Ando sem cabeça pra postar no blog. E não só por conta dos freelas que, felizmente, começaram a pipocar. Confesso que estou meio cansado de algumas polêmicas, tipo ter ou não ter beijo gay na novela, ou a declaração inadequada desse ou daquele asno com visibilidade pública. Nesses assuntos, vários colegas meus já estão dando o recado com maestria, e não tenho nada de realmente novo a acrescentar, sem soar redundante. Continuo achando que se indignar, querer avanços, semear mudanças de mentalidade, vale a pena. Essa é uma luta cotidiana de todos nós. Mas também reconheço que estamos vivendo uma overdose do assunto na mídia, num espaço muito curto de tempo. Isso cansa os ouvidos dos leigos e, por conta disso, acaba enfraquecendo a própria discussão. Muita gente bem-intencionada e até francamente simpatizante não aguenta mais ouvir falar em causa gay o tempo todo. No fim das contas, isso dá munição para uma das falácias mais levianas usada contra nós: a de que estamos querendo instaurar uma ditadura da minoria, uma patrulha gay empurrada goela abaixo da maioria. Será que não estamos errando a mão?
terça-feira, 19 de julho de 2011
Overdose
domingo, 26 de junho de 2011
O melhor da festa
Uma noite feliz é o resultado de uma combinação precisa de diversas variáveis. É você conseguir achar os seus amigos numa imensidão de pessoas e cavar um espacinho para dançar com conforto. É a música estar particularmente boa, adequada ao seu gosto, ao seu momento. É o seu estado de espírito estar favorável, você estar num dia bom, e isso se reverberar em sua ondinha interior de bem-estar e felicidade. Em alguns casos, dependendo das expectativas e/ou do que estiver dentro do seu copo, é você beijar bastante - a mesma boca ou diversas bocas.
A questão é que todos esses são fatores que fogem completamente ao seu controle. Às vezes você tem sorte e tudo casa à perfeição. Mas em outras noites, essa fina sintonia simplesmente não acontece. Não é sempre que dá para ter a noite perfeita, no timing perfeito, a onda perfeita, com as companhias perfeitas, tudo ao mesmo tempo.
Essa é a principal razão pela qual uma mesma festa pode ser incrível para uma pessoa que viveu a tal sintonia rara, e ruim para outra com que a mistura desandou. A ordem dos fatores é essencial - e um erro na alquimia pode provocar combustão e até a explosão do laboratório!
Autoconhecimento é a palavra-chave. Com o tempo, aprendemos a reconhecer nossas preferências, nossas fragilidades, nossos limites, e com isso tentamos lapidar nossa experiência de noite. Sabendo de antemão onde o calo aperta, dá para tentar evitar as situações que vão provocar desgaste, os comportamentos que poderão ter um gosto amargo no dia seguinte. Às vezes a recompensa do momento é mais efêmera do que a gente gostaria. E, quando as coisas não derem tão certo, é sempre bom lembrar que, depois daquela festa tão esperada, certamente virá outra, e mais outra, e numa próxima oportunidade a mistura dos ingredientes poderá ter um resultado mais harmonioso. Melhor não se cobrar demais.
Também ajuda muito a gente estar de bem consigo, em dia com a autoestima, o corpo, o coração. Pista de dança pode ser um ótimo lugar para espairecer, se distrair e escapar dos problemas - mas se você abrir a porta errada, os esqueletos poderão cair do armário e te assombrar. O melhor é fazer a lição de casa antes - reconhecer quais são as suas carências, o que te falta, o que te faz sofrer, e ir tratando de resolver tudo isso, aos poucos - fora dali e de cara limpa. No meio da festa, não existem soluções milagrosas - não acredite se te disserem o contrário, honey.
Mas a discussão mais importante é de outra natureza. Tem a ver com os objetivos que se tem na vida. Verdadeira indústria dos sonhos, o meio gay é uma gincana frenética, extremamente competitiva, na luta pelos melhores prêmios: o corpo esculpido que todo mundo quer, o título de bunita, a chave do harém encantado, a coroa de rainha da noite. Nesse cassino, os lances e apostas costumam ser bastante altos. Vencer ali dá um trabalho enorme, custa um bom dinheiro, exige dedicação e comprometimento, inclusive da saúde. O prazer pode ser imenso, e não há nada melhor do que a gente lutar pelos sonhos e pelas coisas que a gente deseja. Mas às vezes não é possível ter tudo o que se quer. E mesmo quando você chegar lá, um dia isso fatalmente... vai passar. Ter outros projetos de vida - e um punhado de amigos leais para te acompanhar pelo caminho - é crucial para não se cair num vazio enorme depois que a festa acabar.
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
E agora?
Quando começaram a ser divulgados os DJs estrangeiros escalados para animar as festas da semana da Parada Gay de São Paulo, a simples ausência de Peter Rauhofer, tido por muitos como "o top dos tops", foi suficiente para dar início a comentários do tipo "a Parada está decadente!", "as festas serão calmas e modestas", "São Paulo mó-rreu" etc. Vi a programação dos clubes e achei que o alarde era exagerado: afinal, com mudanças mínimas, as festas de 2011 serão idênticas às dos anos anteriores.
A poucas horas do início oficial dos festejos, porém, estou começando a achar que os tempos mudaram mesmo. A esta altura do campeonato, o Facebook deveria estar em polvorosa e eu já teria recebido diversos e-mails e telefonemas de amigos de outros estados, todos pedindo dicas da cidade, perguntando sobre o meu roteiro e querendo marcar alguma coisa. Desta vez, eu é que tenho que procurá-los para saber quem vem, e em geral... ninguém vem.
Concordo que seria ingênuo pensar que os meus amigos e contatos são uma amostra representativa do meio gay. Talvez esse pequeno recorte não corresponda à realidade que se verá nos próximos dias. De qualquer forma, eu já notei uma queda sensível de público no ano passado, o que me sugere que o "caso isolado" de 2010 pode ser mesmo uma mudança de comportamento. O que estará acontecendo? Fiz essa pergunta a algumas pessoas que resolveram fazer a egípcia em 2011. "Agora temos festas boas em várias épocas e vários estados do Brasil, então não precisamos mais ir a São Paulo na Parada". "As festas perderam a graça, não estão trazendo mais nenhuma novidade". "Desta vez vamos pular SP e nos guardar para as festas de Barcelona em agosto". "Cansei um pouco de festa, a gente fica muito estragado".
Ou seja: para 99% das bilus, a Parada vale ou é lembrada exclusivamente pelas festas feitas pelos clubes. E nunca, de forma alguma, pela Parada em si. Ninguém pensa que este é um momento em que as atenções do país inteiro se voltam para nós, e portanto uma rara oportunidade que temos para dar um recado para a sociedade. Da Parada anterior para cá, importantes acontecimentos marcaram a nossa agenda, e se alguns foram positivos, como a decisão do STF reconhecendo uma união estável homoafetiva, boa parte deles representou retrocessos ou mesmo tragédias: a contaminação do Legislativo pelas bancadas religiosas, os ataques homofóbicos pela cidade, o descarte do kit anti-homofobia pela presidente na vã tentativa de proteger Palocci. Agora a Parada está novamente aí e, no entanto, estamos desperdiçando uma chance preciosa de nos posicionar sobre todos esses assuntos.
Entendo que parte da culpa pelo esvaziamento da Parada está nos seus problemas estruturais. Com o gigantismo do evento - causado muito mais pela carência de boas opções de lazer grátis para o povo, do que por um aumento do número de simpatizantes à nossa causa - fica difícil garantir conforto e segurança. Já falei sobre isso em outros posts. A festa na avenida foi ficando feia, vi várias cenas dantescas que me desestimularam e, no ano passado, resolvi nem aparecer. Mas acho que o momento político que vivemos pede uma mudança de atitude, e os gays ditos "esclarecidos" deveriam voltar à Paulista.
Se o evento se reduziu a um mero carnaval de rua, nunca é tarde para corrigir o foco. Uma atitude que certamente ajudaria: ligar a música mais tarde, abrindo espaço para que lideranças do movimento LGBT pudessem falar ao microfone. O percurso é longo: podemos deixar o trecho da Paulista para o comício e, na curva para a Consolação, os DJs começariam a tocar e instalariam o carnaval de sempre. Ou pelo menos fazer duas horinhas que sejam de manifestação, e depois começar a se embebedar e beijar na boca. É um desperdício ter uma quantidade tão grande de gente na rua, e não conseguir tirar disso nada de útil e proveitoso para a causa LGBT.
As bichas são alienadas? Sim, mas elas acessam os portais de notícias LGBT, ainda que seja para saber da Lady Gaga, ou dos personagens gays da novela das oito. Então esses veículos deveriam aproveitar sua condição de formadores de opinião para, além de vender revistas e assinaturas de sites de encontros, estimular a audiência a ter uma postura mais participativa. Não precisam pedir que as pessoas escrevam cartazes ou peguem em armas: basta que venham todos vestidos de preto, em protesto contra a escalada da homofobia. Ou de vermelho, pela celebração do nosso amor. Ou de branco, pedindo paz. Se a Parada perdesse METADE do público, ainda seriam 1,5 milhão de pessoas ocupando a Paulista vestidas da mesma cor. Uma bela mensagem. E não é tão difícil. É só questão de se articular! Boa Parada a todos, e nos vemos por aí.
[UPDATE: Aos leitores perdidos que pediram ajuda com as festas, faço aqui um apanhado rápido do que me pareceu mais interessante. Hoje: uma pedida para ver o povo num clima mais leve é a The Society, com o DJ Pagano. Mas se você prefere menos carão e mais beijação, se joga sem medo na Bubu, que também tem atração gringa e estará lotada. Quinta: eu recomendo a festona da TW no Moinho - se a Mooca é meio fora de mão, o som do Freemasons já vale o ingresso. Um plano B é A Lôca, sempre bem divertida. Sexta: resolvi fazer algo diferente, e vou apostar na Ursound - o público da festa está mais diversificado, o clima é bacana e a música idem. Quem é de fora e não está sempre aqui pode aproveitar para conhecer o Lions, bem legal. Ou então, noite clássica na The Week, com o duo Rosabel, para quem prefere jogar no seguro. Sábado: a GiraSol ainda é a festa mais esperada, prestigiada e comentada da temporada - e vai ser no Clube Nacional, locação que super funcionou no ano passado. Depois dela, ali pertinho, a Megga reabre com o Stephan Grondin, uma das melhores atrações desta leva. Domingo: quem estiver virado, ou mesmo descansado depois da GiraSol, pode se jogar no after luxurioso da Code, que avança tarde adentro. Mas tem a Parada, hein! No fim da tarde, tem repeteco da GiraSol e, à meia-noite, uma festa nova, chamada Babyy (assim mesmo, com dois 'Y'), no Hotel Cambridge, com a queridona Twisted Dee. Com mais público ou menos público, só não vai se divertir quem não quiser].
