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terça-feira, 19 de julho de 2011

Overdose

Ando sem cabeça pra postar no blog. E não só por conta dos freelas que, felizmente, começaram a pipocar. Confesso que estou meio cansado de algumas polêmicas, tipo ter ou não ter beijo gay na novela, ou a declaração inadequada desse ou daquele asno com visibilidade pública. Nesses assuntos, vários colegas meus já estão dando o recado com maestria, e não tenho nada de realmente novo a acrescentar, sem soar redundante. Continuo achando que se indignar, querer avanços, semear mudanças de mentalidade, vale a pena. Essa é uma luta cotidiana de todos nós. Mas também reconheço que estamos vivendo uma overdose do assunto na mídia, num espaço muito curto de tempo. Isso cansa os ouvidos dos leigos e, por conta disso, acaba enfraquecendo a própria discussão. Muita gente bem-intencionada e até francamente simpatizante não aguenta mais ouvir falar em causa gay o tempo todo. No fim das contas, isso dá munição para uma das falácias mais levianas usada contra nós: a de que estamos querendo instaurar uma ditadura da minoria, uma patrulha gay empurrada goela abaixo da maioria. Será que não estamos errando a mão?

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Nova York brasileira

Uma das coisas boas de viajar para o Exterior é a chance única que temos de ver sob um outro prisma não só a nossa vida, como também o nosso país. A repetição da rotina acaba anestesiando os sentidos e o senso crítico. Quando saímos do habitat, esse novo olhar mais fresco pode nos fazer descobrir coisas que nem imaginávamos. Ou ainda confirmar antigas convicções. Como é o caso da tese que irei defender neste texto. Eu já dizia isto aos meus amigos, e agora estou mais convencido do que nunca: São Paulo é, definitivamente, a Nova York brasileira.

Quero deixar bem claro que não se trata de tentar emular um estilo pretensamente nova-iorquino, em busca da aceitação alheia. Não, não continuemos agindo como uma colônia, não precisamos disso, muito menos que a Sarah Jessica Parker seja paga para dizer que Sell Powlo tem uma amazing energy, naquela propaganda constrangedora do Shopping Cidade Jarjim. Até acho que existem algumas sutis similaridades entre as duas cidades. Por exemplo, a região da Paulista entre a Ministro e a Augusta tem um leeeeve perfume de Rockefeller Center, especialmente no prédio do Safra e naquela pracinha que fica em frente ao restaurante Spot. Quando eu andei a pé por Midtown, em diversos momentos senti uma certa familiaridade: "isto poderia ser São Paulo". Mas não é bem essa a ideia.

Com grande porte, ritmo frenético e trânsito intenso, Nova York é absolutamente tomada pelo cinza. Se deixarmos de lado o Central Park, espécie de "pulmão verde" da cidade, tudo que temos é um mar de prédios e táxis amarelos. Não por acaso, uma de suas atrações mais fotografadas é o arranha-céu Empire State Building - que, não fosse pela altura, seria um prédio até bem comum. E a sala de visitas da cidade, Times Square, não é mais do que a confluência em X de duas avenidas, completamente abarrotada por painéis publicitários e banners luminosos, que bombardeiam as retinas dos passantes e lembram que tudo que existe ali deverá ser consumido imediatamente. Não existe nenhuma beleza rara ali - é preciso muito Woody Allen na veia, muitas caixas de Friends e Seinfeld, para começar a enxergar "charme" em Manhattan.

E, no entanto, a cidade segue visitada e adorada por multidões e mais multidões, incensada como a "Capital do Mundo". Por que? Porque é ali que tudo acontece. Os melhores shows e concertos, os grandes espetáculos, a cena teatral dentro e fora do circuito da Broadway. Os grandes museus, a vida cultural, o culto à arte em suas diferentes formas e também à individualidade. O melting pot único de nacionalidades, gente de vários cantos do mundo que foi tentar a sorte lá e deu à cidade um tempero bastante peculiar. As compras! Uma gastronomia que vai de A a Z, do pastrami judaico ao curry indiano. Restaurantes, bares e lojas descoladas que vão se descobrindo em uma caminhada pelo Soho, por Chelsea, pelo Village, por Hell's Kitchen, bairros que têm uma alma própria. Quem quer se divertir, vai para lá: não é raro ver gente de outras partes do país pegando um avião para passar o fim de semana em NY, ver um show no Madison Square Garden, enfim, have a good time. Sem se preocupar com beleza - quem quer ver cidade bonita vai a San Francisco, sorry.

A essa altura do texto, acho que a analogia que deu título ao meu texto já faz bastante sentido. São Paulo também tem tudo isso e, no entanto, ainda custa a entender qual é a sua real vocação. De uma vez por todas, temos que parar de nos desculpar diante do resto do mundo por não termos praia. Por não termos baía, floresta, chapada, arara azul, mulher pelada. Como se isso fizesse de SP uma cidade sem nenhum atrativo, fadada a receber apenas turistas de negócios para aquelas feiras e convenções entediantes, irremediavelmente inferiorizada diante da comparação com o Rio de Janeiro e mesmo com outras partes do Brasil.

Nada disso. Aqui, pode-se fazer absolutamente tudo que se faz em NY: os bons restaurantes, as compras, as peças e musicais, os museus, os shows, os bares, as baladas, a moda, as tendências, a informação, a hiperconexão com o que se passa aqui e lá fora. É esse o papel que São Paulo possui dentro do riquíssimo mosaico que forma o turismo no Brasil. Com seus problemas, com suas partes indiscutivelmente feias, SP tem muitos predicados para vender, tanto para o resto do país quanto para o mundo. Tem todos os méritos para receber aviões com pessoas que não vieram trabalhar, mas se divertir e curtir a cidade - aliás, já recebe, mas pode receber muito mais. E tudo isso sem precisarmos fingir que somos nova-iorquinos ou europeus, sem precisar inscrever a Oscar Freire na gincana internacional das ruas de luxo. Porque São Paulo tem uma identidade própria, que é só dela: na Paulista, no Centro, nos Jardins, na Vila Madalena, na Mooca, no Bixiga, na Vila Mariana, no Butantã, em outros tantos bairros velhos e novos, sem a necessidade de mais comparações. São Paulo precisa se dar alta do analista, se aceitar e se gostar como é.

domingo, 10 de abril de 2011

Jeremy e Wellington

"Lembro-me com clareza de azucrinar o garoto. Ele parecia um merdinha inofensivo. Mas nós soltamos um leão reprimido e deixamos que ele viesse com tudo". Com os versos de "Jeremy", o Pearl Jam ocupava o topo das paradas em meados de 1992. A música, terceiro single do clássico álbum Ten, conta a história de um menino solitário que sofria abusos na escola e não contava nem mesmo com o apoio dos pais. O videoclipe, um dos mais executados pela MTV naquele ano, tem seu ápice na cena final, quando Jeremy entra altivo na sala de aula e, após um corte de cena, seus colegas são mostrados petrificados, com os olhos arregalados de terror e as roupas sujas de sangue. Na história real que inspirou a banda, o garoto se suicida diante da classe, mas quem assiste ao clipe sem conhecê-la tem a impressão de que ele atirou nos colegas.

É inevitável o paralelo com o caso de Wellington Menezes de Oliveira, o rapaz que voltou à escola onde estudara, em Realengo (zona norte oeste do Rio), e abriu fogo contra vários alunos antes de se matar com o mesmo tiro na boca do Jeremy real. Como era de se esperar, a história chocou o país, teve ampla repercussão internacional (yes, nós também temos Columbine!) e a cobertura pela imprensa lançou mão dos conhecidos clichês que reforçam a comoção e alavancam a audiência. Até Dilma entrou na dança e deu uma choradinha básica em público. Longe de mim querer minimizar a tragédia, a dor diante de tantas vidas eliminadas precocemente, mas me parece que a questão não está sendo colocada no foco correto.

É muito fácil apontar o dedo para Wellington e chamá-lo de monstro. Mais difícil é ir além do óbvio e do superficial, e tentar entender o que teria havido por trás de sua atitude, quais as motivações que levaram a atos tão extremos, tão bárbaros. A luz que melhor ilumina essa questão veio da reportagem "Assassino não atirou a esmo, dizem ex-colegas", publicada ontem no jornal Folha de S. Paulo. No texto, a repórter Laura Capriglione conversa com algumas pessoas que haviam estudado com Wellington. E as revelações feitas pelos entrevistados são decisivas para o entendimento do que realmente foi esse massacre.

"A gente chorou pensando que Wellington matou as crianças em represália pelo que aconteceu quando estudávamos juntos", lembra Thiago, o porta-voz do grupo. "Estávamos na sétima série, os hormônios a milhão, e uma das meninas mais malvadas, a C., ficava pegando no Wellington, se esfregando nele e dizendo 'vem cá'. Ele ficava em pânico, gritava 'não, não, não', desesperado. Ele empurrava a C. e ela gritava cada vez mais alto que queria ficar com ele. C. sabia que zoar com o Wellington era um jeito de ficar do mesmo lado dos bonitos e dos inteligentes da classe", recorda Thiago, hoje com 23 anos.

Segundo o entrevistado, ninguém gostava de Wellington a não ser Bruno, um menino fanho e de voz fina, que era destroçado pelos demais e chamado de "bicha". Ele e Wellington eram ridicularizados o tempo todo. Quando as imagens da chacina ganharam a mídia, Thiago e seus amigos se espantaram ao perceber que as vítimas tinham semelhanças físicas gritantes com os antigos colegas que molestavam Wellington. "A gente teve certeza de que ele não matou a esmo. Ele procurou em cada vítima uma característica das pessoas com quem ele tinha rixa na escola. A L., que falava direto 'sai daí, seu feio' quando queria sentar em um lugar que ele estivesse ocupando, é idêntica a uma menina que ele matou. Outras meninas têm um olho, uma boca, um jeito que parecia muito com as meninas da nossa classe. Temos certeza de que, quando subia aquelas escadas, ele viajava no tempo, até dez anos atrás, quando estudávamos juntos. Nós é que deveríamos ter morrido, não era para ninguém ter pago por uma coisa que nós fizemos", conclui.

