quinta-feira, 2 de julho de 2009

Divã: reinventando a própria história

Não gosto de filmes com anões e elfos. Ou magos e bruxos. Ou galáxias distantes. Ou cachorros inteligentes. Ou machos-alfa que grunhem "uga buga" enquanto trocam tiros e sopapos e se esquivam de explosões, em seqüências de ação "cinematográficas". Ou desenhos animados que viram trilogias intermináveis. Eu gosto mesmo é de filmes que tratam de histórias humanas. Se eu puder me identificar com elas, então, melhor ainda. Por isso, adorei Divã, filme estrelado pela Lília Cabral - atriz que ganhou ainda mais o meu respeito, e passa a impressão de ser uma pessoa muito simpática na vida real.

Aí alguns podem dizer: "Putz, então você se identifica a história de uma balzaquiana que vê seu casamento degringolar, precisa dar um up na vida e vai fazer terapia?! Que coisa mais triste!" Que nada: Divã é um filme leve, "pra cima" e otimista. Tem momentos deliberadamente feitos para serem engraçados (a cena em que a protagonista Mercedes prova um baseado dentro do carro é antológica), mas o grande trunfo são as tiradas espirituosas do livro de Martha Medeiros, que ganharam mais força na tela. A adaptação foi muito fiel ao texto original, com pequenas atualizações. Em uma delas, por exemplo, Mercedes se joga num clube gay (aliás, só mesmo no cinema duas pessoas conseguem entrar juntas no banheiro da The Week sem que a segurança derrube a porta e faça um escândalo...)

O filme passa voando, da mesma forma que o livro, que você lê num só trago. É sempre inspirador ver histórias de gente que quebrou seus próprios paradigmas e ousou se reinventar, passando a viver uma vida mais solta e livre. A sociedade espera que as pessoas se aquietem depois de uma certa idade, mas nunca é tarde para repensar as escolhas, permitir-se experimentar outras coisas, outros parceiros, outras ondas. De certa forma, passei por algo parecido depois de ter sido atropelado, em 2006: aquele acidente em Copacabana foi o divisor de águas de uma vida nova, da qual o melhor exemplo é o curso de jornalismo que vou continuar fazendo ("você não vale nada, mas eu gosto de você!").

15 comentários:

Priscilla disse...

Oi Thiago, Cheguei aqui pelo blog da Lola. Jà li outros texto seus e acho que até já escrevi algum comentário. Gostei muito do texto. A gente tem que se reiventar sim, sempre. Até porque cada fase da vida tem suas demandas, seus desejos, e são muito pessoais, sem regras mesmo, variando de pessoa para pessoa.

Mas, se não prejudica o próximo e nos faz felizes, por que não viver com alegria tudo a que temos direito? Né não?

No meu caso, com 41 anos, acho um exagero dizer que a vida começa aso 40, como diz o ditado, mas certamente há muita vida após os 40...Muita mesmo...Para as mulheres essa é uma idade interessante, e ao mesmo tempo, se nos deixarmos levar por padrões, pode ser muito estressando também, pois é a fase em começamos a deixar de ser vistas pelo "mercado" como "desejáveis" e "sexuadas". Só que não podemos entrar nessa, pois ainda estamos vivas, muito vivas!
Um abraço!
Priscilla

Tiozinho disse...

Martha rules.
aliás, Lília, Thiago...
=P

Voyeur disse...

Bem, ainda nao vi o filme - acredite se quiser - mas pretendo fazê-lo o mais breve possível. Quanto ao livro, já o tenho mais ainda não consegui um lugar na fila pra poder ler. Mas posso dizer que depois de ler tantas críticas sobre o filme - a esmagadora maioria delas positivas - a cada dia que não consigo ver, fico com mais vontade ainda.
Apesar de não concordar totalmente com você quanto a gosto de filmes - afinal gosto cada um tem o seu - digo que adoro filmes fantasiosos, fantásticos, mirabolantes, cinematograficamente explosivos. Talvez seja a minha maneira de escapar um pouco da realidade. Óbvio que também amo filmes sutis, realistas. Na verdade, amo cinema! ^^
Parabéns pelo texto. Sempre ótimo.
Abraços

Voyeur disse...

