Mais uma Semana da Parada está chegando e os principais clubes paulistanos já anunciaram sua programação. No geral, tudo será parecido com os anos anteriores: são festas pensadas para receber o grande número de turistas que desembarcam na cidade. É o nosso Carnaval gay fora de época. Tudo é mega por definição, e não dá para ser de outro jeito. Nas noites cotidianas, porém, vem se esboçando uma mudança de comportamento. O formato de megaclube, que deu o tom da cena dos últimos anos, ainda dá um bom caldo, mas está crescendo uma demanda por algo diferente.
Quem encarna o paradigma vigente e o representa da melhor maneira é a The Week, que segue firme como o maior clube do país. André Almada e seus sócios não tiveram uma ideia nova - o padrão foi apropriado da finada festa carioca X-Demente, que, por sua vez, bebeu na fonte das circuit parties norte-americanas - mas lapidaram o conceito, incorporando um nível de conforto e profissionalismo que deram grande visibilidade à marca, fazendo dela uma referência em todo o Brasil e até mesmo lá fora. Não é exagero dizer que todas as casas gays do Brasil hoje querem ser a The Week, da Black Box de Curitiba à Vogue de Natal.
O espaço da rua Guaicurus continua a todo vapor, e nem mesmo a abertura de outros dois clubes - de porte similar, na mesma região e teoricamente voltados ao mesmo nicho - abalou o movimento da casa. Mas, se o sucesso da TW atraiu rostos novos e até tribos novas (os héteros chegaram como paraquedistas eventuais e hoje são uma realidade, muitos são clientes cativos), há frequentadores da "velha guarda" que deixaram de dar as caras por lá. É que, com tudo de bom e mágico que existe no autodeclarado Universo Perfeito, divertir-se nele pode dar um trabalho danado.
O ritual começa com a preparação do corpo, que deve estar esculpido dentro de rígidos padrões impostos e descansado para enfrentar uma verdadeira maratona, para a qual toda ajudinha etílica ou sintética será válida. Depois, é preciso ter paciência e espírito esportivo para enfrentar a fila do estacionamento, do bar e do banheiro, assim como a lotação da pista, em meio a pessoas nos mais variados estados de espírito e consciência. E sempre correndo o risco de ter pertences subtraídos sorrateiramente, prática difícil de coibir na multidão.
Por essas e outras, algumas pessoas não chegaram a pendurar as chuteiras, mas sentiram que aquele modelo de jogação já não as satisfazia completamente. Até porque lá se vão mais de cinco anos repetindo a mesma brincadeira. Para elas, ainda pode ser legal ir a um clube grande e ter uma noite grande, pesada, superlativa, mas às vezes tudo o que querem é algo menor, mais simples, mais intimista. Um lugar para ver gente, encontrar os amigos e conhecer pessoas - tendo espaço para conversar, fazer contato visual, flertar. Como antigamente. Como às vezes se torna difícil fazer nos megaclubes.
Nesse contexto, meio que por acidente, um novo player da cena atirou onde viu e acertou onde não viu. Sim, estou falando do Duda Hering e seu Café Com Vodka que, à sua maneira, tornou-se um case de sucesso na noite gay paulistana. No espaço reduzido do Sonique, o CCV consegue entregar justamente o que falta num clube grande: a possibilidade de conversar e interagir (ainda que não dê pra chamar o projeto de "descontraído" nem "despretensioso"), sem ter que afundar os dois pés na jaca. Não é preciso nem perder a noite de sono.
Uma outra questão importante é a própria segregação interna do meio gay, muito mais imerso em preconceitos do que deveria. As bunitas buscam a sensação de exclusividade, querem um microcosmo irreal e sem diferenças, e o sucesso de um megaclube de predicados estelares leva inevitavelmente à popularização. Hoje, a TW é uma atração turística de São Paulo. Para ela, todo dinheiro que entra é dinheiro (e devem ser rios de dinheiro), mas, para quem aspira ao público dito "AAA", o risco de ver o "nível" da pista cair é um verdadeiro fantasma. Que Deus livre a TW de um dia se tornar uma Flexx: um clube aberto por uma bunita, que vive lotado, mas não é prestigiado justamente pelas bunitas amigas do dono.
Como o Café com Vodka é pequeno, nasceu e se organizou em torno de uma panelinha, é muito mais fácil controlar a procedência das mercadorias expostas na prateleira. Duda é esperto, bem relacionado e aciona a colaboração dos seus amigos mais próximos para que estes emprestem sua estampa ao Café e confiram uma cara própria ao projeto. As recentes brincadeiras de recrutar os fiéis soldados da casa para brincarem de garçons ou se apresentarem vestidos de mulher são exemplos totalmentes ilustrativos, e muito menos ingênuos e desinteressados do que podem parecer. Gerou-se um frisson, um marketing direcionado e eficiente, que circulou apenas nos Facebooks de quem interessa, reforçando a imagem de reduto de bunitas. Talvez um dia essa fama atraia paraquedistas e dilua a tão perseguida sensação de exclusividade - mas o apelo do Sonique à massa é muito menor do que o das instalações espetaculares da TW.
No frigir dos ovos, não se trata de anunciar a superação do paradigma do grande clube. A TW continua imbatível dentro da proposta dela. Recentemente, depois de repaginar a pista 2, colocou deliciosos sofás em volta da piscina, deslocou o fumódromo e conseguiu melhorar o que já era incrível. Mas já cresceu e inventou tanto, que vai ficando cada vez mais difícil surpreender o público. Por outro lado, a demanda por outros perfis e formatos de diversão é uma realidade, e explica o sucesso de iniciativas como o TV Bar no Rio e o próprio Café Com Vodka em SP. É ótimo que haja opções para todos os gostos e vontades e, por mais que a cena gay paulistana seja a maior do Brasil, ainda existem lacunas a se explorar. Temos três (!) megaclubes e pelo menos outra meia dúzia de boates médias, mas nem mesmo um único bar gay bacana. O Piaf veio cheio de boas intenções, mas não decolou. Quem vai ter essa ideia?