Não estou tentando defender Wellington ou endossar seus atos. Eu também sofri bullying na escola a minha vida toda, e nem por isso voltei ao Colégio Friburgo armado até os dentes, para promover um derramamento geral de sangue. Evidentemente, o rapaz tinha sérios distúrbios psicológicos, que sua carta de despedida só faz reforçar. Ele era, sim, um sujeito desequilibrado. As crianças que perderam suas vidas ou mesmo foram baleadas não tinham absolutamente nada a ver com os traumas passados do assassino. Tampouco suas famílias. Mas a discussão está sendo desvirtuada.

Mostra-se o caso como uma questão de segurança pública, mais um subproduto da criminalidade. Até concordo que a facilidade com que o rapaz teve acesso às armas merece preocupação das autoridades. Mas a violência de que estamos falando aqui é outra: a violência silenciosa, que acontece diariamente dentro das escolas - da qual Wellington foi, antes de tudo, uma vítima. Crianças aprendem muito cedo a ser perversas, e não conhecem limites. Wellington certamente foi humilhado e maltratado por anos, e ninguém saiu em sua defesa ou lhe estendeu a mão. Seu grito de socorro jamais foi ouvido. As escolas, ao lado dos pais, não podem se esquivar de sua responsabilidade em interferir e controlar esse grave problema chamado bullying, que pode provocar feridas permanentes, mesmo que não culminem em um massacre como o de Realengo. Depois que o estrago já foi feito, é tarde demais para que Thiago e seus colegas arrependidos venham derramar suas lágrimas de crocodilo.

sábado, 20 de novembro de 2010

Na contramão da história

Juro que tentei fugir do baixo-astral como um avestruz, enterrando a cabeça no meu mundinho particular que anda tão animado. Mas não consegui deixar de me deprimir com essa onda de ofensivas e desgraças contra a população LGBT, todas ocorridas nos últimos sete dias. A que menos me atingiu foi a publicação do manifesto contra a Lei da Homofobia no portal do Mackenzie. Quem conhece a trajetória daquela universidade não poderia mesmo se surpreender; se a instituição desfruta de certo prestígio entre as tão mal cotadas escolas privadas do país, nem por isso devemos dar à sua declaração um poder e uma autoridade que ela simplesmente não tem.

Fiquei mais passado com os brutais ataques homofóbicos no Rio (onde três soldados do Exército agrediram e balearam um civil indefeso no Arpoador, e felizmente serão responsabilizados) e em SP (onde, em plena Avenida Paulista, cinco delinquentes de classe média atacaram três rapazes com requintes de barbárie, incluindo golpes de artes marciais e até lâmpadas fluorescentes). Segundo a Folha de hoje, o segurança que defendeu as vítimas relatou à polícia que uma delas foi encurralada, levou socos e chutes na cara e continuou apanhando mesmo após desfalecer. Ou seja, teria sido assassinada se não fosse a intervenção do vigia - que, ao perguntar aos marginais o motivo de tudo aquilo, ouviu: "Porque ele é viado".

Se não há justificativa capaz de endossar um ódio tão sem sentido (nem mesmo a cegueira da religião, como pretendem as nossas tão mal-intencionadas igrejas), episódios como esses parecem estar inseridos dentro de algo maior. Depois de anos de avanço da tolerância e do respeito à diversidade, sobretudo entre as camadas mais esclarecidas, parece que a sociedade resolveu andar na contramão. Estamos vivendo o crescimento de uma terrível onda conservadora, com um recrudescimento do moralismo, da segregação e do preconceito. Como não lembrar do caso da estudante Geisy, que quase foi linchada e currada pelos colegas, e depois expulsa da universidade onde estudava, apenas porque usava um vestido curto? Semana passada, chegamos ao cúmulo de prender um garoto de 18 anos, por ter dado um inocente beijo (!) em outro, de 13 anos - o que certamente não teria acontecido se o beijo tivesse sido recebido por uma menina. No Twitter, mensagens como "mate um viado queimado" se alastram, agrupadas na hashtag #HomofobiaSIM. E o assassinato bárbaro do garoto Alexandre Ivo, de 14 anos, em São Gonçalo (RJ), que foi esquecido em menos de 15 minutos? Tempos bicudos!

Eu gostaria de entender o que está por trás desse rebote reacionário. Talvez a sociedade esteja tão desorientada (o que dizer dos pais dos agressores da Paulista, que passaram a mão na cabeça de seus filhos?) e tão em crise com seus valores, que esse "encaretamento" acabe sendo visto como uma tábua de salvação para preencher os vazios e as inseguranças. Não sei! Alguém arrisca um palpite nos comentários? O que está acontecendo, afinal?

Se há um lado bom em todos esses absurdos, é que existe uma parcela mais lúcida e esclarecida da sociedade que está se indignando e esboçando uma reação. Bem ou mal, o tema homofobia está sendo discutido na mídia e na sociedade com bem mais freqüência do que há, digamos, cinco anos atrás. O simples fato de a motivação homofóbica dos crimes estar sendo explicitada pela imprensa já revela que existe hoje uma preocupação que não se via. É preciso ficar alerta. Afinal, a ignorância e o ódio só se combatem com união, esclarecimento e informação. Até porque nossos algozes também estão articulados: nas ruas, nos templos e agora, mais do que nunca, em Brasília.

Se você mora em São Paulo e quer ajudar a fazer a diferença, apareça amanhã (domingo) no vão livre do MASP, a partir das 15h. O movimento LGBT paulista vai promover uma manifestação de repúdio e reivindicação de providências para o caso dos agressores da Paulista (que foram liberados no mesmo dia, porque a lei assim permite), com caminhada até o local do crime, próximo à estação Brigadeiro do Metrô. Eu também estarei por lá. Mostrar que não toleramos essa atrocidade é o mínimo que podemos fazer. [UPDATE: Considerando que foi divulgada com pouca intensidade e antecedência, a manifestação foi ótima: cerca de 300 pessoas apareceram na Paulista e deram seu recado, de forma muito positiva e tranquila. Inclusive dois dos três rapazes atacados na Paulista deram as caras por lá. Só faltou o segurança-herói aparecer na porta do prédio pra gente homenageá-lo! O único senão foi a apropriação partidária do ato pelo PT e PSTU, que encabeçaram a parada com suas faixas, como se a iniciativa tivesse sido deles. Mas esse tipo de desonestidade já é praxe].

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Os capitães do bacanal


Ninguém mais agüenta ouvir falar no caso Eliza Samudio & Bruno Fernandes, o "pão e circo" policial de 2010, que ocupa todos os noticiários para preencher a lacuna deixada pelo fim da novela da garotinha arremessada do sexto andar. O produto mais interessante dessa história não foi a atuação histriônica de Ércio Quaresma, o advogado de defesa que confunde Contagem com Hollywood, mas sim uma reportagem que o Fantástico exibiu [vídeo acima], há cerca de duas semanas. Como Bruno disse que conheceu Eliza em uma suruba, a Rede Globo foi atrás da história e descobriu a América: essas festinhas são mais comuns entre os jogadores de futebol do que se pensa.

A reportagem carregou no tom de julgamento moral, sob medida para o telespectador conservador de classe média. Zeca Camargo franziu a sobrancelha ao falar a palavra "orrrrgia", enquanto Patrícia Poeta sentenciou que se tratava de um "submundo de sexo sem limite e drogas", com a fisionomia dramática de quem faz uma seriíssima denúncia. A narração em off continuou a descrição do que seria "uma rede de silêncio e mistério", enquanto prostitutas e agenciadores explicaram como se desenrolam as picantes reuniões, dando os detalhes sórdidos que fizeram a alegria da audiência. Mesmo já tendo participado de filmes eróticos, uma entrevistada disse que se sentiu "suja de estar ali", referindo-se à experiência de ter sido convidada para uma dessas festas.

Vejam só que engraçado: os promíscuos da sociedade, os adeptos de perversões sexuais, os disseminadores de doenças venéreas, as ameaças ao sagrado paradigma da família brasileira... não eram nós, os homossexuais? Sempre foi em nossa direção que se apontaram os dedos. Vivemos um patrulhamento constante, que reverbera inclusive dentro do nosso próprio meio. Quando um blogueiro como Uomini ousa assumir seus desejos e experiências sexuais com franqueza, sem o pudor do politicamente correto, chovem comentários recalcados, apedrejando-o como o mau exemplo que denigre toda a classe LGBTT [já escrevi sobre isso neste post]. Cobram dos gays que se encaixem na moral dominante, que sejam os melhores exemplos de recato e honradez - para que, quem sabe, contando com a boa vontade alheia, eles sejam merecedores da benevolência e da aceitação social.

A verdade, escancarada pela matéria do Fantástico, é que os homens héteros não são diferentes de nós, ou moralmente superiores. Nem mais, nem menos: são iguaizinhos. Podem até adotar uma postura social irrepreensível, porque têm o imperativo da família para castrá-los, mas isso não significa que possuam menos instintos ou vontades. Muitas vezes, reprimem esses desejos, ou então os exercem na surdina - e, nisso, não são "melhores" do que nós, apenas mais hipócritas. No meio gay tudo é mais escancarado, porque já nos acostumamos a estar à margem e temos um estilo de vida mais livre, mas isso não quer dizer que os héteros não aprontem as mesmas coisas. Das esquinas freqüentadas por travestis aos puteiros chiques do Campo Belo, as histórias se repetem. Perguntado pela reportagem sobre as tais surubas no futebol, o ex-jogador e atual técnico do Bahia, Renato Gaúcho, foi taxativo: "Todo clube tem, é inevitável".

