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terça-feira, 3 de maio de 2011

E o Freddo finalmente chegou

Depois de anos voltando de Buenos Aires com isopores de sorvete na mala, envoltos em muito gelo seco, meus problemas acabaram: a rede Freddo acaba de abrir sua primeira loja em São Paulo, a poucas quadras da minha casa, na rua Normandia (em Moema). Ontem fui conferir a novidade. Os sorvetes chegam da Argentina em caminhões refrigerados, após 2 dias de viagem, e custam aqui bem mais do que na terra natal: o cucurucho de dois sabores sai a R$ 14, o equivalente a AR$36.

Por enquanto, as cubas têm apenas as variações mais clássicas de chocolate e doce de leite, além de alguns sabores cremosos e poucos à base de fruta. Senti falta de vários dos meus favoritos, como crema irlandesa (com licor Bailey's), mousse de chocolate e mousse de limón. Em breve, o leque de opções deve aumentar - haverá, inclusive, alguns sabores desenvolvidos aqui, como brigadeiro e açaí com banana, que serão vendidos também na Argentina. Além dos sorvetes, a loja serve café, sanduíches, pão de queijo, quiches e alguns doces. No início de 2012, a rede abrirá seu primeiro ponto no Rio de Janeiro.

Com a chegada da Freddo, São Paulo fica ainda melhor em matéria de sorvete. Há cinco anos atrás, quando os visitantes perguntavam qual era o nosso melhor sorvete, sorríamos amarelo e respondíamos "Haagen-Dazs", constrangidos. Ou então aquele aguado da Gelateria Parmalat. Agora temos a cremosidade sem igual da Stuzzi, que faz o meu atual sorvete favorito, crostata di mascarpone al limone. A carioquíssima Mil Frutas nos brinda com suas criações sempre surpreendentes. E a Bella Paulista faz um sorvete italiano pra lá de honesto - o de torta de limão quase substitui o da Persicco, a marca argentina que ainda está faltando na nossa vida. Com a Persicco e mais a Itália, do Rio (ah, aquele de torta alemã!), o meu dream team ficaria completo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Azul claro é a cor da esperança

Hoje nem era dia de postar, mas não dá para deixar passar em branco esse fato histórico importantíssimo, e que merece ser repetido e repostado e comemorado por todos os blogs das amigues, mesmo aqueles que só falam de boate: a Argentina aprovou o casamento gay! Ops, pera lá... casamento gay?! Mas "casamento" não é uma instituição religiosa, não é uma propriedade da Igreja Católica que não pode ser descaracterizada? Não será por isso que a questão não avança no Brasil: porque a militância defende o "casamento gay", expressão que contém em si um absurdo, pois equivaleria a abrir a porta da Catedral da Sé, ou da Igreja Nossa Senhora do Brasil, para que um macho barbudo, braçudo e maludo entrasse no templo vestido de noiva, com véu, grinalda e quem sabe algum adereço emprestado da Lady Gaga para arrematar o look?

De uma vez por todas: NÃO!

Existe o casamento como ritual religioso; aliás, a união entre duas pessoas é ritualizada em várias religiões, não apenas pela Igreja Católica Apostólica Romana. Mas casamento é também um instituto de direito civil, uma relação jurídica entre duas pessoas que, ao se unirem, assumem uma variedade de direitos e obrigações uma perante a outra. Que incluem os deveres recíprocos de respeito, assistência (inclusive financeira) e fidelidade, o direito a ter ou adotar filhos (e o respectivo dever de guardá-los, sustentá-los e educá-los), e também os direitos ligados à herança e sucessão do patrimônio.

Como qualquer outro instituto jurídico, o casamento civil é previsto e definido por uma lei. As leis que vigoram em boa parte dos países ocidentais (excetuando os anglo-saxões) são herança do antigo Direito Romano. Mas as sociedades mudam - e as leis, como produto social e reflexo dessas sociedades, também devem mudar para acompanhá-las (o que ocorre com maior ou menor velocidade, conforme o país). Todos os novos fenômenos sociais precisam de disciplina e proteção jurídica: para ficar num exemplo didático, a internet, que não existia há 30 anos, trouxe novas relações, novos problemas, novos crimes, e tudo isso precisa ser regulado por novas leis.

A definição clássica do casamento civil, cunhada em um período heterocentrista, contemplava apenas a união entre homem e mulher, consagrada na redação de boa parte dos códigos civis. Na medida em que a constituição das famílias passou a incluir formatos diferentes do modelo papai-mamãe-filhinhos, os ordenamentos foram evoluindo para também contemplar essas novas configurações: mães solteiras, famílias recombinadas pelos novos casamentos de pais divorciados... e casais do mesmo sexo. Assim, em alguns países, a atividade legislativa passou a rever a definição clássica de casamento, passando a permitir que esses novos casais desfrutassem das mesmas garantias (e responsabilidades!) dos casais heterossexuais. É "casamento gay" mesmo.

Foi exatamente isso que aconteceu nesta madrugada na Argentina: o Senado deles aprovou um projeto de lei que alterou a definição do casamento no Código Civil argentino, substituindo "homem e mulher" por "contraentes". Só falta a sanção de Cristina Kirchner - mas a presidente já se posicionou a favor da medida, ou seja, a vitória é dada como certa. Com isso, se desejarem, dois homens ou duas mulheres, em todo o território argentino, poderão se unir e usufruir dos mesmos direitos que qualquer outro casal teria, incluindo herança e adoção. Não parece algo tão simples, tão elementar? Sim, parece e é. E às vezes é difícil entender por que um direito tão básico é negado em tantos outros países, incluindo o Brasil. A Argentina foi o décimo país do mundo e o primeiro da América Latina a dar esse importante passo em direção à igualdade e à justiça.

Mas calma: antes de sair por aí falando que a Argentina é muuuito mais moderna, que eles estão aaaanos-luz à nossa frente, e blá blá blá, vamos olhar isso mais de perto? Não foi uma conquista de mão beijada. A vitória foi apertada, por 33 votos a 27, não sem ampla resistência dos setores mais reacionários da sociedade. Lá também existem lobbies religiosos, inclusive evangélicos, que se organizam e fazem barulho - a ponto de juntarem 50 mil pessoas numa passeata em frente ao Congresso, na véspera da votação. Lá também existem pessoas públicas que fazem discursos demagógicos, claramente mal-intencionados, para semear a intolerância. Mais ainda: o segundo maior jornal da Argentina, o conservador La Nación, passou os últimos dias em uma maciça campanha contra o casamento gay, publicando sucessivos editoriais e reportagens com argumentos pelos quais ele não deveria ser aprovado - tinha até fundamentos pretensamente "científicos", do tipo "estudos afirmam que crianças adotadas por casais gays podem ter depressão".

Vocês têm noção do que significa isso? É como se um jornal do tamanho do Estadão fizesse uma lavagem cerebral diária contra o avanço dos direitos gays. E no entanto... apesar disso... mesmo com a ofensiva do jornalzão... e com os lobbies dos religiosos... os direitos gays venceram. Isso deve servir para a gente ter a esperança de que um dia também chegará lá. Afinal, os problemas e obstáculos não são muito diferentes lá e cá. E o próprio efeito da decisão argentina aqui deve ser bem positivo, influenciando nossa opinião pública e, quem sabe, deixando os nossos políticos (cuja "consciência" só enxerga o lado eleitoral) mais à vontade para votar a favor dos nossos projetos. E olha que esses projetos - que falam apenas em união civil - são bem mais modestos e tímidos do que o argentino...

sábado, 10 de abril de 2010

Atualizando Buenos Aires, parte 3: quando a noite cai

Por conta de uma lei nova que está em vigor em Buenos Aires, bebidas alcoólicas só podem ser vendidas até as 5 da manhã e consumidas até 5h30. E nenhum estabelecimento pode continuar aberto depois das 7. Com isso, aqueles after hours inesquecíveis que Aldo Haydar e sua trupe pilotavam no Caix até o começo da tarde de domingo viraram história do passado. Quem não viveu, não vive mais. Para os que ficaram inconsoláveis, nem tudo está perdido: agora Aldo comanda uma concorrida domingueira no Palacio Alsina, das 18h à 1h. Na prática, o que era after virou matinê - e o cenário passou de um terraço à beira do Rio da Prata para um clube imponente, com ares de catedral. Aliás, o Palacio Alsina as we knew it (como lugar gay) agora só rola uma sexta-feira por mês, em festas bombadas - recentemente, João Neto tocou em uma delas. Se não tiver festa ali, o destino das bunitas na sexta é o Rheo Bar, que ocupa um anexo do megaclube Crobar, no Paseo de La Infanta. Já no sábado, a balada gay do momento é a Human, que acontece no clube Mandarine (o antigo Mint, na Costanera Norte). Quando você perguntar a algum portenho sobre o Rheo e a Human e ele responder que nesses lugares todas son histericas, não pense em uma Gaiola das Loucas: histerico, na gíria local, é quem faz carão. O Amerika continua sendo um coringa. Na quinta o som é ligeiramente mais eletrônico, sexta e sábado são noites de canilla libre (bebida grátis, imaginem o resultado), e no domingo ele acaba sendo o destino oficial depois do Palacio. Durante a semana, o clube eletrônico Bahrein ainda é uma ótima pedida, sendo que as quartas e sextas estão bem mais gays. Quinta, como sempre, é dia de ir ao bar-com-pistinha Glam, se você for gay, ou à clássica festa Club 69 (que voltou ao Niceto Club), se você quiser dançar house e electro em meio a performances extravagantes, quase circenses, que os gringos adoram. Falando em extravagância, Lady Gaga não virou febre em Buenos Aires - ali, ela deve ser menos popular que a Shakira. Se você adora dançar n'A Lôca e/ou é fã da Trash 80's, então há duas festas que você não pode perder: Plop! (na sexta) e Ambar La Fox (no sábado), ambas no Teatro Roxy. Você vai se sentir em casa. Modernos, hipsters e afins devem dar uma olhada no que está rolando no lounge El Living e no novíssimo Salon Real. E quem leva música eletrônica a sério pode começar com uns drinks no The Shamrock; depois, é só descer as escadas e dançar ali mesmo, no Basement Club. Ou pegar um táxi até o Cocoliche, o mais underground dos clubes, que costumava funcionar até altas horas (antes da lei nova) e só não abre às segundas. Agora, se o seu negócio é progressive house (totalmente a minha praia!), o Pacha continua trazendo grandes nomes da cena - vale a pena consultar o site do clube antes de escolher a data de sua viagem. Fui ver o Martín García e tive uma noite sen-sa-cio-nal. O próximo sábado (17/4) também promete ser fodástico, com o trio holandês 16 Bit Lollitas. Os portenhos continuam umas graças, mas Buenos Aires parece cada vez menos sexual. Não é se de admirar que eles cheguem ao Rio de Janeiro e fiquem loucos feito perras no cio. Na happy hour ou na xepa pós-clube, é constante o entra-e-sai das cabines nos cruising bars Tom's e Zoom. No capítulo saunas, a Nagasaki é a "269 portenha" e chegou com a missão de desbancar a tradicional Buenos Aires A Full (não conheço nenhuma das duas). Abriu também um clube de sexo, que atende pelo nome de Kadu (é sério). Nas sextas, o fervo é por invitación, dedicado a novilhos selecionados de 18 a 37 anos, enquanto os sábados são dedicados ao leather e festas temáticas. Ah sim, os portenhos gostam mesmo é de um bom cunete. Pronto, o roteiro de Buenos Aires já está devidamente atualizado! Buen provecho!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Atualizando Buenos Aires, parte 2: comes e compras