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Mais Café e menos Red Bull?
domingo, 9 de maio de 2010
Artilharia colorida
Ando meio sumido da blogosfera gay, mas não preciso ter bola de cristal para adivinhar que o assunto da semana será a reportagem de capa da Veja de hoje, que acabo de ler. Intitulada "Geração tolerância", a matéria afirma que a "rapaziada" que está vivendo a adolescência nos dias de hoje lida com a homossexualidade de forma bem mais natural. Os fofos e fofas se percebem gays com serenidade, o meio social já não os trata com diferença e, se o outing para os pais ainda causa um choque inicial, a transição para a aceitação tornou-se rápida e tranqüila. Por trás disso, estaria o desapego dessa geração a rótulos e tribos: a sexualidade deixa de ter um peso crucial na definição da identidade, dizendo tudo sobre a pessoa, e passa a ser apenas mais uma característica. Tudo do jeito que nós sempre achamos que tinha que ser.
À primeira vista, o tom otimista empolga e reconforta, mas nós sabemos que a vida ainda não é tão cor-de-rosa assim, nem mesmo nos grandes centros urbanos. Antes de sair por aí detonando o artigo, porém, é preciso considerar o tipo de veículo que o produziu. A função de revistas semanais como Veja e Época (que reproduzem o modelo consagrado pela norte-americana Time) é condensar os acontecimentos mais relevantes em um resumão que possa ser consumido por toda a família, do vestibulando ao casal idoso. Numa sociedade em que é preciso se atualizar o tempo todo, a ideia é suprir o homem moderno com o máximo de informação no mínimo tempo possível - como num fast food.
Se o desafio da Veja não é tão grande quanto o do Jornal Nacional - que, nas palavras politicamente incorretas do editor William Bonner, precisa falar com o "Homer Simpson do Brasil" - a revista tem que saber se comunicar com todo o vasto espectro da classe média brasileira, sua principal consumidora. E isso não é pouco. Na prática, para dar conta do recado, as matérias produzidas devem ser concisas, pasteurizadas e, em tese, neutras. Veja não é uma publicação segmentada, especializada, mas uma revista generalista, que atira para todos os lados, fala com todos os públicos, e portanto não tem espaço para se aprofundar, nem escrever com grande propriedade sobre os temas: ela é apenas uma porta de entrada.
Disso decorrem os furos e derrapadas que Veja dá aos olhos de quem busca nela uma visão de especialista. Para equacionar o binômio "concisão + público amplo", é preciso lançar mão de simplificações muitas vezes grosseiras. No caso específico da homossexualidade, isso redunda em visões e estereótipos que são palatáveis para o consumo da grande massa de leitores, mas não satisfazem quem já está mais familiarizado com o tema. Chamar os teens assumidos de "turma colorida" (argh, o Big Brother Brasil voltou!) ou colocar o casalzinho numa montagem fotográfica cafonérrima pintando um arco-íris na parede (tipo novela das seis com heroína infantil) são exemplos bastante ilustrativos. Dizer que "o objetivo número 1" dos participantes da parada gay de São Paulo na faixa dos 30 anos é "militar" (oi???) evidencia que quem escreveu o texto não só não tinha a menor intimidade com o assunto, como nem mesmo checou tal bobagem com algum colega gay da redação antes de publicar.
Isso não significa que a matéria da Veja seja um desastre. O simples fato de o assunto homossexualidade ganhar espaço de capa - de forma positiva - numa das publicações impressas mais influentes e vendidas do mundo já é digno de comemoração. Mais ainda: o amplo trânsito da revista junto às classes médias faz da reportagem uma grande aliada justamente onde o calo mais nos aperta. Veja pode não ser uma unanimidade absoluta, mas não há como questionar ou desprezar sua enorme capacidade de balizar mentalidades e formar opiniões. Ela pode determinar a escolha do presidente do país. Não é exagero dizer que a classe média vai aprovar o que a revista endossar.
Assim, embora a tchurminha suuuperfervida que estampou as páginas da reportagem com tanta dignidade ainda seja exceção, embora o preconceito ainda seja muito mais forte do que a revista está pintando, o Brasil precisa acreditar que ele está sendo superado, que ele deve ser encarado como coisa do passado, que as coisas já mudaram. Isso ainda é uma meia-verdade, mas Veja está ajudando a transformá-la em verdade. Tenho certeza que o efeito-dominó da reportagem será formidável, com a homossexualidade sendo discutida onde não tinha espaço, e pessoas intransigentes pensando melhor sobre suas convicções. Na pior das hipóteses, na meia dúzia de famílias brasileiras em que o filho gay escolheu o dia das mães para sair do armário, essa reportagem não poderia ter vindo em melhor hora.
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Thiago Lasco
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sábado, 7 de março de 2009
A morte não vale a pena
Depois de crimes chocantes como os do menino João Hélio e do músico Marcelo Yuka, nesta semana nos chocamos com mais um perturbador episódio de violência gratuita. Ao sair de um restaurante na Lagoa, área nobre do Rio de Janeiro, um casal foi abordado por um grupo de assaltantes armados. Mesmo sem esboçar qualquer tipo de resistência (o que tampouco seria uma justificativa), as vítimas foram levadas em seu carro até a Av. Niemeyer e empurradas do alto do precipício. Só não morreram porque, por sorte, tiveram onde se segurar no trecho do barranco em que foram jogados [para quem não tomou conhecimento do caso, mais detalhes aqui e aqui].
No calor da indignação que um crime como esse provoca, a pena de morte pode parecer uma solução tentadora. Nas cadeias superlotadas, criaturas capazes de tamanhas atrocidades, além não se regenerarem, oneram os cofres do Estado e ainda influenciam presos menos perigosos. Se não arquitetarem com os comparsas soltos alguma fuga cinematográfica, serão liberados para passar o Natal com a família e, provavelmente, cometerão novos crimes (o indulto pode ser uma bênção para eles, mas também é um pesadelo para a sociedade). Melhor proteger os cidadãos de bem e se livrar logo desse lixo tão maldito. Se possível, sem enrolação: às favas com o devido processo legal, afinal monstros não têm direitos humanos. Aos poucos, a gente vai limpando a casa.
Mas a coisa não é tão simples. Quem pensa assim não vê os problemas em que essa solução aparentemente eficaz esbarraria. O mais óbvio deles é a irreversibilidade de uma pena que também pode eliminar inocentes: gente incriminada em ciladas forjadas por outras pessoas (bandidos ou policiais), ou mesmo vítimas das trapalhadas do próprio aparelho estatal (que prende pessoas por engano e depois tem que indenizá-las). Depois que o sujeito já cantou pra subir, meu chapa, não adianta mais reparar a injustiça.