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Piquenique do bem
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Andando no vermelho
Ontem o Facebook, ágora dos nossos tempos, amanheceu enfeitado de vermelho. Muitos usuários colocaram nas fotos de seus perfis o lacinho de fita que simboliza o Dia Mundial da Luta contra a Aids, que se celebra em primeiro de dezembro. Não discuto a importância de uma data simbólica para trazer à tona um assunto que tanto se tenta varrer para baixo do tapete. Mas, se a ocasião é para balanços, tenho lá minhas dúvidas se estamos mesmo caminhando para frente, como gostaríamos de acreditar.
A primeira constatação que sou forçado a fazer é que, depois de anos andando na linha, a lição de casa da prevenção vem sendo cada vez mais negligenciada. O preservativo, que na década passada sempre aparecia com naturalidade, de uns tempos para cá passou a ser um acessório dispensável, mediante critérios pra lá de duvidosos. Hoje tenho muito mais trabalho para impor a camisinha aos meus parceiros do que quando comecei minha vida sexual. Muita gente foi baixando a guarda e relaxando. Só nos últimos cinco anos, quatro amigos meus se contaminaram. Todos na faixa dos 30 e poucos, já com uma boa bagagem de experiências, gente esclarecida e bem informada.
Antes de mais nada, quero frisar que acredito que o que um adulto faz com o próprio corpo é uma decisão individual, e o livre-arbítrio deve ser respeitado - inclusive para quem, após avaliar riscos, custos e benefícios, opta por aderir voluntariamente ao sexo sem proteção. Mas nenhum desses casos se inseria em tal contexto: eles não eram barebackers conscientes, que buscavam aproveitar a vida de forma livre e intensa e então assumiram seu desejo, mas pessoas que cometeram descuidos bobos ou incorreram em julgamentos equivocados. Mais ou menos como pensar que Fusca não atropela, só porque é redondinho e antigo.
Neste momento homofóbico que vivemos, nunca é demais lembrar que nada disso que descrevi no parágrafo anterior é privilégio dos gays. Um dos grupos mais expostos à soroconversão nos dias de hoje é justamente o das mulheres heterossexuais, "de família". Depois de anos casadas e fiéis ao mesmo homem, elas não veem necessidade de usar preservativo, e acabam contaminadas pelo próprio parceiro, que traz a doença para dentro de casa após uma pulada de cerca sem proteção. O que nos faz lembrar que a decisão de suprimir a camisinha em um relacionamento deve ser muito bem pensada. OK, você e seu parceiro se amam. Mas, e se para ele "amor e sexo são coisas bem diferentes"? Quantos não seguem essa cartilha?
Não ignoro que a evolução da medicina ampliou os horizontes dos pacientes com HIV, que hoje têm uma qualidade de vida que seria inimaginável 15 anos atrás. Depois de um começo assustador, meus amigos estão com uma aparência ótima e vivem uma vida feliz, com boas perspectivas e poucas limitações - alguns conseguiram até zerar a carga viral. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Se o estigma contra os soropositivos é uma crueldade que deve ser combatida, encarar o vírus como uma mera doença crônica é um grande erro, e pode custar caro. Vale dizer que as chances de ter um tratamento eficaz e não desenvolver a doença são muito maiores quando o HIV é detectado cedo - daí a importância de refazer os exames periodicamente. Não precisa ser gay nem promíscuo, basta ter vida sexual ativa. Vamos nos cuidar, povo!
Neste domingo (5/12), os fofíssimos SP Gay Bikers estão promovendo, junto com a Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo, o 1º PASSEIO DO DIA MUNDIAL DE COMBATE À AIDS, no Centro da cidade, em pleno Minhocão. Como o evento é democrático, haverá um trajeto maior para os ciclistas e outro, menor, que também poderá ser percorrido por cadeirantes e pedestres. A saída está programada para as 15h, e quem não tiver bike pode alugar uma. É mais uma maneira saudável e divertida de expressar nossa cidadania.
sábado, 20 de novembro de 2010
Na contramão da história
Juro que tentei fugir do baixo-astral como um avestruz, enterrando a cabeça no meu mundinho particular que anda tão animado. Mas não consegui deixar de me deprimir com essa onda de ofensivas e desgraças contra a população LGBT, todas ocorridas nos últimos sete dias. A que menos me atingiu foi a publicação do manifesto contra a Lei da Homofobia no portal do Mackenzie. Quem conhece a trajetória daquela universidade não poderia mesmo se surpreender; se a instituição desfruta de certo prestígio entre as tão mal cotadas escolas privadas do país, nem por isso devemos dar à sua declaração um poder e uma autoridade que ela simplesmente não tem.
Fiquei mais passado com os brutais ataques homofóbicos no Rio (onde três soldados do Exército agrediram e balearam um civil indefeso no Arpoador, e felizmente serão responsabilizados) e em SP (onde, em plena Avenida Paulista, cinco delinquentes de classe média atacaram três rapazes com requintes de barbárie, incluindo golpes de artes marciais e até lâmpadas fluorescentes). Segundo a Folha de hoje, o segurança que defendeu as vítimas relatou à polícia que uma delas foi encurralada, levou socos e chutes na cara e continuou apanhando mesmo após desfalecer. Ou seja, teria sido assassinada se não fosse a intervenção do vigia - que, ao perguntar aos marginais o motivo de tudo aquilo, ouviu: "Porque ele é viado".
Se não há justificativa capaz de endossar um ódio tão sem sentido (nem mesmo a cegueira da religião, como pretendem as nossas tão mal-intencionadas igrejas), episódios como esses parecem estar inseridos dentro de algo maior. Depois de anos de avanço da tolerância e do respeito à diversidade, sobretudo entre as camadas mais esclarecidas, parece que a sociedade resolveu andar na contramão. Estamos vivendo o crescimento de uma terrível onda conservadora, com um recrudescimento do moralismo, da segregação e do preconceito. Como não lembrar do caso da estudante Geisy, que quase foi linchada e currada pelos colegas, e depois expulsa da universidade onde estudava, apenas porque usava um vestido curto? Semana passada, chegamos ao cúmulo de prender um garoto de 18 anos, por ter dado um inocente beijo (!) em outro, de 13 anos - o que certamente não teria acontecido se o beijo tivesse sido recebido por uma menina. No Twitter, mensagens como "mate um viado queimado" se alastram, agrupadas na hashtag #HomofobiaSIM. E o assassinato bárbaro do garoto Alexandre Ivo, de 14 anos, em São Gonçalo (RJ), que foi esquecido em menos de 15 minutos? Tempos bicudos!
Eu gostaria de entender o que está por trás desse rebote reacionário. Talvez a sociedade esteja tão desorientada (o que dizer dos pais dos agressores da Paulista, que passaram a mão na cabeça de seus filhos?) e tão em crise com seus valores, que esse "encaretamento" acabe sendo visto como uma tábua de salvação para preencher os vazios e as inseguranças. Não sei! Alguém arrisca um palpite nos comentários? O que está acontecendo, afinal?
Se há um lado bom em todos esses absurdos, é que existe uma parcela mais lúcida e esclarecida da sociedade que está se indignando e esboçando uma reação. Bem ou mal, o tema homofobia está sendo discutido na mídia e na sociedade com bem mais freqüência do que há, digamos, cinco anos atrás. O simples fato de a motivação homofóbica dos crimes estar sendo explicitada pela imprensa já revela que existe hoje uma preocupação que não se via. É preciso ficar alerta. Afinal, a ignorância e o ódio só se combatem com união, esclarecimento e informação. Até porque nossos algozes também estão articulados: nas ruas, nos templos e agora, mais do que nunca, em Brasília.
Se você mora em São Paulo e quer ajudar a fazer a diferença, apareça amanhã (domingo) no vão livre do MASP, a partir das 15h. O movimento LGBT paulista vai promover uma manifestação de repúdio e reivindicação de providências para o caso dos agressores da Paulista (que foram liberados no mesmo dia, porque a lei assim permite), com caminhada até o local do crime, próximo à estação Brigadeiro do Metrô. Eu também estarei por lá. Mostrar que não toleramos essa atrocidade é o mínimo que podemos fazer. [UPDATE: Considerando que foi divulgada com pouca intensidade e antecedência, a manifestação foi ótima: cerca de 300 pessoas apareceram na Paulista e deram seu recado, de forma muito positiva e tranquila. Inclusive dois dos três rapazes atacados na Paulista deram as caras por lá. Só faltou o segurança-herói aparecer na porta do prédio pra gente homenageá-lo! O único senão foi a apropriação partidária do ato pelo PT e PSTU, que encabeçaram a parada com suas faixas, como se a iniciativa tivesse sido deles. Mas esse tipo de desonestidade já é praxe].
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Azul claro é a cor da esperança
Hoje nem era dia de postar, mas não dá para deixar passar em branco esse fato histórico importantíssimo, e que merece ser repetido e repostado e comemorado por todos os blogs das amigues, mesmo aqueles que só falam de boate: a Argentina aprovou o casamento gay! Ops, pera lá... casamento gay?! Mas "casamento" não é uma instituição religiosa, não é uma propriedade da Igreja Católica que não pode ser descaracterizada? Não será por isso que a questão não avança no Brasil: porque a militância defende o "casamento gay", expressão que contém em si um absurdo, pois equivaleria a abrir a porta da Catedral da Sé, ou da Igreja Nossa Senhora do Brasil, para que um macho barbudo, braçudo e maludo entrasse no templo vestido de noiva, com véu, grinalda e quem sabe algum adereço emprestado da Lady Gaga para arrematar o look?
De uma vez por todas: NÃO!
Existe o casamento como ritual religioso; aliás, a união entre duas pessoas é ritualizada em várias religiões, não apenas pela Igreja Católica Apostólica Romana. Mas casamento é também um instituto de direito civil, uma relação jurídica entre duas pessoas que, ao se unirem, assumem uma variedade de direitos e obrigações uma perante a outra. Que incluem os deveres recíprocos de respeito, assistência (inclusive financeira) e fidelidade, o direito a ter ou adotar filhos (e o respectivo dever de guardá-los, sustentá-los e educá-los), e também os direitos ligados à herança e sucessão do patrimônio.
