quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Bloco do Eu Sozinho

"Excesso de informações, conexões, expectativas, demandas, novidades... como lidar com isso e administrar o tempo enquanto não aumentam as horas do dia?". Essa linha-fina antecipa o conteúdo do ensaio "Era da Moderação", de Ronaldo Bressane, publicado pela Livraria Cultura na Revista da Cultura de janeiro. O autor explica que vivemos uma era em que o mundo virtual nos bombardeia com uma quantidade monstruosa de informação e cultura. A digitalização da produção e distribuição dessa informação permite que nós tenhamos acesso a tantos livros, vídeos, jornais, músicas e revistas quanto quisermos. Por outro lado, paradoxalmente, usufruímos cada vez menos de tudo isso: descartamos as coisas muito rápido, pois a velocidade com que a informação nos é oferecida não deixa que a gente se concentre e se detenha por muito tempo nela, antes que venha o próximo bombardeio. São discos que baixamos pela internet e deixamos de lado sem antes tê-los ouvido por inteiro, por exemplo.

Diz o pensador de cultura digital Gustavo Bittencourt, citado no ensaio: "Temos uma vasta oferta e uma fome interminável, porém uma capacidade cada vez mais limitada de prestar atenção e investir tempo no consumo de todo esse manancial a nós ofertado. Estamos à frente de um banquete, beliscando rapidamente um pedacinho de tudo que nos põem à frente, maravilhados com a variedade e quantidade de sabores, mas perigando perder lentamente a noção de desfrute". Outra fonte ouvida por Bressane, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, faz uma comparação parecida. "O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos, que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso, e não da falta de escolha: será que utilizei os meios à minha disposição da melhor maneira possível?".

Pois bem, sabem onde fui sentir isso na carne? Justamente no Carnaval de Florianópolis, tema do post anterior, e ao qual hoje volto com mais sobriedade, agora que o pileque de vodka passou e a volta à vida real se impôs.

A cena se monta como o bufê desenhado por Bauman. Milhares de homens belíssimos, vindos de várias partes do Brasil e até do Exterior, depois de dedicar meses (anos) a dietas e treinos intermináveis na academia, e comprar os óculos e sungas da hora, chegam sedentos à Ilha da Magia, dispostos a viver uma maxiexperiência hedonista carnavalesca. Compram logo o "combo" que dá direito a frequentar todas as festas, ainda que isso implique passar cinco dias seguidos dormindo e comendo pouco ou nada. E se jogam, com fé e força. Para onde quer que você olhe, na praia ou no clube, são tantos, mas tantos. Um mais bonito e sarado que o outro. É difícil mesmo fixar o olhar em alguém, porque logo passa um melhor, e mais outro. Parece mesmo o paraíso.

Eu também me preparei para o Carnaval, física e psicologicamente. À minha maneira, acho que cumpri minha missão a contento, pois cheguei pronto para o melhor, sentindo-me bem, com a autoestima em dia, louco para matar a saudade dos cenários, rever os amigos de fora e conhecer pessoas novas. Quando pisei ali, não consegui conter o deslumbramento: uau! Os dias foram passando, estive nos lugares certos nas horas certas. E me diverti, sim. Mas, estranhamente, com tanta gente linda em volta, não vi surgir ali nenhum casinho, nenhuma historinha gostosa. Apenas algumas pegações pra lá de fugazes (não raro, anônimas), e olhe lá. Voltei pra casa satisfeito pela metade: eu não tinha ido a Floripa para procurar namorado, ou mesmo me prender a alguém, mas achei que poderia ter vivido pelo menos uns momentos mais significativos, e nada aconteceu.

Eu já estava começando a pensar que talvez meu poder de fogo não estivesse tão bom assim, e eu deveria me preparar melhor para 2011, quando comecei a falar com outras pessoas que também haviam ido para lá. E fui descobrindo que com eles havia acontecido a mesma coisa. Pouquíssimos haviam voltado para casa com histórias para contar. A maioria não tinha ficado com ninguém - incluindo algumas pessoas de quem não se esperaria isso, como C., um personal trainer que tem o tipo de corpo que todas as bilus querem pegar. Ficou todo mundo tão apalermado com a quantidade de oferta no bufê, que ninguém conseguiu se servir. Ficaram ali se olhando, se olhando, e só. Mesmo os que ficaram com alguém viram a coisa evaporar antes que pudessem dizer "rama-ramama-ah, gaga-oh-la-la".