Haveria, também, um efeito colateral ainda mais pernicioso. Hoje em dia, os criminosos já são inconseqüentes e insensíveis; com a pena capital, teriam a certeza de que acabariam sendo executados, e aí sim sentiriam que não têm mais nada a perder. Com a própria vida valendo tão pouco, qualquer resquício de consideração que eles ainda tivessem pelas vítimas - freqüentemente vistas como culpadas, como os "bacanas" que têm o que eles não puderam ter - iria pro brejo. Eu vou morrer mesmo, então por que te daria uma chance? E assim viveríamos num verdadeiro faroeste, e sem direito a galã.
É compreensível que a barbaridade diante de tantos crimes estúpidos nos cause revolta e desejo de vingança - todos nós sentimos uma estranha compensação quando vemos na TV que os bandidos foram mortos. Mas temos que acreditar que não é com mais desumanidade que uma sociedade desumana melhora. A classe média acha que matar o bandido resolve, mas o buraco é mais embaixo. Se a lógica do sistema que alimenta a desigualdade social não for transformada, novas levas de criminosos virão, e não haverá paredão que resolva. E viveremos ainda mais acuados.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 6 de maio de 2008
Diminui a distância entre a Junior e a DOM
Depois de registrar aqui minhas primeiras impressões sobre as revistas gays Junior e DOM, resolvi esperar alguns meses para retomar o assunto e fazer um comentário sobre a direção que cada uma das publicações está tomando. Até botar as mãos nas últimas edições (cujas capas ilustram este texto), eu já tinha mais ou menos na cabeça o que ia dizer: que as duas revistas tinham propostas claramente distintas e seguiam caminhos bem separados, de modo que não era o caso de tratá-las como produtos concorrentes ou rivais. Tudo isso antes de ler a DOM#3 e, especialmente, a Junior#4.
Se ainda concordo que Junior e DOM têm estilo, linguagem e visões de mundo peculiares, pude constatar que a distância que as separava ficou menor. É nítido que as duas revistas aprenderam com o feedback do público e também uma com a outra. Com isso, de certa forma se aproximaram e passaram a ser potencialmente interessantes para uma mesma parcela de leitores. Ainda que em tese elas tenham consumidores diversos, a intersecção entre seus públicos aumentou.
E o esforço maior para isso parece ter sido da Junior. Depois de uma chuva de críticas, a revista finalmente percebeu que escrever "excessões" não é legal e resolveu investir um pouco no seu texto. Se o pessoal do Mix Brasil não estava dando conta do recado sozinho (e era visível a diferença de qualidade entre os textos do cabeça André Fischer e os demais), a revista teve a humildade de pedir reforço de fora. E não economizou: abriu espaço para gente do naipe de Gilberto Scofield Jr. (articulista da pioneira revista Sui Generis e correspondente na China no jornal O Globo), Christian Petermann (afiado crítico de cinema da Folha de S. Paulo) e Sérgio Miguez (livreiro experiente e dono da antiga livraria gay Futuro Infinito), além de Ricardo Oliveros, Caio Taxi e Tony Goes, pessoas antenadas e capazes de pinçar informação fresca e interessante. Resultado: o conteúdo escrito da revista deu um salto, tanto de qualidade como de quantidade. Ainda que o apelo maior siga sendo o das imagens, começam a chamar a atenção as boas pautas de comportamento. A própria criação de colunas e seções identificáveis deu um fio condutor à Junior, que ficou com menos cara de colagem de trabalhos e mais cara de revista.
A DOM, por outro lado, já nasceu bem formatada e tem tido uma trajetória mais linear, sem reinvenções ou crises de identidade.
Vem acertando na estética elegante e nas reportagens (gays muçulmanos, barebacking, militares gays, André Almada, a coluna de Júlio Moreno), mas ainda tem pela frente o desafio de ousar mais, surpreender de verdade (nesse sentido, a formatação mais livre e solta é uma vantagem para a Junior). Explorado como chamariz da edição 3, o especial de moda com Rodrigo Hilbert poderia ter ido muito além: virou uma capa branca, de impacto zero, e um ensaio cinzento, opaco, sem tempero. O fato de ser moda inverno não é justificativa: dava para ter feito algo bacana e "invernal" em uma locação no campo, à la Revista VIP, ou mesmo dentro de uma biblioteca, com os tons escuros das prateleiras dando sobriedade aos ternos e as lombadas dos livros emprestando um pouco de cor e vivacidade. Só perdoei porque a parte de jeans entregou tudo o que as páginas com Hilbert ficaram devendo - e o portfólio me presenteou com o meu lindinho Ramirez numa pose de matar, oferecendo sua cheirosa axila. Aliás, essa concessão ao fashion e aos corpos não deixa de ser uma aproximação com a linguagem mais visual da Junior.
É claro que as duas revistas ainda estão muito no começo: com quatro edições, qualquer publicação ainda está engatinhando, ainda mais num segmento cru e pouco explorado como esse no Brasil. Talvez o certo seja dar tempo ao tempo e fazer outra análise quando os rebentos completarem seu primeiro ano de vida. É preciso reconhecer que Junior e DOM estão melhorando a cada edição, na medida em que vão se soltando, ganhando confiança e construindo um diálogo com seu público. Os anunciantes, aos poucos, também estão aparecendo. Ainda que tenham muito a lapidar (e aprofundar), são duas revistas redondas e gostosas, que já mostraram o que se pode esperar delas. Nesse sentido, não são concorrentes, mas complementares. Alguns assuntos ficam melhores na DOM e outros só poderiam estar nas páginas da Junior. Com elas, o mercado editorial gay já tem com que se entreter, pelo menos por algum tempo. Vamos ver como cada uma vai lidar com o impasse de se tornar mensal - e continuar tendo algo a dizer.
Há espaço para uma terceira? Sim, mas agora os nichos vazios a preencher já são mais específicos. Mesmo sabendo que o mercado gay ainda é bastante pequeno, consigo pensar em três possibilidades: uma revista que seja menos fútil e mais séria, substancial, politizada; uma revista de vanguarda, transgressora, que se proponha a um exercício estético e artístico realmente inovador; e uma revista com uma proposta assumidamente erótica, bem sexy, mas que mantenha um bom nível editorial e tenha uma certa irreverência, seja inteligente. Várias revistas estrangeiras bacanas - não necessariamente gays - podem dar exemplos e servir de inspiração. Agora, uma coisa é certa: com os atuais jogadores do cenário, uma nova publicação que seja amadora dificilmente vai emplacar.