Ter fantasias sexuais turbinadas, querer se lambuzar num mar de corpos, saliências e extremidades, isso é da natureza do homem, seja ele hétero ou gay. O que não quer dizer que ele não seja capaz de se envolver afetivamente e praticar a monogamia, como uma escolha, uma decisão consciente. Ou que todos os homens tenham desejos libertinos insaciáveis: a libido e o tesão são fruto da combinação de uma variedade de fatores físicos, psíquicos, sociais e culturais que se manifestam de forma diferente em cada indivíduo, e também oscilam com o tempo. Agora, mais uma vez, nada disso tem a ver com orientação sexual. Há homens gays e héteros rodadíssimos, assim como há homens gays e héteros bastante recatados.

Mas a sociedade é implacável nos seus julgamentos, e adora dar seu pitaco sobre o que é certo e errado na vida privada das pessoas, ferindo o livre-arbítrio de cada um. No caso do ex-goleiro do Flamengo (que, colocado em outro contexto, é um cafuçu altamente umidificante, #prontofalei), não será surpresa se, antes de ser julgado pelo envolvimento (ou não) na morte da maria-chuteira, ele já for condenado porque curte uma boa bacalhoada. No mínimo, isso já será encarado pelos bastiões da moral e dos bons costumes como um mau antecedente, capaz de pesar negativamente na avaliação do delito em discussão.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O alvo preferido

Eu estava vibrando com a vitória dos nossos vizinhos argentinos [eu me refiro à aprovação da emenda do casamento gay pelo Senado argentino, de que tratei aqui, e que foi inclusive o assunto mais discutido do encontro de blogueiros do último sábado]. Mas a euforia durou pouco. Ontem, um post no blog do Don Diego interrompeu meu devaneio otimista e lembrou que em nosso país o buraco da vida real é bem mais embaixo. Ele expôs o drama do jornalista d'O Globo Jefferson Lessa - que relatou, num desabafo na edição de ontem do periódico carioca, que vem sendo vítima de bullying homofóbico quase diário nas imediações da sua casa, no idílico bairro da Urca. O texto é tão comovente quanto desconcertante: Lessa, já quase um balzaquiano, se sente completamente desamparado, e não enxerga nem mesmo na polícia a possibilidade de uma resposta satisfatória à sua aflição. É muito triste.

Na medida em que a história está repercutindo na internet e provocando reações de solidariedade, surgem mais e mais histórias parecidas. Tanto os autores dos blogs como os visitantes que deixam comentários vão expondo experiências pessoais no mesmo sentido, e com isso percebemos que essas histórias estão longe de ser isoladas. Todos nós sofremos algum tipo de bullying, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos violenta, em pelo menos alguns ambientes que freqüentamos, em pelo menos algumas fases da vida. Ainda que com o tempo, mais resolvidos quanto à própria identidade e cansados de remar contra a maré, nós optemos por viver nossas vidas em uma bolha de conforto, na companhia de pessoas mais arejadas e civilizadas, e sejamos felizes assim, o mundo segue cruel - e a mentalidade dominante evolui a conta-gotas.

Sim, eu também sofri bullying na escola. Cresci sendo o pária da turma, aquele que passava o recreio isolado, para quem ninguém estendia a mão. Mas meu caso não foi de "bullying homofóbico", simplesmente porque, durante meus onze anos de colégio, não havia em mim nenhum traço, embrionário que fosse, de homossexualidade - ou de qualquer outra sexualidade. Eu era uma c-r-i-a-n-ç-a, mesmo. O típico menino ingênuo, puro, que não conseguia acompanhar a malícia dos coleguinhas, que vivia em seu mundo interior e só mais tarde começou a entender como as coisas eram fora dele. Mas que poderia muito bem ter crescido, perdido a timidez e até se casado com a gostosa da classe. Só fui acordar para a vida e trocar a esfiha pelo kibe mais tarde, já na faculdade.

Eu tinha, sim, algumas características que pesavam contra mim e que formavam um verdadeiro "kit impopularidade". Eu aprendi a ler e escrever sozinho, aos quatro anos, e também desenhava muito bem. Ser precoce tornou as coisas muito mais fáceis para mim durante as aulas (escreva com 'ss' ou 'ç'?! ah, por favor, né?) e muito mais difíceis nos intervalos, porque me fazia diferente dos demais e despertava o ódio e a inveja dos colegas ('isibido!', gostavam de rabiscar por cima dos meus desenhos feitos com tanto capricho). Com tanta hostilidade, eu não tinha nenhum estímulo para sair da minha redoma solitária, do meu mundo introspectivo de desenhos, redações e livros, e me misturar aos demais. Nem na hora das brincadeiras e esportes - demonstrações de força, coordenação motora e destreza física que sempre foram um estorvo pra mim. Para piorar, eu usava óculos, em uma idade em que isso era simplesmente inaceitável. Cresci com o carimbo de CDF e de cara mais uncool da turma.

Além do "kit impopularidade", outra característica que selou minha sorte na infância foi a dificuldade que sempre tive para me impor e, especialmente, colocar minha agressividade para fora. Isso é uma questão de sensibilidade, de temperamento mesmo; tudo bem que gays costumam ser mais sensíveis, mas acho que reduzir isso a uma homossexualidade latente seria de um simplismo extremo e absurdo. Sempre fui o tipo de cara pacífico, que precisa acumular muitas provocações até perder a paciência e explodir: isso é parte da minha índole, as pessoas que convivem comigo logo percebem, e algumas inclusive tentam se aproveitar disso. Foi de uns anos para cá que comecei a me educar para reagir mais, enfrentar mais, comprando até algumas brigas que poderia deixar de comprar, pelo simples exercício de não levar desaforo para casa. Há momentos em que é preciso exigir respeito e se impor - e isso também transcende a questão da sexualidade.

Mas há casos em que se impor é bem mais difícil - em especial quando o bullying adquire contornos de pura covardia, como na história de Jefferson Lessa, acuado por um grupo de delinquentes juvenis de classe média. Em nosso íntimo, achamos que seria bárbaro se Jefferson tirasse de dentro de si uma força improvável, se baixasse nele uma mistura de Jackie Chan com Lu Patinadora, e ele desse uma voadora poderosa no meio da fuça de um dos playboys do mal, e quebrasse o nariz do maldito em quatro pedaços, assim como todos os dentes da frente, para total choque dos demais, que perderiam a pose e sairiam correndo na mesma hora para nunca mais atacá-lo. Mas violência não se resolve com mais violência. Enquanto não vem de dentro da sociedade a tão esperada mudança de mentalidade, a tutela do Estado é fundamental para ajudar a garantir a ordem e proteger a integridade dos cidadãos.

E é aí, finalmente, que entra a questão da sexualidade. Nesse momento, a homofobia nos castiga duplamente. Primeiro: ela já nos torna alvos privilegiados do bullying, e aumenta, por si só, as chances de sermos constrangidos e até exterminados, como aconteceu recentemente com o garoto de São Gonçalo (RJ), assassinado por uma gangue pelo simples fato de parecer gay. E segundo: enquanto na escola a equipe pedagógica tem a possibilidade de interceder em favor do aluno molestado, a vítima do bullying homofóbico muitas vezes não tem a pedir proteção, porque as polícias são totalmente despreparadas para lidar com a diversidade sexual, isso quando elas mesmas não engrossam o coro do preconceito. Somos tão alijados de cidadania que até o socorro do Poder Público numa situação extrema nos é negado.

O desespero de Jefferson Lessa é totalmente compreensível. Mas se entregar não é a solução, muito menos abandonar o bairro, como ele chegou a falar em seu texto. Expor o problema, tirá-lo da invisibilidade, é um primeiro e importantíssimo passo. A mesma solidariedade que nós estamos tendo, mesmo sem conhecê-lo, ele poderá encontrar em outras pessoas, que se tornarão suas aliadas. É preciso botar a boca no trombone contra esse absurdo. Por mais capenga que seja a via policial, as autoridades terão que se deparar com o assunto e aprender a lidar com ele. Tem que fazer B.O. sim, até pedir proteção se for o caso. Não dá para engolir a seco e ficar enfrentando a barra sozinho. O bullying traz em sua raiz um desequilíbrio, e só somando forças para reverter esse desequilíbrio é possível dar fim ao pesadelo.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Rapidinhas diversificadas

DA JABULANI À JABIROSCA Quem não morreu de vergonha de ser brasileiro quando veio ao mundo o logotipo oficial da nossa Copa do Mundo 2014? A tosqueira tem cara de improviso - parece aqueles trabalhos que crianças de 6 anos fazem na aula de artes da pré-escola - e recebeu críticas de todos os lados, das mais embasadas às mais escrachadas. Levando a sério a máxima de que só pode criticar quem faz melhor, o blogueiro Guilherme Bandeira desenvolveu várias versões alternativas do logotipo, todas disponíveis em seu blog Olha Que Maneiro. A minha favorita ilustra este post. Realmente, era bem fácil fazer melhor.

INVERNO GRATINADO Com a frente fria violenta que varreu o Sul e o Sudeste, nosso apetite pede pratos quentes mais substanciais. Enquanto não tomo coragem para escrever outro roteiro gastronômico, vou dar duas dicas pontuais, ambas em São Paulo. Uma é o Marcel, no Brooklin, disparado o melhor endereço da cidade para comer suflês - o Maison, minha receita favorita, leva camarões, queijo e cogumelos. A outra é o Bar do Alemão, um restaurante que há várias décadas faz os paulistanos viajarem até Itu para saborearem seu gigantesco filé à parmegiana. Agora não é mais preciso pegar a estrada: a casa abriu uma filial em Moema. A versão grande do prato, com 700g de bife, alimenta até 5 paladares.

CORTINAS DE VELUDO RELOADED Último clube de sucesso no tempo em que a Consolação ainda era o epicentro da noite GLS de São Paulo, o Ultralounge viveu sua melhor época entre 2000 e 2001 - quando Sérgio Kalil já tinha fechado a B.A.S.E. e ainda não tinha aberto a Level. Com um enorme candelabro e cortinas de veludo bordô, o Ultra se pretendia pomposo e reforçava a aura convidando artistas e fashionistas para comandar as pickups no início da noite. Foi o último clube menor e intimista, antes da era dos descamisados e do colocón: ali, bacana era ir de camisa social, com atenção especial para o cabelo bem esculpido. Varrido da cena por um complô entre vizinhos e prefeitura, deixou muitos órfãos. E agora está de volta, sob a forma de um projeto que ocupará uma ou duas sextas por mês, no clube Lions. [Faltava mesmo uma noite gay no Lions, eu já tinha cantado essa pedra aqui]. A estreia é hoje, e os habituês do Ultra devem comparecer em peso. Será que o Cecin vai tocar aquele remix de "Don't Tell Me" que foi o hino absoluto dos velhos tempos?

