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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Os melhores clubes eletrônicos do mundo

A revista inglesa DJ Mag soltou a versão 2009 do seu ranking anual com os cem melhores clubs do mundo. Em primeiro lugar, nenhuma novidade: deu Berghain, incrível balada dentro de uma usina desativada de Berlim, que eu vivi e contei aqui. Logo abaixo vêm o Fabric, que passou a reinar absoluto em Londres depois do fechamento do The End, e o sensacional Space, que sozinho já justifica uma viagem à ilha espanhola de Ibiza. Ainda entre os dez mais, bambambãs já bem cotados em votações anteriores, como o Womb de Tóquio, o Amnesia de Ibiza e o Watergate de Berlim, além do próprio The End londrino, em homenagem póstuma.

A maior surpresa aparece em nono lugar: o nosso D-Edge [foto]. O lugar é bacanérrimo e um orgulho da nossa cena paulistana. Ainda assim, fiquei admirado vendo ele ficar acima de tantos outros clubes de peso. Mas isso não importa, e acredito que o caixote de néons da Barra Funda ficará ainda mais legal quando a expansão estiver pronta. A resenha exalta o sistema de luzes, a qualidade do som e o ecletismo do público: "sapatos de salto alto dividem a pista com tênis All Star, todos na mesma onda".

Outros clubes brasileiros que estão bem na fita são o Warung, de Itajaí (SC), em 15º, e o Sirena, de Maresias (SP), em 19º - ambos mereceram elogios rasgados de DJs estrangeiros que vieram conhecê-los. O Pacha de Buenos Aires aparece em 22º. O ranking, que pode ser visto aqui, é uma mão na roda na hora de planejar aquela jogação básica no Exterior. Afinal, a melhor balada da sua vida pode estar onde você menos imagina. Eu, por exemplo, não tinha ideia de que o Berghain pudesse ser tão especial.

sexta-feira, 27 de março de 2009

De tudo um pouco

::: "Procurando ovos de Páscoa? Venha para Berlim e encontrará milhares deles, pendurados no meio das pernas de machos fetichistas de todas as partes do mundo". Esse foi o singelo teaser que recebi hoje por e-mail da BLF, espécie de semana leather que acontece na capital alemã entre 8 e 14 de abril. São várias festas, para bailar y para follar, em clubes e sex clubs, culminando com a premiação do German Mr. Leather 2009. Esses concursos revelam o que nem sempre dá para esconder: por baixo de uma montanha de músculos, couro, correntes e cara de mau, pode bater um coração de miss!

::: Enquanto algumas partes do globo são prafrentex e tolerantes, outras insistem em continuar estacionadas na época das trevas e da intolerância. Não vou gastar meu latim falando das declarações patéticas defecadas pelo Vaticano, coisa que ele faz bem como ninguém. Mas li n'ACapa que Curitiba está sendo assolada por uma onda de ataques homofóbicos, com direito a spray pimenta, pedras e pedaços de pau. Lamentável, para dizer o mínimo. O espírito de porco de certos curitibocas, colonos e provincianos, não combina com uma cidade que se pretende tão evoluída. [UPDATE: depois de mais um ataque, um grupo GLBT local lançou uma cartilha recomendando que os gays fujam e se protejam como puderem].

::: E falando n'ACapa, achei super bonitinho eles descobrirem a cantora Stefhany - dois meses depois que o resto da humanidade. Mas compensaram o delay em mostrar a "nova sensação da internet" com uma entrevista com a fofa, que definitivamente colocou o Piauí no circuito das top divas deste vasto país. As produções dos clipes são mesmo hilárias, mas confesso que achei a melô do Crossfox melhor do que muita coisa nacional que toca nas rádios FM hoje. E é impressionante a capacidade da internet de gerar coisas "absurdinhas" e transformá-las em epidemia. Este artigo faz um retrospecto de vários virais que fizeram história, depois de especular se o hit da linda & absoluta não teria tido um dedinho oculto da Volkswagen.

