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terça-feira, 19 de julho de 2011

Overdose

Ando sem cabeça pra postar no blog. E não só por conta dos freelas que, felizmente, começaram a pipocar. Confesso que estou meio cansado de algumas polêmicas, tipo ter ou não ter beijo gay na novela, ou a declaração inadequada desse ou daquele asno com visibilidade pública. Nesses assuntos, vários colegas meus já estão dando o recado com maestria, e não tenho nada de realmente novo a acrescentar, sem soar redundante. Continuo achando que se indignar, querer avanços, semear mudanças de mentalidade, vale a pena. Essa é uma luta cotidiana de todos nós. Mas também reconheço que estamos vivendo uma overdose do assunto na mídia, num espaço muito curto de tempo. Isso cansa os ouvidos dos leigos e, por conta disso, acaba enfraquecendo a própria discussão. Muita gente bem-intencionada e até francamente simpatizante não aguenta mais ouvir falar em causa gay o tempo todo. No fim das contas, isso dá munição para uma das falácias mais levianas usada contra nós: a de que estamos querendo instaurar uma ditadura da minoria, uma patrulha gay empurrada goela abaixo da maioria. Será que não estamos errando a mão?

sábado, 20 de novembro de 2010

Na contramão da história

Juro que tentei fugir do baixo-astral como um avestruz, enterrando a cabeça no meu mundinho particular que anda tão animado. Mas não consegui deixar de me deprimir com essa onda de ofensivas e desgraças contra a população LGBT, todas ocorridas nos últimos sete dias. A que menos me atingiu foi a publicação do manifesto contra a Lei da Homofobia no portal do Mackenzie. Quem conhece a trajetória daquela universidade não poderia mesmo se surpreender; se a instituição desfruta de certo prestígio entre as tão mal cotadas escolas privadas do país, nem por isso devemos dar à sua declaração um poder e uma autoridade que ela simplesmente não tem.

Fiquei mais passado com os brutais ataques homofóbicos no Rio (onde três soldados do Exército agrediram e balearam um civil indefeso no Arpoador, e felizmente serão responsabilizados) e em SP (onde, em plena Avenida Paulista, cinco delinquentes de classe média atacaram três rapazes com requintes de barbárie, incluindo golpes de artes marciais e até lâmpadas fluorescentes). Segundo a Folha de hoje, o segurança que defendeu as vítimas relatou à polícia que uma delas foi encurralada, levou socos e chutes na cara e continuou apanhando mesmo após desfalecer. Ou seja, teria sido assassinada se não fosse a intervenção do vigia - que, ao perguntar aos marginais o motivo de tudo aquilo, ouviu: "Porque ele é viado".

Se não há justificativa capaz de endossar um ódio tão sem sentido (nem mesmo a cegueira da religião, como pretendem as nossas tão mal-intencionadas igrejas), episódios como esses parecem estar inseridos dentro de algo maior. Depois de anos de avanço da tolerância e do respeito à diversidade, sobretudo entre as camadas mais esclarecidas, parece que a sociedade resolveu andar na contramão. Estamos vivendo o crescimento de uma terrível onda conservadora, com um recrudescimento do moralismo, da segregação e do preconceito. Como não lembrar do caso da estudante Geisy, que quase foi linchada e currada pelos colegas, e depois expulsa da universidade onde estudava, apenas porque usava um vestido curto? Semana passada, chegamos ao cúmulo de prender um garoto de 18 anos, por ter dado um inocente beijo (!) em outro, de 13 anos - o que certamente não teria acontecido se o beijo tivesse sido recebido por uma menina. No Twitter, mensagens como "mate um viado queimado" se alastram, agrupadas na hashtag #HomofobiaSIM. E o assassinato bárbaro do garoto Alexandre Ivo, de 14 anos, em São Gonçalo (RJ), que foi esquecido em menos de 15 minutos? Tempos bicudos!

Eu gostaria de entender o que está por trás desse rebote reacionário. Talvez a sociedade esteja tão desorientada (o que dizer dos pais dos agressores da Paulista, que passaram a mão na cabeça de seus filhos?) e tão em crise com seus valores, que esse "encaretamento" acabe sendo visto como uma tábua de salvação para preencher os vazios e as inseguranças. Não sei! Alguém arrisca um palpite nos comentários? O que está acontecendo, afinal?

Se há um lado bom em todos esses absurdos, é que existe uma parcela mais lúcida e esclarecida da sociedade que está se indignando e esboçando uma reação. Bem ou mal, o tema homofobia está sendo discutido na mídia e na sociedade com bem mais freqüência do que há, digamos, cinco anos atrás. O simples fato de a motivação homofóbica dos crimes estar sendo explicitada pela imprensa já revela que existe hoje uma preocupação que não se via. É preciso ficar alerta. Afinal, a ignorância e o ódio só se combatem com união, esclarecimento e informação. Até porque nossos algozes também estão articulados: nas ruas, nos templos e agora, mais do que nunca, em Brasília.

Se você mora em São Paulo e quer ajudar a fazer a diferença, apareça amanhã (domingo) no vão livre do MASP, a partir das 15h. O movimento LGBT paulista vai promover uma manifestação de repúdio e reivindicação de providências para o caso dos agressores da Paulista (que foram liberados no mesmo dia, porque a lei assim permite), com caminhada até o local do crime, próximo à estação Brigadeiro do Metrô. Eu também estarei por lá. Mostrar que não toleramos essa atrocidade é o mínimo que podemos fazer. [UPDATE: Considerando que foi divulgada com pouca intensidade e antecedência, a manifestação foi ótima: cerca de 300 pessoas apareceram na Paulista e deram seu recado, de forma muito positiva e tranquila. Inclusive dois dos três rapazes atacados na Paulista deram as caras por lá. Só faltou o segurança-herói aparecer na porta do prédio pra gente homenageá-lo! O único senão foi a apropriação partidária do ato pelo PT e PSTU, que encabeçaram a parada com suas faixas, como se a iniciativa tivesse sido deles. Mas esse tipo de desonestidade já é praxe].

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os capitães do bacanal


Ninguém mais agüenta ouvir falar no caso Eliza Samudio & Bruno Fernandes, o "pão e circo" policial de 2010, que ocupa todos os noticiários para preencher a lacuna deixada pelo fim da novela da garotinha arremessada do sexto andar. O produto mais interessante dessa história não foi a atuação histriônica de Ércio Quaresma, o advogado de defesa que confunde Contagem com Hollywood, mas sim uma reportagem que o Fantástico exibiu [vídeo acima], há cerca de duas semanas. Como Bruno disse que conheceu Eliza em uma suruba, a Rede Globo foi atrás da história e descobriu a América: essas festinhas são mais comuns entre os jogadores de futebol do que se pensa.

A reportagem carregou no tom de julgamento moral, sob medida para o telespectador conservador de classe média. Zeca Camargo franziu a sobrancelha ao falar a palavra "orrrrgia", enquanto Patrícia Poeta sentenciou que se tratava de um "submundo de sexo sem limite e drogas", com a fisionomia dramática de quem faz uma seriíssima denúncia. A narração em off continuou a descrição do que seria "uma rede de silêncio e mistério", enquanto prostitutas e agenciadores explicaram como se desenrolam as picantes reuniões, dando os detalhes sórdidos que fizeram a alegria da audiência. Mesmo já tendo participado de filmes eróticos, uma entrevistada disse que se sentiu "suja de estar ali", referindo-se à experiência de ter sido convidada para uma dessas festas.

Vejam só que engraçado: os promíscuos da sociedade, os adeptos de perversões sexuais, os disseminadores de doenças venéreas, as ameaças ao sagrado paradigma da família brasileira... não eram nós, os homossexuais? Sempre foi em nossa direção que se apontaram os dedos. Vivemos um patrulhamento constante, que reverbera inclusive dentro do nosso próprio meio. Quando um blogueiro como Uomini ousa assumir seus desejos e experiências sexuais com franqueza, sem o pudor do politicamente correto, chovem comentários recalcados, apedrejando-o como o mau exemplo que denigre toda a classe LGBTT [já escrevi sobre isso neste post]. Cobram dos gays que se encaixem na moral dominante, que sejam os melhores exemplos de recato e honradez - para que, quem sabe, contando com a boa vontade alheia, eles sejam merecedores da benevolência e da aceitação social.

A verdade, escancarada pela matéria do Fantástico, é que os homens héteros não são diferentes de nós, ou moralmente superiores. Nem mais, nem menos: são iguaizinhos. Podem até adotar uma postura social irrepreensível, porque têm o imperativo da família para castrá-los, mas isso não significa que possuam menos instintos ou vontades. Muitas vezes, reprimem esses desejos, ou então os exercem na surdina - e, nisso, não são "melhores" do que nós, apenas mais hipócritas. No meio gay tudo é mais escancarado, porque já nos acostumamos a estar à margem e temos um estilo de vida mais livre, mas isso não quer dizer que os héteros não aprontem as mesmas coisas. Das esquinas freqüentadas por travestis aos puteiros chiques do Campo Belo, as histórias se repetem. Perguntado pela reportagem sobre as tais surubas no futebol, o ex-jogador e atual técnico do Bahia, Renato Gaúcho, foi taxativo: "Todo clube tem, é inevitável".

Ter fantasias sexuais turbinadas, querer se lambuzar num mar de corpos, saliências e extremidades, isso é da natureza do homem, seja ele hétero ou gay. O que não quer dizer que ele não seja capaz de se envolver afetivamente e praticar a monogamia, como uma escolha, uma decisão consciente. Ou que todos os homens tenham desejos libertinos insaciáveis: a libido e o tesão são fruto da combinação de uma variedade de fatores físicos, psíquicos, sociais e culturais que se manifestam de forma diferente em cada indivíduo, e também oscilam com o tempo. Agora, mais uma vez, nada disso tem a ver com orientação sexual. Há homens gays e héteros rodadíssimos, assim como há homens gays e héteros bastante recatados.

Mas a sociedade é implacável nos seus julgamentos, e adora dar seu pitaco sobre o que é certo e errado na vida privada das pessoas, ferindo o livre-arbítrio de cada um. No caso do ex-goleiro do Flamengo (que, colocado em outro contexto, é um cafuçu altamente umidificante, #prontofalei), não será surpresa se, antes de ser julgado pelo envolvimento (ou não) na morte da maria-chuteira, ele já for condenado porque curte uma boa bacalhoada. No mínimo, isso já será encarado pelos bastiões da moral e dos bons costumes como um mau antecedente, capaz de pesar negativamente na avaliação do delito em discussão.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O alvo preferido

Eu estava vibrando com a vitória dos nossos vizinhos argentinos [eu me refiro à aprovação da emenda do casamento gay pelo Senado argentino, de que tratei aqui, e que foi inclusive o assunto mais discutido do encontro de blogueiros do último sábado]. Mas a euforia durou pouco. Ontem, um post no blog do Don Diego interrompeu meu devaneio otimista e lembrou que em nosso país o buraco da vida real é bem mais embaixo. Ele expôs o drama do jornalista d'O Globo Jefferson Lessa - que relatou, num desabafo na edição de ontem do periódico carioca, que vem sendo vítima de bullying homofóbico quase diário nas imediações da sua casa, no idílico bairro da Urca. O texto é tão comovente quanto desconcertante: Lessa, já quase um balzaquiano, se sente completamente desamparado, e não enxerga nem mesmo na polícia a possibilidade de uma resposta satisfatória à sua aflição. É muito triste.