A TRILHA DO PARAÍSO E por falar em balada, já saiu a programação das festas do Hell & Heaven, babadeiríssimo evento gay que fará sua segunda edição em novembro, na Costa do Sauípe (BA). O line up superou as minhas expectativas. Na noite do dia 4/11, a festa de boas vindas traz Cella e Rafael Calvente, em parceria com as domingayras Café Com Vodka (SP) e Duo (RJ). No dia seguinte, a abertura oficial tem Renato Ratier (D-Edge) e o francês Tristan Garner, do hit "Stomp That Shit". Sábado será a maratona suprema da jogação: de dia tem pool party com Felipe Lira, André Garça e Danny Verde, e à noite tem festona com Ana Paula e Peter Rauhofer. Já estaria de bom tamanho, mas ainda tem mais: a manhã de domingo será em ritmo de after, com Rodolfo Bravat, André Queiroz e - tcharam! - o argentino Aldo Haydar, fazendo o gran finale perfeito. Partiu Sauípe?

PLUMAS, MULLETS & MARIACHIS E ainda no embalo do post de ontem, a Secretaria de Turismo da Cidade do México anunciou que dará de presente uma viagem de lua-de-mel ao primeiro casal gay a se casar na Argentina. O mimo será uma parceria da prefeitura com a iniciativa privada: o governo municipal arcará com as passagens aéreas, enquanto hotéis e restaurantes da Cidade do México e de Cancún oferecerão hospedagem e alimentação. A ideia busca incentivar o turismo gay friendly no México, cuja capital já reconhece a união gay desde dezembro. Fofo, não?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bola murcha

É aquela história: chega a época da Copa, e de repente o Brasil tem 190 milhões de especialistas em futebol. Terminado o jogo, chovem explicações e teorias de torcedores que "já sabiam que o Brasil ia perder", apontando culpados e prescrevendo soluções que certamente teriam evitado o pior. Como eu não entendo bulhufas de futebol, nem me arrisquei a dar um palpite: apenas acompanhei o tatibitati das redes sociais. Alguns crucificaram o Felipe Melo, que estragou tudo so-zi-nho, enquanto outros colocaram a culpa no Dunga, porque deixou os jogadores aprisionados demais na concentração, ou não escalou ninguém do São Paulo Futebol Clube para a seleção. Teve até quem sustentou que o resultado era "previsível", porque a FIFA não iria deixar o Brasil ganhar, sendo que na próxima Copa ganharemos a taça em casa. Só essa que eu não entendi. Se vencemos, fomos nós; se perdemos, foi a FIFA? Se a Copa é realmente um torneio de cartas marcadas e resultado combinado, então qual é o sentido de acompanhar tudo e torcer com tanta paixão?

Meu mundo certamente não caiu por causa da eliminação do Brasil, mas tenho que reconhecer que dessa vez fiquei com pena e até meio triste, enquanto em 2006 a única coisa que eu lamentava era o fim das folgas coletivas em horário de jogo. Do alto da minha completa ingenuidade esportiva, me pareceu que nossos jogadores se empenharam, correram atrás de uma virada até o final. E não me envergonho deles. É verdade que ficaram meio instáveis emocionalmente a partir do empate, mas quem no lugar deles não estaria uma pilha de nervos? Sentindo o peso da cobrança e expectativa de 190 milhões de pessoas?

Agora que o Brasil foi eliminado, não vou deixar de dar uma olhadinha nas partidas de amanhã. Não que eu tenha descoberto, da noite para o dia, aos 32 anos, que sou um fanático por futebol: é que quero dar uma conferida no material humano da Alemanha e da Espanha, duas seleções que me foram recomendadas por predicados não exatamente técnicos, se é que vocês me entendem. Se eu vou torcer pela Argentina? É ruim, hein. Eu sou apaixonado por Buenos Aires e me dou bem com os argentinos, mas não tenho saco para o excesso de patriotismo deles diante dos brasileiros - que freqüentemente resvala para a falta de gentileza e a arrogância, tal qual a rixa surrada entre Rio e Sampa. Amigos brasileiros que estão em Buenos Aires neste exato momento contaram que a cidade ficou em polvorosa com a nossa eliminação, com gente comemorando nas ruas e tudo. É mole?

O Brasil fez um muxoxo, as vuvuzelas se calaram (graças a Deus), mas, no fim das contas, entre mortos e feridos, tudo ficará bem. (Curiosamente, muitos que se diziam patriotas já arrancaram suas bandeiras da janela). Eu devo amargar um jejum sem sexo, porque o Daniel Alves já me ligou da África do Sul dizendo que está com sintomas de depressão e não vai conseguir comparecer por um bom tempo. Mas tudo bem: sou um amante compreensivo e não vou me incomodar em botá-lo no colo e fazer cafuné enquanto seus olhos claros fitam o infinito. Dureza maior vai ser o baque de novembro nas urnas. Isso sim é que deveria estar tirando o sono do Brasil.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Uma imagem vale mais do que mil palavras

(Porque Copa do Mundo também tem um lado ruim... bem ruim!)

domingo, 9 de maio de 2010

Artilharia colorida

Ando meio sumido da blogosfera gay, mas não preciso ter bola de cristal para adivinhar que o assunto da semana será a reportagem de capa da Veja de hoje, que acabo de ler. Intitulada "Geração tolerância", a matéria afirma que a "rapaziada" que está vivendo a adolescência nos dias de hoje lida com a homossexualidade de forma bem mais natural. Os fofos e fofas se percebem gays com serenidade, o meio social já não os trata com diferença e, se o outing para os pais ainda causa um choque inicial, a transição para a aceitação tornou-se rápida e tranqüila. Por trás disso, estaria o desapego dessa geração a rótulos e tribos: a sexualidade deixa de ter um peso crucial na definição da identidade, dizendo tudo sobre a pessoa, e passa a ser apenas mais uma característica. Tudo do jeito que nós sempre achamos que tinha que ser.

À primeira vista, o tom otimista empolga e reconforta, mas nós sabemos que a vida ainda não é tão cor-de-rosa assim, nem mesmo nos grandes centros urbanos. Antes de sair por aí detonando o artigo, porém, é preciso considerar o tipo de veículo que o produziu. A função de revistas semanais como Veja e Época (que reproduzem o modelo consagrado pela norte-americana Time) é condensar os acontecimentos mais relevantes em um resumão que possa ser consumido por toda a família, do vestibulando ao casal idoso. Numa sociedade em que é preciso se atualizar o tempo todo, a ideia é suprir o homem moderno com o máximo de informação no mínimo tempo possível - como num fast food.

Se o desafio da Veja não é tão grande quanto o do Jornal Nacional - que, nas palavras politicamente incorretas do editor William Bonner, precisa falar com o "Homer Simpson do Brasil" - a revista tem que saber se comunicar com todo o vasto espectro da classe média brasileira, sua principal consumidora. E isso não é pouco. Na prática, para dar conta do recado, as matérias produzidas devem ser concisas, pasteurizadas e, em tese, neutras. Veja não é uma publicação segmentada, especializada, mas uma revista generalista, que atira para todos os lados, fala com todos os públicos, e portanto não tem espaço para se aprofundar, nem escrever com grande propriedade sobre os temas: ela é apenas uma porta de entrada.

Disso decorrem os furos e derrapadas que Veja dá aos olhos de quem busca nela uma visão de especialista. Para equacionar o binômio "concisão + público amplo", é preciso lançar mão de simplificações muitas vezes grosseiras. No caso específico da homossexualidade, isso redunda em visões e estereótipos que são palatáveis para o consumo da grande massa de leitores, mas não satisfazem quem já está mais familiarizado com o tema. Chamar os teens assumidos de "turma colorida" (argh, o Big Brother Brasil voltou!) ou colocar o casalzinho numa montagem fotográfica cafonérrima pintando um arco-íris na parede (tipo novela das seis com heroína infantil) são exemplos bastante ilustrativos. Dizer que "o objetivo número 1" dos participantes da parada gay de São Paulo na faixa dos 30 anos é "militar" (oi???) evidencia que quem escreveu o texto não só não tinha a menor intimidade com o assunto, como nem mesmo checou tal bobagem com algum colega gay da redação antes de publicar.

Isso não significa que a matéria da Veja seja um desastre. O simples fato de o assunto homossexualidade ganhar espaço de capa - de forma positiva - numa das publicações impressas mais influentes e vendidas do mundo já é digno de comemoração. Mais ainda: o amplo trânsito da revista junto às classes médias faz da reportagem uma grande aliada justamente onde o calo mais nos aperta. Veja pode não ser uma unanimidade absoluta, mas não há como questionar ou desprezar sua enorme capacidade de balizar mentalidades e formar opiniões. Ela pode determinar a escolha do presidente do país. Não é exagero dizer que a classe média vai aprovar o que a revista endossar.

Assim, embora a tchurminha suuuperfervida que estampou as páginas da reportagem com tanta dignidade ainda seja exceção, embora o preconceito ainda seja muito mais forte do que a revista está pintando, o Brasil precisa acreditar que ele está sendo superado, que ele deve ser encarado como coisa do passado, que as coisas mudaram. Isso ainda é uma meia-verdade, mas Veja está ajudando a transformá-la em verdade. Tenho certeza que o efeito-dominó da reportagem será formidável, com a homossexualidade sendo discutida onde não tinha espaço, e pessoas intransigentes pensando melhor sobre suas convicções. Na pior das hipóteses, na meia dúzia de famílias brasileiras em que o filho gay escolheu o dia das mães para sair do armário, essa reportagem não poderia ter vindo em melhor hora.

quinta-feira, 18 de março de 2010

2011, o ano do trabalho escravo

Podem dizer que 2010 mal começou, mas quem tem planos que precisam ser programados com muita antecedência já está de olho no ano que vem. E 2011 vai ser um ano daqueles, pelo menos no que diz respeito à proporção de trabalho & obrigações versus descanso & viagens.

