terça-feira, 14 de junho de 2011

A Nova York brasileira

Uma das coisas boas de viajar para o Exterior é a chance única que temos de ver sob um outro prisma não só a nossa vida, como também o nosso país. A repetição da rotina acaba anestesiando os sentidos e o senso crítico. Quando saímos do habitat, esse novo olhar mais fresco pode nos fazer descobrir coisas que nem imaginávamos. Ou ainda confirmar antigas convicções. Como é o caso da tese que irei defender neste texto. Eu já dizia isto aos meus amigos, e agora estou mais convencido do que nunca: São Paulo é, definitivamente, a Nova York brasileira.

Quero deixar bem claro que não se trata de tentar emular um estilo pretensamente nova-iorquino, em busca da aceitação alheia. Não, não continuemos agindo como uma colônia, não precisamos disso, muito menos que a Sarah Jessica Parker seja paga para dizer que Sell Powlo tem uma amazing energy, naquela propaganda constrangedora do Shopping Cidade Jarjim. Até acho que existem algumas sutis similaridades entre as duas cidades. Por exemplo, a região da Paulista entre a Ministro e a Augusta tem um leeeeve perfume de Rockefeller Center, especialmente no prédio do Safra e naquela pracinha que fica em frente ao restaurante Spot. Quando eu andei a pé por Midtown, em diversos momentos senti uma certa familiaridade: "isto poderia ser São Paulo". Mas não é bem essa a ideia.

Com grande porte, ritmo frenético e trânsito intenso, Nova York é absolutamente tomada pelo cinza. Se deixarmos de lado o Central Park, espécie de "pulmão verde" da cidade, tudo que temos é um mar de prédios e táxis amarelos. Não por acaso, uma de suas atrações mais fotografadas é o arranha-céu Empire State Building - que, não fosse pela altura, seria um prédio até bem comum. E a sala de visitas da cidade, Times Square, não é mais do que a confluência em X de duas avenidas, completamente abarrotada por painéis publicitários e banners luminosos, que bombardeiam as retinas dos passantes e lembram que tudo que existe ali deverá ser consumido imediatamente. Não existe nenhuma beleza rara ali - é preciso muito Woody Allen na veia, muitas caixas de Friends e Seinfeld, para começar a enxergar "charme" em Manhattan.

E, no entanto, a cidade segue visitada e adorada por multidões e mais multidões, incensada como a "Capital do Mundo". Por que? Porque é ali que tudo acontece. Os melhores shows e concertos, os grandes espetáculos, a cena teatral dentro e fora do circuito da Broadway. Os grandes museus, a vida cultural, o culto à arte em suas diferentes formas e também à individualidade. O melting pot único de nacionalidades, gente de vários cantos do mundo que foi tentar a sorte lá e deu à cidade um tempero bastante peculiar. As compras! Uma gastronomia que vai de A a Z, do pastrami judaico ao curry indiano. Restaurantes, bares e lojas descoladas que vão se descobrindo em uma caminhada pelo Soho, por Chelsea, pelo Village, por Hell's Kitchen, bairros que têm uma alma própria. Quem quer se divertir, vai para lá: não é raro ver gente de outras partes do país pegando um avião para passar o fim de semana em NY, ver um show no Madison Square Garden, enfim, have a good time. Sem se preocupar com beleza - quem quer ver cidade bonita vai a San Francisco, sorry.

A essa altura do texto, acho que a analogia que deu título ao meu texto já faz bastante sentido. São Paulo também tem tudo isso e, no entanto, ainda custa a entender qual é a sua real vocação. De uma vez por todas, temos que parar de nos desculpar diante do resto do mundo por não termos praia. Por não termos baía, floresta, chapada, arara azul, mulher pelada. Como se isso fizesse de SP uma cidade sem nenhum atrativo, fadada a receber apenas turistas de negócios para aquelas feiras e convenções entediantes, irremediavelmente inferiorizada diante da comparação com o Rio de Janeiro e mesmo com outras partes do Brasil.

