segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

DOM: a revista gay que a Abril não fez

Eu fui um fã ardoroso da finada revista Sui Generis. Editada entre 1995 e 2000, ela trazia atualidades, moda, consumo, política e excelentes reportagens de comportamento – tudo muito bem-escrito, mas sempre num tom gostoso de ler. A última edição saiu em março de 2000, mas suas pautas continuam atuais: união civil, ditadura do corpo, ménage à trois, abuso policial, adoção, compulsão sexual, ciúme, drogas, gene gay, vigorexia... As entrevistas também eram muito boas – de Gerald Thomas a Constanza Pascolato. Quando ouvi falar que o criador do projeto da DOM tinha bebido na mesma fonte da Sui, não pude conter minha expectativa.

A verdade, porém, é que a DOM não se parece com a Sui: lembra mesmo - e muito - a revista feminina Nova, de quem herdou o design. Apesar do discurso inclusivo do diretor de redação (“queremos que todos os gays, lésbicas e simpatizantes sintam-se à vontade por aqui”), seu conteúdo parece mais afinado com os interesses de homens gays de 35 a 55 anos – bem-resolvidos, cultos, exigentes e, sobretudo, muito bem posicionados financeiramente. Gente que constrói a própria casa sem economizar no acabamento, aproveita o que a vida tem de melhor e é capaz de investir R$ 629 numa coleira Louis Vuitton para o cachorro. As páginas de moda são freqüentadas por marcas como D&G, Dsquared, Ricardo Almeida, Energie, Paul Smith e Dior Homme, enquanto a agenda cultural inclui dicas de espetáculos, exposições e restaurantes em Paris, Madri e Nova York.

Nada de errado em ser uma revista para balzaquianos bem-sucedidos. O tal pink money faz cada vez mais barulho mundo afora – não é apenas uma questão de poder de consumo, mas também de visibilidade social, ascendência cultural e até mesmo força política (especialmente nos EUA). E o Brasil ainda não tinha nenhuma revista que dialogasse com esse público – um nicho formidável, esperando para ser explorado. Isso sem falar que toda publicação precisa de retorno financeiro; focar num leitor bem qualificado atrai bons anunciantes e garante boas vendas em banca – verdade seja dita, não são as penosas que vivem mendigando entrada vip na boate que vão gastar dinheiro comprando revista...

Além disso, o fato de ser madura não fez dela uma revista menos moderna. A DOM é visualmente sedutora – a começar pela maravilhosa capa de estréia, que deu um banho nas da Junior (apesar do logotipo um tanto sem graça). É antenada e refina para o leitor o que há de melhor por aí: gadgets, comidas, badalações. E tem os olhos abertos para o fashion, sim senhor – embora não se limite a ele. A parte de moda traz frescor (é bem mais arrojada que a da VIP, por exemplo), sem deixar de ser aproveitável por quem não vive mergulhado nesse universo.

Outra questão que faz diferença: é sempre um prazer ler uma revista bem-acabada, feita por quem entende do assunto. Já nas primeiras páginas, a qualidade dos textos se destaca – os editoriais são extremamente bem-escritos, mostram a que veio a revista e tratam o leitor com o cuidado que ele merece. Esse mesmo cuidado se nota nos demais textos: não se vêem erros crassos de revisão, coisas ainda cruas, entregues às pressas. Alguns chamam isso de “padrão Abril de qualidade”; eu chamo de respeito ao leitor.

No entanto, ainda falta algum tempero à DOM: ela é redondinha, mas não é irresistível. Não tem o apelo de uma VIP ou uma Playboy – revistas que são desejadas pelo leitor e seduzem suas retinas na banca. E não falo aqui de sexo fácil: falo de irreverência, sensualidade, algum bom-humor e jogo de cintura. A DOM fez a lição de casa direitinho, mas ainda está um pouco tímida, certinha, puritana. Está muito séria, muito paulista – tinha que ser um pouco mais marota, mais carioca. Na entrevista com o casal Piva & Tufvesson, por exemplo, não dava para ter colocado uma pimentinha? Eles já viveram e viram tantas coisas, será que tudo o que dava para tirar deles era aquilo?

E outra: consumo é fundamental (“Material Girl”, da Madonna, bem poderia ser um hino gay), mas nosso universo não se reduz a isso, nossa vida não é cor-de-rosa o tempo todo. A DOM transita com desenvoltura pela sala de estar, pelo living onde se mantêm as aparências para as visitas – mas ainda não chegou ao quarto, à garagem e ao porão, onde estão as questões que afligem todos nós. E dá para tratar dessas questões sem perder a elegância e o alto-astral – como a Sui fazia.

Se der mais espaço a matérias de comportamento, a revista poderá trazer assuntos novos e ampliar seu público, concretizando a diversidade a que se propôs. É legal fazer um “manual do bon vivant gay”, mas a DOM pode ser muito mais do que isso, se quiser. Ela tem condições de ser a principal revista gay do Brasil – falando de cultura, sexo, moda, consumo, comportamento, tudo. Se combinar reflexão e modernidade, sem cair na caretice, a DOM – que já é cheia de predicados – pode se tornar uma revista arrebatadora.