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Thiago Lasco
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domingo, 30 de março de 2008
Megga Fun: o segundo peixe grande no aquário
Depois de longos meses de gestação, ontem finalmente a noite paulistana ganhou um segundo grande clube gay: a Megga Fun, que abriu suas portas numa travessa erma da avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda. Na porta, o drama típico de toda inauguração: filas quilométricas, estacionamento lotado e carros quase que empilhados uns sobre os outros pela rua. Amigos meus chegaram ao ponto de estacionar na Flex e pegar um táxi (“Pelo menos para isso a Flex vai continuar servindo”, alfinetou um deles). Transtorno sim, mas também sinal de que o basfond prometia.
A imponente fachada, que já havia sido divulgada para a imprensa por fotos nos blogs afora, tinha até um certo quê da The Week. Aliás, no inconsciente coletivo, todas as questões e expectativas em relação à nova casa tinham a ver com a TW: será que a Megga é maior e/ou melhor e/ou mais bonita? Será que vai desbancar a TW e se tornar a “boate número 1” de São Paulo? Depois que a TW ditou novos padrões, não tem jeito: qualquer outro clube grande que apareça na cena gay vai carregar o peso da comparação. Mas essa resposta eu vou deixar para o final do texto.
Em termos de instalações e estrutura, a Megga Fun é uma casa do mesmo porte da The Week – com semelhanças e peculiaridades. Na entrada, após ser revistado e pegar a comanda nos caixas, você atravessa uma porta e chega ao primeiro ambiente, que a casa chama de lounge. É um espaço retangular, amplo, que serve como átrio de circulação para os demais ambientes, mas não deixa de ser uma pista. Uma das paredes possui painéis coloridos piscantes, adaptando a idéia da pista 2 da TW (que, por sua vez, bebeu na fonte do D-Edge). O DJ do lounge não toca no mesmo nível do público, mas do alto de uma espécie de balcão elevado, como um mezanino.
Atrás do lounge, isolada acusticamente por duas portas de vidro, está a pista principal. Quadrada e com pé direito bem alto, dá a impressão de ser mais ampla do que a da TW. Nas laterais, há discretos camarotes, com sofás brancos, e paredes com painéis d’água iluminados, que parecem aquários e vão mudando de cor. No meio da pista, um bar quadrado (que precisa de mais gente no atendimento!); entre o bar e o palco onde o DJ toca, dois queijos para go-gos dançarem e fervidos em geral darem pinta. Projeções no palco e na parede dos fundos (bem bacanas) e raios laser coloridos (que já estão meio saturados, né?) completam os efeitos visuais. O som é alto (até demais) e o ar condicionado dá conta do recado – mesmo com a muvuca da inauguração, ninguém passa calor. Gostosa de dançar, a pista será excelente para eventos eletrônicos paralelos nas noites de sexta (a Megga só funcionará aos sábados).
Nos fundos, os banheiros e os caixas mostram que a MF fez a lição de casa direitinho – a vantagem de ter demorado para abrir foi justamente poder ajeitar os detalhes com calma, sem falhas de acabamento típicas de quem inaugura às pressas (Ultra Diesel, Studio Roxy). Os banheiros são impecáveis, com arrojadas pias em mármore negro, cabines de sobra e um espaço para o povo que adora ficar de fofoca por ali (tipo o Gui). Os caixas são muitos, rápidos, aceitam todas as formas de pagamento e tratam o cliente com cortesia. Aliás, todo o staff da casa foi muito bem educado, o que não deixa de ser outra (boa) influência do padrão TW de qualidade.
Cruzando a pistona e voltando para o lounge, mas pelo lado oposto, chega-se a um anexo com um café e uma pequena parte ao ar livre, com algumas mesas e guarda-sóis. Essa área não me agradou: ela destoa completamente do resto da casa. O café não tem charme algum e parece um daqueles cafés de cinema de bairro; no balcão, há uma daquelas estufas de boteco, com coxinhas (!) e baurus (!!!) à venda. OK, eu até gosto de coxinha, mas acho totalmente inadequado um troço daqueles dentro de um clube. Tem até coifa no teto! Imagina só você chegando na pista com duas coxinhas e uma coca na mão... falta só o molhinho de pimenta! E as mesas lá de fora são idênticas às do Black Dog da Al. Joaquim Eugênio de Lima – fiquei esperando alguma biba aterrissar com uma bandeja com dois cachorros-quentes cobertos de batata palha e purê... viva a área externa da The Week!
Mas esses são detalhes até bastante pequenos. Talvez colocando umas plantinhas lá fora e trocando os salgados de padaria por algo menos gorduroso e antiestético (sanduíches naturais? temakis? açaí? precisa mesmo ter comida?), o aspecto fique melhor. Ah, e uma iluminação melhor em cima do DJ da pistona. Mais do que esses detalhes, porém, o que preocupa mesmo é a questão do estacionamento – a casa precisa pensar com urgência em uma solução melhor para acomodar a demanda, e de preferência num lugar que não leve meia hora até o seu carro chegar de volta. Senão, quando chegar a Semana da Parada, a Flex vai acabar ficando sem vagas...
O som da Megga Fun não chegou a me emocionar, mas também não posso deixar de ser justo com eles. A linha musical superpintosa do Paulo Ciotti sempre me desagradou (desde a época da Level), mas o som dele no lounge estava até bem agradável. E, na pistona, o simpático Paulinho Agulhari acertou a mão e equilibrou no set dele momentos mais gays e outros mais eletrônicos, mantendo a pista acesa e conseguindo agradar a todos – o que é especialmente difícil quando se está diante de um público heterogêneo como o da casa.
E bota heterogêneo nisso: tinha de um tudo na pista da Megga. Habitués da Bubu (cujos sócios são também os donos da MF), alguns club kids novinhos da Flex, outros mais velhos, um punhado de descamisados da The Week, héteros do bem, meninas... todo mundo se divertindo feliz, beijando muito, sem muito carão nem colocação. Inauguração é sempre um balaio de gatos, vamos ver como a casa irá definir seu público nas próximas semanas.
