Montreal a cada mês de outubro. O site da fundação que organiza o B&B já começou a soltar as informações da edição 2009, e eu fiquei simplesmente pretérito quando soube quem vai tocar na festa principal, em 11/10: Sasha, John Digweed e Dave Seaman. Ouvir os três papas da progressive house, juntos, num centro de convenções gigante [o Palais des Congrès, na foto ao lado] apinhado de homens lindos, parece até um sonho. Enquanto aqui somos obrigados a engolir a gritaria tribal sem reclamar, no Canadá até as barbies ouvem música boa...

YO NO CREO EN BRUJAS... Já em outro festival gay bombado, o Circuit Festival, que começa amanhã em Barcelona, o clima é tenso nos bastidores. Segundo fofoca que ouvi do meu provável único leitor português, as autoridades fecharam o Souvenir, afterhours tradicionalíssimo onde aconteceriam algumas das festas mais esperadas do programa. O Matinée Group, que organiza o festival, corre contra o tempo para achar outro lugar e salvar o fervo das bilus. Não é de hoje que a Espanha anda intolerante com a jogação: de 2007 para cá, a prefeitura de Ibiza vem fechando clubes e proibiu toda e qualquer festa após as 6 da manhã - jogando areia nas day parties da Space, que eram justamente as festas mais especiais da ilha.

DOMINGO EU QUERO VER Tô gostando bastante dessa nova movimentação em torno de baladinhas dominicais em São Paulo (o Mix avisa: é tendência). Como o inverno não inspira pool parties, o jeito é pensar em festas indoor. Primeiro veio a despretensiosa Gambiarra, no Cambridge - que nem é gay, mas começou a atrair um povo cansado das matinês de sempre. Agora, dois projetos novos vêm aí. Dia 9/8, o Sonique estreia seu Café com Vodka, sob a batuta do fervido Duda Hering. No domingo seguinte, é a vez da festa Dalva, que Ailton Botelho e Marcos Costa farão quinzenalmente no Vegas, com o promissor André Garça como DJ residente. Ainda sou fã incondicional da Blue Space, mas vou adorar ter novas boas razões para não sofrer com a aproximação da segundona.

Quarta-feira, Julho 29, 2009

La Figa: o velho La Lupa é bem melhor

Como pimenta e dendê são dois ingredientes que eu abomino, o meu restaurante preferido em Salvador tinha que ser um... italiano. O La Lupa era uma simpática cantina no final da Rua das Laranjeiras, numa parte menos muvucada do Pelourinho. Como a especialidade da cozinha eram as massas com frutos do mar, de uma certa forma eu estava aproveitando as riquezas locais. Em São Paulo, você paga uma fortuna por um prato com míseros dois ou três camarões - isso quando eles não usam aquele sete-barbas fajuto com gosto de esponja descongelada. Na Bahia, não: vem camarão "CAMARÃO", e vem bastante - pelo mesmo preço que você pagaria num prato de carne.

Na minha penúltima visita, em julho de 2007, vi que a casinha com mesas do lado de fora tinha mudado de nome para La Figa. Perguntei sobre a novidade e o garçom me contou que a cozinha continuava a mesma, e uma nova casa com o nome La Lupa seria aberta na Barra. Desta vez, tive a chance de voltar ao La Figa e também conhecer o novo La Lupa.

No La Figa, tudo como antes no reino de Abrantes: as massas artesanais do cardápio continuam deliciosas e com os mesmos preços justos do passado. Não fiz por menos e me esbaldei no velho Pappardelle Mare i Monti de sempre: com um toque de creme de leite, vinho branco, camarão e shiitake [foto]. A porção individual me custou honestos R$20; para dois, sairia a R$35. Comi devagarzinho, saboreando cada garfada, cercado por aquela mistura divertida de escandinavos e mulatos que só o Pelourinho tem.

Já na casa nova, não vi a menor graça. O La Lupa mudou-se para o térreo de um prédio em plena Ladeira da Barra. E quem arca com o IPTU é o cliente: por um prato individual de massa, eles cobram salgados R$45 e entregam uma porção menor do que a do Pelô. Alguns vão dizer que, pela varanda envidraçada, você vê o mar. E eu vou responder que, pelo valor de uma conta no La Lupa, você tem ambientes muito mais caprichados (o La Lupa não deixa de parecer um restaurante de flat), com vistas muito mais embasbacantes da Baía de Todos os Santos: Soho, Amado, Lafayette, Trapiche Adelaide, Porto Gourmet. Moral da história: na hora de comer, continuo fazendo figa e não abro.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

O mapa da mina para uma farra em Barcelona

A vida é injusta: enquanto aqui no Brasil andamos pelas ruas tremendo de frio, de guarda-chuva na mão e barra da calça ensopada, Barcelona está ensolaradíssima e apinhada de homens interessantes, que chegam de várias partes do mundo atrás de um verão de hedonismo, curtição e aventuras. A ferveção gay na capital catalã chegará ao seu auge a partir do próximo fim-de-semana, quando começa a segunda edição do Circuit Festival, com cinema, palestras e muuuuitas festas (a The Week vai levar alguns de seus DJs para tocar no famoso after Souvenir). Fui conferir o Circuit Festival em 2008 e garanto: é babado & confusão mesmo.

Aos amigos e leitores que já estão de malas prontas, uma dica: escrevi para a revista DOM deste mês (com o ator Júlio Rocha na capa) uma matéria de viagem sobre Barcelona, entregando o serviço completo para quem quiser aproveitar ao máximo a cidade. Está tudo lá, bem mastigadinho: hospedagem de vários tipos, restaurantes, compras, praias, baladas, pegação... Buen viaje, y que disfruten! Entre uma jogação e outra, você pode dar pinta cas culega no Parc Güell.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Viva a fé-dé-ração só-té-ró-pó-litana

A Lei de Murphy é mesmo implacável. Fazia quase um ano que minha audiência em Salvador estava para ser marcada. Poderia ter sido em qualquer um dos oito meses em que a cidade é puro sol, mas não: tinha que cair justo no auge do inverno, quando o tempo fica invariavelmente chuvoso. Já cheguei preparado para o pior, mas até tive um pouco de sorte. Entre um toró e outro, peguei algumas horinhas de praia e consegui ver um pôr-do-sol [foto acima] logo antes de voltar para o aeroporto.

Além de cumprir minha agenda de trabalho, matei a saudade dos amigos só-té-ró-pó-litanos e me atualizei sobre o que mudou na capital baiana de 2007 para cá. Nos dias nublados, as bees vão bater perna no novo Salvador Shopping (não fui conhecer; por fora, ele é todo bonitão e imponente). Antes da balada, o esquenta oficial é o bar Marquês, um charmoso casarão antigo na Barra, com detalhes em estilo art nouveau. Há poucas mesas e o povo toma seus drinks em pé mesmo, mais ou menos como no nosso Ritz, ao som de uns electros fofos e divertidos. A luz baixa e o clima bem informal favorecem os contatos com gente nova.

Depois, o destino ainda é o mesmo de sempre: a Off Club. Mas a boate sofreu uma maxi-reforma e ficou irreconhecível. O espaço físico da casa está bem melhor aproveitado. Agora a pista é só no térreo; o mezanino não tem mais aqueles cantinhos abusados onde a gente levava fio-terra e papanicolau. As cabines acolchoadas embutidas na parede ficaram ótimas. No sábado, o clube hiperlotou para ouvir um DJ novinho do Rio de Janeiro, de cujo nome não me recordo (só sei que ele dublava todas as músicas na cabine, tipo o Offer Nissim, mandava beijos e acenos, e marcava a virada das músicas com inusitados golpes de karatê). Um passarinho verde me contou que Salvador ganhará um novo clube gay dentro de 2 ou 3 meses.

