sábado, 3 de março de 2007

O mundo secreto dos vapores encantados

Estou devendo aqui algumas anedotas da minha aventura solitária por Salvador e Recife. Tenho várias coisas pra dividir, mas minha nova vida de trabalho e faculdade não está me deixando muito tempo livre para sentar e escrever. A questão é que acabei de ler uma certa notícia num site GLS e percebi que esse era o gancho perfeito para eu falar do assunto de que vou tratar hoje.

Se todo recifense que se preza ama São Paulo e vive vindo pra cá (isso ainda será assunto de um post específico), a recíproca não é verdadeira: o paulistano médio sabe muito pouco sobre Recife - e o paulistano gay, menos ainda. Por isso, quando decidi conhecer Recife e saí atrás de dicas sobre o que fazer na cidade, acabei tendo que conversar com gente de tudo quanto era canto (pernambucanos, baianos, paraibanos...), pois meus conterrâneos não tinham como me ajudar.

E qual não foi a minha surpresa ao ouvir uma, duas, três, dez vezes, que o que eu não poderia deixar de conhecer era uma sauna - Termas Boa Vista, ou "TBV" para os íntimos. A surpresa não foi terem me indicado a sauna (não tenho nenhuma restrição moral em relação a saunas; acho muito mais digno você descarregar seus eflúvios hormonais num lugar seguro, discreto e feito para isso, do que queimar o filme de toda a comunidade gay fazendo pegação em banheiro de shopping center), mas sim a ênfase com que essa recomendação me foi dada. Era só falar de Recife e 100% dos meus "entrevistados" mencionavam imediatamente esse lugar. Diziam que eu não acreditaria nos meus olhos, que eu nunca tinha visto nada igual, que era a melhor coisa de Recife inteiro e eu não ia querer saber de mais nada. A TBV seria algo como "a The Week das saunas".

Claro que cheguei no casarão na Boa Vista com a expectativa lá em cima. E ainda assim, caí pra trás. Todos estavam certos: eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. Mais do que a The Week das saunas, a TBV era o Taj Mahal das saunas, a Disney World das saunas, uma verdadeira fortaleza da luxúria, digna de países de Primeiro Mundo e anos-luz à frente de suas concorrentes do eixo Rio-São Paulo. Precisei de uns vinte minutos pra conhecer tudo, e de outros trinta para superar a perplexidade e recolher meu queixo que estava caído no chão.

Logo na entrada, havia um lounge com móveis de vime e um home theater. À direita, os armários individuais e a escada para o piso de cima. Mais adiante, lavabos e mais armários e, à esquerda, alguns chuveiros e as saunas seca e a vapor. Até aí tudo bem, não fosse a atenção aos detalhes: materiais de primeira, louças caras, pias de mármore, essências aromáticas delicadas nas saunas, ambas com o tamanho e a luminosidade ideais... Nos lavabos, uma larga faixa de espelhos nas quatro paredes dava ao usuário a chance de se enxergar de corpo inteiro, em todos os ângulos e nos mínimos detalhes.

Mas isso era só o começo. Subindo as escadas e virando à esquerda, um corredor levava a uma ala de umas quinze cabines individuais - onde novamente os detalhes faziam toda a diferença. As cabines, em tom amarelo-pastel, tinham um colchão confortável, iluminação indireta com lâmpadas dicróicas, ar condicionado fresquinho, papel toalha e um asseio impressionante - todas limpíssimas e perfumadas com bom gosto. Algumas tinham até um civilizado olho mágico na porta, institucionalizando o voyeurismo. O mesmo corredor ainda levava a um cinema com três fileiras de poltronas e um labirinto escuro.

À direita das escadas, chegava-se a um bar bastante agradável, com muitas mesas e um palco para shows. O teto, basculante, abria para o céu estrelado da cidade. Atravessando o bar, havia ainda outra ala com mais quinze cabines limpíssimas, uma sala de TV, mais chuveiros, um restaurante (!) e uma escada que descia para um bucólico jardim de inverno, com chaises longues entre plantas, um cyber café de uso livre e uma sala de repouso. Tudo novo, tudo limpo, tudo lindo.

Claro que nada disso seria suficiente se a freqüência não agradasse. Mas a casa bombava, especialmente aos sábados e domingos, quando chegava bastante gente interessante. Dava de tudo, claro, mas era possível encontrar alguém que apetecesse sem ter que gastar o chinelo inteiro.

De repente reparei que, enquanto as toalhas da maioria dos caras eram brancas, as de alguns eram azuis. E esses caras de toalha azul tinham, invariavelmente, corpos es-cul-tu-rais, perfeitos mesmo, daqueles de caixinha de cueca. Aí fui ligando uma coisa à outra e me dei conta de que aqueles verdadeiros galãs eram, hã, "massagistas". Mais um ponto para a casa: ao invés de abordar os clientes da casa e oferecer seus serviços ostensivamente, eles se misturavam aos demais com naturalidade, sem constranger ninguém, sem deixar o clima pesado. E o mais importante: havia gente bonita o suficiente para que ninguém precisasse sequer se lembrar de que eles estavam lá, como mais uma opção de prazer.

