quarta-feira, 30 de julho de 2008

Trocando o certo pelo desconhecido

Existem duas maneiras de viver a vida. Alguns se prendem as primeiras descobertas e referencias e optam por se manter sempre em caminhos jah conhecidos, fugindo dos riscos. Jah outros preferem expandir os horizontes e se arriscar por novas trilhas, novas escolhas. Quem se encaixa no primeiro grupo leva uma vida segura e se contenta com a dose de felicidade e recompensa que recebe sempre daquela mesma maneira, sem novidades. Jah quem faz parte do segundo grupo pode ateh pagar o pato por algumas decisoes, mas tambem tem o gostinho unico de descobrir novos sabores - e ter algumas excelentes surpresas.

Trocar Paris por Berlim foi como abandonar o calor do utero materno para se aventurar num mundo desconhecido. Na capital francesa eu jah sabia de cor e salteado o que iria me acontecer. Jah conhecia bem a cidade - e sabia que gostava muito dela. Em Berlim eu teria que comecar minhas descobertas do zero, sem uma rede de amigos que quebrasse meus galhos (consegui apenas o contato do amigo de um amigo meu, e ainda assim era alguem com quem eu nao tinha a menor intimidade).

De Berlim, tudo o que eu sabia eu tinha lido em algumas reportagens em revistas de turismo (bem poucas, porque esse nao eh um destino muito explorado pelos brasileiros). Da Alemanha, as referencias que eu tinha eram as da viagem "a jato" que eu tinha feito em 1996, quando passei por Frankfurt, Koln/Colonia e Freiburg. Naquele meu primeiro contato, minha simpatia pelo pais foi muito pequena.

Se o espanhol eh um idioma feio mas facil e o frances eh uma lingua bela mas arisca, o alemao nao se salva em nada: tem uma sonoridade horrorosa e eh dificilimo (menos pra Lindi, que arrasa). Com o agravante de que eh falado apenas na propria Alemanha, na Austria (oh!) e em um pedacinho da Suica, que jah eh um pedacinho de terra (ou seja, aprende-lo eh o mesmo que comprar um celular que soh pega no Piaui, Sergipe e parte de Alagoas). Nao tenho pela cultura alema a mesma curiosidade que tenho pela cultura francesa. Para completar, ao contrario do que acontece com outras culinarias europeias, eu nao tenho o menor interesse em expandir in loco o meu repertorio de comida alema - os pratos que eu saboreio nos restaurantes especializados em Sao Paulo jah me sao mais do que suficientes.

Quando saio de casa para conhecer um lugar novo, jah vou predisposto a gostar de tudo. E quem incluiu Berlim no roteiro fui eu. Mesmo assim, tendo saido do feitico parisiense, a primeira impressao que tive da cidade nao foi exatamente empolgante. Enquanto Paris eh praticamente uma cidade cenografica, Berlim nao tem um lado monumental tao evidente, muito menos o mesmo charme da Cidade-Luz. Ainda sem me aprofundar nas atracoes de Berlim (soh fui fazer os passeios turisticos alguns dias depois), eu vivi a sensacao de estar numa cidade alema - uma sensacao que jah me era familiar e que nao me agradava muito.

A coisa comecou a mudar - e mudou radicalmente - quando eu aluguei uma bicicleta e decidi sair sem rumo. Berlim pede por isso. A cidade eh inteiramente plana e, nos trechos em que nao ha ciclovias (e ha muitas), as bicicletas dividem a faixa da direita com os carros, em pe de igualdade. Isso significa que possuem os mesmos direitos (voce nao eh uma mosca a ser eliminada, mas um veiculo como outro qualquer) e deveres (o sinal vermelho tambem vale para voce, que deve parar antes da faixa de pedestres, como um carro). Nessas andancas sobre duas rodas, pude ver uma Berlim mais agradavel, humana (bem menos muvucada e mais receptiva do que Paris), com parques, areas verdes e bairros tranquilos. Finalmente consegui juntar as pontas e ter uma visao de todo da cidade, um entendimento que eu considero fundamental.

