sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Morte e prazer

Como já contei para vocês aqui, em matéria de filmes e seriados, não sou muito chegado em super-heróis, gnomos ou vampiros. Gosto daqueles que falam sobre relações humanas: Beleza Americana, As Invasões Bárbaras, C.R.A.Z.Y., O Albergue Espanhol, Amélie Poulain, Desperate Housewives... quanto mais "vida real", quanto mais eu puder me identificar, melhor. E sem violência gratuita, por favor. Dos gêneros que não me interessam, eu costumo passar longe, mas às vezes acabo vendo alguma coisa, involuntariamente, enquanto corro na esteira da academia. Nesse caldeirão entra diumtudo, desde filmes de ação, terror, guerra e suspense, até seriados policiais. E foi justamente vendo um seriado policial na esteira da academia que me veio o estalo para o post de hoje. Na tela, um serial killer russo dopava uma mocinha e a prendia numa cama, semiacordada entre a vida e a morte, meio lúcida mas indefesa, para violentá-la e matá-la lentamente.

O que chama minha atenção nesse tipo de entretenimento é a maneira como a morte é explorada. Nada de tiros, que são rápidos e imediatos: morte que se preza é aquela de "causa mecânica", que provoca sofrimento e faz a vítima nos brindar uma expressão de dor e desespero (com ou sem gritos, aí já é uma questão do estilo de cada "obra"). É uma morte que se estende por algum tempo, para que sua agonia seja contemplada e saboreada pela audiência. Um exemplo bastante ilustrativo é Premonição, um grande sucesso de bilheteria que já teve três continuações, e se resume a um desfile contínuo de mortes por acidentes macabros. Duas pessoas são tragadas por uma escada rolante de shopping center, outra morre afogada dentro do carro num lava-rápido, e por aí vai, até a película acabar [se você não conhece e ficou curioso, tem uma amostra bem desagradável do volume 4 aqui].

Alguns podem argumentar que, no gênero do terror, a presença (ou mesmo a simples iminência) da morte não é gratuita, mas o próprio combustível do suspense que sustenta o filme. OK, vamos pensar então nos seriados policiais do tipo CSI, que se multiplicam pelos canais de TV a cabo. Sem os mesmos ecos sobrenaturais dos filmes de terror, as mortes, geralmente causadas por assassinos seriais, não provocam tantos gritos. No início de cada episódio, é lançado um mistério, e os mocinhos-investigadores vão gastar a sola do sapato atrás de pistas e informações que possam levar ao culpado. Na medida em que suspeitos, testemunhas e afins vão dizendo o que sabem, e as peças do quebra-cabeça passam a se encaixar, as cenas dos assassinatos em flashback vão se repetindo, e repetindo, e repetindo.

As soluções da trama são precárias: os agentes têm a sorte de ir direto nas pistas certas, a tecnologia faz verdadeiros milagres, e tudo se desvenda sem maiores problemas. Fica evidente, portanto, que a "graça" (?) dos tais seriados não está na construção e desmantelamento dos enigmas, e sim na exibição das cenas de morte em si - os pontos altos de cada episódio. Dentre os diversos métodos possíveis, o estrangulamento é um dos mais adequados: a vítima se vê num crescente desespero, que contrasta com o semblante frio e impassível de seu algoz, enquanto sua vida vai se esvaindo. Se antes de morrer ela for torturada, melhor. O ritual de execução se desenrola num crescendo (prazer?), que culmina com o esgotamento da resistência, o instante da morte - o clímax. Que será repetido em vários ângulos a cada reconstituição do crime pelos investigadores. É um orgasmo com direito a replay.

Ver alguém gritando e virando os olhos enquanto é esmagado, as marcas da violência em um cadáver estendido no IML, a frieza do homicida operando a morte, tudo isso deveria ser agoniante e repulsivo. Mas, por algum motivo, filmes e seriados que exploram e celebram a morte fazem enorme sucesso. Não é possível que todos os fãs desses gêneros sejam psicopatas incubados que precisavam só de um empurrãozinho para sair por aí cometendo atrocidades. A hipótese que me parece mais razoável é que deve existir, em alguma salinha do inconsciente de pessoas "normais", um lado negro que extrai prazer da morte e do sofrimento alheio. Um sadismo camuflado, que não extrapola às vias de fato, mas se realiza com cenas de mortes e desgraças. Os produtores desses filmes e séries devem entender isso melhor do que eu. Pergunto: de onde virá esse fascínio tão mórbido?

20 comentários:

Lobo Cinzento disse...

Pelo menos comigo é assim: Eu gosto de ver o sofrimento alheio, porque eu consigo visualizar as pessoas que gostaria muito que sofressem daquela morte lenta e dolorosa, e cololá-las no lugar das vítimas por todo aquele período. Dá uma sensação de felicidade e paz intangíveis pensar em como seria delicioso presenciar a tortura e morte daquela pessoa daquela maneira...