Talvez eu não devesse ter me surpreendido tanto com o saldo do Carnaval. Afinal, não é de hoje que as relações sociais que se constroem no nosso meio vem sendo empobrecidas pela ânsia do imediato e do descartável. Que encontra um símbolo apropriado nas redes sociais virtuais: eu canso de receber pedidos de "add", no Facebook e Orkut, de pessoas que não me conhecem, e nem estão efetivamente interessadas a me conhecer. Assim como outros tantos "amigos" que engordam meu círculo virtual são pessoas que podem passar por mim ou mesmo estar ao meu lado na boate sem sequer me cumprimentarem (esses, eu periodicamente deleto da minha rede, mas faxina virtual é o tipo de coisa que a gente só tem saco de fazer quando está realmente ocioso).

Aliás, na boate, o interesse nasce, evolui para beijos e agarros e dura somente o tempo em que os aditivos agem no corpo. Passada a onda, tudo se esfarela, um (ou o outro) mira um ponto no horizonte, sai de fininho e desaparece. Valeu. Entre um drink e outro, meu amigo L.A. me diz que "essa sua geração parece ter vindo de fábrica sem o chip para relacionamentos". M., num papo animado ao telefone, divide comigo sua última lição: aprendeu que o approach na balada tem que ser minimalista. Oi, tudo bem? Tá tudo essa festa, quero pegar você, crau. Qualquer palavrinha a mais, tipo perguntar coisas básicas sobre o cara, querer saber algo sobre ele, é papo de "gente que quer arranjar namorado", ihhh, mela tudo na hora. Então tá, lição anotada.

E olha que nem precisamos entrar na velha e cansada discussão de "namoro versus aversão a compromisso". Até a sacanagem pura e simples está sendo prejudicada pela síndrome do fast-eject. Vejam o caso de B., um sujeito bastante prático, que não tem paciência para se relacionar com ninguém, e assume sem pudores ou rodeios seu interesse exclusivo pela putaria. Pois bem: no começo do mês, B. foi a uma dessas festas-do-cabide onde se pratica a fagocitose múltipla por atacado (ou seja, uma suruba). Machos fogosos, luz baixa, zero inibições, estrutura e conforto necessários para arranjos acrobáticos típicos de molécula química complexa. Pois bem, disse ele que chegou disposto, brincou com uns vinte e cinco e... gozou litros, saiu com o bilau esfolado e ficou três dias sem sentar? Não: foi embora pra casa sem gozar. "Cada brincadeira não durava mais do que dois minutos. Quando a coisa começava a ficar boa, o cara se dispersava, ia trepar com outro, depois outro". Sair sem gozar de uma suruba é, decididamente, sinal de que alguma coisa está fora da ordem, não acham?

Enfim, parece que nosso universo gay está tão super-mega-hiper que ficamos prostrados diante de tantas opções, protagonistas de um videogame coletivo em que tudo é descartável e ninguém chega feliz ao final. O texto de Bressane sugere que cada um encontre seu jeito para desacelerar, cavar brechas na loucura e escapar da pressão dos estímulos, simplificando a vida. Talvez a própria noite gay seja uma ciranda da qual às vezes é preciso dar um tempo para a cabeça. Passado o Carnaval, as atenções começam a se voltar para a próxima big thing: as festas da Parada de São Paulo, em junho. Por incrível que pareça, já tem amigo meu planejando os preparativos até lá. Sempre aguardei essa época do ano com muita alegria. Agora, começo a pensar que o bufê que não mata a fome irá apenas mudar de lugar.

36 comentários:

Tchynna Penedo - www-babadocerto.wordpress.com disse...

