quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Balanço portenho tardio

Tudo conspirava contra essa minha viagem a Buenos Aires. A crise econômica mundial desregulou as taxas de câmbio: no auge do pânico coletivo, o peso argentino, que minha mãe comprou a R$0,52 em julho, chegou a picos de R$0,87. Tony voltou de lá dizendo que tudo estava custando os olhos da cara, não havia mais vida noturna, enfim, o horror. No escritório, caiu sobre minha cabeça uma chuva de pepinos e problemas (ainda não inteiramente solucionados). Meu avô foi parar na UTI, com septicemia, e meu companheiro de viagem ameaçou desistir, porque no mesmo finde estava marcada uma festa com a "top DJ" Ana Paula, sua favorita. Para dar o arremate na uruca, esta seria (e foi) minha visita número 13. Ufa.

Felizmente, tudo deu mais do que certo. Nossa escapada portenha correu às mil maravilhas. Pegamos quatro dias lindíssimos de primavera, o céu de brigadeiro contrastando com o roxo dos jacarandás-mimosos [foto] e um clima mais do que agradável para curtir os lugares cool de Palermo, como o Olsen, onde tivemos um almocinho supimpa no sábado. Tudo está mais caro sim: os menus dos restaurantes foram remarcados e o valor das corridas de táxi praticamente dobrou (antes era quase ridículo). Mesmo assim, os preços novos continuam mais convidativos do que os nossos. Dá para fazer boas compras, ainda que não se possa mais falar em orgia consumista. Levei bastante dinheiro em pesos (consegui comprá-los a R$0,70) e a fatura dolarizada do meu cartão de crédito virá bem magrinha.

Fiz minha ronda habitual e fui vendo o que havia mudado de julho de 2007 para cá. Fui conhecer a filial portenha do Axel, o famoso hotel gay de Barcelona: o deck lembra a matriz, mas a piscina é bem maior (e eles estão fazendo pool party todo domingo). O hotel está isolado numa área meio morta de San Telmo (onde, aliás, o tímido renascimento ainda está longe de ser uma movida). Em Palermo, a buena onda continua, mas uma das minhas lojas favoritas, a Bokura, fechou as portas. Na mesma calle Gurruchaga, a Nike Soho agora só vende artigos vintage, preguiça total. No Parque 3 de Febrero, a prefeitura fez o favor de interditar todo o Rosedal para obras de restauração, então não pude mostrar ao Xande um de meus cantinhos favoritos. No capítulo baladas, o Palacio Alsina está mesmo fechado; o site fala em reformas, mas corre por aí o boato de que o novo boliche será hétero. Quem torce o nariz para o público mixed do Pacha tem que se contentar com o Amerika.

Mas minha agenda noturna em Buenos Aires estava tomada com o Creamfields, a principal razão da viagem. A edição deste ano foi uma boa surpresa. Em contraste com a selvageria adolescente de 2004, neste ano o público me pareceu bem mais tranqüilo e civilizado. A adoração coletiva pela música eletrônica continua, o povo ainda vibra e grita nas viradas, mas as tendas gigantescas do Autódromo agora dão espaço para todo mundo dançar sem atropelos. Na Cream Arena, onde finquei os pés, meu darling Martín García manteve o bom padrão, mas quem realmente arrebentou foi Steve Lawler - ele fez um set absurdo, impecável, que sozinho já valeu a viagem. A produção do festival me pareceu mais pobre e o Autódromo é longe pra dedéu, mas beleza: com boas companhias na mesma onda que eu, la pasé bárbaro.