Na medida em que a história está repercutindo na internet e provocando reações de solidariedade, surgem mais e mais histórias parecidas. Tanto os autores dos blogs como os visitantes que deixam comentários vão expondo experiências pessoais no mesmo sentido, e com isso percebemos que essas histórias estão longe de ser isoladas. Todos nós sofremos algum tipo de bullying, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos violenta, em pelo menos alguns ambientes que freqüentamos, em pelo menos algumas fases da vida. Ainda que com o tempo, mais resolvidos quanto à própria identidade e cansados de remar contra a maré, nós optemos por viver nossas vidas em uma bolha de conforto, na companhia de pessoas mais arejadas e civilizadas, e sejamos felizes assim, o mundo segue cruel - e a mentalidade dominante evolui a conta-gotas.

Sim, eu também sofri bullying na escola. Cresci sendo o pária da turma, aquele que passava o recreio isolado, para quem ninguém estendia a mão. Mas meu caso não foi de "bullying homofóbico", simplesmente porque, durante meus onze anos de colégio, não havia em mim nenhum traço, embrionário que fosse, de homossexualidade - ou de qualquer outra sexualidade. Eu era uma c-r-i-a-n-ç-a, mesmo. O típico menino ingênuo, puro, que não conseguia acompanhar a malícia dos coleguinhas, que vivia em seu mundo interior e só mais tarde começou a entender como as coisas eram fora dele. Mas que poderia muito bem ter crescido, perdido a timidez e até se casado com a gostosa da classe. Só fui acordar para a vida e trocar a esfiha pelo kibe mais tarde, já na faculdade.

Eu tinha, sim, algumas características que pesavam contra mim e que formavam um verdadeiro "kit impopularidade". Eu aprendi a ler e escrever sozinho, aos quatro anos, e também desenhava muito bem. Ser precoce tornou as coisas muito mais fáceis para mim durante as aulas (escreva com 'ss' ou 'ç'?! ah, por favor, né?) e muito mais difíceis nos intervalos, porque me fazia diferente dos demais e despertava o ódio e a inveja dos colegas ('isibido!', gostavam de rabiscar por cima dos meus desenhos feitos com tanto capricho). Com tanta hostilidade, eu não tinha nenhum estímulo para sair da minha redoma solitária, do meu mundo introspectivo de desenhos, redações e livros, e me misturar aos demais. Nem na hora das brincadeiras e esportes - demonstrações de força, coordenação motora e destreza física que sempre foram um estorvo pra mim. Para piorar, eu usava óculos, em uma idade em que isso era simplesmente inaceitável. Cresci com o carimbo de CDF e de cara mais uncool da turma.

Além do "kit impopularidade", outra característica que selou minha sorte na infância foi a dificuldade que sempre tive para me impor e, especialmente, colocar minha agressividade para fora. Isso é uma questão de sensibilidade, de temperamento mesmo; tudo bem que gays costumam ser mais sensíveis, mas acho que reduzir isso a uma homossexualidade latente seria de um simplismo extremo e absurdo. Sempre fui o tipo de cara pacífico, que precisa acumular muitas provocações até perder a paciência e explodir: isso é parte da minha índole, as pessoas que convivem comigo logo percebem, e algumas inclusive tentam se aproveitar disso. Foi de uns anos para cá que comecei a me educar para reagir mais, enfrentar mais, comprando até algumas brigas que poderia deixar de comprar, pelo simples exercício de não levar desaforo para casa. Há momentos em que é preciso exigir respeito e se impor - e isso também transcende a questão da sexualidade.

Mas há casos em que se impor é bem mais difícil - em especial quando o bullying adquire contornos de pura covardia, como na história de Jefferson Lessa, acuado por um grupo de delinquentes juvenis de classe média. Em nosso íntimo, achamos que seria bárbaro se Jefferson tirasse de dentro de si uma força improvável, se baixasse nele uma mistura de Jackie Chan com Lu Patinadora, e ele desse uma voadora poderosa no meio da fuça de um dos playboys do mal, e quebrasse o nariz do maldito em quatro pedaços, assim como todos os dentes da frente, para total choque dos demais, que perderiam a pose e sairiam correndo na mesma hora para nunca mais atacá-lo. Mas violência não se resolve com mais violência. Enquanto não vem de dentro da sociedade a tão esperada mudança de mentalidade, a tutela do Estado é fundamental para ajudar a garantir a ordem e proteger a integridade dos cidadãos.

E é aí, finalmente, que entra a questão da sexualidade. Nesse momento, a homofobia nos castiga duplamente. Primeiro: ela já nos torna alvos privilegiados do bullying, e aumenta, por si só, as chances de sermos constrangidos e até exterminados, como aconteceu recentemente com o garoto de São Gonçalo (RJ), assassinado por uma gangue pelo simples fato de parecer gay. E segundo: enquanto na escola a equipe pedagógica tem a possibilidade de interceder em favor do aluno molestado, a vítima do bullying homofóbico muitas vezes não tem a pedir proteção, porque as polícias são totalmente despreparadas para lidar com a diversidade sexual, isso quando elas mesmas não engrossam o coro do preconceito. Somos tão alijados de cidadania que até o socorro do Poder Público numa situação extrema nos é negado.

O desespero de Jefferson Lessa é totalmente compreensível. Mas se entregar não é a solução, muito menos abandonar o bairro, como ele chegou a falar em seu texto. Expor o problema, tirá-lo da invisibilidade, é um primeiro e importantíssimo passo. A mesma solidariedade que nós estamos tendo, mesmo sem conhecê-lo, ele poderá encontrar em outras pessoas, que se tornarão suas aliadas. É preciso botar a boca no trombone contra esse absurdo. Por mais capenga que seja a via policial, as autoridades terão que se deparar com o assunto e aprender a lidar com ele. Tem que fazer B.O. sim, até pedir proteção se for o caso. Não dá para engolir a seco e ficar enfrentando a barra sozinho. O bullying traz em sua raiz um desequilíbrio, e só somando forças para reverter esse desequilíbrio é possível dar fim ao pesadelo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Azul claro é a cor da esperança

Hoje nem era dia de postar, mas não dá para deixar passar em branco esse fato histórico importantíssimo, e que merece ser repetido e repostado e comemorado por todos os blogs das amigues, mesmo aqueles que só falam de boate: a Argentina aprovou o casamento gay! Ops, pera lá... casamento gay?! Mas "casamento" não é uma instituição religiosa, não é uma propriedade da Igreja Católica que não pode ser descaracterizada? Não será por isso que a questão não avança no Brasil: porque a militância defende o "casamento gay", expressão que contém em si um absurdo, pois equivaleria a abrir a porta da Catedral da Sé, ou da Igreja Nossa Senhora do Brasil, para que um macho barbudo, braçudo e maludo entrasse no templo vestido de noiva, com véu, grinalda e quem sabe algum adereço emprestado da Lady Gaga para arrematar o look?

De uma vez por todas: NÃO!

Existe o casamento como ritual religioso; aliás, a união entre duas pessoas é ritualizada em várias religiões, não apenas pela Igreja Católica Apostólica Romana. Mas casamento é também um instituto de direito civil, uma relação jurídica entre duas pessoas que, ao se unirem, assumem uma variedade de direitos e obrigações uma perante a outra. Que incluem os deveres recíprocos de respeito, assistência (inclusive financeira) e fidelidade, o direito a ter ou adotar filhos (e o respectivo dever de guardá-los, sustentá-los e educá-los), e também os direitos ligados à herança e sucessão do patrimônio.

Como qualquer outro instituto jurídico, o casamento civil é previsto e definido por uma lei. As leis que vigoram em boa parte dos países ocidentais (excetuando os anglo-saxões) são herança do antigo Direito Romano. Mas as sociedades mudam - e as leis, como produto social e reflexo dessas sociedades, também devem mudar para acompanhá-las (o que ocorre com maior ou menor velocidade, conforme o país). Todos os novos fenômenos sociais precisam de disciplina e proteção jurídica: para ficar num exemplo didático, a internet, que não existia há 30 anos, trouxe novas relações, novos problemas, novos crimes, e tudo isso precisa ser regulado por novas leis.

A definição clássica do casamento civil, cunhada em um período heterocentrista, contemplava apenas a união entre homem e mulher, consagrada na redação de boa parte dos códigos civis. Na medida em que a constituição das famílias passou a incluir formatos diferentes do modelo papai-mamãe-filhinhos, os ordenamentos foram evoluindo para também contemplar essas novas configurações: mães solteiras, famílias recombinadas pelos novos casamentos de pais divorciados... e casais do mesmo sexo. Assim, em alguns países, a atividade legislativa passou a rever a definição clássica de casamento, passando a permitir que esses novos casais desfrutassem das mesmas garantias (e responsabilidades!) dos casais heterossexuais. É "casamento gay" mesmo.

Foi exatamente isso que aconteceu nesta madrugada na Argentina: o Senado deles aprovou um projeto de lei que alterou a definição do casamento no Código Civil argentino, substituindo "homem e mulher" por "contraentes". Só falta a sanção de Cristina Kirchner - mas a presidente já se posicionou a favor da medida, ou seja, a vitória é dada como certa. Com isso, se desejarem, dois homens ou duas mulheres, em todo o território argentino, poderão se unir e usufruir dos mesmos direitos que qualquer outro casal teria, incluindo herança e adoção. Não parece algo tão simples, tão elementar? Sim, parece e é. E às vezes é difícil entender por que um direito tão básico é negado em tantos outros países, incluindo o Brasil. A Argentina foi o décimo país do mundo e o primeiro da América Latina a dar esse importante passo em direção à igualdade e à justiça.

Mas calma: antes de sair por aí falando que a Argentina é muuuito mais moderna, que eles estão aaaanos-luz à nossa frente, e blá blá blá, vamos olhar isso mais de perto? Não foi uma conquista de mão beijada. A vitória foi apertada, por 33 votos a 27, não sem ampla resistência dos setores mais reacionários da sociedade. Lá também existem lobbies religiosos, inclusive evangélicos, que se organizam e fazem barulho - a ponto de juntarem 50 mil pessoas numa passeata em frente ao Congresso, na véspera da votação. Lá também existem pessoas públicas que fazem discursos demagógicos, claramente mal-intencionados, para semear a intolerância. Mais ainda: o segundo maior jornal da Argentina, o conservador La Nación, passou os últimos dias em uma maciça campanha contra o casamento gay, publicando sucessivos editoriais e reportagens com argumentos pelos quais ele não deveria ser aprovado - tinha até fundamentos pretensamente "científicos", do tipo "estudos afirmam que crianças adotadas por casais gays podem ter depressão".