Para começar, o Carnaval vai cair só láááá no dia 8/3. Ou seja, o Brasil só vai começar a funcionar em março? Hahaha, quem dera a vida fosse tão fácil assim. O problema é que todos os feriados cristãos andarão juntos para frente. A Sexta-Feira Santa vai cair no dia 22/4, ou seja, um dia depois do Tiradentes (21/4). Dois feriados fundidos em um, how bizarre is that? (No caso dos cariocas, pior: são três feriados em um, já que dia 23 eles deixam de trabalhar com a desculpa de que vão homenagear São Jorge).

Logo em seguida, ironia do destino: primeiro de maio, que é Dia do Trabalho, cai no domingo. Fail! O Corpus Christi nunca enfrenta esse risco, pois é sempre numa quinta, mas dessa vez caiu láááá longe de novo, no dia 23/6 (quase em julho!). Nove de julho, feriado estadual aqui em São Paulo (Revolução Constitucionalista de 1932, poucos sabem), será igualmente desperdiçado, pois cai num sábado.

E os feriados do segundo semestre? Independência (7/9), N. Sra. Aparecida (12/10) e Finados (2/11) caem todos na quarta-feira! Tá, pelo menos não é fim de semana, mas também não dá para emendar e viajar. Serão dias bestas, metade com cara de sábado, metade com cara de domingo. Só a Proclamação da República (15/11) cai numa terça. É o único feriado aproveitável do semestre, já que Consciência Negra (20/11) será sábado e, para enterrar o ano de vez... Natal e Réveillon cairão no fim de semana! Epic fail!!!

O jeito é aproveitar ao máximo os feriados deste generoso 2010. E, para quem pode acumular férias no trabalho, deixar para tirá-las em 2011, quando elas farão muito mais falta. Só não terá saída quem estiver de emprego novo: vai amargar um ano inteiro de escravidão, sem trégua para descansar. Lerê, lerê...

sábado, 16 de janeiro de 2010

A missão dos "coloridos"

Muitas pessoas consideram política e religião dois assuntos-tabu, que não se deve discutir socialmente, dado o risco de gerar polêmicas e melindres. Eu tenho cautela semelhante com o Big Brother Brasil, tema do qual sempre me esquivei, dentro e fora do blog. Apontar a mediocridade do programa, além de redundante como chutar cachorro morto, é um convite para o banimento social. BBB é como house tribal: pega mal falar mal. Para os interlocutores, é como se você quisesse passar recibo de esnobe, de pernóstico, dizendo que está muito acima do mau gosto da massa ignara, que prestigia algo tão pobre. Como seria preciso forçar a barra para falar algo positivo sobre o programa (cuja única contribuição para a sociedade é a safra anual de "ex-BBBs" que tentam a todo custo faturar uns trocados na mídia), é mais fácil ficar quieto e sorrir amarelo.

Desta vez, porém, a receita que borbulha no caldeirão de Pedro Bial tem um ingrediente novo, e que merece um comentário. A décima edição traz pelo menos três participantes homossexuais (esses são os assumidos). Para a produção do programa, é uma maneira de quebrar o marasmo, atrair o interesse do telespectador médio e ainda posar de amiga da "diversidade". Já no meio LGBTT, a novidade tem dividido opiniões. Isso porque a produção escalou figuras nada discretas: Dicesar, o maquiador que dá vida à conhecida drag Dimmy Kier, e Sérgio, o emo pintosérrimo que lhe desfere uma bitoca na imagem acima. Só a sapa Angélica parece fazer uma linha mais "baixos teores", por assim dizer. Enquanto alguns vibraram com a inclusão dos três candidatos, sustentando que isso seria um verdadeiro avanço para toda a classe, outros tantos se sentiram desconfortáveis, acreditando que a escolha de gays extravagantes só serviria para reforçar os estereótipos vigentes e perpetuar o preconceito. Confesso que eu mesmo tenho sentimentos ambíguos em relação ao assunto, e até consultei a opinião dos amigos via Facebook e Twitter, enquanto procurava refletir a respeito.

Vou começar saindo em defesa das pintosas. Reconheço que elas representam uma fatia pequena dentro do amplo espectro dos LGBTTs, e o público médio tende a generalizar essa referência, o que pode atrapalhar a assimilação dos homossexuais como um todo. Isso não quer dizer, porém, que essas pessoas não tenham o direito de aparecer e devam ser varridas para baixo do tapete: a sociedade precisa aprender a respeitar a todos, inclusive os afeminados, por mais tortuoso que seja o caminho até lá.

Além disso, como já escrevi no post sobre o "casamento gay" que foi televisionado em 2008, antes de apontar o dedo para as bichinhas, temos que lembrar que, muitas vezes, elas são as únicas que se dispõem a dar a cara a tapa por aí. É muito cômodo atacá-las à distância, dizendo que queimam o nosso filme e há exemplos melhores a se dar, sem jamais topar dar o exemplo no lugar delas. Muitos as condenam, mas poucos têm peito para assumir o ônus da exposição pública. Por isso, por menor que seja minha identificação com Sérgio e Dicesar, não posso deixar de aplaudir sua coragem - eles têm muito mais culhão do que os inúmeros "bofes de soja" que povoam o mundo (e o próprio BBB10), fingindo ser algo que não são.

O que me parece realmente importante, e isso nós temos que ter muito claro, é o que a Rede Globo quis ao selecionar esses fofos. Ao contrário do que a emissora carioca quer fazer parecer, e alguns incautos de plantão parecem ter acreditado, os propósitos em jogo nada têm a ver com inclusão social. Não esqueçamos que a Globo veda sistematicamente o beijo gay em suas novelas, alegando que essa imagem está abaixo de seu "padrão de qualidade". Por que no BBB o diretor Boninho avisou que pode? Porque a preocupação de um reality show, diferentemente do irmão "nobre" de grade que é a novela, não tem nenhum comprometimento com a qualidade: o que se busca é explorar o voyeurismo humano de forma grotesca, bizarra.

Nesse sentido, o eventual beijo entre homens não aparece de forma positiva, endossado pela emissora: ele se insere no mesmo contexto de outras tantas "baixarias reais" que surgem como subprodutos do confinamento, assim como banhos desinibidos de chuveiro, pegações embaixo do cobertor e barracos em geral. Os homos do BBB não foram chamados para dar lições de cidadania (tanto é que foram convenientemente colocados no grupo dos morde-fronhas "coloridos", ou seja, mantidos à margem da normalidade vigente), mas sim na esperança de agregar audiência a um formato que já começa a dar sinais de cansaço. Se rolar um babado forte e voar pena pra tudo quanto é lado, tanto melhor: instala-se uma polêmica, e o ibope sobe. Tudo isso de forma nada ameaçadora, já que os velhos estereótipos não são postos em xeque, evitando problemas para os segmentos mais conservadores.

Por isso, se eu não acho que a presença de gays pintosos no BBB10 seja um mal em si, algo de que todos devamos nos envergonhar, tampouco acho que existam razões para comemorar, como parece ter sido o tom de vários comentários deixados em sites gays. No fim das contas, os homossexuais não estão recebendo nenhuma dádiva do programa, mas trabalhando a serviço dele, como meras atrações do circo televisivo. Não se iludam, alices: se porventura Dicesar, Sérgio ou Angélica vencerem o jogo, isso não significará absolutamente nada, nada além de uma vitória individual para uma dessas pessoas. Não será um "passo à frente", nem haverá algo para o movimento gay comemorar: continuaremos sendo motivo de chacota, levando coió nas ruas, sendo sonegados em nossos direitos civis mais elementares. Big Brother Brasil não traz cidadania pra ninguém.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Complexo de índio

Quando as nuvens se dissipam e o sol irradia sua luz sobre o Rio de Janeiro, cada centímetro de areia da praia de Ipanema é preenchido por cariocas e turistas querendo dourar o pandeiro e colocar o papo em dia cazamiga. Daí que a gente acaba participando involuntariamente da conversa de quem está perto (especialmente quem vai à praia sozinho e tem medo de trazer o iPod, como eu). Dia desses, meus vizinhos de Coqueirão eram dois rapazes brasileiros (como nenhum sotaque me chamou a atenção, vou assumir que eram paulistas, mas não posso afirmar com certeza) e dois estrangeiros (um deles era provavelmente inglês, e o outro devia ser francês ou belga). Aquela era a primeira visita dos gringos, e os brazucas tentavam, a seu modo, fazer as honras da casa, falando sobre a cidade e o país.

É claro que cada um tem seus gostos e opiniões e faz um recorte diferente do país em que vive. Mas os dois brasileiros fizeram um recorte, digamos, peculiar do Rio. Entre outras dicas, recomendaram comer no Le Vin ("filial de um ótimo restaurante francês lá de São Paulo") e avisaram que o Shopping Leblon dispunha de lojas da Diesel e da Armani Exchange, e mais uma multimarcas "xis" que vendia jeans de ótimas grifes de fora. Em relação a baladas, "até tem umas boates e festas por aí, mas nada que chegue aos pés da noite de Londres!", sentenciou um deles. Essa foi a deixa para que os dois começassem a tecer loas sobre a noite e o estilo dos europeus, e também disputassem entre si quem conhecia mais clubes e era mais íntimo dos melhores endereços de Londres e Paris.

