Ando meio sumido da blogosfera gay, mas não preciso ter bola de cristal para adivinhar que o assunto da semana será a reportagem de capa da Veja de hoje, que acabo de ler. Intitulada "Geração tolerância", a matéria afirma que a "rapaziada" que está vivendo a adolescência nos dias de hoje lida com a homossexualidade de forma bem mais natural. Os fofos e fofas se percebem gays com serenidade, o meio social já não os trata com diferença e, se o outing para os pais ainda causa um choque inicial, a transição para a aceitação tornou-se rápida e tranqüila. Por trás disso, estaria o desapego dessa geração a rótulos e tribos: a sexualidade deixa de ter um peso crucial na definição da identidade, dizendo tudo sobre a pessoa, e passa a ser apenas mais uma característica. Tudo do jeito que nós sempre achamos que tinha que ser.
À primeira vista, o tom otimista empolga e reconforta, mas nós sabemos que a vida ainda não é tão cor-de-rosa assim, nem mesmo nos grandes centros urbanos. Antes de sair por aí detonando o artigo, porém, é preciso considerar o tipo de veículo que o produziu. A função de revistas semanais como Veja e Época (que reproduzem o modelo consagrado pela norte-americana Time) é condensar os acontecimentos mais relevantes em um resumão que possa ser consumido por toda a família, do vestibulando ao casal idoso. Numa sociedade em que é preciso se atualizar o tempo todo, a ideia é suprir o homem moderno com o máximo de informação no mínimo tempo possível - como num fast food.
Se o desafio da Veja não é tão grande quanto o do Jornal Nacional - que, nas palavras politicamente incorretas do editor William Bonner, precisa falar com o "Homer Simpson do Brasil" - a revista tem que saber se comunicar com todo o vasto espectro da classe média brasileira, sua principal consumidora. E isso não é pouco. Na prática, para dar conta do recado, as matérias produzidas devem ser concisas, pasteurizadas e, em tese, neutras. Veja não é uma publicação segmentada, especializada, mas uma revista generalista, que atira para todos os lados, fala com todos os públicos, e portanto não tem espaço para se aprofundar, nem escrever com grande propriedade sobre os temas: ela é apenas uma porta de entrada.
Disso decorrem os furos e derrapadas que Veja dá aos olhos de quem busca nela uma visão de especialista. Para equacionar o binômio "concisão + público amplo", é preciso lançar mão de simplificações muitas vezes grosseiras. No caso específico da homossexualidade, isso redunda em visões e estereótipos que são palatáveis para o consumo da grande massa de leitores, mas não satisfazem quem já está mais familiarizado com o tema. Chamar os teens assumidos de "turma colorida" (argh, o Big Brother Brasil voltou!) ou colocar o casalzinho numa montagem fotográfica cafonérrima pintando um arco-íris na parede (tipo novela das seis com heroína infantil) são exemplos bastante ilustrativos. Dizer que "o objetivo número 1" dos participantes da parada gay de São Paulo na faixa dos 30 anos é "militar" (oi???) evidencia que quem escreveu o texto não só não tinha a menor intimidade com o assunto, como nem mesmo checou tal bobagem com algum colega gay da redação antes de publicar.
Isso não significa que a matéria da Veja seja um desastre. O simples fato de o assunto homossexualidade ganhar espaço de capa - de forma positiva - numa das publicações impressas mais influentes e vendidas do mundo já é digno de comemoração. Mais ainda: o amplo trânsito da revista junto às classes médias faz da reportagem uma grande aliada justamente onde o calo mais nos aperta. Veja pode não ser uma unanimidade absoluta, mas não há como questionar ou desprezar sua enorme capacidade de balizar mentalidades e formar opiniões. Ela pode determinar a escolha do presidente do país. Não é exagero dizer que a classe média vai aprovar o que a revista endossar.
Assim, embora a tchurminha suuuperfervida que estampou as páginas da reportagem com tanta dignidade ainda seja exceção, embora o preconceito ainda seja muito mais forte do que a revista está pintando, o Brasil precisa acreditar que ele está sendo superado, que ele deve ser encarado como coisa do passado, que as coisas já mudaram. Isso ainda é uma meia-verdade, mas Veja está ajudando a transformá-la em verdade. Tenho certeza que o efeito-dominó da reportagem será formidável, com a homossexualidade sendo discutida onde não tinha espaço, e pessoas intransigentes pensando melhor sobre suas convicções. Na pior das hipóteses, na meia dúzia de famílias brasileiras em que o filho gay escolheu o dia das mães para sair do armário, essa reportagem não poderia ter vindo em melhor hora.
domingo, 9 de maio de 2010
Artilharia colorida
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
Um parto prematuro (e desastrado)
No ano passado, a revista DOM foi às bancas às vésperas da Parada Gay com um guia de bolso, o Kit Parada DOM, feito por mim e por Marcos Costa, com a agenda das melhores festas, endereços de comes, bebes e pegações, e mais uma porção de dicas úteis para as pessoas aproveitarem. Neste ano, a Junior resolveu copiar a ideia: quem comprar a edição número 11, lançada ontem, leva de brinde um guia para a Parada. Assim que li a notícia no Mix Brasil, portal de notícias do grupo que edita a revista, fui garantir meu exemplar na banca - como, aliás, fiz com todas as demais edições, desde que a revista foi lançada (ok, minto: o número 10 eu ganhei de presente).