Nada disso. Aqui, pode-se fazer absolutamente tudo que se faz em NY: os bons restaurantes, as compras, as peças e musicais, os museus, os shows, os bares, as baladas, a moda, as tendências, a informação, a hiperconexão com o que se passa aqui e lá fora. É esse o papel que São Paulo possui dentro do riquíssimo mosaico que forma o turismo no Brasil. Com seus problemas, com suas partes indiscutivelmente feias, SP tem muitos predicados para vender, tanto para o resto do país quanto para o mundo. Tem todos os méritos para receber aviões com pessoas que não vieram trabalhar, mas se divertir e curtir a cidade - aliás, já recebe, mas pode receber muito mais. E tudo isso sem precisarmos fingir que somos nova-iorquinos ou europeus, sem precisar inscrever a Oscar Freire na gincana internacional das ruas de luxo. Porque São Paulo tem uma identidade própria, que é só dela: na Paulista, no Centro, nos Jardins, na Vila Madalena, na Mooca, no Bixiga, na Vila Mariana, no Butantã, em outros tantos bairros velhos e novos, sem a necessidade de mais comparações. São Paulo precisa se dar alta do analista, se aceitar e se gostar como é.

16 comentários:

Camila disse...

Mais um grande texto, mais um acerto, mais um sorriso bittersweet de uma saudosa paulistana expat. Beijocas!

beto disse...

acho que SP já é vista assim - um destino turístico com zilhões de opções de entretenimento - por grande parte do Brasil e até países vizinhos. talvez algumas áreas mais bairristas resistam a conceder isso, mas acredito que essa miopia esteja rareando.

cada área com seu atrativo - tem lugar (e turista) de todo tipo e interesse!

como alguém que adotou e foi adotado integralmente por SP, fiquei muito contente de ler esse belo texto.

Rico E disse...

Thiago,
Concordo contigo, temos um ar cosmopolita, apesar de termos muitas diferenças por bairros e regiões.
Estava lendo outro dia a revista da Iberia que tinha uma matéria com título: "São Paulo a Nova York da América da Sul" a qual falava que no início a cidade foi construída pelos barões do café e depois a imensa imigração de todos os continentes.
Besos,
Rico E

Bernardo disse...

Por isso que eu amo São Paulo.

Ai ai meu caro amigo, nada melhor que um texto seu para encerrar o meu dia, com palavras inteligentes, cheias de verossimilhança e muito bem colocadas!

Um abraçoooo!

Julián disse...

Muy interesante, estoy muy de acuerdo con vos. São Paulo es a Nueva York como Brasil a Estados Unidos. Tienen muchas cosas en común los países y las ciudades. Por algo el Brasil se llamó "Estados Unidos de Brazil". Aunque Sampa no es la Capital propiamente, se comporta igual que Nueva York, es la ciudad más importante, poblada y visitada de cada país. Basta con ver las Banderas, la una Racional y fría, la otra más orgánica y sensual, pero ambas con las estrellas, una por cada Estado. En Sampa cambia el Central Park por el Ibirapuera. La sensación de la Oscar Freire, de la Avenida Paulista tienen ese espíritu cosmopolita de una ciudad que no parece suramérica. Por último, no sé para que necesitan a Sarah Jessica Parker; no se dan cuenta el espectáculo que es el Iguatemí a mediodía, con esas mujeres muy adineradas y glamurosas, bellas que son un todo un espectáculo de belleza Brasileña caminando en vivo y en directo sobre zapatos de miles de Reales. Interesante esa comparación.

MM disse...

Thiago, com todo respeito e de um jornalista veio de guerra para outro recem-chegado: essa "tese" Nova York-SP é do tempo que eu ainda nem pensava em estudar na ECA. Ou seja, da época das Cruzadas. Vc escreve como se tivesse descoberto a pólvora. E se SP tem uma "identidade própria, que é só dela" (Minha Nossa Senhora do Segundo Clichê nos acuda!), por que fazer ess nariz de cera imenso pra chamar a cidade de Nova York brasileira? Que coisa mais provinciana dizer que se pode fazer em SP o mesmo que se faz em NYC. Rodou, rodou e não avisou. Faça um guia de SP paulistano, sem pretensão de olhar new yorker ou deslumbramentos de quem acabou de "deafivelar as malas" (Nossa Senhora do Segundo Clichê again). Isso eu quero ver. Além de prestar um serviço imenso para seus leitores, estaria amadurecendo seu olhar jornalístico. Deixa a pose de bicha rica viajada para os blogqayros de plantão. Vc já saiu dessa categoria e subiu um degrau, certo? Boa sorte!

Thiago Lasco (Introspective) disse...

MM, me aguarde! ;^)

Fernando disse...