Não sei se os gringos se sentiram lisonjeados com tamanha deferência, ou se ficaram pensando que o brasileiro é um povo sem muita autoestima. Será que eles haviam decidido voar para o Brasil para comer steak tartar e comprar calças da Diesel? Se eu estivesse na pele deles e me montassem esse roteiro, no mínimo eu soltaria um "puxa, nem parece que estamos no Brasil!", em tom de ironia. Para os dois nativos, porém, estava claro que o valor do Rio (e do Brasil) se media por sua capacidade de assimilar referências estrangeiras e estar up-to-date com o que era consumido nos grandes centros urbanos europeus. Assim, a melhor maneira de impressionar aqueles turistas era mostrar a eles que ali também se vendia Armani.

Não estou questionando o nosso apreço por aquilo que é estrangeiro (nem poderia fazê-lo, já que eu mesmo admiro inúmeras coisas vindas de fora), mas sim o desapreço de muitos de nós por aquilo que é brasileiro. É como se tivéssemos internalizado a ideia de que a herança colonial e o subdesenvolvimento fazem do Brasil um país inferior em todos os aspectos, e cuja cultura não merece ser descoberta e prestigiada. Os dois nativos podem ter dado aquelas dicas para os gringos porque realmente apreciavam os lugares citados; mas eu arrisco dizer que talvez eles não tenham sido capazes de montar um roteiro genuinamente brasileiro do Rio, por puro desconhecimento. Não seria de se admirar, dado o desinteresse que demonstravam pelo próprio país (que deviam conhecer menos do que a Europa).

Paradoxalmente, o que minhas vivências no Exterior me ensinaram foi que poucas nacionalidades são tão festejadas lá fora quanto a nossa. Quando perguntam de onde somos e respondemos "Brasil", a reação dos interlocutores jamais é de indiferença; não raro, é de festa mesmo. Valorizam-se muitas qualidades atribuídas ao nosso povo: espontâneos, comunicativos, passionais, de uma animação contagiante. Isso sem falar na fama de bons de cama, dentro e fora do meio gay. Não pretendo discutir aqui até que ponto esses (pre)conceitos se aplicam, onde termina a tal cordialidade defendida por Sérgio Buarque de Holanda e onde começam os mitos, mas o fato é que ser brasileiro pega bem lá fora. Mesmo que nosso passaporte não seja o mais admirado pelo setor de imigração de alguns aeroportos, mesmo que em certos contextos específicos nosso povo seja associado a referências pejorativas (a mulher vulgar, o michê trambiqueiro), o Brasil está na moda. Com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, então, nem se fala.

Quem decide viajar está se dispondo a mergulhar na cultura do país visitado. Descobrir novos costumes, novas comidas, novos estilos, é aí que está a graça da brincadeira. Pena que os dois paulistas do Coqueirão não entenderam isso. Para eles, era mais importante pedir a bênção daqueles caras-pálidas. E eles não estão sozinhos. Em pleno século 21, muitos brasileiros ainda vivem em função da aprovação gringa. Vibramos quando, ao ler a resenha de um show, ficamos sabendo que a Madonna, a Kylie Minogue e a Lily Allen amaram a gente e disseram que fomos o melhor público que elas tiveram em suas turnês. Ainda precisamos ouvir dos outros que temos valor. Quando será que finalmente vamos nos convencer de que, sim, nós somos legais pra caramba?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Menos Bonner e mais William

Foi contratado pela Globo e ganhou exposição diária no horário nobre. Conquistou uma legião de fãs; passou a receber ainda mais carinho e assédio depois que abriu uma conta no Twitter, onde fala de igual para igual com seu público - dia desses, causou sensação ao dividir sua receita de brigadeiro. Tudo isso seria banal se estivéssemos falando de um ator de novelas. Mas a história se torna no mínimo curiosa quando se trata de um apresentador de telejornal - aliás, o editor-chefe do noticiário de maior audiência do país (o Jornal Nacional, da Rede Globo).

William Bonner está cada vez mais pop. Na tal conta no Twitter, onde já tem quase 160 mil seguidores, brinca com os interlocutores e retransmite os twits mais engraçadinhos a seu respeito. Aliás, ele mesmo parece bem mais soltinho ali do que o JN lhe permite. Entrevistado por Marília Gabriela na última edição de seu programa, que foi ao ar no dia 18/10 no canal GNT, ele explicou que quer mostrar que é "uma pessoa normal" e está adorando esse contato mais próximo com os fãs. Falou também sobre o casamento com Fátima Bernardes (como Tarcísio Meira faria com Glória Menezes, ou Alexandre Borges com Júlia Lemmertz) e, no final, deu uma palhinha dos seus dotes como cantor, entoando alguns versos do clássico "New York, New York", de Frank Sinatra.

Tudo isso me parece bastante inusitado. Mesmo sabendo que apresentadores sérios e sisudos no ar não precisam ser assim na intimidade, fiquei surpreso com essa "revelação" de que Bonner é um cara boa-praça, espontâneo e brincalhão. Ele sempre me passou a imagem de alguém meio arrogante (até mesmo pela posição de destaque que ocupa, e também quando comparou seu telespectador médio ao Homer Simpson) e que se leva a sério demais. Além disso, sua imagem se confunde com a imagem da própria emissora, com todos os juízos de valor e implicações ideológicas que possam estar contidos nisso, o que torna ainda mais complicado "isolar" o William do William Bonner. Cada um tem suas próprias convicções mas, convenhamos, não há como se ficar neutro diante do que a Rede Globo representa para o país.

Mas a reflexão que eu lanço aqui é de outra natureza. O que realmente me intrigou foi ver um apresentador de telejornal tendo com seus fãs o tipo de relação que se esperaria de um Cauã Reymond ou uma Ivete Sangalo. Em relação a artistas, é muito mais natural que exista esse tipo de troca - com admiração, assédio e até cumplicidade. Não estou dizendo que isso é "errado", ou que Bonner deveria se manter dentro da mesma redoma de sobriedade e distância que seus colegas de profissão. Mas o "novo status pop" do apresentador do JN não deixa de ser um bom exemplo da grande avidez voyeurística que os brasileiros nutrem pelas pessoas que aparecem na televisão, de quem desejam se aproximar a todo custo. Em que outro país o âncora do telejornal sofreria tamanha tietagem?

sábado, 3 de outubro de 2009

Rapidinhas com um pouco de tudo

SORVETE NA TESTA 2.0 Zapeando os canais anteontem, acabei caindo no VMB 2009, a premiação anual da MTV (que um dia já foi bacana, lembram?). Duas palavras definem: vergonha alheia. Foi constrangedor. A pergunta que não quer calar: qual a idade mental do público-alvo com quem eles tentam se comunicar: oito anos? Alguém realmente acha graça nas palhaçadas da emissora? Fazer discurso de agradecimento berrando, e dizer que algo é "muito foda", por acaso é... muito foda? atitude, véi? Premiar o "Twitter do ano", êta falta do que fazer, hein!? E o Marcos Mion ainda existe? Devo ter virado um velho anacrônico, só pode ser. A única coisa que prestou foi ver a cara de bunda da Mallu Magalhães e do Nando Reis quando a banda Fresno foi anunciada como artista do ano.

SEGURE COM AS DUAS MÃOS Tenho mais uma larica superluxo para dividir com vocês. Desta vez, o destaque gastronômico não poderia ter um nome mais fuleiro: Zé do Hamburger. Quando me indicaram, logo pensei em uma Kombi estacionada em frente a um desses terminais de ônibus da periferia. Nada disso: é uma lanchonete apertada, mas charmosa, na rua Caiubi, em Perdizes. A carne do hambúrguer de picanha é suculenta, mesmo tendo quase dois dedos de espessura. E o Diner Burger - que leva alface, tomate, pedacinhos de bacon, molho de queijo, um toque de barbecue e finíssimas onion rings - é simplesmente arrebatador. O reinado do St. Louis como melhor hambúrguer de SP corre perigo.

JOGA PEDRA NA GENI O Don Diego tem sido um dos meus blogs gays preferidos ultimamente. Longe da superficialidade que domina tantos outros espaços, o rapaz propõe reflexões lúcidas e muito bem articuladas sobre comportamento, sexualidade e outros temas do nosso cotidiano - mas sem ser chato. Dia desses, ele me mandou o link deste post de um blog americano, comentando a repercussão do assassinato de um homem dentro de um parque em Atlanta, às 2 da manhã, em junho passado. Na opinião pública, houve um senso comum (latente, não escancarado) de que ele teve o que merecia, afinal estava ali fazendo pegação. O mais curioso é que muitos dos que endossaram tal discurso também eram gays - o que mostra como esse assunto ainda é tratado com recalque e hipocrisia até mesmo dentro do meio.

BRAINWASH CATÓLICA, NÃO "Você é favorável ao ensino religioso facultativo nas escolas públicas?" Essa pergunta é objeto de uma enquete que o Senado brasileiro está fazendo em seu site. Por trás disso, está um acordo que o Brasil assinou com a Santa-Sé e que é uma violação ao Estado laico. Por um simples motivo: não se trata de um ensino pluralista, que contemple as religiões em geral, mas tão somente a doutrina católica, que seria imposta goela abaixo nas escolas públicas. O próprio Vaticano já confirmou isso, e a Igreja Católica brasileira, como não poderia deixar de ser, está fazendo a maior propaganda para os fiéis votarem a favor. Se você não concorda com mais essa ingerência e acha que religião deve ser uma escolha pessoal, clique aqui e vote contra. A enquete está no canto direito inferior da página.

MALANDRO É O GATO E falando em religião, fiquei passado na manteiga de cacau com a entrevista com um ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que foi publicada pela revista Época, há coisa de duas semanas. A ovelha desgarrada, Gustavo Alves da Rocha, explica com detalhes como Edir Macedo forma seus pastores e os ensina a arrancar dinheiro dos fiéis. Lógico que temos de deixar a ingenuidade de lado, ler nas entrelinhas e lembrar que as motivações por trás de uma reportagem como essa não são necessariamente nobres - nem as do ex-pastor, que Edir deixou na miséria, nem as da Globo, que se sente acuada pelo avanço da Record. Ainda assim, a matéria vale o confere. Leia aqui.

