domingo, 15 de novembro de 2009

Elvis e Madona: bacana do começo ao fim

A solidariedade com o próximo não poupa nem mesmo nossos momentos de lazer. Quem de vocês já não foi ao teatro ver alguma peça bem ruinzinha, só para dar uma força a um amigo querido que estava no elenco? Ou não comprou uma brochura de poesias pra lá de toscas, dessas que são oferecidas na Avenida Paulista, para ajudar algum escritor maltrapilho a sobreviver de sua arte? Ou mesmo não encarou aquela festinha de aniversário erradíssima, porque uma boa amizade justifica até certos micos?

Algo parecido se dá em nosso meio em relação aos produtos culturais "GLS". Existe um senso comum de que devemos prestigiar todas as iniciativas feitas por, com ou para gays, como forma de apoiar "a causa" e fortalecer nossa classe tão preterida e desfavorecida, numa espécie de "corporativismo pink". Nesse sentido, comprar revistas e ver filmes vira um ato político, revestido de um propósito nobre. No caso dos filmes (e até mesmo das novelas), a simples presença de personagens homossexuais na trama já justificaria nosso interesse - afinal, somos tão varridos para baixo do tapete pela sociedade, que qualquer um que nos tire do ostracismo merece nossa gratidão.

De fato, para alcançar a inclusão social e a conquista de direitos tão sonhados, é preciso que os gays [escrevo 'gays' sempre em sentido amplo, incluindo GLBTTXYZ, ok?] se articulem, da mesma forma como fazem os evangélicos e tantos outros grupos da sociedade. Quando damos ibope aos tais produtos, mostramos que somos um mercado, temos anseios e queremos ser reconhecidos. Mas esse gesto tão louvável exige de nós uma certa dose de boa vontade. Para proteger quem nos estende a mão, acabamos diminuindo o nosso nível de exigência: não raro, somos obrigados a fazer vista grossa à inconsistência do enredo do filme, ou ao gritante amadorismo da revista. Enfim, consumimos produtos que certamente não passariam no nosso crivo, se não fosse pelo fato de terem um ingrediente gay.

Felizmente, desse cenário despontam algumas boas exceções. Produtos que não têm no tal ingrediente gay o seu único predicado, mas se amparam em outras qualidades, transcendendo guetos e se comunicando com um público maior. Um ótimo exemplo é o filme Elvis e Madona, de Marcelo Laffitte, uma das surpresas do Festival Mix Brasil deste ano. Elvis faz bicos entregando pizzas, enquanto não consegue ganhar dinheiro com a fotografia; Madona é cabelereira e luta para juntar dinheiro e produzir seu espetáculo musical. Do encontro desses dois caminhos, surgirá uma amizade, que aos poucos se transformará em algo mais forte. É mais uma história de amor, mas foge do lugar-comum por várias razões - a começar pelo fato de que Elvis é uma menina lésbica e Madona, uma travesti.

A história, que se passa no bairro carioca de Copacabana, tem ritmo e agilidade. O amor entre as personagens, além de nada óbvio, não vem de mão beijada, atravessando alguns conflitos e momentos de suspense, com direito a uma reviravolta no final. Madona é vivida pelo ator Igor Cotrim, que desbancou travestis de verdade nos testes para o papel. O moço deve ter feito um laboratório poderoso, pois conseguiu assimilar não só o vocabulário, mas também a atitude e o jogo de cintura dessas pessoas, que tentam extravasar em seus corpos de homem a feminilidade que carregam dentro de si. Para criar a personagem, foi inevitável a construção de uma caricatura, mas ao longo do filme Igor soube encontrar seu equilíbrio, defendendo o papel com honestidade e respeito, sem deixar o humor de lado.

Elvis e Madona é um filme simpático e nada pretensioso. O elenco conta com a participação de alguns atores globais consagrados, mas sempre em papéis secundários. Além disso, é palatável a vários tipos de público, conseguindo subverter com delicadeza os conceitos de normalidade impostos socialmente. Depois de enfrentar várias batalhas (incluindo a captação de patrocínio, que chegou a interromper as filmagens, por falta de verba), o longa ainda luta para encontrar uma distribuidora. Quem se animar com o vídeo abaixo e não quiser esperar pela estreia, ainda incerta, tem mais uma chance de conferir o filme no Mix: no próximo sábado (21/11), às 15h30 no Cinesesc.

16 comentários:

lola aronovich disse...

Legal, Thi, o trailer parece bom! Sobre um grupo favorecer ou ter boa vontade com produções culturais feitas pra ele (ou sobre ele), creio que isso acontece com todas as minorias. Afinal, boicotar um produto que não empregue um certo grupo, ou que faça propaganda preconceituosa contra um certo grupo, é um ato político, certo? Então apoiar produções culturais que nos retreatem positivamente também é. Abração!

Diógenes de Souza disse...