Bee, melhor texto seu do ano!!! hahah tirando a citação a Baumann q é meio raso demais (ele e não vc), concordo com tudo! a vida virou um rodizio, vc dispensa as carnes menos nobres esperando a picanha. só q ou a picanha nunca vem ou sempre acaba antes de chegar a sua mesa. o restaurante fecha e vc come qualquer asa de galinha que oferecem e ainda sai com fome. (sim, eu escancaro na metafora).

beijos
qnd volta a Vix. temos um roteiro todo para fazermos juntos!

Daniel disse...

Isso me lembra aquela teoria do filme "Uma mente brilhante": quanto mais caras desejarem a moça, menos a moça vai dar bola pra eles. Teria sido Floripa uma maximização gay disso?

Eu nunca deixo de lado a crueldade visual/da carne do nosso meio. Tento encarar esses fervinhos como test drives e sempre faço o possível para, no mínimo, manter algum grau de amizade com o carinha.

Rob disse...

Seu texto eh sempre perfeito Ti assino embaixo! mesmo vivendo com as ovelhas aqui na NZ sei bem o que eh isso... no proximo final de semana estarei no Mardi Gras de Sydney eh tanto homem bom numa festa com mais de 20 mil bibas que eu puto como sempre irei me jogar de cabeca e com certeza fazerei muita pegacao mas provavelmente vou voltar pro hotel sozinho :-( e nao vai ser a 1 vez que isso acontece nao....mas nao eh so ai que isso acontece nao isso acontece em todo o lugar..ta tudo igual muitas opcoes e vc acaba ficando sem saber o que fazer ou melhor o que pegar :-p abracao saudades de ti! Beto

ps teclado em Ingles entao esta tudo sem acento mesmo :-p

Ivo disse...

Com suspiros, tenho de concordar. Até quando está de férias, vamos fazer algo!? Te ligo durante a semana... :)

André Mans disse...

Você tem razão e por isso minha paciência para a cultura gay - apesar que isso tb é super comum em qualquer clã - é quase que nula. Sabe pq? Porque eu vim com esse tal do chip aí citado e ele sempre funciona. Mas sei desligar rapidinho e jogar esse jogo de fast food é b em fácil. Quase sempre.

Beijo e bora chipar por aí.

Lúcio disse...

Concordo em todas as instâncias contigo. Eu acho mesmo queo excesso de opções acaba por afastar as pessoas do que elas querem, a ponto de não saberem mais o que querem ou se querem.

No entanto acho que existe uma facção não retratada no post que são aqueles que DIZEM que querem relacionamento, algo duradouro, que reclamam da falta de profundidade das relações, porém na verdade querem mesmo é um bom rodízio de carne. Simplesmente repetem o que todos dizem, que o bom é namorar, que não querem só ficar com alguém e sim permanecer com a pessoa e tal. São pessoas que na verdade não sabem o que querem, ou melhor, o seu querer está ofuscado pelo que acha que quer. Difícil isso.

Diego disse...

É, é um excelente recorte e um excelente panorama que você captou. Acho que de um modo geral, vivemos em tempos que valorizam a estética, a superfície. E no meio gay isso é ainda mais exacerbado. E parece estar ficando ainda mais, com a lógica da superfície pela superfície.

Isso soa como algo ditatorial. No mínimo irônico, para um grupo que recorre tanto a discursos de independência e de vontade própria na hora de enumerar vantagens de ser gay.

Mas parece que não estamos escolhendo muito. Nem sendo muito independentes. A maioria indo com os imperativos da superficialização.

Ruy disse...

Ótimo texto. O mais engraçado é que vários desses que não tem o chip, conseguem dar demonstrações espantosas de carência, não que relaciuonamentos sejam a solução, mas quando o envolvimento é mínimo, nem nome você tem, será só mais um na pista.

Anônimo disse...

Sempre leio seu blog, mas nunca postei (way too lazy)mas resolvi fazer minha estreia com este post perfeito: parece uma radiografia do que penso. Também estava em Floripa (vou sempre, moro em Ctba)e confesso que há tempos já me enchi de tudo isso, e sei que preciso reinventar a maneira que me divirto, só não sei ainda no quê. Espero que continue no assunto em seu próximo post: Tbém sou jornalista, e adoro a maneira como escreve.
Abs

tommie disse...