::: Duas notinhas de comida, só pra manter o apetite. A Paola di Verona, rotisserie onde os glutões refinados de São Paulo compram massas recheadas incríveis, acaba de abrir um fast food na praça de alimentação do Center 3, na Paulista. Chama-se Paola e nesta semana está com uma promoção convidativa: fetuccine, refri e mousse de coco a R$16. O Spoleto, com aqueles molhos horríveis, pode começar a se preocupar. E lembram do À Côté, segunda casa da dona do Ruella, ali na Bela Cintra? Fiquei sabendo que fechou e, no lugar, vai abrir um contemporâneo com influências latinas, pilotado pelo chef do Zazá Bistrô, minha janta predileta no Rio de Janeiro.

::: "Dizia ele, estou indo pra Brasília... nesse país lugar melhor não há!" Finalmente, chegou minha hora de conhecer a capital federal, terra do "Faroeste Caboclo". Embarco hoje, rezando para a previsão de chuva da Climatempo estar equivocada, porque não quero viver outro pesadelo gaúcho. Vou pra fazer turismo, encontrar amigos e, claro, me jogar. Vi que a cena local super gira em torno de label parties. A Fun e a Lili são as mais conhecidas, mas há outras. Só neste sábado, vão rolar duas: Propulse, na Hípica, e Kiss, que tem reunido as top beeshas do Planalto Central em uma casa no alto de uma colina, com vista luxo. E tá que amanhã vai ter uma que se chama Festa da Keila? Essa só perde para a La Colocación de Niterói...

domingo, 31 de agosto de 2008

Lab.oratory, a fantástica fábrica do sexo

Berlim é uma cidade cheia de surpresas também quando o assunto é pegação. Ao espírito já naturalmente permissivo e desencanado da cidade, soma-se um notável interesse por sexo - que não é, nem de longe, exclusivo dos gays. Nunca esquecerei de uma sex shop gigantesca, numa transversal da Kurfürstendamm, que mais parecia um hipermercado, onde loirinhas de bochechas rosadas e casais héteros de meia-idade manuseavam com a maior naturalidade bugingangas nada angelicais - incluindo um filme em que um homem sodomizava uma mulher completamente enterrada (para fora da terra, apenas o traseiro dela e um tubo na altura da cabeça, por onde ela respirava). Não existem limites em Berlim, desde que as partes envolvidas estejam em consenso e não tentem podar a liberdade dos outros.

No meio gay, como em outras capitais européias, uma rede de cruising bars e afins proporciona festas dedicadas a todos os tipos de fetiche: couro, fardas, borracha/látex, underwear, barbudos, skinheads, sado-masoquismo, watersports, lama (!), fisting... Tamanha segmentação facilita que adeptos de práticas mais extremas encontrem parceiros, mas também pode tornar a noite um tanto monótona e repetitiva, especialmente para quem tem gostos ecléticos na cama. Estar em um ambiente onde todos os tipos são bem-vindos e todos os fetiches são permitidos abre muito mais possibilidades - inclusive de que a noite fuja do script habitual e tome rumos nunca antes imaginados.

De todos os lugares que compõem o roteiro do sexo em Berlim, o mais espetacular, com toda a certeza, é o Lab.oratory. O fervo ocupa uma parte da antiga usina que também abriga o clube Berghain-Panorama - com entrada separada, pela lateral do prédio. Para ter uma dimensão do bafo, é só imaginar uma grande fábrica transformada em um verdadeiro playground do sexo, onde homens bem-resolvidos, fogosos e dispostos chegam para brincar de jogos adultos - mas se soltam como crianças. Seria um sonho, se não fosse realidade.

Na entrada, os clientes recebem grandes sacos plásticos azuis, para que possam se livrar de tudo aquilo de que não forem precisar para se divertir: roupas, documentos, dinheiro, preocupações e inibições. A menos que a noite tenha dress code específico (underwear, couro, nudez obrigatória etc.), cada um pode ficar como se sentir mais à vontade - de calça, de cueca ou até mesmo com uma fantasia de Mulher-Gato, se for o caso. Guardados os pertences, os convivas têm o número do saco plástico escrito no ombro com canetinha e é nisso que se transformam: em meros corpos numerados. Deixam para trás roupas, nacionalidades e rótulos; voltam às suas raízes naturais, machos soltos e libertos, livres para serem e fazerem o que quiserem, assumirem a(s) identidade(s) que desejarem... da porta para dentro, estão protegidos em um mundo à parte. Um grande parque de diversões.

