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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Camaleões

O novo filme estrelado por Wagner Moura, VIPs, confirma não só a extrema versatilidade do ator baiano (a quem finalmente me rendi), como a boa fase que o cinema brasileiro está vivendo. Inspirado na mesma história real que deu origem ao livro Histórias Reais de um Mentiroso, o longa mostra a trajetória de Marcelo, um jovem com distúrbios de comportamento que, na busca pelo seu sonho de se tornar piloto de avião, vai assumindo diferentes personalidades, até se fazer passar pelo filho do dono da empresa aérea Gol, o que lhe rende até uma entrevista na TV com o apresentador Amaury Jr. A narrativa é bastante ágil e dinâmica, e Moura consegue fazer de seu farsante destrambelhado um personagem crível e bastante envolvente - é impossível não torcer por ele a cada nova artimanha que sai de sua cabeça criativa e fantasiosa. O filme evidentemente mostra um caso extremo, mas, em diferentes proporções, essas pessoas estão por toda parte. São políticos que assumem uma postura pública contrária a atitudes que eles mesmos exercem em suas intimidades. São amigos interesseiros que vêm pedir favores pelo Facebook, mas depois passam reto e fazem a egípcia na boate. Seja por necessidade ou por interesse, o ser humano é um notável camaleão, que em cada situação ou ambiente veste o disfarce que melhor lhe convém. Poucos conseguem ir tão longe quanto Marcelo, o rapaz que se tornou, na mesma medida, beneficiário e vítima de sua imensa cara-de-pau.

terça-feira, 29 de março de 2011

Cisne rosa

Bruna Surfistinha superou minhas expectativas. Eu não tinha lido o livro e, da história de Bruna, conhecia apenas o básico: uma garota de programa que ficou famosa depois que resolveu contar sua vida em um blog. Sabendo disso, entrei na sala de exibição ciente dos vários riscos que o filme corria. Poderia mostrar Bruna como uma vítima, ô coitada. Poderia mostrar a profissão como um conto de fadas, em que se ganha dinheiro rápido e fácil, indo para a cama com homens atraentes e fogosos. Ou, no extremo oposto, poderia ter um ranço moralista, ou mesmo resvalar para a apelação gratuita. Mas o diretor fugiu de todas essas armadilhas e acertou o tom. Não mostrou nenhum falso glamour, carregou nas tintas quando necessário (a história tem trechos que são um soco no estômago, como os maus tratos que Bruna sofre do irmão, e mesmo a expressão de asco contido quando ela se deixa penetrar pelo primeiro cliente), mas teve a ótima sacada de alternar momentos pesados com outros leves e bem-humorados. Nesse sentido, as personagens coadjuvantes tiveram um papel fundamental, em especial Janine (Fabiula Nascimento), colega de bordel franca e desbocada, e Larissa, a cafetina (Drica Moraes, com falas impagáveis). Elas ajudam a dar tempero ao filme, mas quem realmente domina a cena é Deborah Secco, que se entrega totalmente ao papel da protagonista, em sua melhor atuação até hoje. Honesto, corajoso e sobretudo humano, Bruna Surfistinha pode não ser um novo clássico do cinema brasileiro, mas seu bom desempenho nas bilheterias é plenamente justificável.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pipoca cor-de-rosa


E cá estou, investindo meu feriado em mais um Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual. O Mix fez 18 anos, idade em que os homens são obrigados a se alistar no serviço militar, o que inspirou a simpática vinheta acima. Tenho grande carinho pelo festival, que acompanho desde que troquei a esfiha pelo kibe (e lá se vão doze anos!). O fervo já não é mais o mesmo de outros tempos (o povo que freqüenta hoje parece mais velho e cansado), mas o clima ainda é gostoso e dá para encontrar amigos e conhecer gente nova nas filas. A programação, como sempre, é um tiro no escuro: metade dos fimes você aplaude de pé, a outra metade você sofre para chegar ao final (nesta edição do Mix, já saí três vezes da sala antes do fim da exibição).

Dos longas que vi até agora, meus favoritos foram o adorável "Bear City" (história de um rapaz lindinho que procura seu papai urso, cheia de personagens carismáticos) e a comédia "Violeta é Tendência" (os gays norte-americanos sempre foram caricatos demais pro meu gosto, mas o filme é divertido). Dos curtas, adorei "O Bolo", sobre uma doméstica evangélica que acha um bolo de chocolate diferente na geladeira do patrão, e "Eu Não Quero Voltar Sozinho" [trailer abaixo], provavelmente o retrato mais fofo e delicado que eu já vi sobre a descoberta da sexualidade! O festival vai até quinta-feira (18/11), e a programação completa, vocês encontram aqui.

[UPDATE: Acabo de ver Contracorriente, que abriu o festival em sessão fechada e acabou tendo exibição extra. É um drama rasgaaado, história de um triângulo amoroso entre um pescador, sua esposa grávida e um artista forasteiro, com bela fotografia e atuações idem (incluindo uma sósia da "top DJ" Ana Paula como a esposa traída). Vai estrear em circuito em março e recomendo vivamente! Os cariocas poderão ver antes, na sessão especial que o Mix Brasil promoverá no Odeon, dia 26/11, às 21h, junto com os curtas premiados em SP].

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Morte e prazer

Como já contei para vocês aqui, em matéria de filmes e seriados, não sou muito chegado em super-heróis, gnomos ou vampiros. Gosto daqueles que falam sobre relações humanas: Beleza Americana, As Invasões Bárbaras, C.R.A.Z.Y., O Albergue Espanhol, Amélie Poulain, Desperate Housewives... quanto mais "vida real", quanto mais eu puder me identificar, melhor. E sem violência gratuita, por favor. Dos gêneros que não me interessam, eu costumo passar longe, mas às vezes acabo vendo alguma coisa, involuntariamente, enquanto corro na esteira da academia. Nesse caldeirão entra diumtudo, desde filmes de ação, terror, guerra e suspense, até seriados policiais. E foi justamente vendo um seriado policial na esteira da academia que me veio o estalo para o post de hoje. Na tela, um serial killer russo dopava uma mocinha e a prendia numa cama, semiacordada entre a vida e a morte, meio lúcida mas indefesa, para violentá-la e matá-la lentamente.

O que chama minha atenção nesse tipo de entretenimento é a maneira como a morte é explorada. Nada de tiros, que são rápidos e imediatos: morte que se preza é aquela de "causa mecânica", que provoca sofrimento e faz a vítima nos brindar uma expressão de dor e desespero (com ou sem gritos, aí já é uma questão do estilo de cada "obra"). É uma morte que se estende por algum tempo, para que sua agonia seja contemplada e saboreada pela audiência. Um exemplo bastante ilustrativo é Premonição, um grande sucesso de bilheteria que já teve três continuações, e se resume a um desfile contínuo de mortes por acidentes macabros. Duas pessoas são tragadas por uma escada rolante de shopping center, outra morre afogada dentro do carro num lava-rápido, e por aí vai, até a película acabar [se você não conhece e ficou curioso, tem uma amostra bem desagradável do volume 4 aqui].