Como qualquer outro instituto jurídico, o casamento civil é previsto e definido por uma lei. As leis que vigoram em boa parte dos países ocidentais (excetuando os anglo-saxões) são herança do antigo Direito Romano. Mas as sociedades mudam - e as leis, como produto social e reflexo dessas sociedades, também devem mudar para acompanhá-las (o que ocorre com maior ou menor velocidade, conforme o país). Todos os novos fenômenos sociais precisam de disciplina e proteção jurídica: para ficar num exemplo didático, a internet, que não existia há 30 anos, trouxe novas relações, novos problemas, novos crimes, e tudo isso precisa ser regulado por novas leis.
A definição clássica do casamento civil, cunhada em um período heterocentrista, contemplava apenas a união entre homem e mulher, consagrada na redação de boa parte dos códigos civis. Na medida em que a constituição das famílias passou a incluir formatos diferentes do modelo papai-mamãe-filhinhos, os ordenamentos foram evoluindo para também contemplar essas novas configurações: mães solteiras, famílias recombinadas pelos novos casamentos de pais divorciados... e casais do mesmo sexo. Assim, em alguns países, a atividade legislativa passou a rever a definição clássica de casamento, passando a permitir que esses novos casais desfrutassem das mesmas garantias (e responsabilidades!) dos casais heterossexuais. É "casamento gay" mesmo.
Foi exatamente isso que aconteceu nesta madrugada na Argentina: o Senado deles aprovou um projeto de lei que alterou a definição do casamento no Código Civil argentino, substituindo "homem e mulher" por "contraentes". Só falta a sanção de Cristina Kirchner - mas a presidente já se posicionou a favor da medida, ou seja, a vitória é dada como certa. Com isso, se desejarem, dois homens ou duas mulheres, em todo o território argentino, poderão se unir e usufruir dos mesmos direitos que qualquer outro casal teria, incluindo herança e adoção. Não parece algo tão simples, tão elementar? Sim, parece e é. E às vezes é difícil entender por que um direito tão básico é negado em tantos outros países, incluindo o Brasil. A Argentina foi o décimo país do mundo e o primeiro da América Latina a dar esse importante passo em direção à igualdade e à justiça.
Mas calma: antes de sair por aí falando que a Argentina é muuuito mais moderna, que eles estão aaaanos-luz à nossa frente, e blá blá blá, vamos olhar isso mais de perto? Não foi uma conquista de mão beijada. A vitória foi apertada, por 33 votos a 27, não sem ampla resistência dos setores mais reacionários da sociedade. Lá também existem lobbies religiosos, inclusive evangélicos, que se organizam e fazem barulho - a ponto de juntarem 50 mil pessoas numa passeata em frente ao Congresso, na véspera da votação. Lá também existem pessoas públicas que fazem discursos demagógicos, claramente mal-intencionados, para semear a intolerância. Mais ainda: o segundo maior jornal da Argentina, o conservador La Nación, passou os últimos dias em uma maciça campanha contra o casamento gay, publicando sucessivos editoriais e reportagens com argumentos pelos quais ele não deveria ser aprovado - tinha até fundamentos pretensamente "científicos", do tipo "estudos afirmam que crianças adotadas por casais gays podem ter depressão".
Vocês têm noção do que significa isso? É como se um jornal do tamanho do Estadão fizesse uma lavagem cerebral diária contra o avanço dos direitos gays. E no entanto... apesar disso... mesmo com a ofensiva do jornalzão... e com os lobbies dos religiosos... os direitos gays venceram. Isso deve servir para a gente ter a esperança de que um dia também chegará lá. Afinal, os problemas e obstáculos não são muito diferentes lá e cá. E o próprio efeito da decisão argentina aqui deve ser bem positivo, influenciando nossa opinião pública e, quem sabe, deixando os nossos políticos (cuja "consciência" só enxerga o lado eleitoral) mais à vontade para votar a favor dos nossos projetos. E olha que esses projetos - que falam apenas em união civil - são bem mais modestos e tímidos do que o argentino...
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
Declínio ou entressafra?
Quando foi dada a largada para os festejos da Semana do Orgulho Gay, o comentário que se ouvia nas rodinhas era um só: havia menos gente do que o usual, e muitos rostos conhecidos de fora não deram as caras. Se em 2008 o Pride paulistano quebrou todos os recordes e a cidade viveu cinco dias de delírio coletivo, desta vez tudo foi menas, bem menas, desde o buxixo diurno na região da Paulista e Jardins até as festas em si. Enquanto nos áureos tempos sobrava público para lotar todas as noites, em 2010 faltou gás em vários lugares: na quinta, o Café Com Vodka teve que dispensar DJs e a Maxima não atraiu mais do que 400 pessoas, deixando metade da pista da Megga vazia.
Mesmo nas festas que puderam se considerar bem sucedidas, como as produzidas pela The Week, o movimento ficou aquém do que se habituou a esperar nessa época. Tanto que o preço do ingresso na porta foi no máximo R$20 superior ao valor do primeiro lote - um dado bastante sintomático, que revela uma procura abaixo do esperado. Na sexta, o movimento da TW foi suficiente apenas para encher a pista 1, algo comparável a um bom sábado normal da casa. O clube só decolou de verdade no sábado, com a tradicional maratona pilotada por Peter Rauhofer - e, mesmo assim, sem a superlotação dramática dos anos anteriores, quando não havia espaço nem nos corredores externos.
A GiraSol de sábado à tarde manteve o título de melhor festa da Parada. A equipe de André Almada conseguiu transpor para o Clube Nacional o mesmo feeling alegre que marcou a história do projeto no Clube de Regatas Tietê - o espaço menor da locação nova ajudou a disfarçar a redução do público. O palco estava enfeitado por uma escadaria de belíssimos dançarinos, idêntica à da pool party do Circuit Festival 2008, em Barcelona. Contrariando todas as previsões, não caiu uma única gota da chuva que estava prometida para todo o dia. Não foram poucos os que escolheram a GiraSol como sua única jogação em 2010, o que mostra que esse projeto se tornou a vitrine mais importante da grade de festas da TW. Não há festa melhor para encontrar os amigos: todo mundo que veio ou ficou em SP estava lá. O repeteco no domingo encheu menos, mas brindou o público com o melhor momento musical da temporada, no set inspirado de Russell Small (Freemasons).
Sempre tento não me limitar às festas e prestigiar outros eventos, até para dar uma variada nos ambientes e tipos de público. Na quinta, fui novamente ao Vale do Anhangabaú para conferir a Feira Cultural, mas desta vez não consegui ficar mais do que meia hora. Eu adorava o clima das primeiras edições, na época do Largo do Arouche, mas hoje sinto que o evento não me agrada mais. Nada ou ninguém ali tem a ver comigo, e acho que estou vivendo um momento mais prático, em que prefiro investir em afinidades do que em diferenças. Esse bode me fez abortar o Gay Day do Playcenter e a própria Parada no domingo - eu me contentei em acompanhá-la pela excelente cobertura feita pelo Mix Brasil (que, convenhamos, já escrevia twittando muitos anos antes de o Twitter ter sido inventado) e soube que o evento foi rapidíssimo, tipo DisParada mesmo. Mas bem mais tranquilo e seguro que as edições anteriores.
Nas conversas com amigos, ouvi algumas possíveis explicações para a queda de público desta Semana da Parada, mas nenhuma delas me convenceu. I. disse que muita gente de fora resolveu pular a temporada paulistana para economizar dinheiro e ir à Europa em julho e/ou ao Sauípe em novembro; até enxergo que isso tenha acontecido em casos isolados, mas não que isso chegue a explicar o fenômeno como um todo. L.A. acredita que hoje a cena gay passou a fazer festonas com maior freqüência e isso diluiu o impacto da Parada ("toda hora tem festa!"); eu discordo, acho que as festas ao longo do ano não competem nem com Carnaval, nem com Parada. C. colocou a culpa nas atrações repetidas, mas, sinceramente? A maioria não dá a mínima para quem será o DJ e, no fim das contas, considerando o quanto o público gay é careta e conservador, trazer os mesmos "medalhões" mais atrai do que afugenta.
É fato que não tivemos aqui a mesma "eletricidade no ar" de outros anos, para usar as palavras do Tony. De qualquer forma, acho precipitado falar em uma mudança de comportamento apenas a partir do que vimos neste ano; essa pode ter sido uma queda isolada, uma entressafra passageira. Se o formato das maxijogações estivesse mesmo dando sinais de cansaço, os próprios Carnavais teriam sofrido um baque, o que não aconteceu. Se em 2011 tivermos outra parada morna, aí sim aceitarei que o buraco é mais embaixo e estamos, afinal, vivendo uma mudança de paradigma. E, para terminar, verdade seja dita: se a cena encolheu um pouco e as festas não repetiram a lotação dos outros anos, o fato é que ninguém ali se divertiu menos por causa disso.
[UPDATE: Já vieram me perguntar qual foi "a" música desta temporada. Não tivemos nenhum grande hino em 2010 - já adianto que Lady Gaga tocou muito mais na Parada em si do que nas festas. Mas a música que ficou na minha cabeça foi esta aqui, um momento marcante do set do Peter].
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Thiago Lasco
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terça-feira, 1 de junho de 2010
Parada para a Parada
Uma coisa que me agrada nesta época de Parada Gay é o clima de euforia que os visitantes trazem para São Paulo. Quando acompanhamos nossos amigos de fora nos lugares que já estamos cansados de frequentar, é como se víssemos a nossa própria cidade com olhos de turista. É uma delícia! (Nessas horas, meu orgulho paulistano vai às alturas.) Pena que, pelo segundo ano seguido, não vou conseguir aproveitar tudo como eu gostaria. Desta vez, estou às voltas com o meu trabalho de conclusão de curso (já falei sobre ele aqui) e vários outros assuntos para resolver ao longo do feriado. E ainda tenho o 1º Encontro de Blogueiros e Twitteiros Gays na sexta (fui convidado, mas não entendi até agora se será apenas para assistir ou para sentar à mesa e participar de algum debate; se alguém souber, por favor me explique).
Sobre as festas, a imprensa especializada já soltou line ups e serviços para cada um montar sua programação. Dá pra se divertir um bocado. Amanhã dá pra curtir a The Week sem tanta lotação - quarta é sempre o dia de receber o povo de fora e fazer aquele social enquanto todo mundo ainda está lúcido e com a cara boa. Quinta tem um monte de coisa: à tarde, Jungle Party no Pacha e Café Com Vodka no Sonique, com a queridona Cella e o Felipe Lira; à noite, a label carioca Maxima, na Megga (torcemos para a casa ter finalmente arrumado o som), e uma festa da TW no Moinho com o Tony Moran, além d'A Lôca, que vai bombar como nunca e emendar num afterhours. Sexta de manhã também tem after na Cantho, que deve acolher a xepa guerreira da TW e Maxima.