Na barraca Marguerita, na Praia do Flamengo, os bofes continuam bons (e as tatuagens, cada vez mais medonhas). Encontrei um casal amigo de São Paulo e fomos jantar no classudo Trapiche Adelaide, o primeiro dos restaurantes bacanudos do Contorno, com aquela vista incrível da Baía de Todos os Santos. A comida estava apenas OK - só o carpaccio de polvo era realmente especial. Nem sempre as melhores refeições em Salvador são as mais caras: o melhor pudim de leite condensado do mundo, por exemplo, continua custando módicos R$2 na Cubana, ali no Elevador Lacerda. Também fui conhecer o novo La Lupa (de que falarei num post separado) e perdi a linha (como sempre!) na Doces Sonhos da Vitória. Morram comigo: duas camadas de pão-de-ló com uma camada de pudim de leite condensado no meio, cobertura de doce de leite condensado e morangos fatiados! Pena que o bolo sai de cena no dia 27, quando termina o Festival do Morango.

Com quatro visitas no currículo, ainda acho dificílimo entender o yakissoba viário que é Salvador, com suas avenidas sinuosas e idênticas (a Centenário é igual à Garibaldi, que é igual à Vasco da Gama, e por aí vai). Ao mesmo tempo, me sinto cada vez mais familiarizado com as pessoas e os lugares de que gosto. Vira e mexe, eu me pego pensando quando é que finalmente irei conhecer o Carnaval de lá. Por um lado, me atraem o alto astral e a possibilidade de beijar o maior número de morenos dourados que já vi na vida. Por outro, depois do desconforto da última Parada Gay de São Paulo, não sei se estou disposto a encarar grandes aglomerações de rua, sem conforto e segurança. Isso sem falar que a Parada de SP dura cinco horas - e o Carnaval baiano, cinco dias. Vamos ver o que eu decido até lá.

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Um espetáculo chamado Inhotim

As últimas duas semanas foram tomadas por viagens de trabalho e muita correria (daí a escassez de posts no blog). Meu primeiro compromisso foi no interior de Minas Gerais, mas dei um jeito de esticar até Belo Horizonte, e finalmente pude conferir uma incrível atração que tinha ficado de fora da minha visita em abril: o Inhotim.

Mais do que um simples museu, trata-se de um centro de arte contemporânea, instalado em uma reserva ambiental, na cidade de Brumadinho (a 1 hora de carro da capital). Espalhados pelo parque, dez pavilhões abrigam obras de diversos tipos, incluindo algumas instalações interativas, que despertam os sentidos e mostram que a criatividade do homem não tem limites. Como se não bastasse, o próprio projeto paisagístico do espaço é uma atração à parte. Dá para passar o dia ali, curtindo o visual do lugar, entre uma galeria e outra. Um belo restaurante, com bufê caprichado, dá o arremate em um programa simplesmente perfeito.

Saí de lá deslumbrado, sem entender como uma maravilha dessas não tem divulgação maciça no Brasil e no Exterior. Tenho certeza de que não existe no mundo nada parecido com o Inhotim - essa combinação entre arte, arquitetura e natureza é única. Recomendo a todos, sem restrições. Até o vídeo institucional do museu é bacana.

Terça-feira, Julho 14, 2009

Livres para continuarem presos

Há três meses, a DOM me convidou para desenvolver uma pauta diferente das colaborações que eu vinha fazendo para a revista. Em mês de parada gay (a matéria era para a edição de junho, aquela com o modelo negro na capa), a ideia era fazer uma reflexão sobre os diversos padrões de beleza que imperam no meio LGBT. Para isso, eu tinha que entrevistar gays, lésbicas e trans bem diferentes entre si (ou melhor, que compusessem um painel esteticamente heterogêneo) e ouvir o que era "bonito" para eles, como cada um lidava com a própria beleza e também o que valorizava nos outros.

Como o assunto era justamente a aparência, não bastava colher algumas aspas (declarações) anônimas dos entrevistados, como fiz na matéria sobre sexo pago: era fundamental que eles aparecessem na revista. Mas, para meu espanto e surpresa, foi dificílimo encontrar personagens para a matéria. Ninguém queria mostrar a cara. Amigos e conhecidos que sempre foram bem resolvidos, que haviam assumido a própria sexualidade para famílias e amigos sem maiores grilos, ficavam ruborizados diante do meu convite e gaguejavam até finalmente responderem... que não topavam. Mesmo quando eu explicava que a matéria não devassaria a intimidade, nem exporia gostos sexuais. O simples fato de aparecer em uma revista gay, ainda que ela fosse lida quase exclusivamente por outros gays, era demais para a cabeça dessas pessoas.

Algum tempo depois, no finalzinho de junho, recebo por e-mail o release de um novo site gay (sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar, e continuo não ouvindo), chamado Dolado. Vou guardar as impressões sobre o site para uma outra oportunidade (por enquanto, apenas adianto que levei uns 5 minutos para decifrar o nome: "do lado", entenderam?) e me ater ao que o release colocou como a razão de ser do novo produto. "Um site que pudessem acessar publicamente, sem expor sua sexualidade ou serem rotulados", "para atender ao público gay e aqueles que preferem ficar longe dos rótulos". Diz o slogan: "eu sou gay, eu sou sem rótulo, eu sou dolado". Longe de rótulos... ou dentro do armário mesmo?

Revelar ou camuflar a própria orientação sexual, total ou parcialmente, é uma escolha individual que deve ser respeitada; sou totalmente contra arrancar outras pessoas do armário em nome de um suposto "bem" à causa gay. Respeitei quem não quis colaborar com a minha reportagem, assim como quem precisa de um site que "fuja de rótulos". Mas essas coisas me mostraram que a naturalidade com que eu enxergo certas coisas é bem menos comum dentro do próprio meio do que eu imaginava.

Às vezes minha mãe discute comigo; ela me chama de ingênuo, diz que o mundo é perverso e eu não meço as conseqüências ao não me importar com a opinião dos outros da mesma maneira que ela. Ela acha que eu vivo numa bolha de tolerância e isso faz eu baixar a guarda mais do que deveria. Talvez ela esteja certa: quem circula em ambientes relaxados tende a se expor mais. Mas não sei se isso é necessariamente ruim - pelo menos para mim, a vida fica muito mais leve assim.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Meu sonho é continuar bem perto

Estávamos eu e alguns amigos batendo um papo solto, falando sobre ambições materiais, planos para o futuro, e o assunto acabou naquele jogo de "o que você faria se ganhasse bastante dinheiro". Todos se puseram a imaginar o endereço das suas casas ideais, e comparar as respostas. A minha teria que ser em uma entre cinco regiões: Moema, lado pássaros, de preferência na Inhambu, Pintassilgo, Tuim ou Pavão; Vila Mariana, entre o Instituto Biológico e o Metrô Ana Rosa; Paraíso, especialmente na Teixeira da Silva; o trecho da Alameda Franca entre a 9 de Julho e a Melo Alves; ou Sumaré, no finalzinho da Dr. Arnaldo, Rua Havaí, Bruxelas, Apinagés.

Todos esses são bairros bons para se morar. Mas eu poderia ter citado outros, alguns até mesmo mais caros, já que naquela brincadeira dinheiro não era problema: Higienópolis, Vila Nova Conceição, Jardim Europa, Pacaembu, Cidade Jardim, Butantã, Morumbi. O que havia influenciado minha escolha? Depois de pensar um pouco, percebi que todos os lugares que eu havia selecionado me eram mais do que familiares: eles tinham adquirido um significado pessoal na minha infância. Cresci andando com minha mãe por Moema, brincando em uma pracinha perto de casa. Meus avós maternos sempre moraram na Vila Mariana e minhas tias-avós, no Paraíso. A Alameda Franca era a rua dos meus avós paternos. No Sumaré ficavam a minha psicóloga e a casa de uma prima do meu pai, para onde eu ia logo depois da terapia.