O mais interessante é que, pelo fato da casa ser tão agradável, as pessoas não vão lá simplesmente para gozar e ir embora em seguida - em vez disso, encontram os amigos, ficam pelo bar, assistem aos shows (na linha dos da Blue Space), de repente dão uma voltinha pra aprontar, voltam pro bar, fazem uma sauninha para a pele... e com isso passam horas lá, como se estivessem num clube. Muito mais do que uma sauna de pegação, a TBV é um verdadeiro espaço de convivência social, onde muitos até abstraem a parte sexual e vão apenas para se divertir. E tudo isso por 17 reais, um preço mais do que honesto. Sem dúvida, um ponto alto na estada de qualquer viajante gay em Recife.

Enquanto isso, em São Paulo, a cidade mais poderosa do País, o centro financeiro e cultural onde tudo acontece e para onde toda a informação converge... as opções de saunas gays vão de mal a pior. Entre dezenas de estabelecimentos, as duas consideradas "melhorzinhas" não estão nem aos pés da TBV. A For Friends, alardeada pelos quatro cantos como a "número 1" da cidade, tem até uma estrutura razoável, mas não oferece cabines para os freqüentadores e há anos não investe um tostão em melhorias, deixando tudo com cara de gasto, de velho. E, por falar em velhos, a faixa etária média dos freqüentadores é tão alta que a casa deveria mudar de nome para Termas Cocoon.

Já a Labirinttu's, estrategicamente localizada na Rua Frei Caneca, se aproveita do intenso vaivém de gays pelas redondezas, mas é escura, imunda e deprimente - para fazer a pescaria e chegar às vias de fato, é preciso se espreitar por corredores escuros, úmidos, malcheirosos, e fazer tudo ali mesmo, ou nas três únicas cabines (igualmente escuras e sujas) que há. É como se os gays ainda vivessem há vinte anos atrás, quando a marginalidade os forçava a se enfiar em buracos decrépitos, fazendo sexo no escuro como se isso fosse algo errado, como se não pudessem encarar o que são. É por causa de casas como essa que ainda hoje uma parte substancial dos gays de SP tem uma idéia tão negativa das saunas, como se elas fossem apenas um antro de solidão e doenças. Idéia completamente derrubada por casas como a TBV, onde as pessoas se curtem, se gostam, exploram as diversas possibilidades que possuem - enfim, celebram o prazer de ser o que são.

E agora você me pergunta: e o gancho com a notícia de hoje ? A novidade é que, ao que parece, São Paulo vai finalmente ganhar uma sauna à altura do seu nível de excelência em tantos outros serviços. Pelo menos é o que sugere esta matéria do Mix Brasil. Com uma concorrência tão precária, espaço é o que não falta. Só espero que, na hora de estipular o valor da entrada, ela ache o delicado equilíbrio entre um preço baixo demais, que popularize além do desejável, e um preço alto demais, que limite a freqüência àquele povo nojento que só faz carão - prática que definitivamente não combina com sauna.

4 comentários:

Gui disse...

Hmmm....
continuo achando sauna um lugar esquisito, apesar de nunc ater ido.
Alias, so tem isso em Recife?

Anônimo disse...

Perfeito seu texto,com excessão do comentário sobre os "carudos"nas saunas:pelo menos em São Paulo,é nas saunas e na Blue Space que as carudas escondem os carões e mostram os bundões.

Anônimo disse...

a TBV realmente e incomparavel, achei tbm o lugar incrivel. alem dos frequentadores...
sao paulo e rio teriam muito pra aprender. a for friends e feia, decadente, cheio de mariconas (tal vez pelo preco alto). a labs e suja e cheia de demonios. a unica sauna que vale e a lagoa, super legal, mas e de "massagistas" mesmo, so. a TBV oferece essa vantagem de dar opcoes- transar com outros clientes ou com os boys da casa.
Em quanto essa nova sauna, se foi, alguem foi? to morrendo de curiosidade...

Anônimo disse...

Muito bom teu post, me identifiquei com ele e com o autor (vc, claro!!!) e fiquei ainda mais afim de ir a Recife! Recentemente estive em Fortaleza e tb percebi que lá as pessoas tratam do assunto com mais descontração e menos carão; fui na Dragon, que segundo muitos está entre as tops, se não for ela a sauna top brazuca! Tem todas as qualidades muito bem descritas por ti da TBV, mas como não conheço a de Recife, fica mesmo a curiosidade de conhecer e comparar!
Saudações,
Kaco_poa