Sem juízo de valor, mas isso tem um pouco da adultescência que se manifesta no meio gay. Lembro ter visto em Porto Seguro, há uns 10 anos, um grupo de caras bem novos que competiam quem beijava mais garotas, cada vez um dava uma volta no lugar e voltava comemorando quantas mais beijou, já estavam pra mais de 20 se lembro bem.
Na minha adolescência a grande vitória era conseguir beijar a que vc estava muito a fim. Mas aí os tempos mudaram (pois sempre mudam), e o ´vazio´ é saciado com qualquer boca, de preferência muitas, e pra uns fica faltando aquela sensação de encantamento que advém quando vc passa a ter alguma (mínima que seja) intimidade com o objeto de desejo.
Acho que o one-night stand virou one-kiss stand.
Mas assim como os blocos de rua voltaram a moda, daqui a pouco o romance de verão pode voltar.

Anônimo disse...

Tiago, adorei seu post. Leio seu blogo todos os dias e te admiro pacas. Então eu acho que você falou tudo mas sempre que vejo algum texto falando sobre esse assunto me pergunto: então pq é que nós não fazemos a diferença? As vezes acho que nós gays agimos assim ... parece que estamos numa prisão, só que a cela está destrancada, e podemos sair a qualquer hora, mas ficamos la dentro e dizemos : "que horror! estamos presos nessa ditadura da beleza ... nessa cultura gay descartável", e não percebemos que nos livrarmos disso é uma questão de atitude, de vontade própria e pessoal. Eu não vou ser hipócrita e dizer que não acho lindo um corpo sarado. Adoro ir pra balada, adoro malhar por questões estéticas e de saúde/bem estar, mas pra mim a vida é muito maior que isso. Não tenho paciência pra pessoas que conversam sobre futilidades 24 horas por dia. Agora acho o pior de tudo nós gays percebermos que algo precisa ser mudado mas cada vez mais tentarmos nos adaptar aquilo que não nos satisfaz. Beijos e parabéns pelo blog mais uma vez. Robson / S Jose dos Campos

Anônimo disse...

O texto esta mto bom sim, mas acho que seu teor denuncia o amadurecimento do autor. Lá pelos trinta, as pessoas de bom senso começam mesmo a questionar os excessos de suas geraçoes... foi assim tbem comigo e meus amigos.. ai, alguns, entre eles eu, passaram a investir em relaçoes mais duradouras.. uns conseguiram.... outros nao. Mas um carinha de vinte e poucos nao deve ver excesso de oferta... pelo contrario.
abç
antoine c.

Pegante disse...

Estamos na era de epidemia do DDA (distúrbio de déficit de atenção). Em todos os setores da convivência humana. Já dei de cara várias vezes com tipos que sofrem de DDA sexual. Há um tempo descrevi uma dessas pegações, e essa não foi a única vez.

http://pegaytion.blogspot.com/2009/04/dda-sexual.html

Anônimo disse...

Thiago, meu amigo

Com esse post você acaba de passar com louvor por mais uma prova de fogo. Assunto árido, complexo e você simplesmente passeou por ele com um texto gostoso de ler e, ao mesmo tempo, profundo e provocativo.

Ninguém terá, a partir de agora, nenhuma dúvida de sua competência para se comunicar. (se é que, em algum momento, algum louco já teve essa dúvida)

Mesmo um pouco intimidado e inseguro rsrs, vou deixar aqui minha opinião sobre o tema, apesar de não me sentir nenhum pouco preparado para isso.

É que nos últimos anos, tenho levado meus próprios "deliciosos sanduiches" para esses tais banquetes. Isso fruto apenas do fato de ser um sujeito casadoiro. Nada premeditado! Mas isso acabou me tirando a oportunidade de perceber e sentir tudo isso que você sentiu na pele e que acaba de analisar aqui tão bem.

De toda forma, fico me perguntando se o contexto dessas viagens & festas não é tão importante para que isso tudo acabe acontecendo, quanto o (des)interesse e o comportamento dos gays em si.

É uma dança, um sobe e desce de energia e vibrações. Um corre e corre. Tantos amigos pra encontrar e outros tantos para conquistar. Tantos sons, cores e emoções. E o tempo tão curto para tanto a fazer (difícil até dormir e comer o suficiente e o justo, não é?!).

