terça-feira, 30 de outubro de 2007

Tropa de Elite: as duras escolhas dos sem-escolha

Estou escrevendo minhas impressões sobre Tropa de Elite com um atraso considerável, é verdade. Já faz um tempão que fui assistir ao longa, no fim de semana de sua estréia. Tá difícil arranjar tempo para o blog. Mas pelo menos pude acompanhar a repercussão do filme. O sucesso está sendo estrondoso (nas salas de exibição e nas bancas dos camelôs), mas também choveram críticas - que o filme é fascista, glorifica a violência policial, faz uma interpretação simplista da questão das drogas. O que não deixa de ser saudável: é um filme que faz pensar, e provoca questionamentos até mesmo naqueles que são os mais acomodados e alienados, a classe média que vive enfurnada em shopping center.

Acho que uma das grandes sacadas de Tropa de Elite é mostrar a violência pela perspectiva do policial. Tudo o que conhecemos, pela nossa experiência cotidiana de cidadãos comuns da metrópole, é a ótica da vítima. Aí veio Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e contou a história pelo prisma dos bandidos, numa saga meio romântica que, de certa forma, os humanizou. Mas, até hoje, tirando os filmes e seriados norte-americanos (imersos em um contexto social que é bem diferente do brasileiro), ninguém tinha se lembrado de ver o lado do policial.

E o lado do policial, meu chapa, é de lascar. Existe um descompasso gigantesco entre o que se exige e espera dele e o que se oferece em troca. A rotina é massacrante, com uma pressão absurda e um risco de vida constante, enquanto as condições de trabalho e o salário são vergonhosos. Um policial comum ganha 900 reais por mês no Rio, e um do BOPE tira só 500 a mais do que isso. Com isso, as opções que se desenham para ele são três: ou se corromper (não só fazendo associações com os bandidos, como também entrando nos jogos escusos da corrupção interna), ou lavar as mãos e se omitir, ou ir para a guerra - contra os bandidos e contra a própria estrutura do sistema policial. Esses dilemas ficam muito claros no filme, que é narrado em primeira pessoa pelo personagem principal, o Capitão Nascimento (Wagner Moura).

Para dar conta do recado, durante sua formação pelo BOPE o policial sofre uma verdadeira lavagem cerebral - um treinamento desumano, mas que vai prepará-lo para uma vida não menos cruel. Quando finalmente ganha as ruas, o soldado endurecido e lobotomizado traz dentro de si um ódio profundo, típico de um autêntico justiceiro. Na guerra contra os bandidos vale tudo, inclusive se nivelar em barbárie: enquanto os traficantes matam delatores no 'microondas' (amarram em uma pilha de pneus, jogam gasolina e ateiam fogo), os policiais arrancam confissões sufocando pessoas com sacos plásticos ou ameaçando empalá-las em cabos de vassoura. Nessa ciranda de violência e descontrole, perdas e danos se acumulam, inclusive para os próprios policiais, que vêem sua vida pessoal e sua estabilidade emocional degringolarem.

Durante a exibição do filme, uma constatação inquietante: por maior que seja a truculência das ações do BOPE, uma parte considerável do público se realiza com a violência policial e chega a vibrar nas cenas mais fortes. É um sentimento de revanchismo, que parece comungar com a (perigosa) idéia de que violência se resolve com violência. Isso mostra a que ponto chegamos: deixamos de nos chocar com o intolerável e passamos a endossar a violência, porque queremos nos sentir vingados, e esses sanguinários homens de preto farão isso por nós. A própria freqüência com que o BOPE - uma força policial criada para situações excepcionais - é chamado a atuar prova que a situação da segurança pública é da mais pura calamidade.

Se o quadro é desolador e a mensagem é indigesta, Tropa de Elite consegue a proeza de dar seu recado sem deixar o entretenimento de lado. Contundente sem ser deprimente, o filme envolve o espectador num vigoroso mosaico do Rio de Janeiro, com ritmo eletrizante, tomadas aéreas grandiosas, edição esperta, boas atuações do elenco (consegui até gostar do Wagner Moura!!!) e uma trilha que nos faz pulsar no pancadão dessa cidade tão sensual e louca. Em meio a tantos pastiches fajutos de Hollywood, nosso produto nacional desponta como um excelente filme de ação, sem dúvida um dos melhores de 2007.

11 comentários:

Leo Lazzini disse...

mas voce eh um fanfarrão heim, zero meia?!

Anônimo disse...

Não vi o filme mas sempre discordei e continuarei discordando de quem diz que falta tudo à polícia do Rio. O que falta é uma coisa só: VERGONHA NA CARA! Morei 5 anos e meio em Ipanema e todos os dias via muitos pivetes e muitos bandidos. Fui assaltado 3 vezes, em nenhuma das vezes com uso de violencia.Mas eu via muito mais policiais nas ruas do que bandidos. Via muito mais carros novos sendo dirigidos por policiais do que por bandidos. Vi policiais de uniformes e "bandidos" de trapos.

Em uma das vezes em que fui assaltado a mão armada, meia quadra depois havia um carro com 2 policiais. Estavam DORMINDO, e disseram: "ah ja devem ter subido pro morro". Caminhei por mais apenas 1 quadra e meia e passei em frente a uma delegacia ( de copacabana), mas nem me dei ao trabalho de dar queixa. Pra minha surpresa, 2 quadras depois um carro da policia para pra falar comigo e meu amigo, achando que deviamos estar portando drogas ou algo errado por estarmos andando as 4h da manha a pé. Pra isso eles servem! Pra procurar pessoas "suspeitas" de portarem drogas, mas na verdade "suspeitas" de terem dinheiro para pagar um bom suborno.