Alguns podem argumentar que, no gênero do terror, a presença (ou mesmo a simples iminência) da morte não é gratuita, mas o próprio combustível do suspense que sustenta o filme. OK, vamos pensar então nos seriados policiais do tipo CSI, que se multiplicam pelos canais de TV a cabo. Sem os mesmos ecos sobrenaturais dos filmes de terror, as mortes, geralmente causadas por assassinos seriais, não provocam tantos gritos. No início de cada episódio, é lançado um mistério, e os mocinhos-investigadores vão gastar a sola do sapato atrás de pistas e informações que possam levar ao culpado. Na medida em que suspeitos, testemunhas e afins vão dizendo o que sabem, e as peças do quebra-cabeça passam a se encaixar, as cenas dos assassinatos em flashback vão se repetindo, e repetindo, e repetindo.

As soluções da trama são precárias: os agentes têm a sorte de ir direto nas pistas certas, a tecnologia faz verdadeiros milagres, e tudo se desvenda sem maiores problemas. Fica evidente, portanto, que a "graça" (?) dos tais seriados não está na construção e desmantelamento dos enigmas, e sim na exibição das cenas de morte em si - os pontos altos de cada episódio. Dentre os diversos métodos possíveis, o estrangulamento é um dos mais adequados: a vítima se vê num crescente desespero, que contrasta com o semblante frio e impassível de seu algoz, enquanto sua vida vai se esvaindo. Se antes de morrer ela for torturada, melhor. O ritual de execução se desenrola num crescendo (prazer?), que culmina com o esgotamento da resistência, o instante da morte - o clímax. Que será repetido em vários ângulos a cada reconstituição do crime pelos investigadores. É um orgasmo com direito a replay.

Ver alguém gritando e virando os olhos enquanto é esmagado, as marcas da violência em um cadáver estendido no IML, a frieza do homicida operando a morte, tudo isso deveria ser agoniante e repulsivo. Mas, por algum motivo, filmes e seriados que exploram e celebram a morte fazem enorme sucesso. Não é possível que todos os fãs desses gêneros sejam psicopatas incubados que precisavam só de um empurrãozinho para sair por aí cometendo atrocidades. A hipótese que me parece mais razoável é que deve existir, em alguma salinha do inconsciente de pessoas "normais", um lado negro que extrai prazer da morte e do sofrimento alheio. Um sadismo camuflado, que não extrapola às vias de fato, mas se realiza com cenas de mortes e desgraças. Os produtores desses filmes e séries devem entender isso melhor do que eu. Pergunto: de onde virá esse fascínio tão mórbido?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rapidinhas e fresquinhas

CONFESSIONS 2, O RETORNO A cantora australiana Kylie Minogue vende bem e lota shows na Europa, mas nunca chegou a emplacar nos Estados Unidos. Isso pode mudar com seu próximo álbum, Aphrodite, que será lançado oficialmente amanhã. A produção foi assinada pelo inglês Stuart Price, que tem uma pegada dançante infalível - ele é o homem por trás do clássico Confessions on a Dancefloor, de Madonna. Como era de se esperar, o novo disco de Kylie foi todo pensado para as pistas, sem baladinhas, e está sendo recebido com entusiasmo pela crítica especializada. O adorável primeiro single, "All The Lovers", ganhou clipe fofo e pansexual, bem ao gosto do público gay, que vê nela uma espécie de madrinha. No último fim de semana, a diva foi o destaque da Semana do Orgullo de Madri, onde cantou para 1 milhão de pessoas. Aphrodite tem tudo para virar febre entre as bees e, quem sabe, ajudar nossos ouvidos a descansarem da Lady Gaga. [UPDATE: acabo de escutar Aphrodite e achei o entusiasmo da crítica exagerado. O disco não é tão legal assim (nem tão dançante), embora tenha alguns acertos. A minha opinião, vocês podem ler dois posts acima].


POR UM FINAL FELIZ Um dos cinemas mais tradicionais e charmosos de São Paulo está na corda bamba. Com o cancelamento do patrocínio do banco HSBC, o Belas Artes passa por dificuldades financeiras e pode fechar as portas em dezembro. Para ajudar a evitar o fim trágico, a restauratrice Marie-France Henry, dona do francês La Casserole, reuniu outros 16 restaurantes na campanha Tudo Pode Dar Certo, que começa hoje e vai até 5 de setembro. Olha só que legal: você come em uma casas participantes, doa R$5 ao cinema e ganha um ingresso válido de segunda a quinta-feira. Carimbado na bilheteria, o tíquete dá direito a uma sobremesa de cortesia em qualquer um dos restaurantes. E a lista só tem coisa boa: além do La Casserole, participam Adega Santiago, Amadeus, Arábia, Arábia Café, Così, 210 Diner, Dona Onça, Dui, Eñe, Ici Bistrô, La Frontera, Martín Fierro, Mestiço, Obá, Tappo Trattoria e Tordesilhas. Vamos prestigiar, ajudar o Belas Artes e torcer para que apareça logo um novo patrocinador!

VOCÊ PODE DAR UMA NOTA? O encontro de blogueiros gays que rolou na semana da Parada não teve pauta definida ou objetivo "oficial". Muitas questões interessantes poderiam ter sido discutidas, mas não havia tempo. Como aquilo era apenas um pontapé inicial, o primeiro de vários encontros, não nos afobamos e deixamos nossos e-mails para a construção de uma rede de contatos, que facilitaria a integração entre os blogueiros. A segunda edição ainda não aconteceu, mas o encontro já teve ao menos um resultado: nossas caixas de e-mails passaram a receber desinteressadas "sugestões de nota", por parte de assessorias de imprensa que pegaram carona nesse bonde. Não tenho nada contra o trabalho desses profissionais, mas não me agrada a maneira como os blogueiros estão sendo usados. É bacana receber sugestões de leitores, pessoas que conhecem seus textos e jeito de pensar e, por isso, contribuem com ideias e assuntos pertinentes, porque querem enriquecer o blog. Outra coisa bem diferente é receber um e-mail absolutamente impessoal de uma assessoria ou um RP que está preocupado(a) apenas em vender o peixe do cliente, que jamais passou os olhos no seu blog, não tem o menor interesse pelos seus textos e não teve sequer o cuidado de mandar uma mensagem individualizada. Pior ainda é receber um e-mail retransmitindo o anterior e meio que me cobrando porque não dei a tal nota. Este blog não é um balcão de panfletos e propaganda grátis. Acho válido ser informado sobre coisas que possam ser do meu interesse, mas quem decide se realmente são, ou se valem uma nota, sou eu. Até porque eu não faturo um tostão nisso. No mais, torço para que a pilha de spam cor-de-rosa não acabe sendo o único resultado prático daquele encontro.

domingo, 15 de novembro de 2009

Elvis e Madona: bacana do começo ao fim

A solidariedade com o próximo não poupa nem mesmo nossos momentos de lazer. Quem de vocês já não foi ao teatro ver alguma peça bem ruinzinha, só para dar uma força a um amigo querido que estava no elenco? Ou não comprou uma brochura de poesias pra lá de toscas, dessas que são oferecidas na Avenida Paulista, para ajudar algum escritor maltrapilho a sobreviver de sua arte? Ou mesmo não encarou aquela festinha de aniversário erradíssima, porque uma boa amizade justifica até certos micos?

