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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Andando no vermelho

Ontem o Facebook, ágora dos nossos tempos, amanheceu enfeitado de vermelho. Muitos usuários colocaram nas fotos de seus perfis o lacinho de fita que simboliza o Dia Mundial da Luta contra a Aids, que se celebra em primeiro de dezembro. Não discuto a importância de uma data simbólica para trazer à tona um assunto que tanto se tenta varrer para baixo do tapete. Mas, se a ocasião é para balanços, tenho lá minhas dúvidas se estamos mesmo caminhando para frente, como gostaríamos de acreditar.

A primeira constatação que sou forçado a fazer é que, depois de anos andando na linha, a lição de casa da prevenção vem sendo cada vez mais negligenciada. O preservativo, que na década passada sempre aparecia com naturalidade, de uns tempos para cá passou a ser um acessório dispensável, mediante critérios pra lá de duvidosos. Hoje tenho muito mais trabalho para impor a camisinha aos meus parceiros do que quando comecei minha vida sexual. Muita gente foi baixando a guarda e relaxando. Só nos últimos cinco anos, quatro amigos meus se contaminaram. Todos na faixa dos 30 e poucos, já com uma boa bagagem de experiências, gente esclarecida e bem informada.

Antes de mais nada, quero frisar que acredito que o que um adulto faz com o próprio corpo é uma decisão individual, e o livre-arbítrio deve ser respeitado - inclusive para quem, após avaliar riscos, custos e benefícios, opta por aderir voluntariamente ao sexo sem proteção. Mas nenhum desses casos se inseria em tal contexto: eles não eram barebackers conscientes, que buscavam aproveitar a vida de forma livre e intensa e então assumiram seu desejo, mas pessoas que cometeram descuidos bobos ou incorreram em julgamentos equivocados. Mais ou menos como pensar que Fusca não atropela, só porque é redondinho e antigo.

Neste momento homofóbico que vivemos, nunca é demais lembrar que nada disso que descrevi no parágrafo anterior é privilégio dos gays. Um dos grupos mais expostos à soroconversão nos dias de hoje é justamente o das mulheres heterossexuais, "de família". Depois de anos casadas e fiéis ao mesmo homem, elas não veem necessidade de usar preservativo, e acabam contaminadas pelo próprio parceiro, que traz a doença para dentro de casa após uma pulada de cerca sem proteção. O que nos faz lembrar que a decisão de suprimir a camisinha em um relacionamento deve ser muito bem pensada. OK, você e seu parceiro se amam. Mas, e se para ele "amor e sexo são coisas bem diferentes"? Quantos não seguem essa cartilha?

Não ignoro que a evolução da medicina ampliou os horizontes dos pacientes com HIV, que hoje têm uma qualidade de vida que seria inimaginável 15 anos atrás. Depois de um começo assustador, meus amigos estão com uma aparência ótima e vivem uma vida feliz, com boas perspectivas e poucas limitações - alguns conseguiram até zerar a carga viral. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Se o estigma contra os soropositivos é uma crueldade que deve ser combatida, encarar o vírus como uma mera doença crônica é um grande erro, e pode custar caro. Vale dizer que as chances de ter um tratamento eficaz e não desenvolver a doença são muito maiores quando o HIV é detectado cedo - daí a importância de refazer os exames periodicamente. Não precisa ser gay nem promíscuo, basta ter vida sexual ativa. Vamos nos cuidar, povo!

Neste domingo (5/12), os fofíssimos SP Gay Bikers estão promovendo, junto com a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo, o 1º PASSEIO DO DIA MUNDIAL DE COMBATE À AIDS, no Centro da cidade, em pleno Minhocão. Como o evento é democrático, haverá um trajeto maior para os ciclistas e outro, menor, que também poderá ser percorrido por cadeirantes e pedestres. A saída está programada para as 15h, e quem não tiver bike pode alugar uma. É mais uma maneira saudável e divertida de expressar nossa cidadania.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os capitães do bacanal


Ninguém mais agüenta ouvir falar no caso Eliza Samudio & Bruno Fernandes, o "pão e circo" policial de 2010, que ocupa todos os noticiários para preencher a lacuna deixada pelo fim da novela da garotinha arremessada do sexto andar. O produto mais interessante dessa história não foi a atuação histriônica de Ércio Quaresma, o advogado de defesa que confunde Contagem com Hollywood, mas sim uma reportagem que o Fantástico exibiu [vídeo acima], há cerca de duas semanas. Como Bruno disse que conheceu Eliza em uma suruba, a Rede Globo foi atrás da história e descobriu a América: essas festinhas são mais comuns entre os jogadores de futebol do que se pensa.