15 comentários:

Celso Dossi disse...

Claro que vou comprar essa DOM ae :)
Ah, valeu pelos elogios, pela correção (sempre bem-vinda, sou meio atrapalhado) e pela dica do Leme. Ficou bem melhor mesmo hahahaahhahaha
Quanto aos nomes, essa é a melhor parte. E vou usar "Genoveva" no próximo, eu adoro falar isso.

www.blogdorenato.com disse...

adorei seus ultimos comentarios, comprei a DOM mas nao comprei a JUNIOR... achei muito "turmina", do jeito que vc descreveu abaixo... sei muito bem como funciona, afinal, trabalhei para eles.

A DOM épara vc ficar com um tipo de conhecimento mais "arrojado"...para quando voce encontrar suas amigas finas no verão carioca e só...infelizmente não faz parte da minha vida e gostaria de ter meu dinheiro de volta naquelasfolhas impressas com coleiras para cachorro... por favor!

Gostei das matérias da DOM, é uma coisa diferente do que se encontra na internet (diferente da Junior que o Mix Brasil não resiste e joga aos poucos na rede)

Tbm concordo com vc, falta humor... mas fiz questão de ter aquela Absolut Disco, vc esta convidado para um drink aqui em casa.

Leco disse...

Bem escrito mas gostoso de ler?
Me explica: coisas bem escritas não são gostosas de ler?!?

Olha, a Sui Generis era legal, mas nem tanto... Ou nem um pouco...

A Dom eu não li ainda, mas pelo o que eu consegui entender do seu post - confesso que me deu preguiça de ler tudo, como sempre -ela deve ser um tanto chata.

Precisamos mesmo de uma revista gay? Já temos tantas: Vogue, Vogue RG, Men's Health, etc.

Essa mania gay de achar que todo mundo é viado, e que tudo que é feito pra gays é legal dá um soninho...

Menos 5 pontos.

Holiday, Caralho! disse...

Curti mais a Junior, mas acho que a DOM tb deu o recado bem dado.

Gui disse...

"Essa mania gay de achar que todo mundo é viado, e que tudo que é feito pra gays é legal dá um soninho..."

E deparar com uma matéria "989 maneiras de enlouquecer sua mulher na cama"?
Essa mania de alguns jurarem que podem se enquadrar no padrão hetero e que nao têm problemas a serem resolvidos me cansa e dá um soninho...

Quero ler sobre casais, noite, comportamento, problemas, sexo gay. E nao há problemas nisso.

A Dom é mais classuda e mais redonda do que a Junior. Mas parece ter esgotado todos os assuntos possiveis do universo gay-rico-35anos.
Sem matérias sobre comportamento ou fatos mais atuais, até onde vai?

Ah, tá bom! disse...

Gostei de sua análise da DOM, concordo com a maioria das coisas. Bem, é a primeira edição e aposto que eles vão se mover para alguma direção: seja para o extremo-futil-de-uma-gay-vogue, seja para o cultura-cabeça-moderno.

Sabe que revistas eu gosto bastante porque são despretenciosas? A Trip e a TPM. Ainda falta humor e personalidade para a DOM. Acho que com algum tempo de estrada a tanto DOM quanto a Junior vão amadurecer e ficarem mais legais ainda.

Mas dá bastante orgulho de ver revistas lindas, com fotos bacanas, textos bons e anunciantes de peso. E gays. Se me contassem isso há 5 anos atrás eu diria que era pura balela.

Vítor disse...

Eu acho a DOM tão interessante quanto uma VIP ou uma Trip: muito pouco. Formatadinha, certinha e bonitinha, mas ordinária ao extremo. Um oceano de "conhecimentos" sem profundidade. E tudo muuuito óbvio. Só faltou indicarem um CD da Sarah Vaughan.

Prefiro uma coisa mais segmentada, certamente. Quando eu quiser ler sobre fitness, compro a Men's Health. Quando for ler sobre moda, uma das 800 que existem. Sobre música, leio nos sites da Pitchfork, NME, Uncut etc. E por aí vai...

Acho que falta à DOM um diferencial. Pretendo comprar uns números pra prestigiar, mas o desejo que me despertou é praticamente nulo, já que não vejo a menor graça em papinho careta-pseudo-fino de piscina de TW.

Bjs!

Anônimo disse...

Achei a DOM totalmente desinteressante. Uma revista "para bichas carteiron". Não gostei de nada, a começar pelo nome. Melhor sorte no numero 2.
Paco

Shoichi Iwashita disse...

Ótimo texto! Já até mandei para a Direção de Redação da DOM... ;-) São de críticas como essa - fundamentadas e imparciais - que os veículos gays precisam para se adequarem às nossas necessidades - que não são simples - de informação de qualidade, mas ao mesmo tempo avant-garde (até um pouco transgressor) que marcam as nossas vidas.

ash disse...

só não sei o motivo de você falar tantas vezes em "padrão abril de qualidade" ... quem lê o seu post fica a pensar que a revista é da Abril... o que não é

Leco disse...