A essa altura do campeonato, já assimilei bem a proposta de cada uma das revistas gays do mercado, suas virtudes e suas limitações. Por isso, sei bem o que esperar de cada uma delas quando entrego o dinheiro ao jornaleiro. Acho que o Brasil hoje tem potencial e espaço para ter uma boa imprensa gay, existe uma abertura e também uma demanda por isso, pelo menos nos grandes centros. É tudo questão de formar um mercado consumidor, e também de reunir boas cabeças: gente culta e preparada, que saiba o que é uma revista e o que está fazendo ali. Ainda estamos verdes, falta ousadia e um bocado de substância, mas quero acreditar que dá para chegar lá. Enquanto espero, faço questão de continuar comprando, ajudando e prestigiando: solidariedade LGBT é isso aí. Mesmo assim, com toda a condescendência possível, com toda a vontade de gostar de tudo o que eu leio, fiquei decepcionado com o tal Guia Junior.
Não vou falar dos erros de português (especialmente concordância) que sempre aparecem na revista, porque hoje entendo que o leitor médio da Junior nem consegue perceber essas coisas, portanto não se incomoda. Mas dessa vez as derrapadas foram menos sutis: o Guia tem pérolas como "comindinhas", "brincandeira", "instrasitável", "logevidade", "pool pary", "eletrõnica", "doungeun", "enderçeo", "qunado", "nortuna". Desculpem, queridos, mas revista não pode ter esse tipo de coisa. Pô, eles têm pelo menos um jornalista que sabe escrever, que é o Hélio Filho. Se não dava pra colocarem o fofo escrevendo a revista inteira, custava terem contratado um revisor? Na pior das hipóteses, usar o corretor do Word já pouparia uma parte dos micos.
A outra parte dos micos também seria evitada com revisão, essa palavrinha que faz parte da rotina de qualquer veículo jornalístico profissional. Dos quatro hotéis indicados, três saíram com o mesmo endereço - que não é o correto de nenhum deles, e sim o do bar Farol Madalena! Será que vai chegar muita gente no bar das meninas pedindo um lugar para dormir? Com a sauna Wild, foi pior: saiu com o endereço da SoGo (que aparece logo antes) e ainda com o telefone "00 0000-0000". Pega mal, fofitos. Como é que os turistas poderão confiar em um guia em que todas as indicações podem ter sido coladas no lugar errado?
Isso sem falar na seção de festas da parada, que tem cara de coito interrompido. Eles dão quatro indicações de festas na quarta, quando muita gente ainda nem chegou em SP, e apenas uma no sábado, justamente o dia mais bombado?! A GiraSol pode até ser a favorita de muitos, mas claro que tem muito mais coisa rolando na cidade. Não adianta dizerem "você que não viu no título que eram festas off-clube", porque todas as festas listadas na quarta são dentro dos clubes. Fica parecendo que aconteceu alguma coisa no meio do caminho (ou entrou um anúncio na página seguinte e o espaço encolheu, ou acabou o prazo para fechar) e eles simplesmente decidiram interromper a seção onde estavam, e tchau. Nem se deram ao trabalho de remanejar as festas para deixar a coluna equilibrada.
Enfim, a impressão que fica é de um trabalho feito nas coxas, às pressas e sem o menor cuidado. O leitor está pagando para ler um material inacabado, cheio de falhas, que nem sequer foi conferido! Isso é mais do que amadorismo: é desleixo puro, descaso mesmo. É algo que depõe totalmente contra - para fazer desse jeito, seria melhor não ter feito o guia. Depois dessa, fiquei até com medo de abrir a revista. O que mais será que eu posso encontrar lá dentro?
Antes que comecem a encher meus comentários com chochos e bobagens, já vou logo dizendo que não fiz este post por despeito, inveja, mágoa-de-cabocla ou qualquer coisa do tipo. Também não é gongo maldoso de quem joga no time concorrente. Escrevo estas palavras não na qualidade de colaborador da DOM, mas sim como leitor da Junior. Como um consumidor que quer que a revista melhore e valha o dinheiro, antes que ele perca a paciência e desista dela. São críticas construtivas, que estou dando a eles de presente, de lambuja - e nem sei se eles merecem, pelo tanto que são pretensiosos, arrotando caviar nos editoriais como se fossem protagonistas de uma nova revolução cultural. Se admiram tanto a Têtu, como vivem dizendo por aí, deveriam aprender mais com ela e se tornar menos amadores (e mais humildes). E com isso, certamente me ajudarão a continuar comprando a revista. Enquanto isso, o post vale como conselho para meus leitores: se for só pelo Guia Junior, economizem o dinheiro da revista e confiram o mesmo material, de graça, nas matérias no Mix Brasil. Pelo menos no site eles ainda têm a chance de corrigir as coisas que escrevem errado...
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Delícia carioca
Difícil ficar indiferente ao rapagão da foto acima. Com um sorriso perfeito e um corpo todo trabalhado na farmácia, o personal trainer Bruno Spinelli é a personificação da beleza masculina carioca. Claro que não se pode generalizar, nem todo mundo no Rio curte homens como ele, mas não dá para negar que esse é o padrão vigente e perseguido nas areias de Ipanema. E nas boates gays, claro. Uma escolha acertada para estampar a última edição de ACapa, simpática revistinha de bolso distribuída em points gays de São Paulo, Rio, Floripa e, a partir deste mês, BH e Curitiba.
Para quem achou Bruno uma coisa e já está com a cabecinha cheia de fantasias, uma dica: o fortão [o Mix Brasil decidiu que não se pode mais falar "barbie", que é demodê - anotaram, bees?] de 29 anos fez um ensaio ainda mais bonito para o site Eles Para Elas. São 50 fotos distribuídas em cinco séries, seguindo uma estética parecida com a do site The Boy. Confira os links de cada galeria: 1, 2, 3, 4 e 5.