No geral, a casa é legal, sim. Se não fiquei boquiaberto e de queixo caído, foi porque, depois que a The Week inaugurou a era da grandiosidade, ficou cada vez mais difícil para um novo clube causar impacto. Mas a Megga Fun é um espaço bonito, grande, confortável e que tem tudo para emplacar, ainda mais se lembrarmos que muita gente já não se satisfazia mais só com a TW. Toda casa vai fazendo ajustes quando abre (comparem a TW 2008 com a TW 2004); até que a MF abriu bem acertada, com poucas mancadas e muitas bolas dentro. Na Semana da Parada Gay, o clube deve bombar, especialmente se tiver a preocupação de investir em bons DJs convidados (aliás, não pode ser só na Parada, não; para a casa se impor, seria de bom tom receber uma atração de fora por mês).
Agora, para encerrar: a Megga Fun derruba a The Week? Não. Existe uma numerosa parcela do público da TW que dificilmente vai se interessar pela nova casa: as barbies. É na casa de André Almada que os melhores corpos se reúnem, e vai continuar sendo assim. Até porque todos eles se conhecem e formam ali uma grande e unida família, junto com os queridos DJs Cecin, João e Pacheco, a Grá e o próprio Almada. Prova disso é que, tirando uns poucos curiosos, boa parte dos fiéis do templo TW ignorou olimpicamente a inauguração da Megga e foi prestigiar a Babylon de sempre, que teve sua lotação inabalada. E os que foram estranharam o ecletismo da pista - preferem dançar em uma pista onde todos sejam iguais.
Engana-se, porém, quem pensa que a Megga se importa com isso. Dá para ver que os dois clubes tem propostas e públicos-alvo bem diferentes. A TW sempre teve a pretensão de ser o clube das "finas", das "tops", sempre flertou com o jet set e os "formadores de opinião"... uma preocupação que a MF simplesmente não tem. A própria Bubu cresceu completamente "na dela", conquistou seu espaço e seu público sem fazer alarde nem puxar o tapete de ninguém. A Megga promete ir no mesmo sentido. E será que ela precisa mesmo roubar o público da TW? Parece que não: a noite de ontem, com as duas casas lotadas, mostrou que existe espaço para ambas. Só não sei se sobra espaço também para a Flex. Rodrigo Zanardi vai ter que pensar, rápido, em alguma repaginada incrível, se não quiser ver seu espaço deixado de lado, pelo menos pelo público gay razoavelmente qualificado.
terça-feira, 18 de março de 2008
The Week Rio, brincando de fazer X-Demente?
Nos seus anos dourados, antes de ter sua característica musical reduzida à figura da DJ Ana Paula (e muito antes de começar a dar calotes em seus fiéis seguidores, enterrando de vez sua reputação), a X-Demente era a festa mais importante - e esperada - da noite carioca. Reunia todo mundo que importava na cena: as barbies (que ela ajudou a multiplicar pelo Brasil) e também os descolados, os fashionistas, os gringos, os globais. Primeiro, todo mundo dançava lado a lado, ao som dos sets de house e tech house de gente como Felipe Venâncio, Pareto e Márcio Careca. Depois, descamisados e modernos foram se separando em duas pistas: o primeiro grupo na pista principal, regada a tribal, o segundo no terraço da Fundição e na "edícula" da Marina. Mas, ainda assim, todos na mesma festa.
Com o declínio da X-Demente e, em paralelo, o surgimento de projetos bem mais interessantes para os modernos, como a Delírio e a Moo, deixou de existir uma festa que fosse unanimidade, que agregasse gregos e troianos. Uma noite que atraísse a cena inteira e onde fosse possível encontrar todo mundo no mesmo lugar. Os fortões e amantes do tribal foram para um lado, o povo mais underground foi para o outro - repetindo a mesma polarização que já se via na noite de São Paulo.
E então veio a invasão da The Week. Cumprida a primeira missão, de conquistar o seu lugar entre o público barbie, a casa de André Almada agora aproveita o feriado da Páscoa para arriscar mais um passo: ser uma opção de diversão conciliadora, que junte todas as tribos sob o mesmo teto, como a X um dia foi. Na noite de sábado, na pista principal, os residentes Ana Paula e Felipe Lira receberão o convidado Escape (de NY), servindo tribal para as massas descamisadas; enquanto isso, na pista 2, o ídolo Maurício Lopes e o querido Gustavo Tatá tentarão atrair o povo mais moderno (que por enquanto estava sem opção para o feriado).
Com essa iniciativa, a TW está mostrando que sabe olhar além. Ela já é manda-chuva entre os bombados e fãs do tribal, mas por que se limitar a eles? Por que não tentar, ainda que apenas em feriados, ser "o" endereço certo na cidade para todo mundo ir? Claro que os modernos continuam contando, ocasionalmente, com outras opções mais direcionadas a eles (embora adorados por seu público, Mau e Tatá não são nenhuma novidade). De qualquer jeito, a noite de sábado no galpão da Saúde é uma tentativa de fazer clãs diferentes voltarem a se divertir no mesmo espaço, como nos velhos tempos. Será que essa festa vai conseguir recriar o clima da X-Demente?
[UPDATE: o DJ Maurício Lopes me contou, via Fotolog, que a festa foi ótima, a iniciativa de colocar os muderrrnos na pista 2 da TW "superagradou" e, agora, a idéia é que isso passe a ser feito com freqüência mensal ou bimestral].
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Thiago Lasco
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domingo, 9 de março de 2008
... e dez anos de cha-cha-cha!
Como eu ia dizendo no post anterior, foi em 1998 que eu troquei a esfiha pelo kibe e comecei a freqüentar a noite. Mas não foi só na minha vida que esses dez anos trouxeram transformações. Quem olhar para trás e comparar o nosso mundinho de hoje com o daquela época verá que muita coisa se alterou, entre padrões de beleza, hábitos sexuais, modismos e costumes - isso sem falar da maior visibilidade que os gays conquistaram na mídia e na sociedade. Nesse meio tempo, o modo de se fazer noite gay também mudou.
A primeira grande diferença que salta aos olhos: há dez anos atrás, os gays paulistanos iam a bares, para ver e serem vistos. Na rua da Consolação, antigo epicentro do babado, o Pittomba, o Papparazzi, o Garden e o Allegro marcaram época como concorridos pontos de encontro e ferveção. Mas esses bares não deixaram sucessores que cumprissem o mesmo papel: o de lugares para beber, ouvir música, dar pinta e paquerar, num ambiente menos mega e mais intimista do que o de uma boate. O L'Open (dos antigos sócios do Allegro) até poderia chegar perto, se não fosse tão escuro (o ambiente não favorece os contatos visuais) e tão parado (afinal, é um bar-restaurante, onde todos ficam sentadinhos nas mesas). Sem falar que o crème de la crème dos homens bonitos simplesmente não freqüenta o lugar - alguns até vão ao Ritz, mas esse é um lugar que não se assume como bar gay (tanto que chegou a pedir que os casais gays não se beijassem lá dentro). Não existe mais o hábito de bater perna na rua e zanzar por bares antes da balada - em vez disso, as pessoas passaram a fazer "esquentas" (ou chill ins) na casa dos amigos.