A reportagem carregou no tom de julgamento moral, sob medida para o telespectador conservador de classe média. Zeca Camargo franziu a sobrancelha ao falar a palavra "orrrrgia", enquanto Patrícia Poeta sentenciou que se tratava de um "submundo de sexo sem limite e drogas", com a fisionomia dramática de quem faz uma seriíssima denúncia. A narração em off continuou a descrição do que seria "uma rede de silêncio e mistério", enquanto prostitutas e agenciadores explicaram como se desenrolam as picantes reuniões, dando os detalhes sórdidos que fizeram a alegria da audiência. Mesmo já tendo participado de filmes eróticos, uma entrevistada disse que se sentiu "suja de estar ali", referindo-se à experiência de ter sido convidada para uma dessas festas.

Vejam só que engraçado: os promíscuos da sociedade, os adeptos de perversões sexuais, os disseminadores de doenças venéreas, as ameaças ao sagrado paradigma da família brasileira... não eram nós, os homossexuais? Sempre foi em nossa direção que se apontaram os dedos. Vivemos um patrulhamento constante, que reverbera inclusive dentro do nosso próprio meio. Quando um blogueiro como Uomini ousa assumir seus desejos e experiências sexuais com franqueza, sem o pudor do politicamente correto, chovem comentários recalcados, apedrejando-o como o mau exemplo que denigre toda a classe LGBTT [já escrevi sobre isso neste post]. Cobram dos gays que se encaixem na moral dominante, que sejam os melhores exemplos de recato e honradez - para que, quem sabe, contando com a boa vontade alheia, eles sejam merecedores da benevolência e da aceitação social.

A verdade, escancarada pela matéria do Fantástico, é que os homens héteros não são diferentes de nós, ou moralmente superiores. Nem mais, nem menos: são iguaizinhos. Podem até adotar uma postura social irrepreensível, porque têm o imperativo da família para castrá-los, mas isso não significa que possuam menos instintos ou vontades. Muitas vezes, reprimem esses desejos, ou então os exercem na surdina - e, nisso, não são "melhores" do que nós, apenas mais hipócritas. No meio gay tudo é mais escancarado, porque já nos acostumamos a estar à margem e temos um estilo de vida mais livre, mas isso não quer dizer que os héteros não aprontem as mesmas coisas. Das esquinas freqüentadas por travestis aos puteiros chiques do Campo Belo, as histórias se repetem. Perguntado pela reportagem sobre as tais surubas no futebol, o ex-jogador e atual técnico do Bahia, Renato Gaúcho, foi taxativo: "Todo clube tem, é inevitável".

Ter fantasias sexuais turbinadas, querer se lambuzar num mar de corpos, saliências e extremidades, isso é da natureza do homem, seja ele hétero ou gay. O que não quer dizer que ele não seja capaz de se envolver afetivamente e praticar a monogamia, como uma escolha, uma decisão consciente. Ou que todos os homens tenham desejos libertinos insaciáveis: a libido e o tesão são fruto da combinação de uma variedade de fatores físicos, psíquicos, sociais e culturais que se manifestam de forma diferente em cada indivíduo, e também oscilam com o tempo. Agora, mais uma vez, nada disso tem a ver com orientação sexual. Há homens gays e héteros rodadíssimos, assim como há homens gays e héteros bastante recatados.