No centro da usina, um grande bar calibra os ânimos e ajuda as pessoas a se conhecerem. O clima é bastante descontraído; quem ficasse por ali e não conhecesse o resto se sentiria em um simples bar "temático" com decoração industrial. A iluminação é bem distribuída para que o espaço não fique claro nem escuro demais. O ambiente é preenchido por uma mistura dark e quase sem vocais de house e progressive house que é altamente sexual; seria perfeita para dançar a noite inteira, se não fosse ainda melhor para deixar os instintos aflorarem e sucumbir à libido. Se existe algo como "música para foder", taí o melhor exemplo. O som bem escolhido tem um papel fundamental para criar o clima de luxúria do Lab.oratory.

Depois de molhar a goela no bar e fazer os primeiros contatos, é hora de dar uma volta e explorar as diversas possibilidades da usina. Há salas, tocas, corredores, mezaninos, cantos e recantos de todos os tipos, alguns mais expostos e outros mais reservados, onde duplas, trios e grupinhos se formam e se desmancham espontaneamente o tempo todo. Tudo com a maior civilidade: "com licença", "desculpe", "quer brincar um pouco conosco?", "isso, segure bem a perna dele", "ei, você curte ___?" [preencha como quiser]. Cada um respeitando as preferências e o espaço do outro, dos dominadores mais severos aos mais tranqüilos voyeurs. Poderia ser um ambiente pesado, mas na verdade é surpreendentemente leve.

Um corredor leva a uma espécie de jardim de inverno, onde é possível tomar um pouco de ar fresco, ver as estrelas - ou continuar a brincadeira ali mesmo. Um belo moreno se refestela dentro de uma banheira, enquanto vários outros fazem fila para urinar nele. O sujeito parece extasiado, enquanto toma goles generosos e deixa que os jatos o ensopem inteiro (ele preferiu ficar vestido, talvez para continuar curtindo o cheiro na roupa depois). A cena toda é quase infantil, parece uma brincadeira de moleques felizes. Todo mundo é feliz ali. Especialmente quem gosta de chupar: numa espécie de estábulo de ferro dividido por uma parede, dezenas de falos despontam lado a lado em glory holes. Não é preciso nem se curvar, pois quem oferece o bilau está num plano três degraus mais elevado, justamente para tudo ficar na altura certa. Ou seja, a tal fábrica foi inteira adaptada para o prazer.

Para quem quiser conferir, é importante consultar no site o calendário com a programação - às vezes, o tema da festa pode não ser do seu agrado (se eu tivesse, desavisadamente, ido conhecer o lugar na noite seguinte, teria literalmente dado merda no meu passeio, se é que vocês me entendem...) Para não errar, a dica é apostar nas sextas-feiras, que têm temática neutra (o que não impede você de se jogar na sua "prática sexual específica" favorita) e funcionam em sistema de double drink (o que você pede no bar vem em dobro), o que sempre garante uma boa lotação. E fique esperto: embora o bafo vá até 5 ou 6 da manhã, a entrada só é permitida até meia-noite. A idéia é fazer todo mundo chegar ao mesmo tempo e cedo, para o lugar já bombar logo de uma vez. Até na hora da pegação esse povo é inteligente...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Berghain-Panorama, uma balada única

A queda do Muro de Berlim expôs ao mundo o grau de decadência em que se encontrava a Alemanha Oriental, combalida pela crise do regime comunista. Foi natural que os berlinenses do leste migrassem para a rica parte ocidental, atrás de bens de consumo e novas oportunidades. Berlin-Ost ficou jogada às traças e seus galpões abandonados ou postos para alugar a preço de banana passaram a atrair todo tipo de artistas e freaks - inclusive de fora da Alemanha. Esse processo de ocupação "alternativa" deu o tom do renascimento cultural e humano da região; hoje, é lá que está tudo o que rola de mais bacana em Berlim. Muitos dos melhores fervos são feitos em velhas fábricas e galpões reaproveitados. É num desses espaços que se esconde a balada mais incrível da minha viagem: o Berghain-Panorama, que rola dentro de uma antiga usina.