Vocês têm noção do que significa isso? É como se um jornal do tamanho do Estadão fizesse uma lavagem cerebral diária contra o avanço dos direitos gays. E no entanto... apesar disso... mesmo com a ofensiva do jornalzão... e com os lobbies dos religiosos... os direitos gays venceram. Isso deve servir para a gente ter a esperança de que um dia também chegará lá. Afinal, os problemas e obstáculos não são muito diferentes lá e cá. E o próprio efeito da decisão argentina aqui deve ser bem positivo, influenciando nossa opinião pública e, quem sabe, deixando os nossos políticos (cuja "consciência" só enxerga o lado eleitoral) mais à vontade para votar a favor dos nossos projetos. E olha que esses projetos - que falam apenas em união civil - são bem mais modestos e tímidos do que o argentino...

domingo, 9 de maio de 2010

Artilharia colorida

Ando meio sumido da blogosfera gay, mas não preciso ter bola de cristal para adivinhar que o assunto da semana será a reportagem de capa da Veja de hoje, que acabo de ler. Intitulada "Geração tolerância", a matéria afirma que a "rapaziada" que está vivendo a adolescência nos dias de hoje lida com a homossexualidade de forma bem mais natural. Os fofos e fofas se percebem gays com serenidade, o meio social já não os trata com diferença e, se o outing para os pais ainda causa um choque inicial, a transição para a aceitação tornou-se rápida e tranqüila. Por trás disso, estaria o desapego dessa geração a rótulos e tribos: a sexualidade deixa de ter um peso crucial na definição da identidade, dizendo tudo sobre a pessoa, e passa a ser apenas mais uma característica. Tudo do jeito que nós sempre achamos que tinha que ser.

À primeira vista, o tom otimista empolga e reconforta, mas nós sabemos que a vida ainda não é tão cor-de-rosa assim, nem mesmo nos grandes centros urbanos. Antes de sair por aí detonando o artigo, porém, é preciso considerar o tipo de veículo que o produziu. A função de revistas semanais como Veja e Época (que reproduzem o modelo consagrado pela norte-americana Time) é condensar os acontecimentos mais relevantes em um resumão que possa ser consumido por toda a família, do vestibulando ao casal idoso. Numa sociedade em que é preciso se atualizar o tempo todo, a ideia é suprir o homem moderno com o máximo de informação no mínimo tempo possível - como num fast food.

Se o desafio da Veja não é tão grande quanto o do Jornal Nacional - que, nas palavras politicamente incorretas do editor William Bonner, precisa falar com o "Homer Simpson do Brasil" - a revista tem que saber se comunicar com todo o vasto espectro da classe média brasileira, sua principal consumidora. E isso não é pouco. Na prática, para dar conta do recado, as matérias produzidas devem ser concisas, pasteurizadas e, em tese, neutras. Veja não é uma publicação segmentada, especializada, mas uma revista generalista, que atira para todos os lados, fala com todos os públicos, e portanto não tem espaço para se aprofundar, nem escrever com grande propriedade sobre os temas: ela é apenas uma porta de entrada.

Disso decorrem os furos e derrapadas que Veja dá aos olhos de quem busca nela uma visão de especialista. Para equacionar o binômio "concisão + público amplo", é preciso lançar mão de simplificações muitas vezes grosseiras. No caso específico da homossexualidade, isso redunda em visões e estereótipos que são palatáveis para o consumo da grande massa de leitores, mas não satisfazem quem já está mais familiarizado com o tema. Chamar os teens assumidos de "turma colorida" (argh, o Big Brother Brasil voltou!) ou colocar o casalzinho numa montagem fotográfica cafonérrima pintando um arco-íris na parede (tipo novela das seis com heroína infantil) são exemplos bastante ilustrativos. Dizer que "o objetivo número 1" dos participantes da parada gay de São Paulo na faixa dos 30 anos é "militar" (oi???) evidencia que quem escreveu o texto não só não tinha a menor intimidade com o assunto, como nem mesmo checou tal bobagem com algum colega gay da redação antes de publicar.

Isso não significa que a matéria da Veja seja um desastre. O simples fato de o assunto homossexualidade ganhar espaço de capa - de forma positiva - numa das publicações impressas mais influentes e vendidas do mundo já é digno de comemoração. Mais ainda: o amplo trânsito da revista junto às classes médias faz da reportagem uma grande aliada justamente onde o calo mais nos aperta. Veja pode não ser uma unanimidade absoluta, mas não há como questionar ou desprezar sua enorme capacidade de balizar mentalidades e formar opiniões. Ela pode determinar a escolha do presidente do país. Não é exagero dizer que a classe média vai aprovar o que a revista endossar.

Assim, embora a tchurminha suuuperfervida que estampou as páginas da reportagem com tanta dignidade ainda seja exceção, embora o preconceito ainda seja muito mais forte do que a revista está pintando, o Brasil precisa acreditar que ele está sendo superado, que ele deve ser encarado como coisa do passado, que as coisas mudaram. Isso ainda é uma meia-verdade, mas Veja está ajudando a transformá-la em verdade. Tenho certeza que o efeito-dominó da reportagem será formidável, com a homossexualidade sendo discutida onde não tinha espaço, e pessoas intransigentes pensando melhor sobre suas convicções. Na pior das hipóteses, na meia dúzia de famílias brasileiras em que o filho gay escolheu o dia das mães para sair do armário, essa reportagem não poderia ter vindo em melhor hora.

sábado, 16 de janeiro de 2010

A missão dos "coloridos"

Muitas pessoas consideram política e religião dois assuntos-tabu, que não se deve discutir socialmente, dado o risco de gerar polêmicas e melindres. Eu tenho cautela semelhante com o Big Brother Brasil, tema do qual sempre me esquivei, dentro e fora do blog. Apontar a mediocridade do programa, além de redundante como chutar cachorro morto, é um convite para o banimento social. BBB é como house tribal: pega mal falar mal. Para os interlocutores, é como se você quisesse passar recibo de esnobe, de pernóstico, dizendo que está muito acima do mau gosto da massa ignara, que prestigia algo tão pobre. Como seria preciso forçar a barra para falar algo positivo sobre o programa (cuja única contribuição para a sociedade é a safra anual de "ex-BBBs" que tentam a todo custo faturar uns trocados na mídia), é mais fácil ficar quieto e sorrir amarelo.

Desta vez, porém, a receita que borbulha no caldeirão de Pedro Bial tem um ingrediente novo, e que merece um comentário. A décima edição traz pelo menos três participantes homossexuais (esses são os assumidos). Para a produção do programa, é uma maneira de quebrar o marasmo, atrair o interesse do telespectador médio e ainda posar de amiga da "diversidade". Já no meio LGBTT, a novidade tem dividido opiniões. Isso porque a produção escalou figuras nada discretas: Dicesar, o maquiador que dá vida à conhecida drag Dimmy Kier, e Sérgio, o emo pintosérrimo que lhe desfere uma bitoca na imagem acima. Só a sapa Angélica parece fazer uma linha mais "baixos teores", por assim dizer. Enquanto alguns vibraram com a inclusão dos três candidatos, sustentando que isso seria um verdadeiro avanço para toda a classe, outros tantos se sentiram desconfortáveis, acreditando que a escolha de gays extravagantes só serviria para reforçar os estereótipos vigentes e perpetuar o preconceito. Confesso que eu mesmo tenho sentimentos ambíguos em relação ao assunto, e até consultei a opinião dos amigos via Facebook e Twitter, enquanto procurava refletir a respeito.

Vou começar saindo em defesa das pintosas. Reconheço que elas representam uma fatia pequena dentro do amplo espectro dos LGBTTs, e o público médio tende a generalizar essa referência, o que pode atrapalhar a assimilação dos homossexuais como um todo. Isso não quer dizer, porém, que essas pessoas não tenham o direito de aparecer e devam ser varridas para baixo do tapete: a sociedade precisa aprender a respeitar a todos, inclusive os afeminados, por mais tortuoso que seja o caminho até lá.

Além disso, como já escrevi no post sobre o "casamento gay" que foi televisionado em 2008, antes de apontar o dedo para as bichinhas, temos que lembrar que, muitas vezes, elas são as únicas que se dispõem a dar a cara a tapa por aí. É muito cômodo atacá-las à distância, dizendo que queimam o nosso filme e há exemplos melhores a se dar, sem jamais topar dar o exemplo no lugar delas. Muitos as condenam, mas poucos têm peito para assumir o ônus da exposição pública. Por isso, por menor que seja minha identificação com Sérgio e Dicesar, não posso deixar de aplaudir sua coragem - eles têm muito mais culhão do que os inúmeros "bofes de soja" que povoam o mundo (e o próprio BBB10), fingindo ser algo que não são.

O que me parece realmente importante, e isso nós temos que ter muito claro, é o que a Rede Globo quis ao selecionar esses fofos. Ao contrário do que a emissora carioca quer fazer parecer, e alguns incautos de plantão parecem ter acreditado, os propósitos em jogo nada têm a ver com inclusão social. Não esqueçamos que a Globo veda sistematicamente o beijo gay em suas novelas, alegando que essa imagem está abaixo de seu "padrão de qualidade". Por que no BBB o diretor Boninho avisou que pode? Porque a preocupação de um reality show, diferentemente do irmão "nobre" de grade que é a novela, não tem nenhum comprometimento com a qualidade: o que se busca é explorar o voyeurismo humano de forma grotesca, bizarra.

Nesse sentido, o eventual beijo entre homens não aparece de forma positiva, endossado pela emissora: ele se insere no mesmo contexto de outras tantas "baixarias reais" que surgem como subprodutos do confinamento, assim como banhos desinibidos de chuveiro, pegações embaixo do cobertor e barracos em geral. Os homos do BBB não foram chamados para dar lições de cidadania (tanto é que foram convenientemente colocados no grupo dos morde-fronhas "coloridos", ou seja, mantidos à margem da normalidade vigente), mas sim na esperança de agregar audiência a um formato que já começa a dar sinais de cansaço. Se rolar um babado forte e voar pena pra tudo quanto é lado, tanto melhor: instala-se uma polêmica, e o ibope sobe. Tudo isso de forma nada ameaçadora, já que os velhos estereótipos não são postos em xeque, evitando problemas para os segmentos mais conservadores.