Comecei a me perguntar se essa busca da memória afetiva era uma particularidade só minha, uma simples demonstração de apego ou saudosismo. Tenho amigos que já passaram por inúmeros endereços, em várias zonas da cidade, sem jamais olhar para trás. Por outro lado, eu, em 31 anos de vida, morei sempre no mesmo apartamento, olhando sempre pela mesma janela do mesmo quarto. Encaixotar coisas, só quando era inadiável pintar a casa. Minha experiência é bastante peculiar, mas, pensando melhor, o apego às raízes não é assim tão incomum, nem tem a ver com nascer em bairro nobre ou pobre. Já li entrevistas de gente humilde que ganhou dinheiro na televisão ou no futebol e, apesar de ter melhorado de vida, optou por comprar uma casa no mesmo bairro ou morro. No Rio, muitos suburbanos que ascendem migram para a Barra; em São Paulo, eles podem mudar para o Tatuapé, mas preferem não sair da Zona Leste.

Continuando o jogo do faz-de-conta, imaginei que, se eu fosse milionário mesmo, também compraria um apartamento no Rio, para usar como refúgio hedonista e garçonnière de verão. Minha escolha ali provavelmente ficaria com o Posto 6: Conselheiro Lafaiete, Rainha Elisabeth, Bulhões. Mesmo com possibilidade de trocar o povão de Copacabana pelo charme arborizado do Jardim Botânico, a fofura interiorana da Urca ou o "jeito Manoel Carlos de ser" do Leblon, acho que eu ficaria mais feliz tomando o mesmo café-da-manhã no supermercado Zona Sul da Francisco Sá e fazendo o mesmo caminho a pé até a praia. Não por acaso, foi no Posto 6 que moraram uns amigos cariocas muito queridos, e a casa deles foi, por muito tempo, minha referência e minha casa também.

Sábado, Julho 04, 2009

Guia Introspective da gastronomia econômica

A menos que você se contente com a praça de alimentação do shopping, comer fora pode custar um bom dinheiro. Os três lugares que os gays frequentam à exaustão (Spot, Ritz e Mestiço) não são exatamente baratos, assim como boa parte dos meus restaurantes favoritos (Due Cuochi, Carlota, Nam Thai, Sal Gastronomia, Mori). No entanto, a cena gastronômica de São Paulo é vasta e também tem boas opções para quem não quer gastar muito. Em tempos de vagas magras e orçamentos apertados, divido com vocês algumas sugestões mais econômicas do meu roteiro. São opções para todos os gostos e apetites, sempre com uma relação custo-benefício atraente. Aproveitem.

COMEDORIA [foto]. Com jeitão de "refeitório dos Jetsons", o modernoso restaurante do SESC Pinheiros é uma das opções mais bacanas para quem quer almoçar com alguma dignidade e gastar o mínimo possível. Você pode escolher entre o prato do dia, que já vem montado ("Fogão Cultural"), ou uma segunda opção ("Brasileirinho") em que se paga separadamente por cada item. Molhos cheios de bossa ajudam a fugir do trivial: o filé de frango ganha um toque de gengibre e mel ou laranja e curry, o pernil vem preparado com romã ou damasco, o peixe é servido com um creme de kani kama ou uva itália. Mesmo com saladas e sobremesas à parte, é difícil gastar mais do que 15 reais. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros.

ATHENAS CAFÉ. Com localização estratégica, bem na esquina do Espaço Unibanco de Cinema, esse despretensioso bar-restaurante vê sua clientela aumentar a cada noite. Quem fica só na cerveja não sabe que os pratos do cardápio saciam até mesmo os mais famintos - sobretudo os fartos grelhados, que vêm com três acompanhamentos, depois de uma salada também incluída. Os preços são camaradas: o frango athenas (iscas de frango marinadas em laranja e tomilho) custa apenas R$19. Para confirmar a temática grega do lugar, não poderia ficar de fora o típico moussaká (gratinado de berinjela, batata e carne moída, coberto com molho bechamel). Rua Augusta, 1.449, Cerqueira César/Consolação.

CENTRAL DAS ARTES. Um dos meus xodós na cidade, ocupa um gostoso sobrado modernista, com cadeiras e luminárias coloridas. A parede envidraçada mostra uma linda vista de Perdizes, emoldurada pelos prédios da Paulista no horizonte. O menu tem sanduíches, sopas e saladas, mas a especialidade são os crepes. Indico o rodin (mussarela, presunto, catupiry e maçã), o dijon (queijo derretido, cebola dourada e mostarda francesa) e o arpad (chocolates ao leite e branco, castanhas maceradas e sorvete de baunilha). Rua Apinagés, 1081, Sumaré.

CONSULADO MINEIRO. Velho conhecido de quem ferve na Praça Benedito Calixto nas tardes de sábado, é completamente gay friendly e serve culinária mineira caprichada, em porções generosas: dois pratos satisfazem 5 pessoas. Poucos se lembram que o Consulado tem um segundo endereço, a algumas quadras dali, onde a economia é ainda maior. A filial da Cônego prepara, no almoço de segunda à sexta-feira, um incrível bufê, com todas as especialidades da casa, por apenas R$18,90. É quase bom demais para ser verdade. Praça Benedito Calixto, 74; Rua Cônego Eugênio Leite, 504, Pinheiros.

CHARLES PIZZA GRILL. Paladares mais exigentes costumam encarar a palavra "rodízio" com um pé atrás. Afinal, nesses lugares, a quantidade da comida tende a ser mais importante do que a qualidade. O caso da pizza, símbolo maior da gastronomia paulistana, inspira desconfiança ainda maior. Mas esta casa surpreende, com redondas de excelente qualidade, que vão desfilando seguidamente - para cessar o bombardeio, gire o sinal da mesa até a posição vermelha. As fatias são pequenas, para que se possam provar vários sabores. Não perca a de shiitake, a de camarão com catupiry e do chef (molho de tomate, mussarela, catupiry, parmesão, rodelas de tomate e alho). Preços por pessoa: R$25,90 (2ª-5ª) e R$28,90 (6ª-dom.). Av. José Maria Whitaker, 1785, Planalto Paulista.

SUJINHO. Prestando bons serviços à boemia paulistana desde 1921, é endereço certo para quem quer consumir quantidades cavalares de carne, sem cair numa churrascaria. O horário elástico - até as 5 da manhã, todos os dias - é herança do tempo em que a casa era conhecida como "Bar das Putas" (alcunha que lhe confere um ar "cult"). O carro-chefe é a bisteca bovina (R$24), que tem nada menos do que 700 gramas (difícil conseguir comer sozinho). Para acompanhar, guarnições old school como salada de repolho, cebola, polenta, mandioca e batata frita. Leve dinheiro ou cheque: a casa não aceita cartões. Rua da Consolação, 2078, Consolação.

LA TARTINE. Vizinho de porta do concorrido Mestiço (que já foi bem mais barato, diga-se de passagem), esse bistrozinho é fofo até não mais poder: um dos lugares mais aconchegantes da cidade, perfeito para uma noite de inverno. O menu é curto, com sugestões leves da cozinha francesa, como saladas, sanduíches gratinados e quiches (a de queijo de cabra é imperdível). Além disso, há sempre dois pratos do dia, entre opções clássicas como coq au vin, boeuf bourgignonne ou filé com molho de pimenta verde. Com preços amigos e poucas mesas, o lugar está sempre cheio - mas a espera, no bar do andar de cima, é agradável. Rua Fernando de Albuquerque, 267, Consolação.

