sexta-feira, 17 de abril de 2009

Doritos, boás e purpurina

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) determinou ontem a suspensão da veiculação daquele malfadado comercial do salgadinho Doritos, em que um adolescente era gongado por fazer a dancinha de "YMCA". A propaganda foi considerada ofensiva aos homossexuais, na avaliação dos conselheiros de ética da entidade, que votaram, em sua maioria, pelo pedido de sustação do filme. Na época do bafafá, a fabricante PepsiCo afirmou que a peça "não faz nenhuma menção ao homossexualismo" e "respeito, compartilhamento e inclusão são valores indispensáveis para a empresa", em uma nota que não poderia ter sido mais chapa-branca. Agora, ao invés de deixar a poeira baixar sobre o episódio, a empresa irá recorrer da decisão.

Não vou entrar no mérito da propaganda (o que, a esta altura do campeonato, seria como chutar cachorro morto). O que chamou a minha atenção foi que, enquanto os gays se indignaram, os héteros não conseguiram enxergar preconceito algum na peça publicitária. Nos sites AdNews e Clube Online, dirigidos a publicitários, a notícia da suspensão do comercial foi recebida com reprovação. "Ridículo! está acontecendo uma verdadeiro exagero, questiono a capacidade dos profissionais deste conselho em avaliar as queixas", "preconceituoso é quem enxerga a polêmica, a propaganda é ótima", "as reclamações vieram de pessoas que não têm um mínimo de senso de humor, esse é o único comercial que eu paro pra assistir", "obviamente é uma brincadeira sem maldade".

De fato, a grande massa heterossexual não vê nenhuma maldade em se fazer piada com os gays. É uma questão de mentalidade. Ridicularizar os negros é moralmente reprovável, com o racismo sendo alçado ao status de crime (até mesmo hediondo, para alguns), mas os homossexuais não merecem o mesmo veredito quando a violência é dirigida a eles. A referência projetada socialmente - gays são pessoas caricatas, inofensivas, brincalhonas, que não se deve levar a sério - reforça a idéia de que achincalhá-los é normal e plenamente aceitável. A participação de Silvetty Montilla no último Toma Lá Dá Cá, na Rede Globo não me deixa mentir. Que mal há em rir das bichas? É tudo brincadeira! Não me surpreende que o jornal carioca Meia Hora tenha noticiado a morte do estilista Clodovil com a manchete "virou purpurina". Afinal, somos todos alegres e divertidos, não é mesmo? Como gostam de escrever os héteros, "kkkk".

24 comentários:

Estefanio disse...

E o pior é a postura da empresa de: ta todo mundo maluco e nos e nossa pesquisa de mercado e planejamento estragetico estamos certo.

cassio disse...

uma pessoa que acha aqule comercial bom ou para para assisti lo nao deveria dirigir um site de publicidade. alem de ofensivo o comercial é simplesmente ruim e de pessimo senso de humor. ja notou que o outro comercial da rede tbm ridiculariza os gays? afinal foi citada uma musica da madonna que é um icone gay. ahh claro,o outro comercial nao é menos desinteressante.

Principe disse...

Mesmo que aquele comercial não fosse homofóbico continuaria sendo muito ruim, de péssima qualidade.

Claro que tem teor homofóbico no comercial...Varios amigos gays meus comentaram comigo a respeito, muita gente se sentiu ofendida. E vamos combinar que esse comercial seria ruim mesmo que não fosse homofóbico...Campanha ridicula!!!

Mas enfim, nunca gostei de Doritos mesmo...

donna_sc disse...

é, realmente, lamentável que a empresa dê a tal justificativa e recorra da sentença. ainda mais lamentável as pessoas acharem que o comercial não tem nada de mais. nem que não tem nada de mais transformar as diferenças em palco para piadinhas. afinal, porque ninguém vai fazer piadinha sobre "gente normal", como dizem. possivelmente a resposta que dariam a isso é que "não tem graça". qual a graça que há em ser gay, mulher ou negro? ou pobre, ou sei lá o que. é de matar viu! ótimo post!

whateveeer disse...

Eu sou gay e não vi nada demais no comercial. Meus amigos gays tb não. Não entendi a polêmica em torno do assunto.
Eu acho muito chato essa onda de politicamente correto, sobretudo quando se fala de humor, Tiago (ou Thiago).

