sábado, 30 de abril de 2011

Pé na estrada

Fui até a janela pela última vez. Apreciei cada detalhe daquela vista que foi o meu horizonte por tantos anos: o Jardim Paulistano, o gramado do Jockey Club, o Shopping Eldorado, as casinhas alinhadas do outro lado da Marginal, o Butantã ao fundo, o prédio da Editora Abril no canto direito do meu campo de visão. Tantas vezes me pus diante daquela janela... para fazer uma pausa do trabalho, falar ao celular, pensar no futuro ou em como seria esse dia, que finalmente havia chegado. Depois de contemplar aquela vista até sentir que tudo tinha ficado armazenado para sempre na minha cabeça, afastei-me da janela e peguei o que tinha sobrado dos meus pertences. Abandonei a minha sala e segui pelo corredor até a entrada. Girei a maçaneta, atravessei a porta pela última vez, e deixei para trás não só aquele escritório como a advocacia. Entre estagiário e advogado, foram treze anos vivendo aquela vida, um ciclo que finalmente tinha chegado ao fim.

Preciso reconhecer que não foi uma vida fácil. Só eu sei o quanto foi duro abraçar um projeto com o qual eu jamais sonhara, um trabalho que não tinha a ver comigo, com a minha vocação, que desperdiçava meu talento. Ser cobrado para vestir a camisa, honrar todas as responsabilidades que me foram depositadas, cumprir o papel que, com toda razão, esperavam de mim. Meus chefes sempre foram pessoas incríveis comigo, sempre fizeram o possível para aceitar minhas limitações. Poderiam ter facilitado muito menos, sido menos tolerantes e mais duros, mas não foram, e por isso serei eternamente grato a eles. Fomos uma verdadeira família ali, e nem a entrada de certos corpos estranhos conseguiu desvirtuar isso.

Houve diversos momentos em que pensei que não conseguiria aguentar mais um dia sequer. Só eu sei o preço que paguei por ter deixado meu tio me influenciar tanto em uma escolha tão errada para mim. Mas a minha hora de partir ainda não havia chegado. Quando finalmente coloquei na cabeça que eu tinha que partir para outra, precisei ter paciência e construir um bom plano de fuga. Mais quatro anos de faculdade de jornalismo, uma transição lenta e gradual para fora dali. Consegui, minha hora finalmente chegou, agora estou livre. Mesmo assim, quando tudo acaba, não dá para evitar uma certa nostalgia.

A verdade é que sou um cara muito saudosista. Sempre fui. Não só com esse lance do escritório. Vivo minha vida como quem dirige um carro rumo ao futuro, mas está sempre com o olho no retrovisor, olhando para trás, para as coisas que já passaram. Estou sempre revisitando meu passado, sempre revivendo momentos, emoções. A música tem um papel crucial nisso, cada música para mim tem uma época, um lugar, uma situação, um momento que fica marcado nela e volta fresquíssimo a cada nova audição. Lembranças de infância, meus tempos de colégio, as viagens que fiz. Dez anos depois que saí da escola, tirei uma tarde e voltei para lá, andei tudo aquilo de novo, me vi criança andando sozinho por aqueles caminhos arborizados na hora do recreio.

Também lembro com saudade dos meus primeiros anos de homossexualidade. O sabor da descoberta da noite, a badalação, os tempos em que os Jardins transbordavam vida gay. Os bares da Consolação, as boates, a Ouro Fino, a excitação em cada calçada. A espera pelo fim de semana. Entrar no Ritz, o ponto de encontro oficial para os drinks pré-balada, empurrar a porta giratória e imaginar que um milhão de flashes se voltavam para a minha pessoa, que naquele momento eu estava no centro de tudo. A gente sonha e fantasia um bocado quando é novinho, mais tarde percebe que havia ali várias ilusões, mas são ilusões gostosas.