Na noite de sexta, a TW recebe dois convidados bem diferentes: Taito Tikaro, com aquele electrohouse gay típico do clã Matinée, e Russell Small, metade da dupla Freemasons, única atração verdadeiramente house em meio a um mar de tribal. A Bubu com certeza estará intransitável (os lolitos estão looonge de ser a minha faixa etária preferida, mas enfim...). Num outro extremo, a comunidade bear vai baixar em peso na festona Ursound. E, para quem quiser sair um pouco do gueto, uma boa pedida é o Lions, com Mau Mau e Victor A no som.
Sábado, a The Week repete a dobradinha dos anos anteriores: GiraSol de dia (desta vez em locação nova, o Clube Nacional) e festona no QG da rua Guaicurus, com o véio-de-guerra Peter Rauhofer. Na mesma noite, Megga e Flexx também abrem, e aposto que as três casas lotarão. No domingo, uma segunda GiraSol promete ser a saideira perfeita, com o ótimo Enrico Arghentini e mais repeteco do Russell Small (aliás, essa é a festa da temporada 2010 que eu mais estou esperando). Numa linha "baixos teores", também tem Café Com Vodka, A Lôca, Blue Space e Bubu. Tudo pra não ficar em casa amargando a rebordosa que, cedo ou tarde, virá.
Eu me programei para ir às duas edições da GiraSol (tomara que o tal Clube Nacional seja bacana!) e também à noite do Peter na TW, que é sempre uma grande festa. Dependendo de como eu conseguir organizar a minha vida, também posso ir conferir a Maxima de quinta-feira. Na sexta, só quero ir jantar num lugar legal (tipo o Sal ou o Marakuthai), dar uma voltinha rápida de carro e dormir cedo, para aguentar o finde. Eu tenho cada vez mais simpatia por festas diurnas em geral, mas estou meio receoso com a previsão do tempo. Se os dias ficarem bonitos, penso em passar na Feira Cultural e talvez até conhecer o famoso Gay Day do Playcenter. Só não pretendo dar outra chance à Parada Gay em si (minhas razões, você lê aqui).
Um leitor perguntou se eu não ia postar um daqueles meus roteirinhos gastronômicos. Não sei se vai dar tempo. Sobre o "circuito gay clássico", nem preciso dizer nada: Mestiço, Ritz, Spot, Bella Paulista, Athenas, Suplicy, Santo Grão, Consulado Mineiro e Cozinha dos Anjos (que é praticamente o quilo da The Week, a boate inteira bate cartão lá). Se der, vou fazer uma lista de lugares menos manjados, pra aqueles que já vêm sempre pra cá e querem dar uma variada. Já adianto que o Sal e o Marakuthai são meus restaurantes prediletos atualmente, junto com o Carlota e o Due Cuochi. Espero conseguir cumprir as minhas obrigações a tempo de me divertir um pouco também. Boas festas a todos vocês!
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domingo, 21 de junho de 2009
Não sabendo que era impossível, fomos lá e fizemos
Cheguei à Doceira Holandesa da Vieira de Carvalho na hora combinada para encontrar meus amigos, trinta minutos antes do início da manifestação. E não vi absolutamente ninguém. Já ia pensando nas palavras que despejaria no próximo post, dizendo que "o que essa bicharada merece é comer Doritos", quando começaram a chegar as primeiras pessoas. Tímidas, elas se encolhiam na porta da doceria ou do boteco vizinho, como se fossem clientes daqueles estabelecimentos, disfarçando a verdadeira razão de estarem ali.
Repórteres começaram a filmar e fotografar e, como ainda não havia quase ninguém, minha presença foi registrada várias vezes. Não pensei em fugir ou me esconder, mas confesso que me senti desconfortável, meio sem saber onde colocar a mão. Mais uma vez, entendi por que é preciso respeitar as pessoas que não se sentem atraídas ou dispostas para a militância. Não querer se expor é um direito delas e os patrulheiros mais radicais deveriam respeitar isso. Aliás, foi pensando nessas pessoas, que não se interessam pelo movimento mas também gostariam de ser úteis, que resolvi fazer a tal cartilha ("cartilha" é apenas um jeito informal de se referir a ela, já que a ideia não é ditar regras a ninguém), que irá ao ar nesta semana.
Em questão de quinze minutos, o número de pessoas se multiplicou. O povo foi chegando, vários amigos deram as caras, gente conhecida do meio também. Algumas lideranças assumiram o microfone (inclusive o Secretário de Justiça Luiz Antônio Marrey, enviado pelo governador), e gostei de ver que os discursos não faziam exaltação a vaidades pessoais, nem tentavam vender o peixe de grupos. Sempre fui contra esse cruzamento promíscuo entre militância e interesses partidários: acho que a militância deveria estar comprometida com as nossas demandas e interesses, e não servir de alavanca para capitalizar visibilidade e votos para esse ou aquele partido. E não sou o único que pensa assim: muitos ficaram incomodados quando membros de certos partidos tomaram a frente da passeata com suas grandes bandeiras vermelhas, tentando apropriar-se da iniciativa. Felizmente, outros perceberam a jogada e fizeram com que as faixas caseiras de pessoas comuns contra a homofobia assumissem a dianteira da marcha, que foi até o Arouche.
Sem outras manifestações de rua no currículo, eu não sabia bem o que esperar, mas fiquei satisfeito com o resultado. O ato conseguiu reunir umas boas 300 pessoas. Os organizadores falaram em 500, acho que não foram tantas assim, mas o número não é o mais importante. Quando aquela pequena massa humana começou a caminhar, soprar apitos e gritar "contra a homofobia, a luta é todo dia!", fui tomado por uma sensação gostosa de união, de identificação acima de todas diferenças, e por um sincero otimismo. Não foi nenhuma falsa afetação pós-Milk, superficial e passageira, mas sim a constatação de que não é tão difícil assim dar uma forcinha e mostrar um pouco de solidariedade por uma causa que deveria ser de todos nós.
[Gustavo, Cris, eu e Isa, autores da "cartilha" junto com Jack e Daniel]
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Tempos bicudos
Depois do baixo astral do post anterior (que não foi exclusivo deste blog, a julgar pela ampla repercussão dos problemas da Parada, no mundo real e no virtual), eu pensei que poderia escrever algo com um tom mais alegre. Mas eis que fui surpreendido por notícias ainda mais tristes. Um dos vários homossexuais que foram atacados nas imediações da Parada Gay acaba de falecer, conforme divulgou a Santa Casa. Marcelo Campos Barros tinha 35 anos e sofreu traumatismo craniano após ser barbaramente linchado por um grupo de skinheads na rua Araújo.
O outro episódio felizmente não resultou em morte, mas foi ainda mais absurdo: não aconteceu na rua, mas dentro de uma casa noturna - onde, supostamente, todos nós estamos a salvo da barbárie e protegidos pela segurança do estabelecimento. Na madrugada desta segunda, Celso Neto, 44, estava no camarote da Cantho, no Largo do Arouche, quando foi cercado e espancado por outros cinco freqüentadores da boate. Levou cabeçadas no rosto, foi jogado no chão, chutado incontáveis vezes pelo corpo e na cabeça, perdeu quatro dentes e teve o nariz quebrado. Se os pontapés na cabeça tivessem sido mais sérios, ele provavelmente teria morrido ali mesmo, já que permaneceu no chão do clube por quarenta minutos sem receber qualquer tipo de assistência. Os agressores deixaram o recinto normalmente, sem que fossem incomodados. E a segurança da casa? Nada soube e nada viu. (E a casa não teve a pachorra de tirar dinheiro do bolso de Celso para quitar a comanda? Boicote neles!)
Os dois crimes aconteceram em circunstâncias diferentes, mas por motivos igualmente fúteis. Marcelo foi exterminado pelo simples fato de ser gay e andar na rua. Celso esbarrou sem querer em uma travesti, pediu desculpas a ela, mas isso não foi suficiente para evitar que fosse espancado pelos marginais que a acompanhavam. Tudo isso mostra o quanto estamos expostos à violência, mesmo dentro da redoma imaginária em que nos colocamos. Se, no segundo caso, existe um responsável fácil de identificar (o clube, que tem o dever de zelar pela integridade física dos clientes dentro de suas dependências), no primeiro a culpa se dilui: é o poder público que não dá conta de promover policiamento suficiente, são os grupos homofóbicos que semeiam o ódio e a intolerância, são os evangélicos que barram o PLC 122 no Congresso, é o "Brasil inteiro" que "está violento", e por aí vai. Estamos mesmo num mato sem cachorro. Só nos resta pedir ajuda ao anjo da guarda, ou talvez a São Sebastião.
Vale lembrar que há pelo menos outras três pessoas que permanecem internadas em estado grave depois de terem sido agredidas nas imediações da Parada. Mas o mais surreal de tudo foi ler, em um dos vários blogs que noticiaram essas desgraças, o comentário de um homem gay (!) que tentou minimizar a gravidade dos fatos, alegando que "estatisticamente, estes incidentes são insignificantes". Dá para acreditar numa coisa dessas? Não vou nem comentar.
Se, ao contrário do cavalheiro, você não acha que esses episódios são "insignificantes", mostre ao mundo sua opinião: apareça no protesto contra os ataques homofóbicos que a APOGLBT está organizando neste sábado (20/6), às 19h, na Praça da República. Não vivemos dizendo que a Parada perdeu o sentido político? Taí uma boa chance de tentar recuperá-lo.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 16 de junho de 2009
Ainda bem que não temos só a Parada
Todo ano, quando os caminhões lavam a Avenida Paulista depois da Parada, varrendo os últimos vestígios de um feriado sempre alegre e intenso, anunciando o fim da temporada festiva e a volta ao mundo real, eu me vejo tomado por uma certa melancolia. Os turistas que visitam a cidade nos contagiam com sua euforia, seu deslumbramento, e nós, os donos da casa, acabamos ficando tão enfeitiçados quanto eles. É como se, por alguns dias, vivêssemos num universo paralelo, onde a confraternização acontece em cada esquina, a vida é cor-de-rosa, não existem problemas, todos querem conhecer gente nova, e aproveita-se cada minuto. Quando o oba-oba acaba, também ficamos meio jururus. Nós temos toda a estrutura de lazer de São Paulo ao nosso inteiro dispor o ano inteiro, mas ela fica menos divertida sem o frescor e o entusiasmo da turistada.