Mais do que isso: soh com uma bicicleta eu comecei a achar lugares bacanas e descolados, que nao estao enfileirados numa mesma "rua hype", mas sim dispersos, como tesouros que precisam ser descobertos. Enquanto o oeste da cidade sempre foi puro capitalismo, com direito ateh a uma "Champs-Elysees berlinense" (a avenida Kurfustendamm, ou Kudamm para os intimos), os bairros da antiga Alemanha Oriental tiveram uma modernizacao bem mais recente (apos a queda do Muro) e bastante peculiar. O Mitte foi alcado a condicao de novo bairro cool da cidade, e aos poucos tambem foi se tornando mainstream (vide a chegada de lojas como Diesel, Replay e G-Star). Jah Prenzlauer Berg foi tomado por artistas e intelectuais e modernizado pelos proprios moradores, de uma forma menos agressiva: parece um Leblon sovietico.

Agora, Berlim me conquistou mesmo de vez quando finalmente cai nos lugares certos, os tais "bafos" de que falei no post anterior (cada um deles vai merecer um post, mas soh quando eu estiver de volta ao Brasil). Se no final das contas o saldo de Berlim foi mais do que positivo, e hoje eu posso dizer que gostei da cidade e recomendo, eh justamente por causa desses babados fortissimos que eu pensaria em repetir a dose e voltar para lah, mesmo com tantas outras cidades europeias para descobrir ou revisitar.

12 comentários:

Anônimo disse...

Ola Thiago! Lei seu Blog ha algum tempo... estou em londres e vou para berlim no dia 08/08... primeira vez, se nao for abusar muito, pode dar algumas dicas desses lugares bafos... rsrsrs... pode ser so o nome para nao estragar sua viagem... eu me viro para procurar!
forte abraco, vlw desde jah
caiovelazquez@hotmail.com - prazer caio!

Lia disse...

Pelo seu relato deve ter passado pelo Panorama/Berghain? Berlim é tudo de bom e é bom sempre ter um contato na cidade, pq as melhores coisas sao bem escondidas e sem placas. Bjs e adoro seu blog

poor guy fashion victim disse...

Já amei Paris, e Praga também, cidades a que no momento sou completamente indiferente, cgegando-me a provocar alergia. Não as consigo deixar de ver como um grande e vistoso bolo de noiva conservado com muito corantes, mas com conteúdo muito pouco interessante.

Aproveite a diversidade e modernidade arquitectónica de Berlim e o clima pouco esteriotipado de cidade turistíca. aproveite as 10.000 festas do love ball em concorrência com o circuit festival de BCN.

Boa continuação de viagem, que eu estou a contar desesperadamente os dias que faltam para apanhar o voo para IBZ.

Douglas FR disse...

Mesmo com o seu testemunho, Berlim ainda não me chama a atenção. Aliás, a Alemanha no geral.

E a labuta estudantil já começou, viu? Então curta muito por aí, enquanto os pobres mortais ralam por aqui!

Bjo.

André disse...

Ai Jisuis, volta logo e conta tudo.
Inclusive como viajar tanto sem gastar muito.
Nem preciso dizer que seus posts sempre são nota máxima.
Aproveita aeeeee!

Lindinalva Zborowska disse...

Espero que vc não tenha demorado muito pra descobrir Berlin-Ost, que é o babado já há muuuito tempo quiridjo. Ninguém mais interessante se joga em Berlin West que tá pra lá de decadente. E saudades de Prenzlauerberg, onde de menina... virei mulé!! Afffff que babado!!! Um beijo e me liga + 49 30 472.858* (ups... será que ponho aqui o telefone completo de casa?).
Gerade hast Du noch eine Koffer in Berlin. Eine sehr grosse Koffer, hoffe ich!!! hi hi hi!!! Já dizia Lili Marlene...

Gustavo Miranda bota.dentro@uol.com.br disse...

Você conseguiu relatar as coisa de maneira a me deixar ainda mais curioso!
Boa viagem!

Anônimo disse...

Fala Thi,

Bom, escuto falar muito bem de Berlin, não sei como ía ser em relação ao idioma, não falar o língua do país sempre dá uma impressão de não estar vivendo as coisas propriamente né, mas em relação a cidade sim...dizem que é onde as coisas estão acontecendo...pelo seu post me pareceu meio que... será?

Bjs e continue aproveitando as férias por aí. Quando vc voltar quero ver as fotos.

Beijos,

Lindinalva Zborowska disse...