Por isso, se eu não acho que a presença de gays pintosos no BBB10 seja um mal em si, algo de que todos devamos nos envergonhar, tampouco acho que existam razões para comemorar, como parece ter sido o tom de vários comentários deixados em sites gays. No fim das contas, os homossexuais não estão recebendo nenhuma dádiva do programa, mas trabalhando a serviço dele, como meras atrações do circo televisivo. Não se iludam, alices: se porventura Dicesar, Sérgio ou Angélica vencerem o jogo, isso não significará absolutamente nada, nada além de uma vitória individual para uma dessas pessoas. Não será um "passo à frente", nem haverá algo para o movimento gay comemorar: continuaremos sendo motivo de chacota, levando coió nas ruas, sendo sonegados em nossos direitos civis mais elementares. Big Brother Brasil não traz cidadania pra ninguém.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um caminho possível (para chegarmos lá)

Quando escrevo um texto como este, lamentando a alienação política e a apatia generalizada que tomaram conta do meio gay, não acho que esteja chovendo no molhado. Mesmo sem me considerar um formador de opinião, acredito que compartilhar essas reflexões pode levar outras pessoas a também pensar sobre o assunto. Não deixa de ser uma forma de fazer alguma coisa para tentar melhorar nossa situação. Por outro lado, não ignoro que esse tipo de iniciativa tem um impacto limitado. Muitos leitores até concordarão com o que eu digo, irão se sentir incomodados por alguns instantes, mas logo virá outro post para distraí-los, e a eventual indignação acabará evaporando sem que ninguém tire a bunda da cadeira. E assim ficamos.

Tenho pensado em outras maneiras de fazer a minha parte. Como é possível virar a mesa? Algumas pessoas são realmente acomodadas: aguardam a misericórdia da sociedade, e contentam-se em colher os frutos do que for plantado por outras pessoas. Mas sei que há gente que se importa e até gostaria de fazer algo, mas não sabe como.

"As bibas são individualistas", "está todo mundo entorpecido pela mídia", "a inclusão que importa hoje é a do consumo". Sim, essas constatações são todas verdadeiras. Se formos esperar que os 3 milhões de pessoas espremidos pela Avenida Paulista dêem as mãos e promovam uma mudança, estaremos ferrados. Seria lindo se toda a vasta comunidade LGBT se unisse, mas, sejamos realistas, isso possivelmente não vai acontecer. Não posso falar por todos, mas olho ao meu redor e vejo muito mais gente tirando o corpo fora do que se importando de verdade. Então, não há saída? Há sim, mas não dá mais para viver uma utopia, sonhar com uma união que parece cada vez mais distante. A esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais.

Mas por onde começar? Transformando palavras vagas e ideais abstratos em atos concretos, coisas que estejam ao alcance de cada um de nós. Nasceu aí minha ideia de fazer uma cartilha, uma lista de medidas exequíveis, palpáveis, realistas. Pequenas atitudes para cada um adotar no seu cotidiano, dentro de suas possibilidades individuais, que variam de uma pessoa para outra. São sugestões; ninguém precisa acatar todas elas, basta cumprir aquelas que estão mais próximas de sua realidade. Rodolfo, que é fortão, pode socorrer uma biba que está levando um coió ou sendo agredida; já Lucas, que é franzino, pode escrever uma manifestação de repúdio a um programa de TV homofóbico, e mandar para um jornal. Plínio, que é podre de rico e não suja as mãos nem com seu poodle, pode remanejar o valor de um jantar por mês para ajudar alguma ONG que auxilie travestis, soropositivos ou vítimas de preconceito. Todos nós podemos nos manter melhor informados sobre o mundo que nos cerca, e deixar de abaixar a cabeça quando vemos nossos direitos sendo preteridos.

A ideia é que cada um, sozinho, tome pequenas atitudes que transformem o mundinho ao seu redor, e assim ajudem a fazer a diferença. Eu faço aqui. Você faz aí. Eventualmente, os amigos dos amigos, que moram em Novo Hamburgo, Manaus ou Feira de Santana, se animarão também. Claro que nem todo mundo pode se dar ao luxo de sair do armário heroicamente e ser crucificado em seu círculo social. Mas cada um faz o que pode. E olha: tem coisa pra caramba que dá para fazer. Cada um no seu quadrado, podemos acabar gerando uma formidável corrente do bem. Pessoas comuns, anônimas ou não, entre seus amigos e familiares, fazendo um trabalho de formiguinha e multiplicando-o, semeando inclusão, promovendo cidadania e ajudando a enfraquecer o preconceito.

Para me ajudar na elaboração dessa cartilha, resolvi convidar mais cinco blogueiros (Gustavo, Cris, Daniel, BHY e Isadora) que, além de estarem entre os meus preferidos, têm uma visão crítica e que vai além dos muros da boate. Nem sempre estamos afinados com as mesmas opiniões, mas as divergências só vão enriquecer o resultado. Minha ideia é trabalharmos em cima disso pelos próximos 15 dias, até chegar a uma lista final com 50 itens. E publicar a cartilha em nossos blogs, na segunda-feira logo depois da Parada - quando todo mundo já "celebrou o orgulho" e está prontinho para esquecer a causa pelo resto do ano. Eu boto fé, e você? Sugestões serão sempre bem-vindas.

sábado, 16 de maio de 2009

Chorando sobre o Milk derramado

Um dos últimos filmes a que assisti antes desse recolhimento foi Milk, de Gus Van Sant, aquele em que Sean Penn reencarna o político e ativista gay Harvey Milk. Muito legal que a nossa geração tenha a chance de conhecer a história real de um líder que ousou remar contra a maré, quebrou paradigmas e enfrentou a mentalidade tacanha da sociedade americana dos anos 70 (não muito diferente da atual, como mostra a trágica Proposition 8). Segundo a última gerente de campanha de Harvey, Anne Kronenberg, "ele imaginou um mundo virtuoso dentro de sua cabeça e, em seguida, agiu para criá-lo de verdade, para todos nós". É um daqueles filmes que apertam uma tecla dentro de nós. E tem ainda o James Franco, que conseguiu ficar lindo de bigode, proeza que 80% dos mudernos de São Paulo jamais vai alcançar.

Ao mesmo tempo em que deixei o cinema tocado e inspirado, uma pergunta não saía da minha cabeça: onde foi que nós perdemos o bonde? Nos dias de hoje, a história de Harvey Milk soa romântica, quase utópica. Se vivesse no Brasil, ele seria tido como um sonhador excêntrico. O que aconteceu? Terá sido a repressão do regime militar, que promoveu o gradual esvaziamento do debate público e do engajamento político? Terá sido o bombardeio das mídias, que nos prostrou como idiotas na frente da TV e do computador, enquanto a vida passa lá fora? Estamos desconectados de tudo o que não diga respeito ao nosso emprego, ao nosso corpo, ao nosso umbigo. Nestes tempos tão individualistas, com cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha, quantos de nós teriam a disposição de se sacrificar, de fazer sua parte por um mundo menos homofóbico, como o ativista Milk?

Pelo visto, muito poucos. Nem para atitudes mínimas temos braços e pernas. A campanha Não Homofobia, abaixo-assinado virtual para a aprovação do Projeto de Lei 122, que criminaliza manifestações de homofobia, conseguiu míseras 40 mil assinaturas. How come?! É tão fácil, não tem que pegar fila nem tomar chuva, basta clicar e pedir para os conhecidos espalharem! Se não engrossarmos o coro, a ignorância evangélica sempre falará mais alto e selará nosso destino (e nossos projetos jamais serão aprovados). O governo federal acaba de aprovar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania LGBT, com 51 diretrizes importantíssimas da nossa agenda, desde combate à discriminação no trabalho até reconhecimento da união homoafetiva para fins sucessórios e previdenciários. Você teve a curiosidade de ir atrás e saber algo a respeito? O certo seria acompanharmos os acontecimentos políticos em geral, que afetam o destino de todos os brasileiros, mas nem quando a discussão "é com a gente" nós conseguimos nos interessar.

Será que um futuro mais digno nos aguarda? Será que um dia vamos olhar para trás, e estes tempos de trevas que nos oprimem serão um passado tão irreal e absurdo quanto a perseguição aos judeus, o "endireitamento" das crianças canhotas ou o tabu em torno das mulheres divorciadas? A mentalidade brasileira vai mesmo evoluir, as pessoas que patrulham a existência alheia vão aprender a cuidar da própria vida, a orientação sexual de cada um vai deixar de ser um entrave ao exercício da cidadania plena? As novas gerações serão, de fato, mais tolerantes à diversidade? Linchar gays no meio da rua será considerado algo tão medieval como queimar cientistas na fogueira?

Talvez. Pode ser que sim. Mas para isso é preciso um breakthrough, um choque de mentalidade que precipite essa evolução que hoje acontece preguiçosa, em passo de formiguinha. E eu não vejo de onde pode partir esse choque, pelo menos não entre nós, que deveríamos ser os principais interessados. Mais uma Parada do Orgulho LGBT está chegando, ganharemos visibilidade internacional por preciosos instantes e, de Salvador a Porto Alegre, tudo o que preocupa as participativas bilus é saber a programação das festas e ficar com o corpinho em dia para não fazer feio na pista.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Trabalhador vítima de preconceito conquista direito a uma indenização milionária

Ao entrar em uma agência do Bradesco na Av. Antônio Carlos Magalhães, uma das principais da cidade de Salvador, o gerente Antônio Ferreira dos Santos, que completava 20 anos de carreira no banco em 2004, foi surpreendido por uma carta: "O senhor está demitido por justa causa por motivo de desídia, indisciplina e ato de improbidade". Indignado, recorreu à Justiça, o que resultou na maior indenização trabalhista envolvendo uma vítima de assédio moral já concedida pela Justiça brasileira, e na primeira condenação do Tribunal Superior do Trabalho (TST) por uma demissão imotivada envolvendo preconceito por conta da orientação sexual do trabalhador.

Os ministros da segunda turma do Tribunal garantiram a Santos uma indenização de R$ 1,3 milhão. Até então, a maior indenização por assédio moral de que se tinha notícia no país havia sido de R$ 1 milhão, contra a Ambev, mas em uma ação civil pública em benefício de vários trabalhadores, e que foi resolvida por acordo nas instâncias inferiores, sem chegar ao TST.

Na Justiça do Trabalho, o assédio moral é caracterizado por atos repetidos de violência moral e tortura psíquica e pela intenção de degradar as condições de trabalho do empregado. Os motivos vão desde a pressão pelo cumprimento de metas, especialmente na área de vendas, até humilhações constantes pela opção política do empregado ou por ser portador do vírus HIV, por exemplo. Geralmente, os valores das indenizações em processos individuais variam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, majorados conforme o tempo do contrato de trabalho em questão.