Desta vez, porém, minha experiência pessoal foi um pouco diferente. Por diversos motivos, neste ano não pude flanar pelas ruas e sentir essa vibração gostosa emanando da cidade. Também não mergulhei de cabeça nas festas, como de costume. Tive que reduzir muito o meu envolvimento com tudo e, se não aproveitei tanto, também não senti a tal melancolia do pós-tudo. Aliás, para mim foi um feriado que passou voando. Hoje, provavelmente estou bem mais inteiro do que os meus amigos. De qualquer forma, deixo aqui algumas impressões, satisfazendo a curiosidade dos que acessam este blog em busca de novidades.
Em relação às festas, a única que eu vi com meus próprios olhos foi a GiraSol, como já adiantei no post anterior. Voltei para casa bastante satisfeito, embora tenha achado que ela não repetiu a magia do ano passado (não tem jeito: por mais que se mantenha a mesma receita, cada edição acaba sendo única). Conversei com muita gente, para ter uma ideia geral das festas e saber o que eu estava perdendo. Não teve tempo ruim: todo mundo gostou de tudo, da decoração da Daslu à pegação do Pacha, passando pelas festas na The Week - especialmente o som de quarta e a jogação prolongada do sábado. Meu amigo Thales de Brasília comentou que, em relação aos outros anos, as festas estavam menos superlotadas e o povo estava bem mais bonito - o que me pareceu uma constatação bastante positiva. Mesmo com a tal crise (as produções foram mais modestas e os preços dos ingressos estiveram bem realistas), as festas rolaram superbem. E outros públicos também foram bem servidos: havia muito mais opções de festas para meninas e ursos do que nos anos anteriores.
Já a Parada em si... sempre fiz a maior campanha para as pessoas prestigiarem, mas está ficando cada vez mais difícil defendê-la. Sobre os diversos comentários elogiosos, como o do Tony, que exaltou o caráter inclusivo do evento, o espaço para "os excluídos do meio gay" tornarem-se os donos do pedaço por um dia e serem felizes, eu concordo com todos. Mas também não vejo nenhuma novidade neles. A Parada sempre foi democrática, esta é a sua essência, e isso nunca foi problema, pelo menos não para mim. Não sou desses elitistas que reclamam que "só dá gente feia e pobre"; eu mais do que simpatizo com a mistura entre diferentes tribos e classes, tanto é que continuo batendo cartão na Feira Cultural, um evento 110% periferia. De verdade, acho fantástico que todos, "incluídos" e "excluídos", tenham espaço e liberdade para ser o que quiserem e se divertir como bem entenderem, e penso que parte da beleza da Parada está justamente aí, na pluralidade. Mas não é essa a questão.
A questão é que a nossa Parada Gay deixou de ser nossa. Ao se tornar um evento de massa de proporções gigantescas, com o chamariz da sexualidade hiperexposta, ela foi invadida e apropriada por visitantes da pior qualidade. Não por serem héteros: ao invés de combater preconceito com preconceito, precisamos deixar os héteros se aproximarem de nós, se realmente queremos que eles nos aceitem. Mas por serem verdadeiros aborígenes selvagens. Gente que certamente não estava lá para nos apoiar, mas sim para protagonizar cenas dantescas de violência e vandalismo, estragando a festa e colocando em risco a segurança de todos. Escapei de confusões, brigas e furtos várias vezes. Vi pessoas chorando, sabe-se lá se tinham apanhado ou sido roubadas. Encontrei amigos em estado de choque, porque tinham visto um homem ser derrubado com uma marretada (!) na cabeça. E depois ainda soube dos espancamentos de gays nas redondezas e da bomba jogada na Vieira. De uns dois anos para cá, a Parada tem ficado cada vez longe da festa amistosa que já foi um dia. Não é à toa que cada vez mais gays deixam de comparecer. A barra pesou.
O pior é que esses intrusos roubaram o nosso evento e estão acabando com ele, mas quem vai pagar o pato somos nós. São os gays que sairão arranhados perante a sociedade, com a pecha de vândalos e baderneiros, reforçada por toda a imprensa leiga. Uma imagem piorada por algumas pessoas praticamente peladas, fazendo coisas que dificilmente fariam no meio da rua se não estivessem fora de si (mal pude acreditar em cenas que vi ao redor do MASP). Não sou falso moralista, não gosto menos de putaria do que todos os outros, mas não consigo achar que esse é o recado que temos que passar para o resto da sociedade. Politicamente, para quem ainda está tentando se fazer ouvir e respeitar, isso é um completo desastre - e um prato cheio para nossos inimigos.
Não estou fazendo campanha contra o evento, não. Aliás, não é nada cômodo para mim fazer estas críticas, quando o que se espera de mim é justamente o contrário. Eu adorava a Parada, sempre achei uma mobilização lindíssima, insisti nela o quanto pude, mas agora estou seriamente tentado a não dar as caras na Paulista no ano que vem. Se for para continuar assim, não tenho mais vontade de repetir a dose. Posso tranqüilamente ficar em casa, ou mesmo fazer qualquer outra coisa, porque hoje entendo que, se a Parada nasceu como um gesto político, existem mil outras maneiras de cumprir com nosso dever cívico, algumas delas bem melhores do que essa. Do jeito que está, reduzida a uma micareta de quinta categoria, perigosa e esvaziada de um sentido maior, a Parada não agrega nada de bom à causa LGBT, nem agora e nem para o futuro. E ainda pode render muita dor de cabeça.
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Thiago Lasco
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domingo, 14 de junho de 2009
Já já
Acabei não postando o roteiro de restaurantes bons & baratos. O guia já está todo rascunhado, serão 20 lugares recomendados, mas não tive tempo para desenvolver o texto dentro do padrão de qualidade do blog. Vou postá-lo em breve, na próxima semana, quando o assunto "parada" estiver superado. Afinal, esse tema não ficará velho tão cedo. Velho, aliás, estou eu, que cheguei da GiraSol exausto e nem tive forças para continuar a festa na The Week... mas foi na medida, e não tenho do que reclamar. Muita gente linda, muitos amigos, acho que acertei ao ter escolhido essa como única festa.
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 11 de junho de 2009
Pré-parada: preparada, bee?
Lá vamos nós para mais um feriado da Parada Gay em SP. Enquanto muitos sustentam a necessidade de repensar a Parada em si [eu ia fazer um post-cabeça a respeito, mas depois que dei aquela entrevista desisti; acho que minha opinião sobre a Parada já está bem registrada ali], outros tantos se empolgam com a bateria de festas e e a possibilidade de rever os amigos de fora, que deixam a cidade em polvorosa. Em anos anteriores, quando chegava esta época, eu começava a soltar vários posts recomendando festas e também points da cidade, na tentativa de dar uma força para os leitores que não são daqui.
Desta vez, concluí que era inútil colocar aqui minha agenda selecionada de festas. Afinal, quem realmente se interessa pelo assunto já fez sua programação pessoal há muito tempo [para quem não fez, o serviço completo está aqui, aqui e aqui]. Em resumo, a única novidade desta temporada 2009 é a festa VIP, no polêmico Terraço Daslu. A The Week continua sendo uma opção segura: previsível, mas que não costuma decepcionar. Da programação da Flex, que aprendeu a seguir seu próprio caminho, o que chama a atenção é a megafesta no Espaço das Américas, na sexta. Bubu, Ultradiesel, SoGo, Blue Space e Cantho correm por fora, como nos outros anos. E os novos bares bacanas devem encher de turistas que não vêm sempre para cá e querem conhecer as novidades.
Na Parada em si, com os clubes fora do jogo, o trio elétrico mais bombado deve ser o do site Disponivel. A novidade deste ano é o camarote que o Mix Brasil está comercializando, a R$ 250 por cabeça, para quem quiser participar (?) da "maior parada do mundo" com "conforto e segurança" (é "exclu", eles dizem). Confesso que achei engraçado o Mix primeiro detonar a Parada (o diretor de conteúdo do site escreveu em seu blog pessoal que achava o evento "um desserviço à comunidade gay real") e logo depois tratar de faturar uma boa grana em cima dela, mas a vida é assim mesmo, né. Quem não quiser morrer nos R$250 pode pagar R$15 e assistir ao espetáculo a partir de um mirante dentro do Mix Markt, reedição do Mercado Mundo Mix que vai acontecer sábado e domingo, num estacionamento ali na Paulista, e promete ser bem bacana (vou prestigiar meu amigão Rique, estilista da R.Groove, que estará participando).
Não saí completamente do meu resguardo e não poderei me jogar com a força do ano passado. Mas farei questão de prestigiar dois eventos diurnos: a Feira Cultural, que é sempre divertida, e a day party GiraSol, no sábado, que ano após ano vem sendo a melhor festa. O probleminha é que o sucesso dela depende muito do tempo estar bom - e o prognóstico do Climatempo não é nada animador. Por isso, turistada: tragam bons agasalhos, sendo pelo menos um deles apropriado para andar na chuva (nylon, tecido impermeável ou, no mínimo, um capuz dando o truque). De resto, deixo aqui minhas dicas do que fazer em São Paulo, bem como meus conselhos de mãe - ambos foram feitos para a Parada de 2007, mas continuam bem atuais. Para não dizer que não dei nenhuma dica nova, meu próximo post (no ar amanhã) será sobre restaurantes. Ao invés de repetir os lugares óbvios dos outros guias (Mestiço, Spot, Ritz), vou fazer um roteiro só com lugares bons & baratos [aqui]. Assim, só come na praça de alimentação do Shopping Frei Caneca quem quiser. Aproveitem o feriado com responsabilidade e nos vemos por aí.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Um parto prematuro (e desastrado)
No ano passado, a revista DOM foi às bancas às vésperas da Parada Gay com um guia de bolso, o Kit Parada DOM, feito por mim e por Marcos Costa, com a agenda das melhores festas, endereços de comes, bebes e pegações, e mais uma porção de dicas úteis para as pessoas aproveitarem. Neste ano, a Junior resolveu copiar a ideia: quem comprar a edição número 11, lançada ontem, leva de brinde um guia para a Parada. Assim que li a notícia no Mix Brasil, portal de notícias do grupo que edita a revista, fui garantir meu exemplar na banca - como, aliás, fiz com todas as demais edições, desde que a revista foi lançada (ok, minto: o número 10 eu ganhei de presente).
A essa altura do campeonato, já assimilei bem a proposta de cada uma das revistas gays do mercado, suas virtudes e suas limitações. Por isso, sei bem o que esperar de cada uma delas quando entrego o dinheiro ao jornaleiro. Acho que o Brasil hoje tem potencial e espaço para ter uma boa imprensa gay, existe uma abertura e também uma demanda por isso, pelo menos nos grandes centros. É tudo questão de formar um mercado consumidor, e também de reunir boas cabeças: gente culta e preparada, que saiba o que é uma revista e o que está fazendo ali. Ainda estamos verdes, falta ousadia e um bocado de substância, mas quero acreditar que dá para chegar lá. Enquanto espero, faço questão de continuar comprando, ajudando e prestigiando: solidariedade LGBT é isso aí. Mesmo assim, com toda a condescendência possível, com toda a vontade de gostar de tudo o que eu leio, fiquei decepcionado com o tal Guia Junior.