Thi,

Sendo sincero, não entendi muito bem se o seu texto tentou estabelecer uma associação entre SP e NYC, se tentou conclamar SP parar de tentar se definir e seguir em frente do jeito que é, ou as duas coisas. Na verdade, achei que o post andou bem pelo sentimento geral expressado. E porque estou exatamente agora escrevendo sobre a minha viagem para SP (feat. You).

Seguem as minhas opiniões sobre o tema (tentando ser sucinto, mas... você sabe do meu problema nesse aspecto):

- Confesso que me provoca certo desconforto esse conceito de “São Paulo, a NYC Brasileira”. NYC é Global City, Alpha ++ City, epicentro de toda a civilização humana da atual era. Mesmo que a cidade seja desprovida de belezas naturais ou de um projeto urbanístico-arquitetônico digno de nota (Rio, Sydney, Paris) somente o fato de a cidade ser o centro do mundo já torna a cidade importante em quaisquer aspectos que se analise, principalmente o do turístico. No meu conceito, NYC é irreproduzível em qualquer ponto do planeta: Tokyo é o caso do parecido-e-completamente-diferente, Londres é uma capital européia com todo o peso do Velho Continente. São Paulo é o centro econômico da América do Sul. Ponto. Period.

- Assim como o Rio (desesperadamente – e com sucesso, espero) tenta copiar o modelo de Barcelona, São Paulo deveria tentar parar de ser uma versão sul-americana de NYC e focar em tentar apurar o estilo de vida que já possui: exatamente o que Seul fez. Até pouco tempo atrás, Seul era uma cidade absolutamente boring, vítima das mesmas escolas de arquitetura que ‘atacaram’ São Paulo durante as décadas de 60-70, completamente à sombra da metrópole über-urban/über-HighTech Tóquio e do colosso em ascensão Pequim. Seul começou a investir maciçamente com o objetivo exato de transformar a imagem da cidade no seu DNA e estabelecer a cidade como um centro mundial de design - construiu prédios arquitetonicamente fantásticos, criou parques, investiu na infra-estrutura e fez um lifting na paisagem urbana da cidade. Hoje em dia, Seul começa a colher os frutos desses investimentos e cada vez mais se transformar em uma cidade com identidade única no cenário mundial. Meanwhile, São Paulo construiu a Berrini, o Estinlingão (que eu acho lindo, sendo bem sincero) e o Cidade Jardim.

- São Paulo é uma cidade fantástica, fervilhando de possibilidades e acontecimentos. A principal força e característica que define essencialmente São Paulo é a interação entre os seus habitantes, tão absurdamente diversos entre si. O problema reside no fato de que São Paulo parece querer se ‘reinventar’ numa embalagem “moderna”, “futurista”, “financeira” e levanta bairros e mais bairros que insistem em um estilo urbano que isola as pessoas. E ao invés de reocupar áreas em visível decadência (arquitetonicamente fantásticas, por sinal), insiste em caminhar para a estéril fórmula da torre no meio do nada.

- São Paulo tem que superar de uma vez por todas a rixa com o Rio. O Rio é uma cidade que possui características únicas em termos históricos e geográficos, e isso sempre vai ser um ponto que irá catapultar a cidade a uma posição de destaque no plano internacional. Ponto. Mas com a economia brasileira crescendo como o esperado, a sinergia entre Rio e São Paulo terá ser ainda maior – o que significa que o estilo de vida carioca e paulistano irá se tornar cada vez mais próximo, cada vez mais interdependente. O Brasil é um país grande demais para ter UMA cidade importante. E como carioca, eu acho fundamental que São Paulo se torne cada vez uma cidade mais interessante, mais pujante, mais ‘cool’.

Enfim, curto pra caralho SP. Mesmo sendo um carioca ultra-proud.

Beijos,
Fer.

Thiago Lasco (Introspective) disse...

Fer, concordo com boa parte das coisas que vc escreveu. E a ideia desse texto é justamente enfatizar que SP tem que encontrar sua própria vocação, escrever sua própria história. Com a comparação a NYC - que, pelo que pude ver, não foi inteiramente compreendida - eu quis dizer que a cidade tem, dentro do Brasil, um papel semelhante ao que NYC tem dentro dos EUA. Beijão!

Anônimo disse...

Thiago,

Os comentarios acima do MM refletem a minha impressão geral sobre seus posts: voce tem boa intenção, mas se perde num texto prolixo, cheio de cliches, com um subtexto que se esforça muito em mostrar como voce é feena-viajada-cool.