O Brasil continua na moda: música brasileira é o som ambiente em boa parte dos lugares que se pretendem cool. Já em lojas mais populares e todo lugar onde a bagaceirice reine, o que dá o tom é o reggaeton (mêda!). Os preços ainda estão camaradas, graças ao câmbio que nos favorece (AR$1,00=BR$0,53), mas não é tudo que vale a pena. Compensa comprar roupa: há marcas locais com peças lindas, que você não vai ver aos montes na boate (tipo aquela manjadérrima camiseta gola V com estampa de asas da Armani Exchange, sabe?). Se você fala ou está aprendendo espanhol, uma ótima ideia é passar uma tarde na suntuosa El Ateneo Grand Splendid e escolher uns bons livros na língua do Walter Mercado. Aproveite e compre um bom dicionário espanhol-espanhol, coisa difícil de se achar por aqui (eu uso e costumo recomendar o Larousse Enciclopédico). Marombados e aspirantes podem trazer na mala alguns potes de creatina, que não foi proibida na Argentina e é vendida em qualquer Farmacity, de marca a escolher. Por outro lado, eletrônicos, perfumes e óculos (desatualizados, diga-se), é melhor você deixar para comprar no duty free do aeroporto mesmo. Tênis? Foi-se o tempo em que o "valor numérico" na etiqueta era idêntico aqui e na Argentina (e, portanto, tudo lá custava a metade). Os preços são pouca coisa menores e há menos variedade (Asics e Mizuno, marcas adoradas pelos praticantes de corrida, inexistem). As lojas da Avenida Santa Fe já viveram dias melhores. A Florida vale só pela Zara e pela arquitetura quero-ser-Milão das Galerías Pacífico (que, como centro de compras, perde para shoppings maiores, como o Abasto e o Paseo Alcorta). Se você também é louco pelo sorvete de lá, leve para o Brasil! Você encomenda na Persicco com um dia de antecedência, eles acondicionam num isopor cheio de gelo seco (cabem até 3kg de sorvete), y ya está. Você vai levar na bagagem de mão, os guardas da Polícia Federal vão fazer cara de desconfiados e abrir o isopor, mas depois eles lacram de novo. Não deixe para comprar o sorvete na Persicco do aeroporto: a loja de Ezeiza é uma franquia, com poucos sabores - e nenhum dos especiais. Aos caçadores de ofertas que se jogam nos outlets da Avenida Córdoba, uma dica nova: perto dali, mas longe dos olhos dos desavisados, há um outro pólo de pechinchas, que atende pelo nome de Palermo Queen (na verdade, é um pedaço de Villa Crespo que foi rebatizado pelas imobiliárias, em "homenagem" ao Queens nova-iorquino). Os outlets das marcas bacanas estão escondidos na calle Aguirre. Nos restaurantes, tudo é barato: num lugar de bom padrão, os pratos mais caros dificilmente passam de AR$60. Mesmo as extravagâncias gastronômicas supremas - os champagne brunches dos hotéis de luxo, com as iguarias mais refinadas e garçons re guapos mantendo sua taça de espumante sempre cheia - continuam valendo a pena pelo que oferecem: AR$280 no Alvear e AR$210 no Four Seasons. O chato, em qualquer lugar, é ter que dar a propina (gorjeta) em dinheiro, porque os restaurantes não podem incluí-la no valor passado no cartão de crédito. As empanadas do El Sanjuanino ainda são as melhores da cidade, sendo que a de queso y cebolla é divina (e olha que eu não gosto de empanada, vocês nunca me verão pedindo uma no Brasil). Se você estiver em Palermo, a segunda loja deles, na Sanchez de Bustamante, fica mais perto. Curte ceviches? Saiba que a cena gastronômica portenha está vivendo uma onda nipo-peruana fortíssima. No Microcentro tem o Sipan (escondido numa galeria na Paraguay), em Palermo tem o concorrido Osaka e o novíssimo Parú - isso sem falar no Astrid & Gastón (mais tradicional, sem japonismos), que tem filial na cidade. Outro modismo que chegou chegando é o das cupcakes - a meca desses bolinhos-bebê-com-roupa-de-festa é a Muma's Cupcakes, uma lojinha branca toda fofa, em Palermo, que faz pequenas obras de arte que dão pena de morder. O elogiado tailandês Lotus Neo Thai se mudou de Las Cañitas para Belgrano, no coração do Barrio Chino (sim, existe um em Buenos Aires, poucos brasileiros sabem, eu mesmo não sabia). No quesito jantar-buxixo, quem cansou do Casa Cruz pode ir ao Tegui, do mesmo dono, ao Sucre, lindão, ou ao Gran Bar Danzón, que tem sushi e pratos contemporâneos, além de DJs nas noites de sexta. Gostei de conhecer o Quimbombó, na Plaza Palermo Viejo: três andares (o terraço é tudo), preço ótimo, gente bonita, drinks perfeitos e pratos contemporâneos com um pezinho no natural e outro no asiático. Você amava o espaço ao ar livre do Olsen, mas acha que a comida decaiu? Dê uma sapeada no Home Hotel, que tem um jardim parecido, e agrada tanto no brunch como nos drinks pré-balada. E para não dizer que não falei de carnes (afinal, estou escrevendo sobre Buenos Aires!), os turistas migram de uma casa para outra na medida em que vão se descolando. Começam no Siga La Vaca; depois aprendem que o La Caballeriza é bem melhor; aí percebem que Puerto Madero datou, passam a freqüentar Palermo e adotam o La Cabrera; e por fim, quando já começam a querer tirar onda de insiders, descobrem o Miranda, a parrilla do momento.

domingo, 4 de abril de 2010

Atualizando Buenos Aires, parte 1: impressões gerais

A melhor época para visitar Buenos Aires é nos meses de meia-estação, como este. Em julho, o frio rigoroso exige levar peso demais na mala, e o aumento na demanda, provocado pelas nossas férias escolares, inflaciona os preços; o verão (incluindo réveillon e carnaval) é um mico, com um calor insuportável e a cidade chocha, porque todo o agito (gay inclusive) se transferiu para Mar del Plata. E por falar em calor, uma campanha maciça contra a dengue está bombando por toda parte; essa não é uma preocupação só nossa. Buenos Aires é cosmopolita até nos nomes das ruas: Billinghurst, Clay, Pringles, Fitz Roy, French, Pasteur, Voltaire, Jean Jaurès, Bonpland, Humboldt, Vidt, Boulogne Sur Mer... O Rosedal, trecho mais bonito dos Bosques de Palermo, está interditado ao público, infelizmente. Um efeito da invasão sem trégua dos brasileiros é que o português falado pelos vendedores, garçons, taxistas e atendentes em geral está cada vez melhor. Antigamente, eu ficava intimidado quando entrava nas lojas e era recebido por um segurança mal-encarado, controlando a porta para evitar furtos. Hoje, já levo tudo para o lado do fetiche: tem cada coisinha... Palermo continua sendo a melhor área para caminhar, com os restaurantes e lojas mais descolados. Para quem ainda não conhece, o "centro nervoso" fica entre as ruas Honduras, El Salvador, Malabia, Armenia e Gurruchaga. E quem sempre freqüenta vai perceber que, de um ano pra cá, muita coisa abriu, fechou ou mudou de lugar. Já no Microcentro, região da hotelaria mais tradicional e que recebe a maioria dos pacotes brasileiros, a sensação de decadência é incômoda. As calçadas estreitas e esburacadas de sempre ficaram ainda piores com a sujeira deixada pelos mendigos, que abrem e reviram os sacos de lixo à procura de comida. Mas os meus dois restaurantes do coração continuam sendo bem ali: o Broccolino, com os Sorrentinos Tony que eu sempre cito no blog, e o Filo, que parou no tempo em algum lugar dos anos 90, mas ainda tem uma onda ótima, uma pizza idem e uma relação custo-benefício fantástica. E a Plaza San Martín [foto] nunca vai deixar de ser meu cantinho favorito para aqueles momentos de introspecção, pensando na vida e curtindo a própria companhia. A muvuca da Recoleta aos domingos, por conta da tradicional feirinha, é um desafio para a paciência, especialmente quando você se jogou horrores no sábado e ainda está meio cansado. O tal "renascimento cool" de San Telmo, de que se fala há uns bons três anos, ainda não me convenceu. E o Hotel Axel de lá faz menos barulho do que o original de Barcelona - talvez pela localização no meio do nada, talvez pelo fato de os hóspedes serem em sua maioria casais de meia-idade norte-americanos (um povo não lá muito festeiro, não é mesmo?). Que tal dar uma boa relaxada, cuidar da beleza ou até fazer um Botox básico? Dizem que o Markus, primeiro day-SPA exclusivamente masculino de Buenos Aires, é um luxo só. Para fazer ligações telefônicas, os locutorios continuam sendo uma maravilha (pena que não existe isso no Brasil). Para quem insistir em usar o roaming do celular, TIM vira Personal, Vivo vira Movistar e Claro continua sendo Claro, que é campeã de reclamações também entre os argentinos. E alguém pode me dizer por que TODO filme argentino precisa ter o Ricardo Darín encabeçando o elenco? Não existe oficina de atores na Argentina, não? Aliás, dá pra comprar El secreto de sus ojos baratinho, em DVD original com encarte e pôster, em qualquer banca de jornal. Incomodada ficava a sua avó: ninguém precisa mais guardar US$18 na carteira para pagar a taxa de embarque do voo da volta. Desde maio de 2009, a taxa passou a ser embutida no valor da passagem, como acontece em qualquer país minimamente desenvolvido. E falando em aeroporto, que tal uma ponte aérea para Buenos Aires? Me contó un pajarito que em breve teremos voos diretos de Congonhas (!?) ao Aeroparque Jorge Newbery (o aeroporto doméstico deles, convenientemente situado dentro da cidade). Tudo de bom!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Rapidinhas do fim de semana

ÔLHA O PASSARRINHO Uma dica para aficcionados por fotografia é a exposição de fotos do francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) no SESC Pinheiros, dentro dos eventos do Ano da França no Brasil. Considerado um dos pais do fotojornalismo, ele fez registros belíssimos de suas andanças pelo mundo, a maioria deles usando uma antiga Leica, câmera alemã que virou objeto de culto. Seus flagras do cotidiano são uma verdadeira aula de enquadramento, composição e sensibilidade. A mostra, gratuita, se estende até meados de dezembro.