E se você prefere gostosuras cariocas mais fáceis de comer, o festival gastronômico Restaurant Week está fazendo sua primeira edição no Rio, até o próximo domingo (24/5). O esquema é o mesmo: menus com entrada, prato principal e sobremesa, a R$25 (almoço) ou R$39 (jantar). Os pratos costumam ser menores e evitam ingredientes caros, mas dá para garimpar no site alguns cardápios bem interessantes (todos têm descrição e fotos). Se eu estivesse solto pela Guanabara, escolheria (em ordem decrescente) os menus do Emporium Pax, Geisha Hi-Tech, Bar d'Hôtel, Rio Scenarium, Esch Café e Madame Butterfly.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 17 de março de 2009
Ela nunca disse adeus
Nem bem vazou a notícia de que a DOM não continuaria na editora Peixes, uma revoada de urubus se apressou em decretar a morte da revista. Alguns palpiteiros de plantão resolveram posar de especialistas e passaram a alardear aos quatro cantos as razões pelas quais a publicação teria "dado errado"; depois, tiveram que engolir o que disseram, e alguns até apagaram as bobagens que escreveram. Não conheciam os bastidores do que estava acontecendo e, mesmo assim, quiseram bancar os profundos conhecedores... mas o tempo se encarregou de mostrar que as "verdades" que despejaram não passavam de meras especulações.
A despeito de toda a torcida contrária, a DOM está nas bancas novamente. A pausa foi só um pouquinho maior do que o tempo que a Junior leva entre uma edição e outra. Não posso dizer que fiquei aliviado, porque eu sempre soube que a volta da revista era apenas uma questão burocrática entre duas editoras. Mesmo sem ter distribuição nacional (o que, salvo engano, nenhuma das três tem), a DOM já tinha conquistado um lugar ao sol: tinha leitores fiéis, era respeitada e logo se tornou líder no segmento.
Sinceramente, não acho nenhuma das revistas perfeita. Todas têm coisas que me atraem e outras que me desagradam (e eu leio todas, sim). Mas, com tudo o que eu curto e não curto, eu considero a DOM a mais honesta e consistente entre as publicações gays. Não é amadora, nem pretensiosa, nem deslumbrada (ainda bem). Sei que é difícil falar em ousadia em tempos de crise - o mercado editorial gay ainda é muito verde, apenas uma minoria tem o hábito de consumir revista - mas ainda sonho com o dia em que nossas revistas gays alcem vôos mais altos. Surpreendam o leitor mesmo. E acho sim que há espaço para mais de um título, porque o universo gay é muito vasto e variado, e ainda não está inteiramente representado. Conheço uma porção de gente que adora ler, mas não se identifica nem com a Junior, nem com a DOM, nem com a Aimé.
Termino o post com um recado para os que gostam das coisas que escrevo: na DOM deste mês, saiu uma matéria minha sobre Berlim, com todos os endereços e coordenadas para quem quiser se jogar por lá. E também assino a entrevista com o ator Kayky Brito, que saiu na capa dessa edição.
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terça-feira, 14 de outubro de 2008
Quer passear comigo pelas ruas de Praga?
De todos os tipos de texto que eu redijo, os guias de viagem estão entre os que mais gosto de escrever. Durante essa última viagem à Europa, vira e mexe eu me pegava fazendo anotações e pensando em como poderia transformar meus achados e impressões em matérias de turismo. Voltei com um bloquinho cheio de rabiscos e, aos poucos, esses garranchos vão ganhando o mundo, sob a forma de textos mais coerentes.
A convite da revista DOM, preparei um roteiro caprichado de Praga, a cidade mais visitada do Leste Europeu. Entre passeios, comidinhas e fervos, tudo o que você precisa saber está lá, num texto recheado de endereços e dicas, que vão desde o outlet da Diesel até o almoço no terraço com a vista mais incrível da cidade. A matéria foi incluída na edição 8 (outubro/2008) da revista, que já está nas bancas.
[Foto: entardecer na Ponte Carlos, cartão-postal de Praga]
sábado, 4 de outubro de 2008
... e a bíblia alternativa
O amigo blogueiro Celso Dossi, uma das pessoas de maior presença de espírito do meu círculo social, fez um comentário pertinente sobre meu post anterior, a respeito do Guia Comer & Beber. Ele disse que acha a revista Veja São Paulo "descaradamente vendida" (mas ressalvou que assina e adora) e perguntou se eu não achava que essa edição especial era "patrocinada".
Querido, essa é uma discussão que nós também temos aqui em casa - quando mostrei à minha mãe os vencedores deste ano, acabamos caindo nesse assunto novamente. Os textos bem redigidos me agradam e muitas vezes servem como um primeiro filtro, mas depois sempre tiro a prova para fazer meu próprio julgamento. No fim das contas, acabo usando o Guia mais como um catálogo de endereços, um diretório bastante funcional que me ajuda a satisfazer alguma necessidade específica (outro dia, por exemplo, amigos cariocas me perguntaram onde tomar uma boa sopa em SP e eu, que não tenho esse hábito, não sabia o que responder) - ou quando quero simplesmente variar.