Algo parecido se dá em nosso meio em relação aos produtos culturais "GLS". Existe um senso comum de que devemos prestigiar todas as iniciativas feitas por, com ou para gays, como forma de apoiar "a causa" e fortalecer nossa classe tão preterida e desfavorecida, numa espécie de "corporativismo pink". Nesse sentido, comprar revistas e ver filmes vira um ato político, revestido de um propósito nobre. No caso dos filmes (e até mesmo das novelas), a simples presença de personagens homossexuais na trama já justificaria nosso interesse - afinal, somos tão varridos para baixo do tapete pela sociedade, que qualquer um que nos tire do ostracismo merece nossa gratidão.

De fato, para alcançar a inclusão social e a conquista de direitos tão sonhados, é preciso que os gays [escrevo 'gays' sempre em sentido amplo, incluindo GLBTTXYZ, ok?] se articulem, da mesma forma como fazem os evangélicos e tantos outros grupos da sociedade. Quando damos ibope aos tais produtos, mostramos que somos um mercado, temos anseios e queremos ser reconhecidos. Mas esse gesto tão louvável exige de nós uma certa dose de boa vontade. Para proteger quem nos estende a mão, acabamos diminuindo o nosso nível de exigência: não raro, somos obrigados a fazer vista grossa à inconsistência do enredo do filme, ou ao gritante amadorismo da revista. Enfim, consumimos produtos que certamente não passariam no nosso crivo, se não fosse pelo fato de terem um ingrediente gay.

Felizmente, desse cenário despontam algumas boas exceções. Produtos que não têm no tal ingrediente gay o seu único predicado, mas se amparam em outras qualidades, transcendendo guetos e se comunicando com um público maior. Um ótimo exemplo é o filme Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte, uma das surpresas do Festival Mix Brasil deste ano. Elvis faz bicos entregando pizzas, enquanto não consegue ganhar dinheiro com a fotografia; Madona é cabelereira e luta para juntar dinheiro e produzir seu espetáculo musical. Do encontro desses dois caminhos, surgirá uma amizade, que aos poucos se transformará em algo mais forte. É mais uma história de amor, mas foge do lugar-comum por várias razões - a começar pelo fato de que Elvis é uma menina lésbica e Madona, uma travesti.

A história, que se passa no bairro carioca de Copacabana, tem ritmo e agilidade. O amor entre as personagens, além de nada óbvio, não vem de mão beijada, atravessando alguns conflitos e momentos de suspense, com direito a uma reviravolta no final. Madona é vivida pelo ator Igor Cotrim, que desbancou travestis de verdade nos testes para o papel. O moço deve ter feito um laboratório poderoso, pois conseguiu assimilar não só o vocabulário, mas também a atitude e o jogo de cintura dessas pessoas, que tentam extravasar em seus corpos de homem a feminilidade que carregam dentro de si. Para criar a personagem, foi inevitável a construção de uma caricatura, mas ao longo do filme Igor soube encontrar seu equilíbrio, defendendo o papel com honestidade e respeito, sem deixar o humor de lado.

Elvis e Madona é um filme simpático e nada pretensioso. O elenco conta com a participação de alguns atores globais consagrados, mas sempre em papéis secundários. Além disso, é palatável a vários tipos de público, conseguindo subverter com delicadeza os conceitos de normalidade impostos socialmente. Depois de enfrentar várias batalhas (incluindo a captação de patrocínio, que chegou a interromper as filmagens, por falta de verba), o longa ainda luta para encontrar uma distribuidora. Quem se animar com o vídeo abaixo e não quiser esperar pela estreia, ainda incerta, tem mais uma chance de conferir o filme no Mix: no próximo sábado (21/11), às 15h30 no Cinesesc.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Do Começo Ao Fim: para sonhar sem pensar

Hoje fui convidado para uma sessão fechada do filme Do Começo Ao Fim, junto com outros blogueiros e jornalistas [para conhecer a história, confira o trailer aqui]. O longa de Aluizio Abranches vem ao mundo carregando um grande peso nas costas. O público gay ficou em polvorosa desde o vazamento precoce do vídeo promocional (que foi acessado por mais de 700 pessoas em apenas duas horas) e passou a depositar nele expectativas bastante altas. Além disso, o assunto central - a relação de dois irmãos que crescem juntos e descobrem que se amam - é polêmico e merece um tratamento cuidadoso.

Para dar conta do recado, o diretor optou por um caminho fácil: focou seu olhar exclusivamente no romance entre os rapazes, isolando-os do mundo ao seu redor. Após um olhar carinhoso sobre a infância de Francisco e Tomás, a narrativa sofre um abrupto corte de 15 anos, os dois protagonistas subitamente percebem o que sentem um pelo outro, e a partir de então passam a viver numa bolha de amor. Nessa fantasia, não há espaço para dilemas ou conflitos: a relação é, no mínimo, improvável, mas não enfrenta nenhum tipo de hostilidade ou obstáculo. O fato de os dois serem irmãos parece ficar em segundo plano e não ter grande importância.

Do Começo ao Fim tem muitos predicados. É superdelicado, tem belos cenários, fotografia e trilha sonora caprichadas. Julia Lemmertz (cada vez mais bonita) está impecável como a mãe dos rapazes. Amorosa e sensível, ela nem precisa de texto para expressar sua ternura - bastam-lhe os olhos e o sorriso. A love story é contada com doçura e intensidade: a declaração de amor (picotada no trailer) que Francisco faz para Tomás é tão bonita que dá para escrever e pendurar na parede; a seqüência dos dois dançando tango nus, embora curta, é marcante. O novato João Gabriel Vasconcellos se saiu muito bem como o irmão mais velho, Francisco, e parece ter um futuro promissor como galã.

Por outro lado, alguns diálogos são sofríveis (sobretudo os da "fase infantil", que soam completamente artificiais) e, se você não for do tipo sonhador, que se deixa levar pela fantasia, talvez comece a apontar vários furos e inverossimilhanças, aqui e ali. Por sorte, sou um romântico incorrigível e meu lado menininha falou mais alto. Como uma parte de mim sempre quis ser o "filhote", sempre procurou um homem um pouco mais velho que cuidasse de mim, me desse carinho e me protegesse, eu me identifiquei com a fantasia proposta e consegui me render à delicadeza da história, deixando o senso crítico de lado. Mesmo assim, senti falta de um fecho à altura: achei que o filme terminou "meio de qualquer jeito".