Chegar lá pode ser uma aventura para os incautos. O S-Bahn (metrô de superfície) não te deixa longe, mas o entorno do lugar é ermo como a CEAGESP. Sem sinalização alguma ("letreiro na porta"?! hahahá), você só saca que acertou quando começa a ver uma movimentação de gente em direção ao que parece ser uma grande fábrica abandonada. Entre alambrados, areia e entulho, a fila é surreal - cheguei às 5h10 de domingo e só consegui entrar às 7h20. Mas a espera é parte do ritual e uma ótima chance de se ambientar com a eclética fauna que vai dançar do seu lado. Todos os tipos e estilos possíveis estão ali, de jetsetters a ripongas, de lolitas a fortões, do modelão mais montado à roupa mais confortável... e eles interagem numa boa [algo impensável no Brasil, onde as pessoas têm a cabecinha segmentada, classificam umas às outras em rótulos, tribos, padrões e dão uma importância enorme a isso]. No fim das contas, a espera faz pessoas das mais diferentes origens e nacionalidades engatarem um animado tricô (viva a língua inglesa!), o tempo vai passando e, quando você já está perto da entrada, já fez amigos, garantiu uma rodinha na pista e, se bobear, até começou a engatilhar alguma pegação.

Vencido o leão-de-chácara (a criatura mais apavorante que já vi, um sujeito gigante com o rosto todo deformado e cara de nenhum amigo, daria um excelente agiota), você entra e percebe como o lugar é enorme. No térreo, há uma lojinha improvisada e o que eu imagino que seja um espaço para exposições ou eventos de arte. Subindo uma escadaria (total déjà vu da Fundição Progresso), chega-se à pista principal, que é a porção Berghain do clube. Com pé-direito de pelo menos 15 metros, luzes bombando e som entre a house e o techno, essa é a pista da "fritação", onde todos aqueles tipos da fila acabam formando uma massa surpreendentemente homogênea. No início, não dá para saber quem é quem na história, mas os gays logo se identificam tirando a camisa: basta tirar também para que coisinhas comecem a acontecer. À direita de quem dança olhando para o DJ, um enorme vitral iluminado por baixo separa o bar do maquinário intocado da antiga usina.

Outro lance de escadas leva ao segundo andar, a metade Panorama do espaço. O astral nesse segundo ambiente é bem diferente. A pista funciona no centro de um grande recinto quadrado, com paredes de ladrilhos brancos que lembram nossos antigos botequins. Por frestas no alto, a claridade do dia ilumina a pista, mas não mais do que o suficiente. O DJ toca num balcão baixo, totalmente ao alcance do público; do lado oposto, há um bar - e fica claro que os jovens bartenders estão na mesma vibe e se divertindo tanto quanto nós. O som - house, tech house, deep house, algum electro no caldo - é menos dark e mais alegre, mas sem ser "fofinho": tem momentos de euforia, com a pista gritando, e outros para botar o oclón e entrar numa onda introspectiva, sozinho ou acoplado com o peguete.

Mas as duas pistas são só uma parte do barato. Um passeio pelos corredores da usina vai revelando outras descobertas. Há cômodos que fazem a função de lounges, com sofás muito velhos onde o povo se esparrama, se beija, fuma um, fica abraçado de conchinha. Muito pouca luz passa pelas janelas, que são pintadas de diversas cores, dando um clima especialmente aconchegante e quase 70's ao ambiente. O mesmo clima avonts está na ante-sala de um dos banheiros, onde outro sofá serve de acampamento para um grupo fervidíssimo, que logo me inclui na próxima rodada de jägermeister (bebida escura que os alemães não se cansam de entornar e parece um Biotônico Fontoura alcóolico).

Em um território livre como esse, é fácil conhecer pessoas. No Panorama, as pessoas socializam na pista, fervem, o clima é totalmente "pra cima". Conheci ainda mais gente e dei os parabéns para uma DJ chilena que tocava um som incrível [seu nome é Dinky e ela toca ali uma vez por mês]. Já nas profundezas do Berghain, com os ânimos mais exaltados, os contatos são de outra natureza, e não raro acabam em algum dos dois grandes cômodos completamente escuros à esquerda da pista, onde os descamisados e todo o resto da Arca de Noé se lançam ao universo das experimentações físicas.

