quarta-feira, 14 de julho de 2010

Levar ou ser levado?

Hoje tive contato com a história de vida de duas das maiores musas do nosso país: Sônia Braga e Rita Cadillac. De Sônia, li um perfil escrito pela jornalista Eliane Trindade para a Serafina, revista mensal encartada no jornal Folha de S.Paulo. Já da trajetória de Rita, eu tomei conhecimento assistindo ao documentário A Lady do Povo, que passa a limpo toda a carreira dessa que foi a primeira popozuda de sucesso nacional, a bisavó das mulheres-hortifrúti de hoje.

As histórias delas têm em comum a infância sofrida, com contornos bastante dramáticos, e o desabrochar para o sucesso meio que por acaso, por conta do encontro com pessoas que cruzaram seus caminhos e abriram espaço para uma guinada em suas vidas. Sônia foi descoberta por Ronnie Von quando trabalhava em um bufê, e Rita conheceu uma dançarina que lhe abriu a possibilidade de sair da miséria e se apresentar nos Estados Unidos. Depois, novos encontros acabaram selando a sorte das divas: outras pessoas que lhes deram chances, abriram oportunidades e provocaram verdadeiras reviravoltas em seus destinos. Não há dúvida que ambas acabaram indo muito mais longe do que poderiam imaginar lá atrás, quando eram meninas novinhas.

O que mais chamou a minha atenção foi a maneira como as coisas foram simplesmente acontecendo, sem que elas tivessem gerenciado o próprio caminho, sem que tivessem traçado metas, planos, estratégias. Isso é o total oposto do que eu sempre pratiquei. Até entendo que o destino coloca situações e pessoas no nosso caminho, mas cresci aprendendo a jamais esperar por isso. Cresci acreditando que temos um papel ativo crucial como protagonistas de nossas histórias e, mais ainda, que tudo o que conquistamos, tudo o que nos tornamos, depende de nós - o tempo todo. Esse negócio de "deixa a vida me levar" sempre me soou como exaltação de preguiça carioca: quem se deixa levar, vivendo no automático, não sai do zero e jamais chega a lugar algum.

Não tenho maturidade suficiente para discernir se a minha maneira de ver as coisas é a melhor - mas sei que ela exige demais de mim. A gente se cobra demais, fica ansioso demais, sempre achando que a vida é suor, ralação, luta, resistência e persistência. Queremos ter a vida sob controle tanto quanto for possível, sentir que podemos provocar em nosso futuro as coisas que tanto desejamos. Viver é um eterno tatear no escuro e, como isso não nos satisfaz, o que resta é planejar, projetar, idealizar. Mas aí vejo que pessoas como Sônia e Rita não fizeram nada disso, e ainda assim tiveram uma existência plena de realizações. Pura sorte? Talvez a vida delas seja mesmo menos medíocre do que a nossa, gente "normal" que segue o previsível script "colégio + escolha de curso + faculdade + estágio + relações afetivas nascidas no mesmo círculo social + namoro, casamento e filhos + netos e velhice". Mas, pensando bem, o que têm essas mulheres, gente de carne e osso como nós, que nós não temos?

24 comentários:

K. disse...

Certa vez me falaram: conto de fada é conversa pra boi dormir. Artista adora dramatizar (e, pelo que li, a Lady do Povo dramatizou legal no documentário para poder deixar a imagem dela melhor, já que ela estava totalmente descreditada).

Mas o fato é que elas pertencem a uma geração diferente... As pessoas que nasceram no fim dos anos setenta e início dos anos 80 fazem parte de uma geração criada num período em que o futuro estava incerto, as mudanças estavam ocorrendo muito rápido (e só aceleraram)... os pais acabaram cobrando mais, definindo mais planos..

De vez em quando acho que precisamos nos desprender e deixar a coisa solta... arriscar mais... Mas a nossa criação já está muito forte em nós - nos falta desprendimento.

lugar ao sol disse...

Bem interessante o que você postou sobre a jornada dessas duas mulheres. Sempre tive essa mesma idéia de que para uns a vida é mais fácil, mais simples, com menos luta e mais sorte. Mas em tudo isso existe um porém: A atitude para agarrar a oportunidade vem da essência de cada um. Se você olhar pro passado, com certeza vai se lembrar de certa oportunidade não aproveitada, uma escolha que talvez tivesse mudado o rumo de sua vida se você à tivesse feito... Talvez a infância sofrida, a vida dificil, às tenha levado àquele ponto de virada, onde, se fossem mais fracas, se não soubessem que era tudo ou nada, talvez não tivessem aproveitado e quem sabe não teriam ingressado no sucesso. Mas a vida é assim mesmo, não é possível criar padrões de comportamento e de acontecimento, ela mesmo que flui descontroladamente sem pedir permissão, passando por cima dos planos que fazemos e das estratégias que traçamos. Tenho medo desses scripts, vivo tentando fugir deles. Pior é pensar naqueles gênios que só foram notados após morrerem, escritores da história que não puderam ler. Tanta injustiça nesse mundo, rsrs.