UM NEGÃO CHAMADO BASTIÃO Lembram que um passarinho verde cochichou no meu ouvido, há dois meses atrás, que Salvador estava prestes a ganhar um novo clube? A casa, chamada San Sebastian, será inaugurada amanhã, com os convidados Felipe Lira e Eric Cullemberg no som. Fica na Rua da Paciência, a poucos metros do Boomerangue e, a exemplo do já não tão concorrido vizinho, tem três andares e programação variada (apenas o sábado é gay). A novidade vem em boa hora: as bunitas da cidade já estavam enjoadas da Off e quase não saíam mais de casa, o que deixava a noite de Salvador com um certo quê de Porto Alegre. Se a casa agradar, é natural que se torne líder aos sábados, deixando para a Off o posto de melhor opção das sextas-feiras.

MARA OU MICO? E falando em Bahia, alguém aí vai se jogar no festival Heaven & Hell, na Costa do Sauípe? Sei que ainda faltam dois meses (o evento começa em 20 de novembro), mas já era para o burburinho ter começado. É claro que o evento não se destina apenas aos paulistas (até mesmo pela proximidade geográfica, faz mais sentido que Salvador e Recife estejam em polvorosa do que SP), mas a organização certamente também esperava receber muita gente destas bandas, e não estou vendo nenhum tititi em cima dele por aqui. O que vocês me dizem: decola ou não sai do chão?

NUEVOS BOLICHES Outra cidade cuja cena noturna parece estar sacodindo a poeira e dando a volta por cima é Buenos Aires. Depois que o Palacio Alsina deixou de fazer as melhores noites gays da cidade para receber apenas eventos eletrônicos, muita gente que não vive o culto aos DJs não gostou nadinha de ter que se contentar com o Amerika. Chegou aos meus ouvidos que agora há alternativas por lá. Na sexta, o que está pegando é o Rheo Bar, ali no Paseo de la Infanta, dentro dos Bosques de Palermo, onde nos anos 90 funcionava o Buenos Aires News (não entendi se é algo light tipo Sonique ou um clube mesmo). Já no sábado, o boliche gay do momento é o novíssimo Human, que fica perto do Aeroparque (o aeroporto doméstico de BsAs). O blogueiro Gurizão (que está se revelando um ótimo olheiro de beldades) foi e adorou.

A BRANCA E A MEGA Já em São Paulo, a chapa tá esquentando. Amanhã acontece a reabertura da Megga, que prometia ser o segundo grande clube gay da cidade, mas saiu misteriosamente de cena poucas semanas depois da inauguração [que eu descrevi aqui]. A casa abrirá apenas uma vez por mês, justamente para garantir a bombação e a expectativa - na pista principal, Paulo Agulhari prometeu menos bate-cabelo e mais progressive. Enquanto isso, a The Week lançará uma nova festa, Nuit Blanche, com decoração all-white e cenografia especial. Grá Ferreira, que fará seu casamento religioso na mesma noite, sairá da igreja direto para lá e se apresentará de véu e grinalda, na pista principal. No mínimo, vale pela oportunidade única de ver uma DJ tocando vestida de noiva.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

A "aerovana" da Gol ataca Buenos Aires

Enquanto eu dava pinta no Planalto Central, teve muita gente que passou o fim de semana se esfalfando para tentar comprar os assentos promocionais que a Gol disponibilizou no tal Feirão. Como já aconteceu em promoções semelhantes dessa companhia que nasceu para ser barata, o site teve vários problemas - e, ainda assim, o resultado das vendas foi 40% superior ao que eles esperavam. Entre as pechinchas, tinha Guarulhos-Buenos Aires a R$179.

Alguns amigos felizardos conseguiram garfar seus lugares e vieram me pedir dicas argentinas. O blog tem bastante coisa sobre o assunto, que ainda é um dos que mais atraem internautas para cá, por meio dos sites de busca. Basta clicar no marcador "buenos aires", no canto esquerdo, e todos os meus posts relacionados ao tema aparecerão. Vou aproveitar essa "marolinha" de interesse sobre a cidade e deixar aqui mais algumas dicas.

Pelo visto, o Palacio Alsina deixou de fazer noites gays [alguém pode confirmar essa informação?]. Com isso, o Amerika torna-se praticamente a única opção de clube direcionado às culegas di classe. Pelo menos, o clube tem caprichado na programação eletrônica: amanhã, por exemplo, o convidado é o sempre chique Aldo Haydar. No capítulo bares, um amigo portenho acabou de me contar sobre uma nova opção para as sextas, o Rheo Bar, que fica ao lado do Crobar (ali no Paseo de La Infanta, dentro dos Bosques de Palermo). Ele disse também que o clube eletrônico Mandarine está emplacando nos sábados como uma opção um pouco mais gay do que o Pacha.

Neste sábado, nunca é demais lembrar que vai rolar em Costa Salguero a edição 2009 do festival Southfest - com Sasha, Tiga, Fischerspooner e o ótimo Basement Jaxx no line up. Nem preciso dizer que, por conta do festival, o after do Caix (que também fica em Costa Salguero) estará babadeiríssimo e absolutamente imperdível. Se bobear, vai ser mais divertido que o Southfest em si.

Para quem gosta de gastronomia e já é habitué da cidade, uma dica bem legal é o Guía Oleo, um site com resenhas de restaurantes. Jabá não entra: as avaliações são feitas pelo próprio público, que dá notas sobre comida, serviço e ambiente, e faz comentários francos e reveladores. É uma ótima maneira de se inteirar sobre as novidades do circuito (há uma seção só com lugares novos) e também saber a quantas andam os velhos conhecidos. Antigos favoritos do blog, o bufê Marini Gourmet e o tailandês Empire parecem ter deixado a peteca cair, tamanho o número de críticas falando sobre sua decadência. Outro que não tem sido poupado é o Te Mataré Ramirez, aquele da culinária contemporânea afrodisíaca. Hora de riscá-los do roteiro e abrir espaço para outros sabores.

Já para quem quer se situar na noite portenha, o endereço é o Buenos Aliens, que traz a agenda dos principais clubes/festas/afters da cidade e arredores. Ótimo para achar baladas no meio da semana (o Bahrein continua bombando), ou mesmo descobrir quem estará tocando no seu boliche (clube) predileto no finde. Hoje, rola no Niceto uma edição da Brandon Gay Day, festa esporádica que atrai um público gay mais alternativo. E para quem gosta de um som eletrônico mais underground, aqui vai a última dica: dizem que o Cocoliche está cada vez melhor.

[UPDATE: para pesquisar restaurantes, mais uma dica é o site Vidal Buzzi, que tem um mecanismo completo de busca por ambiente, comida, bairro e faixa de preço]

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Balanço portenho tardio

Tudo conspirava contra essa minha viagem a Buenos Aires. A crise econômica mundial desregulou as taxas de câmbio: no auge do pânico coletivo, o peso argentino, que minha mãe comprou a R$0,52 em julho, chegou a picos de R$0,87. Tony voltou de lá dizendo que tudo estava custando os olhos da cara, não havia mais vida noturna, enfim, o horror. No escritório, caiu sobre minha cabeça uma chuva de pepinos e problemas (ainda não inteiramente solucionados). Meu avô foi parar na UTI, com septicemia, e meu companheiro de viagem ameaçou desistir, porque no mesmo finde estava marcada uma festa com a "top DJ" Ana Paula, sua favorita. Para dar o arremate na uruca, esta seria (e foi) minha visita número 13. Ufa.

Felizmente, tudo deu mais do que certo. Nossa escapada portenha correu às mil maravilhas. Pegamos quatro dias lindíssimos de primavera, o céu de brigadeiro contrastando com o roxo dos jacarandás-mimosos [foto] e um clima mais do que agradável para curtir os lugares cool de Palermo, como o Olsen, onde tivemos um almocinho supimpa no sábado. Tudo está mais caro sim: os menus dos restaurantes foram remarcados e o valor das corridas de táxi praticamente dobrou (antes era quase ridículo). Mesmo assim, os preços novos continuam mais convidativos do que os nossos. Dá para fazer boas compras, ainda que não se possa mais falar em orgia consumista. Levei bastante dinheiro em pesos (consegui comprá-los a R$0,70) e a fatura dolarizada do meu cartão de crédito virá bem magrinha.

Fiz minha ronda habitual e fui vendo o que havia mudado de julho de 2007 para cá. Fui conhecer a filial portenha do Axel, o famoso hotel gay de Barcelona: o deck lembra a matriz, mas a piscina é bem maior (e eles estão fazendo pool party todo domingo). O hotel está isolado numa área meio morta de San Telmo (onde, aliás, o tímido renascimento ainda está longe de ser uma movida). Em Palermo, a buena onda continua, mas uma das minhas lojas favoritas, a Bokura, fechou as portas. Na mesma calle Gurruchaga, a Nike Soho agora só vende artigos vintage, preguiça total. No Parque 3 de Febrero, a prefeitura fez o favor de interditar todo o Rosedal para obras de restauração, então não pude mostrar ao Xande um de meus cantinhos favoritos. No capítulo baladas, o Palacio Alsina está mesmo fechado; o site fala em reformas, mas corre por aí o boato de que o novo boliche será hétero. Quem torce o nariz para o público mixed do Pacha tem que se contentar com o Amerika.