Acho mesmo bem compreensível que isso aconteça, principalmente por que quanto mais as pessoas ficam fáceis, mais se tornam inatingíveis.

De toda forma, achei muito oportuno e importante o seu alerta! Parabéns, meu querido!

Marco de BH

Marco disse...

1-Essa mercantilização da carne não única e exclusiva do universo gay

2-"estive nos lugares certos nas horas certas", ah, mizifio, ajoelhou, tem que rezar...

eh dos nismos que eles gostam mais?

S.A.M disse...

parabens, meu querido!

texto super inteligente e oportuno. realmente a gente ve isso e infelizmente não há sinal de mudança.


uma pena!

VORNEI disse...

JA NOTEI/VIVENCIEI/REFLETI SOBRE TUDO ISSO...
ACHO QUE A MATURIDADE FAZ NOTAR
VIVENCIAR DA TRISTESA
E REFLETIR FAZ VOCE SEGUIR EM FRENTE.

Leandro K. disse...

Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir, tem um protagonista que bebe o elixir da vida eterna. Todo o livro é construído sobre a ideia de que nada tem muito valor quando se tem a eternidade diante de si.

Na verdade, não é só uma questão de tempo: o grande problema é que só podemos valorizar aquilo que é especial. É como o mercado: menor quantidade de algo eleva seu preço. Sabemos valorizar o raro, o especial, o diferente. Paradoxalmente, todos buscam o igual para poderem "fazer parte". No fim, há um grande grupo de pessoas que "faz parte", mas não vê mais graça em nada. O valor perdeu-se na clonagem - de estilos, de formas de pensar, de lugares, de festas, de atitudes...

Teoria da relatividade sempre atual. Tudo depende da referência de cada um.

Tico disse...

Definitivamente o seu é o melhor blog da blogaysfera! Seus texto sempre são sempre muito bem escritos e sobretudo, suas opiniões são sempre muito bem argumentadas. É um prazer chegar aqui e encontrar um post seu novinho em folha!
Parabéns!

Ed Percebe disse...

Esse seu post, como 99% dos outros é bem feito. É centradíssimo. Vc tem um grande poder de fazer as pessoas terem um comportamento bem introspectHivo no tema que vc aborda, mas eu curiosamente tenho opinião controversa.

A falta de foco ou objetivo nos sujeita a resultados igualmente descritos no seu post. E vale lembrar a máxima filosófica: "quem quer tudo, não quer nada". Em exemplo, desejar a todos é não desejar a nenhum/nada.

A maioria sabe disso, mas às vezes a gente se esquece. Esse "às vezes" costuma ocorrer quando menos poderia/deveria. É até engraçado, depois de tudo, quando a gente pára e analisa.

A vida dá muitos exemplos para nós neste sentido, não é só no carnaval não. Para qualquer situação na qual teremos a nossa expectativa frustrada retorna uma sensação de vazio. Não digo aqui que tenha sido o caso, pelo menos não no todo, mas em pontos específicos que justificaram o seu sábio post.

E quanto ao lance do chip, todo mundo tem... mas esse chip, por opção e não por esquecimento, alguns (ou a maioria) não faz mais questão de usar... Isso coloca algumas pessoas numa condição anterior ao fato de "desejar tudo é não desejar nada". A idéia de foco não existe ou então o foco do sujeito é só pegação... Ademais isso rende um post do tipo "chover no molhado". Todo mundo sabe que os gays ainda enfrentam uma certa repressão social, então o carnaval, a parada glsbttxyz, e etc etc etc viram a válvula de escape, e etc etc etc... (é, realmente é chover no molhado)

Na semana pós Parada eu venho ler seus novos posts. Abração e desculpe se em algum modo pareci rude no meu comentário.

Isadora disse...

Thi, adorei seu texto, mas acho, como te disse, que há outra questão aí: a oferta é grande e as relações são efêmeras, mas o que vejo cada vez mais são as pessoas fechando seu leque de possíveis parceiros em tipos ideais, ao invés de abrirem. Ou seja, fechando-se à experimentação, e acho que o tipo de evento para o qual você foi é bem típico desse fenômeno.

