quarta-feira, 25 de maio de 2005

Redescobrindo o inferninho vermelho

Sempre detestei aquele lugar. O espaço era pequeno demais, uma pista apertada, um mezanino sem graça isolado de tudo. No som, sempre o lado mais chato e pobre do tribal e da hard house; nenhuma noite tinha um som melhorzinho. E o público... enquanto quem tinha bom gosto musical ia pro D-Edge, pro Lov.e ou pro Pix e quem tinha corpão ia pra Level e para a The Week, aquele lugar recebia um povo totalmente sem sal - uns mauricinhos aguados de camisa com listras diagonais e topete assimétrico esculpido com gel, e umas meninas fag hags que se achavam as glamourosas & mudernas por freqüentarem o meio, e acabavam sempre dando em cima dos barmen da casa por pura falta de opção (por razões óbvias).

Enfim, um lugar sem graça, caro pelo que oferecia, e que não dava pra pensar em freqüentar. Eu morria de pena dos turistas que chegavam atraídos pelo nome da casa (que já teve franquias em Campinas e Fortaleza) e se deparavam com aquela caixinha vermelha minúscula e cheia de pretensão. Acho que se não fossem os habitués e mais os incautos de fora, aquele lugar já teria fechado há muito tempo. Ainda mais numa cidade exigente como São Paulo. Com a cor do meu dinheiro, eles nunca puderam contar.

Desde a inauguração no novo endereço, eu sempre ignorei solenemente o Ultralounge.

Quando as pessoas falaram que o novo after hours do Ultra estava sendo o máximo, no começo não dei ouvidos. Quando começaram a dizer que os domingos de manhã no Ultra estavam melhores do que os sábados à noite na Babylon, me surpreendi, achei graça, mas ainda assim fiquei na minha. Agora, quando fiquei sabendo que já tinha gente deixando de sair no sábado para dormir e acordar cedo para o after, decidi que eu precisava ver o que estava acontecendo.

Assim, furei meu jejum monástico pré-parada e fui conferir o tal after do Ultra. E fiquei pretérito. É totalmente diferente. E é maravilhoso.

Pra começar, o público. Em grande parte, gente que vem da The Week ou de qualquer outra balada, e já chega com pique de jogação - muitos bastante aditivados, é verdade, mas dá pra ver que a vibe do povo não se resume ao colocón. Todo mundo quer dançar, curtir, jogar os braços pra cima quando a música explode, gastar energia. OK, OK, alguns estão mais preocupados em arranjar uma foda ou fazer padê no banheiro, mas pelo menos não há sinal de gente blasé fazendo cara de paisagem. No after, quem está lá é porque quer se jogar mesmo. E em geral, gente muito mais bonita, que sabe se jogar, muitos homens belíssimos e algumas mulheres (naturais ou artificiais) no mínimo cheias de atitude.

Tudo aquilo que milita contra a casa durante a noite trabalha a seu favor no after. O espaço que para uma balada normal é pequeno, para um after é exatamente ideal. O que na noite é uma iluminação pobre, no after vira uma escuridão bem dosada e muito bem-vinda. No clima monótono da noite, o vermelho da decoração, os móveis de veludo, os banheiros com porta estofada, tudo soa brega, cafona; no ambiente mal-comportado do after, aquilo adquire um outro significado, fica com cara de inferninho decadente, de puteiro underground, lembra uma boate da Rua Augusta ou mesmo um after de Barcelona. De repente, tudo ali cai bem.

E o som... eu achava que não dava pra se surpreender com João Neto e Renato Cecin. Mas deu. O que eles tocam ali é radicalmente diferente do que tocam na Babylon. Enquanto na Babylon o que se vê é aquela xaropada repetitiva de tribal e drag hits que não dá nem vontade de dançar, no after do Ultra só toca house bom - não necessariamente mais pesado, mas menos comercial, só coisa boa de se colocar e dançar. Nada de fubá.

Colhi nos bastidores a informação de que a The Week exige que os DJs centrem o set em coisas mais populares, que possam agradar às bichas leigas, que sejam digeríveis pela caipira do interior e pela pintosa que gosta de dublar. Com isso eles ficam presos ao drag house, não podem ousar muito, precisam tocar o que o povão quer. Já no after do Ultra eles têm liberdade total e tocam o que querem e o que realmente gostam.

A diferença é gritante. Vendo o João tocar na Babylon, você não dá nada por ele, é apenas mais um que toca a mesma coisa, quando muito pode-se dizer que o corpão dele é melhor do que o dos outros DJs, e olhe lá. No after, ele mostra que sabe ir além daquilo, que está adquirindo cultura musical, que sabe diversificar. No meio do set, joga umas coisas mais antigas, mas que continuam excelentes hinos de jogação, muitas delas anteriores ao início da carreira dele, o que mostra que ele tem pesquisado.

Incrível como no mesmo Ultralounge de sempre, conseguiram criar uma experiência totalmente diferente e muito mais legal. Acho que finalmente a casa acertou o foco e achou sua vocação. Na minha opinião, esse after é a melhor balada fixa de Sampa para o público gay na atualidade, junto com a eterna matinê da Blue. Com certeza voltarei.

A The Week é um espaço maravilhoso e muito especial e merecia uma programação musical à altura. Uma pena que esteja se acomodando (mais do que isso, se acovardando) e não dê espaço para inovações. Usa a desculpa de que o povão não tem educação musical, mas a verdade é que as bichas nunca gostarão de outras coisas se não lhes for dada outra opção. Nos guetos gays dos Estados Unidos ouve-se esse mesmo lixo, mas em Londres por exemplo existem várias baladas gays onde a house mais underground domina - e elas são um sucesso. São Paulo, como capital gay da América Latina, merecia uma chance de ter uma música melhor.