Por favor, não ache que quero critica-lo gratuitamente.
Acho que viajar é otimo, e vc pode e deve ir mil vezes para NY, buenos aires ou barcelona, e nos escrever a respeito destas cidades. Só não acho legal ver sempre embutido no texto auto referencias de glamourização.

Acho que a atitude do shop cidade jardim com a SJP te incomoda tanto, exatamente por conta disso: se esforçam muito para parecer/transmitir uma imagem que não condiz com a realidade, o que qualquer um mais atento percebe... acaba ficando constrangedor.

Thiago Lasco (Introspective) disse...

Anônimo, sinceramente não reconheço nos meus posts esse "subtexto" de "autoglamourização". Partindo desse ponto de vista, qualquer pessoa que divida suas impressões de viagem estará mostrando às demais que viajou, e por isso quer posar de 'cool', e portanto deve ser recriminada. Mas respeito sua opinião! Volte sempre!

Don Diego disse...

Como alguém que sempre teve NYC como referência, e q aproveitou cada minuto que passou lá (os primeiros de infindáveis), NUNCA na vida fiz essa comparação/associação com SP....e fico me perguntando: se vc não fosse paulista, se fosse carioca ou baiano, se fosse gaúcho ou maranhense...escreveria tamanha ode à SP ?

Acho q seguindo a sua linha de raciocínio, topando a sua idéia, SP seria então MELHOR que NYC, por uma razão bem pequena q vc não abordou aqui: o frio. Encarar neve e temperaturas bem abaixo de zero...não é pra qualquer um, não. E particularmente seria a razão pra eu nunca querer morar em NYC.

Agora uma polêmicazinha pra incrementar o debate..queria saber qual das duas cidades é a melhor...pra um homem gay viver?

Acredito q seja NYC, pq principalmente, como vc já disse, os gays nos EUA são um grupo muito forte....e nada bate vc poder sair de mãos dadas e se beijar no meio da rua na maior parte da cidade sem ficar com medo de levar uma lâmpada fluorescente no meio da cara em plena luz do dia na principal avenida da metrópole.

MM disse...

Oi, Thiago, passei aqui agora e digo: aguardando asnsiosamente. Vc tem escrito toda semana? E tá gostando da redação? Eu to gostando do ritmo semanal novamente. abs

Anônimo disse...

apenas o fato de terem mais de dez milhões de habitantes, milhares de helicopteros, algumas lojas de grife internacional ... em mais nada SP se compara a NYC...

mas se sua idéia foi demonstrar que sp representa para o br o mesmo que nyc representa para os eua ... porque não londres, lisboa, madrid, paris, milão, buenos aires, tokio, sydney .. pois todas essas são importantes para os seus países como sp é para o brasil..

raso.

Gustavo disse...

O assunto é clichê, mas eu gostei do post. E em momento nenhum achei que você estava fazendo a beesha rica que viaja para fora do país. Ficou claro que você visitou a cidade recentemente depois de certo tempo e pôde confirmar aquilo que muitos já diziam. Adoro São Paulo, mas ainda não conheço Nova York. Já fui mais ao Rio, mas ainda prefiro São Paulo. Porque para mim é melhor uma cidade que nunca vai me deixar bored (música dos PSB na cabeça) que uma cidade bonita e com mar. A vida me deu o privilégio de viver numa cidade cosmopolita, grande, porém super organizada e que muitos também a comparam com NY: Toronto. Vou tentar incluir NY no itinerário da viagem que vou fazer agora no verão. E se quiser aparecer no Canadá.. me avise!
Bjs

Cristiano disse...

Gente insiste que São Paulo não tem praia... Baixada Santista (que faz parte da região metropolitana) manda lembranças. Não tem Pão de Açucar mas tem Ilha Porchat rs, e é rapidinho de carro acho que uns 40 minutos. De ônibus 1 hora. Ta legal, entendo não é dentro da cidade coomo no Rio mas tem gente que mora no Rio e leva bem mais tempo pra chegar na praia né? Vide pessoas que moram nos bairros distantes. Acho Baixada Santista válido pra quem quer apenas dar um mergulho em água salgada, sem grandes pretenções e carão.Amo São Paulo, quero muito conhecer o Rio que é linda sim!!!! Post bacana Thiago. E Sampa , pára de se espelhar nas outras que vc é linda do jeito que é! Não é atoa que na sua bandeira traduzido do latim ta escrito: "Não sou conduzido, CONDUZO!" Sampa arrasa! Rio vc é preciosa! Nova York , faz mais musical pra gente tá? Beijo!