A boa nova é que, em breve, quem tem um pé atrás com o guia da Vejinha terá uma alternativa. A principal concorrente, a revista Época, está correndo por fora para apresentar a sua versão do produto. A Época São Paulo, que sai uma vez por mês (alguém sabe se a revista está fazendo edições similares em outras capitais?), tem trazido um ótimo roteiro de restaurantes, bares e baladas. O projeto gráfico caprichado tem pitadas de VIP e Maxim, enquanto o logotipo é descaradamente chupado da Rolling Stone, e as resenhas têm uma pegada menos pomposa e mais arejada que as da Veja. Agora, a equipe da revista está preparando sua edição especial O Melhor de São Paulo. O trabalho de meses virá ao mundo em novembro. É esperar para ver.
Bom, aí você vai me dizer que, se a Veja é "vendida", qualquer coisa que venha das Organizações Globo deve ser vista com o triplo de desconfiança. Concordo, mas não é assim com qualquer veículo de comunicação em massa? Se quiser independência, vá ler um blog (e pior que nem todos se encaixam nisso, não é mesmo?). Os cariocas, que consomem O Globo sem sofrer com questionamentos desse tipo, já têm sua opção ao guia da Vejinha: a edição especial Rio Show Gastronomia, que veio com o jornal do domingo passado e também está bem bacana.
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2:32 PM
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A bíblia dos gulosos
Finalmente pus as mãos no Guia Comer & Beber 2008-2009, edição especial que a revista Veja São Paulo edita uma vez por ano, elegendo os melhores restaurantes, bares e comidinhas da cidade. Referência obrigatória para glutões de todos os tipos, o anuário - que já soma 464 páginas - esgota e mastiga a extensa cena gastronômica paulistana, num volume fácil de consultar (não fossem os trocentos anúncios ao lado das páginas do índice). É uma boa fonte de referência para conhecer lugares novos, fora do circuito habitual. Eu guardo todas as edições e ainda peço para amigos me mandarem as de outras capitais, em especial Rio, Curitiba e Salvador (que devem estar para sair, pois costumam ser lançados pouco depois da Veja SP).
Depois da previsibilidade dos últimos anos, desta vez o Guia veio com várias novidades para espantar a mesmice. A mais interessante foi a criação de uma categoria especial para premiar os endereços da "alta gastronomia". Com isso, pesos-pesados que sempre monopolizavam as premiações (D.O.M., Fasano, Jun Sakamoto) foram aglutinados nela e não puderam concorrer em suas especialidades originais, abrindo espaço para que restaurantes como Maní, Aizomê e Ici Bistrô ganhassem os louros. Alguns favoritos continuam inabaláveis, como o espanhol Don Curro, mas outros foram destronados - depois de sete títulos, a sorveteria Häagen-Dazs passou a coroa para a carioca Mil Frutas. Para acompanhar as novas manias alimentares da cidade, agora o Guia premia também as melhores temakerias e kebaberias.
Já atualizei minha relação de próximos lugares a visitar. Estão na minha mira, entre outros, os contemporâneos Sal Gastronomia, Cantaloup e Balneário das Pedras, o judaico AK Delicatessen, os italianos Pasquale, Vicolo Nostro e Supra, os brasileiros Tordesilhas e Bananeira, os franceses Allez Allez, Paris 6 e Lola Bistrot, o brunch do Trio, os portugueses A Bela Sintra e Ora Pois!, o Prêt do MAM no Parque do Ibirapuera, os indianos Curry e Tandoor, os japas Kosushi, Kinoshita e Mosaic, os naturais Gaia e Banana Verde, os doces da Sódoces e da Patisserie Mara Mello e o tailandês Thai Gardens, além do Tomates & Bananas - que não serve nem uma coisa nem outra, e sim camarões. Muitos já estão nessa lista há meses ou até anos, mas é difícil jantar em lugares novos quando seus amigos só querem saber de Mestiço, Ritz e Spot. Por esse mesmo motivo, outros 34 restaurantes aguardam na fila a vez de matarem minha saudade.
Só não sei onde vou arranjar dinheiro suficiente para deixar a agenda gastronômica em dia. Depois de alguns meses sem comer fora por conta da minha viagem, tive um choque com os preços da comida por aí. No General Prime Burger, favorito de outros tempos, gastei salgados R$35 por um simples hambúrguer com suco (sem batatas nem sobremesa!). E, nos bons restaurantes, é cada vez mais comum os pratos à la carte chegarem na casa dos R$50 - valor que antes só era cobrado pelo camarão. Desse jeito, minha lista vai continuar rolando anos afora...
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4:50 PM
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quarta-feira, 14 de maio de 2008
Leve minhas dicas da Parada no seu bolso
Eu não quis entregar o ouro no post anterior porque ainda não estava autorizado a divulgar, mas agora já posso: neste ano, as minhas dicas para a Parada Gay de São Paulo vão circular num âmbito muito maior do que os limites deste humilde blog.
A convite da revista DOM, eu e Marcos Carioca escrevemos um guia completo com todas as orientações que paulistas e turistas possam precisar para aproveitar ao máximo esses 5 dias de folia.
Está tudo lá: as melhores festas, comentadas e separadas por dia, restaurantes e cafés para todos os gostos, academias que trabalham com diárias avulsas, compras e passeios, saunas e bares de pegação, dicas de transporte e um pequeno manual de sobrevivência para as festas e a Parada em si. Tudo isso de um jeito enxuto, conciso, direto ao ponto e que cabe no bolso, para você ter sempre à mão.
O Kit Parada DOM sairá encartado na próxima edição da revista (que agora virou mensal), mas apenas na tiragem paulistana. Ou seja: só terá o guia quem comprar a DOM numa banca em São Paulo. Ou então quem recebê-lo em alguns pontos estratégicos da cidade, onde ele também será distribuído. A revista chega às bancas na semana que vem e deve disponibilizar parte do conteúdo do guia em seu site.