Não vou falar dos erros de português (especialmente concordância) que sempre aparecem na revista, porque hoje entendo que o leitor médio da Junior nem consegue perceber essas coisas, portanto não se incomoda. Mas dessa vez as derrapadas foram menos sutis: o Guia tem pérolas como "comindinhas", "brincandeira", "instrasitável", "logevidade", "pool pary", "eletrõnica", "doungeun", "enderçeo", "qunado", "nortuna". Desculpem, queridos, mas revista não pode ter esse tipo de coisa. Pô, eles têm pelo menos um jornalista que sabe escrever, que é o Hélio Filho. Se não dava pra colocarem o fofo escrevendo a revista inteira, custava terem contratado um revisor? Na pior das hipóteses, usar o corretor do Word já pouparia uma parte dos micos.
A outra parte dos micos também seria evitada com revisão, essa palavrinha que faz parte da rotina de qualquer veículo jornalístico profissional. Dos quatro hotéis indicados, três saíram com o mesmo endereço - que não é o correto de nenhum deles, e sim o do bar Farol Madalena! Será que vai chegar muita gente no bar das meninas pedindo um lugar para dormir? Com a sauna Wild, foi pior: saiu com o endereço da SoGo (que aparece logo antes) e ainda com o telefone "00 0000-0000". Pega mal, fofitos. Como é que os turistas poderão confiar em um guia em que todas as indicações podem ter sido coladas no lugar errado?
Isso sem falar na seção de festas da parada, que tem cara de coito interrompido. Eles dão quatro indicações de festas na quarta, quando muita gente ainda nem chegou em SP, e apenas uma no sábado, justamente o dia mais bombado?! A GiraSol pode até ser a favorita de muitos, mas claro que tem muito mais coisa rolando na cidade. Não adianta dizerem "você que não viu no título que eram festas off-clube", porque todas as festas listadas na quarta são dentro dos clubes. Fica parecendo que aconteceu alguma coisa no meio do caminho (ou entrou um anúncio na página seguinte e o espaço encolheu, ou acabou o prazo para fechar) e eles simplesmente decidiram interromper a seção onde estavam, e tchau. Nem se deram ao trabalho de remanejar as festas para deixar a coluna equilibrada.
Enfim, a impressão que fica é de um trabalho feito nas coxas, às pressas e sem o menor cuidado. O leitor está pagando para ler um material inacabado, cheio de falhas, que nem sequer foi conferido! Isso é mais do que amadorismo: é desleixo puro, descaso mesmo. É algo que depõe totalmente contra - para fazer desse jeito, seria melhor não ter feito o guia. Depois dessa, fiquei até com medo de abrir a revista. O que mais será que eu posso encontrar lá dentro?
Antes que comecem a encher meus comentários com chochos e bobagens, já vou logo dizendo que não fiz este post por despeito, inveja, mágoa-de-cabocla ou qualquer coisa do tipo. Também não é gongo maldoso de quem joga no time concorrente. Escrevo estas palavras não na qualidade de colaborador da DOM, mas sim como leitor da Junior. Como um consumidor que quer que a revista melhore e valha o dinheiro, antes que ele perca a paciência e desista dela. São críticas construtivas, que estou dando a eles de presente, de lambuja - e nem sei se eles merecem, pelo tanto que são pretensiosos, arrotando caviar nos editoriais como se fossem protagonistas de uma nova revolução cultural. Se admiram tanto a Têtu, como vivem dizendo por aí, deveriam aprender mais com ela e se tornar menos amadores (e mais humildes). E com isso, certamente me ajudarão a continuar comprando a revista. Enquanto isso, o post vale como conselho para meus leitores: se for só pelo Guia Junior, economizem o dinheiro da revista e confiram o mesmo material, de graça, nas matérias no Mix Brasil. Pelo menos no site eles ainda têm a chance de corrigir as coisas que escrevem errado...
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Entrevista para o site A Capa
A "cartilha gay" que estou produzindo com outros cinco blogueiros chamou a atenção do site A Capa e eles pediram que eu lhes desse uma entrevista, que foi publicada hoje. Para os que se interessarem, estou disponibilizando aqui a íntegra do material que eu mandei para o site, sem edição.
Fale um pouco de você. Sou paulistano, tenho 31 anos, sou advogado e estou fazendo jornalismo. Escrevo o blog “Textos, Contextos e Pretextos de Introspective”, onde falo sobre comportamento, gastronomia, noite, viagens, cultura, universo gay, enfim, assuntos que me interessam ou chamam a minha atenção, coisas que fazem parte da minha vida. Também sou colaborador da revista DOM.
Gostaria que você explicasse ao nosso leitor a ideia da cartilha. Quando se pensa nas conquistas sociais e políticas que ainda faltam aos gays, muita gente não se vê como parte da solução. As pessoas se habituaram a culpar “os outros”, a dizer que ninguém faz nada, mas elas mesmas não tiram a bunda da cadeira. Alguns são realmente comodistas, mas tem gente bem-intencionada que até gostaria de fazer algo, e não sabe por onde começar. São pessoas que nunca se interessaram pelo movimento LGBT e não pretendem se aproximar dele. A ideia da cartilha é mostrar o caminho das pedras para que essas pessoas, sozinhas, tomem atitudes úteis, construtivas, que tenham efeitos sociais positivos, e ajudem a melhorar a nossa situação. É uma iniciativa independente, feita por seis blogueiros, desvinculada de interesses de grupos ou partidos, e que não concorre ou compete com o trabalho da militância. Não sou o dono da verdade, nem tenho a pretensão de ditar regras para ninguém. Estou apenas fazendo algo para somar, aproveitando essa visibilidade dos blogs para provocar uma discussão saudável, que estimule outras pessoas a sair da inércia.
Pode adiantar algumas ideias da cartilha? São sugestões de pequenas atitudes que possam ser adotadas e incorporadas ao cotidiano. Ideias realistas, viáveis, que saiam do papel. A intenção é que as pessoas percebam que podem fazer a diferença, que isso está ao alcance delas, e se sintam encorajadas. Tem posturas essencialmente pessoais, ligadas à autoestima, às relações com a família e os amigos, à busca por informação, ao consumo consciente, e outras que, mesmo sendo individuais, envolvem algum tipo de participação social, como o trabalho voluntário, a colaboração com ONGs ou mesmo o contato com parlamentares. Nem todos os itens servirão para todos. Cada um vai absorver o que achar que dá, o que está dentro de sua realidade.
Você acompanha o trabalho da militância? Já foi a algum encontro de algum grupo? Você participou da Conferência GLBT (à época) Municipal e Estadual de São Paulo? Qual a sua opinião sobre o Fórum Paulista LGBT? Como você classifica a perseguição que a senadora Fátima Cleide (PT-RO) está sofrendo? Acompanho o trabalho da militância lendo as notícias relacionadas, quando são publicadas na Folha de S. Paulo e nos portais Mix Brasil, A Capa e Parou Tudo. Nunca fui a reuniões de grupos ativistas, nem aos eventos que você citou, e não estou a par do episódio envolvendo a relatora do PLC 122. Minha vida é outra. Contudo, isso não me descredencia ou desqualifica para produzir uma cartilha. Os cidadãos comuns têm todo o direito de se mobilizar para mostrarem o que pensam e protegerem uns aos outros, sem necessariamente aderirem a grupos ativistas. Quero mostrar com a cartilha que não é preciso se filiar a um grupo ou frequentar eventos para fazer o que está ao alcance de cada um.
O meio gay é alienado politicamente? A classe média gay é tão politizada ou despolitizada quanto a classe média hétero. Não somos mais alienados porque consumimos moda, cuidamos do corpo ou tiramos a camisa na boate. Essa associação automática do universo gay com a futilidade é perigosa. Observo que no meio que frequento existe sim uma apatia, um individualismo. Muitas pessoas realmente não estão nem aí para nada. Mas outras se importam e ficariam felizes em ajudar a causa, e foi para elas que resolvi bolar a cartilha. Esse individualismo e falta de participação não são exclusividade do meio gay, são parte da mentalidade contemporânea, têm a ver com um processo de esvaziamento do debate político a partir do regime militar, enfim, têm uma série de explicações que nada têm a ver com sexualidade. Sexualidade é algo mais básico e simples do que isso.
Como a militância poderia atrair mais pessoas? Não sou a pessoa mais indicada para responder a essa pergunta. É a militância que precisa encontrar suas fórmulas. Talvez seja o caso de mudar o discurso, buscar um repertório novo, uma linguagem mais palatável a quem está de fora.
Na sua opinião, qual partido político está mais próximo da comunidade gay? Como não acompanho de perto as atividades de cada partido, não quero correr o risco de ser injusto. Sei que boa parte deles, não só os de extrema esquerda como também PT e PSDB, tem subgrupos ligados à diversidade sexual. Mas eu, que estou fora do jogo político, não enxergo nenhum partido como realmente próximo da comunidade gay.
Você frequenta a parada gay? Vou todo ano há uns oito ou nove anos, nem lembro mais qual foi minha primeira. Ainda não desisti dela, mas não sei dizer por quanto tempo vou continuar. Só insisto porque acho que, se ela está desvirtuada, não é abandonando o barco que alguma coisa vai mudar. Em entrevista ao site Parou Tudo, o diretor-geral Manoel Zanini disse que acha que o peso político da Parada é muito maior hoje, com os tais três milhões. Eu já penso o contrário: não acho que a quantidade de gente na rua soma ao movimento, ela até o enfraquece. O recado político do “vejam como somos muitos” foi dado quando atingimos o primeiro milhão, nós realmente causamos impacto, mas a sociedade já absorveu a mensagem e isso não faz mais tanta diferença. “Dançar, cantar e celebrar” não é protesto. O lado lúdico é necessário, mas não basta, não leva a conquistas nem provoca uma mudança de mentalidade. Não sei qual a saída. Talvez deixar o trecho da Paulista para a militância discursar, abrir espaço para protestos e reivindicações, e ligar a música dos carros ao dobrar a Consolação, deixando a festa rolar a partir daí. Seria menos jogação, o povo da bagunça grátis acharia chato, viria menos gente? Tudo bem, não é do volume desse povo que a Parada precisa hoje. E festa, os clubes fazem muito melhor.
