domingo, 26 de junho de 2011

O melhor da festa

Uma noite feliz é o resultado de uma combinação precisa de diversas variáveis. É você conseguir achar os seus amigos numa imensidão de pessoas e cavar um espacinho para dançar com conforto. É a música estar particularmente boa, adequada ao seu gosto, ao seu momento. É o seu estado de espírito estar favorável, você estar num dia bom, e isso se reverberar em sua ondinha interior de bem-estar e felicidade. Em alguns casos, dependendo das expectativas e/ou do que estiver dentro do seu copo, é você beijar bastante - a mesma boca ou diversas bocas.

A questão é que todos esses são fatores que fogem completamente ao seu controle. Às vezes você tem sorte e tudo casa à perfeição. Mas em outras noites, essa fina sintonia simplesmente não acontece. Não é sempre que dá para ter a noite perfeita, no timing perfeito, a onda perfeita, com as companhias perfeitas, tudo ao mesmo tempo.

Essa é a principal razão pela qual uma mesma festa pode ser incrível para uma pessoa que viveu a tal sintonia rara, e ruim para outra com que a mistura desandou. A ordem dos fatores é essencial - e um erro na alquimia pode provocar combustão e até a explosão do laboratório!

Autoconhecimento é a palavra-chave. Com o tempo, aprendemos a reconhecer nossas preferências, nossas fragilidades, nossos limites, e com isso tentamos lapidar nossa experiência de noite. Sabendo de antemão onde o calo aperta, dá para tentar evitar as situações que vão provocar desgaste, os comportamentos que poderão ter um gosto amargo no dia seguinte. Às vezes a recompensa do momento é mais efêmera do que a gente gostaria. E, quando as coisas não derem tão certo, é sempre bom lembrar que, depois daquela festa tão esperada, certamente virá outra, e mais outra, e numa próxima oportunidade a mistura dos ingredientes poderá ter um resultado mais harmonioso. Melhor não se cobrar demais.

Também ajuda muito a gente estar de bem consigo, em dia com a autoestima, o corpo, o coração. Pista de dança pode ser um ótimo lugar para espairecer, se distrair e escapar dos problemas - mas se você abrir a porta errada, os esqueletos poderão cair do armário e te assombrar. O melhor é fazer a lição de casa antes - reconhecer quais são as suas carências, o que te falta, o que te faz sofrer, e ir tratando de resolver tudo isso, aos poucos - fora dali e de cara limpa. No meio da festa, não existem soluções milagrosas - não acredite se te disserem o contrário, honey.

Mas a discussão mais importante é de outra natureza. Tem a ver com os objetivos que se tem na vida. Verdadeira indústria dos sonhos, o meio gay é uma gincana frenética, extremamente competitiva, na luta pelos melhores prêmios: o corpo esculpido que todo mundo quer, o título de bunita, a chave do harém encantado, a coroa de rainha da noite. Nesse cassino, os lances e apostas costumam ser bastante altos. Vencer ali dá um trabalho enorme, custa um bom dinheiro, exige dedicação e comprometimento, inclusive da saúde. O prazer pode ser imenso, e não há nada melhor do que a gente lutar pelos sonhos e pelas coisas que a gente deseja. Mas às vezes não é possível ter tudo o que se quer. E mesmo quando você chegar lá, um dia isso fatalmente... vai passar. Ter outros projetos de vida - e um punhado de amigos leais para te acompanhar pelo caminho - é crucial para não se cair num vazio enorme depois que a festa acabar.

21 comentários:

Lucas T. disse...

Muito legal o texto. Só discordo de uma parte: "Mas às vezes não é possível ter tudo o que se quer.".

Nunca é possível ter tudo o que se quer, a menos que se queira pouco.

Daniel disse...

Eu já estou vendo a minha aposentadoria do mundo das festas chegando. Já estou começando a pular vários eventos no calendário biluzístico. Não fui em aniversário de TWSP ano passado, não fui em parada de SP este ano...

a idade está chegando e os interesses vão mudando.

Ainda mais depois de ter seguido a sua dica de ir na Berghain, qualquer outra boate virou parquinho de diversões, hahaha!

Marcos-SC disse...

Nada melhor do que a maturidade. Parabéns.

Hugo de Oliveira disse...

Poxa que texto perfeito...
Gostei.

Arthur disse...

Realmente Thiago, este seu post está muito bom!!! Perfeito!

K. disse...

Eu ia fazer um comentário sobre isso, mas enfim... domingo à noite/segunda de madrugada e não tá rolando de desenvolver um texto coerente.

Agora... que festa foi essa da foto com essa decoração Romero Britto? Taí o tipo de festa que eu piso, olho ao redor e vou embora na hora! Ew!

Thiago Lasco (Introspective) disse...

K., isso foi a The Week na Parada de 2008. Não descolei nenhuma imagem decente deste ano (que nem estava tão bem produzido, aliás).

Bernardo disse...

Como te falei meu amigo,

já tinha frequentado outras baladas na capital paulista, já tive corpo escultural, fui 10 kg mais malhado, alucinei e me deslumbrei na TW, na coisa do ego, de ser cobiçado, de se sentir bonito, desejado, incluído, CTRL C + CTRL V.

Agora... isso passa né?

Fui a SP esse ano de novo, conheci a Hot Hot, a Lions, revisitei a Loca, a nova The Edge, e nada de Eterna Festival. Dancei, cantei, pulei, curti, catei criaturas de-li-cio-sas, verdadeiros troféus (namoraria com todas) e o ponto baixo do finde foi ter ido na TW no sábado, com aquele mar de gente louca, do qual já fiz parte, e sem ninguém pra poder conversar, paquerar, ficar.