Mas meus amigos de fora que não vierem a São Paulo não ficarão na mão. Nessa mesma edição da DOM, também assino a coluna 24hs, em que passo um roteiro com as coisas que mais gosto de fazer na minha cidade. É a minha visão bem pessoal de São Paulo, com indicações que muitos de meus leitores mais assíduos já conhecem, e que não valem apenas para o feriado da Parada.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Diminui a distância entre a Junior e a DOM
Depois de registrar aqui minhas primeiras impressões sobre as revistas gays Junior e DOM, resolvi esperar alguns meses para retomar o assunto e fazer um comentário sobre a direção que cada uma das publicações está tomando. Até botar as mãos nas últimas edições (cujas capas ilustram este texto), eu já tinha mais ou menos na cabeça o que ia dizer: que as duas revistas tinham propostas claramente distintas e seguiam caminhos bem separados, de modo que não era o caso de tratá-las como produtos concorrentes ou rivais. Tudo isso antes de ler a DOM#3 e, especialmente, a Junior#4.
Se ainda concordo que Junior e DOM têm estilo, linguagem e visões de mundo peculiares, pude constatar que a distância que as separava ficou menor. É nítido que as duas revistas aprenderam com o feedback do público e também uma com a outra. Com isso, de certa forma se aproximaram e passaram a ser potencialmente interessantes para uma mesma parcela de leitores. Ainda que em tese elas tenham consumidores diversos, a intersecção entre seus públicos aumentou.
E o esforço maior para isso parece ter sido da Junior. Depois de uma chuva de críticas, a revista finalmente percebeu que escrever "excessões" não é legal e resolveu investir um pouco no seu texto. Se o pessoal do Mix Brasil não estava dando conta do recado sozinho (e era visível a diferença de qualidade entre os textos do cabeça André Fischer e os demais), a revista teve a humildade de pedir reforço de fora. E não economizou: abriu espaço para gente do naipe de Gilberto Scofield Jr. (articulista da pioneira revista Sui Generis e correspondente na China no jornal O Globo), Christian Petermann (afiado crítico de cinema da Folha de S. Paulo) e Sérgio Miguez (livreiro experiente e dono da antiga livraria gay Futuro Infinito), além de Ricardo Oliveros, Caio Taxi e Tony Goes, pessoas antenadas e capazes de pinçar informação fresca e interessante. Resultado: o conteúdo escrito da revista deu um salto, tanto de qualidade como de quantidade. Ainda que o apelo maior siga sendo o das imagens, começam a chamar a atenção as boas pautas de comportamento. A própria criação de colunas e seções identificáveis deu um fio condutor à Junior, que ficou com menos cara de colagem de trabalhos e mais cara de revista.
A DOM, por outro lado, já nasceu bem formatada e tem tido uma trajetória mais linear, sem reinvenções ou crises de identidade.
Vem acertando na estética elegante e nas reportagens (gays muçulmanos, barebacking, militares gays, André Almada, a coluna de Júlio Moreno), mas ainda tem pela frente o desafio de ousar mais, surpreender de verdade (nesse sentido, a formatação mais livre e solta é uma vantagem para a Junior). Explorado como chamariz da edição 3, o especial de moda com Rodrigo Hilbert poderia ter ido muito além: virou uma capa branca, de impacto zero, e um ensaio cinzento, opaco, sem tempero. O fato de ser moda inverno não é justificativa: dava para ter feito algo bacana e "invernal" em uma locação no campo, à la Revista VIP, ou mesmo dentro de uma biblioteca, com os tons escuros das prateleiras dando sobriedade aos ternos e as lombadas dos livros emprestando um pouco de cor e vivacidade. Só perdoei porque a parte de jeans entregou tudo o que as páginas com Hilbert ficaram devendo - e o portfólio me presenteou com o meu lindinho Ramirez numa pose de matar, oferecendo sua cheirosa axila. Aliás, essa concessão ao fashion e aos corpos não deixa de ser uma aproximação com a linguagem mais visual da Junior.
É claro que as duas revistas ainda estão muito no começo: com quatro edições, qualquer publicação ainda está engatinhando, ainda mais num segmento cru e pouco explorado como esse no Brasil. Talvez o certo seja dar tempo ao tempo e fazer outra análise quando os rebentos completarem seu primeiro ano de vida. É preciso reconhecer que Junior e DOM estão melhorando a cada edição, na medida em que vão se soltando, ganhando confiança e construindo um diálogo com seu público. Os anunciantes, aos poucos, também estão aparecendo. Ainda que tenham muito a lapidar (e aprofundar), são duas revistas redondas e gostosas, que já mostraram o que se pode esperar delas. Nesse sentido, não são concorrentes, mas complementares. Alguns assuntos ficam melhores na DOM e outros só poderiam estar nas páginas da Junior. Com elas, o mercado editorial gay já tem com que se entreter, pelo menos por algum tempo. Vamos ver como cada uma vai lidar com o impasse de se tornar mensal - e continuar tendo algo a dizer.
