quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Uma questão de tato

Uma das coisas que mais chamaram a minha atenção na minha última viagem aos Estados Unidos foi a falta de contato físico entre as pessoas. As pessoas se cumprimentam com distantes apertos de mão, isso quando não se limitam a um aceno com a cabeça. Beijos são reservados para pessoas muito íntimas (os de língua são horríveis, diga-se de passagem). Abraços, apenas quando se dá parabéns no aniversário, ou pêsames à viúva, e ainda assim estritamente protocolares. Num bar ou boate, a própria paquera se mantém dentro de limites: não se veem casais se beijando, abraçados ou mesmo de mãos dadas.

Concluí que eu era o destoante ali, pelo fato de ser brasileiro, supondo que nossa cultura era "latina", "passional", "caliente" e outras pérolas do senso comum. No entanto, já de volta ao Brasil, estou vivendo um choque cultural parecido, no curso que estou fazendo no Estadão. Somos 30 jovens jornalistas (a maioria entre 23 e 26 anos), de várias regiões do Brasil - metade do grupo veio de outros Estados do Sudeste, do Sul e do Nordeste, e há duas meninas de Brasília. Passamos oito horas por dia juntos, e a tendência é que o grupo se aproxime ainda mais, com a intensificação do ritmo de atividades e as viagens que foram programadas pelo curso. Estudamos, conversamos, almoçamos, rimos, eventualmente bebemos. Pois bem, já estamos nesse grude há quinze dias, e as pessoas ainda se cumprimentam com um "bom dia" dado de longe. Não há beijos ou apertos de mão, quem dirá abraços.

Não sei se outros colegas também estranharam isso. Talvez alguns tenham observado o comportamento contido do grupo e seguido o exemplo. Para mim, essa falta de contato é esquisita. Já me sinto à vontade com vários dos meus colegas, e tenho que ficar me policiando para não tocá-los. Sou um cara muito tátil. Sinto necessidade de expressar meu afeto e isso inclui buscar uma proximidade física, tanto com as garotas como com os rapazes. É natural para mim dar um abraço gostoso na hora de cumprimentar, ou mesmo para manifestar que minha convivência com determinada pessoa está sendo prazerosa, e que eu gosto dela.

Agora que comecei a reparar mais nisso, lembrei que já tinha amigos com quem também existia essa distância física. O mais curioso é que vários deles são pessoas com quem tenho muita intimidade, a ponto de dividir segredos e questões delicadas. Depois da terceira vez em que me dirigi a eles e recebi abraços frios, ossudos, sem aconchego, percebi que eles funcionavam de outra forma. Que gostavam de mim de verdade, mas não realizavam esse afeto no plano físico. Tive que me adaptar, mas às vezes ainda sofro um pouco. Sinto vontade de pegar neles, e com isso mostrar meu carinho, mas sei que nesse particular nós não falamos a mesma língua.

Talvez o ponto fora da curva seja mesmo eu. Parte disso vem da minha criação. Meu pai era um cara extremamente afetuoso, desses que acabam sendo a amálgama do grupo. Era ele quem agitava os encontros dos amigos da faculdade, uma turma que permanece unida até hoje. Tê-lo perdido cedo, com tanta coisa sem ter sido dita, me ensinou a não deixar passar as oportunidades de expressar meus sentimentos às pessoas de que eu gosto. Ainda assim, sou forçado a podar minha natureza para não me sentir inadequado. Afinal, não tem nada mais constrangedor do que não ser correspondido no abraço (como naquelas fotos famosas em que fãs da Britney Spears abraçavam a cantora e ela fazia cara de nojinho), ou mesmo se despedir de alguém ao telefone com "um beijo", e receber de volta "um abraço" ou mesmo um "até mais". Nessas horas, dá vontade de pedir desculpas e desaparecer. Ops, foi mal aê.

15 comentários:

Daniel disse...

Veja você que seus colegas de curso podem vir a ser seus colegas de trabalho. Eu trabalho no mesmo lugar há 2 anos e até hoje os cumprimentos são frios 'bom dia'.

deco disse...

Antes tarde...... Só agora passando por aqui para te desejar muito sucesso e sorte no seu curso no Estadão.Continuo acreditando que vc será bem sucedido tb como jornalista para deleite de todos que gostam de textos interessantes e bem escritos. Bjs

Fábio Carvalho disse...

Se vc estivesse por perto, te daria um mega abraço agora.
Mas por outro lado, me reconheci em seu texto, e fiquei pensando que talvez eu já o tenha deixado "no ar", sem a retribuição do afeto, se alguma vez você o fez.
Sei que já fiz isso muitas vezes, com muitas pessoas. Não sou contra o contato físico, muito pelo contrário! Eu o anseio. Mas por uma questão de história de vida (tive pais que não tocavam em seus filhos para demonstrar amor), eu não aprendi a lidar bem com isso. Por mais que eu deseje muito o afeto, o contato, eu não sei o que fazer quando isso acontece. fico duro, inápto mesmo. E depois MORRO de raiva de mim mesmo.
Me perdoa se já fiz isso com vc, e pode deixar, que uma vez que se tocou no assunto, agora ao menos com você não me sinto mais sem saber como lidar com afeto. E saiba que tenho muito carinho (e admiração) por você!
BEIJOS!
Fábio

Roberto disse...

A questão de contato físico é uma coisa muito complicada no ambiente de trabalho, o melhor mesmo nesse caso é a distância. Você deve ser amistoso mas sem ser pegajoso e beijoqueiro. Guarde beijos e abraços para o seu plano pessoal.

Thiago Lasco (Introspective) disse...