Para quem simpatiza com histórias água-com-açúcar, Do Começo ao Fim certamente vale o ingresso. Pela forma limpa de mostrar o desabrochar da sexualidade, o filme será uma referência positiva para adolescentes gays, que ainda estão se descobrindo (assim como o fundamental De Repente Califórnia). Às vezes, tudo o que precisamos é de um pouco de fantasia: muitos gays encherão os olhos com a beleza dos atores, e se permitirão sonhar com Francisco e Tomás. Mas não sei se o filme conseguirá convencer um público mais amplo. Não por ter incluído os temas homossexualidade e incesto, mas por ter dado a eles um desdobramento raso, desperdiçando a chance de ser um filme muito maior. No fim das contas, passado o encanto inicial, fica a sensação de que o diretor poderia ter ido mais longe.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Furor uterino


Que furor uterino esse em torno de Do Começo ao Fim, né? Vários amigos meus não veem a hora de o filme entrar logo em cartaz e, a julgar por tamanha expectativa, provavelmente temos pela frente um sucesso de bilheteria, pelo menos dentro da nossa bolha gay. Mesmo fora do mundinho, este é um filme que dificilmente vai passar em branco: tem dois protagonistas lindos, atores globais no elenco e, mais importante, um tema central bem delicado (mas que parece ter sido tratado com sobriedade). Promete uma acalorada repercussão em diversos níveis e searas.

Não vou me deter em maiores especulações depois de ter visto apenas o trailer, mas confesso que eu também estou curiosíssimo. O filme só vai estrear no circuito em 27/11, mas algumas pessoas poderão vê-lo antes disso. O Mix Brasil fará uma exibição fechada para convidados em 12/11, na abertura do festival de cinema em SP, e seguidores do filme no Twitter e Facebook também serão agraciados com sessões exclusivas. Enquanto isso, que tal participar da (difícil) escolha do cartaz oficial? Saiba mais detalhes entrando aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Faroeste sem caboclos

Gostei da maioria dos filmes de Quentin Tarantino que vi, mas não lembro de ter saído do cinema tão satisfeito quanto ontem. Bastardos Inglórios é excelente. O filme reescreve a história da Segunda Guerra Mundial de uma forma muito peculiar: com uma inusitada revanche dos judeus. Brad Pitt lidera um grupo de soldados norte-americanos (os Bastardos Inglórios do título) que decide contra-atacar o III Reich. Eles formam uma espécie de "tropa de elite judia" que sai pela França exterminando nazistas, sempre com requintes de crueldade. É a deixa perfeita para o diretor dar o show de violência estilizada que é sua marca pessoal.

Não que o filme seja pesado. Divididas em capítulos, as produções de Tarantino têm algo de games ou histórias em quadrinhos: acompanhamos a saga dos heróis, torcemos por eles, mas sabemos que coisas horríveis virão pela frente, e gostamos disso. Existe um clima de tensão constante, já que reviravoltas sanguinolentas podem acontecer a qualquer momento (a seqüência do jogo de cartas na taverna é um bom exemplo). Além disso, boa parte do público acaba tendo uma certa empatia com o desejo de vingança dos judeus sanguinários, e vibra ao ver os nazistas se dando mal, com o crânio estraçalhado por um taco de beisebol e o couro cabeludo arrancado. O fã de Tarantino ama muito tudo isso, e sabe que dele não poderia esperar outra coisa. No fundo, a violência do cineasta não agride porque é de mentirinha, exala fantasia, é puro cinema. E vem recheada de bom humor. Bastardos Inglórios é um faroeste do século 21.

As cenas são longas, colocando à prova todo o talento do elenco. O material de divulgação do filme dá a entender que Brad Pitt é a estrela, mas não é. O galã e chamariz de bilheteria está correto como o caricato líder dos Bastardos (com direito a um sotaque sulista que fica entre o engraçado e o irritante), mas quem dá um show é o austríaco Christoph Waltz. Ele arrasa como o coronel nazista Hanz Landa - um vilão astuto, cínico e muito erudito (fluente em quatro idiomas!), que extrai um profundo prazer da própria perversidade. Com sutileza e muita personalidade, Waltz já garfou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e, se bobear, acaba levando um Oscar.

Como se não bastasse, o filme tem pelo menos dois colírios. Mélanie Laurent é uma francesa linda de doer, tipo bonequinha - é como se a Carla Camurati rejuvenescesse quinze anos e pegasse emprestado o cabelo da Uma Thurman. Já o troféu Delícia Cremosa vai para Till Schweiger, que interpreta um dos Bastardos caçadores de nazistas. Pense em um Val Kilmer germânico, loiro e viril, com olhos azuis muito ameaçadores, quase um psicopata. Já me imaginei em um calabouço qualquer de Berlim, levando uma boa dura dele e achando tudo lindo. Pena que ele morre na metade da história.

Com fotografia, som, figurino e direção de arte impecáveis, Bastardos Inglórios consegue a proeza de se sobressair em meio a tantos outros filmes notáveis da carreira de Quentin Tarantino. Um programão que agrada desde o cinéfilo mais atento até o freqüentador dos Cinemarks da vida, que está apenas em busca de um pouco de entretenimento. Até mesmo porque ele é cheio de referências cinematográficas subliminares, mas o espectador não precisa entender nenhuma delas para se divertir.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Rapidinhas de segunda

ÜBER FAIL Depois de tantos comentários sobre Brüno, tive que ir conferi-lo e tirar minhas próprias conclusões. Não consegui entender o hype: achei o filme muito, muito ruim. Diziam que era um tapa na cara dos homofóbicos, mas não vi ali nenhuma mensagem realmente educativa para os héteros. As pretensas "críticas" que o filme faz são rasas e superficiais e ele ainda reforça estigmas negativos, levando o público leigo a inevitáveis associações entre o ridículo protagonista e os gays em geral. Como espectador gay, não me senti vingado, e sim constrangido. Tudo isso seria perdoável se ao menos o filme fosse engraçado, mas o humor eurotrash de Sacha Baron Cohen consegue ser apenas infame, chulo, vulgar e de péssimo gosto. Talvez eu não teria tido uma surpresa tão ruim se tivesse visto Borat. Agora entendo que tê-lo evitado foi uma decisão acertada.