LA TRATTORIA. Bixiga? Que nada! Quando o assunto é cantina italiana - daquelas bem tradicionais, com massas e molhos de todos os tipos, a preços justos - meu destino é sempre Pinheiros, onde desde 1978 funciona o La Trattoria. Em ambiente simples, com toalhas vermelhas e pôsteres nas paredes, tem cardápio extenso, com ótimos pratos gratinados, que chegam fumegantes à mesa. No almoço executivo, os preços são ainda menores - o parmegiana com linguini salva qualquer dia chato de trabalho. Do outro lado da rua, há outra cantina também tradicional, a Nello's, que não me agrada tanto quando esta. Rua Antônio Bicudo, 58, Pinheiros.

GOPALA MADHAVA. Muitos anos antes que a Rede Globo mostrasse a Índia na novela das oito, o antigo Gopala Prasada atraía todos os dias uma pequena multidão, que fazia fila para comer seus PFs indianos vegetarianos. Com o sucesso, o restaurante foi expandido para uma casa vizinha, mas as sócias se desentenderam e seguiram caminhos diferentes. A primeira casa virou Gopala Madhava e sua cozinha se manteve bem mais fiel ao sabor original do que a segunda, Gopala Hari. De segunda a sábado, são duas opções fixas, com sopa, salada, prato, suco e sobremesa, a R$ 18 (sábados, R$22). Mesmo quem não é muito natureba consegue se virar bem com o cardápio, que pode ser consultado aqui. Rua Antônio Carlos, 413, Consolação.

UNI no MASP. No subsolo do Museu de Arte de São Paulo, encontra-se um dos almoços com melhor relação custo-benefício da Avenida Paulista. Já falei sobre ele no blog, aqui. No bufê, que custa R$24,20 por pessoa (sábados, R$26), uma variada mesa de saladas, além de pratos quentes como cordeiro com molho de hortelã, sobrecoxa de frango em crosta de aveia e peixe saint-pierre com creme de pimenta rosa. Para fechar os trabalhos, a mesa de doces tem bolo trufado, morangos com chantilly e suspiros, além de um delicioso brigadeirão. Av. Paulista, 1578, Bela Vista.

LA FARINA. Este restaurante tradicional é uma das poucas opções gastronômicas que se mantiveram seguras quando o Centrão entrou em decadência. O ambiente, com sofás de couro, seria vintage se não fosse todo original. O ar antiquado se mantém no cardápio, com pratos como o filé à cubana, servidos em grandes travessas de metal, com os acompanhamentos ao lado. A cozinha se sai bem em várias direções: na feijoada, no strogonoff e em massas como o rigatoni à pasticciata, recheado de queijo e gratinado com cogumelos frescos e secos. As porções são grandes, então dá para dividir e gastar menos. Rua Aurora, 610, Centro.

DEVASSA. A cervejaria repetiu em sua primeira filial paulista o mesmo sucesso das unidades do Rio de Janeiro, com "bombação" na happy hour e cardápio bastante versátil, que vai além da cozinha de botequim. Há coisa de um mês atrás, saiu no Guia da Folha que o bufê de feijoada, servido aos sábados, tinha caído de R$34 para R$25,50 - e ainda dava direito a um desconto de 50% para o acompanhante. Uma pechincha - será que continua valendo? Al. Lorena, 1040, Jardins.

LA BUCA ROMANA. No meio do caminho entre cantina e restaurante, é uma boa pedida quando cada pessoa do grupo tem apetite para um tipo de comida diferente. Além das massas, bons pratos de carne, peixe e frango (gosto do pollo maraviglia: peito gratinado com creme de cebola, maionese e parmesão, mais fettuccine quatro queijos). Animados com o bom retorno da participação na Restaurant Week, o La Buca tornou permanentes os menus econômicos feitos para o evento, que continuam saindo a R$25 (almoço) e R$39 (jantar). Fora deles, os pratos do cardápio normal já foram bem mais em conta, mas ainda são honestos. Rua Oscar Freire, 2.117, e Top Center (Av. Paulista, 854).

GOA. Restaurantes naturais são baratos, mas o ambiente bicho-grilo e a apresentação dos pratos não costumam ser atraentes. Este (que se chamava Gaia) é uma exceção: lugar descolado e pratos bonitos, com opções veganas para os mais ortodoxos. Há o menu do dia, com 3 opções de prato, mais entrada, suco e sobremesa, por R$20,90, e a "opção verão", com prato e suco, por R$14,90. Entre as sugestões que se revezam, a feijoada e o hambúrguer vegetariano são hits. Depois de comer, desça as escadas para o agradável jardim de inverno, faça de conta que está com a barriga cheia e descanse em uma das simpáticas redes disponíveis. Rua Cônego Eugênio Leite, 1152, Pinheiros.

PEPITTO. Arrumadinho, com direito à luz de velas, dá a impressão de ser mais caro e refinado do que de fato é. É um dos tentáculos da rede Don Pepe di Napoli, que tem várias casas espalhadas pela região, e tem o mesmo sotaque italiano de seus irmãos. O melhor é investir nas massas e nos polpettones. Sem grandes pretensões, é um bom lugar para um jantar a dois, quando não se pode gastar muito, especialmente num bairro caro como Moema. Al. dos Arapanés, 1307, Moema.

SINHÁ. A muvuca na porta após as 12h denuncia: tem coisa boa e barata ali. A decoração rústica, com parede de tijolos e fogão à lenha, remete a uma casa de fazenda - assim como a fartura do bufê, que tem base brasileira, com pitadas de sofisticação. Assim, ao lado do feijão tropeiro e do nhoque de mandioquinha, você pode encontrar um frango com molho de mostarda ou uma pescada com redução de tangerina e pimenta. Da grelha, sai um suculento bife ancho argentino, que vai bem com as batatas fritas, sempre no ponto, ou o risoto do dia. As sobremesas são matadoras, especialmente o pudim de leite condensado. Custa R$23 (2ª-6ª) e R$30 (fds). Rua Antônio Bicudo, 25, Pinheiros.

PILICO E BIA. Pagar barato para comer macarrão ao sugo é fácil; difícil é economizar quando se quer comer camarão. Milagres não existem, mas uma opção honesta é o Pilico e Bia - uma casinha acanhada, muito simples, com parede de azulejos, escondida numa travessa da Eusébio Matoso, perto do Shopping Eldorado. Eu mesmo só conheço porque trabalho ali perto. Os próprios donos tocam o negócio e fazem ótimos bobós e moquecas, que podem ser de camarão, lagosta, lula ou polvo, além de outros peixes e petiscos de mar. Rua Diogo Moreira, 296.

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Divã: reinventando a própria história

Não gosto de filmes com anões e elfos. Ou magos e bruxos. Ou galáxias distantes. Ou cachorros inteligentes. Ou machos-alfa que grunhem "uga buga" enquanto trocam tiros e sopapos e se esquivam de explosões, em seqüências de ação "cinematográficas". Ou desenhos animados que viram trilogias intermináveis. Eu gosto mesmo é de filmes que tratam de histórias humanas. Se eu puder me identificar com elas, então, melhor ainda. Por isso, adorei Divã, filme estrelado pela Lília Cabral - atriz que ganhou ainda mais o meu respeito, e passa a impressão de ser uma pessoa muito simpática na vida real.

Aí alguns podem dizer: "Putz, então você se identifica a história de uma balzaquiana que vê seu casamento degringolar, precisa dar um up na vida e vai fazer terapia?! Que coisa mais triste!" Que nada: Divã é um filme leve, "pra cima" e otimista. Tem momentos deliberadamente feitos para serem engraçados (a cena em que a protagonista Mercedes prova um baseado dentro do carro é antológica), mas o grande trunfo são as tiradas espirituosas do livro de Martha Medeiros, que ganharam mais força na tela. A adaptação foi muito fiel ao texto original, com pequenas atualizações. Em uma delas, por exemplo, Mercedes se joga num clube gay (aliás, só mesmo no cinema duas pessoas conseguem entrar juntas no banheiro da The Week sem que a segurança derrube a porta e faça um escândalo...)