Ass: Rod http://www.nossolugaraosol.blogspot.com/

Fernando L disse...

To louco pra ver a lady do povo, hehe

Enfim, lembrei do post do Don Diego sobre o 90/10. Acho que não só nas nossas relaçoes do dia-a-dia ele pode ser aplicado, mas também nas chances que temos no mundo. Aquela máxima de que "Eu faço meu destino" nunca colou, não que tenhamos um destino pré-escrito, mas que existem acidentes bons e ruins na vida de cada um. A forma como lidamos com esses acidentes, essas oportunidade é que vai construindo nosso futuro. É um pouco de sorte, mas também é saber lidar com ela

abs

Wans disse...

Estou com tanta vontade de ver esse documentário. Rita é divíssima! Fez os filmes pornôs, mas não perdeu a dignidade. Tem caráter, é inteligente e humilde.

Adorei o post, gato.

bj

Tony Goes disse...

Elas podem não ter "planejado" as próprias carreiras, mas as duas trabalharam bastante, e passaram por muitos altos e baixos. Você viu, nem tudo foram flores.

Por outro lado, esse papo de "self made man" (ou woman) é um dos pilares míticos do capitalismo. A propaganda adora dizer que seu futuro só depende de você e blablabla, mas a triste verdade é que a sorte, o acaso, jogam um papel fundamental nos nossos destinos. Gostamos de acreditar que podemos "write the future", como diz a Nike, mas isto não é 100% verdade.

Paulo Braccini disse...

tb não fui nem sou adepto da teoria do deixa a vida me levar ... pagamos um preço por isto é claro ... mas continuo acreditando nisto ...

bjux

;-)

Sergio disse...

Oi Thiago...acho que nos anos 70 as coisas eram diferentes, seja para escolher uma profissão,começar um negócio e etc...Hoje temos que "correr" mais atrás das coisas. Abraços a vc

Wans disse...

Menino, lindas suas palavras no blog. Muitíssismo obrigado!]

Bjão!

Rafa disse...

Eu tô com vc, não é uma artifício pra deixar a história mais interessante apelar para esta coisa do "Destino".. sei não. Eu fico com o "se plantando.. se vai colher". Bj

Anônimo disse...

Tinha como escrever sem ofender os cariocas?

Introspective disse...

Anônimo, que tal relaxar um pouco? A música é do Zeca Pagodinho, um ícone da cultura carioca, e remete a um estado de espírito também típico dali. Se vc fosse leitor do meu blog, veria que não sou nada bairrista, muito pelo contrário!

Gringuice disse...

Digo isso sem implic^ancia nenhuma, o que vou dizendo nao tendo a ver com voce^ mas seu post consegui apontar (indireitamente) para um velho ha'bito da classe-média brasileira: a aversa§o por aquele pouco de mobilidade social que existe no Brasil...pelo pobre que teima nao ficar no lugar que lhe pertence.

Lobo Cinzento disse...

Eu penso da seguinte forma: temos sim que lutar para alcançar certas coisas, mas temos que ter a noção que essas coisas são flexíveis e nem sempre vão nos levar ao lugar que planejamos. O caminho é repleto de desvios, e nada dos impede de pegar um deles...

Beijos Thiago!

E obrigado pelas sugestões lá no Uivos. Quem sabe dar uma mobilizada nas fag hags pra ver se elas me arrastam? XD
Agora perder a vergonha de dançar vai ser um pouquinho mais difícil!

beto disse...

acho que vc generalizou a partir da exceção.

para cada Sonia Braga, tem milhares de candidatas a atriz que não dão em nada. ou mais triste ainda, tem aquelas que dão muito pra quem não queriam dar e terminam sem nada assim mesmo.

para cada Rita Cadillac, que deu relativamente certo, tem milhares que acabam no esquecimento, fazendo programa na rua enquanto tem clientela, e depois na miséria.

como já comentaram, existe algo de sorte, mas a pessoa tem que saber aproveitar a sorte e ir para a frente. quantos ganhadores de loteria, jogadores de futebol e outros que ganharam dinheiro rapidamente acabaram sem nada, sem amigos, sem família até, por total despreparo para lidar com a situação?

pode chamar de valor-classe-média ou o que for, mas o que pode fazer um GRANDE número de pessoas progredir na vida é esse previsível esforço e dedicação que vc descreveu -- além de fazer escolhas certas. E o resultado coletivo disso é a melhoria das condições de vida do país como todo. Não é todo mundo que nasce num país pequeno sentado em poços de petróleo...