Em relação às boates, é nítido que o modelo "anos 90" praticado em lugares como a Gent's, a Disco Fever, Mad Queen e a SoGo foi deixado de lado. O som era escancaradamente pop, com direito a muito vocal, hinos clássicos como "It's Raining Men" e remixes mínimos (como em "Feel It", o grande hit das pistas em 1998). Apresentações de drag queens e go-go boys tinham papel de destaque - nas casas do então "rei da noite" Sérgio Kalil, a música era interrompida e as pessoas paravam de dançar para ver os shows. O mesmo acontecia na Le Boy, no Rio. Uma certa inocência pairava no ar. Drogas? Só dentro do banheiro e, ainda assim, nas mãos de uma meia dúzia de pessoas (os "drogados", que horror!), que davam seus tirinhos de pó. Em geral, fazia-se mais sexo (e usava-se mais camisinha).
Com a ascensão da festa X-Demente, no início desta década, a cultura barbie explodiu no eixo Rio-São Paulo. Os anabolizantes e as drogas sintéticas mudaram completamente a cara das nossas pistas. O som ganhava um componente eletrônico crescente, com DJs deixando de ser funcionários anônimos e ganhando importância e notoriedade. A B.A.S.E. foi o primeiro clube a viver essa transição; em 2001, Sérgio Kalil abriu a Level, consolidando o formato em São Paulo. Mais tarde, a The Week daria o arremate final à fórmula, inaugurando um novo padrão de infra-estrutura e serviço e podando as referências caricatas que haviam se tornado datadas e cafonas - os shows que Kalil adorava. Afinal, ninguém mais queria saber deles: na nova ordem da noite, o que importava era dançar sem parar, para a droga "bater". Pegação? Enquanto só se tomava ecstasy, todo mundo ficava "fofo", se beijava e fazia trenzinho - 2001 foi o "verão do amor". A chegada do K e do GHB significou mais loucura e menos sexo: as pessoas se distanciaram umas das outras, em viagens cada vez mais individuais - que, não raro, terminavam com elas voltando sozinhas pra casa.
Muitos embarcaram nesses novos tempos com os dois pés e sem olhar para trás. Mas outros tantos não se identificaram com as novidades e sentiram falta de espaços mais sadios e relaxados, onde pudessem conhecer gente nova à moda antiga: olhando no olho, abordando, conversando, seduzindo. Para essas pessoas, que se sentem deslocadas em meio à ditadura do corpo e ao hedonismo químico, a salvação veio com a Cantho, onde a diversão funciona da mesma forma que numa Gent's ou Disco Fever. E as bibas iniciantes, que ainda não seguram a onda de uma arena cheia de touros ensandecidos como a The Week, podem escolher entre a Tunnel e a SoGo, que pararam no tempo (se bobear, a Tunnel ainda toca "Uh La La La" da Alexia), ou a Bubu e a Flex, espaços mais atualizados, com freqüência mista e clima leve.
O mais curioso, porém, é que existe uma boate que consegue agradar aos baladeiros da "moderna" geração TW sem perder os laços com a tradição e o passado: a Blue Space. O casarão azul da Barra Funda sobreviveu ao tempo sem se desvirtuar e, sobretudo, sem deixar de lado os shows, que sempre foram sua marca registrada. Não é para menos: suas superproduções musicais, com performances e figurinos tão extravagantes quanto impecáveis, e seu carismático elenco de drags, com esquetes teatrais ágeis e engraçadas, conseguiram cativar até mesmo aqueles que habitualmente não gostam de shows. Mesmo sabendo que tem em mãos uma fórmula consagrada, o lúcido dono da Blue, Victor Sofredini, faz sua parte para manter a longevidade da casa: foge de intrigas com a concorrência, investe em um potentíssimo sound system e mantém seus DJs atualizados musicalmente. O resultado são 12 anos de casa cheia - que serão comemorados hoje às 16h00, com a tradicional partida de futebol entre as drags e os funcionários machos da casa, seguida pela matinê mais querida da cidade. Não é fácil manter-se em alta por tanto tempo em uma cena ávida por novidades como a paulistana. Parabéns à Blue Space!
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
DOM: a revista gay que a Abril não fez
Eu fui um fã ardoroso da finada revista Sui Generis. Editada entre 1995 e 2000, ela trazia atualidades, moda, consumo, política e excelentes reportagens de comportamento – tudo muito bem-escrito, mas sempre num tom gostoso de ler. A última edição saiu em março de 2000, mas suas pautas continuam atuais: união civil, ditadura do corpo, ménage à trois, abuso policial, adoção, compulsão sexual, ciúme, drogas, gene gay, vigorexia... As entrevistas também eram muito boas – de Gerald Thomas a Constanza Pascolato. Quando ouvi falar que o criador do projeto da DOM tinha bebido na mesma fonte da Sui, não pude conter minha expectativa.
A verdade, porém, é que a DOM não se parece com a Sui: lembra mesmo - e muito - a revista feminina Nova, de quem herdou o design. Apesar do discurso inclusivo do diretor de redação (“queremos que todos os gays, lésbicas e simpatizantes sintam-se à vontade por aqui”), seu conteúdo parece mais afinado com os interesses de homens gays de 35 a 55 anos – bem-resolvidos, cultos, exigentes e, sobretudo, muito bem posicionados financeiramente. Gente que constrói a própria casa sem economizar no acabamento, aproveita o que a vida tem de melhor e é capaz de investir R$ 629 numa coleira Louis Vuitton para o cachorro. As páginas de moda são freqüentadas por marcas como D&G, Dsquared, Ricardo Almeida, Energie, Paul Smith e Dior Homme, enquanto a agenda cultural inclui dicas de espetáculos, exposições e restaurantes em Paris, Madri e Nova York.