O humor deveria ser livre - sempre foi assim na sua essência.

De qualquer forma, eu não consegui achar os comerciais homofobicos. Achei o do Like a Virgin engraçadíssimo, isso sim.

Essa história toda é tãããão chata.
Fica um aviso pra todos os gays: não é proibindo comerciais que essa mentalidade dos "heteros" vai mudar. Se os gays são vistos como figuras cômicas, é pq uma boa parte se mostra assim. E eu não entendo aonde reside o problema disso. Quem sabe se impor no dia-a-dia, por mais que "não leve nada a sério", não deveria se preocupar com essas banalidades.

Já os recalcadinhos da estrela...

whateveeer disse...

E outra: se sentiram ofendido com O QUE? Alguém aqui inspira gás hélio e canta Madonna na frente dos miguxos héteros? Ou dança YMCA no carro de miguxos heteros?

ALGUÉM AQUI SEQUER TEM AMIGOS HETEROS? LOL ok parei.

O que eu quero dizer é que a forma como os figurantes do comercial trataram os guris não foi diferente de como tratariam qualquer imbecil - gay ou não - que resolvesse fazer o que eles fizeram em público.

whateveeer disse...

...na vida real.

whateveeer disse...

E não culpem os héteros pela percepção que eles tem dos homossexuais. Até pouco tempo atrás existia um verdadeiro orgulho gay, algo até exagerado por parte dos gays que levava eles mesmos a se colocarem numa posição de alegres, espontâneos, divertidos.

Hoje em dia é ser bombado e usar gola V pagando de hetero e exigindo respeito.

introspective disse...

Whateveeer, confesso que também não perdi noites de sono por causa da propaganda (e nunca fui de comer Doritos mesmo). Mas eu tb não sou o melhor parâmetro, pq já criei uma casca contra muita coisa. O que discuto no post é que caçoar de gays não pega mal no Brasil, ao contrário: é tido como aceitável. Diferente do que ocorre com os negros. Imagino se fosse uma propaganda do Bubbaloo de banana estrelada por atores negros vestidos de macaco numa selva... ia ser um bafo!

Agora, discordo quando vc fala para não culparmos os héteros pela percepção que têm dos homos. A sociedade impõe e perpetua uma imagem, que lhe é conveniente e com a qual consegue lidar.

whateveeer disse...

É, concordo que zoar os gays aqui no Brasil é aceitável.
A propaganda do Babaloo ia ser escândalo hahahaahhaha

Não dá idéia. Babaloo é da PepsiCo?

Gustavo disse...

Foi impossivel ler seu post e não comentar nada.
Acho esses dois comerciais, tanto o do YMCA como da vozinha da Madonna, muito sem graça.

E infelizmente na cabeça dos Heteros esse comercial é completamente hilario, engraçado, super inteligente, ninguém merece.

Mas adorei saber que a propaganda foi suspensa da TV e com certeza que muitas outras coisas que venham pela frente sejam também suspensas por mim que suspendam a Pepsico isso sim!

Utopias a parte, foi uma grande vitoria a todos nós.

Bjundá!

tommie carioca disse...

Realmente alguns gays não acharam o comercial ofensivo. Mas, por exemplo, assim como há gays que não gostam de quem dá pinta ou de barbies ou de "cacuras", gostar ou não de algo ou alguém é uma escolha de foro íntimo. E é na linha quase invisível que separa gosto individual e intolerância que reside o preconceito. Ninguém é obrigado a gostar de Doritos, de gays, de YMCA, de negros, de brancos, de heteros, de nada. Mas pregar a intolerância, seja com o que for, é nada mais que pregar o ódio e a exclusão. O equivoco maior desse comercial é passar (subliminarmente?) a "idéia" de que existe um "modelo" de pessoa/comportamento adequado e a ser seguido. E nem precisa ser um ativista pra saber que na nossa cultura o gay está excluído de qualquer modelo. É nesta intolerância (às vezes sutil, às vezes nem tanto) que reside o preconceito.

CARIOCA VIRTUAL disse...