No caso julgado agora pelo TST, o gerente do banco começou sua carreira no Baneb, incorporado em 1999 pelo Bradesco, e estava na instituição há 20 anos. Segundo ele, o assédio moral ocorreu durante os últimos cinco anos de trabalho na agência, até 2004, ano em que a ação foi ajuizada. "Foram os piores anos da minha vida", diz Santos. O gerente relatou à 24ª Vara do Trabalho de Salvador diversos episódios de preconceito sofridos por conta da atitude de um diretor regional do Bradesco que, segundo ele, frequentemente o expunha a constrangimentos públicos - por exemplo, sugerindo que ele utilizasse o banheiro feminino da agência ou dizendo, em público, que o banco "não era lugar de viado".

Após ouvir três testemunhas, a primeira instância considerou que foi colocado em prática um ato típico da Inquisição, que a história já conhece e abomina, e que a empresa deveria arcar com as consequências. Caracterizado o assédio, foi fixada uma indenização de R$ 916 mil, por danos morais (pela humilhação) e materiais (porque, ao ter sido dispensado por justa causa por improbidade administrativa, o trabalhador teve dificuldade de conseguir novo emprego). "A justa causa foi uma forma de camuflar o preconceito", diz o advogado Bruno Galiano, do escritório Cedraz & Tourinho Dantas, que defende o trabalhador.

O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (Bahia) concluiu que a demissão foi discriminatória, mas reduziu o valor da indenização para R$ 200 mil. A disputa chegou ao TST em 2006, cabendo aos ministros decidir se a Lei nº 9.029/95, que quantifica o valor das indenizações em razão de demissões arbitrárias, poderia ser utilizada no caso. Essa lei prevê indenização no caso de preconceito por "sexo" e até então só havia sido usada em casos de discriminação de mulheres no trabalho. Para o ministro Renato de Lacerda Paiva, a lei não surgiu para limitar os motivos da discriminação: outros motivos, como o preconceito por antecedentes criminais, falta de boa aparência e opção política não estão nas normas, e não deixam de ser discriminação.

Os ministros consideraram ainda determinações das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e princípios constitucionais de igualdade e dignidade. A possibilidade de uso da Lei nº 9.029 aumentou a indenização. Isso porque a norma oferece duas opções ao trabalhador demitido por discriminação: a reintegração no cargo ou a condenação da empresa ao pagamento do dobro de seu salário desde o ajuizamento da ação até o trânsito em julgado da sentença, com correção monetária. No caso de Santos, que recebia em torno de R$ 5 mil, a quantia total da indenização por danos somada à condenação pela Lei nº 9.029 já alcança R$ 1,3 milhão. Ainda cabem recursos ao próprio TST e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, se o banco recorrer e perder, o retardamento do processo pode levar a uma indenização ainda maior.

[Matéria publicada hoje no Valor Econômico; a autora é Luiza de Carvalho. Postei aqui porque acho que essas vitórias merecem ser comemoradas e divulgadas!]

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Doritos, boás e purpurina

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) determinou ontem a suspensão da veiculação daquele malfadado comercial do salgadinho Doritos, em que um adolescente era gongado por fazer a dancinha de "YMCA". A propaganda foi considerada ofensiva aos homossexuais, na avaliação dos conselheiros de ética da entidade, que votaram, em sua maioria, pelo pedido de sustação do filme. Na época do bafafá, a fabricante PepsiCo afirmou que a peça "não faz nenhuma menção ao homossexualismo" e "respeito, compartilhamento e inclusão são valores indispensáveis para a empresa", em uma nota que não poderia ter sido mais chapa-branca. Agora, ao invés de deixar a poeira baixar sobre o episódio, a empresa irá recorrer da decisão.

Não vou entrar no mérito da propaganda (o que, a esta altura do campeonato, seria como chutar cachorro morto). O que chamou a minha atenção foi que, enquanto os gays se indignaram, os héteros não conseguiram enxergar preconceito algum na peça publicitária. Nos sites AdNews e Clube Online, dirigidos a publicitários, a notícia da suspensão do comercial foi recebida com reprovação. "Ridículo! está acontecendo uma verdadeiro exagero, questiono a capacidade dos profissionais deste conselho em avaliar as queixas", "preconceituoso é quem enxerga a polêmica, a propaganda é ótima", "as reclamações vieram de pessoas que não têm um mínimo de senso de humor, esse é o único comercial que eu paro pra assistir", "obviamente é uma brincadeira sem maldade".

De fato, a grande massa heterossexual não vê nenhuma maldade em se fazer piada com os gays. É uma questão de mentalidade. Ridicularizar os negros é moralmente reprovável, com o racismo sendo alçado ao status de crime (até mesmo hediondo, para alguns), mas os homossexuais não merecem o mesmo veredito quando a violência é dirigida a eles. A referência projetada socialmente - gays são pessoas caricatas, inofensivas, brincalhonas, que não se deve levar a sério - reforça a idéia de que achincalhá-los é normal e plenamente aceitável. A participação de Silvetty Montilla no último Toma Lá Dá Cá, na Rede Globo não me deixa mentir. Que mal há em rir das bichas? É tudo brincadeira! Não me surpreende que o jornal carioca Meia Hora tenha noticiado a morte do estilista Clodovil com a manchete "virou purpurina". Afinal, somos todos alegres e divertidos, não é mesmo? Como gostam de escrever os héteros, "kkkk".

sábado, 7 de março de 2009

A morte não vale a pena

Depois de crimes chocantes como os do menino João Hélio e do músico Marcelo Yuka, nesta semana nos chocamos com mais um perturbador episódio de violência gratuita. Ao sair de um restaurante na Lagoa, área nobre do Rio de Janeiro, um casal foi abordado por um grupo de assaltantes armados. Mesmo sem esboçar qualquer tipo de resistência (o que tampouco seria uma justificativa), as vítimas foram levadas em seu carro até a Av. Niemeyer e empurradas do alto do precipício. Só não morreram porque, por sorte, tiveram onde se segurar no trecho do barranco em que foram jogados [para quem não tomou conhecimento do caso, mais detalhes aqui e aqui].

No calor da indignação que um crime como esse provoca, a pena de morte pode parecer uma solução tentadora. Nas cadeias superlotadas, criaturas capazes de tamanhas atrocidades, além não se regenerarem, oneram os cofres do Estado e ainda influenciam presos menos perigosos. Se não arquitetarem com os comparsas soltos alguma fuga cinematográfica, serão liberados para passar o Natal com a família e, provavelmente, cometerão novos crimes (o indulto pode ser uma bênção para eles, mas também é um pesadelo para a sociedade). Melhor proteger os cidadãos de bem e se livrar logo desse lixo tão maldito. Se possível, sem enrolação: às favas com o devido processo legal, afinal monstros não têm direitos humanos. Aos poucos, a gente vai limpando a casa.

Mas a coisa não é tão simples. Quem pensa assim não vê os problemas em que essa solução aparentemente eficaz esbarraria. O mais óbvio deles é a irreversibilidade de uma pena que também pode eliminar inocentes: gente incriminada em ciladas forjadas por outras pessoas (bandidos ou policiais), ou mesmo vítimas das trapalhadas do próprio aparelho estatal (que prende pessoas por engano e depois tem que indenizá-las). Depois que o sujeito já cantou pra subir, meu chapa, não adianta mais reparar a injustiça.

Haveria, também, um efeito colateral ainda mais pernicioso. Hoje em dia, os criminosos já são inconseqüentes e insensíveis; com a pena capital, teriam a certeza de que acabariam sendo executados, e aí sim sentiriam que não têm mais nada a perder. Com a própria vida valendo tão pouco, qualquer resquício de consideração que eles ainda tivessem pelas vítimas - freqüentemente vistas como culpadas, como os "bacanas" que têm o que eles não puderam ter - iria pro brejo. Eu vou morrer mesmo, então por que te daria uma chance? E assim viveríamos num verdadeiro faroeste, e sem direito a galã.

É compreensível que a barbaridade diante de tantos crimes estúpidos nos cause revolta e desejo de vingança - todos nós sentimos uma estranha compensação quando vemos na TV que os bandidos foram mortos. Mas temos que acreditar que não é com mais desumanidade que uma sociedade desumana melhora. A classe média acha que matar o bandido resolve, mas o buraco é mais embaixo. Se a lógica do sistema que alimenta a desigualdade social não for transformada, novas levas de criminosos virão, e não haverá paredão que resolva. E viveremos ainda mais acuados.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Madrinha do pau oco

No post do dia 7 de setembro, sobre o fiasco do DJ Junior Vasquez na TW, eu disse que brasileiro tem falta de memória e insiste nos mesmos erros, "vide pessoas do naipe de Maluf, Collor e Marta passando óleo de peroba e apelando à boa vontade do povo para pedir uma nova chance". Batata: foi só alfinetar a "madrinha dos gays" que choveram hate comments defendendo a dita cuja e o PT. Ri por dentro e nem me dei ao trabalho de rebatê-los, porque sei que a História sempre se encarrega de dizer quem tem razão.

E até que dessa vez a História veio a cavalo, rápido demais. Marta tratou de mostrar que essa bandeira de defensora da diversidade não passa de mera demagogia para conseguir votos de eleitores incautos, que escolhem seus candidatos com base em rótulos e aparências, como eu também já comentei aqui. Na tentativa desesperada de reverter a desvantagem nas urnas perante Kassab, o vídeo de sua campanha que faz uma insinuação velada sobre a sexualidade do adversário para tentar desqualificá-lo foi um verdadeiro tiro no pé. Ficou tão chato para ela que até alguns petistas se constrangeram - o comitê LGBT do partido divulgou nota reconhecendo que "esse tipo de crítica é moralista e preconceituosa, pois reforça a heteronormatividade (que considera aceitável apenas a heterossexualidade) ao insinuar que só será um bom gestor público aquele/a que tem cônjuge e filhos".

O mais engraçado é que, em recente sabatina realizada por jornalistas da Folha, a mesma Marta se irritou quando foi perguntada sobre sua separação e respondeu que não falaria sobre sua vida pessoal. E também disse que desconhecia o tal vídeo. O que não é de se admirar, afinal o CorruPT nunca sabe de nada que se passa debaixo do próprio nariz, não é mesmo? Lula que o diga. Se essa senhora não tem controle nem sobre os vídeos da própria campanha, o que dirá sobre os mandos e desmandos realizados pelos seus secretários?

É... São Paulo está mesmo num mato sem cachorro. A mim, resta tirar o chapéu para o Rio que tem o Gabeira!

domingo, 5 de outubro de 2008

Uni-duni-tê: quem será o novo síndico do Autorama?

Às vésperas das eleições municipais, a "comunidade GLBTT" (tenho minhas dúvidas se é possível juntar grupos tão díspares sob o mesmo guarda-chuva, mas enfim) se vê diante da necessidade de se posicionar e tenta dar conta da missão como pode. A escolha do voto, como se sabe, é a materialização da postura política de cada um, o resultado de seu engajamento ou sua alienação. Enquanto uns dedicam atenção ao assunto e procuram se manter informados, outros não acham nem que sim nem que não, muito pelo contrário, e juram que está bom assim. Mas dentro de algumas horas todos serão obrigados a influenciar o destino de seus conterrâneos.