Mas minha agenda noturna em Buenos Aires estava tomada com o Creamfields, a principal razão da viagem. A edição deste ano foi uma boa surpresa. Em contraste com a selvageria adolescente de 2004, neste ano o público me pareceu bem mais tranqüilo e civilizado. A adoração coletiva pela música eletrônica continua, o povo ainda vibra e grita nas viradas, mas as tendas gigantescas do Autódromo agora dão espaço para todo mundo dançar sem atropelos. Na Cream Arena, onde finquei os pés, meu darling Martín García manteve o bom padrão, mas quem realmente arrebentou foi Steve Lawler - ele fez um set absurdo, impecável, que sozinho já valeu a viagem. A produção do festival me pareceu mais pobre e o Autódromo é longe pra dedéu, mas beleza: com boas companhias na mesma onda que eu, la pasé bárbaro.

Surpresa maior eu tive quando cheguei no Caix, onde nas manhãs de domingo o after Fiction segue firme como a melhor balada fixa de Buenos Aires. Eles deram um merecido upgrade no fervo, que agora rola em uma área maior, atrás do sobradinho quadrado de antigamente. O novo espaço tem uma pista mais ampla e um delicioso terraço que contorna o Rio da Prata, onde também dá para dançar (tem várias caixas de som). O lugar parece perfeito para uma festa de réveillon, sem perder a vocação underground. Duas janelas ao redor da cabine do DJ mostram o belo visual de fora para quem esqueceu de trazer o oclón e prefere fritar lá dentro. Aldo Haydar estava muito mais cómodo em seu próprio habitat (aliás, é com aquele lugar que o som dele combina, embora eu ache louvável a iniciativa da The Week de trazê-lo de vez em quando). E a freqüência é a mesma de sempre: diversificada, desencanada, divertida. A manhã passa rápido e, quando você vê, já passa da uma da tarde e é hora de ir embora.

Tudo isso ajudou a viagem a ser divina - meu acompanhante novato se encantou com Buenos Aires e já pensa em voltar nos próximos seis meses. Mas o melhor, para mim, ainda é simplesmente flanar por lá e ver que a empatia e a identificação que sinto pela cidade continuam intocadas. Gosto de Buenos Aires de graça - mesmo sem festival, sem bafão. Gosto do humor irônico deles diante das adversidades e amo o castellano portenho. Não deixo de adorar outros lugares do mundo que visito, mas é na capital argentina que eu realmente me sinto à vontade: ao longo dos anos, fui criando uma relação de cumplicidade, de familiaridade, como se ali também fosse a minha casa. Aliás, é um dos poucos lugares do mundo onde eu poderia morar para sempre (o outro é Madrid). Que bom que posso continuar indo para lá, comendo os Sorrentinos Tony do Broccolino, andando de táxi pela Avda. Del Libertador, curtindo minha própria companhia na Plaza San Martín, fazendo contrabando de sorvete da Persicco para o Brasil... Acho que ficarei nesse pingue-pongue entre São Paulo, Rio e Buenos Aires pelo resto da minha vida.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Buenas noches Cinderella

Apesar de já ter estourado minha cota de viagens deste ano, resolvi fazer uma extravagância pelo meu amigão que não conhece Buenos Aires e vou me jogar no Creamfields semana que vem (mais informações sobre o festival, você vê neste post). Enquanto fazia minha habitual pesquisa pré-viagem, qual não foi minha surpresa ao descobrir que o golpe do "boa noite cinderela" chegou com tudo à Argentina.

A droga usada nos golpes é conhecida como burundanga, tem sido manipulada com facilidade em laboratórios clandestinos em Buenos Aires e costuma ser dada às vítimas nas baladas (lá chamadas de boliches). O que se segue não é o roubo da vítima, como no Brasil, mas o estupro - por quem ofereceu a bebida e por seus comparsas, que agem em grupos de 3 ou 4. Os efeitos da droga chegam a durar até dois dias. A matéria (em espanhol) que trata do assunto, você pode conferir aqui, aqui e aqui; informações (em inglês) sobre a droga, aqui. Não pensem que isso só acontece com meninas: consta que um rapaz brasileiro de 20 anos também sofreu o golpe, e acordou em seu quarto de hotel em Bariloche com indícios de ter sido estuprado.

Papai e mamãe sempre nos dizem para não aceitar nada de estranhos. Mas, nas festas e afters da vida, não é nada raro as pessoas relevarem isso e tomarem golinhos disso e daquilo de pessoas que elas mal conhecem. Como dizem os portenhos, Ojo!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Vai começar o devaneio argentino, de novo

Amantes da progressive house, uni-vos: o Creamfields Buenos Aires, festival de música eletrônica que tradicionalmente dá uma atenção especial a esse gênero, já divulgou os destaques da próxima edição, que acontece no próximo dia 8 de novembro. Comemorando os dez anos do festival na Inglaterra, o line up de 2008 está sensacional: Steve Lawler, Satoshi Tomiie, Hernán Cattáneo, Martín García, Erick Morillo, Roger Sanchez, Cassius, Derrick May, David Guetta, Carl Craig, Booka Shade, M.A.N.D.Y., Gui Boratto e Simian Mobile Disco. (Tá?)

No site do festival ainda não consta a informação, mas o evento será novamente realizado no Autódromo de Buenos Aires (a ventania gelada, em pleno mês de novembro, pegou os brazucas de surpresa em 2007). Os ingressos já estão à venda a 130 pesos (cerca de 80 reais). Coloque na agenda e vá planejando a sua ida. Quatro dias por lá, com avião e hotel incluídos, saem a menos de 1000 reais (quanto você gastaria passando o mesmo período no Rio de Janeiro?).

E se você curtu a idéia, mas achou ruim que a data coincide com o único show da Kylie Minogue em São Paulo, que tal conciliar as duas coisas? Vá para Buenos Aires no dia 8, jogue-se de cabeça no Creamfields e no after do Caix, depois tire a semana para curtir os restaurantes deliciosos e as compras baratíssimas da cidade, e encerre a viagem com o show da cantora no sábado seguinte, 15/11 (informações aqui e aqui). Com isso, você passa uma semaninha mara na Argentina e ainda dá uma banana para a salafrária Tickets4Fun, responsável pela vinda de Kylie para o Brasil.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Rapidicas

SÃO PAULO Vai jantar com os amigos, mas não está podendo com a espera do Spot e do Mestiço? Uma nova alternativa na mesma região é o Boutique Bistrot, na própria Fernando de Albuquerque, já bem próximo da rua Augusta. O menu curto é ótimo para os indecisos: tem uma carne, um peixe, um frango, um risoto, um sanduíche, uma salada - e só. Gostei do peito de frango recheado de cogumelos com risoto de abóbora, bem servido e por um preço honesto. O ambiente, colorido e com luz baixa, tem jeitão de bar (os drinks são ótimos) e até um pequeno pátio interno (que deve ficar mais gostoso quando o tempo esquentar). Se o povo descobrir e adotar, tem tudo para ser o novo L'Open. Por enquanto, as coisas ainda estão calmas por lá.

RIO DE JANEIRO O bom filho, à casa torna. Meu lugar preferido para jantar no Rio de Janeiro, o Zazá Bistrô, recebeu de volta seu antigo chef, o boliviano Checho González, e está com pratos novos no cardápio. Mas eles não são loucos de tirar do menu os campeões de audiência, como o curry de frango ao leite de coco com legumes orientais, capim limão, gengibre e banana, arroz basmati com damasco e amêndoas (que, salvo engano, foi uma criação do próprio Checho). A simpática casinha verde cheia de plantas fica em Ipanema, na esquina da Joana Angélica com a Prudente, e no andar de cima você come em mesas baixas, sentado em almofadões à luz de velas.

BUENOS AIRES Velho conhecido dos viajantes experientes, o Te Mataré Ramirez não é um lugar qualquer, a começar pelo nome, pra lá de espirituoso. É um misto de restaurante contemporâneo, bar e teatro, e serve comida contemporânea afrodisíaca. Os pratos atendem por nomes impagáveis como "Acariciate, quiero mirarte, acaricia tu sexo señor amado mio" e "Los golpes dentro de mi, esa dulce violencia". Mantendo o bom humor, a programação tem shows de cabaré, monólogos eróticos e até um safado teatrinho com sexo explícito entre bonecos. O lugar deu um upgrade na localização e mudou-se para Palermo Viejo: agora fica na calle Gorriti, 5054.

SALVADOR Não é difícil se divertir na capital baiana: é tudo questão de descobrir qual "o lugar certo" para ir naquela noite. E o fervo do momento entre os só-té-ró-pó-litanos atende pelo nome de Marquês. Instalado num casarão preservado do início do século XX, serve drinks, quiches e comidinhas num ambiente superfofo [foto ao lado]. O povo pede os tragos no balcão, amontoa-se entre as mesas (pensou no nosso Ritz? eu também) ou vai tomar um ar fresco na varanda. DJs cuidam do som eletrônico. Festinhas especiais têm rolado por lá, como a Cocktail, que superlotou a casa no Dia dos Namorados. O Marquês fica na Rua Marquês de Caravelas, 148, na Barra. [Ao meu querido amigo João Figuer, o baiano mais bem-relacionado depois de ACM, Gil e Caetano, obrigado pela dica!]

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Pacha Buenos Aires traz estrelas de progressive

Se você ficou com vontade de ir a Buenos Aires quando leu o post sobre o Southfest (minifestival que rolou sábado passado), atenção: o Pacha de lá está com uma programação sensacional nos próximos quatro finais de semana. Neste sábado (12/4), o clube recebe o holandês Sander Kleinenberg (que tocou anteontem na Anzu, em Itu). No dia 19, o astro local Martín García comanda mais uma Journey, residência trimestral em que constrói uma longa viagem pelas profundezas da progressive house. Em 26/4, a casa varia de estilo e investe na house de Chicago, trazendo o top Derrick Carter, que já tocou várias vezes no Brasil. E no dia 3/5, os convidados serão a dupla John Creamer & Stephane K, velhos conhecidos dos amantes de um som progressivo mais dark, e responsáveis por hits de pista como "Hide U" e "Wish You Were Here".