Há espaço para uma terceira? Sim, mas agora os nichos vazios a preencher já são mais específicos. Mesmo sabendo que o mercado gay ainda é bastante pequeno, consigo pensar em três possibilidades: uma revista que seja menos fútil e mais séria, substancial, politizada; uma revista de vanguarda, transgressora, que se proponha a um exercício estético e artístico realmente inovador; e uma revista com uma proposta assumidamente erótica, bem sexy, mas que mantenha um bom nível editorial e tenha uma certa irreverência, seja inteligente. Várias revistas estrangeiras bacanas - não necessariamente gays - podem dar exemplos e servir de inspiração. Agora, uma coisa é certa: com os atuais jogadores do cenário, uma nova publicação que seja amadora dificilmente vai emplacar.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
DOM: a revista gay que a Abril não fez
Eu fui um fã ardoroso da finada revista Sui Generis. Editada entre 1995 e 2000, ela trazia atualidades, moda, consumo, política e excelentes reportagens de comportamento – tudo muito bem-escrito, mas sempre num tom gostoso de ler. A última edição saiu em março de 2000, mas suas pautas continuam atuais: união civil, ditadura do corpo, ménage à trois, abuso policial, adoção, compulsão sexual, ciúme, drogas, gene gay, vigorexia... As entrevistas também eram muito boas – de Gerald Thomas a Constanza Pascolato. Quando ouvi falar que o criador do projeto da DOM tinha bebido na mesma fonte da Sui, não pude conter minha expectativa.
A verdade, porém, é que a DOM não se parece com a Sui: lembra mesmo - e muito - a revista feminina Nova, de quem herdou o design. Apesar do discurso inclusivo do diretor de redação (“queremos que todos os gays, lésbicas e simpatizantes sintam-se à vontade por aqui”), seu conteúdo parece mais afinado com os interesses de homens gays de 35 a 55 anos – bem-resolvidos, cultos, exigentes e, sobretudo, muito bem posicionados financeiramente. Gente que constrói a própria casa sem economizar no acabamento, aproveita o que a vida tem de melhor e é capaz de investir R$ 629 numa coleira Louis Vuitton para o cachorro. As páginas de moda são freqüentadas por marcas como D&G, Dsquared, Ricardo Almeida, Energie, Paul Smith e Dior Homme, enquanto a agenda cultural inclui dicas de espetáculos, exposições e restaurantes em Paris, Madri e Nova York.
Nada de errado em ser uma revista para balzaquianos bem-sucedidos. O tal pink money faz cada vez mais barulho mundo afora – não é apenas uma questão de poder de consumo, mas também de visibilidade social, ascendência cultural e até mesmo força política (especialmente nos EUA). E o Brasil ainda não tinha nenhuma revista que dialogasse com esse público – um nicho formidável, esperando para ser explorado. Isso sem falar que toda publicação precisa de retorno financeiro; focar num leitor bem qualificado atrai bons anunciantes e garante boas vendas em banca – verdade seja dita, não são as penosas que vivem mendigando entrada vip na boate que vão gastar dinheiro comprando revista...
Além disso, o fato de ser madura não fez dela uma revista menos moderna. A DOM é visualmente sedutora – a começar pela maravilhosa capa de estréia, que deu um banho nas da Junior (apesar do logotipo um tanto sem graça). É antenada e refina para o leitor o que há de melhor por aí: gadgets, comidas, badalações. E tem os olhos abertos para o fashion, sim senhor – embora não se limite a ele. A parte de moda traz frescor (é bem mais arrojada que a da VIP, por exemplo), sem deixar de ser aproveitável por quem não vive mergulhado nesse universo.
Outra questão que faz diferença: é sempre um prazer ler uma revista bem-acabada, feita por quem entende do assunto. Já nas primeiras páginas, a qualidade dos textos se destaca – os editoriais são extremamente bem-escritos, mostram a que veio a revista e tratam o leitor com o cuidado que ele merece. Esse mesmo cuidado se nota nos demais textos: não se vêem erros crassos de revisão, coisas ainda cruas, entregues às pressas. Alguns chamam isso de “padrão Abril de qualidade”; eu chamo de respeito ao leitor.
No entanto, ainda falta algum tempero à DOM: ela é redondinha, mas não é irresistível. Não tem o apelo de uma VIP ou uma Playboy – revistas que são desejadas pelo leitor e seduzem suas retinas na banca. E não falo aqui de sexo fácil: falo de irreverência, sensualidade, algum bom-humor e jogo de cintura. A DOM fez a lição de casa direitinho, mas ainda está um pouco tímida, certinha, puritana. Está muito séria, muito paulista – tinha que ser um pouco mais marota, mais carioca. Na entrevista com o casal Piva & Tufvesson, por exemplo, não dava para ter colocado uma pimentinha? Eles já viveram e viram tantas coisas, será que tudo o que dava para tirar deles era aquilo?
E outra: consumo é fundamental (“Material Girl”, da Madonna, bem poderia ser um hino gay), mas nosso universo não se reduz a isso, nossa vida não é cor-de-rosa o tempo todo. A DOM transita com desenvoltura pela sala de estar, pelo living onde se mantêm as aparências para as visitas – mas ainda não chegou ao quarto, à garagem e ao porão, onde estão as questões que afligem todos nós. E dá para tratar dessas questões sem perder a elegância e o alto-astral – como a Sui fazia.
Se der mais espaço a matérias de comportamento, a revista poderá trazer assuntos novos e ampliar seu público, concretizando a diversidade a que se propôs. É legal fazer um “manual do bon vivant gay”, mas a DOM pode ser muito mais do que isso, se quiser. Ela tem condições de ser a principal revista gay do Brasil – falando de cultura, sexo, moda, consumo, comportamento, tudo. Se combinar reflexão e modernidade, sem cair na caretice, a DOM – que já é cheia de predicados – pode se tornar uma revista arrebatadora.