Mas a sociedade é implacável nos seus julgamentos, e adora dar seu pitaco sobre o que é certo e errado na vida privada das pessoas, ferindo o livre-arbítrio de cada um. No caso do ex-goleiro do Flamengo (que, colocado em outro contexto, é um cafuçu altamente umidificante, #prontofalei), não será surpresa se, antes de ser julgado pelo envolvimento (ou não) na morte da maria-chuteira, ele já for condenado porque curte uma boa bacalhoada. No mínimo, isso já será encarado pelos bastiões da moral e dos bons costumes como um mau antecedente, capaz de pesar negativamente na avaliação do delito em discussão.

terça-feira, 23 de junho de 2009

A delícia de quebrar tabus e gozar como nunca

[Calma, queridos. Não vou fazer aqui nenhum post sórdido à la Uomini...] Já recomendei aqui a Papo de Homem, espécie de revista virtual dirigida a homens heterossexuais, mas que tem uma porção de textos que gays também podem achar bacanas. A maior parte do material é escrita por homens, mas alguns textos e colunas são assinados por mulheres. Semana passada, uma das colaboradoras escreveu um texto fantástico, em que dividiu com os leitores uma experiência sexual que para ela foi bastante intensa e libertadora. O que ela aprontou está resumido nesta frase: "Transei com dois amigos e rompi vários tabus ao mesmo tempo: transar com mais de um homem ao mesmo tempo, fazer sexo anal e DP [dupla penetração] e chorar durante o gozo".

O relato é mesmo inspirador: gostoso, corajoso, sem culpas ou amarras, como o bom sexo deve ser. A moça mostra total compreensão das regras e convenções sociais que estavam em jogo, mas pondera que confiava nos parceiros, não estava traindo ninguém e, afinal, teve a melhor experiência sexual de sua vida - o que só podia ser saudável e positivo, portanto. Mas vencer tabus nem sempre é tão fácil: há que se lidar com duas censuras, a própria e a dos outros. Enquanto vários dos comentários aplaudiam o texto, uma leitora jogou areia: "Por acaso vocês considerariam namorar uma garota depois disso? Muito bonito o discurso de liberação sexual, mas o mundo ainda não está preparado. Ainda existe muito machismo e preconceito sim! Não é só uma questão de pudores. O buraco é bem mais embaixo". Alguns leitores concordaram e teve quem chamasse a confidente de "vadia".

No meio gay, acontece a mesma coisa, só mudam as práticas. Para nós, ménage à trois não é nenhum crime: não é exatamente incomum ver três homens se pegando na pista da The Week, ou ouvir confidências de casais que levam um lanchinho para casa. Mas também temos nosso repertório de fantasias proibidas, desde a simples escolha de um parceiro bronco, rústico e que não é do nosso "nível" (o famoso "cafuçu"), até variados jogos de dominação e submissão, vestir lingeries e peças femininas, brincadeiras com urina, DP anal ou fisting. Muitos reprimem esses desejos, ou deixam para exercê-los com garotos de programa, de forma impune e livre de recriminações. Afinal, nosso mundinho é pequeno, as informações circulam rápido e o patrulhamento sobre a vida alheia é mesmo uma coisa. E o comentário da leitora - assumir certas posturas sexuais desqualifica você como possível namorado - também encontra eco por estas bandas (pois é, nós reproduzimos mais o moralismo heterossexual do que imaginamos).

Mas quem ousa pagar o preço de vencer os próprios pudores pode ter gloriosas recompensas: não só prazeres físicos inimagináveis, como também a chance de se conhecer melhor e descobrir muitas coisas novas sobre seu corpo, seu desejo e suas emoções. Sempre existe o risco de ser julgado, mas aprender a não depender da aprovação dos outros também é uma prova de maturidade. Poucos arrependimentos são piores do que reprimir um desejo na cama, por ter esperança de ver o cara novamente e medo de se queimar com ele e, mesmo assim, ele não te procurar mais e você perceber que desperdiçou sua chance. Como disse um leitor do post: "O negócio é buscar o prazer. Afinal de contas, não vamos sair dessa vida vivos mesmo".

domingo, 31 de agosto de 2008

Lab.oratory, a fantástica fábrica do sexo

Berlim é uma cidade cheia de surpresas também quando o assunto é pegação. Ao espírito já naturalmente permissivo e desencanado da cidade, soma-se um notável interesse por sexo - que não é, nem de longe, exclusivo dos gays. Nunca esquecerei de uma sex shop gigantesca, numa transversal da Kurfürstendamm, que mais parecia um hipermercado, onde loirinhas de bochechas rosadas e casais héteros de meia-idade manuseavam com a maior naturalidade bugingangas nada angelicais - incluindo um filme em que um homem sodomizava uma mulher completamente enterrada (para fora da terra, apenas o traseiro dela e um tubo na altura da cabeça, por onde ela respirava). Não existem limites em Berlim, desde que as partes envolvidas estejam em consenso e não tentem podar a liberdade dos outros.