Ah sim, esqueci de comentar sobre Lilia: a melhor atriz atualmente no Brasil! FATO!
Talvez por não estar tão nos holofotes assim, mesmo Fernanda Montenegro hoje fica aquém de Lilia Cabral!
Abraços

David® disse...

Qdo vc usou a palavra "reinventar" imediatamente veio a mente a sua 'reinvenção' profissional (e acho Q pessoal tb).
Torço por você. Pois exemplos de pessoas (reais) que tiveram tal atitude sempre nos motivam a seguir seus passos.
Um abração!
D.

Daniel disse...

Você se surpreenderia ao descobrir quantos filmes de naves espaciais, na verdade, são sobre dramas humanos apenas revestidos de uma alegoria científica. ;)

Tony Goes disse...

Vi "Divã" no teatro, em 2005, e adorei. Eram só a Lilia e mais dois atores em cena (um deles, a Alexandra Richter, migrou para o filme também).

Estava na maior expectativa pelo filme. E me decepcionei... Não pela mensagem, que continua a mesma, a reinvenção, mas pela forma mesmo.

O pior é que dia desses eu estava na TW e encontrei o Marcelo Saback, que escreveu o texto da peça e também o roteiro do filme, e disse a ele tudo o que eu pensava. Que vergonha.

beto disse...

acho que dificilmente iremos ao cinema juntos um dia. mas tenho váriassssssssss amigas que parecem ter o mesmo gosto que vc.

sobre reinvenções: sou adepto incondicional do pragmatismo. no dia-a-dia. nas grandes mudanças. e nas pequenas também.

Luka disse...

Acho que agora vai,, olha isso
Do site da procuradoria Geral da Republica.
PGR propõe ação para reconhecer união entre pessoas do mesmo sexo.

Deborah Duprat ofereceu hoje arguição de descumprimento de preceito fundamental ao Supremo Tribunal Federal

http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias-do-site/constitucional/pgr-propoe-acao-para-reconhecer-uniao-entre-pessoas-do-mesmo-sexo

Não tem como o STF se negar a aceitar isso.E agora minha gente.. todo mundo escrevendo pro STF.

Jôka P. disse...

Thiago, não sabia que sofreu esse acidente aqui em Copacabana. Espero que tenha se recuperado e que esse momento difícil - e divisor de águas - tenha sido pra levar você pra um caminho muito feliz e bacana. Abç!

marcelo disse...

Thiago,

Assista o filme japones A Partida, que foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro esse ano.

Um dos filmes mais bonitos que eu vi ultimamente!


abs

Isadora disse...

Eu cheguei perto de ser atropelada em Ipanema. A motorista estava de bicicleta. Eu, paulista, estava na ciclovia sem perceber. Quando vi, lá estava ela: guiando uma bicicleta, Ângela Rorô surgiu do nada na minha frente. Se não era ela, era alguma sósia. As possibilidades de reinvenção caso tivesse sido atropelada pela Rorô me levam a pensamentos estranhos :P.
A sua reinvenção valeu a pena pra gente (espero que pra vc também): ganhamos o Thiago jornalista!
Beijos!

rafael disse...

Oi Thi...
Concordo contigo em genero número e grau...
Achei o filme super leve e ao mesmo tempo profundo...
Vamos marcar um café qualquer dia.
Abração e bom final de semana guri

Anônimo disse...

Olha a coincidência, assisti ao filme ontem e li seu artigo hoje, achei bem divertido os comentários...mesmo porque reinventa-se aos 40 não é nenhuma novidade pra mim, resguardando as devidas proporções, claro!!! rs
Beijos diretamente da terra do sol...

Vanessa (da Cásper) disse...

Thi, este filme é realmente ótimo. Fui vê-lo simplesmente pq Lilia Cabral sempre me agradou, mas acabei me encantando pela película como um td. Ainda que haja alguns clichês, como na cena em que a Lilia cai dentro da The Week, o filme como um td é um excelente exercício para vc analisar a sua própria vida. Além disso, é um misto de comédia e drama. Vc ri e se entristece em questão de segundos, graças às maravilhosas interpretações de Lilis e da Alexandra Richter. O elenco masculino, como um todo, achei fraco. Mas só a presença feminina vale o ingresso! E como!
Beijossss