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Junior: uma Revista da MTV com verniz fashion
O portal Mix Brasil tem um espaço cativo na minha vida: eu o acesso todos os dias há pelo menos oito anos. É minha primeira e maior referência quando o assunto é universo gay: o que está acontecendo dentro do mundinho, que DJ vai tocar em que clube no finde, como foi aquela festa a que eu decidi não ir, quais as sungas do próximo verão, e por aí vai. Se o Mix não cobre absolutamente tudo o que importa, chega bem perto - e é ágil. Por isso, eu o considero o melhor portal gay do Brasil, sem dúvida. Especialmente quando olho para seus concorrentes, ainda presos em uma visão estereotipada, limitante e completamente datada da cultura gay.
Se o Mix está mesmo na frente dos outros, confesso que me cansa um pouco o seu dialeto wannabe-moderno-deslumbradinho: "A gente aqui na redação está superamando as novas t-shirts, que já nasceram hype! O fundamento é lúdico, fofito e artsy. É para usar e arrasar naquela festa absurdinha, que vai ser bafon báfu e ter lineup bombator. Tipo assim: loucurinhas! Arrasa na pólo! Porque vai ser bafônico, bee. Tipo incrível!"
Bem, a Junior é a revista do Mix Brasil. Com tudo de bom e de ruim que isso contém. Felizmente, na hora de migrar para o meio revista, eles deram um breque nas palominoses lingüísticas e capricharam um pouco mais na redação. Os textos são mais bem-feitinhos, e muitos (não todos) passam até por uma revisão. Mas não são eles a razão de ser da revista. A Junior é, essencialmente, uma revista que se apóia e gira em torno das imagens.
São imagens belíssimas, é bom dizer. Especialmente nos ensaios fotográficos e na seção de moda, que são o que a Junior tem de melhor. O ensaio "Depois do after" é de extremo bom gosto. O dos "pólo boys", então, é para pendurar na parede e ficar olhando o dia todo. Esteticamente perfeito, sensual, biscoito fino mesmo. E aquela foto do morenão abraçando seu labrador, bem lá no final? Coisa mais fofa! Sem falar que o projeto gráfico da revista também tem umas brincadeirinhas legais, como na matéria com os casais (o que é aquela abertura, com os pombinhos olhando um para o outro??? que imagens mais lindas, que olhares, que expressões!)
Se como exercício estético a revista é nota dez, em termos de conteúdo o Junior ainda precisa comer mais mingau. Tirando as imagens, a revista às vezes parece ter pouco a dizer. Em muitas matérias, os textos apenas dão suporte para as fotos - alguns são tão rasos que quase servem como meras legendas. Dava para falar muito mais, sem ser demais. Falta reportagem - não se faz bom jornalismo sem sujar os sapatos. A matéria sobre a Espanha, por exemplo, é de uma superficialidade atroz - o nível de informação que qualquer um pode conseguir "de orelhada" numa rodinha, sem precisar ter ido até lá. A melhor comparação que vem à minha cabeça é com a Revista da MTV (que será descontinuada pela Abril já no comecinho de 2008), que seguia a mesma linha: textos leves e de leitura rápida, para não entediar os consumidores adolescentes. A Junior, em uma boa ponte aérea você mata de cabo a rabo.
Outro pecado: assim como o Mix Brasil é um site feito por uma panelinha e para uma panelinha (basta ver que, na cobertura das festas, as fotos mostram sempre as mesmas caras, como se aquelas figurinhas carimbadas fossem as únicas pessoas relevantes para a noite), a Junior fala para um público muito específico: moderninho, fashionista e/ou fashion victim - e morador/freqüentador do miolinho "pheeno e cool" de São Paulo (ou Ipanema, se tanto). A Junior olha demais para o umbigo do mundinho dela. As imagens são um colírio para os olhos, mas acho um pouco difícil um leitor de Salvador ou Porto Alegre realmente se identificar com a revista. A Sui Generis, que era feita inteiramente no Rio, com colaboradores cariocas e pauta carioca, conseguia ser de interesse muito mais nacional.
Não que eu não tenha gostado da Junior. Acho uma revista gostosa para o verão, como uma canção pop do Kid Abelha. Boa para ler na casa de praia, depois de tomar muito sol e bater aquele almoço tardio. Agora, embora eu "superentenda" o carinho e o orgulho da equipe do Mix pela nova cria, acho que eles ainda estão um pouco deslumbrados demais com o fato de estarem lançando uma revista, e deixando o discurso "inovador e vanguardista" ofuscar a necessidade de dar mais consistência ao produto. Mas ainda estamos no número 2, e o próprio André Fischer reconhece no editorial que a revista ainda está tomando forma. Vamos ver em que direção esse fotogênico rebento chamado Junior irá amadurecer.
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Thiago Lasco
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11:21 PM
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terça-feira, 11 de dezembro de 2007
A festa de lançamento da revista DOM
Em uma agradável noite de primavera, um moreno saradíssimo e tatuado se refestelava em uma inocente banheira de louça, enquanto a água do chuveiro escorria refrescante por cada dobrinha de seu corpo escultural. A cena não seria tão incomum se a tal banheira, rodeada por cactos de madeira, não estivesse plantada no meio da calçada da Mário Ferraz, uma das ruas mais movimentadas do Itaim Bibi, em São Paulo.