O filme passa voando, da mesma forma que o livro, que você lê num só trago. É sempre inspirador ver histórias de gente que quebrou seus próprios paradigmas e ousou se reinventar, passando a viver uma vida mais solta e livre. A sociedade espera que as pessoas se aquietem depois de uma certa idade, mas nunca é tarde para repensar as escolhas, permitir-se experimentar outras coisas, outros parceiros, outras ondas. De certa forma, passei por algo parecido depois de ter sido atropelado, em 2006: aquele acidente em Copacabana foi o divisor de águas de uma vida nova, da qual o melhor exemplo é o curso de jornalismo que vou continuar fazendo ("você não vale nada, mas eu gosto de você!").

Terça-feira, Junho 30, 2009

A volta do pesadelo de Stonewall

Como muitos leitores gays deste blog devem saber, em 27 de junho de 1969 aconteceu em Nova York o episódio conhecido como Rebelião de Stonewall. Numa época em que a homossexualidade era clandestina, a polícia de Nova York vivia invadindo bares gays, sob o pretexto de checar a venda irregular de bebidas. Fregueses eram espancados, humilhados e até presos, enquanto o estabelecimento era extorquido. Naquela noite, a clientela do Stonewall Inn resolveu dar um basta, enfrentou os policiais, e a data entrou para a história, marcando simbolicamente o início da luta pelos direitos LGBT no mundo.

Quarenta anos depois, esse pesadelo é coisa do passado - pelo menos nos Estados Unidos, o país das liberdades individuais, certo? NOT!* No último fim de semana, justamente quando se comemorou o aniversário do lendário motim, a história se repetiu nos mínimos detalhes na terra do Tio Sam. Na madrugada de domingo, a polícia de Fort Worth, cidade que forma com Dallas uma grande área metropolitana no Texas, baixou no Rainbow Lounge, casa noturna que funcionava havia apenas uma semana. O motivo da blitz era combater a venda de bebidas para quem já estivesse "highly intoxicated". Mas a fiscalização seguiu métodos pouco ortodoxos.

Sem que tivessem esboçado qualquer tipo de resistência, os clientes foram insultados, brutalmente agredidos (um deles, Chad Gibson, está hospitalizado com traumatismo craniano) e vários foram levados em cana por conduta inapropriada. Testemunhas confirmam que as agressões eram injustificadas e dirigidas sobretudo aos clientes mais efeminados. A reação veio no próprio domingo. Cerca de 100 pessoas se reuniram no próprio bar, improvisaram faixas e cartazes e foram protestar em frente ao Fórum do Condado de Tarrant, cobrando satisfações das autoridades. A Polícia de Fort Worth soltou um comunicado à imprensa explicando que a operação visava a garantir a segurança de todos e prometendo apurar as acusações de abuso policial. A Human Rights Campaign, maior organização pró-direitos civis LGBT daquele país, já está acompanhando o caso.

Quem entende inglês pode ler textos aqui, aqui e aqui e ver os vídeos da CBS, CNN e do portal local DFW.com. Nenhum blog ou site em língua portuguesa noticiou o episódio até agora. Só estou a par de tudo porque tenho um grande amigo brasileiro que mora em Dallas. Como era de se esperar, todos por lá ficaram passados com a história - e mais ainda com a forma como as autoridades locais tentaram colocar panos quentes e abafar o caso. Esse é um filme que nós conhecemos muito bem...

(*) Esse não é um "NOT!" qualquer, é aquele "NOT!" sonoro que só ele sabe dizer.

Domingo, Junho 28, 2009

No dia do orgulho, nosso filho vem ao mundo!

Faz quase um mês que eu anunciei que iria escrever algo que chamei informalmente de "cartilha gay". Muitas têm sido as queixas contra a apatia generalizada que domina o nosso meio: alienado, egoísta, incapaz de fazer sua parte para que as conquistas sociais e políticas de que tanto precisamos efetivamente aconteçam. Essas críticas de fato procedem (embora elas não sejam aplicáveis somente aos gays, como eu já disse aqui), mas o simples fato de reclamar não basta e não resolve os problemas. Por isso, achei que não seria má ideia sugerir uma lista de atitudes viáveis e possíveis, para que a classe média gay - que é o público que lê meu blog, convive e se comunica comigo - se encorajasse a sair da inércia e percebesse que fazer algo pela causa LGBT não é tão chato e difícil como se pensa.

O entusiasmo com que minha iniciativa foi recebida mostrou que ela estava longe de ser redundante. Existem inúmeros grupos e ONGs atuando em diversas searas pelos nossos interesses, mas por algum motivo, eles não conseguem se comunicar com todos nós - seja pelo uso de fórmulas batidas e discursos pouco atraentes, seja pelo próprio desinteresse (ou mesmo preconceito) da classe média pelo seu trabalho. Nesse sentido, a "cartilha" serviria como um esforço paralelo, não competindo com a militância, mas somando forças com ela, tentando alcançar um público que ela não atinge. Afinal, o que importa é que mais pessoas se conscientizem de que os avanços tão sonhados são de responsabilidade de todos.

Eis que hoje, 28 de junho de 2009 - aniversário de 40 anos da Rebelião de Stonewall, pontapé inicial na luta pelos direitos LGBT em todo o mundo - a tal "cartilha" finalmente está no ar. Ela é o fruto de um trabalho conjunto, feito com muito carinho por mim e pelos demais blogueiros que abraçaram a ideia comigo: Cris, Gustavo, Isadora, Daniel e Jack. Foi um mês de dilemas, desafios e discussões, desde a escolha do visual [os dois logotipos finalistas ilustram este texto] até a maneira de abordar os temas mais sensíveis e polêmicos, que não poderiam deixar de ser tratados. Nesse período, aprendemos muito uns com os outros, não só pela experiência pessoal que cada um agregou à "cartilha", enriquecendo o produto final, mas pelo próprio fato de ter de pensar em grupo, conciliando ideias e vontades diversas, e colocando opiniões sem melindrar ou agredir os demais.

Ainda que nosso trabalho não tenha a pretensão de salvar o mundo ou catequizar as pessoas, temos a esperança de que ele causará um impacto social positivo em meio ao público a que ele se dirige. E isso nos enche de alegria e orgulho. Muitos alegam que a ideia de um "orgulho gay" é inadequada, porque não há razão para uma pessoa se orgulhar (ou se envergonhar) da própria orientação sexual. Concordo: ela é apenas um detalhe. Mas isso não significa que não tenhamos razões para estufar o peito. Gays ou não, temos que nos orgulhar daquilo que somos e também daquilo que fazemos pelas pessoas que nos cercam, ao cumprirmos nossa missão com honestidade. É exatamente essa a sensação que temos agora, ao dividir nosso trabalho com vocês. Confiram a "cartilha" aqui. E, se quiserem divulgá-la em suas páginas pessoais, os banners em três tamanhos estão aqui.

Sábado, Junho 27, 2009

Amores possíveis

Acabo de chegar de uma festa de casamento. Além da inevitável orgia gastronômica e da vergonha alheia na hora em que a galera coloca boás fosforecentes, antenas do Chapolim, chapelões ridículos e óculos escuros de "festa rave", e "bota pra quebrar" na pista, ao som de disco music do Amaury Jr. e poperô do Lasgo, essa experiência teve um gostinho especial. O noivo é filho de uma antiga vizinha nossa, que morou por muitos anos no mesmo prédio em que nasci e estou até hoje. Não éramos grudados como nossas mães, mas crescemos juntos, até que o apartamento ficou pequeno e eles foram embora.