Lá pelas tantas, comecinho da tarde, depois de aproveitar de diversas maneiras, fiquei com um alemão na pista do Panorama. Ficamos curtindo lá e, num dado momento, ele me pegou pelo braço e me levou para fora. Eu já ia protestar dizendo que não queria ir embora, quando vi que tinham aberto uma terceira pista no jardim. Era uma espécie de "terraço da Space" improvisado, com a pista coberta por aquela mesma trama de frufrus entrelaçados que filtra uma parte da luz do sol. Todas as bees tinham ido para lá e o clima era quase o de uma pool party: a cada 5 minutos, alguém do clube abria uma mangueira para o alto e os respingos de água que chuviscavam na pista refrescavam a todos nós, que dançávamos felizes como se estivéssemos no Bora Bora de Ibiza ou na piscina da The Week. Tinha até trava dando close. Enfim, só arredei pé de lá às 15h30, e porque meu corpo exigiu. Meus amigos da fila da entrada ainda me chamaram para o after do after, mas colocar qualquer coisa depois daquele lugar seria como fechar um jantar divino com uma concha de sopa Knorr.

Saí de lá maravilhado. Aquela usina maluca tem um astral muito especial e o povo festeiro, de espírito livre e desencanado, é uma atração à parte. Na Space de Ibiza, que considero meu clube preferido, o público pode ser "variado" (héteros e gays, vários países etc.), mas ainda assim dentro de um certo padrão que freqüenta Ibiza: gente bem de vida, houseira, antenada, consumista, que usa oclón de grife, meio jetsetter. Ou seja, você já sabe mais ou menos o que esperar e que tipo de papo vai ter. Já no Berghain-Panorama não: lá tem de tudo mesmo, você realmente se surpreende ao conhecer as pessoas mais diferentes. É muito bacana ver que um povo tão heterogêneo pode dar uma liga tão boa. Muito mais legal do que ir a uma festa 100% barbie ou 100% muderrrna ou 100% emo. Não pude registrar nada (eu já sabia que o staff confiscava todas as câmeras e até celulares, porque não quer que a proposta da casa seja imitada), mas sei que não precisarei de fotos para lembrar da experiência.

sábado, 16 de agosto de 2008

10 razões para incluir Berlim no seu próximo giro europeu

Quando se pensa em ir à Europa, os primeiros e mais óbvios destinos costumam ser Londres e Paris. A Espanha também é muito procurada: o clima agradável, a receptividade dos nativos, a culinária e a vida noturna são um denominador comum com o gosto dos brasileiros. Por outro lado, poucos se lembram de Berlim. A cidade não chega a ser underground, tem lá os seus ícones, mas eles não têm tanto apelo para as massas como uma Torre Eiffel ou um Coliseu. Melhor assim: lá você encontra pessoas que estão atrás de coisas bem mais interessantes do que apenas fotografar cartões postais. Aqui vão alguns dos encantos da capital alemã.

1) UMA TRAJETÓRIA PECULIAR. Berlim é a única cidade do planeta que foi atravessada por um muro e dividida em dois mundos completamente diferentes, um capitalista e outro socialista, sintetizando o cenário geopolítico do período conhecido como Guerra Fria, do qual ela esteve no epicentro. Derrubado o muro, coube a Berlim se reorganizar em busca de uma nova unidade - sem esquecer os importantes acontecimentos que protagonizou. A ascensão do Reich nazista, o holocausto judeu, a ocupação pelas tropas aliadas e o próprio muro, tudo está imortalizado em museus e memoriais, numa verdadeira aula de história in loco.

2) O CONTRASTE ENTRE O ANTIGO E O SUPERMODERNO. Berlim tem seu eixo monumental, com o Portão de Brandemburgo [primeira foto do post, ícone maior da cidade], a Ilha dos Museus [ilha dentro do rio Spree, é o berço da cidade e reúne oito museus e edifícios históricos] e belos bulevares como a avenida Unter der Linden. Por outro lado, com a reconstrução após a queda do muro, a cidade deu à luz construções moderníssimas, especialmente na região da Potsdamer Platz, que ficou com jeitão de metrópole norte-americana high tech. A síntese desse contraste está no Reichstag, o prédio do Parlamento europeu: em cima de seu "corpo" clássico foi construída uma cúpula ultramoderna [foto ao lado], de onde se tem uma vista absurda da cidade.