De todo modo, belo texto. Adorei essa parte: "Mesmo os que ficaram com alguém viram a coisa evaporar antes que pudessem dizer 'rama-ramama-ah, gaga-oh-la-la'". Divertido.

Beijo!

Anônimo disse...

Um amigo meu, 35 anos na cara, resolveu tomar remédios, hormônios etc. (além de reforçar a malhação) para voltar ao corpaço de antigamente. E, tudo isto, porque no último carnaval ele não fisgou tantos pintinhos quanto esperava. Meu amigo notou que hoje há "mais homens mais bonitos" do que antigamente, e que por isso é preciso lutar para ficar na concorrência. Meu amigo tem o celular cheio de números e sempre viaja com, pelo menos, cinco trepadas marcadas por lugar visitado. Outro dia eu viajei 8 horas para ter um único encontro - que, aliás, não deu certo - e meu amigo me tachou de imbecil. Ele tem razão. Só um imbecil consegue, hoje em dia, enxergar uma pessoa como aquilo que ela é: uma pessoa, e não "mais uma pessoa", "menos uma pessoa" ou um mal necessário para saciar os tesões sempre urgentes.

Rick Basso disse...

adorei o texto. mais ainda de uma palavra: bufê. Procuro ficar bem longe dessas movimentações todas.rs

Breno disse...

Que texto são.

E Bauman é essencial pra entender isso tudo que está acontecendo com nossa sociedade (e não somente entre os gays): liquefação de estruturas, uma fome insaciável de novidade e ao mesmo tempo o descarte imediato do que era novo há cinco minutos atrás e a idéia de que, o estar somente com uma pessoa significa potencialmente deixar escapar todas as outras possibilidades oferecidas pelo mundo. Como se fosse mérito a quantidade de bocas beijadas e corpos artificialmente construídos que foram desfrutados na última festa.

O que percebo é que a maioria aproveita, se esbalda, e volta sozinho pra casa no fim da noite pras suas vidinhas medíocres com uma sensação desconfortável de vazio no peito.

Aliás, pra quem não conhece, leia "amor líquido", do Bauman.

Lourival Lima Jr disse...

Primeiramente, foi ótimo te encontrar no aeroporto indo para Floripa. Havia tempos que não te encontrava, principalmente por culpa minha. Estava sem sair e depois, como viu, estou namorando e dei uma aquietada.

Este Carnaval foi bem diferente para mim. Visto que estou namorando, meu foco não era a paquera. Mas pude notar junto com os amigos solteiros que todos se impressionavam com os corpos, mas nada rolava.

Daí levanto a teoria de que querendo aproveitar de tudo um pouco, acaba-se não se aproveitando nada. Também tenho a impressão que homem muito bonito não pode nunca paquerar, ele que tem que ser paquerado. Muita gente linda e quase ninguém se pegando, achei isso muito estranho. Seria necessidade de se auto-afirmar? Carão puro? Fico com a impressão que todo mundo malha, malha somente para ser visto.

Como meu foco era outro, aproveitei as festas horrores, dançando pacas. Fomos somente em duas festas, queríamos nos jogar menos e curtir mais praia.

Agora fica a sensação de vazio pois há tempos não curtia tanto uma festa como a de Segunda de Carnaval. Saímos no Sábado pós-Carnaval, o chamado "Enterro dos Ossos", e achamos a noite bem chata. Acho que tudo se resume a uma eterna espera pela "next big thing", sempre ansiando por mais e nunca se satisfazendo.

E "nosso mundo" continua girando assim: os lindos sempre solteiros, pois querem aproveitar a beleza para trepar o máximo de parceiros possíveis, e os feios sempre desejando os lindos, mas entendendo que não existe príncipe encantado. Existem suas exceções, lógico.

E vamos ver se nos esbarramos mais.

Abração.

Anônimo disse...

Eita bode hein bee? Serotonina já!

edgard disse...

As vezes é mais fácil culpar o outro. O outro não quer relação séria, o outro cuida só do corpo, o outro é volúvel...
O outro que seja como quer ser. Eu me diverti horrores em Floripa com meu namorado numa casa com 17 amigos, sendo que vários deles casados e outros tantos que se arranjaram no carnaval mesmo. Talvez estivessem menos preocupados com o que o "outro" faz ou espera, mas mais focados em si e na busca da alegria.