O meu début no Rio de Janeiro, a minha primeira turma carioca, da qual hoje não sobrou ninguém. As inesquecíveis festas X-Demente na Fundição Progresso: aquele cenário de sonhos, o pé-direito colossal, a luz da manhã entrando pela clarabóia e iluminando os ladrilhos hidráulicos da pista, coberta por corpos perfeitos dançando a melhor música, encharcados de amor químico - e o meu absoluto encantamento diante de tudo aquilo, especialmente quando deixei de ser um espectador e passei a também fazer parte. Minha viagem para Ibiza, ir à Space, ver de perto os DJs que eram meus maiores ídolos, o fim de tarde numa praia idílica, abraçando meu namoradinho belga dentro das águas cristalinas, acesas pelo pôr-do-sol. Ou então os meus primeiros trabalhos como jornalista, a época em que a revista DOM existia e acontecia na cena. Nunca vou me esquecer da euforia que vivi com os primeiros freelas, de escrever com a maior paixão do mundo, de ver a revista na banca e meu nome ali, e me sentir, pela primeira vez, protagonista da minha história.

Enfim, são tantas coisas marcantes que eu poderia continuar escrevendo parágrafos e mais parágrafos. O curioso é que tenho aos 33 anos um comportamento típico de quem tem 70. Mas é assim que sei viver. Não deixo de olhar para frente, mas vira e mexe lá estou eu com os olhos no retrovisor de novo. Especialmente no final de grandes ciclos, como este. Nesta tarde de sábado, o sol de outono ilumina tudo lá fora e deixa a paisagem ainda mais melancólica, olho para o céu e tento imaginar o que virá amanhã. Não sei. É hora de colocar o pé na estrada e seguir viagem. Que venha um novo ciclo, e que eu possa vivê-lo intensamente, e ser muito feliz.

13 comentários:

Luciano disse...

Thiago,
Desejo-lhe muito sucesso. Sempre é tempo de se reinventar. Eu costumo dizer que estou na minha terceira reencarnação: de engenheiro a professor a tradutor - e ainda não parei.
Um grande abraço,
**

Mr_Beckett disse...

Que linda forma de expressão, Thi. Desejo toda sorte do mundo nesta nova jornada, e, em todas as que poderão surgir. Admiro o seu talento, as suas opinioões e os seus pontos de vistas. Sucesso e sucesso Queridão!

Lucas T. disse...

Lindo texto. Boa sorte nesse novo ciclo!

Diego disse...

Muitas vidas dentro de uma só, é o que eu te desejo! E leve todos os seus aprendizados consigo.

Fábio Carvalho disse...

Thithi,
Como você já está cansado de saber, mas não custa repetir uma vez mais, estou muito, MUITO feliz por você!
Acompanhei boa parte desta tua transição, sempre torcendo por vc, que é um cara, que apesar de não termos tanto convívio assim, eu admiro e gosto gratuitamente.
Sucesso e muitas felicidades, agora que vc finalmente é senhor da sua vida.
bjos
Fábio

Rafa disse...

Muita sorte aí!

Eu tô refazendo tudo também, mas pra mi falta ainda um ano e meio pro canudo.

Bj

Bernardo disse...

Lindo texto, Ti!!!!

Estamos vivendo momentos parecidos... E estamos felizes!

Amigo, muito sucesso pra você.

Bj Bernardo

DANA & CESAR disse...

Thi, lindo texto! Muito sucesso neste novo ciclo! Beijokas, Dana

Daniel disse...

Um verdadeiro momento introespecthive.

Titia disse...

Arrasa bee!

Zeca Lima disse...

Lindo, lindo, lindo...chorei na parte da X-Demente - aliás, em quase todas! Parabéns!

Gui Sillva disse...

É como te disse nô sábado: você vai arrebentar! Tenho certeza.
Estarei aqui torcendo.sempre.
No mais, é como diz a Martha Medeiros: "a vida não apenas continua, ela sempre recomeça".
Beijão,
Gui Sillva

garoto capricho barigui disse...

suorte!