3) PRIMEIRO MUNDO DE VERDADE. Algumas capitais européias têm zonas inóspitas e perigosas, trânsito caótico, sujeira, focos de tensão étnica. Num certo país povoado por carcamanos (dos quais sou descendente), a bagunça lembra o Brasil e não se pode descuidar dos pertences nem um segundo. Já em Berlim, tudo funciona às mil maravilhas. Para uma cidade de seu porte, ela é limpa, organizada e bastante segura. Uma questão de riqueza (táxi lá é só Mercedão, com GPS e o escambau), mas também de mentalidade. O metrô não tem bilheteria nem catracas (você mesmo emite, paga e valida seu ticket), e pergunta se algum espertinho usa sem pagar? Se implantássemos esse sistema aqui, em dois meses o Metrô iria à falência.

4) O CHARME DOS BAIRROS DO ANTIGO LADO ORIENTAL. Com a queda do Muro e a abertura da antiga Alemanha Oriental para o capitalismo, os bairros do leste se modernizaram, uns de forma mais agressiva e mainstream (o Mitte, que rapidamente abraçou nomes como Diesel e Haagen-Dazs), outros de um jeito menos asséptico e mais genuíno (Prenzlauer Berg [foto ao lado], que foi urbanizado pelos próprios moradores e eu comparei no outro post a um "Leblon soviético"). O melhor jeito de explorar esses bairros é alugar uma bicicleta (7 euros por quatro horas ou 10 pelo dia inteiro) e sair descobrindo os lugares fofos e descolados que aparecerem pelo caminho.

5) PREÇOS SIMPÁTICOS. Berlim é um alívio para bolsos castigados pelos preços astronômicos de Londres e Paris. A surpresa de encontrar um restaurante vietnamita descolado, fervido e delicioso fica ainda melhor quando você vê que os pratos custam apenas 7 euros. E as compras são boas. A cidade não chega a ser um paraíso dos sacoleiros, mas tem tudo o que você possa precisar, com direito a uma "Champs-Elysées local" (a avenida Kurfürstendamm), uma filial das célebres Galeries Lafayette de Paris (na Friedrichstrasse), a KaDeWe (loja de departamentos que é um templo do consumo berlinense) e lojinhas modernas e cool no Mitte e em Prenzlauer Berg.

6) UMA CIDADE DE PIQUE JOVEM. Berlim tem atrações para se visitar e fotografar, mas é menos procurada por turistas tradicionais do que outras capitais. Ou seja, você provavelmente não vai ouvir "benhê, vamu na Lafayette de novo?" enquanto pega seu metrô. Os visitantes da cidade são em geral pessoas jovens, interessadas em explorar as baladas, a cultura de rua e o lado alternativo da cidade. Isso dá um outro pique a Berlim, principalmente no verão.

7) TOLERÂNCIA E DIVERSIDADE. Nenhuma capital preza tanto a individualidade como Berlim. Aqui, ninguém cuida da vida dos outros. No Tiergarten, principal parque da cidade, um casal pode esticar uma toalha na grama e deixar suas partes pudendas dourarem sob o sol sem atrair a atenção dos passantes, muito menos da polícia ou das emissoras de TV. Durante o dia ou à noite, as pessoas se vestem dos mais variados estilos, dispensando rótulos, sem a preocupação de serem classificadas em tribos. Você pode ser, parecer e preferir o que quiser. "Viva e deixe viver" é o lema.

8) TRÊS VEZES GAY. Óbvio que uma cidade tolerante como Berlim não poderia deixar de acolher as bees - o próprio prefeito, Klaus Wowereit, saiu do armário com a maior naturalidade. Mas ela não economizou: na falta de um núcleo gay, há três. Neles, você pode encontrar cafés, restaurantes, lojas, cruising bars, uma livraria GLS enorme e completíssima (com títulos em alemão, inglês e francês) e os melhores sex shops de toda a Europa. A diversidade impera, mas chama a atenção a quantidade de trintões e quarentões gostosos, bem-resolvidos e always ready for the action: em Berlim não existe uma idade-limite para aparecer socialmente e ser desejável, como no Brasil.