Na festa também estavam vários outros caras que foram meus amigos de infância, gente com quem eu brinquei dos 7 aos 12 anos e até joguei futebol (!!!???), em uma época em que o playground era o mundo para mim. O reencontro foi doce. Depois de um rápido estranhamento inicial, logo quebramos o gelo e pude constatar que ainda havia um carinho recíproco, todos me queriam bem. Tinham crescido e eram homens feitos, com namoradas firmes a tiracolo, mergulhadas em vestidos cintilantes e enfeitadas pelas onipresentes chapinhas. Contei o que pude contar da minha vida, do atropelamento em Copacabana ao recomeço profissional, e também soube do rumo que cada um tinha tomado.

Por alguns instantes, pensei: como teria sido minha vida afetiva nos últimos dez anos, se eu fosse hétero como eles? Teria sido mais fácil para mim? Será que hoje eu seria mais feliz? Quais escolhas eu teria feito? Em geral, meus ex-coleguinhas estão mais bonitos do que eu poderia supor, sem dúvida estão "envelhecendo" muito bem. No entanto, nem todos ostentavam namoradas gatíssimas, lindíssimas, gostosérrimas - todas tinham seu brilho e suas imperfeições, e uma delas era indisfarçavelmente gordinha. Mas isso não parecia ter sido nenhum obstáculo para que ela e meu amigo se gostassem, se entendessem e decidissem selar a união - o casório está marcado para agosto próximo.

No fim das contas, concluí que, se eu não tivesse trocado a esfiha pelo kibe, provavelmente teria namorado muito mais do que namorei até hoje. Não por a sociedade ser preconceituosa e os gays terem que se esconder. Mas porque eu faria minhas escolhas afetivas com base em outros critérios, e talvez desse à aparência um peso muito menor - como o meu amigo que quer terminar seus dias ao lado da gordinha (que é gente boníssima). Como típico homem gay dos grandes centros urbanos, eu vivo perdido entre inúmeras idealizações, à espera do homem perfeito, que reúna todos os itens de um extenso checklist de predicados exteriores e interiores. Em meio a tantas exigências, ninguém é bom o bastante; a espera continua, e a vida passa. Se há alguém que precisa pular mais alto e agarrar o buquê da noiva com unhas e dentes, esse alguém definitivamente somos nós.

Terça-feira, Junho 23, 2009

A delícia de quebrar tabus e gozar como nunca

[Calma, queridos. Não vou fazer aqui nenhum post sórdido à la Uomini...] Já recomendei aqui a Papo de Homem, espécie de revista virtual dirigida a homens heterossexuais, mas que tem uma porção de textos que gays também podem achar bacanas. A maior parte do material é escrita por homens, mas alguns textos e colunas são assinados por mulheres. Semana passada, uma das colaboradoras escreveu um texto fantástico, em que dividiu com os leitores uma experiência sexual que para ela foi bastante intensa e libertadora. O que ela aprontou está resumido nesta frase: "Transei com dois amigos e rompi vários tabus ao mesmo tempo: transar com mais de um homem ao mesmo tempo, fazer sexo anal e DP [dupla penetração] e chorar durante o gozo".

O relato é mesmo inspirador: gostoso, corajoso, sem culpas ou amarras, como o bom sexo deve ser. A moça mostra total compreensão das regras e convenções sociais que estavam em jogo, mas pondera que confiava nos parceiros, não estava traindo ninguém e, afinal, teve a melhor experiência sexual de sua vida - o que só podia ser saudável e positivo, portanto. Mas vencer tabus nem sempre é tão fácil: há que se lidar com duas censuras, a própria e a dos outros. Enquanto vários dos comentários aplaudiam o texto, uma leitora jogou areia: "Por acaso vocês considerariam namorar uma garota depois disso? Muito bonito o discurso de liberação sexual, mas o mundo ainda não está preparado. Ainda existe muito machismo e preconceito sim! Não é só uma questão de pudores. O buraco é bem mais embaixo". Alguns leitores concordaram e teve quem chamasse a confidente de "vadia".

No meio gay, acontece a mesma coisa, só mudam as práticas. Para nós, ménage à trois não é nenhum crime: não é exatamente incomum ver três homens se pegando na pista da The Week, ou ouvir confidências de casais que levam um lanchinho para casa. Mas também temos nosso repertório de fantasias proibidas, desde a simples escolha de um parceiro bronco, rústico e que não é do nosso "nível" (o famoso "cafuçu"), até variados jogos de dominação e submissão, vestir lingeries e peças femininas, brincadeiras com urina, DP anal ou fisting. Muitos reprimem esses desejos, ou deixam para exercê-los com garotos de programa, de forma impune e livre de recriminações. Afinal, nosso mundinho é pequeno, as informações circulam rápido e o patrulhamento sobre a vida alheia é mesmo uma coisa. E o comentário da leitora - assumir certas posturas sexuais desqualifica você como possível namorado - também encontra eco por estas bandas (pois é, nós reproduzimos mais o moralismo heterossexual do que imaginamos).

Mas quem ousa pagar o preço de vencer os próprios pudores pode ter gloriosas recompensas: não só prazeres físicos inimagináveis, como também a chance de se conhecer melhor e descobrir muitas coisas novas sobre seu corpo, seu desejo e suas emoções. Sempre existe o risco de ser julgado, mas aprender a não depender da aprovação dos outros também é uma prova de maturidade. Poucos arrependimentos são piores do que reprimir um desejo na cama, por ter esperança de ver o cara novamente e medo de se queimar com ele e, mesmo assim, ele não te procurar mais e você perceber que desperdiçou sua chance. Como disse um leitor do post: "O negócio é buscar o prazer. Afinal de contas, não vamos sair dessa vida vivos mesmo".

Domingo, Junho 21, 2009

Não sabendo que era impossível, fomos lá e fizemos

Cheguei à Doceira Holandesa da Vieira de Carvalho na hora combinada para encontrar meus amigos, trinta minutos antes do início da manifestação. E não vi absolutamente ninguém. Já ia pensando nas palavras que despejaria no próximo post, dizendo que "o que essa bicharada merece é comer Doritos", quando começaram a chegar as primeiras pessoas. Tímidas, elas se encolhiam na porta da doceria ou do boteco vizinho, como se fossem clientes daqueles estabelecimentos, disfarçando a verdadeira razão de estarem ali.

Repórteres começaram a filmar e fotografar e, como ainda não havia quase ninguém, minha presença foi registrada várias vezes. Não pensei em fugir ou me esconder, mas confesso que me senti desconfortável, meio sem saber onde colocar a mão. Mais uma vez, entendi por que é preciso respeitar as pessoas que não se sentem atraídas ou dispostas para a militância. Não querer se expor é um direito delas e os patrulheiros mais radicais deveriam respeitar isso. Aliás, foi pensando nessas pessoas, que não se interessam pelo movimento mas também gostariam de ser úteis, que resolvi fazer a tal cartilha ("cartilha" é apenas um jeito informal de se referir a ela, já que a ideia não é ditar regras a ninguém), que irá ao ar nesta semana.

Em questão de quinze minutos, o número de pessoas se multiplicou. O povo foi chegando, vários amigos deram as caras, gente conhecida do meio também. Algumas lideranças assumiram o microfone (inclusive o Secretário de Justiça Luiz Antônio Marrey, enviado pelo governador), e gostei de ver que os discursos não faziam exaltação a vaidades pessoais, nem tentavam vender o peixe de grupos. Sempre fui contra esse cruzamento promíscuo entre militância e interesses partidários: acho que a militância deveria estar comprometida com as nossas demandas e interesses, e não servir de alavanca para capitalizar visibilidade e votos para esse ou aquele partido. E não sou o único que pensa assim: muitos ficaram incomodados quando membros de certos partidos tomaram a frente da passeata com suas grandes bandeiras vermelhas, tentando apropriar-se da iniciativa. Felizmente, outros perceberam a jogada e fizeram com que as faixas caseiras de pessoas comuns contra a homofobia assumissem a dianteira da marcha, que foi até o Arouche.