Nada de errado em ser uma revista para balzaquianos bem-sucedidos. O tal pink money faz cada vez mais barulho mundo afora – não é apenas uma questão de poder de consumo, mas também de visibilidade social, ascendência cultural e até mesmo força política (especialmente nos EUA). E o Brasil ainda não tinha nenhuma revista que dialogasse com esse público – um nicho formidável, esperando para ser explorado. Isso sem falar que toda publicação precisa de retorno financeiro; focar num leitor bem qualificado atrai bons anunciantes e garante boas vendas em banca – verdade seja dita, não são as penosas que vivem mendigando entrada vip na boate que vão gastar dinheiro comprando revista...
Além disso, o fato de ser madura não fez dela uma revista menos moderna. A DOM é visualmente sedutora – a começar pela maravilhosa capa de estréia, que deu um banho nas da Junior (apesar do logotipo um tanto sem graça). É antenada e refina para o leitor o que há de melhor por aí: gadgets, comidas, badalações. E tem os olhos abertos para o fashion, sim senhor – embora não se limite a ele. A parte de moda traz frescor (é bem mais arrojada que a da VIP, por exemplo), sem deixar de ser aproveitável por quem não vive mergulhado nesse universo.
Outra questão que faz diferença: é sempre um prazer ler uma revista bem-acabada, feita por quem entende do assunto. Já nas primeiras páginas, a qualidade dos textos se destaca – os editoriais são extremamente bem-escritos, mostram a que veio a revista e tratam o leitor com o cuidado que ele merece. Esse mesmo cuidado se nota nos demais textos: não se vêem erros crassos de revisão, coisas ainda cruas, entregues às pressas. Alguns chamam isso de “padrão Abril de qualidade”; eu chamo de respeito ao leitor.
No entanto, ainda falta algum tempero à DOM: ela é redondinha, mas não é irresistível. Não tem o apelo de uma VIP ou uma Playboy – revistas que são desejadas pelo leitor e seduzem suas retinas na banca. E não falo aqui de sexo fácil: falo de irreverência, sensualidade, algum bom-humor e jogo de cintura. A DOM fez a lição de casa direitinho, mas ainda está um pouco tímida, certinha, puritana. Está muito séria, muito paulista – tinha que ser um pouco mais marota, mais carioca. Na entrevista com o casal Piva & Tufvesson, por exemplo, não dava para ter colocado uma pimentinha? Eles já viveram e viram tantas coisas, será que tudo o que dava para tirar deles era aquilo?
E outra: consumo é fundamental (“Material Girl”, da Madonna, bem poderia ser um hino gay), mas nosso universo não se reduz a isso, nossa vida não é cor-de-rosa o tempo todo. A DOM transita com desenvoltura pela sala de estar, pelo living onde se mantêm as aparências para as visitas – mas ainda não chegou ao quarto, à garagem e ao porão, onde estão as questões que afligem todos nós. E dá para tratar dessas questões sem perder a elegância e o alto-astral – como a Sui fazia.
Se der mais espaço a matérias de comportamento, a revista poderá trazer assuntos novos e ampliar seu público, concretizando a diversidade a que se propôs. É legal fazer um “manual do bon vivant gay”, mas a DOM pode ser muito mais do que isso, se quiser. Ela tem condições de ser a principal revista gay do Brasil – falando de cultura, sexo, moda, consumo, comportamento, tudo. Se combinar reflexão e modernidade, sem cair na caretice, a DOM – que já é cheia de predicados – pode se tornar uma revista arrebatadora.
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Junior: uma Revista da MTV com verniz fashion
O portal Mix Brasil tem um espaço cativo na minha vida: eu o acesso todos os dias há pelo menos oito anos. É minha primeira e maior referência quando o assunto é universo gay: o que está acontecendo dentro do mundinho, que DJ vai tocar em que clube no finde, como foi aquela festa a que eu decidi não ir, quais as sungas do próximo verão, e por aí vai. Se o Mix não cobre absolutamente tudo o que importa, chega bem perto - e é ágil. Por isso, eu o considero o melhor portal gay do Brasil, sem dúvida. Especialmente quando olho para seus concorrentes, ainda presos em uma visão estereotipada, limitante e completamente datada da cultura gay.
Se o Mix está mesmo na frente dos outros, confesso que me cansa um pouco o seu dialeto wannabe-moderno-deslumbradinho: "A gente aqui na redação está superamando as novas t-shirts, que já nasceram hype! O fundamento é lúdico, fofito e artsy. É para usar e arrasar naquela festa absurdinha, que vai ser bafon báfu e ter lineup bombator. Tipo assim: loucurinhas! Arrasa na pólo! Porque vai ser bafônico, bee. Tipo incrível!"
Bem, a Junior é a revista do Mix Brasil. Com tudo de bom e de ruim que isso contém. Felizmente, na hora de migrar para o meio revista, eles deram um breque nas palominoses lingüísticas e capricharam um pouco mais na redação. Os textos são mais bem-feitinhos, e muitos (não todos) passam até por uma revisão. Mas não são eles a razão de ser da revista. A Junior é, essencialmente, uma revista que se apóia e gira em torno das imagens.
São imagens belíssimas, é bom dizer. Especialmente nos ensaios fotográficos e na seção de moda, que são o que a Junior tem de melhor. O ensaio "Depois do after" é de extremo bom gosto. O dos "pólo boys", então, é para pendurar na parede e ficar olhando o dia todo. Esteticamente perfeito, sensual, biscoito fino mesmo. E aquela foto do morenão abraçando seu labrador, bem lá no final? Coisa mais fofa! Sem falar que o projeto gráfico da revista também tem umas brincadeirinhas legais, como na matéria com os casais (o que é aquela abertura, com os pombinhos olhando um para o outro??? que imagens mais lindas, que olhares, que expressões!)
Se como exercício estético a revista é nota dez, em termos de conteúdo o Junior ainda precisa comer mais mingau. Tirando as imagens, a revista às vezes parece ter pouco a dizer. Em muitas matérias, os textos apenas dão suporte para as fotos - alguns são tão rasos que quase servem como meras legendas. Dava para falar muito mais, sem ser demais. Falta reportagem - não se faz bom jornalismo sem sujar os sapatos. A matéria sobre a Espanha, por exemplo, é de uma superficialidade atroz - o nível de informação que qualquer um pode conseguir "de orelhada" numa rodinha, sem precisar ter ido até lá. A melhor comparação que vem à minha cabeça é com a Revista da MTV (que será descontinuada pela Abril já no comecinho de 2008), que seguia a mesma linha: textos leves e de leitura rápida, para não entediar os consumidores adolescentes. A Junior, em uma boa ponte aérea você mata de cabo a rabo.