BOCA LIVRE Com as contas dos jantares cada vez mais altas, a gente fica bem feliz com a notícia de mais uma Restaurant Week em São Paulo. É uma ótima oportunidade para testar lugares novos, ou mesmo comer em restaurantes que normalmente não caberiam no orçamento. Depois do sucesso das edições anteriores, o número de casas participantes cresceu, assim como a duração do festival: agora são catorze dias (de hoje até o dia 13/9). Só os preços continuam os mesmos - R$27 no almoço e R$39 no jantar. Entre as novidades, endereços caros como Antiquarius (estrelado português com sede no Rio) e Porto Rubaiyat (que serve versões 'populares' de seus peixes em sistema de bufê). Confiram os menus no site no festival e programem-se - os endereços mais concorridos estão trabalhando com reservas e esgotando rapidamente a capacidade diária.

LUVA DE PELICA Já que é impossível elogiar e bater palmas para tudo, quem consegue dar seu recado sem criticar abertamente e ganhar desafetos se sai melhor. A coluna de Monica Bergamo na Folha de sábado mostrou a estreia de Jesus Luz como DJ no Royal, em São Paulo. Consta da coluna que o toy boy de Madonna tocou um insosso poperô comercial, levantando os braços com os dedinhos apontados para o alto, batendo palmas e gritando "uhu". Na tentativa de parecer cool (ou esconder sua insegurança), o moço escondeu o rosto com óculos escuros, cafonice típica de seu padrinho Paul Oakenfold. Esperto, o repórter conseguiu retratar o mico de Jesus sem se comprometer. Bastou colher a opinião do público: os gongos dos freqüentadores renderam ótimas aspas e, para todos os efeitos, o jornal não meteu o pau no menino.

CAFUÇU É O TEU C... Quem acompanha este blog há mais tempo já sabe que, quando o assunto é homem, tenho um especial apreço por tipos rústicos, morenos e bem brasileiros, desses que povoam as ruas de cidades como Recife e Salvador. Aprendi com os pernambucanos a chamá-los de cafuçus, incorporei o termo imediatamente e vários colegas blogueiros fizeram o mesmo. Dia desses eu estava conversando com um baiano lindo, chamei o cara de cafuçu e ele ficou enfezadíssimo! Eu disse a ele que, saindo da minha boca, aquilo era um elogio carinhoso (já chamei caras de "meu cafuçuzinho" mais de uma vez) e, mais calmo, ele explicou que eu deveria deletar essa palavra, especialmente quando estivesse na Bahia. Além de ser gíria de pernambucano, povo com o qual o baiano tem "quizila", ali ela tem uma conotação extremamente pejorativa. Prometi me policiar e fiquei agradecido: não quero correr o risco de perder nenhum cafuçu-delícia só por tê-lo chamado elogiosamente de cafuçu...

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Divã: reinventando a própria história

Não gosto de filmes com anões e elfos. Ou magos e bruxos. Ou galáxias distantes. Ou cachorros inteligentes. Ou machos-alfa que grunhem "uga buga" enquanto trocam tiros e sopapos e se esquivam de explosões, em seqüências de ação "cinematográficas". Ou desenhos animados que viram trilogias intermináveis. Eu gosto mesmo é de filmes que tratam de histórias humanas. Se eu puder me identificar com elas, então, melhor ainda. Por isso, adorei Divã, filme estrelado pela Lília Cabral - atriz que ganhou ainda mais o meu respeito, e passa a impressão de ser uma pessoa muito simpática na vida real.

Aí alguns podem dizer: "Putz, então você se identifica a história de uma balzaquiana que vê seu casamento degringolar, precisa dar um up na vida e vai fazer terapia?! Que coisa mais triste!" Que nada: Divã é um filme leve, "pra cima" e otimista. Tem momentos deliberadamente feitos para serem engraçados (a cena em que a protagonista Mercedes prova um baseado dentro do carro é antológica), mas o grande trunfo são as tiradas espirituosas do livro de Martha Medeiros, que ganharam mais força na tela. A adaptação foi muito fiel ao texto original, com pequenas atualizações. Em uma delas, por exemplo, Mercedes se joga num clube gay (aliás, só mesmo no cinema duas pessoas conseguem entrar juntas no banheiro da The Week sem que a segurança derrube a porta e faça um escândalo...)

O filme passa voando, da mesma forma que o livro, que você lê num só trago. É sempre inspirador ver histórias de gente que quebrou seus próprios paradigmas e ousou se reinventar, passando a viver uma vida mais solta e livre. A sociedade espera que as pessoas se aquietem depois de uma certa idade, mas nunca é tarde para repensar as escolhas, permitir-se experimentar outras coisas, outros parceiros, outras ondas. De certa forma, passei por algo parecido depois de ter sido atropelado, em 2006: aquele acidente em Copacabana foi o divisor de águas de uma vida nova, da qual o melhor exemplo é o curso de jornalismo que vou continuar fazendo ("você não vale nada, mas eu gosto de você!").

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um lassi no inferno

Se uma dona-de-casa finlandesa alugar os DVDs de Cidade de Deus ou Tropa de Elite em uma locadora de Helsinque, será compreensível que ela descarte a ideia de passar férias no Brasil, horrorizada com a visão de um país onde crianças de oito anos correm descalças empunhando pistolas automáticas e montanhas de pneus queimam e assam pessoas no meio da rua.

Dentro desse mesmo espírito, quando vi o filme Quem Quer Ser Milionário, de Danny Boyle, tive a nítida convicção de que eu não visitaria a Índia nem por vinte milhões de rúpias, nem que o Malvino Salvador fosse meu acompanhante. A fita vencedora de sete Oscars mostra uma nação miserável, suja e nauseabunda, em que turistas são invariavelmente depenados, enquanto mercenários escravizam crianças pobres e arrancam-lhes os olhos, para em seguida explorá-los como cantores cegos.

Ao mesmo tempo em que admiro pessoas com cultura global, sempre interessadas e dispostas ao contato com outras realidades e civilizações, constatei que minha curiosidade em relação a culturas diferentes vai só até Tóquio e Istambul, e olhe lá. Em relação à Índia, eu bebo lassi, faço uma aulinha solta de ioga, como os PFs temáticos do Gopala, e namastê, meu bem. Meu amigo Tony que se aprofunde no resto - e nem precisa me convidar para os filmes de Bollywood que ele tanto adora (podem me chamar de cabeça-dura, que eu não ligo; todo mundo é mais curioso com alguns assuntos e menos com outros).

Feitas essas considerações, saí do cinema muito satisfeito. Não sei dizer se Slumdog Millionaire foi superestimado ou realmente vale todo o hype, só sei que foi o filme mais legal que vi no ano até agora. Depois da primeira meia hora, a história foi ganhando ritmo, criei empatia com o protagonista e fui gostando mais e mais, até achar que estava diante de um filmaço. Aos que ainda não viram, recomendo: vale até o choque de realidade e o desconfortável mergulho no mundo-cão.