Sem outras manifestações de rua no currículo, eu não sabia bem o que esperar, mas fiquei satisfeito com o resultado. O ato conseguiu reunir umas boas 300 pessoas. Os organizadores falaram em 500, acho que não foram tantas assim, mas o número não é o mais importante. Quando aquela pequena massa humana começou a caminhar, soprar apitos e gritar "contra a homofobia, a luta é todo dia!", fui tomado por uma sensação gostosa de união, de identificação acima de todas diferenças, e por um sincero otimismo. Não foi nenhuma falsa afetação pós-Milk, superficial e passageira, mas sim a constatação de que não é tão difícil assim dar uma forcinha e mostrar um pouco de solidariedade por uma causa que deveria ser de todos nós.
[Gustavo, Cris, eu e Isa, autores da "cartilha" junto com Jack e Daniel]

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Diploma... que diferença?

O assunto da hora em algumas das rodas que eu freqüento é o fim da exigência de diploma para exercício da profissão de jornalista no Brasil, por conta de uma decisão proferida anteontem pelo Supremo Tribunal Federal, em Brasília. No Twitter, não se fala em outra coisa. Mesmo fora dessas rodas, vários amigos meus vieram me abordar no MSN, pra saber se eu estava muito puto (afinal, estou pagando meu curso, a duras penas, por quase três anos) e se eu iria largar a faculdade, já que "agora não precisa mais ter diploma mesmo".

Eu nunca achei que o curso de jornalismo fosse indispensável. Também não é o caso de dizer que "ele não serve para nada", o que seria um despautério, mas tenho plena consciência do motivo pelo qual fiz o curso: furar o cerco do protecionismo instalado no mercado, e conseguir meu lugar ao sol. Foi para isso que já gastei o valor de um carro novo (e continuo andando de ônibus). Não nasci sabendo: é óbvio que eu não poderia entrar em qualquer redação e sair arrasando, sem que me ensinassem nada. Existem, sim, conceitos, práticas e jargões do universo jornalístico com os quais pessoas de fora não são familiarizadas, e que precisam ser aprendidos. Mas imagino que, na prática, em seis meses de trabalho, eu já teria assimilado uma boa parte deles.

Verdade seja dita, a formação em jornalismo não é exatamente das mais sólidas. É um curso que, em três anos e meio (descontando a preparação do TCC), precisa aliar o tal arcabouço teórico e prático "de jornalismo mesmo" com uma formação humanística mínima. E o que dá tempo de ver é mínimo: borrifadas de cultura geral, respingos de antropologia e sociologia, pílulas de economia e política, e por aí vai. O resultado é uma formação bem mais superficial do que a de quem cursou, por exemplo, Direito ou Ciências Sociais. No fundo, o que o profissional vai saber mesmo é dos assuntos sobre os quais ele terá que escrever no veículo em que estiver trabalhando (ops, esqueci que emprego fixo é uma noção do século passado, foi mal aê). É na hora de colocar a mão na massa que ele vai passar a manjar de carros, investimentos ou, sei lá, plantas ornamentais. As lacunas, ele suprirá conforme a necessidade, lendo livros ou fazendo cursos pontuais e dirigidos. Afinal, a busca por informação, formação e atualização deve ser constante - como em qualquer outra profissão.

O que faz um bom jornalista, definitivamente, não é o curso de jornalismo. São os jornais, livros e revistas que ele leu, os filmes e peças de teatro que ele viu, as viagens que ele fez, as pessoas que ele conheceu. É a bagagem de vida que ele acumulou e a cultura geral que ele absorveu - por conta própria, desde cedo, não apenas a vinculada ao curso universitário. É esse estofo de conhecimentos, referências e informações que permitirá a ele entender o mundo em que vive, o lugar que ocupa nele e, de quebra, escrever para os outros com propriedade. Isso e, é claro, o dom da boa escrita - uma habilidade que algumas pessoas sem diploma possuem, enquanto outras diplomadas em jornalismo simplesmente não têm.

Isso não quer dizer, como eu já ressalvei no segundo parágrafo, que o curso de jornalismo seja de uma completa inutilidade. A formação básica é pobre? Sim, mas ela é apenas a porta de entrada para que cada um, seguindo seus interesses e curiosidades, escolha em que seara irá se aprofundar. Faculdade nenhuma é suficiente. Mas, acima disso, o que considero fundamental no curso é a oportunidade de reflexão. De pensar o jornalismo de forma crítica, de ver o que existe por trás da notícia, de descobrir as implicações e limites éticos da profissão - de aprender, enfim, que a atividade profissional do jornalista é imbuída de uma grande responsabilidade social e tem conseqüências. E trazer isso consigo em todas as escolhas pessoais futuras. Quem tem facilidade para escrever, tem um blog e tal, pode produzir textos redondos e até preencher algumas vagas com competência, mas não terá vivido, refletido e crescido com essas discussões, que acontecem dentro da faculdade.

No frigir dos ovos, não sei se o fim da obrigatoriedade do diploma vai mudar tanta coisa assim. O mercado de jornalismo está saturado, paga mal e não absorve toda a oferta (tanto que essa é uma das profissões mais largadas pelas pessoas, que precisam se virar fazendo outras coisas). Veículos que já empregam pessoas sem diploma terão mais tranqüilidade, ao saber que não precisarão mais escondê-las da fiscalização. Mas os peixes grandes da história - Abril, Folha, Estadão, Globo - provavelmente vão continuar usando esse filtro, entre outros tantos de que eles precisam lançar mão para escolher entre milhares de candidatos. Diploma pode não ser requisito, mas ainda servirá como diferencial, porque ele permite supor que você teve um mínimo de preparação (embora você precise provar, do mesmo jeito, que sabe escrever, é bem informado etc.). E outra: sem diploma, você dá a eles um pretexto a mais para oferecerem salários ainda mais baixos. Por essas e outras, vou desembolsar o valor de mais um carro, e resistir ao impulso de me atirar da ponte mais próxima.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Tempos bicudos

Depois do baixo astral do post anterior (que não foi exclusivo deste blog, a julgar pela ampla repercussão dos problemas da Parada, no mundo real e no virtual), eu pensei que poderia escrever algo com um tom mais alegre. Mas eis que fui surpreendido por notícias ainda mais tristes. Um dos vários homossexuais que foram atacados nas imediações da Parada Gay acaba de falecer, conforme divulgou a Santa Casa. Marcelo Campos Barros tinha 35 anos e sofreu traumatismo craniano após ser barbaramente linchado por um grupo de skinheads na rua Araújo.

O outro episódio felizmente não resultou em morte, mas foi ainda mais absurdo: não aconteceu na rua, mas dentro de uma casa noturna - onde, supostamente, todos nós estamos a salvo da barbárie e protegidos pela segurança do estabelecimento. Na madrugada desta segunda, Celso Neto, 44, estava no camarote da Cantho, no Largo do Arouche, quando foi cercado e espancado por outros cinco freqüentadores da boate. Levou cabeçadas no rosto, foi jogado no chão, chutado incontáveis vezes pelo corpo e na cabeça, perdeu quatro dentes e teve o nariz quebrado. Se os pontapés na cabeça tivessem sido mais sérios, ele provavelmente teria morrido ali mesmo, já que permaneceu no chão do clube por quarenta minutos sem receber qualquer tipo de assistência. Os agressores deixaram o recinto normalmente, sem que fossem incomodados. E a segurança da casa? Nada soube e nada viu. (E a casa não teve a pachorra de tirar dinheiro do bolso de Celso para quitar a comanda? Boicote neles!)