A mise-en-scène era parte da festa de lançamento da nova revista gay DOM, que aconteceu na noite de ontem, no Clube Hotel. No espaço, que possuía bar-lounge e pista de dança, os convidados foram recebidos com champagne, morangos e cerejas pelo pessoal da Editora Peixes, que não cansava de lamber a nova cria. A revista circulava entre as rodinhas, enquanto numa tela de plasma era exibido o making of de um dos ensaios de moda da primeira edição, com o colírio André Ziehe (Mega Models).
Entre os presentes, algumas personalidades da noite paulistana (André Almada, Evandro Ângelo e Luís Amaral, Ricardo Oliveros), mas não aquela enxurrada de caras e bocas do mundo fashionista que se esperaria encontrar em uma festa da concorrente Junior, por exemplo. Notei um clã expressivo de órfãos do Ultralounge, além de um bom número de balzaquianos(as). Isso parece confirmar a vocação da DOM de atingir um público um pouco mais maduro e comportado - embora não menos antenado e interessado em moda e estilo.
O ponto alto da noite foi um desfile-relâmpago de underwear, com peças selecionadas de marcas como Calvin Klein e Aussiebum. Difícil era focar nas cuecas, tamanha a beleza dos cerca de vinte modelos que cruzaram o salão, a uma distância desconcertantemente pequena de cada um de nós. As bees ficaram passadas, mas, como sempre, foram as mulheres que deram piti - ao meu lado, duas loiras se descabelavam como se estivessem num show dos Rolling Stones. Para dar uma apimentada, a produção incorporou alguns elementos de fetiche ao look dos rapazes - quem mais agradou foi o "borracheiro", um moreno escandalosamente gostoso com um make leve imitando graxa e um pneu (!) na mão.
Depois do desfile, virou festa mesmo: um DJ de deep house delícia (que tocou alguns dos meus hinos preferidos e até um remix de "Better Man", do Pearl Jam!), conversinhas, mais champagne e morangos... e, como não poderia deixar de ser, algumas bilus aproveitaram a deixa para se arranjar por lá mesmo. Talvez pensando nisso, a produção da festa colocou, ao lado dos morangos, uma tigelona cheia de preservativos sabor tutti-frutti. Bem meigo, não?
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Thiago Lasco
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11:05 AM
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quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Rapidinhas da mídia gay
LOUROS AOS MORENOS. Bola de cristal? Toque de Midas? Nada disso. Se, cinco dias depois que citei os blogs do Tony e do Celso como meus preferidos, eles foram destacados na coluna GLS do Sérgio Ripardo na Folha, foi simplesmente porque merecem. Tony é inteligente sem ser pedante, perspicaz sem ser ferino (não vive gongando a torto e a direito), e dono de um senso de humor fino e delicioso - sabe rir até de si mesmo, virtude rara entre os blogueiros (que costumam se levar a sério demais). E Celso tem uma capacidade absurda de transformar as notícias mais banais em contos criativos e mirabolantes. Numa blogosfera saturada de "donos da verdade" e "formadores de opinião", os melhores não dão a mínima para isso. Arrasem, amigos!
ALMANAQUE DO BEM. E falando em Sérgio Ripardo, o jornalista está lançando pela Publifolha seu Guia GLS São Paulo, fruto de doze meses de andanças por pontos de interesse gay/lésbico/ambíguo na cidade. Seu trunfo: transitar sem restrições entre todos os espectros do vasto mundo gay. Sérgio não se limita aos clãs mais óbvios, não torce o nariz para a cena do Centrão, não sucumbe a preconceitos ao retratar tribos diferentes da dele (que nem é daqui, mas de Fortaleza). Em seu blog, ele conta que procurou ser benevolente com os lugares resenhados: "me esforcei para ver o lado positivo de suas propostas". O guia me ensinou uma lição: ir atrás e acreditar em si próprio. Eu mesmo já escrevi um livro similar, mas nunca publiquei, porque achava que não teria como, que ninguém ia comprar... não acreditei na minha idéia e agora perdi o bonde. Paciência. Longe de qualquer "mágoa de miguxa", vou comprar o guia do Sérgio e fazer uma resenha completa aqui.
BOTANDO A MAIOR BANCA. A Sui Generis, primeira revista de comportamento gay do Brasil, foi extinta há oito anos e deixou saudades. De lá pra cá, muita coisa mudou na maneira como o país enxerga os gays, e agora o mercado editorial finalmente toma coragem para apostar nesse público. Em setembro, o pessoal do site Mix Brasil deu o pontapé inicial lançando sua Junior; agora, a Editora Peixes entra na briga com a DOM, que chegou ontem às bancas (e, de exemplar em punho, já lhes digo: vai fazer muito barulho). Eu não quis fazer minha crítica da Junior até ler o segundo número e ver a direção que a revista ia tomar; com a Junior #2 saindo já nos próximos dias, logo mais vocês lerão por aqui uma análise das duas revistas.
ONÇAS, FLAMINGOS E COLIBRIS. E eis que acabei sendo convidado para a tal white party "exclusivíssima" que tem sido o assunto de rodinhas de bilus Brasil afora. A julgar pelo flyer - que beira o over, uma coisa meio Siegfried & Roy, meio Joãozinho Trinta - teremos uma festa diurna que deve mudar radicalmente a cara da The Week. Espera-se que desta vez a mudança radical seja para melhor: da última vez que tentaram propor algo "revolucionário" na cena gay, sexta-feira passada, as bees voltaram pra casa todas sujas e encharcadas de óleo diesel, reclamando que perderam o dinheiro da chapinha. Desse jeito nossos pobres coraçõezinhos não agüentam...
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Thiago Lasco
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2:40 PM
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