Já que falaram em mobilidade social, é bom lembrar que vale pra cima como pra baixo... Tenho uma família bem grande, todo mundo partiu mais ou menos do mesmo ponto... e agora que a maioria está na meia-idade, ficou fácil ver como certos fatores (escolhas certas, dedicação, trabalho etc) foram os determinantes para ver quem foi para cima ou para baixo na pirâmide social. sorte teve muito pouco a ver com esse resultado.

uomini disse...

Outro dia ouvi o Rodrigo Santoro dizer "as coisas foram acontecendo, nunca planejei nada", o Jô Soares dizer "fiz poucas escolhas e planos na vida, quase tudo simplesmente aconteceu" e saber que a Ana Maria Braga pensou em vender salgados em casa antes de aceitar um trabalho por mil reais na tv prova que as divas em questão talvez sejam mais sábias do que imagina nossa vã filosofia. É claro que deixa-se levar pode não dar em nada, mas planos, stress e muito trabalho também não é garantia de sucesso, pois pode estreitar a visão e fazer com que não se enxergue oportunidades simples e eficientes. *amey* o post! Bjus.

Vaca Jersey disse...

Caracaaaaaaa... muito bom esse argumento, menino!!! Excelente texto... como de costume!!!
E o recheio do pacote é ao gosto do cliente... hehehe!
Hugz, queridão!

Fábio Carvalho disse...

Oh Titi!

Olha o preconceito feio...

"Esse negócio de 'deixa a vida me levar' sempre me soou como exaltação de preguiça carioca"

Don Diego De La Vega disse...

Sobre o que o Cris falou, do Rodrigo Santoro, posso dar mais dados: é verdade mesmo. Ele fazia faculdade na PUC, nem pensava em ser ator. Foi acompanhar uma amiga q ia fazer um teste pra um curso e precisava de um cara pra fazer uma cena de casal. Ele agradou e foi aprovado pro curso, ela não. Daí foi a carreira dele.

Eu sempre penso nessas coisas e sempre minha intuição grita q esse caminho q eu chamo de "trilho do trem" (esse pré-definido, q vc já sabe de onde veio e pra onde vai) é o errado pra mim.

Vai ver por isso, pq ainda não me soltei desse trilho e continuo trabalhando com o q eu não gosto é que me sinta tão mal.

Eu acho q a vida te dá sinais de onde vc de pode ir. Há milhares de exemplos, não só de gente famosa.

Lembro num programa do Jô quando a Madonna veio pela primeira vez ao Brasil em 1993. Ele entrevistou o coreógrafo da turnê, q era um brasileiro. O cara nasceu e cresceu em VILA KENNEDY, sabe q lugar é esse no Rio? E contou que foi por acaso q fez um teste de dança, gostaram da coreografia dele, um gringo estava assistindo, recomendou-o com bolsa pra não sei pra onde e assim foi.

A própria Madonna só é o que é porque se arriscou fora de trilhos.

E o Brad Pitt, sabia q ele ia se formar em jornalismo e largou tudo no último semestre pra ir pra Los Angeles dirigir limusine pra puta e se vestir de galinha em postos de conveniência?

Concordo que pra cada Madonna tem 5000 q se fuderam.

Mas vc tem q confiar no seu brilho, estrela, seja lá o que for. Confiar em vc e meter a cara.

Eu não quero mesmo viver essa vida de trilho, por isso rejeito tanto mergulhar de vez numa carreira tradicional e careta como o jornalismo ou pior ainda: fazer um concurso público e ficar frustrado pelo resto da vida.

Leia aquele livro q recomendei no blog, "O Segredo das Mentes Milionárias".

Sem sacanagem, tá mudando demais a minha vida e minha percepção das coisas. O livro não fala só de administração financeira, mas de administração de tempo, de vida, de um monte de coisas.

Introspective disse...

Fábio Carvalho: o Anônimo falar o que disse, tudo bem, afinal ele não me conhece. Mas você?! Vc sabe que eu vivo aí e não sou bairrista. Será que o texto passou uma mensagem ofensiva? Pelo sim, pelo não, peço desculpas aos leitores cariocas!

livinha disse...

Adorei o post e concordo com qs todas as opiniões - tanto q nem vou dar a minha hehehe

E o que foi esse ladrão de posts? absurdo! Em que deu o blog dele?

Paulo Carioca disse...

Thiago, o acaso tem sido tema de filmes e livros. Só para citar exemplos recentes, Match Point, de Woody Allen, mostra como a sorte é decisiva nos rumos de um assassino. O livro "O Andar do Bêbado", de Leonard Mlodinow (Ed. Zahar, 2009) também trata do acaso. O livro é um ensaio sobre o fortuito e começa com uma história engraçada. Um espanhol ganhou na loteria porque não sabia multiplicar. Se fosse bom em matemática, nada de prêmio.