Você acredita em ações coletivas? Acredito que, em algumas situações muito específicas, a classe média em geral é capaz de se indignar, se mobilizar e pensar coletivamente. Mas, quando o assunto são as questões LGBT, sou meio cético. Acho muito difícil querer provocar uma convergência de vontades em um grupo que é tão diverso e plural, e também tão desunido, que tem mil preconceitos entre si. Quando eu escrevi que “a esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais”, quis dizer que não dá para a gente ficar esperando uma união que pode simplesmente não acontecer. Por isso, defendo ações individuais, ao estilo “faça você mesmo”. Que podem se multiplicar e acabar tendo um efeito coletivo. Mas cada um por si, sem prestar contas e nem depender de ninguém. É importante que cada um se sinta impelido a ter sua própria iniciativa, ao invés de ficar esperando eternamente pelos outros.
E sobre a mídia gay, ela ajuda a despolitizar a comunidade gay? Qual a sua opinião a respeito? Não podemos fazer dela culpada. O problema é anterior. Se a “comunidade gay” é despolitizada, não é por causa da mídia gay, mas porque não lê jornal mesmo, da mesma forma que muitos segmentos héteros também não. É um erro pensar que basta ler os sites e revistas gays para estar suficientemente informado, quem pensa assim não enxerga muito longe. A consciência social e política, o senso cívico, isso tudo vem de outro lugar, vem da criação e dos hábitos de cada um, e ninguém vai desenvolver lendo o Mix ou ACapa, por mais politizados que eles queiram ser. O papel da mídia gay, enquanto mídia especializada, é cobrir as especificidades de seu universo. Política entra na mistura, sem dúvida, mas é só um dos assuntos a serem tratados. E tem que ser dosado, até mesmo por questões comerciais, afinal só militância não vende revista, não dá audiência a site, nem nada. Comportamento, noite, consumo, identidade, moda, lazer, saúde, aconselhamento jurídico, sexo, fofocas, assuntos úteis e fúteis, tudo isso é de interesse do público gay e é perfeitamente legítimo que ele procure essa informação. Temos que aceitar que algumas pessoas se interessarão por política e outras não, sejam elas homo, bi ou heterossexuais.
Você é formado em Direito. Acredita que os cursos de advocacia preparam os futuros profissionais a lidarem com a questão da homoafetividade? Bem, só posso falar pela USP, que foi onde estudei. Eu me formei em 2001 e, naquele tempo, o curso de graduação em Direito não dizia uma só palavra sobre o assunto, não tratava dessas problemáticas não contempladas pela lei. A repercussão nacional das decisões proferidas pela desembargadora Maria Berenice Dias no Rio Grande do Sul é posterior a essa época, não sei como o curso está agora. Parece que existe um grupo que promove discussões extraclasse sobre questões ligadas à diversidade sexual, no pátio da faculdade, com gente de outras áreas. Mesmo entidades de apoio aos advogados, como a OAB e a AASP, começaram a dar cursos sobre o assunto muito recentemente, coisa de dois anos para cá. Mas um bom curso de Direito prepara o advogado para pensar o ordenamento jurídico como um todo e encontrar soluções para os problemas com base nas leis já existentes. Buscar o reconhecimento de uma sociedade de fato, por exemplo, foi uma saída criativa para contornar a inexistência de uma união estável homossexual, e assim conseguir dividir o patrimônio dos casais que se separavam.
O que você acha da lei 10.948? Foi um grande passo dado aqui em São Paulo. É importante esse reconhecimento formal, por parte do legislador, de que a diversidade sexual precisa ser respeitada, isso tem um caráter educativo para o resto da sociedade. E a imposição de uma pena pecuniária (multa) não deixa de garantir à lei uma certa efetividade. Mas para estancar a homofobia de verdade, só mesmo atribuindo a esse tipo de comportamento uma sanção penal, coisa que somente a esfera federal tem competência para fazer. Por isso, a aprovação do PLC 122 é tão importante.
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Thiago Lasco
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
Parada também é reflexão e discussão
A Parada Gay virou um carnaval fora de época, foi desvirtuada, não tem mais caráter político, está hiperlotada, perigosa e impraticável, blá blá blá? Até concordo com muitas das críticas que são feitas, e em breve vou dar meu pitaco sobre isso. O que talvez muita gente ainda não saiba (especialmente os que vêm de fora) é que a "Parada" não é apenas o desfile de trios elétricos na Avenida Paulista. Esse é apenas o ponto alto e mais visível de uma programação que acontece desde o início do mês - e, além de festa e jogação, também inclui eventos que dão oportunidade para a reflexão e a discussão sobre questões que são importantes para a nossa vida.
O Ciclo de Debates do 13º Mês do Orgulho LGBT começou anteontem e está discutindo, em vários espaços da cidade, os mais diversos temas de interesse da comunidade gay. Claro que há alguns assuntos mais áridos para quem não é da militância, mas também há debates sobre família, saúde, religião, psicologia, acesso à justiça, turismo e mídia gay. Ficou curioso? Então confira a extensa programação, que só termina em 19/6, aqui.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 1 de junho de 2009
Um caminho possível (para chegarmos lá)
Quando escrevo um texto como este, lamentando a alienação política e a apatia generalizada que tomaram conta do meio gay, não acho que esteja chovendo no molhado. Mesmo sem me considerar um formador de opinião, acredito que compartilhar essas reflexões pode levar outras pessoas a também pensar sobre o assunto. Não deixa de ser uma forma de fazer alguma coisa para tentar melhorar nossa situação. Por outro lado, não ignoro que esse tipo de iniciativa tem um impacto limitado. Muitos leitores até concordarão com o que eu digo, irão se sentir incomodados por alguns instantes, mas logo virá outro post para distraí-los, e a eventual indignação acabará evaporando sem que ninguém tire a bunda da cadeira. E assim ficamos.
Tenho pensado em outras maneiras de fazer a minha parte. Como é possível virar a mesa? Algumas pessoas são realmente acomodadas: aguardam a misericórdia da sociedade, e contentam-se em colher os frutos do que for plantado por outras pessoas. Mas sei que há gente que se importa e até gostaria de fazer algo, mas não sabe como.
"As bibas são individualistas", "está todo mundo entorpecido pela mídia", "a inclusão que importa hoje é a do consumo". Sim, essas constatações são todas verdadeiras. Se formos esperar que os 3 milhões de pessoas espremidos pela Avenida Paulista dêem as mãos e promovam uma mudança, estaremos ferrados. Seria lindo se toda a vasta comunidade LGBT se unisse, mas, sejamos realistas, isso possivelmente não vai acontecer. Não posso falar por todos, mas olho ao meu redor e vejo muito mais gente tirando o corpo fora do que se importando de verdade. Então, não há saída? Há sim, mas não dá mais para viver uma utopia, sonhar com uma união que parece cada vez mais distante. A esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais.
Mas por onde começar? Transformando palavras vagas e ideais abstratos em atos concretos, coisas que estejam ao alcance de cada um de nós. Nasceu aí minha ideia de fazer uma cartilha, uma lista de medidas exequíveis, palpáveis, realistas. Pequenas atitudes para cada um adotar no seu cotidiano, dentro de suas possibilidades individuais, que variam de uma pessoa para outra. São sugestões; ninguém precisa acatar todas elas, basta cumprir aquelas que estão mais próximas de sua realidade. Rodolfo, que é fortão, pode socorrer uma biba que está levando um coió ou sendo agredida; já Lucas, que é franzino, pode escrever uma manifestação de repúdio a um programa de TV homofóbico, e mandar para um jornal. Plínio, que é podre de rico e não suja as mãos nem com seu poodle, pode remanejar o valor de um jantar por mês para ajudar alguma ONG que auxilie travestis, soropositivos ou vítimas de preconceito. Todos nós podemos nos manter melhor informados sobre o mundo que nos cerca, e deixar de abaixar a cabeça quando vemos nossos direitos sendo preteridos.
A ideia é que cada um, sozinho, tome pequenas atitudes que transformem o mundinho ao seu redor, e assim ajudem a fazer a diferença. Eu faço aqui. Você faz aí. Eventualmente, os amigos dos amigos, que moram em Novo Hamburgo, Manaus ou Feira de Santana, se animarão também. Claro que nem todo mundo pode se dar ao luxo de sair do armário heroicamente e ser crucificado em seu círculo social. Mas cada um faz o que pode. E olha: tem coisa pra caramba que dá para fazer. Cada um no seu quadrado, podemos acabar gerando uma formidável corrente do bem. Pessoas comuns, anônimas ou não, entre seus amigos e familiares, fazendo um trabalho de formiguinha e multiplicando-o, semeando inclusão, promovendo cidadania e ajudando a enfraquecer o preconceito.
Para me ajudar na elaboração dessa cartilha, resolvi convidar mais cinco blogueiros (Gustavo, Cris, Daniel, BHY e Isadora) que, além de estarem entre os meus preferidos, têm uma visão crítica e que vai além dos muros da boate. Nem sempre estamos afinados com as mesmas opiniões, mas as divergências só vão enriquecer o resultado. Minha ideia é trabalharmos em cima disso pelos próximos 15 dias, até chegar a uma lista final com 50 itens. E publicar a cartilha em nossos blogs, na segunda-feira logo depois da Parada - quando todo mundo já "celebrou o orgulho" e está prontinho para esquecer a causa pelo resto do ano. Eu boto fé, e você? Sugestões serão sempre bem-vindas.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 27 de maio de 2008
Doze comentários sobre a Parada SP 2008
Ainda não estou 100% recuperado, mas não posso mais adiar este texto-balanço da Parada, porque hoje já é terça-feira e o assunto envelhece rápido. Então, aqui vão minhas impressões bem pessoais sobre o que eu vivi nesses 5 dias. É claro que não deu para viver tudo: mesmo tendo enfiado o pé na jaca como poucas vezes na vida, deixei várias festas de fora, não fui a nenhum after, perdi o Gay Day do Playcenter (que eu até tinha decidido conferir), não pus os pés na 269 (e olha que chegavam o tempo todo relatos de que o movimento nas saunas estava incrível), fiz menos passeios pela cidade do que gostaria e não tive forças para ir à Parada no domingo. Mesmo assim, a sensação que tenho é de missão (muito bem) cumprida: este foi o ano que melhor aproveitei até hoje.