O Igor sempre me pareceu um ótimo ator. E, de fato, é! Pena que até hoje carrega o estigma de ter atuado no seriado Sandy e Junior, o que, para muita gente, seria um despretígio. Ou, para muitos de nós, bons atores são apenas os que aparecem na Globo. É excelente ver que os bons o são em qualquer lugar!

Nina Ferri niferri@gmail.com disse...

To louca pra assistir esse filme, mas infelizmente não estarei em SP no dia 21. Ou seja: a mim só resta esperar a estreia ainda incerta.

t disse...

Madona está na Fazenda!

Wilton Garcia disse...

Gostei muito!
Ao assistir o filme, me deparei com a estranha sensação de ver uma relação afetiva cercada de possibilidade criativas e tiradas bem tratadas. Evidente que os atores ajudam comm suas interpretações; embora tudo contribui para o esforço que roteiro e direção, assinados por Lafitte, possa fazer valer muito mais. Que venham mais e mais neste nível...

Don Diego De La Vega disse...

Fiz matérias sobre esse filme na minha época no Mix Brasil. Acompanhei a primeiríssima leitura do roteiro, fui nas filmagens em Copacabana (era uma cena na pizzaria), entrevistei o Igor...Meu amigo, fazer cinema no Brasil é realmente uma dureza. O processo do filme deve estar fazendo uns três anos agora e ainda nem tem distribuição certa. Tem que ter muita paixão mesmo.

Sobre o assunto de vermos qualquer coisa só porque tem gay no meio, concordo. E sou entusiasta dessa prática em relação a filmes no cinema ou no DVD (a Amazon tem milhares, milhares na seção Gay and Lesbian), mas não em relação a novelas, pq já não tenho mais paciência pra estereótipos há muito tempo. beijos!

mariana disse...

O filme é o máximo. Trabalha o tema sem nenhum
julgamento de valor do que é certo ou errado.
Pela primeira vez, o universo GLBT é retratado na
vida como ela é. As pessoas têm sonhos, amores,
dúvidas, medos, sorte, azar, erram, acertam,
enfim, tudo o que todo ser humano vive. Pra mim,
é Nelson Rodrigues puro, só que pop e moderno.

Isadora disse...

tô super a fim de ver. vou tentar, no sábado, depois volto pra dizer o que achei ;)

beto disse...

concordo com a ideia de se apoiar inciativas GLS. mas até certo ponto, nada de incondicionalidades.
pois não acredito em incentivar a mediocridade só pq vem num pacote cor-de-rosa.

exemplo são as revistas gay por aí, todas muito fracas e que não acrescentam nada para mim. ou o tal filme-comercial-de-margarina-incestuoso.

acho que devemos exigir qualidade e não criar um público-cativo só porque algo é GLS. não sou fã de migalhas. e, se é para fazer por caridade ou engajamento, melhor usar o tempo ou o $$$ ajudando alguma ONG séria dedicada ao mundo GLS.

Ruy disse...

Não consegui pegar nada do mix ainda, vou me dedicar mais essa semana ou acontecerá o mesmo do ano passado que só peguei um filme (um doc muito bom que me esqueci do nome) e mais nada.

Ah, teve o gongo, mas esse eu não vou esse ano.

Abraço

tommie disse...

Num mundo internetizado, a busca por uma auto-estima melhor acaba por empurrar-nos para guetos. Na tv, mulheres acima do peso que tem um blog para se sentirem especiais e bonitas, outro canal mostra mulheres negras denunciando que as igrejas pentecostais estão tentando destruir o candomblé, e por aí vai. Nunca é tarde relembrar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, principalmente o artigo I:
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Leandro K. disse...

Algo parecido se dá em nosso meio em relação aos produtos culturais "GLS". Existe um senso comum de que devemos prestigiar todas as iniciativas feitas por, com ou para gays, como forma de apoiar "a causa" e fortalecer nossa classe tão preterida e desfavorecida, numa espécie de "corporativismo pink".

DEAD ON
Como cansa essa mania de elogiar tudo feito para gays!

Anônimo disse...

já peguei o igor, ele é bem gostosinho.

Anônimo disse...

Mas se as pessoas comprassem produtos ruins só por eles serem voltados a gays a Dom estaria aberta até hoje. Não? E ela fechou faz tempo. Mesmo com os ótimos e profissionais textos que você escreveu lá. Hahahaha.

liah disse...

se o filme é gay, pra gay, hétero pra hétero... tudo bem.
vale a escrita, o roteiro, os nossos ótimos atores, diretores,fotógrafos etc........

aí faz a diferença.
tribeca neles.
valeu!

Anônimo disse...

Bacana Liah, Vamos que vamos!!!

Inclusive estamos em Melbourne concorrendo a melhor filme pela interne, quem puder dar uma força é só colocar seu e'mail, selecionar Audience Choice Award for Best Feature e votar " Elvis e Madona" o site é: http://www.mqff.com.au/vote.php. Amigos, ajudem a divulgar porque cada pessoa (ou cada e-mail) pode votar uma vez, e só um clickzinho. Valeu! Beijo pra todos.


Mariana