Daniel disse...

eu confesso que vi os 2 primeiros "Premonição" (um no cinema) e 3 ou 4 "Jogos mortais". Também tive uma fase na adolescência que adorava filmes de terror só pela esquisitice e pra espantar a normalidade e bucolismo da minha infância. Mas como tudo na vida, passou.

hoje eu fecho os olhos nas cenas mais sangrentas de filmes desse tipo.

Mas ainda acho que você deve reconsiderar a sua aversão a filmes fantásticos. Muitas vezes, o cenário surreal é só uma alegoria para um assunto universal. Claro que com a decrescente qualidade do cinema como um todo, isso vem ficando raro, mas vale a pena ver alguns.

Tiago BSB disse...

Sou parecido com você nesse ponto. Por mais que passe raiva às vezes, jamais gostei de ver gente nessa situação, nem a pessoa que me fez passar raiva. A verdade é que somos complexos, e esses seriados/filmes são meio maniqueístas. Talvez também não tenha paciência porque já vejo coisas desse naipe à exaustão no trabalho.

Rodrigo Teixeira disse...

compartilhamos do mesmo gosto, não curto vampirescos e couzas... os dramas reais me apetecem mais.

beijos, guri.

Marcos - SC disse...

Eu me faço a mesma pergunta. Meu medo é que as pessoas tenham perdido em nossos tempos qualquer noção de humanismo, tão dolorosamente conquistado ao longo de tantos anos, décadas, séculos.

Diego disse...

Uai, mas é isso. Você concluiu no último parágrafo. Há uma identificação gozosa, um prazer em ser espectador do sofrimento alheio. Isso é humano. Alguns extraem prazer em maior grau, outros em menor, outros repudiam e outros ficam indiferentes. Mas é com esse prazer que esse tipo de filme busca dialogar.

A psicanálise explica melhor, eu sou ignorante nesta seara.

Fábio Carvalho disse...

Além do já apontado sadismo camuflado, tem tb o efeito abutre ou urubé, onde o sujeito tem prazer em ver a carniça do outro, justamente porque não é a dele, como qdo há um acidente na rua com morte, onde as pessoas chegam a diminuir a marcha pra ver melhor a morte exibida na sua cara.
O mórbido, na mesma medida que assusta, seduz. O ser humano gosta de flertar com a morte, desafiá-la, rir da sua cara, como uma forma de negá-la, de expiá-la.

railer disse...

eu acho que a questão é outra. o terror traz adrenalina pra muita gente, do mesmo modo que uma montanha-russa ou algum brinquedo radical. daí como a gente sabe que a sensação é passageira, a gente se diverte com isso. sentir medo tem esse lado.

eu sou fã de filmes de terror e suspense. vejo todos.

Thiago Alves disse...

Estou assistindo bastante atento ao Seriado Dexter, cada episódio é extremamente bem escrito de forma que percebo que nós humanos somos bons e ruins ao mesmo tempo, traumas na infância principalmente são a chave de todo o despertar da ótica ruim que existe em cada um de nós.
E o incrível é o que parece anormal para os nossos olhos nem sempre é aos olhos de outrem.
Adorei o post!

HSLO disse...

Eu não gosto...prefiro um drama.


abraços

de luz e paz


Hugo

FILIPE ELOY disse...

Concordo com o Fábio! O mórbido nos seduz. É da natureza humana se fascinar pela morte. Uns têm este desejo mais acentuado, outros nem tanto.
Verdade é que muitos gostam de estar perto da morte, mas da maneira mais confortável e artificial possível. No caso, sentado num confortável sofá, vendo televisão.

Me fascino pela morte, mas tenho um tesão muito maior pela vida. E isso que me completa, que me abastece.

beijao

Filipe Eloy
http://tantoquetransborda.blogspot.com

Paulo disse...

Não sou chegado nesses filmes. Gosto sim de tomar uns bons sustos, mas está tão difícil achar um filme que não seja previsível e fuja do padrão da maioria...

Agora, mega destruições eu adoro! Amo ver os efeitos especiais em ação, hehe! Se não for num filme, que seja em algum documentário da Discovery! :P

Lourival Lima Jr disse...

Lindão, todos nós, SEM EXCEÇÃO, temos um lado negro. Até esqueci como os psiquiatras chamam esse lado negro. E esse lado negro precisa ser alimentado, em maior ou menor grau. Talvez isso expliqueo porquê de termos essa atração por seriados policiais e filmes de terror.

Eu assisto de tudo. Não dispenso um bom terror ou policial, uma boa ficção científica com mortes e mais mortes. Talvez meu lado negro seja mais desenvolvido, sei lá. Mas tenho "nojinho" de muito sangue.

Psicopatas todos somos, mas mantemos nosso "psicopata pessoal" sob rédeas curtas. Aliás, já leu "Mentes Perigosas", que fala sobre psicopatia? Leitura interessante.

Edgard disse...