Se eu pudesse, nem pensaria duas vezes: iria ver meu ídolo Martín García, aproveitando que dia 21 é meu aniversário e feriado nacional. Mas voltar a ser estudante significa abdicar dos prazeres mundanos quando eles coincidem com a semana de provas... então fica a dica para os aventureiros. Dá para aproveitar um dos próximos feriados ou, para os que puderem tirar uma semana de férias, pegar o Sander no dia 12 e o Martín no dia 19. E nem tchuns para a programação cada vez mais capenga do Skol Beats.

domingo, 23 de março de 2008

Agenda eletrônica

::: Para quem gosta de dançar feliz, rebolando e cantando o refrão, o nova-iorquino Erick Morillo [foto à dir.] traz de volta ao Brasil sua boa house music com vocais conhecidos e um certo apelo comercial. No estado de São Paulo, serão duas apresentações - a primeira no dia 4 de abril, na The Week, e a segunda no dia 20 de abril, véspera de feriado, no Sirena, em Maresias. Ele também passará por Brasília (5/4), Belo Horizonte (18/4) e Balneário Camboriú (19/4). Morillo é um dos donos do selo Subliminal Records, há sete anos responsável por uma das noites de house mais bombadas do verão de Ibiza, que rola todas as quartas no Pacha de lá. O cara realmente toca com o coração: dança, canta junto e, a cada virada, fecha os olhos e dá tudo de si, como se estivesse tendo um orgasmo. Sem dúvida, alguém que ama o que faz.

::: Já os amantes da house progressiva não podem perder a apresentação do top holandês Sander Kleinenberg [o bonitão da foto à esq.], dia 5 de abril na Anzu, em Itu (a 92km de SP). O clube, gigante, é um dos mais bonitos do Brasil, e os preços são até camaradas para um DJ desse porte: para homens, entrada a R$ 30 mais consumação de R$ 20 (pista), R$ 40 (mezanino) ou R$ 80 (camarote). Tive a oportunidade de ver Sander tocando no Amnesia, em Ibiza, e posso garantir: o som do moço - arrasa-quarteirão, extremamente dançante e bem-humorado, passeando por diversas vertentes da house - vale a viagem até Itu.

::: Para quem puder ir um pouco mais longe, no mesmo dia 5 de abril acontecerá em Buenos Aires a quinta edição do minifestival Southfest - terceiro maior evento eletrônico da cena portenha, atrás apenas do gigantesco Creamfields e da South American Music Conference. Desta vez, a festa será em Costa Salguero, em formato menor e mais intimista. Os destaques do line up serão Paul Oakenfold, a dupla Underworld e o ídolo argentino Hernán Cattáneo - que deve fazer mais uma de suas apresentações apoteóticas. Quem for se aventurar pode aproveitar e esticar a balada no Caix - o famoso afterhours também fica em Costa Salguero e vive suas melhores manhãs quando acontece depois de festivais.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Guia de Buenos Aires, parte 3: conselhos de mãe

Para encerrar o guia de Buenos Aires, aqui vão algumas dicas acumuladas em 18 anos de experiência... boa viagem aos que vão!

1 - A maioria dos turistas vai a Buenos Aires com pacotes - que incluem, além de passagens, acomodação e city tour, os traslados do aeroporto de Ezeiza para o hotel e vice-versa. Se estiver indo por conta própria, cuidado: você será abordado por várias pessoas oferecendo táxi (como na rodoviária do Rio), mas não aceite (há ladrões misturados). Assim que cruzar a porta corrediça após a inspeção das bagagens, você verá no saguão uma "ilha" azul com um serviço de transfer confiável. Você pode reservar: info@taxiezeiza.com.ar ou (+54) 11 5480-0066. Se quiser economizar, vá de micro-ônibus - procure o guichê da empresa Manuel Tienda León, logo após a porta corrediça.

2 - Você poderá gastar seu cartão de crédito à vontade em lojas e restaurantes. Mesmo assim, é importante ter algum dinheiro em espécie para táxis, baladas, gorjetas e gastos do dia-a-dia. Os brasileiros insistem em trazer dólares, mas o ideal é já chegar com pesos argentinos mesmo (as boas casa de câmbio do Brasil vendem). Se você trocar reais por dólares e depois por pesos, perderá dinheiro duas vezes. Vários lugares aceitam dólar, mas aproveitam para tirar vantagem em cotações bastante desfavoráveis ao turista. De qualquer forma, se precisar comprar pesos por lá, nada de trocar no hotel, muito menos no aeroporto. Vá à Metropolis, uma casa de câmbio confiável, que fica na Florida, quase esquina com a Avenida Córdoba. A preocupação com notas falsas é, infelizmente, necessária.

3 - Como país membro do Mercosul, a Argentina não exige passaporte dos turistas brasileiros: basta o RG original, desde que a cédula esteja em bom estado (não servem carteiras de identificação profissional, tipo OAB). Caso você leve o passaporte, ande na rua com uma cópia e deixe o original guardado no cofre do hotel. Buenos Aires não é uma cidade ostensivamente perigosa, mas ladrões de bolsas e carteiras atacam em áreas com grande fluxo de turistas, em especial os calçadões da Florida e Lavalle. Afaste-se das rodinhas de gente que se abrem em volta dos dançarinos de tango e outros artistas que se apresentam na rua - esse tipo de aglomeração é um alvo preferencial - e não dê atenção a criancinhas pedintes, por mais fofas que pareçam. Nem dê bobeira com sua câmera digital.

4 - Para se locomover, use e abuse dos táxis, que são muito mais baratos do que em qualquer capital brasileira. Os motoristas costumam ser simpáticos e falantes - se você der trela, o papo vai embora, mesmo se você só fala português (é mais difícil para o hispânico entender português do que para o brasileiro entender espanhol, mas em Buenos Aires todos já se acostumaram com a invasão brazuca). Mas traga troco, sempre - inclusive suas moedinhas. Familiarize-se logo com as notas argentinas, para não correr o risco de receber dinheiro velho ou falso de algum taxista de má fé. E, por questão de segurança, só entre em carros que trazem na porta a inscrição "radio taxi".

5 - Lembre-se: taxistas recusam passageiros saídos de eventos eletrônicos - com medo de que eles portem drogas, estejam sujos, façam bagunça ou simplesmente não paguem a corrida. Por isso, pense com antecedência na sua volta do Creamfields. O ideal é contratar um rádio-táxi que te leve e depois te pegue, em uma hora e local a combinar (de preferência, antes das 6h, quando o som pára nas tendas e as 70 mil pessoas saem de uma vez). Se você não contratou táxi ou ele deu o cano, não se desespere: dá para ir andando até o premetro, espécie de trem que é conectado à rede de metrô (subte). Você sobe na estação General Savio, desce na Plaza de Los Virreyes (última estação da linha E do metrô), e de lá chega onde quiser no centro, fazendo as combinaciones necessárias. O problema é que o festival acaba às 6h e, aos domingos, os trens só começam a operar às 8 da manhã.

6 - Quando for fazer compras, não se esqueça de pedir o formulário para receber o reembolso do ICMS. Para ter direito ao benefício, o turista (sem residência na Argentina) deve gastar, na mesma fatura, um mínimo de 70 pesos, e os produtos devem ser nacionais, ou seja, argentinos - portanto, tênis da Nike e calça da Diesel estão fora. As lojas conveniadas com o sistema (nem todas são) possuem o adesivo "tax free" na vitrine. Apresente os formulários preenchidos (junto com as notas) no guichê do aeroporto, para conferência e carimbo, antes de fazer o check in (você pode ter que exibir os produtos). Depois de atravessar a Polícia Federal, haverá outro guichê, onde você escolherá como deseja receber o imposto: na hora, em pesos, ou por meio de crédito na fatura do seu cartão.

7 - Vai se esbaldar nas churrascarias argentinas? O portunhol corre solto, mas é de bom tom saber ao menos explicar em que ponto prefere comer sua carne. Mal-passado é jugoso ("rugôsso"), ao ponto é al punto e bem-passado é bien hecho ("bienêtcho"). Na hora de escolher os acompanhamentos, esqueça o arroz - o argentino não tem esse costume e, portanto, as poucas casas que oferecem no cardápio (para os brasileiros) não sabem fazer bem. Prefira batatas - se quiser comer de um jeito típico, peça papas provenzal, fritas com alho e salsinha. E, na hora de colocar sal, cuidado: o saleiro deles tem furos mais largos do que o nosso, de modo que uma "sacudida à brasileira" pode acabar estragando sua comida.

8 - Para fazer ligações telefônicas, só use o telefone do quarto em caso de emergência - os hotéis cobram uma verdadeira fortuna pelas llamadas (amigos desavisados que passaram apenas 5 dias no hotel pagaram quase R$150 em telefonemas). Para qualquer tipo de ligação, use sempre os locutorios, postos telefônicos onde você fala confortavelmente, sentado numa cabine individual, controlando o total gasto em um mostrador digital. Muito mais baratos, os locutorios estão por toda parte (especialmente na Florida, Santa Fe e adjacências), e a maioria também possui computadores com acesso à internet.

9 - Na hora de comprar presentes para os amigos do Brasil, a maioria pensa mesmo nos tradicionais alfajores da Havanna, que são vendidos em caixas de 6, 12 ou 24 unidades, em vários sabores (o melhor é o de doce de leite, nozes e castanhas de caju, coberto com chocolate branco). Saem muito mais barato lá do que aqui (R$ 1,40 cada um, contra uns bons R$ 5 no Havanna Café em São Paulo) e podem ser encontrados em qualquer lugar, inclusive no duty free shop do aeroporto de Ezeiza (para alívio dos esquecidos, com seus presentes de última hora). Mas não deixe de ver a validade no fundo da caixa: algumas lojas menores não querem perder seus estoques e continuam vendendo mesmo após o vencimento.

10 - Não esqueça, em hipótese alguma, de guardar US$ 18 (ou a quantia correspondente em pesos) para pagar a taxa de embarque da volta no aeroporto de Ezeiza. A taxa, que é destinada à manutenção dos aeroportos argentinos, pode ser paga em dinheiro vivo ou em cartão de crédito Visa (os outros cartões não são aceitos). Sem essa taxa paga, você não embarca!!! [UPDATE: desde maio de 2009, a taxa de embarque de Ezeiza passou a vir embutida no próprio valor da passagem, como sempre foi praxe em qualquer país civilizado do mundo. Portanto, este item 10 não se aplica mais].