E daí que eu tenho ficado abismado ao ver que uma parte substancial da bibarada está decidindo seu voto com base em rótulos, que dizem pouco ou nada sobre os candidatos e em alguns casos escondem armadilhas. Marta é a "rainha dos gays", Alckmin é o "picolé de chuchu", Kassab é o "enrustido" e Soninha é a "maconheira". E pronto, é isso, estamos conversados! Como é que o desempate de uma questão tão séria se faz em bases tão superficiais? Ah, tem também o Maluf, o "rouba mas faz, estupra mas não mata", eu tinha até esquecido dele.

Além de terem pouca ou nenhuma informação sobre o histórico pessoal, a carreira política e as realizações passadas dos candidatos, outro pecado de muitos gays é ver a questão com a habitual miopia do gueto, como se estivéssemos prestes a eleger o síndico do Autorama e não o governante de onze milhões de pessoas. Simpatia pela causa gay é bem-vinda - a promoção da diversidade, o combate à homofobia, a educação das polícias e o apoio à Parada são todas bandeiras importantes - mas o que está em jogo é muito mais do que isso. São Paulo vai muito além dos nossos umbigos. Ainda que alguns de nós só consigam enxergar até o muro da boate.

Mais do que eleger quem conseguir parecer mais gay friendly (o site ACapa e o blog Bota Dentro fizeram entrevistas com os candidatos e, vejam só, da noite para o dia todos viraram "íntimos de oliveira" das questões glbtt), temos que escolher quem tem preparo, idoneidade e boas companhias para gerir os recursos públicos, tomar decisões complexas e resolver os problemas da cidade de forma ética e responsável. Alguém que se preocupe com a precariedade da saúde pública municipal, não alguém que dá tchauzinho para as bees de cima do trio elétrico mas transforma cargos públicos em cabides, substituindo técnicos competentes por gente despreparada de sua corja.

Antes de dar seu veredito pessoal, reflita. Tirando a ex-VJ da MTV, todos os candidatos já estiveram no poder e deram exemplos concretos de sua forma de governar e fazer política. Mire-se neles. Como você avalia o seu candidato, do ponto de vista ético? Qual sua trajetória pessoal recente? Ele parece preparado para exercer a função que lhe será confiada? Tem um plano de governo coerente? O que propõe de concreto e novo? Você ficou satisfeito com o governo anterior do seu candidato? Considera que a cidade esteve bem cuidada? E os serviços públicos? O que foi feito pelo seu bairro, pela cidade que você efetivamente usufrui? Vale a pena repetir a experiência?

Não se esqueça de que você está escolhendo não apenas uma pessoa, mas um partido inteiro, um pacote completo que virá de brinde com o eleito e tomará conta da administração da cidade, se infiltrará nas secretarias, fará mandos e desmandos. Você confia no partido do seu candidato, considera-o íntegro, honesto, ou ele já esteve envolvido em tramóias que mancharam sua reputação? Vote com seriedade. Não dá para lavar as mãos: a responsabilidade da escolha é de todos nós.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Cortina de fumaça rosa

E a história do casal de sargentos que resolveu assumir sua homossexualidade para o Brasil continua rendendo. Depois que a revista Época com a "bombástica revelação" ganhou as bancas de todo o país, Laci Marinho de Araújo e Fernando Alcântara de Figueiredo foram fazer barulho no programa da Luciana Gimenez (sempre ela!). Resultado: o Exército cercou os estúdios da Rede TV! em Barueri e Laci saiu de lá preso.

Como era de se esperar, a reviravolta quase folhetinesca que a prisão de Laci representa no caso só serviu para jogar mais lenha na fogueira da opinião pública. Nas ruas e na internet, o bafão está na boca do povo. A ala homofóbica usou o tom habitual: isso é uma pouca-vergonha, uma safadeza, onde o Brasil vai parar desse jeito, Deus criou o homem e a mulher para procriarem e povoarem o mundo. Já para os simpatizantes e militantes de plantão, o episódio virou questão de honra: os sargentos estariam sendo perseguidos porque assumiram sua orientação sexual, numa condenável manifestação de preconceito. E tome defesas inflamadas do direito dos gays servirem às Forças Armadas, porque o mundo evoluiu, porque os gays têm os mesmos méritos e estão em todos os lugares e blá blá blá. Não é preciso ser nenhum gênio para concluir que é justamente isso que Laci e Fernando queriam ao abrir o berreiro na mídia: deixar que a sociedade deslocasse o foco da discussão para a questão do preconceito, criando uma cortina de fumaça rosa sobre o verdadeiro problema.

Segundo a nota oficial divulgada pelo Exército, Laci afastou-se do trabalho por seis meses, alegando problemas de saúde. Na sindicância aberta para apurar sua situação, ele teria deixado de apresentar laudos e se recusado a receber os médicos enviados para fazer uma perícia - o que significa dizer que os alegados problemas não foram comprovados. Laci foi então transferido de Brasília para Osasco, mas não compareceu ao novo posto. Sem uma justificativa concreta, seu afastamento foi considerado irregular, caracterizando o crime de deserção. Foi por esse delito que Laci foi preso.

Em sua defesa, Laci acusa o Exército de ter forjado provas para prendê-lo e diz que sofre de um "transtorno emocional grave". O militar afirma ainda que começou a ser perseguido quando descobriram que ele fazia shows como cover da cantora Cássia Eller, e que as coisas pioraram quando o casal fez denúncias de corrupção e irregularidades envolvendo o hospital militar onde Laci estava lotado. No programa de Luciana Gimenez, ele disse que temia ser vítima de "queima de arquivo".

Não tenho a menor pretensão de fazer pré-julgamentos ou especular se o rapaz está ou não falando a verdade. Quem tem que apurar a eventual culpa do sargento (e as denúncias que ele diz ter feito) são as instâncias competentes. O que me chamou a atenção foi que um grande número de pessoas "comprou" a inocência de Laci automaticamente, como se o simples fato de ele ser gay funcionasse como uma presunção de que ele é a vítima da história.

Por que ninguém questiona quais os motivos que o levaram a se assumir publicamente nesse momento, ainda mais num programa como o SuperPop? Ora, ele mesmo admitiu à revista Época que os dois vivem "como um casal normal", no mesmo apartamento funcional, há dez anos. Se isso já vem há tanto tempo, tudo indica que sua condição sempre foi de conhecimento de todos e nunca chegou a causar problemas para eles. A troco de quê Laci decide declarar sua situação ao mundo logo agora?

Ele pode estar sendo perseguido, sim - mas pode também ter inventado os tais problemas de saúde (por que outra razão se recusaria a ser examinado? se as doenças fossem comprovadas, ele poderia se aposentar sem perder seus rendimentos) e deixado de acatar a transferência para não se separar do marido. Nesse caso, armando um espetáculo acerca de sua sexualidade, ele tira os holofotes de cima do que deveria estar sendo examinado: se suas condutas infringiram ou não a lei militar. A revista Época agradece pelo furo de reportagem.

Não há dúvidas de que gays são capazes de atuar nas Forças Armadas com a mesma competência e bravura que os héteros. A própria matéria de Época lembra que homossexuais como Júlio César e Alexandre, O Grande, estiveram à frente de exércitos quase invencíveis. Mas não é essa a questão em jogo aqui. Como romântico incorrigível e entusiasta do amor entre iguais, torço para que Laci e Fernando não sejam separados pelas circunstâncias. Mas não se pode abrir mão da cautela e do bom senso para proteger os gays com simplificações grosseiras. Quem descumpre as normas deve sofrer as conseqüências dos seus atos, qualquer que seja sua sexualidade. Vamos deixar que as investigações apurem o caso - e parar de tratar Laci e Fernando como mártires, só porque são gays. Ser gay não torna ninguém um herói. Gays podem ser íntegros ou truqueiros - como todos os demais seres humanos.

domingo, 18 de maio de 2008

Cris, Geni e o Zepelim

Quando abriu seu primeiro blog, Uomini, Cris escolheu um caminho diferente da maioria de seus colegas. Longe de querer ser espirituoso, descolado ou formador de opiniões, o rapaz expunha, sem rodeios, suas andanças pelos points de libertinagem da cidade. Suas experiências eram relatadas de forma bem livre e desinibida, às vezes acompanhadas de pequenos registros fotográficos. Cris arrebanhou uma legião de leitores fiéis, depois cansou, parou de escrever e, recentemente, reativou seu endereço. Nesses tempos de contagem regressiva para a Parada, onde blogueiros e iniciados dão suas dicas de São Paulo para o mundo, Cris também quis dar sua contribuição: abriu um segundo blog, dedicado exclusivamente aos endereços de pegação na cidade.

Esse novo blog é um verdadeiro mergulho no submundo do sexo em São Paulo. O roteiro vai muito além dos endereços freqüentados pelas ditas "finas e bonitas dos Jardins", como a sauna 269 e o bar Station: vasculha os antros mais humildes do Centro da cidade, onde jovens michês se oferecem nas imediações da Praça da República e homens rústicos e travestis perambulam pelos corredores ermos dos cinemas pornôs. Como não poderia deixar de ser, Cris faz comentários sobre cada lugar com a franqueza habitual, pouco se preocupando com o que vão pensar dele.

Se no primeiro blog, que misturava sexo a outros assuntos mais amenos (arte, arquitetura, vida urbana), Cris já dividia opiniões, nesse novo endereço as reações do público têm sido ainda maiores. Em apenas três dias, Cris recebeu mais de 2000 visitas - sem ter feito qualquer outra forma de divulgação, além de um singelo post no primeiro blog (que continua ativo). Quando o picante roteiro virou notícia no site gay A Capa, a audiência deu um salto - e, com ela, os comentários dos leitores.

A maioria deles aplaudiu Cris. “Genial a idéia”, “valeu a iniciativa, dicas iradas”, “parabéns, o guia é muito interessante, autêntico e pessoal”, “você é uma das pessoas mais originais das quais eu já li um blog”, “discurso popular, sem mentiras e sem iludir o turista”, “com certeza levarei uma cópia desses points”, “é a lista que todo mundo queria ter, mas tinha vergonha de dizer”, “que ótimo, estou cansado dos guias oficiais, em geral muito mentirosos, já quebrei a cara várias vezes”, “ você descobriu o mapa da mina, esta é uma das melhores idéias do mundo gay”, “o seu serviço é de utilidade pública!”, e por aí vai.