Vc disse que eles ganham 900 reais? Isso é o que eles tiram de um único turista gringo que compra droga e depois tem que pagar as vezes ate 10 vezes isso.

Ja fui parado varias vezes por policiais em Ipanema falando ingles comigo, porque eu sou muito branco e achavam que eu era gringo. Me revistaram todo e pra minha sorte nao colocaram nenhuma droga no meu bolso, pq eu sei que é isso que eles costumam fazer.

A policia do Rio vai levar muito tempo pra voltar a ter a confianca da populacao.

Os bandidos, muitas vezes, sao bem menos cruéis!

introspective disse...

Anônimo: Eu mesmo já senti na pele isso que vc falou. Também tenho cara de gringo e, uma vez, sofri uma batida pra lá de abusiva da polícia. Me pararam na Lagoa, cismaram que eu tinha droga, me revistaram e chegaram ao absurdo de me fazer tirar a roupa dentro da viatura para eles verem se não tinha nada na cueca, dentro do tênis etc. Fiquei meia hora 'detido' ali, eles só me soltaram quando viram que eu não tinha absolutamente nada para eles extorquirem.

Claro que eu não acho que a polícia carioca seja flor que se cheire. Agora, mesmo com todo o lado podre deles, temos que concordar que esse serviço de subir morro e enfrentar traficante armado até os dentes não é para qualquer um. Quantos de nós faríamos o que eles fazem? O ofício que eles abraçam (por 'idealismos' variados ou por falta de oportunidades de tentar uma carreira melhor) é, nos dias de hoje, quase um ato de heroísmo.

Alberto Pereira Jr. disse...

o público viu Tropa de Elite, muito além de uma obra de ficção em que se pode finalmente instituir um debate a nível nacional sobre a escalada da violência brasileira, problema que está no cerne de todos os outros.

O filme realizou também uma catarse, fez desabafar as inquietudes de muitos cidadãos.

E acima das opiniões totalizantes, deve-se aproveitar a discussão gerada por Tropa de Elite e perceber que não existe um culpado fácil, o Brasil está nessa situação por uma série de fatores....

Rubem Matias rj disse...

Acho que vocês estam muito otimistas, querendo ver muito mais florido as reações que o filme provocou do que realmente ele o fez na grande população. Digo isso porque a grande maioria das pessoas que saem das salas de cinema até discutem por algumas horas sobre aquela realidade toda, mas a grande maioria não é capaz de perceber todas essas nuances que você apontou no texto. E não estou reduzindo ninguém não, apenas é verdade, como você, também sou jornalista, e é triste de ver que essa é a realidade, a incapacidade da grande população discutir com clareza, corretamente, visualizando as devidas intenções de cada uma daquelas cenas e contextos do filme e da vida real. Vejo um clamor fervoroso pela violência do filme, concordo mesmo que as pessoas lavam a alma pelas mãos do Capitão Nascimento, e atirariam na cara do bandido sim para ele não ter um enterro decente como o André o faz. Mas o problema é bem maior. Minha preocupação não é se o filme é bom ou não, pois até o acho de bom sim, mas é com a incapacidade de grande parte da população de compreender de fato as inumeras questões graves expostas no filme.
Seu texto é de fato muito bom.

Vítor disse...

Acho válida qualquer discussão que seja travada em virtude de algum tópico proposto por um filme.

A despeito disso, acho um tanto errr... perigoso esse posicionamento de que o usuário de droga é o grande culpado pela violência e pelas mazelas do Brasil.

Além de isso exonerar o Estado de uma responsabilidade maior sobre a violência, aumenta ainda mais o comodismo com esse suposto determinismo que leva as pessoas menos favorecidas socialmente ao mundo do crime. O bandido, mais do que nunca, passa a achar que ele é bandido porque existe um jovem branco da PUC comprando maconha. Ah, e que ele, bandido, pode matar a mãe desse jovem no sinal da esquina.

No fim das contas, fica toda a sociedade escrava desse determinismo imbecil (pleonasmo, né) que tanto é cômodo pro Estado.

Vítor disse...

Ah, e só pra finalizar: nesse ponto (o determinismo), existia, na minha opinião, o maior êxito de "Cidade de Deus". O filme, em momento algum, justifica a conduta de nenhum bandido pelo meio em que ele vive. O filme destaca o livre arbítrio, a índole, os esforços individuais...

Bjs!

Flavio P. disse...

Eu acho a cena dos moleques puxando unzinho e discutindo Foucault um dos retratos mais claros da neurose coletiva que acomete esse país. Uma vez ouvi uma deifnição muito particular de neurose: "É a mentira na qual você ainda acredita". Uma não-verdade conveniente...

(Thi, acabei prometendo que ia comentar mais por aqui e só agora consegui cumprir. Coincidentemente, acabei de sair da aula do seu tio!)

Beijos!!!

Alexandre Lucas disse...

Há policiais corruptos, mas há os de bem tb. Prefiro acreditar que tem jeito :)

Ah, adorei o filme!

Clebs disse...

O Sr Secretário de Segurança do Rio de Janeiro disse em entrevista à Veja que considera Nascimento um herói. Concordo em parte. Mas concorco plenamente quando ele diz que a sociedade está cansada, sofrida. E é por isso que existe a tal revolta e a euforia de ver um bandido ser sufocado... total payback.

O secretário tb diz que a sociedade precisa escolher um lado...Certo! Do jeito que vamos, será no adoleta...

Qual a sua posição sobre a parte piratex de toda a polêmica sobre este filme!?

Celso Dossi disse...

A platéia ria de cenas que eu simplesmente desacreditei, como se aquilo fosse ficção ou feito para dar risada mesmo.
Só na cena do cabo de vassoura que eu não me contive e ri também. Shame on me. hahahaah