[Foto: Plaza San Martín, no Centro, meu cantinho preferido em Buenos Aires]

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Guia de Buenos Aires, parte 2: onde comer


Com um povo que descende de várias nacionalidades e leva o prazer de comer a sério, Buenos Aires só poderia ter uma cena gastronômica riquísima. Dá para passar meses conhecendo e testando lugares novos, que vão das tradicionais carnes e massas até pratos da cozinha contemporânea, passando por ótimos frutos do mar - isso sem falar dos inesquecíveis sorvetes e do famoso dulce de leche.

É importante explicar aos marinheiros de primeira viagem o que significa o cubierto que virá cobrado na conta. Não tem nada a ver com o nosso couvert (portanto, nem adianta dispensar o pão). É uma taxa fixa, que os restaurantes cobram de todos, pelo uso dos talheres ("cubierto" em espanhol = garfo + faca + colher). Também não se trata de gorjeta (propina, em espanhol), que é dada à parte pelo freguês ao seu gosto (muitos restaurantes não aceitam incluí-la no cartão de crédito).

Em relação aos horários, algumas particularidades. Durante o dia, alguns restaurantes fecham após as 15h ou 16h e só reabrem à noite. E se você chegar para jantar antes das 21h, provavelmente só verá os garçons e o cozinheiro - como bom boêmio que é, o portenho janta tarde. Obviamente, se você resolver chegar às 23h00 num restaurante concorrido como o Green Bamboo, vai esperar em pé até que a primeira leva que lotou as mesas comece a ir embora.

Aqui vão minhas 10 dicas de comida:

1 - Entra ano e sai ano, e meu predileto continua sendo o bom e velho BROCCOLINO (Esmeralda, 776), um restaurante simples e honesto que tem um quê das cantinas italianas de NY e vive cheio. Meu prato do coração são os sorrentinos Tony (de presunto, ricota e queijo, com um saboroso molho de tomates frescos, mussarela e manjericão), mas tudo que eles fazem é maravilhoso, não dá para errar. Tente as cintitas nero di seppia profumo di mare - um macarrão linguini negro, feito com tinta de lula, com molho de salmão, creme de leite e frutos do mar. Ou divida com alguém o enorme linguado com um molho cremoso de vinho branco e camarões, mais purê de batata. Nham-nham.

2 - Também não falta nas minhas viagens a boa pizza do FILO (San Martín, 975). O restaurante segue a mesma linha colorida-moderninha do PIOLA (que fica na Libertad, 1078), mas a comida é mais caprichada e o staff, mais atencioso - eles sempre sabem qual é a boa da noite e, se não souberem, os muitos flyers do balcão do bar podem ajudar. As pizzas são finas e leves, mas sem a miséria de recheio do Piola. Peço sempre a Al Prosciutto, com cogumelos como ingrediente extra. Eles também fazem metade de cada sabor, como no Brasil. Vale lembrar que a pizza pequena tem 6 pedaços - pode ser uma boa para um casal sem muita fome.

3 - Que tal andar por um grande salão com várias pequenas cozinhas, onde simpáticos chefs preparam na sua frente pequenas porções de massas, carnes, pescados, comida internacional e doces, tudo gostoso e sofisticado, para você ir provando e repetindo como quiser? E mais, pagando algo como R$26 por pessoa? Esse verdadeiro achado, quase bom demais para ser verdade, atende pelo nome de MARINI GOURMET (Avda. Santa Fe, 3666) Abre para almoço e jantar, sendo que no jantar e nos almoços de fim-de-semana a comida tende a ser mais diferenciada do que nos almoços comuns.

4 - Naturalmente, você vai querer provar uma boa carne argentina. Qualquer lugar decente sabe fazer um bom bife de chorizo - o famoso contra-filé argentino, que é uma espécie de "pretinho básico" que nunca falha quando não se sabe o que pedir. Mas há outros cortes que merecem ser provados, como o bife de tira (meu preferido), o asado de tira e o vacío. Quem está acostumado a abrir a carteira no Rubaiyat paulistano pode conhecer o braço argentino da rede, o CABAÑA LAS LILAS, em Puerto Madero. Agora, se quiser comer uma carne do mesmo nível sem gastar tanto, vá ao LA CABALLERIZA (tem em Puerto Madero e no Village Recoleta).

5 - Gosta de comida asiática? Buenos Aires tem boas opções que vão muito além do sushi e do frango xadrez. No Centro, prove a comida tailandesa do EMPIRE (Tres Sargentos, 427) que é totalmente gay friendly. Recomendo os langostinos (camarões) empanados com molho de shoyu e tamarindo e a sopa de cubos de frango, leite de coco, gengibre, capim-limão e cogumelos. E em Palermo, não perca o GREEN BAMBOO (Costa Rica, 5802), um bar-restaurante vietnamita descolado, escurinho e aconchegante (a comida vietnamita não destoa muito da tailandesa; para ter uma idéia, veja o cardápio deles aqui). Convém reservar, já que é pequeno e lota cedo.

6 - O bairro de Las Cañitas também tem ótimas opções de gastronomia. Minha favorita lá é o EH! SANTINO (Baez, 194), um desses lugares que deixam você naquelas "sinucas de bico" entre 4 ou 5 pratos do menu. Felizmente, eles tem uma opção que se chama trio de pastas: você combina 3 massas com 3 molhos, num pratão retangular para duas pessoas. Eu, por exemplo, gosto de pedir assim: (a) gnocchi de espinafre com uma espécie de ragu de tomate e vinho e mais cogumelos frescos e secos; (b) sorrentinos negros (feitos com tinta de lula), recheados com lagostins, camarões e kani kama moídos, com molho rosado e pesto; e (c) agnolottis de presunto, mussarela e ricota, com creme, tomate concassé e manjericão. De lamber o prato.

7 - Vai garimpar as lojas descoladas de Palermo Viejo? Um ótimo lugar para sentar com as sacolas e fazer um lanche é o MARK'S (El Salvador, 4701), um café com comidinhas simpático e bem freqüentado, que faz sanduíches incrementados no pão ciabatta e bolos caseiros bem com cara de vovó. Outra opção bacaninha é o versátil BAR 6 (Armenia, 1676): dá pra tomar café da manhã, almoçar, beliscar algo à tarde e até jantar - mas, para jantar por ali, prefiro comer um risoto de vitela, cogumelos e parmesão no CLUNY (El Salvador, 4618), ou um crepe de caranguejo gratinado do LA BAITA (Thames, 1603).

8 - Sua ida a Buenos Aires não será completa se você não cair de boca nos melhores sorvetes do mundo. O título sempre foi da FREDDO. Mas a família que criou a rede recebeu uma boa proposta de um grupo estrangeiro e passou a marca adiante. O Freddo continua igualzinho e delicioso, mas seus fundadores conseguiram criar uma sorveteria ainda melhor: a PERSICCO. É de comer de joelhos. Na Freddo (que tem na Santa Fe, em Puerto Madero, na Recoleta e nos shoppings), prove os sorvetes feitos com pelotas de dulce de leche mole dentro, como chocolate suizo, crema tramontana e banana split. Na Persicco (Jerónimo Salguero, esquina com Cabello), você também pode pedir todos esses, mas não deixe de provar mousse de chocolate, tarta de limón e crema mascarpone, com gosto de cheesecake e frutas vermelhas.

9 - Se, já que você está gastando dinheiro para jantar, você quer ver e ser visto, arrisque o pretensioso CASA CRUZ (Uriarte, 1658), se você for hétero, ou o bar-restaurante-cabaré CHUECA (Honduras, 5255), se for gay. Ou então vá tomar um drink no bar do FAENA (atrás de Puerto Madero), design hotel de cair o queixo projetado por Phillippe Starck. Em Palermo, outros lugares para um bom drink são o gay ANDY (Jorge Luís Borges, 1975) e o alternativo KIM Y NOVAK (Güemes, 4900).

10 - Por fim, se você não tem nada para fazer no almoço de domingo (um after no Caix, uma festinha particular, uma excursão ao Uruguai), considere seriamente a idéia de tomar um champagne brunch nos hotéis ALVEAR (o mais caro da cidade) ou FOUR SEASONS. Nos dois casos, a comida é farta e sofisticadíssima, e os garçons não deixarão sua taça de champagne ficar abaixo da metade. O preço gira em torno de 130 pesos por pessoa (algo como R$90), o que é muito barato para um banquete de luxo em que você é tratado como um rei. Os brunches só são servidos aos domingos e é preciso reservar com uma certa antecedência.

[Foto: sorrentinos Tony @ Broccolino]

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Guia de Buenos Aires, parte 1: o que fazer



A pedidos, começo aqui uma série de 3 posts com dicas de Buenos Aires, para os amigos que estão indo ao festival Creamfields (e os outros que estiverem lendo depois). Nesta primeira parte, vou fazer um apanhado sobre passeios, compras e baladas. Na parte dois, uma seleção de 10 lugares do meu roteiro gastronômico pessoal. E, na última parte, 10 conselhos úteis para aproveitar a viagem ao máximo e evitar dores de cabeça.

1 - Tem city tour no pacote? Então faça logo. Você tem uma visão panorâmica da Buenos Aires turística, tira eventuais dúvidas com a guia local e, de quebra, já vê/fotografa/risca da lista aquelas atrações que basta ver uma vez na vida e pronto, como o Obelisco, a Plaza de Mayo, a Casa Rosada e as casinhas coloridas do Caminito em La Boca. O passeio te toma uma manhã inteira (das 9h às 13h) e, a partir daí, você está livre para se aprofundar e curtir com calma o que realmente interessa.

2 - Uma das atrações que você só vê de longe da janela do ônibus e merecem ser curtidas com calma é o Parque 3 de Febrero, também conhecido como "Bosques de Palermo". Pulmão verde da cidade, é onde os portenhos vão para namorar, andar de bicicleta ou passear com as crianças e os cachorros.
O parque é bem grande e muito bonito, especialmente os jardins em estilo parisiense do Rosedal (peça para o taxista te deixar nesse pedaço). Passeie pelas alamedas floridas e depois espere na beira do lago pelo pôr-do-sol. Um dos lugares mais românticos de Buenos Aires, é ótimo para dar um tempo da agitação urbana/consumista - ou despoluir a cabeça depois de uma intensa jogação eletrônica.


3 - Gosta de programas culturais? Não perca os dois melhores museus de Buenos Aires. O Museo Nacional de Bellas Artes é, guardadas as proporções devidas, o Louvre da cidade: é grandão e tem um pouco de tudo, entre pinturas, esculturas, tapeçaria, arqueologia etc. Já o MALBA, menorzinho, é uma coleção de arte moderna, que em pouco mais de uma hora se vê inteira e com folga. Fanáticos por política podem agendar uma visita à Casa Rosada por dentro; já o imponente Teatro Colón continua fechado para reforma.