No meio gay, como em outras capitais européias, uma rede de cruising bars e afins proporciona festas dedicadas a todos os tipos de fetiche: couro, fardas, borracha/látex, underwear, barbudos, skinheads, sado-masoquismo, watersports, lama (!), fisting... Tamanha segmentação facilita que adeptos de práticas mais extremas encontrem parceiros, mas também pode tornar a noite um tanto monótona e repetitiva, especialmente para quem tem gostos ecléticos na cama. Estar em um ambiente onde todos os tipos são bem-vindos e todos os fetiches são permitidos abre muito mais possibilidades - inclusive de que a noite fuja do script habitual e tome rumos nunca antes imaginados.

De todos os lugares que compõem o roteiro do sexo em Berlim, o mais espetacular, com toda a certeza, é o Lab.oratory. O fervo ocupa uma parte da antiga usina que também abriga o clube Berghain-Panorama - com entrada separada, pela lateral do prédio. Para ter uma dimensão do bafo, é só imaginar uma grande fábrica transformada em um verdadeiro playground do sexo, onde homens bem-resolvidos, fogosos e dispostos chegam para brincar de jogos adultos - mas se soltam como crianças. Seria um sonho, se não fosse realidade.

Na entrada, os clientes recebem grandes sacos plásticos azuis, para que possam se livrar de tudo aquilo de que não forem precisar para se divertir: roupas, documentos, dinheiro, preocupações e inibições. A menos que a noite tenha dress code específico (underwear, couro, nudez obrigatória etc.), cada um pode ficar como se sentir mais à vontade - de calça, de cueca ou até mesmo com uma fantasia de Mulher-Gato, se for o caso. Guardados os pertences, os convivas têm o número do saco plástico escrito no ombro com canetinha e é nisso que se transformam: em meros corpos numerados. Deixam para trás roupas, nacionalidades e rótulos; voltam às suas raízes naturais, machos soltos e libertos, livres para serem e fazerem o que quiserem, assumirem a(s) identidade(s) que desejarem... da porta para dentro, estão protegidos em um mundo à parte. Um grande parque de diversões.

No centro da usina, um grande bar calibra os ânimos e ajuda as pessoas a se conhecerem. O clima é bastante descontraído; quem ficasse por ali e não conhecesse o resto se sentiria em um simples bar "temático" com decoração industrial. A iluminação é bem distribuída para que o espaço não fique claro nem escuro demais. O ambiente é preenchido por uma mistura dark e quase sem vocais de house e progressive house que é altamente sexual; seria perfeita para dançar a noite inteira, se não fosse ainda melhor para deixar os instintos aflorarem e sucumbir à libido. Se existe algo como "música para foder", taí o melhor exemplo. O som bem escolhido tem um papel fundamental para criar o clima de luxúria do Lab.oratory.

Depois de molhar a goela no bar e fazer os primeiros contatos, é hora de dar uma volta e explorar as diversas possibilidades da usina. Há salas, tocas, corredores, mezaninos, cantos e recantos de todos os tipos, alguns mais expostos e outros mais reservados, onde duplas, trios e grupinhos se formam e se desmancham espontaneamente o tempo todo. Tudo com a maior civilidade: "com licença", "desculpe", "quer brincar um pouco conosco?", "isso, segure bem a perna dele", "ei, você curte ___?" [preencha como quiser]. Cada um respeitando as preferências e o espaço do outro, dos dominadores mais severos aos mais tranqüilos voyeurs. Poderia ser um ambiente pesado, mas na verdade é surpreendentemente leve.