[Nota mental: "esforçar-se para ver os filmes no mês em que eles entrarem em cartaz!"]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Vicky, Cristina y el verano del amor*

Qual a melhor maneira de gerenciar a vida afetiva e conduzir as escolhas que aparecem pela frente: com a razão ou com a emoção? Para descobrir qual é o homem certo para nós, precisamos sair com os errados? Antes de casar e "sossegar o facho", é importante ter vivido uma certa cota de experiências, que lhe permitam se conhecer bem? Uma pulada de cerca é sempre inofensiva se for bem-feita, ou pode colocar tudo a perder, mesmo sem ser descoberta? Vale a pena correr o risco? Vale a pena não correr o risco? Quem sou eu e o que quero de um homem, afinal?

É incrível quantos questionamentos dá para extrair de um filme tão leve quanto Vicky Cristina Barcelona, que está em cartaz há um bom tempo, mas só consegui ver ontem. O longa conta a história de duas amigas americanas que vão passar o verão na capital catalã. A certinha Vicky está prestes a se casar e vai a Barcelona para concluir os estudos para seu mestrado. Cristina é o oposto: descompromissada, impulsiva, faz o estilo deixa a vida me levar enquanto tenta descobrir quem é e o que curte. Quem está naturalmente aberta a viver aventuras é ela, mas a tentação também cruzará o caminho de Vicky, para quem a viagem terá um significado inesperado.

Ágil e divertido, Vicky Cristina Barcelona tem roteiro inteligente e bem amarrado, com direito a algumas reviravoltas - não é uma daquelas fitas em que, na metade, você já sabe qual será o final. O filme aproveita ao máximo a beleza de Barcelona e extrai cada gota do carisma de Scarlett Johansson, Penélope Cruz e especialmente Javier Bardem, o casanova irresistível que traça todo o elenco feminino do filme. O melhor de tudo: quem assina Vicky Cristina Barcelona é Woody Allen, mas ele não dá as caras o filme inteiro, poupando-nos de suas atuações irritantes. Teria sido muito bem colocado no meu ranking de melhores de 2008, se eu tivesse conseguido vê-lo apenas alguns dias antes...

(*) O título faz referência à música "La Revolución Sexual", do grupo catalão La Casa Azul, que eu descobri lendo o blog do Toot-sie e não consigo parar de ouvir... é tudo de bom e mais um pouco! Adorei a dica, já é a trilha oficial do meu verão!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Urrul, o cinema é nosso!

O surgimento das novas mídias trouxe mudanças fantásticas ao universo da comunicação. Entre as novidades, uma das mais importantes é a participação do público no processo de produção e gestão de conteúdos. Se antes éramos meros receptores estáticos, agora só é passivo quem quer (ueba!). Podemos começar um blog, produzir conteúdos especializados sobre um certo assunto e emitir opiniões de forma independente. Formar uma banda de rock e distribuir nossa música sem intermédio de uma gravadora. Produzir um vídeo e fazê-lo ser visto por milhões de pessoas. Ou mesmo socializar nosso conhecimento participando da redação de uma grande enciclopédia comunitária. Agora, mais uma possibilidade se abre: a de escolher os filmes que queremos ver - não em casa, mas no próprio cinema.

Quem está por trás da novidade é a MovieMobz, uma comunidade virtual que coordena a mobilização de cinéfilos e faz a ponte entre eles e as salas de exibição. A idéia é tão simples, que a gente até se surpreende que ninguém pensou nela antes. Você se cadastra, cria seu perfil, escolhe o filme que quer ver e também o cinema de sua preferência. Isso começa uma mobilização, à qual aderem outras pessoas, entre membros da comunidade e amigos que você convidar. O site gerencia o processo e faz a sessão acontecer (veja como funciona, passo a passo). É a filosofia do "cinema por demanda": a programação das salas, antes imposta pelos distribuidores, passa a ser definida pelo próprio público, que decide o que quer assistir, quando e onde.

E o que assistir? As opções são muitas. Pode ser aquele blockbuster que você não teve tempo de ver e já saiu de cartaz. Ou uma dessas produções gringas bacanas que, por razões comerciais, nem chegaram a entrar no circuitão brasileiro. Ou mesmo aquela fita gay que só passou uma única vez na Mostra ou no Mix e você não conseguiu conferir, porque o horário era inviável ou a sessão lotou. Pode até ser um clássico do cinema - basta que o filme tenha uma versão digitalizada (aos poucos, a comunidade irá formando um acervo digital, que poderá ser exibido ao público). Você escolhe, começa a mobilização e a comunidade cuida do resto.

O consumidor realiza o desejo de ver o filme escolhido no conforto de um cinema e também ganha a chance de conhecer pessoas que têm as mesmas afinidades, tanto na comunidade como na própria sala de exibição - já que todos estão ali unidos pelo interesse por aquele filme. Os cinemas lucram com a possibilidade de adequar sua programação ao desejo de seus consumidores, o que aumenta a taxa de ocupação das salas e gera fidelização. E quem faz filmes também se beneficia, porque passa a ter um canal de contato direto com seus públicos.

O MovieMobz começou em julho deste ano, no Rio de Janeiro, e hoje promove sessões em 122 salas de exibição de 18 cidades brasileiras. Hoje, por exemplo, a comunidade está promovendo uma sessão do filme Juno - um dos filmes mais fofos que passaram esse ano, trailer aqui - no Espaço Unibanco da Rua Augusta, às 22h. A sessão é aberta ao público e o preço é mais do que camarada: R$6, com direito a meia-entrada. Há vários outros filmes com sessões marcadas no site. Iniciativas bacanas como essa precisam ser incentivadas, portanto vamos prestigiar.

sábado, 15 de novembro de 2008

Finalmente, a nossa maratona de cinema

Como se não bastasse tudo o que eu já estou tendo que conciliar e encaixar nesses loucos dias de equilibrista na corda bamba, agora começou mais um Festival Mix Brasil, e eu vou ter que dar um jeito de escapar das incansáveis obrigações para assistir a alguma coisa. Tenho um carinho enorme pelo Mix, que há muitos anos é uma das datas fixas mais esperadas do meu calendário pessoal. É uma chance única de ver longas e curtas sensacionais (e alguns bem ruinzinhos também), que jamais teriam espaço no circuito oficial, mesmo em se tratando de uma cidade tão ávida por bens culturais ligados à diversidade sexual como São Paulo.

Todo ano, faço minha listinha e vou encaixando na minha rotina como dá. Gosto especialmente das comédias gays, que costumam ser leves, bem-resolvidas e inteligentes (embora algumas ainda resvalem em clichês bastante surrados), mas também me interesso por alguns títulos mais melancólicos (um traço que eu sempre carreguei em mim) e pelos documentários - de questões familiares da vidinha gay urbana até realidades absolutamente distantes de nós, o festival é uma janela aberta para o mundo, e abre a cabeça de quem embarca nele.