4 - No domingo você provavelmente vai amanhecer no Creamfields e acabar de meter o pé na jaca, em grande estilo, no Caix. Não fosse isso, você poderia fazer um passeio bastante típico: ir à Plaza Dorrego, no bairro histórico de San Telmo, a partir das 11 da manhã. Na praça, há um concorrido mercado de pulgas, com antiguidades variadas; nas esquinas, casais de bailarinos dançam tango, para deleite da turistada. Depois de anos de descaso, San Telmo está querendo ser cool, com lojinhas bacanas abrindo aos poucos, dois cafés gays fofos (o La Farmacia e o Pride Café) e, a partir do dia 10, o primeiro hotel gay da América Latina - o hypado Axel.

5 - Outros lugares gostosos de bater perna são La Recoleta e Puerto Madero. La Recoleta é o bairro das madames chiques de Buenos Aires (as maisons da alta costura estão todas na Avenida Alvear). Na praça ao redor do Cemitério da Recoleta,onde Evita está enterrada, há cafés com ar parisiense e, nas tardes de domingo, uma gostosa feirinha de artesanato, com apresentações de artistas de rua e um vaivém interessante de famílias, jovens e turistas. Puerto Madero é a região das docas, salva da degradação por um projeto de revitalização que transformou os galpões em restaurantes. São lugares, em sua maioria, caretas, turísticos e caros, mas é gostoso dar uma andada pela passarela ao longo do rio tomando um sorvetinho da Freddo.

6 - As duas principais ruas de compras são a calle Florida e a Avenida Santa Fe. A Florida, um calçadão infestado de turistas, já perdeu o brilho de outros tempos, mas ainda é boa para comprar tênis (tem muitas lojas com todas as marcas), CDs (na bem-abastecida Tower Records) e roupas da Zara (a maior das cinco filiais da cidade está ali). A Santa Fe tem filiais de algumas grifes locais, lojas próprias de todas as marcas de tênis que importam (Nike, Adidas, Puma, Reebok), a El Ateneo Grand Splendid, uma megastore de livros e CDs instalada dentro de um belo teatro restaurado, e a Galería Bond Street, que faz as vezes de Ouro Fino local, com street wear, tattoos, piercings, bullets, camisetas de bandas e emos argentinos. A avenida é bastante longa; o melhor trecho de compras fica entre as ruas Libertad e Riobamba.

7 - Para quem tem pouco tempo e gosta da praticidade dos shoppings centers, Buenos Aires tem ótimas opções. O Alto Palermo concentra todas as boas lojas de roupa argentinas (Bensimon, Ona Saez, Kosiuko, Tascani, Key Biscayne etc.). O Paseo Alcorta tem jeitão de mall dos Estados Unidos, com pé-direito alto, muita luz natural e uma Emporio Armani novinha. O Galerías Pacífico fica no coração da Florida, tem bem menos opções de lojas, mas vale uma olhada pela belíssima arquitetura européia - parece uma miniatura da Galeria Vittorio Emmanuelle de Milão.

8 - Em Palermo Viejo fica o comércio realmente descolado de Buenos Aires. Os endereços certos não estão comodamente enfileirados em uma única rua, como na nossa Oscar Freire, e sim espalhados, como na Vila Madalena. Para não ficar perdidão, abra seu mapa, trace um quadrado entre as ruas Malabia, Gorriti, Jorge Luis Borges e Costa Rica e ande dentro dele. Minha rua predileta é a Gurruchaga - tem lojas bacanas como Felix e Bokura, a loja própria da Diesel, a multimarcas Red Store (que recebe da Diesel as coleções passadas, a preços bem baixos) e a Nike Soho, que vende os produtos da linha diferenciada da marca. É uma zona para garimpar e explorar sem pressa.

9 - Baladas: o Creamfields sozinho já vale a viagem, mas quem tem energia de sobra pode começar a gastá-la bem antes, já que a noite de Buenos Aires acontece todos os dias da semana. Você chega na quinta-feira? Vá dançar house e electro com os héteros na Club 69 (Federico Lacroze, 3455), ou arrisque a boate gay Amerika (Gascón, 1040), depois de uma passadinha opcional no pequeno Glam (Cabrera, 3046). Na sexta, você pode escolher entre um megaclube eletrônico estilo Ibiza (o Crobar, no Paseo de La Infanta) ou uma boate gay que parece uma catedral (o Palacio Alsina, na Alsina 940). Sábado seria dia de Pacha (Av. Costanera Norte), principal clube eletrônico do país, mas devido ao festival a casa nem deve abrir. Na manhã de domingo, o melhor after, sem dúvida alguma, é o do Caix (em Costa Salguero) mas, se você precisa escutar tribal até em Buenos Aires, vá bater cabelo no Palacio Alsina, que fará um after especial para as bees.

10 - Para aqueles que vivem reclamando que meus guias são pudicos demais e não têm dicas de pegação, vamos lá. A pré-balada gay oficial é no bar Chueca (Honduras, 5255), um bom lugar para tomar os primeiros tragos e paquerar, chegar junto, treinar seu espanhol ou mesmo falar o bom e velho português (cuja sonoridade dá tesão em 9 entre 10 argentinos). Agora, se você não quer saber de papo furado, tem dois cruising bars que você precisa conhecer. Ambos são dos mesmos donos e têm uma estrutura parecida, de surpreendente limpeza e bom gosto, com bar, música inesperadamente boa, um lounge escurinho com pufes, cabines com vídeo e labirintos. O Tom's, mais antigo, fica na região da Florida (Viamonte, 638) e o Zoom, na região da Santa Fe (Uriburu, 1018). Dá pra passar na happy hour, antes ou depois da balada - de sexta a domingo, eles funcionam 24hs. Boa sorte.

[Fotos: Caminito e ponte sobre o lago do Parque 3 de Febrero]

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

O sobe-e-desce do Creamfields Buenos Aires 2007


No próximo sábado, acontece em Buenos Aires a edição 2007 do festival de música eletrônica Creamfields. Vários amigos (e também alguns leitores do blog que não conheço) estão aproveitando o pretexto do festival para visitar a cidade pela primeira vez, e me pediram dicas. Por isso, vou postar nos próximos dias um guia em três partes, com restaurantes, passeios, compras e conselhos úteis.

Enquanto o guia não vem, quem quiser pode ler meus posts anteriores sobre a cidade, a noite portenha e o festival. E falando em festival, mesmo sem poder ir desta vez, me arrisco a fazer um sobe-e-desce com base nas minhas experiências anteriores...

UAU:

1) O LINE UP CHEIO DE ESTRELAS. Carl Cox, Chemical Brothers, John Digweed, Hernán Cattáneo, Mark Farina, Tiefschwarz, 2ManyDJs, James Zabiela... o festival argentino tem muito mais bala na agulha para trazer nomes do primeiro escalão da eletrônica do que o nosso cada vez mais mirrado Skol Beats. No quesito "top DJs", o Creamfields não economiza: é muito mais atração boa pelo seu dinheiro.

2) A ESTRUTURA MEGA ORGANIZADA. Ao longo dos seus seis anos de existência, o Creamfields cresceu e virou um colosso, que neste ano já espera receber 70 mil pessoas. Um evento desse tamanho ou funciona muito bem, ou simplesmente não funciona. Felizmente, tudo ali é organizado de forma altamente profissional, desde a entrada (que anda rápido e sem dramas na revista), até a sinalização das tendas, passando pela oferta de bares e banheiros, sem esquecer do cada vez mais importante plantão médico.

3) O AFTER DO CAIX. Se o festival costuma ser bom (com variações de ano para ano conforme as atrações escaladas), o "segundo round" no Caix consegue ser ainda melhor. Em domingos normais, a combinação de música boa, gente descolada e fervida e vista para o Rio da Prata já faz dessa a melhor balada fixa da cidade; quando tem algum festival antes, todo mundo que importa vai pra lá depois, e o que já era babado fica incrível. Aos menos resistentes, vale até sair mais cedo do festival e descansar um pouco no hotel, para não deixar de ir ao Caix.

4) A PAIXÃO DOS ARGENTINOS POR PROGRESSIVE HOUSE. Poucos povos no mundo têm uma adoração por música eletrônica e uma energia tão contagiante como os argentinos. Em pistas como a do Pacha, as pessoas gritam, pulam e dançam eufóricas - especialmente se o som for progressive house, a paixão nacional. Não por acaso, a tenda que o festival dedica a esse gênero (Cream Arena) é, de longe, a maior de todas. Dançar nela é uma experiência única. A resposta da multidão ao som de Hernán Cattáneo e Martín García, maiores expoentes do prog e verdadeiros heróis locais, é simplesmente indescritível. A tenda inteira vibra, ovula e parece sair do chão. E até aspirina deixa você feliz.

UÓ:

1) O DRAMA DO TRANSPORTE. Os taxistas de Buenos Aires têm uma peculiaridade: simplesmente não aceitam passageiros saídos de eventos eletrônicos. Por melhor que seja o seu estado, você chama, eles dizem que não e passam reto - sempre foi assim. Isso quer dizer que todo mundo que não veio de carro ou não contratou previamente um rádio-táxi com hora marcada para buscá-lo é obrigado a ir embora a pé. Quando o Creamfields era na Costanera Sur, era quase uma hora de caminhada até uma área onde passassem táxis que não sabiam do festival e parassem. Agora que o evento mudou para o Autódromo, que é lá na casa do capeta, a situação vai ser muito pior. Serão 70 mil pessoas saindo de uma vez, e pelo menos metade terá dificuldades para voltar para casa.

2) A DEMORA EM SOLTAR OS HORÁRIOS DAS TENDAS. Todo ano é a mesma coisa. O site entra no ar em agosto, as principais atrações são divulgadas aos poucos a partir de setembro - mas nada dos horários dos DJs nas tendas. Enquanto o Skol Beats solta logo os line ups completos e o público pode planejar sua noite com dois meses de antecedência, quem vai ao Creamfields só fica sabendo na véspera quem vai tocar onde e quando - e precisa se virar para decidir os conflitos de tendas, que fatalmente acontecem (é muita gente boa tocando ao mesmo tempo).