4 comentários:

Giant Man disse...

Realmente deve ser inusitado poder ir para a balada pela manhã. Não requer mudança de horários nem nada.

Sugestão anotada. Que tal ser colunista? O maior site da América Latina carece de textos assim. Só há espaço para galerias, releases modificados de livros e afins que editoras enviam etc. Como o mundo é pequeno, falta "liberdade e coragem" para registrar livremente a opinião.

[]

Giant Man disse...

São Paulo, domingo, 22 de maio de 2005

Gays são fechados demais para música, diz Rauhofer
DA REPORTAGEM LOCAL

O DJ Peter Rauhofer, 36, não vai à parada. Assim que terminar a sua apresentação no clube The Week, por volta de 8h de sábado, ele terá de embarcar no vôo das 11h com destino a Nova York, cidade que escolheu para morar desde 1995, quando deixou sua cidade natal, Viena (Áustria).
Há dez anos, ele se mudou para os EUA já com um sucesso embaixo do braço, a faixa "Let me Be Your Underwear", lançada com o pseudônimo Star 69. A partir de então, passou a ser um dos produtores de remixes pop mais requisitados do planeta e um dos DJs mais famosos da cena gay nova-iorquina, ao lado de Junior Vasquez e Victor Calderone.
Rauhofer já criou versões para as pistas de músicas de artistas como Madonna, Depeche Mode e Yoko Ono. Pelo remix de "Believe", sucesso da cantora Cher, ele acabou levando para casa, em 2000, um Grammy, maior prêmio da indústria fonográfica dos EUA.
Em entrevista à Folha, por telefone, de Nova York, ele contou o que mudou após a premiação e criticou o público dos clubes gays: "Eles querem ouvir o "som deles". É muito difícil educá-los musicalmente". Leia a seguir trechos da entrevista. (LF)


Folha - Ganhar um Grammy mudou alguma coisa na sua carreira?
Peter Rauhofer - Não. Quer dizer, as pessoas ficam assustadas. Acham que não vão poder mais pagar pela sua produção. Mas, na verdade, não muda nada. Antes, você precisava alugar um grande estúdio e contratar músicos, e o remix ficava muito caro. Hoje você pode fazer um remix no seu computador, e as gravadoras sabem que eles não custam tanto.


Folha - Como você se tornou um DJ conhecido entre o público gay?
Rauhofer - Durante dez anos, toquei em clubes de público heterossexual, na Europa. Quando cheguei a Nova York, fui direto para a cena underground, que, em muitos países, é a cena gay.


Folha - Qual a diferença entre tocar para gays e para heterossexuais?
Rauhofer - No final dos anos 90, os clubes gays e heterossexuais tocavam o mesmo tipo de música, não importava aonde você ia. Hoje há muitos estilos diferentes de dance music. Nos clubes de público heterossexual, é muito difícil saber qual estilo estará tocando. Há trance, deep dark, house tribal, disco house... Nos clubes gays a música é sempre a mesma. Você vai ouvir a mesma coisa no Brasil, em Nova York, em Los Angeles... É um tipo de som que funciona em qualquer lugar. Os freqüentadores de clubes heterossexuais têm a cabeça mais aberta, estão dispostos a ouvir coisas novas.


Folha - Então o público gay não tem a cabeça aberta?
Rauhofer - Não muito. Eles querem ouvir o "som deles". É muito difícil educá-los musicalmente. O problema geral da comunidade gay é que eles se sentem num mundo próprio e não querem nada diferente. São muito implicantes. Acabam não tendo a cabeça aberta. Eles só confiam no que acontece dentro do universo gay, e muitas vezes é difícil convencê-los de que há outros estilos.


Folha - Alguns dizem que os gays não ouvem música boa.
Rauhofer - Depende do DJ que toca. Estou falando da grande maioria dos gays que saem para dançar em clubes à noite. Você tem de enganá-los, tocar o que eles querem e combinar com músicas diferentes das que eles ouvem normalmente.


Folha - Você vai fazer isso aqui?
Rauhofer - Vamos ver. Sou muito flexível, mas não há sentido algum para mim viajar e tocar o que eu quero. Muitas pessoas vêm me ver porque sabem o que vão ter. O DJ serve para divertir as pessoas. Eu proponho uma viagem, toco um pouco disso e um pouco daquilo. Se você está na pista à 1h, estará tocando músicas com vocal; se você está na pista às 4h, estará tocando tribal.


Folha - Qual estilo você toca?
Rauhofer - Meu estilo confunde as pessoas, porque é muito variado, mas tenho influências de tribal, da cena underground, de Junior Vasquez. Não quer dizer que eu o copie, mas ele é uma influência para todos os DJs de Nova York. Acho que a música deve ter sentimento e alma. Uma festa boa tem de ter algumas canções cantadas. Toco músicas atemporais e evito os sons mais comerciais.

Fonte: Ilustrada da Folha de São Paulo

Alê disse...

Tenho ouvido a mesma coisa de outras pessas sobre João Neto... Interessante isso...
E mais uma pessoa que foi conquistada pelo After do Ultra.
Qq dia tb apareço por lá.. se bem que after acho que só fui pra D.Edge.. e tenho que estar muito disposto.. hehehe.. ou... muito bem.. bem...
Bjo

Alê disse...

Tenho ouvido a mesma coisa de outras pessas sobre João Neto... Interessante isso...
E mais uma pessoa que foi conquistada pelo After do Ultra.
Qq dia tb apareço por lá.. se bem que after acho que só fui pra D.Edge.. e tenho que estar muito disposto.. hehehe.. ou... muito bem.. bem...
Bjo