Surpresa maior eu tive quando cheguei no Caix, onde nas manhãs de domingo o after Fiction segue firme como a melhor balada fixa de Buenos Aires. Eles deram um merecido upgrade no fervo, que agora rola em uma área maior, atrás do sobradinho quadrado de antigamente. O novo espaço tem uma pista mais ampla e um delicioso terraço que contorna o Rio da Prata, onde também dá para dançar (tem várias caixas de som). O lugar parece perfeito para uma festa de réveillon, sem perder a vocação underground. Duas janelas ao redor da cabine do DJ mostram o belo visual de fora para quem esqueceu de trazer o oclón e prefere fritar lá dentro. Aldo Haydar estava muito mais cómodo em seu próprio habitat (aliás, é com aquele lugar que o som dele combina, embora eu ache louvável a iniciativa da The Week de trazê-lo de vez em quando). E a freqüência é a mesma de sempre: diversificada, desencanada, divertida. A manhã passa rápido e, quando você vê, já passa da uma da tarde e é hora de ir embora.

Tudo isso ajudou a viagem a ser divina - meu acompanhante novato se encantou com Buenos Aires e já pensa em voltar nos próximos seis meses. Mas o melhor, para mim, ainda é simplesmente flanar por lá e ver que a empatia e a identificação que sinto pela cidade continuam intocadas. Gosto de Buenos Aires de graça - mesmo sem festival, sem bafão. Gosto do humor irônico deles diante das adversidades e amo o castellano portenho. Não deixo de adorar outros lugares do mundo que visito, mas é na capital argentina que eu realmente me sinto à vontade: ao longo dos anos, fui criando uma relação de cumplicidade, de familiaridade, como se ali também fosse a minha casa. Aliás, é um dos poucos lugares do mundo onde eu poderia morar para sempre (o outro é Madrid). Que bom que posso continuar indo para lá, comendo os Sorrentinos Tony do Broccolino, andando de táxi pela Avda. Del Libertador, curtindo minha própria companhia na Plaza San Martín, fazendo contrabando de sorvete da Persicco para o Brasil... Acho que ficarei nesse pingue-pongue entre São Paulo, Rio e Buenos Aires pelo resto da minha vida.

6 comentários:

Pegante disse...

temos alguns gostos em comum (além de berlim, rsrs). adoro BsAs tb!
e bom saber que apesar de não tão barata, ainda continua com preços convidativos para nós.
o Olsen é ótimo né?
aliás, restaurantes porteños são uma das grandes razões de ir lá (a Zoom não conta eheheh).

tb achei San Telmo ainda muito longe de ter "renascido". e meus amigos locais já tinham comentado que a localização do Axel era muito duvidosa e que continuaria a ser por uns bons anos.

o Alsina era um espaço muito interessante, mas tb era o único lugar de BsAs onde tinha um % carão mais alto...

e, sem querer ser chato, as árvores lindas de BsAs na primavera não são ipês... são jacarandá (acho que no Brasil se diz jacarandá-mimoso para esse tipo)... acho que as 2 coisas não são a mesma espécie!

introspective disse...

Pegante: Vc não foi chato não, na verdade me quebrou um galhão. Eu não tinha a menor idéia do nome das tais árvores roxas. Perguntei pra minha mãe, ela tb não sabia... aí acabei dando um google em "árvore roxa primavera" e coloquei a primeira coisa que saiu. Já vou corrigir o texto, gracias!

Lindinalva Zborowska disse...

Morar pra sempre... só Berlin queridjo... E euzinha aqui de exilada sexual... Affff!!!

Anônimo disse...

Em 1º lugar, eu nunca cogitei desistir. Sabia que a viagem me faria bem, como fez. Em 2º lugar, gosto tanto do Steve Lawler que agora passarei a ir vestido de noiva a qualquer festa em que ele tocar. Em 3º e último, viajar com você foi bom porque é um expert em BsAs, temos gostos parecidos e creio que nossa amizade saiu mais fortalecida. Gracías! Xandon

Jack disse...

Ia comentar o jacarandá, mas estava atrasado e deixei para depois... daí hoje vi que já te avisaram e que você já consertou. Descobri num city tour, vi as árvores todas floridas de roxo e perguntei para a guia como se chamavam.

Gui Sillva disse...

próxima parada: vitóriaaa
obaaaaaaa!