3) A SELVAGERIA AO QUADRADO DA MOLECADA ARGENTINA. Todo mundo sabe que grandes festivais são para quem tem espírito esportivo: a muvuca e a confusão são praticamente inevitáveis. Mas, se no Brasil já é preciso ter paciência com os inconvenientes que estragam a festa dos outros, na Argentina o buraco é mais embaixo: o povo fica ensandecido e a falta de educação é generalizada. E isso piora a cada ano, com a popularização da música eletrônica atraindo gente cada vez mais nova para os festivais. No Creamfields, impera a "lei da selva": empurrões nas tendas lotadas, cotoveladas nos balcões dos bares, gente furando a fila do banheiro na maior cara-de-pau. E olha que lá não tem pitboy...

4) A PAIXÃO DOS ARGENTINOS POR PROGRESSIVE HOUSE. Progressive house é o gênero mais adorado pelos argentinos. E por isso a tenda dedicada a ele tem quase o dobro de tamanho das outras tendas (como acontecia com o drum n'bass no Skol Beats). Mas, por maior que seja, a Cream Arena não é suficiente para acomodar as, digamos, 40 mil pessoas que são fanáticas por progressive, Hernán e Martín. Isso significa que a lotação da tenda vai muito além do que seria tolerável: as pessoas se empurram, se espremem, se machucam - e sair para comprar uma água pode levar 45 minutos. Uma verdadeira operação de guerra.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Creamfields BsAs 2007 solta principais atrações

Depois de muito suspense, a produtora 2Net finalmente divulgou, na noite da última segunda-feira, os principais headliners da sétima edição do festival de música eletrônica Creamfields, que acontece no dia 10 de novembro em Buenos Aires, na Argentina. Neste ano, o evento deixa o gigantesco descampado da Costanera Sur para se instalar no Autódromo de Buenos Aires, em Villa Lugano, região sudoeste da cidade. Uma locação mais adequada para a muvuca de mais de 60 mil pessoas que transformava a Costanera num caos.

O lineup divulgado no site do festival ainda é parcial, mas já suficiente para animar os clubbers daqui a reservar seus pacotes para a capital argentina. Como era de se esperar, o progressive house - gênero mais popular na cena portenha - está bem representado, em nomes como John Digweed (o pai do estilo, junto com Sasha), Dubfire (metade do duo iraniano Deep Dish, que parou de discotecar junto) e os semideuses locais Hernán Cattáneo e Martín García - que costumam garantir alguns dos melhores momentos do festival em suas apresentações apoteóticas. Quem prefere um som mais moderno pode se esbaldar com as duplas Tiefschwarz e 2ManyDJs e o excelente Mark Farina. E o pula-pula da multidão está garantido pelo techno funkeado do negão ensandecido Carl Cox, atração mais importante desta edição junto com a dupla Chemical Brothers (que está promovendo seu disco novo).

Se esse pacote de DJs é bastante respeitável e vale o preço da viagem, não dá para deixar de dizer que, em termos de ineditismo, o Creamfields 2007 deixa muito a desejar. Todas as principais atrações são velhas conhecidas do público argentino (não há arroz-de-festa maior que o LCD Soundsystem) e também já passaram pelo Brasil. Não que eu esperasse vanguarda ou experimentações de um festival que já nasceu comercial, mas a sensação de déjà vu desse lineup acaba dando a falsa impressão de que nada de novo acontece na música eletrônica. Em nome do retorno garantido, o Creamfields está cada vez mais conservador.

Lá pelo começo de novembro, se a mobilização dos brasileiros para Buenos Aires estiver alta, farei aqui um roteiro completo para meus leitores, com dicas da cidade e do festival, no mesmo estilo do guia que fiz em junho para a Parada Gay de São Paulo. Vamos ver...

sexta-feira, 20 de julho de 2007

O sobe-e-desce de Buenos Aires

Decidi não me alongar demais no assunto Buenos Aires, por enquanto. Se mais tarde eu perceber que muita gente resolveu ir para o festival Creamfields (que acontece todo ano no segundo sábado de novembro; neste ano, cai no dia 10), eu farei aqui um guia completo da cidade, nos mesmos moldes do guia de SP que preparei para a Parada Gay deste ano. Por enquanto, aqui vai mais um resumão clássico com o melhor e o pior.

UAU:

1 - A GASTRONOMIA. A fama das carnes e do dulce de leche argentinos já correu o mundo. Mas a mesa de Buenos Aires vai muito além do manjado bife de chorizo. Tem muitas massas deliciosas (fruto da expressiva imigração de italianos para lá), os sorvetes incríveis que eu comentei aqui e boa culinária contemporânea com sotaques que vão do escandinavo (no moderninho Olsen) ao asiático (nos tailandeses Empire e Lotus Neo Thai e no surpreendente vietnamita Green Bamboo). A cidade é capaz de agradar aos mais exigentes paladares, sem provocar um rombo no orçamento.

2 - A NOITE ELETRÔNICA. Buenos Aires está na rota das turnês de todo grande DJ que se preze e é a meca sul-americana do progressive house. Mas se esse não é seu gênero predileto, não tem problema: a agitada cena local curte tudo sem preconceito e também dança techno, minimal, electrohouse e até drum n'bass (nas terças-feiras do clube Bahrein, com residência do top Bad Boy Orange). A jogação vai de megaclubes como Crobar e Pacha a redutos underground como La Cigalle e Shamrock - e tem seu ápice no megafestival Creamfields, em novembro, que em 2006 juntou 65 mil pessoas e continua crescendo. Tudo isso embalado na buena onda dos argentinos, que quem já esteve no after do Caix conhece bem.

3 - AS BOAS COMPRAS. Com o dólar custando 1,90 para nós e 3,08 para eles, até artigos de valor "tabelado" como tênis e eletrônicos saem 30% mais barato do que no Brasil. A cidade é um bom lugar para rechear o guarda-roupa. Amantes de grifes não acham cuecas CK nem camisetas A&F, mas encontram tudo da Emporio Armani e Diesel (nas novas e atualizadas lojas próprias das marcas e também na Red Store, multimarcas que vende Diesel mais barato), além de artigos diferenciados da Puma, Nike e Adidas. Sem falar que grifes argentinas como Ona Saez, Bensimon, Kosiuko, Airborn, Tascani e Key Biscayne têm peças bacanas e diferentes para você usar em São Paulo sem estar igualzinho aos outros.

4 - PALERMO VIEJO. Nesse grande quadrado (formado pelas avenidas Santa Fe, Scalabrini Ortiz, Córdoba e Dorrego), foram aos poucos pipocando mais e mais lugares novos, entre bares, restaurantes, lojas de roupa e decoração, ateliês e galerias de arte. Hoje, é aqui que está o que há de mais cool na cidade: boas compras, jantares badalados e muita gente bacana. Se hoje a região não é mais segredo dos descolados, ainda são poucos os brasileiros que se aventuram por aqui. Vale a pena ser um deles.

5 - AS BEBIDAS (COM ÁLCOOL). Um povo de hábitos europeus como o portenho não poderia deixar de cultivar o gosto por bons vinhos. Os bares e restaurantes da cidade possuem uma boa oferta deles, entre rótulos argentinos, chilenos e europeus. Eu pessoalmente não ligo muito para vinhos, mas não resisto a uma boa jarra de clericot - versão da famosa sangría espanhola, feita com vinho branco, morango, kiwi, abacaxi e outras frutas picadas, açúcar e gelo. É leve, docinha e sobe rápido - como é que nenhum brasileiro pensou nisso antes?

UÓ:

1 - O CIRCUITINHO DO BRASILEIRO-PADRÃO. Pesquisar nas fontes certas antes de viajar é o único jeito de ter acesso ao lado bacana de Buenos Aires. Quem chega lá contando com as dicas dos guias da operadora local acaba se limitando a programas manjados, fazendo compras na calle Florida (que está bem caída e hoje só vale pelas boas lojas de tênis e pela melhor Zara da cidade) e, no máximo, indo jantar nos restaurantes de Puerto Madero - caros (como tudo que é feito para turista), caretas e, com algumas exceções, nada brilhantes em termos de comida. Isso se não for comer nos lugares indicados pelos guias, que ganham comissão por cada turista apresentado...

2 - A NOITE GAY. Não que Buenos Aires não tenha nada para o turista gay fazer. Dá para jantar em lugares gay friendly (entre eles, recomendo as pizzas do Filo e a comida tailandesa do Empire), tomar os primeiros drinks no Chueca (o bar gay mais fervido da cidade), ir dançar no Palacio Alsina (já comentado no post anterior) e fazer uma pegação básica no Zoom (um cruising bar digno de Primeiro Mundo, que faz a nossa Station parecer ainda pior do que já é). E tudo pode ser divertido. Mas quem ficar comparando tudo com SP e RJ corre o risco de voltar para casa decepcionado.

3 - O MICO DO VERÃO. O verão é, definitivamente, a pior época para se visitar Buenos Aires. O calor chega a bater recordes cariocas, mas a cidade quase não tem piscinas. Praias? Estão a 4 horas de carro, são feias e têm água gelada - não é à toa que os argentinos invadiram Santa Catarina. Outra má idéia é ir a BsAs para o Réveillon: a cidade não tem a animação de lugares como Rio e Nova York, e as (poucas) comemorações legaizinhas acontecem em espaços fechados, como em São Paulo. Programe sua viagem entre março e novembro.

4 - O MULLET. Aberração capilar popularizada no Brasil por Chitãozinho e Xororó, o mullet é uma verdadeira mancha na elegância dos argentinos e já fez a cabeça de gerações e gerações. Hoje, ainda é visto nas ruas e também nos estádios de futebol, onde vários jogadores da seleção desfilam corajosamente seus rabinhos. Felizmente, muitos argentinos acordaram para a vida e podaram seus mullets; ainda assim, a esmagadora maioria dos homens gosta de usar o cabelo bem compridinho dos lados e atrás.

5 - AS BEBIDAS (SEM ÁLCOOL). Se a cidade é a alegria dos amantes do vinho, quem não bebe álcool passa um mau bocado. Sucos e refrigerantes são surpreendentemente caros, mesmo para bolsos brasileiros beneficiados pelo dólar forte. Para piorar, o maior dos crimes: a água mineral tem gosto ruim, não importa a marca que você escolha. Como os refrigerantes também têm fórmula e gosto diferentes dos do Brasil, o jeito é escolher aquele com paladar mais agradável - eu, por exemplo, passei dez dias à base de Fanta Laranja.

[Foto: detalhe de uma varanda no Caminito, ruela turística de La Boca]