Marcos disse...

- Por isso q eu achei esse carnaval de Florianópolis uma chatice só.
- Mta badalação, pouca efetividade, numa cultura onde os amigos, os corpos e as pessoas viraram descartáveis, apenas porque alguém 'melhor' apareceu.
- E os critérios pra se considerar alguém 'melhor' são os piores possíveis.
- Se relacionar com alguém em Florianópolis nesse carnaval, mesmo q fosse só pra uma trepada, ficou parecendo mais uma seleção de emprego ('qm é o melhor dentre esses candidatos?') do q algo propenso a ser espontâneo, divertido e natural.

beto disse...

Esse seu texto rendeu!
Li os últimos comentários e vim comentar em cima deles...
O anônimo que tem amigo de 35 anos que resolveu tomar bomba pra enfrentar a concorrência de corpões me lembrou de um amigo meu que...
... pelos mesmos motivos, resolveu tomar M-drol, pegou hepatite medicamentosa, ficou quase 1 mês de cama e no fim entrou em depressão.
Já o Lourival, Edgar e Marcos tocaram no ponto das expectativas para eventos como esses.
Eu, über-realista que sou, já vou contando que, felizmente, sei me divertir no bloco-do-eu-sozinho, dançando muito e aproveitando as músicas e o cenário. Pois, entre carão, colocón, busca pelo inexistente príncipe perfeito, excesso de oferta que leva todo mundo a não decidir por nada, sobra espaço quase zero para se conhecer mesmo alguém.
E há uns 4 anos meu lema passou a ser "não deixe sua felicidade na mão dos outros". Assim, consigo navegar bem e não me afogar nesse universo gay que pode ser tão destruidor de auto-estimas.

RJ disse...

Oi.
Passo no seu blog às vezes e este post me fez lembrar disso aqui:

Tudo bem?

Não sei... Mas nunca responda isso. Muito menos, “não”. Isso pode assustar, horrorizar e mesmo afastar. Entendeu bem? Não seja chato. Não seja verdadeiro. Nunca seja sincero. Sempre responda que sim, pois esse “tudo bem” é a pergunta que exige a senha correta, aquela que te inclui no grande grupo. Qual grupo?

A pergunta “Tudo bem?” perdeu o seu sentido real. Ela não significa mais o que significa. Portanto, a resposta nada vale. A resposta sincera não interessa mais e sim aquela que se encaixa como senha, que te leva a um mundo perfeito. O mundo do grande grupo.

Dizer que está tudo bem é assumir a verdade de todos. É dizer que sim, você está bem. Seu corpo está bem, por isso é definido, forte, saudável, invejável, desejável. Que você é um sucesso, portanto, suas prateleiras acumulam prêmios, você freqüenta várias agências bancárias e sempre sai sorrindo delas. Afinal, você é competente e infalível.

Dizer que está tudo bem significa que amorosamente você é um sucesso. No equilíbrio, nas escolhas, na cama e nas festas, claro – antes, durante e depois. Significa que você é o orgulho dos seus pais, o eterno e sagrado herói dos seus filhos. Eterno e sagrado. Significa que você é a melhor escolha. E que você sempre faz as melhores escolhas.

Dizer que “não, as coisas não andam bem” ou simplesmente “não”, leva você à condição de um ser marginal. Faz com que você esteja longe do normal, longe do tempo. Deste tempo. Isso é proibido. Pelo menos nesse grupo que existe aí. Aqui.

Ou seja. Se você não está bem, você não existe. Ou não deveria.

Abraço.

CriCo disse...

olha, depois q eu comecei a encarar q tudo o q acontece é mera consequencia, tudo na noite ficou melhor pra mim. hoje em dia não saio mais para "caçar", e sim ouvir boa música ao lado de bons amigos. o que acontecer, além disso, é consequencia.

Music is my boyfriend disse...