Esse é pro Gui:

"Essa mania de alguns jurarem que podem se enquadrar no padrão hetero e que nao têm problemas a serem resolvidos me cansa e dá um soninho..."

Alguém aqui escreveu sobre padrão hétero?
Você poderia me definir o que seria um "padrão hétero"?

Tenho pena é de quem resolve seus problemas com auxílio dessas revistinhas...

introspective disse...

Tá bem movimentado isto aqui. Que legal!

Renateenho: oba! vamos detonar sua Absolut Disco!!!

Leco: Eu acho coisas bem-escritas gostosas de ler sempre. Talvez eu não tenha me expressado bem: quis dizer que eles escreviam de forma gostosa, sem comprometer a correção dos textos. E concordo plenamente com vc: não faz sentido aplaudir qualquer coisa (revista, restaurante, clube) só porque ela foi feita por ou para gays, sendo condescendente ou usando critérios diferentes dos que usaríamos para avaliar qualquer outro produto. Ou aquilo é bom, ou não é - simples assim. Quem me conhece ou me lê sabe bem que eu tenho minhas críticas a uma série de produtos “gays”...

Gui: Pois é. Acho que os gays têm alguns hábitos, valores e vontades próprios e merecem sim revistas que não ignorem essas peculiaridades - não há mesmo problema algum nisso. O que não significa que os gays não possam aproveitar muitas coisas de outras publicações não especificamente dirigidas a eles, é claro. Afinal, também não somos tão diferentes em tudo e não podemos nos trancar num gueto.

Alê: Também fiquei feliz por termos as duas revistas, ambas ainda estão no comecinho e muita coisa (boas) ainda pode sair delas. E concordo que falta um pouco mais de leveza e bom-humor à DOM - quando falei que ela precisava ser mais marota e carioca, foi nesse sentido. No próprio editorial eles mostram que têm essa preocupação, vamos aguardar os próximos números...

Vítor: Amigo, vc como sempre não perdoa, mata... hehehe. Tb acho que as duas revistas terão que criar um diferencial. Sobre as outras revistas que vc mencionou, acho que a proposta da DOM é mostrar um pouco de todos esses assuntos no mesmo lugar - então não dá para ser tão específico a ponto de concorrer com essas publicações mais segmentadas. Mesmo assim, a preocupação em escrever matérias interessantes, relevantes e de qualidade deve ser constante.

Anônimo: "Bichas carteiron"? O que seria isso? Preciso atualizar meu dicionário de palominoses...

Shoichi: Obrigado!

Ash: Eu mencionei o “padrão Abril de qualidade” apenas uma única vez em todo o texto. E acho que você não percebeu que já no título do post está dito que a revista não foi feita pela Abril...

Clebs disse...

De certo, é uma revista mais "madura". E se eu puder colocar uma visão pessoal, diria que, para mim, uma revista tem que fazer vc compra-la pelo simples fato de ter aquilo. Posse mesmo. Caso contrário, encontro tudo no Deus Google. Do video pornô ao Dior.

Uma resvista precisa dar a satisfação de que valeu a leitura e que valeu a pena a grana, o tempo, a paciência gastos na busca daquela informação, aprendizado, divertimento.

Se uma revista me deixa satisfeito quando a fecho, isso sim é uma revista, caso contrário é mais um desperdício de papel e espaço. Coisa que esse mundo não precisa!

A DOM, não deixou...mas ainda é a primeira.

Talvez vc concorde, talvez não, mas ainda sim, é a primeira.

Hugs Out

Alberto Pereira Jr. disse...

o seu título já acabou com um post q eu estava escrevendo sobre a DOM.. hehe um noticia de bastidor da abril.. hehehe

bom nao acompanhei a Sui Generis.. qdo ela deixou de ser editada ainda não tinha vivido o despertar pleno de minha sexualidade....

qto a DOM, tb achei um pouco tímida.. está bem feita.. editorialmente.. as matérias são interessantes, realmente para um publico mais velho e mais endinheirado.... em comparação com a Junior acho que a DOM perde nas fotografias, que a revista do Clã do Mix Brasil caprichou bastante.

C. Bruno disse...

Eu gostei das duas publicações DOM e JUNIOR elas vieram de encontro ao que eu procurava no momento, algo que tratasse de assuntos para os homossexuais especificamente, sou assinante da Men's Health brsileira, e sentia que alguns assuntos ficavam devendo um pouco nesse tipo de publicação. Também acho que elas possuem algumas falhas mas achei bem legal essa opção para ler revistas de meu interesse. Apesar de pertencer a faixa etária citada acima de 35 anos, ainda não me sinto capaz de efetuar os gastos citados na revista tanto de moda como de decoração mas gosto de saber e de usá-los como inspiração. Bom por enquanto é isso que penso sobre as duas revistas.