Deixo aqui meus comentários e convido os leitores a conhecer outros olhares. A equipe da DOM foi a absolutamente todos os eventos e se lançou numa intensa produção de notícias para o novo portal da revista. O Mix Brasil fez sua costumeira cobertura das festas e dos eventos diurnos. O site ParouTudo, de Brasília, também postou um bom material sobre o agito diurno, as festas e a Parada em si. Já os blogueiros, que não trabalham em equipe e precisam conciliar blog e rotina, devem soltar seus posts gradativamente, nos próximos dias. Indico meus amigos Italo, Lindinalva, Glamaddict, Gui, Tony e, para quem arrasa no inglês, o bacanérrimo Made in Brazil. Eu mesmo ainda não tive tempo de ler mais nada em lugar algum e só vou fazer minha romaria virtual nos próximos dias.
LOTAÇÃO ESGOTADA. A maior cidade do país já começa a parecer pequena para tanta gente que vem se jogar. A Praça da República quase não deu conta do movimento da Feira Cultural, o trânsito nas ruas Oscar Freire e Frei Caneca esteve infernal, a Paulista foi mais uma vez tomada no domingo (novamente com muitos incidentes e 78% mais furtos) e clubes como Pacha, The Week e Blue Space operaram no limite. Até hotéis com preços mais salgados comemoraram a ocupação completa de seus quartos. Se a freqüência continuar se multiplicando nesse ritmo, daqui a pouco São Paulo terá que celebrar seu Orgulho Gay em Brasília, para ganhar mais espaço. [Mesmo assim, devo reconhecer que estou morrendo de saudade dessa muvuca. Ver a cidade voltar ao normal, sem a euforia dos turistas, me deixa tão melancólico...]
ANESTESIA GERAL. Já participo da Parada e das festas que a cercam há muitos anos. Já passei vários Carnavais no Rio e em Florianópolis. E já dei meus pulinhos pelo meio gay no Exterior. Portanto, não fico mais deslumbrado com qualquer coisa. Mesmo assim, fiquei espantado com a quantidade de homens bonitos que vi em São Paulo nesses cinco dias. Arrisco dizer que a cidade nunca viu algo parecido. Era tanto macho bonito e gostoso, em todas as direções, que num dado momento aconteceu comigo a coisa mais improvável: eu, que sempre fui ligadíssimo no físico dos homens, perdi a sensibilidade e fiquei anestesiado. É sério: depois do corpo perfeito número 300, todos os demais passaram batidos, tornei-me indiferente a eles, como se não tivessem mais nada a me dizer. [Com o refluxo de um certo número de beldades para suas cidades de origem, espero voltar ao normal dentro de alguns dias].
CADA MACACO NO SEU GALHO.
A exemplo do que já se vê em capitais européias e norte-americanas, o crescimento e a maturidade da cena gay de São Paulo trouxeram a tiracolo um efeito colateral inevitável: a segmentação. Clubes, festas e até saunas se profissionalizam e especializam, e com isso em cada ambiente passa a existir pouca ou nenhuma mistura de tribos. Quem seguiu a programação de festas da The Week, por exemplo, teve a impressão de que todos os gays do mundo são bombados, tatuados e descamisados. No circuito moderninho, nas festas de meninas, na cena bear, o fenômeno se repete: é cada macaco no seu galho, e pronto. O público ganha ao encontrar exatamente quem quer encontrar, mas perde ao se privar da rica experiência de conviver com o diferente. Confirmando isso, muitos torceram o nariz e ignoraram olimpicamente os poucos eventos caracterizados pela pluralidade (Feira Cultural, Gay Day e a própria Parada).
O REINADO DOS CLUBES. Enquanto em outros anos festas como Magma, X-Demente, E-Joy e R.Evolution tentavam disputar uma fatia do público baladeiro, neste ano o fervo todo rolou nos clubes: The Week, Flexx, Blue Space e A Lôca prepararam programações especiais e estiveram intransitáveis.
Megga e Bubu fizeram tudo o que puderam, mas não conseguiram contornar a interdição pela Prefeitura, causada por "entraves burocráticos" que permanecem mal-explicados. Entre as poucas festas que aconteceram fora dos clubes, destacaram-se as do Pacha e do Clube de Regatas Tietê (ambas com a assinatura da The Week) e os eventos específicos para ursos e meninas, em espaços menores e com divulgação praticamente restrita a essas comunidades.
SÓ PARA A DIRETORIA. As festinhas private são feitas por clãs menores, têm divulgação controlada e convidados selecionados. Mesmo assim, algumas são tão caprichadas que acabam repercutindo até entre os que não foram incluídos na rodinha. Entre as melhores da temporada 2008, estiveram a bafônica festa no apartamento do DJ Eric Cullemberg, o coquetel organizado pela festa Toy na galeria Romero Britto e o já tradicional chill in do blogueiro Tony Goes - tão bom que ninguém queria saber de arredar pé e ir para a balada depois, para desespero do anfitrião.
RACIONAMENTO DE ENERGIA.
Com noites de peso acontecendo nos clubes e festinhas private bem animadas, em algum momento o povo precisava descansar. E quem saiu perdendo foram os afterhours, que estiveram bem mais vazios do que o previsto. A julgar pelo grande movimento que vinha tendo nas semanas anteriores à Parada, era de se esperar que o Ultradiesel vivesse manhãs históricas, que avançassem dia afora e só terminassem ao entardecer. A casa inclusive anunciou investimentos extras, como projeções em 3D e café-da-manhã com whey protein. Mas nada disso foi suficiente para fazer as pessoas abrirem mão do pouco tempo de sono de que dispunham.
HINO OFICIAL. Se a música mais tocada nas festas da Parada 2007 foi "Say It Right", da Nelly Furtado, neste ano só deu Mariah Carey e sua "Touch My Body", que veio em diversas versões (principalmente o ótimo remix do Seamus Haji) e empolgou geral. Ressuscitada por Peter Rauhofer e transformada no hino do último Carnaval,
"Tocame" do Fragma [aquela do refrão "I need a miracle"] ainda causa um estrago danado nas pistas - na GiraSol, ela provocou uma gritaria digna do festival argentino Creamfields. Já Madonna praticamente passou em branco com a pouco inspirada "4 Minutes".
OS MEUS HINOS. Já na minha vitrola pessoal, as músicas que me fazem lembrar desses loucos dias que passaram são o ótimo remix do Soulcast para "Rehab", da Amy Winehouse (tema bastante apropriado para esse contexto de excessos), o remix de Frankie Knuckles para "Blind", do Hercules and Love Affair, e a ótima "Stomp That Shit (Promo Dub Mix)", de Tristan Garner, que tem presença cativa nos sets do DJ João Neto e fez o Pacha inteiro gritar. Ah, e "Touch My Body", é claro.
NOSSAS MAJESTADES, OS DJs. Na festa de quinta-feira, no Pacha, DJ Paulo fez um set bem gostoso (embora curto demais) e até cheguei a pensar que seria o melhor desta Parada. Mas no sábado Peter Rauhofer presenteou a todos nós com uma viagem musical de puro sonho, com vários momentos mais progressivos (ou seja, do jeitinho que eu gosto!), e roubou para si o título, fechando a temporada com chave de ouro. Entre os DJ nacionais, João Neto é o meu predileto no momento, mas preciso ser justo: Renato Cecin também mandou bem, com menos drag hits e mais bombação, e Ana Paula simplesmente arrasou na pista da GiraSol. Ah sim, e o abraço mais gostoso continua sendo o do Pacheco.
DEZENOVE HORAS DE MAGIA. Tive uma noite deliciosa no Pacha na quinta (apesar das várias falhas na estrutura da casa) e gostei do clima leve da The Week na sexta. Mas foi no sábado que vivi os momentos mais especiais da temporada. A GiraSol já foi a melhor festa da Parada 2007, mas ainda assim conseguiu me surpreender. A TW mudou completamente a configuração do espaço do Clube de Regatas e colocou o povo dançando dentro e em volta da piscina, como num anfiteatro. Gente 100% linda (festa vencedora também nesse quesito), DJs arrasando (adorei o espanhol Iordee remixando "Physical" da Olivia Newton-John; depois Cecin e Ana Paula arrebentaram) e uma vibe indescritível, com todo mundo dançando e gritando feliz, como num grande festival. Saí de lá à 1h50 da manhã, direto para a The Week, onde tudo continuou perfeito. A área externa serviu como prolongamento da pista principal, onde pude aproveitar a noite gostosa, rodeado de gente especial por todos os lados. Para onde eu olhasse, havia rodas de amigos queridos que me puxavam, me abraçavam, me davam carinho: nunca me senti tão bem acolhido. O set farofa de Offer Nissim passou voando, e depois Peter Rauhofer serviu seu néctar progressivo
até 11h20 da manhã. Só posso dar os parabéns à TW, que consegue a proeza de se superar o tempo todo. Essas 19 horas de magia ficarão na minha memória para sempre.
E A PARADA? Não posso falar bem nem mal da Parada, porque eu não estava lá. Depois da overdose de emoções e desgaste físico descrita na nota anterior, eu estava destruído. Até fui para a Paulista, onde cheguei às 12h55. Uma hora depois do previsto para o início, alguns carros nem haviam chegado, e eu não tinha condições de ficar ali parado, fritando no sol e esperando a coisa acontecer. Fui embora, mas teria ficado se tivesse forças. E isso porque, de todos os argumentos pró e contra que expus, aquele em que mais acredito é o último: a Parada que queremos, quem faz somos nós - porque ela é nossa. A maioria dos meus amigos não foi; entre os que prestigiaram, não houve consenso de opiniões. Mas achei muito lúcida a visão de André Fischer, que no post de 25/5 resumiu bem a crise de identidade em que o evento se encontra. Entre militância e festa, ela não cumpre direito nenhum dos dois papéis.
Eu acho que a Parada deveria abraçar a primeira opção e ser uma manifestação de força e dignidade dos gays perante a sociedade. Algo de que todos pudessem participar, inclusive os gays que não se encaixam em caricaturas. Festa por festa, os clubes fazem melhor e com mais conforto.
FINAL INFELIZ. Eu ia dizer que as pessoas finalmente pareceram ter aprendido a segurar a onda e controlar os excessos. Afinal, dessa vez não vi nenhuma daquelas cenas deploráveis, comuns em outros carnavais, de pessoas estrebuchadas no chão, convulsionando e estragando a festa dos amigos. Mas ontem tive a notícia de que Lucas, um lindo rapaz de apenas 24 anos, foi protagonista de uma tragédia. Depois de misturar álcool e drogas, ele acabou morrendo afogado na piscina de um hotel nos Jardins. Aos amigos de Lucas e, especialmente, à mãe do garoto, meus mais profundos sentimentos. E àqueles que pensam que isso foi apenas "obra do destino", um recado: abram o olho e sejam responsáveis! Isso também poderia ter acontecido com vocês.
[FOTOS: ParouTudo.com (Paulista e go-go boy) e Introspective]
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Thiago Lasco
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