Claro que vida tem boa dose de empenho e disciplina (ou descaso e indisciplina). Mas o acaso é um sócio permanente e nem sempre nos damos conta disso. Se por um lado notamos como o acaso atua em nossas vidas, por outro lado, não sabemos como (nem de quê) ele tem nos poupado. Explico. Um milímetro para a direita, e você estaria naquele avião que caiu. Foi só um exemplo óbvio. No dia-a-dia, os milímetros comandam nossas vidas. No máximo, o que nós podemos é sortear quais acasos vão nos comandar, como faziam as crianças no vetusto Domingo no Parque (Sílvio Santos, anos 80), que eram metidas num foguete, incomunicáveis, e tinham que dizer sim ou não quando uma luz se acendia lá dentro. Lá fora, o apresentador perguntava: você quer trocar esta bicicleta Monark por um alfinete? E dá-lhe SIIIIIIIM, para a aflição da platéia.

Somos essas crianças.

Paulo Carioca disse...

Só para complementar.

Cem milhões de espermatozóides são necessários para que um fecunde.

Milhões de apostadores são indispensáveis para que um fique milionário.

Centenas de candidatos mantém o cursinho de concurso público para que dois ou três sejam aprovados.

É da natureza sujeitar a maioria ao insucesso para garantir o êxito de uns poucos. Por isso eu respeito aqueles que se contentam com o razoável (como eu) ao invés de lutar por um sucesso improvável.

Prefiro o meu fejãozinho-com-arroz a sonhar com um caviar utópico. Mas reconheço que o mundo deve muitas proezas aos sonhadores.

E percebo que a religião e o marketing vivem de vender sonhos e explorar ansiedades. Talvez o mundo teria um colapso econômico se as pessoas caíssem na real e parassem de delirar. Se encontrassem a paz e a realização nas coisas simples. O que seria dos cadernos culturais, das revistas de celebridades, se você preferisse o silêncio e a introspecção ao consumo?

Faço uma homenagem às Sônias e Ritas que não chegaram lá, mas tinham talento e lutaram o quanto puderam. Se todos os ídolos e líderes do mundo desaparecessem repentinamente, teríamos várias e várias gerações tão ou mais competentes para sucedê-los.

Em cima do armário disse...

Acho que, pra variar, não é isso ou aquilo, como outros já disseram aqui.
Se você tem sorte e oportunidades, mas não está preparado, de que adianta?
Se está preparado e aproveitar a oportunidade mas não se mata de trabalhar, até onde vai chegar?
Se está preparado e quer se dedicar mas a sorte não o ajuda com determinadas situações e/ou oportunidade, até quando vai tentar?
Seria tão mais fácil se fosse só questão de sorte ou só planejamento. Teríamos melhores desculpas para justificar fracassos.
Acho que é isso mesmo Thiago, planejamento, metas, ir atrás de objetivos, muitas vezes na maior cara de pau possível. Mas (sempre tem um mas rs) é preciso "deixe a vida me levar" também e, acima de tudo, ser frio e desprendido o suficiente para não morrer de ansiedade quando as coisas não saem exatamente quando queríamos.
Só um objetivo claro, uma meta, para nos levar a um lugar onde, mesmo que essa meta não tenha sido alcançada, diversas outras coisas tenham aparecido no caminho.

Igor disse...

Bom, creio que a resposta adequada, pelo menos ao meu ver...Não é uma questão tão fácil sentirmos se estamos sendo levados ou não. No caso referido de Rita e Sônia, elas simplesmente levaram tudo o que acontecia a elas para a vida das mesmas. Creio em uma frase que digo muito em relação às experiências vividas cotidianamente, sejam as mesmas boas ou ruins. Simplesmente leve o que acontecer para a sua vida... Elas souberam canalizar tudo o que viviam e conduziram um caminho meio que planejado em suas mentes. Apesar de serem de segmentos de entretenimento um pouco diferentes rsrs, surgiram em uma época que não se existia o fenômeno da Reality Celebrity. Hoje em dia as carreiras são planejadas em virtude de como um ex-bbb sairá em uma foto (sic). Ambas deslancharam em um momento onde a espontaneidade e simplesmente fazerem o seu Just do it eram só que se precisava.
Rita ficou famosa por ser uma chacrete bem mais séria do que as outras. Foi espontânea e se diferenciou. Originalidade é o que falta às vidas de muitas Ritas ou Sônias. Somos meio Ritas ou Sônias também, todos temos um quê de pornlover e de mulher-aranha...rsrs

Vamos andar de fusca e entenderemos quem sabe, como funcionará um cadillac...rs Pensem nisso