Não querendo ser saudosista, mas.. Faz tempo que a noite gay mainstream deixou de ser divertida - e olha que comecei a sair ontem, em 2005. Na real, nunca entendi o verdadeiro motivo para tanta pose e carão. Todo mundo deve voltar para casa e bater uma punheta sozinho, creio eu. Tipo aquele cara que toda vez que te vê na academia, vem puxar papo, e que quando te vê na buatchy, finge ignorar sua existência. Tem também aquela história da pegação virtual (que nunca me interessou, por sinal), e que como todo mundo já sabe, levou parte da nossa comunidade a fazer tudo às escondidas, ou nem desenvolver a ação no mundo real. Aparentemente, ser visto paquerando/conversando/beijando alguém em público virou queimação. Até a Bubu, famosa pela pegação descontrol, ficou chata de uns tempos para cá. Sem falar nos Es, Gs e Ks que transportam as pessoas para uma galáxia distante, e lá as deixam. É por isso que eu perdi o interesse nestes lugares, e passei a frequentar outras festas e círculos com público mais mix e relaxado. Buatchy gay agora, cinco vezes ao ano e olhe lá.

Don Diego De La Vega disse...

Acabei chegando tarde pra comentar esse assunto por aqui.

Mas já tinha falado pra vc particularmente: acho q o fenômeno q vc descreveu é culpa do CONSUMO cada vez mais feroz a que estamos submetidos em todos os âmbitos, não somente no meio gay.

E vou te dizer que não quero me meter em boates pra ficar viciado nessa busca. Sabe por que? Porque ela não tem fim.

Sempre vai ter um outro cara delicioso na próxima festa, na próxima cidade, no próximo país ou aquele moleque que morava no seu prédio e vc ignorava pq ele tinha 14 anos mas agora q está com 20 e malhadíssimo está um Kayky Brito de gostoso.

E a gente envelhece, como alguns dos seus leitores já relataram, e não vai conseguir ter o corpão de um garoto de 20 anos que cresceu com a noção da importância de uma academia pra auto-estima masculina gay, com a internet bombando e principalmente com a liberdade de poder ser gay em milhares de locais e situações q a gente nem pensava nos nossos 20 anos.

Acho q o nome disso não pode ser outro: vício. Pela busca.

Anônimo disse...

Há algum tempo voce escreveu aqui que faz revesamento entre rio e floripa no carnaval. Quem sabe, depois dessa, voce acorde, e veja que "gueto" não tá com nada, e existem outros lugares MUITO interessantes no mundo, fora desse calendário gay-fashion-hype-futil que voce critica, mas cultua e persegue (o-lugar-certo-na-hora-certa!)
Talvez esteja amargo, porque, assim como aconteceu na fila do SONIQUE ha alguns meses, voce não recebeu a atenção que imagina merecer.
Talvez esteja exercitando o pseudo-desapego pq isso seja mais "in" do que assumir o corpo bombado (que não tem) e a pegação (que nao rola tanto qto queria)
Voce fala/escreve muito. Eu avalio mais a pessoa pelos seus atos, e não pelas palavras. E seus atos demonstram que voce se esforça MTO para continuar frequentando e "sendo alguém-sendo aceito" nesse mundinho de horas/lugares/pessoas/comportamentos certos.
Vamos ver se a "moderação" dos comments esta aberta a críticas, ou só aceita elogios dos que confundem prolixidade com qualidade de texto.

Existe vida além do gueto, gato!!

Anônimo disse...

Uma única frase do seu post anterior demosntra que esse aqui, inteirinho, é pura hipocrisia da sua (não-tão-inocente) boa vontade:

"Quem quiser aparecer em 2011 precisa investir no corpitcho desde já, and I mean it!"

Hellowww!!

Introspective disse...

Anônimo acima: não vou perder meu tempo discutindo as análises, interpretações e julgamentos sobre a minha pessoa feitos por alguém que não tem nome, cara, rosto, muito menos me conhece, para saber o que faço (será mesmo que eu só vivo no gueto?) ou o que passa pela minha cabeça. De qualquer forma, já que sou tão importante para você a ponto de fazê-lo querer que eu saiba o que você acha, então não me custa satisfazer sua necessidade de atenção: estão aí registrados os seus palpites.