E tem todo o fervo em volta, claro. Sempre digo pros amigos não-iniciados que o Mix é um dos eventos onde mais se conhece gente bacana. Carinhas com quem você esbarraria na noite e também pessoas muito interessantes que você simplesmente não vê por aí e te fazem perguntar: "mas onde será que eles se escondem?". Nascem ótimos papos, amizades renovadoras e, às vezes, outros teretetês. Sou contra a idéia de sair de casa com a idéia fixa de "arranjar alguém", mas, que o Mix é um celeiro cheio de bons partidos, disso não tenho dúvida.

Comecei a vasculhar a programação agora e já vi que terei muito trabalho. Aqui vão os links de alguns filmes deste fim-de-semana que chamaram minha atenção: Fuera de Carta (que já passou na Mostra), 30 é o novo 20, Devotee, Good Boys, Xaviera Hollander, Roxxxane, Sexo dos Anormais, Another Gay Sequel II e Too Hot in Tel-Aviv. Entre os curtas, os da mostra Competitiva parecem promissores (um deles parte dos contos do Caio Fernando Abreu, outro é protagonizado por Ney Matogrosso e um terceiro promete aquela dose de pastelão que eu sempre achei bem-vinda) e os da Sexy Boys, sempre divertidinhos, desta vez têm argumentos menos bobos do que os das últimas edições do festival.

Tem gente que questiona se ainda existe um motivo para termos uma mostra de cinema gay, a começar pela própria diretora do Mix, Suzy Capó (que eu não conheço pessoalmente, mas com quem sempre simpatizei). Isso foi, inclusive, o objeto de um debate no MIS anteontem. Da minha parte, acho que os propósitos do festival continuam válidos. Iniciativas interessadas no tal pink money pipocam aqui e ali, mas os grandes investidores, los dueños de la bufunfa, ainda são bastante resistentes a aplicar seus tostões e ter sua imagem associada à cultura "GLS". Prova disso são as próprias dificuldades financeiras que o festival ainda enfrenta, aos dezesseis anos de idade. E outra: se existe sentido em uma mostra de cinema brasileiro, italiano, francês ou judaico, por que não um festival que agregue obras do mundo todo que tenham como denominador comum a expressão livre e plural das sexualidades?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Pergunta para o casal de Baby Love: não querem me adotar também?

Um dos fortes candidatos ao troféu de filme-gracinha de 2008 é o francês Comme Les Autres, que no Brasil recebeu o título de Baby Love. O protagonista é Emmanuel, pediatra gay que sonha em adotar uma criança. O primeiro obstáculo a esse desejo, Manu encontra dentro de casa: seu companheiro Philippe simplesmente abomina a idéia de criar um bebê, o que coloca a relação do casal em xeque-mate. Para complicar ainda mais, a mesma França que tem uma postura permissiva em relação ao aborto não admite a adoção por gays. Depois de tentar enganar o serviço social passando-se por hétero, Manu vê em uma imigrante argentina a chance de realizar o sonho de ser pai. Mas essa solução não será tão fácil quanto ele imagina.

O longa fez sucesso na França, onde foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas. Já a crítica brasileira não se entusiasmou muito com ele. Meus amigos, em geral, adoraram: alguns disseram que até saíram do cinema com vontade de adotar uma criança, sendo que nunca haviam cogitado a possibilidade até então. Eu, que sempre tive ojeriza a crianças (inclusive quando eu também era uma), jamais chegaria a esse ponto. Mas adorei o filme. Baby Love aborda um tema delicado com sobriedade e leveza, e desenvolve os conflitos entre as personagens de uma forma bastante humana, enxergando o lado de todos os envolvidos. O filme é redondo, com doses equilibradas de drama, comédia e romance - fica até difícil classificá-lo.

Mas o que realmente me ganhou foram os atores Lambert Wilson e Pascal Elbé, que formam o casal gay do filme. Elbé, em especial, é tão fofo que eu fui me derretendo, me desmanchando e, no final da exibição, já estava completamente dissolvido na poltrona e apaixonado por ele. É um marido desses que eu quero ter ao meu lado. Talvez esteja aí a maior virtude do filme: ele conseguiu dobrar minha fase Leila Diniz e me mostrou que, por baixo desta criatura independente, prática e sexualmente emancipada, ainda bate um coração pra lá de romântico.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Mamma mia, que viagem deliciosa!

Quatro vezes por ano, a sobrecarga de semana de provas mais escritório me obriga a sumir do mapa, até a tormenta passar e eu conseguir dar conta de tudo. Aí, quando volto à vida normal, tenho um moooonte de leituras e filmes acumulados para colocar em dia. Ontem fui ver Mamma Mia!, versão para o cinema de um musical de sucesso feito a partir das canções do saudoso grupo sueco ABBA. Eu definitivamente não sou um cara de musicais: costumo achá-los cansativos, me irrita esse lance de toda hora o enredo ser interrompido e os atores pararem de interpretar para cantar. Mas adorei esse - um dos filmes mais legais que eu vi no ano, pelo menos até agora.

Numa ilha grega deslumbrante, a jovem Sophie, filha de mãe solteira, está às vésperas do seu casamento. Lendo relatos amorosos de um antigo diário da mãe, sem que a dita cuja saiba, ela descobre seus três possíveis pais - e decide convidá-los para a cerimônia. No desenrolar da história, os sucessos do ABBA vão aparecendo um a um: "Super Trouper", "Voulez-vous", "Dancing Queen", "Gimme Gimme Gimme", "S.O.S.", "Take a Chance On Me" - e a faixa que dá título ao musical, é claro. Só senti falta de "One Of Us" (que aprendi a gostar com a versão do A-Teens, grupinho efêmero que regravou os hits do quarteto em 2000).

Meryl Streep - que conquista minha admiração mais e mais a cada dia - arrasa no papel principal (Donna, a mãe de Sophie), mostrando surpreendentes dotes de cantora (sua interpretação de "The Winner Takes It All" tem uma carga dramática quase visceral). Mas todos os demais atores do elenco têm a sua vez de soltar o gogó, e eles se saem muito bem - até mesmo Pierce Brosnan, o homem mais charmoso da Inglaterra, que eu jamais imaginaria num musical. As duas atrizes que fazem as fiéis amigas de Donna são divertidíssimas - destaco a Christine Baranski, uma atriz cujo nome eu nunca acertei (só me saía "Christina Prochaska") e que tem uma veia cômica nata. Eu gosto dessa mulher de graça, até de boca fechada.