Não quero ser moralista, nem pessimista, nem hipócrita, mas vamos combinar que todos sabem que esse modelo não faz ninguém feliz. Falo ainda com a autoridade de quem já trabalhou na noite e preferiu deixar isso pra trás.

Of course a proposta da noite na TW é essa mesma, mas nunca me senti tão feliz por procurar novos horizontes.

Neste sentido, SP tem absolutamente tudo a oferecer. Cercada de tantas opções, é impossível ficar no B-A-BA, e é quando um almoço incrível com um amigo querido num tailandês charmosérrimo do Jardins faz toda a diferença do que se leva de volta para a casa (queria você também no Sky, Hotel Unique, Octaviano Café, Ensalata, Spot, ufa! :p )

Hehehehe

Lindo texto e mto obrigado por tudo, amigo! Cheiro!

Anônimo disse...

Texto brilhante, em especial o último parágrafo que fala o que estamos sentindo ou ainda vamos sentir......abraçãoooo...

Anônimo disse...

Sou do interior e pretendo fazer pÓs em sao paulo na area de direito , nao gosto muito, mas foi no que me formei e quem sabe depois de um tempo em sampa, descubro algo a mais sobre mim para dar um novo rumo,como vc fez no jornalismo- vc é muito talentoso. Bom gostaria de te perguntar quanto ganha um recem formado em sao paulo, como está o mercado de trabalho em relaçao ao direito,como é para quem nao se formou em uma faculdade tao conceituada quanto a sua ( usp ) ???? beijos e aguardo resposta klaus

Thiago Lasco (Introspective) disse...

Klaus, eu me formei em Direito há muito tempo (2001) e agora já estou fora do mercado de trabalho jurídico. Então não sei te dizer quanto se paga para um recém-formado. Acredito que seja algo entre R$1.800 e R$3.000, mas é só um palpite. Mas sei que o mercado está BASTANTE saturado, e nessa corrida quem não tem um diploma das faculdades mais reconhecidas (USP, PUC, Mackenzie e, em menor grau, UNIP e FMU) acaba se dando melhor em concursos públicos, ainda que os mais modestos, como escrevente ou técnico judiciário. Agora, o mais importante de tudo é vc descobrir do que realmente gosta! E aí, traçar uma estratégia condizente. Boa sorte!

Adriano Q. disse...

No conto de fadas, que pode ser a noite, muitos querem encontrar seus príncipes e suas princesas, ou sê-los. No famigerado gymnasion The Week, a maioria quer ser Apolo numa festa de Dionísio.

Os moradores do castelo e nem os deuses me atraem. Prefiro o cheiro e o gosto dos mortais. Alguns lugares aparentam beleza, mas aproximando-se um pouco, estão fragmentados e só a superfície é mantida, mesmo assim com alto risco de rachar.
A beleza, como a pornografia, não é. A beleza está.
A perfeição é uma bobagem.

A noite gosta de seus amantes, mas ela pode ser cruel com encantados, desavisados e caçadores de recompensa.

RP disse...

Encantado com o texto.
Colocou em palavras o que há tempos procuro entender, explicar.
Até agora só soube sentir.

t disse...

"Chama-se Odílio, está para casar, e ostenta uma corrente de ouro no punho direito. Previne-se contra ladrões. Trabalha, ganha bem e não precisa de ninguém. Toma minha mão e acaricia, admirando sua alvura. Depois, suavemente, leva minha mão à sua coxa, ao seu pau já duro. Seu riso é deslumbrante e me diz que somos irmãos. Se quiser, nos encontraremos amanhã. Eu quero. Estou perturbado, tremo e volta-me uma pergunta que já me fiz várias vezes: Que é um negro? É ridículo, mas me sinto como se tivesse doze anos."
Trecho de "Orgia: Os diários de Tulio Carella", escritor argentino que se jogou nos homens do povo do Recife nos anos 60.

Thiago Lasco (Introspective) disse...

T, eu tenho esse livro, ganhei de aniversário! Só não entendi muito bem em que contexto essa sua citação se encaixa!

Diego Rebouças disse...

É bem por aí, né. A gente precisa não se instalar de modo incondicional na paranóia e nos valores vendidos pela noite gay para ter uma noite divertida.

Nunes disse...

O texto descreve coisas,ou mesmo situações que boa parte das pessoas não gostam de enxergar, ou mesmo por limitações; sejam elas quais forem, não as vislumbrem.
Mais é uma realidade que sempre questionei todo esse frenesi! Mais as boas memória que tenho desses bons momentos/período (estou afastado há cerca de 11 anos), são bons, alegres e que até proporcionou-me conhecer pessoas que hoje são meus amigos/amigas! Abraços e Parabéns,

Roberto (Porto - Portugal)

Anônimo disse...

Descobri o seu BLOG procurando pousadas em Natal. Fiquei desanimado com o que disse sobre a Cidade. Mas mesmo assim vou conferir. Parabéns pelo texto "O melhor da Festa".
Edmilson
Olinda-PE

mctrol disse...

Thi amei seu post. Um dos melhores que já li ou talvez seja só a minha onda.
Também gostei do amigo que disse que querem ser Apolos na festa de Dionísio.

mctrol disse...

Se eu fosse o seu biógrafo a partir deste texto eu consideraria o ínicio de uma nova fase mesmo.

danrodrigues disse...

Genial! Principalmente a parte de auto-conhecimento. Já havia falando exatamente o seu discurso com alguns amigos.