Roberto, mas estou me referindo ao plano pessoal mesmo, não profissional. Se vc se referiu ao Estadão, lembre-se de que não estou trabalhando ali, estou fazendo um curso e aquelas pessoas são minhas parceiras no curso.

Luciano disse...

Thiago,
Acho que é cultural, mas com uma alta dose pessoal. Eu, por exemplo, sou muito pouco físico - e minha família toda é assim. Por outro lado conheço famílias que vivem se beijando e abraçando.
Tive um choque cultural na minha primeira reunião de trabalho na Argentina. A fábrica da Sevel (eles fabricam a marca Peugeot) era velha e a sala de reuniões era formal e austera. Conforme os participantes foram chegando foram se cumprimentando com beijos e abraços, tanto os homens quanto a única mulher presente, de uma forma que me pareceu pessoal demais e que jamais se faria aqui. Fiquei levemente incomodado.
Muque de Peão

K. disse...

Dizem que é culpa do DNA japa, mas a minha japa mom AMA contato físico e eu ODEIO. Não suporto gente que vem encostando em mim... Dizem que meus abraços são manetas e que eu sou um muro.

Aliás, quando estive em San Francisco, achei o povo bem sinestésico! Mas NY é realmente uma coisa mais distante... Agora, SP e bem diferente do Rio, por exemplo. Em SP, meu comportamento é até bem comum. No Rio, acham meio exagerado.

Acho que o "tocar" não significa muito e nem define grau de familiaridade ou intimidade... =)

Douglas Mendez- O Homem é um ilha disse...

Eu já fui mais "tocativo", hj tb prefiro um contato mais formal. Acho que muito toque é pra amigos bem intimos.

Fernando disse...

Em Roma, como os romanos. Vale tanto para outras culturas como para empresas (que tem uma cultura própria sim).

Incrível que depois de morar na Alemanha eu criei um auto-tune para esse tipo de coisa, e hoje em dia se eu converso com um alemão eu acho que mantenho uns 30cm a mais de distância, baixo o tom de voz e (principalmente mulher!) jamais cumprimento com beijinho. Não é frieza, é só uma forma diferente de expressar carinho e intimidade.

:)

Beijos para o jornalista poderosão,
Fer.

Rafael disse...

Sou desses, como você, que não vê mal nenhum em terminar ligação com "beijo" e que sente essa necessidade de toque. Acho que vale se policiar, pois muita gente estranha esse comportamento, mas não vale reprimir. Enfim, um beijo.

Anônimo disse...

para mim é sempre difícil saber como me comportar nesse sentido. Lembro de uma vez em que marquei um primeiro encontro com um amigo da internet. Tínhamos um ótimo relacionamento até então, conversávamos de tudo, inclusive assuntos íntimos, sem contar que tínhamos atração um pelo outro. Foi um dia corrido e acabou que ele foi me buscar de carro. Eu entrei e o cumprimentei com um beijo no rosto, simples como o que dou nos meus irmãos. Ele não disse nada na hora mas senti que ficou desconfortável (um homem gay, dentro dum carro no meio do nada, sem ninguém por perto). À partir desse dia nossa relação mudou, mas ele fez questão de me dizer, tempos depois, na nossa última conversa pelo msn, que não gostou do cumprimento rssss triste...

Jhonne disse...

Você me fez lembrar da empresa que eu trabalhava, era tão mais humano e prazerozo trabalhar com pessoas que falam mais ou menos a mesma lingua que você.
Onde estou atualmente as pessoas, apesar a maioria de ter a mesma faixa etária que eu, são muito reservadas nas relações com outros colaboradores e vira e meche sinto que ultrapassei uma linha que não devia. Isso é horrivel! No entanto o salário e os benefícios são melhores então... É a vida!
Parabéns pelo texto! Sou seu fã de carteirinha. Irei a São Paulo em Novembro (sim, pro show da Britney) e ficaria muito feliz em conhece-lo.
Um forte abraço!

Rogério Leal disse...

Aceite um forte abraço de um bom baiano que aprendeu, desde sempre, a abraçar e dar beijinhos. Belo texto, as usual...

Lourival Lima Jr disse...

Lendo seu texto, comecei a pensar uma coisa: não seriam os gays mais afetuosos que os heteros?

Os gays não tem medo de abraçar, colocar a mão, tocar, pois, ao contrário dos heteros, não temos que ficar atento ao nosso comportamento para não parecer "gay demais".

Porém, tenho uma postura diferente no trabalho. Evito tocar meus colegas heteros e detesto que me toquem. Não, não contei no meu trabalho que sou gay, mas se me perguntarem, respondo na boa. Não podo minhas conversas com amigos ao celular, mas evito comentários sobre intimidades em horas desnecessárias. Evito maiores intimidades para evitar mal estar caso fiquem sabendo da minha homossexualidade. Já aconteceu fatos chatos onde um abraço transformou-se em bolinação.

O brasileiro é uma pessoa afetuosa, mas eu notei que em São Paulo as pessoas são mais frias que no interior (fui criado em São José dos Campos, logo ali do lado, ó).

No fundo, parece que os pessoas mais bonitas ou com melhor poder aquisitivo são as que mais detestam ser tocadas. Será por se acharem especiais, melhores que os outros? A melhoria do nível de vida em geral da população tornou a mesma mais arrogante? É a impressão que eu tenho. As pessoas tornam-se mais reservadas e seletivas e daí vem o fato de "podarem" sua afetividade.

Anônimo disse...

OTIMO TEXTO, DA PROXIMA VEZ QUE NOS ENCONTRARMOS VOU TE DAR UM ABRAÇAO, MESMO QUE VC NAO LEMBRE DE MIM.