O mais surpreendente é como as músicas vão se casando com perfeição ao enredo. Um incauto poderia até pensar que o finado quarteto compôs as músicas para esse filme, de tão natural que é o encaixe. E as interpretações dos atores conseguem dar um fôlego renovado ao trabalho do grupo. O musical tem um ritmo redondo (não dá aquela "desandada" no meio) e o visual paradisíaco da Grécia é um deleite extra para os olhos (só confirmou que essa será minha próxima grande viagem, não importa quanto tempo isso vá demorar). Mais do que isso, é a melhor terapia para um domingo chocho, porque você logo entra no esquema e acaba cantando junto o tempo todo (eu me surpreendi ao constatar que conhecia as letras mais do que pensava). Mas quem não conhece também se diverte, porque Mamma Mia! tem um astral altíssimo, com direito a uma inesperada reviravolta no final. Saí de lá leve, alegre e com uma vontade enorme de ouvir mais ABBA. Se meu primeiro namorado ainda estivesse vivo, eu faria questão de encontrá-lo só para a gente cantar "Voulez-Vous" falando o "a-ha!" um na cara do outro, como nos nossos velhos tempos.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Começou mais um Festival do Rio

Começa hoje no Rio de Janeiro mais uma edição do Festival do Rio. A animada mostra de cinema dos cariocas irá até o próximo dia 9 de outubro e marcará presença por toda a cidade: além de ocupar salas no Centro, na Zona Sul e na Barra, também fará sessões em lonas culturais montadas pela Prefeitura em bairros do subúrbio, como Bangu, Realengo e Santa Cruz.

A programação do Festival sempre traz vários filmes dedicados à temáti-caguei e à diversidade sexual. A mostra Mundo Gay deste ano terá 13 longas, entre ficções e documentários, de países como Brasil, Itália, EUA e Islândia. O Mix Brasil publicou as sinopses de alguns dos filmes e vários deles me pareceram interessantes.

Infelizmente, como acontece todos os anos pelos mais variados motivos, minha agenda não vai me permitir conferir o Festival do Rio. O que me resta é torcer para que algumas das fitas sejam escaladas também para a Mostra Internacional de SP (longa, caótica e que me dá uma preguiiiça...) ou para o Festival Mix Brasil (que sempre traz alguns filmes bacanas). Mas fica a dica para os sortudos que morarem ou estiverem pelo Rio. Maiores informações aqui.

sábado, 5 de abril de 2008

Black is beautiful

Quem me conhece bem sabe que não resisto a uma boa pele morena. Fico doidinho, acho que um pouco de melanina a mais dá um senhor sex appeal a qualquer homem. Deve ser porque sou branquíssimo (quase fluorescente) e os opostos se atraem...

Depois de ficar babando com as fotos de um tal jogador Adriano, do São Paulo, que encheu as páginas dos jornais dessa semana, quase caí para trás com a capa da última Vogue norte-americana. Ela mostra nossa musa Gisele Bünchen ao lado de um verdadeiro deus grego da raça negra, o jogador de basquete LeBron James, do Cleveland Cavaliers. Que cara de mau! Que bração! Vejam só que sortuda a Gisele sendo pega pela cintura por ele...

Na falta dos States, temos Salvador - que é logo ali, bem mais barata e cheia de negros lindos, com muito amor pra dar e com uma ginga e um tempero que só os baianos têm. Até 11 de abril acontece por lá a mostra de cinema gay Possíveis Sexualidades, no Instituto Cervantes, ali na Ladeira da Barra. A programação tem longa-metragens e documentários brasileiros e estrangeiros - entre eles, o argentino XXY (sobre um jovem hermafrodita), o brasileiro Onde Andará Dulce Veiga? (com Patrícia Pillar) e o fofíssimo espanhol Filhote (prato cheio para quem curte bears gostosões). Depois, dá para dar aquela pinta básica no Porto da Barra e, com sorte, cair nos braços de algum "brau". Ou apostar na boate Off, que foi reformada em 2007 e continua dando um bom caldo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Rapidinhas cinematográficas

CARREIRA METEÓRICA. O cinema nacional está vivendo um duradouro caso de amor com a bandidagem carioca. Depois dos bem-sucedidos Cidade de Deus e Tropa de Elite, a realidade do narcotráfico volta às telas em Meu Nome Não É Johnny. Adaptado de um livro de mesmo nome, o longa conta a história (real) de João Guilherme Estrella, adolescente de classe média que, de inofensivo usuário de maconha, acabou se tornando um dos maiores traficantes de cocaína da Zona Sul carioca na primeira metade da década de 90. Selton Mello (que, nas novelas, eu sempre achei meio insosso) conseguiu imprimir sua marca pessoal no protagonista, ao mesmo tempo malandro, carismático e humano. Ótimas também as atuações de Cássia Kiss (como a juíza que cuida do caso), Eva Tudor (como uma fofíssima fornecedora de, hum, "ambrosias") e Cléo Pires - cada vez menos a filha de Glória e mais uma mulher com luz própria. O filme evita maniqueísmos, sermões e lições de moral, e ainda passa uma mensagem positiva no final.

ISSO SIM QUE É DIVA. Se me perguntarem quem eu acho que merecia ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo sem ter visto o trabalho das outras indicadas, não terei a menor dúvida em responder: a francesa Marion Cotillard. Em Piaf - Um Hino ao Amor, a atriz se entrega de corpo e alma ao papel da cantora Edith Piaf (1915-1963), que não teve uma vida nada fácil: foi criada aos trancos e barrancos, ora pela avó dentro de um bordel, ora pelo pai artista de circo, tinha uma saúde frágil (chegou quase a ficar cega) e foi sucessivamente arrancada de perto das pessoas a quem se apegava. Mas, além de tristonhos olhos azuis, a pobre menina tinha o dom da voz e uma incrível força de vontade, que a ajudou a encarar as dificuldades até se tornar a grande cantora que foi. A narração em vaivéns, intercalando os bons e maus momentos da vida de Edith, ajuda a não deixar a história tão pesada. Mesmo assim, saí do cinema com a cara "dessstamanho" de tanto chorar. A atuação de Marion - intensa, visceral, apaixonada - é simplesmente emocionante. Brrravô!

PARA INGLÊS RIR. A Inglaterra costuma brindar o cinema mundial com comédias leves, inteligentes e absolutamente despretensiosas. Depois de me acabar vendo Piaf, voltei a ter razões para sorrir com Morte no Funeral, do mesmo diretor de Será Que Ele É?. Na fita, uma típica família de classe média-alta inglesa se junta para o funeral de seu patriarca. Na reunião, vêm à tona paixões, rivalidades e, como não poderia deixar de ser, confusões. Alguns dos personagens forçam a barra na tentativa de parecerem divertidos (o que também é tipicamente inglês), mas um deles em especial rouba a cena, depois de ingerir uma potente droga por engano e ficar literalmente alucinado no meio do velório. Antes que essa piada perca a graça, a trama tem outra reviravolta, com a chegada de um misterioso anão, que tem um segredo que pode fazer a família desmoronar. O filme não chega a ser impagável, mas é divertido, ágil e de bom gosto - uma bênção, se pensarmos na baixa qualidade das comédias acéfalas do cinema norte-americano atual.