9) UMA VIBRANTE CENA ELETRÔNICA. A relação de Berlim com a música eletrônica não é nova: basta lembrar que foi lá que nasceu o grupo Kraftwerk, com seus teclados, terninhos e sonoridades completamente visionárias para os anos 80. Hoje em dia, a cena alemã continua antecipando tendências: um exemplo disso é o clube Robert-Johnson, de Frankfurt, que não divulga os nomes dos DJs escalados para cada noite, mas somente trechos de seus sets, para que o público valorize apenas a música (quer algo mais moderno do que isso?). Berlim tem um excelente circuito eletrônico, do qual fui conhecer dois endereços. O Watergate é um clube bem bacana, que eu mais do que recomendo, mas o bafo do bafo do bafo foi mesmo o inesquecível Berghain-Panorama, sem dúvida alguma o segundo melhor clube a que eu fui na vida (só perdeu para a Space de Ibiza). Claro que essa experiência vai ser relatada num post próprio.

10) LAB.ORATORY, O MELHOR PLAYGROUND ADULTO DO MUNDO. Se o Berghain-Panorama é o must do must em termos de balada, quando o assunto é sexo entre machos Berlim tem uma infinidade de opções, mas é no Lab.oratory que a onça bebe água (ou o que ela preferir beber, hehehe). Esse também será assunto para um post em separado (e dos grandes), mas só para adiantar: imaginem uma usina termoelétrica desativada transformada em um playground do sexo. Um lugar perdido como a Terra do Nunca, onde homens lindos e fogosos se livram de suas inibições (inibições? em Berlim?!) e vão brincar como crianças, felizes feito pintos no lixo (essa expressão carioca não poderia ser mais apropriada!). Um bafo fortíssimo, mas com um clima maravilhoso. Definitivamente, o melhor lugar de pegação a que eu estive no mundo (sei que tenho feito esse tipo de comparação com freqüência, mas o que posso fazer se a viagem foi cheia de lugares the best?). Aguardem o post completo em breve.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Trocando o certo pelo desconhecido

Existem duas maneiras de viver a vida. Alguns se prendem as primeiras descobertas e referencias e optam por se manter sempre em caminhos jah conhecidos, fugindo dos riscos. Jah outros preferem expandir os horizontes e se arriscar por novas trilhas, novas escolhas. Quem se encaixa no primeiro grupo leva uma vida segura e se contenta com a dose de felicidade e recompensa que recebe sempre daquela mesma maneira, sem novidades. Jah quem faz parte do segundo grupo pode ateh pagar o pato por algumas decisoes, mas tambem tem o gostinho unico de descobrir novos sabores - e ter algumas excelentes surpresas.

Trocar Paris por Berlim foi como abandonar o calor do utero materno para se aventurar num mundo desconhecido. Na capital francesa eu jah sabia de cor e salteado o que iria me acontecer. Jah conhecia bem a cidade - e sabia que gostava muito dela. Em Berlim eu teria que comecar minhas descobertas do zero, sem uma rede de amigos que quebrasse meus galhos (consegui apenas o contato do amigo de um amigo meu, e ainda assim era alguem com quem eu nao tinha a menor intimidade).

De Berlim, tudo o que eu sabia eu tinha lido em algumas reportagens em revistas de turismo (bem poucas, porque esse nao eh um destino muito explorado pelos brasileiros). Da Alemanha, as referencias que eu tinha eram as da viagem "a jato" que eu tinha feito em 1996, quando passei por Frankfurt, Koln/Colonia e Freiburg. Naquele meu primeiro contato, minha simpatia pelo pais foi muito pequena.

Se o espanhol eh um idioma feio mas facil e o frances eh uma lingua bela mas arisca, o alemao nao se salva em nada: tem uma sonoridade horrorosa e eh dificilimo (menos pra Lindi, que arrasa). Com o agravante de que eh falado apenas na propria Alemanha, na Austria (oh!) e em um pedacinho da Suica, que jah eh um pedacinho de terra (ou seja, aprende-lo eh o mesmo que comprar um celular que soh pega no Piaui, Sergipe e parte de Alagoas). Nao tenho pela cultura alema a mesma curiosidade que tenho pela cultura francesa. Para completar, ao contrario do que acontece com outras culinarias europeias, eu nao tenho o menor interesse em expandir in loco o meu repertorio de comida alema - os pratos que eu saboreio nos restaurantes especializados em Sao Paulo jah me sao mais do que suficientes.