Um corredor leva a uma espécie de jardim de inverno, onde é possível tomar um pouco de ar fresco, ver as estrelas - ou continuar a brincadeira ali mesmo. Um belo moreno se refestela dentro de uma banheira, enquanto vários outros fazem fila para urinar nele. O sujeito parece extasiado, enquanto toma goles generosos e deixa que os jatos o ensopem inteiro (ele preferiu ficar vestido, talvez para continuar curtindo o cheiro na roupa depois). A cena toda é quase infantil, parece uma brincadeira de moleques felizes. Todo mundo é feliz ali. Especialmente quem gosta de chupar: numa espécie de estábulo de ferro dividido por uma parede, dezenas de falos despontam lado a lado em glory holes. Não é preciso nem se curvar, pois quem oferece o bilau está num plano três degraus mais elevado, justamente para tudo ficar na altura certa. Ou seja, a tal fábrica foi inteira adaptada para o prazer.

Para quem quiser conferir, é importante consultar no site o calendário com a programação - às vezes, o tema da festa pode não ser do seu agrado (se eu tivesse, desavisadamente, ido conhecer o lugar na noite seguinte, teria literalmente dado merda no meu passeio, se é que vocês me entendem...) Para não errar, a dica é apostar nas sextas-feiras, que têm temática neutra (o que não impede você de se jogar na sua "prática sexual específica" favorita) e funcionam em sistema de double drink (o que você pede no bar vem em dobro), o que sempre garante uma boa lotação. E fique esperto: embora o bafo vá até 5 ou 6 da manhã, a entrada só é permitida até meia-noite. A idéia é fazer todo mundo chegar ao mesmo tempo e cedo, para o lugar já bombar logo de uma vez. Até na hora da pegação esse povo é inteligente...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Adeus, cavalgadas heróicas

Saiu no blog do Junior (não confundir com a nova revista Junior, que eu só vou criticar aqui depois que sair o número 2) uma entrevista com o ator pornô François Sagat, uma das estrelas do estúdio Titan, especializado em caras fortões e rústicos. Como de uns tempos pra cá meu olhar tem estado mais focado nos cafuçus brasileiros, tive que ler um post do Carioca Virtual para saber quem era esse francês. Moreno, saradão, cara de poucos amigos, Sagat é o tipo de homem que eu adoraria que fosse consertar a TV a cabo ou trocar a resistência do chuveiro lá de casa.

Na entrevista, o galã falou sobre sua carreira, desde o começo na indústria pornô até os trabalhos pontuais no mundo da moda. E aproveitou para destruir todas as fantasias dos fãs de filmes eróticos. Perguntado se ele se deixava levar pelo tesão durante as filmagens, François respondeu: "Nunca houve um parceiro que me atraísse 100%. A escolha do parceiro é muito difícil, varia conforme a disponibilidade, a nacionalidade, a orientação sexual e para quem a pessoa trabalha. Sem falar da pressão em torno de você. Não dá para se deixar levar, entende? É um trabalho de verdade, uma verdadeira composição. Nós somos cortados a cada 5 minutos. Não tem prazer, não tem tesão. Muito fatores influenciam: as mudanças na luz, o tempo filmando, a alquimia entre os modelos, o cansaço, a ereção que deve ser mantida. Posso te garantir que é bem difícil. Não há tempo para se divertir, muito menos para 'se empolgar'. E ainda tenho que me levantar super cedo."

Em suma: todo aquele universo de transas tórridas, com corpos suados que se encaixavam perfeitamente e fodiam em sintonia, penetrações macias, cadenciadas e indolores, completamente dominadas pelo tesão, cavalgadas heróicas, gemidos alucinantes e caras sublimes de êxtase, que me faziam acreditar que havia mesmo um sexo melhor e infalível, para o qual era possível se aperfeiçoar... tudo isso, de repente, se esfarelou. Era tudo mentira, Alice! Depois de descobrir que o DJ não tem nenhuma importância, perdi mais uma ilusão dentro do universo gay. Só falta agora eu descobrir que aqueles corpos saradíssimos que enchem meus olhos em Ipanema não são fruto de "genética" e "disciplina" como seus donos sempre me dizem...