Por outro lado, algumas reações contrárias surpreendem pela sua virulência. “Agora você mostrou direitinho o papel do gay na sociedade. Eu sou gay e tenho vergonha por gente dessa laia igual à sua, um bando de pervertido que só sabem e pensam com o pau e a bunda. Depois vocês ficam todos revoltados porque não conseguem lei pra defender os gays, e nunca irão conseguir! Um pouco de caráter não faz mal a ninguém, e muito menos de valorização”, esbravejou um leitor. “Você é do mal! Eu teria vergonha de dizer que esses lugares existem”, disse outro. “Que nojo! Vocês são todos mesmo nojentos, só buscam sexo. Cada dia que passo, tenho mais repulsa a isso. É lamentável!", exclamou mais um. “Essa bicha ainda será 'secretina' do turismo das bibas pobres de Sampa”, ironizou outro, enquanto o sangue azul corria em suas veias. E uma pérola com sabor fascista: “Só tem lugar freqüentado por bichinha podre aqui. Mas é melhor que elas fiquem todas nos seus lugares! Então essa iniciativa foi perfeita: cada um fica na sua”.

Esse festival de recalque e preconceitos me lembrou a música "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque, que fez parte da peça Ópera do Malandro. A letra conta a história de Geni, uma prostituta que "dá para qualquer um" e, por isso, é desprezada pelos supostos cidadãos de bem. Um belo dia, um militar poderoso surge num zepelim e ameaça bombardear a cidade, mas cai de amores por Geni e promete poupar o lugar se ela dormir com ele. Geni reluta, mas a população implora e ela atende. O poderoso se esbalda nas suas carnes a noite inteira e parte ao amanhecer, salvando a cidade da destruição; quando Geni, crente que agora tinha o respeito de todos, se prepara para dormir, começa a gritaria: "Joga pedra na Geni!".

Não bastasse serem discriminados pelo resto da sociedade, os gays ainda segregam-se uns aos outros, desenhando um cenário de preconceitos e julgamentos em que existem bichas superiores e inferiores. No nosso mundinho, quem tem coragem de destoar de padrões impostos e assumir seus desejos sem hipocrisia se candidata a ser apedrejado, como a próxima Geni da história.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Parada: ir ou não ir à Paulista?

A Parada Gay de São Paulo está vivendo um momento bastante peculiar. Depois de levar mais de 3 milhões de pessoas à Paulista em 2007, num evento caótico onde sobraram queixas de roubos, furtos e agressões, ela perdeu prestígio justamente entre a parcela do público que deveria ser sua principal protagonista. Um sintoma disso é a ausência das boates gays, como observou o jornal O Estado de S. Paulo (esse fato também deve ter outras explicações, como os altos custos de participação impostos aos clubes pelos organizadores do evento, mas não vou entrar nesse mérito aqui). A lista dos trios é quase totalmente formada por carros de ONGs e sites de relacionamentos.

Se antigamente terminar o feriado marchando sobre a Paulista era praticamente obrigatório, hoje esse programa está longe de ser uma unanimidade. Enquanto uns dizem, categóricos, que "essa Parada não me pega nunca mais", lembrando o desconforto das últimas edições, outros lembram que esse ato é, acima de tudo, uma manifestação de cidadania, que deve ter seu verdadeiro propósito resgatado. Como não cabe a mim ditar aos leitores o que eles devem fazer, preferi bancar o "advogado do diabo" e dar razões concretas para que cada um tome a sua própria decisão. Vamos a elas:

4 RAZÕES PARA VOCÊ 'FAZER A EGÍPCIA' E PASSAR BEM LONGE DA PAULISTA:

1) A Avenida Paulista está toda em obras, para a substituição das deterioradas calçadas de pedras portuguesas por blocos de concreto. Há inclusive trechos com interdições parciais dos dois lados da via. Se normalmente o excesso de gente já gerava transtornos e empurra-empurra, com o espaço reduzido pelos canteiros de obras a circulação deve beirar o insuportável.

2) Como já foi dito, nenhuma boate gay terá carros na Parada. E a The Week, não satisfeita em deixar de participar, ainda resolveu fazer uma grande festa justo no domingo à tarde. Resultado: se nos outros anos a quantidade de gente feia já era considerável, sem as "bunitas" desfilando provavelmente só vai ter dragão na rua.

3) Na última edição da Parada, os roubos e furtos não foram brincadeira. A situação estava completamente fora de controle: como os policiais foram colocados apenas nas laterais (como se estivessem lá para proteger os prédios e não os participantes do ato), não tinham como ver o que estava acontecendo na muvuca, justamente onde os crimes mais aconteciam.

4) A Parada deixou de ser uma manifestação pela causa gay e virou uma festa de rua esvaziada de sentido, palco de arruaceiros interessados apenas em confusão e baixaria. Em meio à apelação barata e às aberrações, fica até difícil falar em direitos civis ou orgulho gay - é esse o recado que temos a passar para o resto da sociedade?

4 RAZÕES PARA VOCÊ DEIXAR DE SER BESTA E IR À PARADA, SIM:

1) Temos que lembrar que a manutenção da Parada na Paulista foi uma conquista suada da Associação. Diversos setores da sociedade pressionaram para que ela fosse transferida para lugares "mortos" como a Avenida 23 de Maio - o que, além de dificultar o acesso dos participantes, seria como varrer a Parada para baixo do tapete, tirando toda a sua visibilidade. É preciso valorizar esse esforço.

2) A Nova Pool Party da The Week só começa às 15h e não deve começar a decolar antes das 17h ou 18h. É perfeitamente possível conciliar as duas coisas, já que a Parada começa às 12h em frente ao MASP. Dá para pegar pelo menos metade do ato (que termina às 19h30), antes de dar um olé na multidão, entrar no metrô e chegar rapidinho ao Clube de Regatas Tietê.

3) A organização da Parada promete uma estrutura muito melhor, para dar conta dos problemas de segurança. Foi feito um acordo com a Polícia Militar, que colocará seus homens misturados na multidão, e não apenas nas bordas. O efetivo policial será de 1000 policiais militares e 200 homens da Guarda Civil Metropolitana. Desses 1200 machos fardados, é razoável esperar que pelo menos uns 150 sejam apetitosos.

4) Se a Parada foi desvirtuada, não é abandonando o evento que isso vai mudar. É incoerente que um grupo que levanta a bandeira da inclusão social não seja tolerante com a participação de outras camadas da população - afinal, a parada ocupa um importante espaço público, trazendo inclusive transtornos à vida da cidade como um todo. Além disso, a Parada só passará a ter outro sentido se nós reassumirmos o que é nosso e fizermos a Parada que gostaríamos de ter.

terça-feira, 15 de abril de 2008

É por isso que brigamos

Uma das bandeiras mais importantes carregadas pelo movimento homossexual no Brasil é o que a mídia chama, com muita impropriedade, de "casamento gay". Impropriedade porque isso dá a falsa impressão de que o que os gays querem é subverter um ritual da Igreja Católica (o casamento), o que significaria uma profusão de noivos barbados entrando de véu e grinalda pelas portas de igrejas mundo afora, go-go boys cobertos de óleo marchando sobre o Vaticano, e por aí vai. Obviamente, a definição de casamento não comporta esse tipo de distorção, e por isso vemos um monte de autoridades religiosas dizendo na TV que isso não pode, isso não existe, que segundo a Bíblia o homem só se casa com a mulher e coisas do tipo. Se eles estão certos nisso (afinal, como vimos, a heterossexualidade está na raiz desse ritual católico que é o casamento), por outro lado não conseguem enxergar que o verdadeiro sentido da nossa luta não é esse. E que esse desvirtuamento só atrapalha a discussão.

Se alguns casais sentem a necessidade de coroar sua união em cerimônias simbólicas neste ou naquele estilo (como a que discutimos no post anterior), o que a esmagadora maioria dos gays e lésbicas quer é, tão somente, a tutela do Estado para uma situação de fato - a união estável - que não conta com o mesmo reconhecimento jurídico daquelas realizadas entre casais heterossexuais. O nosso ordenamento simplesmente ignora a existência de relações afetivas entre pessoas do mesmo sexo, e com isso o Poder Judiciário se vê muitas vezes sem subsídios legais para assegurar aos homossexuais a proteção de direitos básicos - ainda que, por uma simples questão de isonomia ("todos são iguais perante a lei"), eles já sejam, em tese, portadores desses direitos.

Sem a proteção do Direito, as dificuldades que os casais gays e lésbicos encontram em suas vidas civis são inúmeras. Sem o reconhecimento de sua união, os cônjuges não têm direito à assistência do Estado em um divórcio litigioso, por exemplo (com muita sorte, podem pegar um juiz mais moderninho que leve a coisa para o lado da "sociedade de fato", ou seja, uma união de duas pessoas para um fim econômico comum, sem a discussão do vínculo afetivo). Outra dificuldade: como, para todos os efeitos, não existe ali um "casal", um não pode incluir o outro como dependente no convênio médico ou no plano de previdência (ainda são poucas as empresas que, por conta própria, reconhecem essa situação em seus empregados). E, se um dos dois vier a adoecer, o outro não pode tomar por ele no hospital as decisões que caberiam a um cônjuge tomar.

Mas há situações ainda mais graves. Como sabemos, os casais gays nem sempre podem contar com o apoio de suas famílias: muitas vezes, não são aceitos e, para ficarem juntos, são obrigados a romper com elas e viver marginalizados, privados do convívio familiar. Mesmo que tenham passado a vida inteira juntos e construído um patrimônio comum, quando um deles morre o outro não é reconhecido como seu viúvo e não tem os respectivos direitos assegurados, inclusive no que diz respeito à sucessão patrimonial. Como não existia ali uma união reconhecida juridicamente, a condução do inventário e a sucessão dos bens não vão para o cônjuge sobrevivente, como numa união heterossexual, mas sim para a família do morto. A mesma família que primeiro vira as costas para o seu membro, negando-lhe amor, carinho e compreensão, depois aparece para se apossar do patrimônio que ele construiu junto com seu companheiro - enquanto esse fica a ver navios.

É exatamente esse o drama pelo qual passa o casal da foto. Fábio (de regata verde) e José (sem camisa), do Rio Grande do Sul, viveram juntos por quase dez anos e construíram um patrimônio comum. No dia 29 de fevereiro, Fábio teve um aneurisma e faleceu. Logo após o enterro, a família de Fábio tomou posse do apartamento do casal em Porto Alegre e expulsou José, sem sequer dar a ele o direito de pegar seus pertences pessoais, e ainda por cima fazendo sérias acusações contra ele (de que teria se apropriado de dinheiro de seu marido). Hoje, José luta para que a Justiça confira à união de quase dez anos com seu companheiro a mesma proteção jurídica que todo casal heterossexual possui. No dia 12 de março, uma liminar (decisão provisória) assegurou a ele a reintegração de posse no apartamento do casal, ou seja, o direito a continuar morando no imóvel enquanto o processo se desenrola. Mas José ainda tem pela frente uma longa luta com os familiares de Fábio, que nunca aceitaram a união dos dois e querem tomar para si tudo o que o casal construiu, com seu esforço próprio.