QUIRIDJOOOOO!!!! Se vc ainda estiver aí em Berlin, não deixe de ir ao café Orange, ao lado da grande sinagoga na Oranienburgestrasse e no restaurante Pasternak, a melhor comida russa, fora da Rússia. O pasternak fica na U2 direção Ost. Melhor estação Senefelderplatz. Knaackstr. 22, tel:4413399. Reserve uma mesa com o Boris ou o Otto. O Boris tem uns zóio azurrrrrrrrrr de deixar qualquer um louco e um salchichão russo MA-RA-VI-LHOOOOOO-SO. O Otto deixa pra lá...
Se soubesse que vc ia praí arranjava de vc ficar com o Micky Friedmann, o DJ diliça que tocou aqui na TW. Mas... deixa pra lá. Um beijo e me liga, fio!!

Jack disse...

Concordo, concordo e concordo. Às vezes precisamos nos jogar em lugares desconhecidos para nos surpreendermos. Quanto a Berlim, fui para lá no ano passado e me surpreendi realmente, gostei muito. Mesmo falando um pouco de alemão, percebi que as pessoas falam inglês em geral, portanto não é tão difícil comunicar-se. Tenho conhecido várias pessoas que foram a Berlim recentemente e todas adoraram: seja um casal amigo em lua-de-mel, seja um gay procurando bafo. Quem foi lá antes diz que realmente a cidade mudou muito nos últimos anos, o que talvez contribua para a boa impressão de quem tem ido recentemente. E é por isso que, se Deus quiser, volto lá ano que vem!

introspective disse...

Anonimo: Jah te mandei um email, divirta-se em Berlim!

Lia: Mas eh claro! Aquilo ali eh magico. Realmente, eh meio dificil cair de para-quedas e se dar bem em Berlim... Beijao e apareca!

PGFV: Tendo passado por Paris e estando em Praga, entendo bem o que vc fala. Mas dah para contornar isso, eh soh saber fugir do eixo turistico. Paris nao tem muita escapatoria, a cidade as vezes pode parecer um grande parque tematico. Mas em Praga, eh soh pescar os lugares alternativos em Praha 3 e se jogar... Besote y disfruta Ibiza!

Douglas FR: Entao aguarde meu post com 10 razoes para acreditar em Berlim. Se sua impressao nao mudar, tudo bem tambem. A Alemanha em geral (e Berlim em especial) definitivamente nao sao para todo mundo.

Andre: Conhece um ditado americano que diz "nao existe almoco gratis"? Pois eh: para gastar pouco, eh preciso infelizmente fazer escolhas. Eu, por exemplo, que sou bem interessado em gastronomia e gosto de conhecer pelo menos um restaurante top de cada cidade, estou tendo que me controlar. Felizmente, porem, alguns lugares (Berlim, Espanha e Italia em geral) sao mais baratos do que outros (Paris, Londres e a Escandinavia). Enquanto em Paris vc soh come porcaria com 10 euros, em Berlim eu comia uma comidinha vietnamita in-cri-vel a 7. Ah sim, e tem outros truques, como pedir as coisas para levar e nao comer la dentro. Quem sabe eu nao faca um post com algumas dicas para economizar, tai uma boa ideia.

Lindi: Fica fria que todas as minhas jogacoes foram em Berlin-Ost. Na parte ocidental, soh fui dar uma ciscada na Motzstrasse, que ainda tem um certo fervo. E jura que foi lah que a senhora virou mulher? Pelo visto entao quando chegou naquele antro qe eh o Kellers em Paris jah estava bem crescidinha... hehehe

Gustavo Miranda: Hehe... que bom! Fica frio, que Berlim ainda vai ganhar alguns posts quando eu estiver de volta a terra brasilis.

Ma: Berlim eh um lugar onde coisas acontecem sim (mais do que em Paris, por exemplo), mas o que estah realmente acontecendo nesta temporada sao os novos destinos do Leste Europeu. Mas eu ainda tenho que fazer algumas viagens prioritarias antes de me arriscar nessas novidades para europeus entediados! ;)

Jack: Realmente, Berlim parece ter tido um sopro de vida recentemente. No fim das contas eu gostei sim (vou ateh fazer um post com minhas 10 razoes, como jah comentei mais acima). Mas ainda acho que Berlim nao eh uma cidade que agrada instantaneamente a todo mundo. Nao dah para bater o carisma de uma Espanha, por exemplo!

Vítor disse...

Não sei se vc já voltou, mas, de qq forma, vai um "oi".

Tô meio enrolado no trabalho novo, mas não deixei de notar uma coisa que vc escreveu uns posts atrás: "ser gay no Brasil eh se contentar com migalhas, copiar a moda dos outros, tirar a camisa na The Week e esperar o proximo carnaval."

Ditto!

Bjs!