[Foto: François Sagat ilustrando o flyer de uma White Party na Suíça]

sábado, 3 de março de 2007

O mundo secreto dos vapores encantados

Estou devendo aqui algumas anedotas da minha aventura solitária por Salvador e Recife. Tenho várias coisas pra dividir, mas minha nova vida de trabalho e faculdade não está me deixando muito tempo livre para sentar e escrever. A questão é que acabei de ler uma certa notícia num site GLS e percebi que esse era o gancho perfeito para eu falar do assunto de que vou tratar hoje.

Se todo recifense que se preza ama São Paulo e vive vindo pra cá (isso ainda será assunto de um post específico), a recíproca não é verdadeira: o paulistano médio sabe muito pouco sobre Recife - e o paulistano gay, menos ainda. Por isso, quando decidi conhecer Recife e saí atrás de dicas sobre o que fazer na cidade, acabei tendo que conversar com gente de tudo quanto era canto (pernambucanos, baianos, paraibanos...), pois meus conterrâneos não tinham como me ajudar.

E qual não foi a minha surpresa ao ouvir uma, duas, três, dez vezes, que o que eu não poderia deixar de conhecer era uma sauna - Termas Boa Vista, ou "TBV" para os íntimos. A surpresa não foi terem me indicado a sauna (não tenho nenhuma restrição moral em relação a saunas; acho muito mais digno você descarregar seus eflúvios hormonais num lugar seguro, discreto e feito para isso, do que queimar o filme de toda a comunidade gay fazendo pegação em banheiro de shopping center), mas sim a ênfase com que essa recomendação me foi dada. Era só falar de Recife e 100% dos meus "entrevistados" mencionavam imediatamente esse lugar. Diziam que eu não acreditaria nos meus olhos, que eu nunca tinha visto nada igual, que era a melhor coisa de Recife inteiro e eu não ia querer saber de mais nada. A TBV seria algo como "a The Week das saunas".

Claro que cheguei no casarão na Boa Vista com a expectativa lá em cima. E ainda assim, caí pra trás. Todos estavam certos: eu nunca havia visto nada parecido com aquilo. Mais do que a The Week das saunas, a TBV era o Taj Mahal das saunas, a Disney World das saunas, uma verdadeira fortaleza da luxúria, digna de países de Primeiro Mundo e anos-luz à frente de suas concorrentes do eixo Rio-São Paulo. Precisei de uns vinte minutos pra conhecer tudo, e de outros trinta para superar a perplexidade e recolher meu queixo que estava caído no chão.

Logo na entrada, havia um lounge com móveis de vime e um home theater. À direita, os armários individuais e a escada para o piso de cima. Mais adiante, lavabos e mais armários e, à esquerda, alguns chuveiros e as saunas seca e a vapor. Até aí tudo bem, não fosse a atenção aos detalhes: materiais de primeira, louças caras, pias de mármore, essências aromáticas delicadas nas saunas, ambas com o tamanho e a luminosidade ideais... Nos lavabos, uma larga faixa de espelhos nas quatro paredes dava ao usuário a chance de se enxergar de corpo inteiro, em todos os ângulos e nos mínimos detalhes.

Mas isso era só o começo. Subindo as escadas e virando à esquerda, um corredor levava a uma ala de umas quinze cabines individuais - onde novamente os detalhes faziam toda a diferença. As cabines, em tom amarelo-pastel, tinham um colchão confortável, iluminação indireta com lâmpadas dicróicas, ar condicionado fresquinho, papel toalha e um asseio impressionante - todas limpíssimas e perfumadas com bom gosto. Algumas tinham até um civilizado olho mágico na porta, institucionalizando o voyeurismo. O mesmo corredor ainda levava a um cinema com três fileiras de poltronas e um labirinto escuro.

À direita das escadas, chegava-se a um bar bastante agradável, com muitas mesas e um palco para shows. O teto, basculante, abria para o céu estrelado da cidade. Atravessando o bar, havia ainda outra ala com mais quinze cabines limpíssimas, uma sala de TV, mais chuveiros, um restaurante (!) e uma escada que descia para um bucólico jardim de inverno, com chaises longues entre plantas, um cyber café de uso livre e uma sala de repouso. Tudo novo, tudo limpo, tudo lindo.