A VITÓRIA É SÓ O COMEÇO Claro que fiquei superfeliz com a notícia de que nosso querido Rio de Janeiro vai sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Simbolicamente, isso nos traz um reconhecimento e uma visibilidade que são muito bem-vindos (ainda que isso custe ao país um preço que certamente será cobrado). Comemoremos, então, pois temos todo o direito. Mas não deixemos que o ufanismo canarinho nos distraia e nos imbecilize, como já fez em tantos outros carnavais. O Rio - e o Brasil - têm muita lição de casa para fazer. Até a Copa e os Jogos, não dá pra virar Primeiro Mundo, mas dá pra promover melhorias drásticas em diversos aspectos, dos mais localizados (o transporte urbano) aos mais conjunturais (sobretudo a segurança). Não vamos desperdiçar essa chance de arrumar a casa - para os convidados e para nós mesmos. Se esse empurrão não servir, então o que servirá?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Diploma... que diferença?

O assunto da hora em algumas das rodas que eu freqüento é o fim da exigência de diploma para exercício da profissão de jornalista no Brasil, por conta de uma decisão proferida anteontem pelo Supremo Tribunal Federal, em Brasília. No Twitter, não se fala em outra coisa. Mesmo fora dessas rodas, vários amigos meus vieram me abordar no MSN, pra saber se eu estava muito puto (afinal, estou pagando meu curso, a duras penas, por quase três anos) e se eu iria largar a faculdade, já que "agora não precisa mais ter diploma mesmo".

Eu nunca achei que o curso de jornalismo fosse indispensável. Também não é o caso de dizer que "ele não serve para nada", o que seria um despautério, mas tenho plena consciência do motivo pelo qual fiz o curso: furar o cerco do protecionismo instalado no mercado, e conseguir meu lugar ao sol. Foi para isso que já gastei o valor de um carro novo (e continuo andando de ônibus). Não nasci sabendo: é óbvio que eu não poderia entrar em qualquer redação e sair arrasando, sem que me ensinassem nada. Existem, sim, conceitos, práticas e jargões do universo jornalístico com os quais pessoas de fora não são familiarizadas, e que precisam ser aprendidos. Mas imagino que, na prática, em seis meses de trabalho, eu já teria assimilado uma boa parte deles.

Verdade seja dita, a formação em jornalismo não é exatamente das mais sólidas. É um curso que, em três anos e meio (descontando a preparação do TCC), precisa aliar o tal arcabouço teórico e prático "de jornalismo mesmo" com uma formação humanística mínima. E o que dá tempo de ver é mínimo: borrifadas de cultura geral, respingos de antropologia e sociologia, pílulas de economia e política, e por aí vai. O resultado é uma formação bem mais superficial do que a de quem cursou, por exemplo, Direito ou Ciências Sociais. No fundo, o que o profissional vai saber mesmo é dos assuntos sobre os quais ele terá que escrever no veículo em que estiver trabalhando (ops, esqueci que emprego fixo é uma noção do século passado, foi mal aê). É na hora de colocar a mão na massa que ele vai passar a manjar de carros, investimentos ou, sei lá, plantas ornamentais. As lacunas, ele suprirá conforme a necessidade, lendo livros ou fazendo cursos pontuais e dirigidos. Afinal, a busca por informação, formação e atualização deve ser constante - como em qualquer outra profissão.

O que faz um bom jornalista, definitivamente, não é o curso de jornalismo. São os jornais, livros e revistas que ele leu, os filmes e peças de teatro que ele viu, as viagens que ele fez, as pessoas que ele conheceu. É a bagagem de vida que ele acumulou e a cultura geral que ele absorveu - por conta própria, desde cedo, não apenas a vinculada ao curso universitário. É esse estofo de conhecimentos, referências e informações que permitirá a ele entender o mundo em que vive, o lugar que ocupa nele e, de quebra, escrever para os outros com propriedade. Isso e, é claro, o dom da boa escrita - uma habilidade que algumas pessoas sem diploma possuem, enquanto outras diplomadas em jornalismo simplesmente não têm.

Isso não quer dizer, como eu já ressalvei no segundo parágrafo, que o curso de jornalismo seja de uma completa inutilidade. A formação básica é pobre? Sim, mas ela é apenas a porta de entrada para que cada um, seguindo seus interesses e curiosidades, escolha em que seara irá se aprofundar. Faculdade nenhuma é suficiente. Mas, acima disso, o que considero fundamental no curso é a oportunidade de reflexão. De pensar o jornalismo de forma crítica, de ver o que existe por trás da notícia, de descobrir as implicações e limites éticos da profissão - de aprender, enfim, que a atividade profissional do jornalista é imbuída de uma grande responsabilidade social e tem conseqüências. E trazer isso consigo em todas as escolhas pessoais futuras. Quem tem facilidade para escrever, tem um blog e tal, pode produzir textos redondos e até preencher algumas vagas com competência, mas não terá vivido, refletido e crescido com essas discussões, que acontecem dentro da faculdade.

No frigir dos ovos, não sei se o fim da obrigatoriedade do diploma vai mudar tanta coisa assim. O mercado de jornalismo está saturado, paga mal e não absorve toda a oferta (tanto que essa é uma das profissões mais largadas pelas pessoas, que precisam se virar fazendo outras coisas). Veículos que já empregam pessoas sem diploma terão mais tranqüilidade, ao saber que não precisarão mais escondê-las da fiscalização. Mas os peixes grandes da história - Abril, Folha, Estadão, Globo - provavelmente vão continuar usando esse filtro, entre outros tantos de que eles precisam lançar mão para escolher entre milhares de candidatos. Diploma pode não ser requisito, mas ainda servirá como diferencial, porque ele permite supor que você teve um mínimo de preparação (embora você precise provar, do mesmo jeito, que sabe escrever, é bem informado etc.). E outra: sem diploma, você dá a eles um pretexto a mais para oferecerem salários ainda mais baixos. Por essas e outras, vou desembolsar o valor de mais um carro, e resistir ao impulso de me atirar da ponte mais próxima.

sábado, 16 de maio de 2009

Chorando sobre o Milk derramado

Um dos últimos filmes a que assisti antes desse recolhimento foi Milk, de Gus Van Sant, aquele em que Sean Penn reencarna o político e ativista gay Harvey Milk. Muito legal que a nossa geração tenha a chance de conhecer a história real de um líder que ousou remar contra a maré, quebrou paradigmas e enfrentou a mentalidade tacanha da sociedade americana dos anos 70 (não muito diferente da atual, como mostra a trágica Proposition 8). Segundo a última gerente de campanha de Harvey, Anne Kronenberg, "ele imaginou um mundo virtuoso dentro de sua cabeça e, em seguida, agiu para criá-lo de verdade, para todos nós". É um daqueles filmes que apertam uma tecla dentro de nós. E tem ainda o James Franco, que conseguiu ficar lindo de bigode, proeza que 80% dos mudernos de São Paulo jamais vai alcançar.

Ao mesmo tempo em que deixei o cinema tocado e inspirado, uma pergunta não saía da minha cabeça: onde foi que nós perdemos o bonde? Nos dias de hoje, a história de Harvey Milk soa romântica, quase utópica. Se vivesse no Brasil, ele seria tido como um sonhador excêntrico. O que aconteceu? Terá sido a repressão do regime militar, que promoveu o gradual esvaziamento do debate público e do engajamento político? Terá sido o bombardeio das mídias, que nos prostrou como idiotas na frente da TV e do computador, enquanto a vida passa lá fora? Estamos desconectados de tudo o que não diga respeito ao nosso emprego, ao nosso corpo, ao nosso umbigo. Nestes tempos tão individualistas, com cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha, quantos de nós teriam a disposição de se sacrificar, de fazer sua parte por um mundo menos homofóbico, como o ativista Milk?

Pelo visto, muito poucos. Nem para atitudes mínimas temos braços e pernas. A campanha Não Homofobia, abaixo-assinado virtual para a aprovação do Projeto de Lei 122, que criminaliza manifestações de homofobia, conseguiu míseras 40 mil assinaturas. How come?! É tão fácil, não tem que pegar fila nem tomar chuva, basta clicar e pedir para os conhecidos espalharem! Se não engrossarmos o coro, a ignorância evangélica sempre falará mais alto e selará nosso destino (e nossos projetos jamais serão aprovados). O governo federal acaba de aprovar o Plano Nacional de Promoção da Cidadania LGBT, com 51 diretrizes importantíssimas da nossa agenda, desde combate à discriminação no trabalho até reconhecimento da união homoafetiva para fins sucessórios e previdenciários. Você teve a curiosidade de ir atrás e saber algo a respeito? O certo seria acompanharmos os acontecimentos políticos em geral, que afetam o destino de todos os brasileiros, mas nem quando a discussão "é com a gente" nós conseguimos nos interessar.

Será que um futuro mais digno nos aguarda? Será que um dia vamos olhar para trás, e estes tempos de trevas que nos oprimem serão um passado tão irreal e absurdo quanto a perseguição aos judeus, o "endireitamento" das crianças canhotas ou o tabu em torno das mulheres divorciadas? A mentalidade brasileira vai mesmo evoluir, as pessoas que patrulham a existência alheia vão aprender a cuidar da própria vida, a orientação sexual de cada um vai deixar de ser um entrave ao exercício da cidadania plena? As novas gerações serão, de fato, mais tolerantes à diversidade? Linchar gays no meio da rua será considerado algo tão medieval como queimar cientistas na fogueira?