Essa é apenas mais um entre inúmeros dramas que gays e lésbicas vivem no Brasil, enquanto os lobbies religiosos do Congresso Nacional emperram a discussão de diversas reformas legais e constitucionais, necessárias para que os homossexuais deixem de ser invisíveis para o Direito e sejam contemplados com os mesmos direitos básicos de qualquer cidadão. E o que podemos fazer a respeito? Mais do que imaginamos. Podemos fazer pressão política, jogando com as mesmas armas legítimas que as forças do preconceito usam para impedir nossos avanços. E podemos dar uma força a José. Nas lojas Foch (em SP, Rio e Curitiba) está sendo disponibilizado um abaixo-assinado para ajudar no reconhecimento de que Fabio e José eram mesmo um casal. Isso será usado como prova na ação judicial de José contra a família de seu companheiro. Quanto mais pessoas (amigas ou não do casal, que era bastante conhecido no meio) forem até lá assinar, comentarem em seus blogs, envolverem-se nessa luta, mais chances José terá de que, lá na frente, a Justiça seja feita e ele seja respeitado na sua condição de cidadão. Boa sorte José, estamos todos torcendo por você!

sábado, 12 de abril de 2008

Bem ou mal, é o que tem pra hoje

Um dos assuntos do momento na blogosfera é o "casamento gay" que teve sua cerimônia transmitida pela Rede TV, na noite do dia 10. O tom geral dos comentários foi bastante negativo: a palavra "cafona" foi a mais empregada. Gui lembrou que essa não foi a primeira cerimônia de união gay do Brasil (muito menos pode ser chamada de "casamento") e arrematou: "é muita vontade da bicha de querer aparecer". Marcos foi além: "fiquei imaginando o pobre coitado do gay enrustido vendo aquilo ao lado de seus pais e tendo que vê-los com aquela cara de reprovação, ora sacaneando, ora lamentando e aí aquele comentário: 'onde vai parar esse mundo!'". Classificou o episódio de "uma grande palhaçada nacional", "cenas monstruosas" que "mancharam um pouco a nossa bandeira".

Bem, mesmo sem ter visto o programa eu tenho certeza de que a Rede TV fez do casamento mais uma atração do seu zoológico de aberrações televisivas, sem nenhuma intenção "edificante" ou "cidadã" (e, se bobear, com direito ao costumeiro "humor heterossexual de mau gosto" a tiracolo). Aposto que a apresentadora Luciana Gimenez e seus ilustres convidados não foram capazes de acrescentar ao quadro nada de útil ou que lhe pudesse dar um significado mais profundo. E, pelo pouco que li, os detalhes da cerimônia também desagradaram meu gosto pessoal - apesar de achar que eles arrasaram ao escolher San Francisco para a lua-de-mel (uma das cidades que eu mais gostei de conhecer até hoje, e para onde pretendo voltar num futuro não muito distante).

No entanto, embora eu concorde que a exibição de referências gays mais "extravagantes" pela mídia acaba dificultando o trabalho de assimilação dos homossexuais pela sociedade (que, sabemos bem, tende a jogar tudo dentro do mesmo caldeirão), não posso deixar de ver o outro lado. As "bichinhas querendo ser celebridade" (para usar as palavras do Marcos) aparecem na mídia porque o grotesco dá ibope, mas também porque são as únicas que se prontificam a assumir o ônus da exposição pública. Por vontade de brilhar, por não terem nada a perder - ou porque realmente têm orgulho do que são (não orgulho de fazer bagunça na Semana da Parada) e conseguem manter a cabeça erguida.

Enquanto isso, gays "honrados", "sérios", "insuspeitos", "viris" e que dariam "melhores exemplos ao País" reclamam confortavelmente sentados em suas poltronas; condenam a iniciativa de quem "só queima o filme da classe", mas não topam pagar o pato e carregar o fardo de emprestar sua própria imagem para pleitear uma maior aceitação da sociedade. Se esses dois se amam de verdade ou querem apenas aparecer (será mesmo?), não me cabe julgar. Agora, se realmente existem na vida real vários exemplos de "dois caras masculinos se casando", como lembra o Marcos, quantos deles dariam a cara a tapa e aceitariam se expor em rede nacional, para mostrar às famílias leigas, que vivem as trevas da intolerância, que os gays são pessoas "normais" (?) como todas as outras? Eu não conheço nenhum, vocês conhecem? Falar é muito fácil.

sábado, 11 de agosto de 2007

Fora do gueto, ainda somos quase nada

Nos últimos tempos, eu vinha tendo a impressão de que o Brasil estava, aos poucos, aprendendo a lidar com a homossexualidade - de uma forma mais sadia, menos calcada em preconceitos e mais aberta à compreensão desarmada das diferenças. Quem mora nas grandes capitais está mais propenso a ter essa mesma impressão. Por vários motivos, elas sempre deram mais espaço para os gays serem quem são: uma população maior significa uma fauna humana mais heterogênea e, por conseqüência, mais tolerância com a diversidade; isso sem falar que é bem mais fácil viver sua vida no meio de uma multidão do que em uma cidade pequena onde todos se conhecem e cuidam da vida uns dos outros.

Outras duas coisas que me deixavam bastante otimista eram o avanço das paradas gays e a multiplicação das opções de entretenimento para esse público. Em São Paulo, a parada deste ano reuniu 3,5 milhões de pessoas e mesmo em cidades bem menores o movimento só faz crescer - em Porto Velho (RO), por exemplo, 40 mil pessoas foram às ruas no último dia 22. Enquanto isso, o mercado gay anda cada vez mais próspero. Boates novas abrem em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília. Construtoras fazem lançamentos imobiliários com campanhas dirigidas aos casais homo. Novas revistas gays pipocam por aí e até a Editora Abril está desenvolvendo a sua (a Romeu).

Se fatos como esses fazem parecer que estamos, enfim, conquistando o nosso espaço, o episódio envolvendo o jogador de futebol Richarlyson, do São Paulo, nos faz cair na real e mostra que ainda há muita coisa a ser feita. Para quem não está a par da polêmica, uma rápida explicação. Há algum tempo atrás, o jornal Agora São Paulo noticiou que um jogador de futebol estaria negociando com o programa de TV Fantástico, para revelar no ar a sua homossexualidade. Em junho, durante o programa Debate Bola, da TV Record, o diretor administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Jr., foi questionado se o tal jogador gay era do Palmeiras, e respondeu: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras”. Richarlyson, que afirma ser hétero, entrou com uma queixa-crime contra Cyrillo. Mas o juiz não a recebeu.

A queixa-crime do jogador partiu do princípio de que a homossexualidade denigre as pessoas. Claro que tal premissa é equivocada, mas engana-se quem pensa que foi por essa razão que a queixa foi rejeitada. Na verdade, o juiz negou seguimento à ação penal de Richarlyson porque consegue ser ainda mais preconceituoso do que ele. O que se vê na sentença é um festival de barbaridades homofóbicas que beiram a ignorância e são inadmissíveis para um profissional de tanta responsabilidade como o juiz criminal - a quem o Estado confere o poder de selar o destino de tantas pessoas.

Para justificar a rejeição da queixa-crime, o juiz, Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal, afirma: "Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. Esta situação incomum do mundo moderno precisa ser rebatida (!). Quem se recorda da Copa do Mundo de 1970 jamais conceberia um ídolo seu homossexual. Quem presenciou grandes orquestras futebolísticas formadas não poderia sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol". Eu poderia falar aqui de vários homens gays que são uma fortaleza de virilidade, que se destacaram nos esportes, mas nem vou me dar ao trabalho. Quem lê este blog não precisa disso.

Em seguida, o juiz tenta mostrar que não tem preconceitos e só piora a situação. "Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme o seu time e inicie uma Federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si. (...) Também o negro, se homossexual, deve evitar fazer parte de equipes futebolísticas de héteros". Ou seja, a completa negação da inserção social: os gays não são dignos de ocupar o mesmo espaço do que os héteros, devem ser segregados em seus guetos - se querem jogar futebol, que criem uma liga cor-de-rosa. De preferência, com uniformes com brilho e paetês, meias de lurex, cheerleaders transformistas e a Elke Maravilha cantando o hino.

O magistrado se apóia em toda sorte de conceitos distorcidos sobre a homossexualidade: que é uma doença, que é um mal contagioso, que ameaça a educação das crianças. "O que não se mostra razoável é a aceitação de homossexuais no futebol brasileiro, porque prejudicariam a uniformidade de pensamento da equipe, o entrosamento, o equilíbrio, o ideal (?)... Para não se falar no desconforto do torcedor, que pretende ir ao estádio, por vezes com seu filho, avistar o time do coração se projetando na competição, ao invés de perder-se em análises de comportamento deste ou daquele atleta, com evidente problema de personalidade ou existencial (!!!); desconforto também dos colegas de equipe, do treinador, da comissão técnica e da direção do clube.". E conclui citando uma "estrofe popular" que diz, em suma, "cada macaco no seu galho".

A chocante sentença teve uma repercussão enorme. Entidades de direitos humanos protocolaram representações na Corregedoria do Tribunal de Justiça, que abriu sindicância interna para apurar a responsabilidade do Dr. Junqueira, já desligado do processo de Richarlyson. No final do longo procedimento, ele pode levar uma simples censura ou advertência ou até mesmo ser exonerado do cargo (pouco provável). De qualquer forma, a punição desse juiz é necessária. A sentença fere vários dispositivos legais, desde uma simples lei estadual anti-discriminação até a Constituição Federal, que consagra valores como a igualdade e a dignidade humana. Além disso, se puni-lo é dar um recado exemplar de que ninguém pode ficar impune pela homofobia (nem mesmo os juízes), não puni-lo é legitimar uma segregação que abre um precedente perigoso para vários outros tipos de discriminação. É preciso mostrar à sociedade que o raciocínio reacionário do Dr. Junqueira está muito, muito equivocado.

Enquanto alguns gays têm a infelicidade de ter seus direitos mais essenciais negados por pessoas como o Dr. Junqueira e outros tantos são brutalmente agredidos (como o rapaz que foi queimado vivo em Belo Horizonte na última segunda-feira), a maioria se refugia em suas redomas de irrealidade e jura que está tudo bem. A vida pode parecer bela quando se tem o corpo sarado, o jeans da moda e os aditivos suficientes para uma boa noite de festa, mas contentar-se em ser feliz dentro dos muros da The Week é muito pouco. Muitos gays torcem o nariz quando o assunto é militância ("coisa de ativista chato"), mas a verdade é que, enquanto estivermos preocupados apenas com nossos luxinhos consumistas, as portas continuarão sendo fechadas para nós.