O problema também está entre nós, todos se deixam ser vistos como alegres, o bobo da corte repleta de heteros que qdo deixam de ser divertidos não merecem mais estar entre os "normais". Acho que precisamos nos levar mais a serio tb, as vezes fica dificil qdo se percebe que nao temos a menor noção dos nossos direitos e nem lutamos de verdade por eles.

Celso Dossi disse...

Mas calma que essa geração hétero babaca anos 90 vai parar de mandar, a nova geração tá muito mais legal.
(claro que a parte sem educação da população vai continuar igual, mas fazer o que?).

Tony Goes disse...

Texto brilhante, Thiago.

Schadenfreude, schadenfreude.

Clebs disse...

Preconceito pode ser a mesma coisa, sendo racismo, homofobia, etc...é sempre a mesma coisas.

O que difere é justamente o que você diz no texto...o nível. Talvez o racismo esteja tão mais a fundo que, em nossa sociedade, virou culpa.

Já a homofobia virou uma esquina torta, subiu num salto e ficou caricata, quiçá aceitável.

É terrível, mas chutar um cachorro morto a essa hora poderia ser necessário, assim como esquartejar um lider inconfidente e distribuir suas partes por toda a colônia só para lembrar a todos do que não pode ser feito...

Peguei pesado, eu sei, o problema não é o comercial, é deixar o que que o comercial provocou estagnar...

Jack disse...

Bem interessante seu texto. Já tinha encrencado com a propaganda em si simplesmente por pregar a intolerância entre adolescentes -- uma faixa etária muito sensível, todo mundo sabe -- independente do seu conteúdo homofóbico. Só quem já foi adolescente sabendo-se gay sabe como é difícil. Mas concordo com você neste outro ponto: o comercial indica que é tolerável zoar com gays. Faço um outro paralelo: fosse a música um ícone da black music, sei lá, o rapaz (branco) rebolando ao som de Sex Machine ou de um r&b desses que dominam as paradas de sucesso, teria a mesma graça? Seria aceitável?

Diógenes de Souza disse...

Texto bacanérrimo, Thiago. Eu ainda acho que a mensagem repressiva do comercial ultrapassa a homofobia. Sem exageros.

whateveeer disse...

Gostaria de uma resposta sincera - vocês consideram esse vídeo preconceituoso também?

http://www.youtube.com/watch?v=mtNpa8RrDk4

whateveeer disse...

are you high? oh how high are you?
hahahhahahaa <3

douglasfert disse...

Primeiramente falando da campanha do Doritos, confesso que encontrei um tom mais preconceituoso após ler a primeira matéria falando sobre o assunto. Mas é inegável dizer que a peça está ali no limite entre o humor e o preconceito.

Mas de qualquer forma, desde aquela semana eu não mais vi nenhuma vez a peça. O vídeo com a versão do garoto cantando "Like a Virgin" em uma festa e até a nova em que uma garota 'surta' no shopping estão sendo veículadas, mas a polêmica eu pelo menos nunca mais vi.

Acho que o humor não pode ser visto como algo negativo, mas também não deve ser algo inconseqüente.

A imagem dos gays muda lentamente ao longo dos anos. Mas se a sociedade começar a "nos conhecer" melhor, teríamos mesmo uma imagem mais favorecida, ou novamente seríamos taxados como promíscuos, libertinos e superficiais?
Afinal, ninguém consegue escapar da preconceituosa estereotipação da sociedade.


** Não consegui enxergar muito sua posição neste post.
Afinal, és contra o estereótipo de bicha divertida e que merece ser gongada ou considera o humor algo necessário para nossos dias?

http://pridebrazil.blogspot.com/

David® disse...

Eu tb nunca fui de comer Doritos...mas se fosse, não deixaria de comer por causa disso.

Eu ate achei engraçada (e bonitinha) a cara do amigo q está no banco bem atrás da bee...rs

Abraços
David®

Rubens Oliveira disse...

Doritos dá azia!

E homofobia disfarçada de piada também.

Como o Cris Uomini falaria: Matau a pau, Thiago!

lola aronovich disse...

Eu achei aquele comercial péssimo e fico feliz que tenha sido suspenso. Mas não o achei necessariamente homofóbico. Um monte de gente discordou de mim. Tem 91 comentários no post, e quase todo mundo viu homofobia no comercial. E acho que a maioria do pessoal que me lê é hétero...