Na moral? O fascínio mórbido deve ser fruto de uma frustração (que em muitos é passageira) assossiado ao desenvolvimento mental. Cinema e TV querem grana, só. Então exibem estas porcarias. Quem gosta e bate no peito pelo menos evoca a opinião e gosto (ou mau gosto). Adoro Sci-Fi diferentemente de vc Thiago e me amarro num drama, mas o gênero sangrento tou fora e não deixo meus sobrinhos assistirem. Um video-game com jogo de tiro ainda vai... um super herói massacrando adversários maldosos no contexto eu acho legal, pois nos games e filmes existe um enredo (as vezes uma guerra) e serve de pano de fundo para os atos (e as guerras existem e sempre existirão, infelizmente), agora maldade gratuita (#comoassim?), tou fora.

Abraços

Vaca Jersey disse...

Sinceramente... acho que todo mundo tem essa veia sádica/mórbida dentro de si... o detalhe é que só alguns assumem, hehehe!
Adorei teu comment sobre o pai, guri! Valeu mesmo!
E eu sempre sou "pessoal", ora essa!!!!! Hugzzzzzzzz!!!

Don Diego De La Vega disse...

E aqueles filmes Faces da Morte que supostamente mostravam cenas reais de execução, suicídio, etc? Cult dos anos 80....

;)

Eu adoooro filmes de terror. Tenho todos os Sexta-Feira 13, todos os A Hora do Pesadelo, os Aliens, os vampiros...tudo q vc imaginar. Premonição, Jogos Mortais....por aí vai.

Igor disse...

Thiago, quanto a sua pergunta, sinto te dizer rsrs que você não tem tantos problemas psicológicos ou psicopáticos quanto a maioria das mentes humanas sofridas por dentre nosso mundo. Sou exatamente como você, gosto de emoções , do real, mesmo com tom de ficção. Logicamente, todos nós já assistimos um sangue-escorre de Hollywood rsrs. Mas o gostar de assistir não necessariamente é um sinal de fascínio mórbido,e sim de uma ausência total de empatia nas relações humanas. O mundo está complicado, todos riem quando alguém discute num ônibus, brigam na rua... O nosso cotidiano está um verdadeiro filme de terror e o povo aplaude!

Lamentável...

Fernando disse...

Oi Thi,

Eu faço parte do time dos de mau gosto (se bem que chamar o silencio dos inocentes, o iluminado, entre outros filmes de mau gosto é bem questionável) que adoram filmes de suspense/terror, seriados policiais, etc…

Sobre a questão levantada por você, já busquei entender e há algumas teorias sobre o assunto. Concordo com umas e discordo de outras. Aliás a primeira eu abomino. Vou tentar resumir aqui apenas para ampliar a discussão:

1. A decadência da sociedade reflete numa busca/necessidade de violência a ser saciada;

2. Funcionam como uma maneira de sentirmos medo em um ambiente controlado. Essa experiência pode revelar-se agradável, pois o medo pode ser controlado, e está limitado a uma forma de escapismo ficcional que dura algumas horas. Talvez a explicação nesse caso seja física: a emoção ao assistir esse tipo de filme eleva a frequencia cardíaca e promove a descarga de adrenalina, por ser de maneira “controlada” já que não se trata de uma ameaça real, essa sensação pode ser processada e usufruída;

3. Um estudo recente argumenta que a razão pela qual pessoas gostam de assistir filmes de terror é que eles são uma maneira de vivenciar as emoções positivas e negativas simultaneamente.

Tem ainda a questão de saciar o lado mais sombrio da mente, um lado negro que todos nós temos, mas que a sociedade (e a civilidade) convencionou (corretamente, diga-se de passagem) que deve ser reprimido. Algo instintivo, primário, enfim... na linha do seu raciocínio final.

Eu tenho sentimentos mistos em relação a porque gosto desse tipo de filme. Eu gosto da emoção, de estar sob tensão, do suspense. As cenas sangrentas de morte, a tortura, o sadismo, me provocam uma sensação incômoda, mas o fato de estar consciente de que se trata de ficção me permite assimilar a cena e seguir adiante.

Agora mais do que nunca, nos dias atuais, o gênero não me diz muito. O que procuro é uma boa história. Tendo isso, vale até aqueles soft porns da TV a cabo rsrsrsr.

Um abraço,
Fernando

Alicia disse...

Bom, sinceramente eu acho muito prazeroso como a historia é desenvolvida, o prazer pelo sofrimento ao próximo no meu caso ñ é tão intenso como pode ser para os outros, em casos como esse, mas ñ irei negar q tenho algum prazer e ver algumas senas de tortura, morte e etc.

Anônimo disse...

Bom, sinceramente eu acho muito prazeroso como a historia é desenvolvida, o prazer pelo sofrimento ao próximo no meu caso ñ é tão intenso como pode ser para os outros, em casos como esse, mas ñ irei negar q tenho algum prazer e ver algumas senas de tortura, morte e etc.