Os dois crimes aconteceram em circunstâncias diferentes, mas por motivos igualmente fúteis. Marcelo foi exterminado pelo simples fato de ser gay e andar na rua. Celso esbarrou sem querer em uma travesti, pediu desculpas a ela, mas isso não foi suficiente para evitar que fosse espancado pelos marginais que a acompanhavam. Tudo isso mostra o quanto estamos expostos à violência, mesmo dentro da redoma imaginária em que nos colocamos. Se, no segundo caso, existe um responsável fácil de identificar (o clube, que tem o dever de zelar pela integridade física dos clientes dentro de suas dependências), no primeiro a culpa se dilui: é o poder público que não dá conta de promover policiamento suficiente, são os grupos homofóbicos que semeiam o ódio e a intolerância, são os evangélicos que barram o PLC 122 no Congresso, é o "Brasil inteiro" que "está violento", e por aí vai. Estamos mesmo num mato sem cachorro. Só nos resta pedir ajuda ao anjo da guarda, ou talvez a São Sebastião.

Vale lembrar que há pelo menos outras três pessoas que permanecem internadas em estado grave depois de terem sido agredidas nas imediações da Parada. Mas o mais surreal de tudo foi ler, em um dos vários blogs que noticiaram essas desgraças, o comentário de um homem gay (!) que tentou minimizar a gravidade dos fatos, alegando que "estatisticamente, estes incidentes são insignificantes". Dá para acreditar numa coisa dessas? Não vou nem comentar.

Se, ao contrário do cavalheiro, você não acha que esses episódios são "insignificantes", mostre ao mundo sua opinião: apareça no protesto contra os ataques homofóbicos que a APOGLBT está organizando neste sábado (20/6), às 19h, na Praça da República. Não vivemos dizendo que a Parada perdeu o sentido político? Taí uma boa chance de tentar recuperá-lo.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Ainda bem que não temos só a Parada

Todo ano, quando os caminhões lavam a Avenida Paulista depois da Parada, varrendo os últimos vestígios de um feriado sempre alegre e intenso, anunciando o fim da temporada festiva e a volta ao mundo real, eu me vejo tomado por uma certa melancolia. Os turistas que visitam a cidade nos contagiam com sua euforia, seu deslumbramento, e nós, os donos da casa, acabamos ficando tão enfeitiçados quanto eles. É como se, por alguns dias, vivêssemos num universo paralelo, onde a confraternização acontece em cada esquina, a vida é cor-de-rosa, não existem problemas, todos querem conhecer gente nova, e aproveita-se cada minuto. Quando o oba-oba acaba, também ficamos meio jururus. Nós temos toda a estrutura de lazer de São Paulo ao nosso inteiro dispor o ano inteiro, mas ela fica menos divertida sem o frescor e o entusiasmo da turistada.

Desta vez, porém, minha experiência pessoal foi um pouco diferente. Por diversos motivos, neste ano não pude flanar pelas ruas e sentir essa vibração gostosa emanando da cidade. Também não mergulhei de cabeça nas festas, como de costume. Tive que reduzir muito o meu envolvimento com tudo e, se não aproveitei tanto, também não senti a tal melancolia do pós-tudo. Aliás, para mim foi um feriado que passou voando. Hoje, provavelmente estou bem mais inteiro do que os meus amigos. De qualquer forma, deixo aqui algumas impressões, satisfazendo a curiosidade dos que acessam este blog em busca de novidades.

Em relação às festas, a única que eu vi com meus próprios olhos foi a GiraSol, como já adiantei no post anterior. Voltei para casa bastante satisfeito, embora tenha achado que ela não repetiu a magia do ano passado (não tem jeito: por mais que se mantenha a mesma receita, cada edição acaba sendo única). Conversei com muita gente, para ter uma ideia geral das festas e saber o que eu estava perdendo. Não teve tempo ruim: todo mundo gostou de tudo, da decoração da Daslu à pegação do Pacha, passando pelas festas na The Week - especialmente o som de quarta e a jogação prolongada do sábado. Meu amigo Thales de Brasília comentou que, em relação aos outros anos, as festas estavam menos superlotadas e o povo estava bem mais bonito - o que me pareceu uma constatação bastante positiva. Mesmo com a tal crise (as produções foram mais modestas e os preços dos ingressos estiveram bem realistas), as festas rolaram superbem. E outros públicos também foram bem servidos: havia muito mais opções de festas para meninas e ursos do que nos anos anteriores.

Já a Parada em si... sempre fiz a maior campanha para as pessoas prestigiarem, mas está ficando cada vez mais difícil defendê-la. Sobre os diversos comentários elogiosos, como o do Tony, que exaltou o caráter inclusivo do evento, o espaço para "os excluídos do meio gay" tornarem-se os donos do pedaço por um dia e serem felizes, eu concordo com todos. Mas também não vejo nenhuma novidade neles. A Parada sempre foi democrática, esta é a sua essência, e isso nunca foi problema, pelo menos não para mim. Não sou desses elitistas que reclamam que "só dá gente feia e pobre"; eu mais do que simpatizo com a mistura entre diferentes tribos e classes, tanto é que continuo batendo cartão na Feira Cultural, um evento 110% periferia. De verdade, acho fantástico que todos, "incluídos" e "excluídos", tenham espaço e liberdade para ser o que quiserem e se divertir como bem entenderem, e penso que parte da beleza da Parada está justamente aí, na pluralidade. Mas não é essa a questão.

A questão é que a nossa Parada Gay deixou de ser nossa. Ao se tornar um evento de massa de proporções gigantescas, com o chamariz da sexualidade hiperexposta, ela foi invadida e apropriada por visitantes da pior qualidade. Não por serem héteros: ao invés de combater preconceito com preconceito, precisamos deixar os héteros se aproximarem de nós, se realmente queremos que eles nos aceitem. Mas por serem verdadeiros aborígenes selvagens. Gente que certamente não estava lá para nos apoiar, mas sim para protagonizar cenas dantescas de violência e vandalismo, estragando a festa e colocando em risco a segurança de todos. Escapei de confusões, brigas e furtos várias vezes. Vi pessoas chorando, sabe-se lá se tinham apanhado ou sido roubadas. Encontrei amigos em estado de choque, porque tinham visto um homem ser derrubado com uma marretada (!) na cabeça. E depois ainda soube dos espancamentos de gays nas redondezas e da bomba jogada na Vieira. De uns dois anos para cá, a Parada tem ficado cada vez longe da festa amistosa que já foi um dia. Não é à toa que cada vez mais gays deixam de comparecer. A barra pesou.

O pior é que esses intrusos roubaram o nosso evento e estão acabando com ele, mas quem vai pagar o pato somos nós. São os gays que sairão arranhados perante a sociedade, com a pecha de vândalos e baderneiros, reforçada por toda a imprensa leiga. Uma imagem piorada por algumas pessoas praticamente peladas, fazendo coisas que dificilmente fariam no meio da rua se não estivessem fora de si (mal pude acreditar em cenas que vi ao redor do MASP). Não sou falso moralista, não gosto menos de putaria do que todos os outros, mas não consigo achar que esse é o recado que temos que passar para o resto da sociedade. Politicamente, para quem ainda está tentando se fazer ouvir e respeitar, isso é um completo desastre - e um prato cheio para nossos inimigos.

Não estou fazendo campanha contra o evento, não. Aliás, não é nada cômodo para mim fazer estas críticas, quando o que se espera de mim é justamente o contrário. Eu adorava a Parada, sempre achei uma mobilização lindíssima, insisti nela o quanto pude, mas agora estou seriamente tentado a não dar as caras na Paulista no ano que vem. Se for para continuar assim, não tenho mais vontade de repetir a dose. Posso tranqüilamente ficar em casa, ou mesmo fazer qualquer outra coisa, porque hoje entendo que, se a Parada nasceu como um gesto político, existem mil outras maneiras de cumprir com nosso dever cívico, algumas delas bem melhores do que essa. Do jeito que está, reduzida a uma micareta de quinta categoria, perigosa e esvaziada de um sentido maior, a Parada não agrega nada de bom à causa LGBT, nem agora e nem para o futuro. E ainda pode render muita dor de cabeça.