Quando saio de casa para conhecer um lugar novo, jah vou predisposto a gostar de tudo. E quem incluiu Berlim no roteiro fui eu. Mesmo assim, tendo saido do feitico parisiense, a primeira impressao que tive da cidade nao foi exatamente empolgante. Enquanto Paris eh praticamente uma cidade cenografica, Berlim nao tem um lado monumental tao evidente, muito menos o mesmo charme da Cidade-Luz. Ainda sem me aprofundar nas atracoes de Berlim (soh fui fazer os passeios turisticos alguns dias depois), eu vivi a sensacao de estar numa cidade alema - uma sensacao que jah me era familiar e que nao me agradava muito.

A coisa comecou a mudar - e mudou radicalmente - quando eu aluguei uma bicicleta e decidi sair sem rumo. Berlim pede por isso. A cidade eh inteiramente plana e, nos trechos em que nao ha ciclovias (e ha muitas), as bicicletas dividem a faixa da direita com os carros, em pe de igualdade. Isso significa que possuem os mesmos direitos (voce nao eh uma mosca a ser eliminada, mas um veiculo como outro qualquer) e deveres (o sinal vermelho tambem vale para voce, que deve parar antes da faixa de pedestres, como um carro). Nessas andancas sobre duas rodas, pude ver uma Berlim mais agradavel, humana (bem menos muvucada e mais receptiva do que Paris), com parques, areas verdes e bairros tranquilos. Finalmente consegui juntar as pontas e ter uma visao de todo da cidade, um entendimento que eu considero fundamental.

Mais do que isso: soh com uma bicicleta eu comecei a achar lugares bacanas e descolados, que nao estao enfileirados numa mesma "rua hype", mas sim dispersos, como tesouros que precisam ser descobertos. Enquanto o oeste da cidade sempre foi puro capitalismo, com direito ateh a uma "Champs-Elysees berlinense" (a avenida Kurfustendamm, ou Kudamm para os intimos), os bairros da antiga Alemanha Oriental tiveram uma modernizacao bem mais recente (apos a queda do Muro) e bastante peculiar. O Mitte foi alcado a condicao de novo bairro cool da cidade, e aos poucos tambem foi se tornando mainstream (vide a chegada de lojas como Diesel, Replay e G-Star). Jah Prenzlauer Berg foi tomado por artistas e intelectuais e modernizado pelos proprios moradores, de uma forma menos agressiva: parece um Leblon sovietico.

Agora, Berlim me conquistou mesmo de vez quando finalmente cai nos lugares certos, os tais "bafos" de que falei no post anterior (cada um deles vai merecer um post, mas soh quando eu estiver de volta ao Brasil). Se no final das contas o saldo de Berlim foi mais do que positivo, e hoje eu posso dizer que gostei da cidade e recomendo, eh justamente por causa desses babados fortissimos que eu pensaria em repetir a dose e voltar para lah, mesmo com tantas outras cidades europeias para descobrir ou revisitar.

domingo, 27 de julho de 2008

Um shalom rapido

Estou em Berlim ha exatamente 72 horas. E ainda nao visitei nenhuma atracao turistica. Nem mesmo o Portao de Brandemburgo, o simbolo da cidade (que eh tipo a Torre Eiffel ou Cristo Redentor de Berlim).

Sabem o que isso significa? Sim, isso mesmo, acertaram. Bafo. B-A-F-O. Fortissimo.

Agora sao 16h00 de domingo, acabo de sair de uma balada que foi um divisor de aguas na minha vida. Depois de conhecer o fervo de Ibiza, eu achava que jah tinha visto tudo. Bem... acho que eu estava errado.

Eu poderia aproveitar esse momento totalmente "off my face" para escrever a respeito do que vivi nessas horas berlinenses. Seria um depoimento autentico, com a vantagem de que ele captaria o momento, no calor dos acontecimentos. Mas acho que eu nao conseguiria chegar ao final do post. Nao... na verdade acho melhor estar 100% sobrio para vasculhar os meandros da lingua portuguesa e caprichar no texto, para descrever o assunto do jeito que ele merece. Talvez daqui a uns dias... talvez soh em Sao Paulo. Vamos ver. Por enquanto, vou me limitar a respirar fundo, contar ate dez e refazer o caminho deste internet cafe ateh minha "casa", ou pelo menos algum lugar seguro. Je crois que c'est suffi pour l'instant. Auf wiedersehen!