Talvez. Pode ser que sim. Mas para isso é preciso um breakthrough, um choque de mentalidade que precipite essa evolução que hoje acontece preguiçosa, em passo de formiguinha. E eu não vejo de onde pode partir esse choque, pelo menos não entre nós, que deveríamos ser os principais interessados. Mais uma Parada do Orgulho LGBT está chegando, ganharemos visibilidade internacional por preciosos instantes e, de Salvador a Porto Alegre, tudo o que preocupa as participativas bilus é saber a programação das festas e ficar com o corpinho em dia para não fazer feio na pista.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Trabalhador vítima de preconceito conquista direito a uma indenização milionária

Ao entrar em uma agência do Bradesco na Av. Antônio Carlos Magalhães, uma das principais da cidade de Salvador, o gerente Antônio Ferreira dos Santos, que completava 20 anos de carreira no banco em 2004, foi surpreendido por uma carta: "O senhor está demitido por justa causa por motivo de desídia, indisciplina e ato de improbidade". Indignado, recorreu à Justiça, o que resultou na maior indenização trabalhista envolvendo uma vítima de assédio moral já concedida pela Justiça brasileira, e na primeira condenação do Tribunal Superior do Trabalho (TST) por uma demissão imotivada envolvendo preconceito por conta da orientação sexual do trabalhador.

Os ministros da segunda turma do Tribunal garantiram a Santos uma indenização de R$ 1,3 milhão. Até então, a maior indenização por assédio moral de que se tinha notícia no país havia sido de R$ 1 milhão, contra a Ambev, mas em uma ação civil pública em benefício de vários trabalhadores, e que foi resolvida por acordo nas instâncias inferiores, sem chegar ao TST.

Na Justiça do Trabalho, o assédio moral é caracterizado por atos repetidos de violência moral e tortura psíquica e pela intenção de degradar as condições de trabalho do empregado. Os motivos vão desde a pressão pelo cumprimento de metas, especialmente na área de vendas, até humilhações constantes pela opção política do empregado ou por ser portador do vírus HIV, por exemplo. Geralmente, os valores das indenizações em processos individuais variam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, majorados conforme o tempo do contrato de trabalho em questão.

No caso julgado agora pelo TST, o gerente do banco começou sua carreira no Baneb, incorporado em 1999 pelo Bradesco, e estava na instituição há 20 anos. Segundo ele, o assédio moral ocorreu durante os últimos cinco anos de trabalho na agência, até 2004, ano em que a ação foi ajuizada. "Foram os piores anos da minha vida", diz Santos. O gerente relatou à 24ª Vara do Trabalho de Salvador diversos episódios de preconceito sofridos por conta da atitude de um diretor regional do Bradesco que, segundo ele, frequentemente o expunha a constrangimentos públicos - por exemplo, sugerindo que ele utilizasse o banheiro feminino da agência ou dizendo, em público, que o banco "não era lugar de viado".

Após ouvir três testemunhas, a primeira instância considerou que foi colocado em prática um ato típico da Inquisição, que a história já conhece e abomina, e que a empresa deveria arcar com as consequências. Caracterizado o assédio, foi fixada uma indenização de R$ 916 mil, por danos morais (pela humilhação) e materiais (porque, ao ter sido dispensado por justa causa por improbidade administrativa, o trabalhador teve dificuldade de conseguir novo emprego). "A justa causa foi uma forma de camuflar o preconceito", diz o advogado Bruno Galiano, do escritório Cedraz & Tourinho Dantas, que defende o trabalhador.

O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (Bahia) concluiu que a demissão foi discriminatória, mas reduziu o valor da indenização para R$ 200 mil. A disputa chegou ao TST em 2006, cabendo aos ministros decidir se a Lei nº 9.029/95, que quantifica o valor das indenizações em razão de demissões arbitrárias, poderia ser utilizada no caso. Essa lei prevê indenização no caso de preconceito por "sexo" e até então só havia sido usada em casos de discriminação de mulheres no trabalho. Para o ministro Renato de Lacerda Paiva, a lei não surgiu para limitar os motivos da discriminação: outros motivos, como o preconceito por antecedentes criminais, falta de boa aparência e opção política não estão nas normas, e não deixam de ser discriminação.

Os ministros consideraram ainda determinações das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e princípios constitucionais de igualdade e dignidade. A possibilidade de uso da Lei nº 9.029 aumentou a indenização. Isso porque a norma oferece duas opções ao trabalhador demitido por discriminação: a reintegração no cargo ou a condenação da empresa ao pagamento do dobro de seu salário desde o ajuizamento da ação até o trânsito em julgado da sentença, com correção monetária. No caso de Santos, que recebia em torno de R$ 5 mil, a quantia total da indenização por danos somada à condenação pela Lei nº 9.029 já alcança R$ 1,3 milhão. Ainda cabem recursos ao próprio TST e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, se o banco recorrer e perder, o retardamento do processo pode levar a uma indenização ainda maior.

[Matéria publicada hoje no Valor Econômico; a autora é Luiza de Carvalho. Postei aqui porque acho que essas vitórias merecem ser comemoradas e divulgadas!]

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Doritos, boás e purpurina

O Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) determinou ontem a suspensão da veiculação daquele malfadado comercial do salgadinho Doritos, em que um adolescente era gongado por fazer a dancinha de "YMCA". A propaganda foi considerada ofensiva aos homossexuais, na avaliação dos conselheiros de ética da entidade, que votaram, em sua maioria, pelo pedido de sustação do filme. Na época do bafafá, a fabricante PepsiCo afirmou que a peça "não faz nenhuma menção ao homossexualismo" e "respeito, compartilhamento e inclusão são valores indispensáveis para a empresa", em uma nota que não poderia ter sido mais chapa-branca. Agora, ao invés de deixar a poeira baixar sobre o episódio, a empresa irá recorrer da decisão.

Não vou entrar no mérito da propaganda (o que, a esta altura do campeonato, seria como chutar cachorro morto). O que chamou a minha atenção foi que, enquanto os gays se indignaram, os héteros não conseguiram enxergar preconceito algum na peça publicitária. Nos sites AdNews e Clube Online, dirigidos a publicitários, a notícia da suspensão do comercial foi recebida com reprovação. "Ridículo! está acontecendo uma verdadeiro exagero, questiono a capacidade dos profissionais deste conselho em avaliar as queixas", "preconceituoso é quem enxerga a polêmica, a propaganda é ótima", "as reclamações vieram de pessoas que não têm um mínimo de senso de humor, esse é o único comercial que eu paro pra assistir", "obviamente é uma brincadeira sem maldade".

De fato, a grande massa heterossexual não vê nenhuma maldade em se fazer piada com os gays. É uma questão de mentalidade. Ridicularizar os negros é moralmente reprovável, com o racismo sendo alçado ao status de crime (até mesmo hediondo, para alguns), mas os homossexuais não merecem o mesmo veredito quando a violência é dirigida a eles. A referência projetada socialmente - gays são pessoas caricatas, inofensivas, brincalhonas, que não se deve levar a sério - reforça a idéia de que achincalhá-los é normal e plenamente aceitável. A participação de Silvetty Montilla no último Toma Lá Dá Cá, na Rede Globo não me deixa mentir. Que mal há em rir das bichas? É tudo brincadeira! Não me surpreende que o jornal carioca Meia Hora tenha noticiado a morte do estilista Clodovil com a manchete "virou purpurina". Afinal, somos todos alegres e divertidos, não é mesmo? Como gostam de escrever os héteros, "kkkk".

sábado, 7 de março de 2009

A morte não vale a pena

Depois de crimes chocantes como os do menino João Hélio e do músico Marcelo Yuka, nesta semana nos chocamos com mais um perturbador episódio de violência gratuita. Ao sair de um restaurante na Lagoa, área nobre do Rio de Janeiro, um casal foi abordado por um grupo de assaltantes armados. Mesmo sem esboçar qualquer tipo de resistência (o que tampouco seria uma justificativa), as vítimas foram levadas em seu carro até a Av. Niemeyer e empurradas do alto do precipício. Só não morreram porque, por sorte, tiveram onde se segurar no trecho do barranco em que foram jogados [para quem não tomou conhecimento do caso, mais detalhes aqui e aqui].

No calor da indignação que um crime como esse provoca, a pena de morte pode parecer uma solução tentadora. Nas cadeias superlotadas, criaturas capazes de tamanhas atrocidades, além não se regenerarem, oneram os cofres do Estado e ainda influenciam presos menos perigosos. Se não arquitetarem com os comparsas soltos alguma fuga cinematográfica, serão liberados para passar o Natal com a família e, provavelmente, cometerão novos crimes (o indulto pode ser uma bênção para eles, mas também é um pesadelo para a sociedade). Melhor proteger os cidadãos de bem e se livrar logo desse lixo tão maldito. Se possível, sem enrolação: às favas com o devido processo legal, afinal monstros não têm direitos humanos. Aos poucos, a gente vai limpando a casa.

Mas a coisa não é tão simples. Quem pensa assim não vê os problemas em que essa solução aparentemente eficaz esbarraria. O mais óbvio deles é a irreversibilidade de uma pena que também pode eliminar inocentes: gente incriminada em ciladas forjadas por outras pessoas (bandidos ou policiais), ou mesmo vítimas das trapalhadas do próprio aparelho estatal (que prende pessoas por engano e depois tem que indenizá-las). Depois que o sujeito já cantou pra subir, meu chapa, não adianta mais reparar a injustiça.

Haveria, também, um efeito colateral ainda mais pernicioso. Hoje em dia, os criminosos já são inconseqüentes e insensíveis; com a pena capital, teriam a certeza de que acabariam sendo executados, e aí sim sentiriam que não têm mais nada a perder. Com a própria vida valendo tão pouco, qualquer resquício de consideração que eles ainda tivessem pelas vítimas - freqüentemente vistas como culpadas, como os "bacanas" que têm o que eles não puderam ter - iria pro brejo. Eu vou morrer mesmo, então por que te daria uma chance? E assim viveríamos num verdadeiro faroeste, e sem direito a galã.

É compreensível que a barbaridade diante de tantos crimes estúpidos nos cause revolta e desejo de vingança - todos nós sentimos uma estranha compensação quando vemos na TV que os bandidos foram mortos. Mas temos que acreditar que não é com mais desumanidade que uma sociedade desumana melhora. A classe média acha que matar o bandido resolve, mas o buraco é mais embaixo. Se a lógica do sistema que alimenta a desigualdade social não for transformada, novas levas de criminosos virão, e não haverá paredão que resolva. E viveremos ainda mais acuados.