Claro que nada disso seria suficiente se a freqüência não agradasse. Mas a casa bombava, especialmente aos sábados e domingos, quando chegava bastante gente interessante. Dava de tudo, claro, mas era possível encontrar alguém que apetecesse sem ter que gastar o chinelo inteiro.

De repente reparei que, enquanto as toalhas da maioria dos caras eram brancas, as de alguns eram azuis. E esses caras de toalha azul tinham, invariavelmente, corpos es-cul-tu-rais, perfeitos mesmo, daqueles de caixinha de cueca. Aí fui ligando uma coisa à outra e me dei conta de que aqueles verdadeiros galãs eram, hã, "massagistas". Mais um ponto para a casa: ao invés de abordar os clientes da casa e oferecer seus serviços ostensivamente, eles se misturavam aos demais com naturalidade, sem constranger ninguém, sem deixar o clima pesado. E o mais importante: havia gente bonita o suficiente para que ninguém precisasse sequer se lembrar de que eles estavam lá, como mais uma opção de prazer.

O mais interessante é que, pelo fato da casa ser tão agradável, as pessoas não vão lá simplesmente para gozar e ir embora em seguida - em vez disso, encontram os amigos, ficam pelo bar, assistem aos shows (na linha dos da Blue Space), de repente dão uma voltinha pra aprontar, voltam pro bar, fazem uma sauninha para a pele... e com isso passam horas lá, como se estivessem num clube. Muito mais do que uma sauna de pegação, a TBV é um verdadeiro espaço de convivência social, onde muitos até abstraem a parte sexual e vão apenas para se divertir. E tudo isso por 17 reais, um preço mais do que honesto. Sem dúvida, um ponto alto na estada de qualquer viajante gay em Recife.

Enquanto isso, em São Paulo, a cidade mais poderosa do País, o centro financeiro e cultural onde tudo acontece e para onde toda a informação converge... as opções de saunas gays vão de mal a pior. Entre dezenas de estabelecimentos, as duas consideradas "melhorzinhas" não estão nem aos pés da TBV. A For Friends, alardeada pelos quatro cantos como a "número 1" da cidade, tem até uma estrutura razoável, mas não oferece cabines para os freqüentadores e há anos não investe um tostão em melhorias, deixando tudo com cara de gasto, de velho. E, por falar em velhos, a faixa etária média dos freqüentadores é tão alta que a casa deveria mudar de nome para Termas Cocoon.

Já a Labirinttu's, estrategicamente localizada na Rua Frei Caneca, se aproveita do intenso vaivém de gays pelas redondezas, mas é escura, imunda e deprimente - para fazer a pescaria e chegar às vias de fato, é preciso se espreitar por corredores escuros, úmidos, malcheirosos, e fazer tudo ali mesmo, ou nas três únicas cabines (igualmente escuras e sujas) que há. É como se os gays ainda vivessem há vinte anos atrás, quando a marginalidade os forçava a se enfiar em buracos decrépitos, fazendo sexo no escuro como se isso fosse algo errado, como se não pudessem encarar o que são. É por causa de casas como essa que ainda hoje uma parte substancial dos gays de SP tem uma idéia tão negativa das saunas, como se elas fossem apenas um antro de solidão e doenças. Idéia completamente derrubada por casas como a TBV, onde as pessoas se curtem, se gostam, exploram as diversas possibilidades que possuem - enfim, celebram o prazer de ser o que são.

E agora você me pergunta: e o gancho com a notícia de hoje ? A novidade é que, ao que parece, São Paulo vai finalmente ganhar uma sauna à altura do seu nível de excelência em tantos outros serviços. Pelo menos é o que sugere esta matéria do Mix Brasil. Com uma concorrência tão precária, espaço é o que não falta. Só espero que, na hora de estipular o valor da entrada, ela ache o delicado equilíbrio entre um preço baixo demais, que popularize além do desejável, e um preço alto demais, que limite a freqüência àquele povo nojento que só faz carão - prática que definitivamente não combina com sauna.