Outro pecado: assim como o Mix Brasil é um site feito por uma panelinha e para uma panelinha (basta ver que, na cobertura das festas, as fotos mostram sempre as mesmas caras, como se aquelas figurinhas carimbadas fossem as únicas pessoas relevantes para a noite), a Junior fala para um público muito específico: moderninho, fashionista e/ou fashion victim - e morador/freqüentador do miolinho "pheeno e cool" de São Paulo (ou Ipanema, se tanto). A Junior olha demais para o umbigo do mundinho dela. As imagens são um colírio para os olhos, mas acho um pouco difícil um leitor de Salvador ou Porto Alegre realmente se identificar com a revista. A Sui Generis, que era feita inteiramente no Rio, com colaboradores cariocas e pauta carioca, conseguia ser de interesse muito mais nacional.
Não que eu não tenha gostado da Junior. Acho uma revista gostosa para o verão, como uma canção pop do Kid Abelha. Boa para ler na casa de praia, depois de tomar muito sol e bater aquele almoço tardio. Agora, embora eu "superentenda" o carinho e o orgulho da equipe do Mix pela nova cria, acho que eles ainda estão um pouco deslumbrados demais com o fato de estarem lançando uma revista, e deixando o discurso "inovador e vanguardista" ofuscar a necessidade de dar mais consistência ao produto. Mas ainda estamos no número 2, e o próprio André Fischer reconhece no editorial que a revista ainda está tomando forma. Vamos ver em que direção esse fotogênico rebento chamado Junior irá amadurecer.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Tropa de Elite: as duras escolhas dos sem-escolha
Estou escrevendo minhas impressões sobre Tropa de Elite com um atraso considerável, é verdade. Já faz um tempão que fui assistir ao longa, no fim de semana de sua estréia. Tá difícil arranjar tempo para o blog. Mas pelo menos pude acompanhar a repercussão do filme. O sucesso está sendo estrondoso (nas salas de exibição e nas bancas dos camelôs), mas também choveram críticas - que o filme é fascista, glorifica a violência policial, faz uma interpretação simplista da questão das drogas. O que não deixa de ser saudável: é um filme que faz pensar, e provoca questionamentos até mesmo naqueles que são os mais acomodados e alienados, a classe média que vive enfurnada em shopping center.
Acho que uma das grandes sacadas de Tropa de Elite é mostrar a violência pela perspectiva do policial. Tudo o que conhecemos, pela nossa experiência cotidiana de cidadãos comuns da metrópole, é a ótica da vítima. Aí veio Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e contou a história pelo prisma dos bandidos, numa saga meio romântica que, de certa forma, os humanizou. Mas, até hoje, tirando os filmes e seriados norte-americanos (imersos em um contexto social que é bem diferente do brasileiro), ninguém tinha se lembrado de ver o lado do policial.
E o lado do policial, meu chapa, é de lascar. Existe um descompasso gigantesco entre o que se exige e espera dele e o que se oferece em troca. A rotina é massacrante, com uma pressão absurda e um risco de vida constante, enquanto as condições de trabalho e o salário são vergonhosos. Um policial comum ganha 900 reais por mês no Rio, e um do BOPE tira só 500 a mais do que isso. Com isso, as opções que se desenham para ele são três: ou se corromper (não só fazendo associações com os bandidos, como também entrando nos jogos escusos da corrupção interna), ou lavar as mãos e se omitir, ou ir para a guerra - contra os bandidos e contra a própria estrutura do sistema policial. Esses dilemas ficam muito claros no filme, que é narrado em primeira pessoa pelo personagem principal, o Capitão Nascimento (Wagner Moura).
Para dar conta do recado, durante sua formação pelo BOPE o policial sofre uma verdadeira lavagem cerebral - um treinamento desumano, mas que vai prepará-lo para uma vida não menos cruel. Quando finalmente ganha as ruas, o soldado endurecido e lobotomizado traz dentro de si um ódio profundo, típico de um autêntico justiceiro. Na guerra contra os bandidos vale tudo, inclusive se nivelar em barbárie: enquanto os traficantes matam delatores no 'microondas' (amarram em uma pilha de pneus, jogam gasolina e ateiam fogo), os policiais arrancam confissões sufocando pessoas com sacos plásticos ou ameaçando empalá-las em cabos de vassoura. Nessa ciranda de violência e descontrole, perdas e danos se acumulam, inclusive para os próprios policiais, que vêem sua vida pessoal e sua estabilidade emocional degringolarem.
Durante a exibição do filme, uma constatação inquietante: por maior que seja a truculência das ações do BOPE, uma parte considerável do público se realiza com a violência policial e chega a vibrar nas cenas mais fortes. É um sentimento de revanchismo, que parece comungar com a (perigosa) idéia de que violência se resolve com violência. Isso mostra a que ponto chegamos: deixamos de nos chocar com o intolerável e passamos a endossar a violência, porque queremos nos sentir vingados, e esses sanguinários homens de preto farão isso por nós. A própria freqüência com que o BOPE - uma força policial criada para situações excepcionais - é chamado a atuar prova que a situação da segurança pública é da mais pura calamidade.
Se o quadro é desolador e a mensagem é indigesta, Tropa de Elite consegue a proeza de dar seu recado sem deixar o entretenimento de lado. Contundente sem ser deprimente, o filme envolve o espectador num vigoroso mosaico do Rio de Janeiro, com ritmo eletrizante, tomadas aéreas grandiosas, edição esperta, boas atuações do elenco (consegui até gostar do Wagner Moura!!!) e uma trilha que nos faz pulsar no pancadão dessa cidade tão sensual e louca. Em meio a tantos pastiches fajutos de Hollywood, nosso produto nacional desponta como um excelente filme de ação, sem dúvida um dos melhores de 2007.
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terça-feira, 16 de outubro de 2007
The Week Rio, de uma vez por todas

Eu realmente não sabia o que esperar da The Week Rio. Não fui à festa de inauguração porque estava em Buenos Aires; quando perguntei aos meus amigos como a nova casa era, ouvi as opiniões mais conflitantes possíveis. Uns diziam que a The Week Rio era "igualzinha" à The Week São Paulo; outros garantiam que uma não tinha "nada a ver" com a outra. Nesse sábado, que teve como convidado especial o "top DJ" Peter Rauhofer, finalmente fui tirar a prova.
A verdade é que não dá pra falar nem que a TWRJ é igualzinha à TWSP, nem que ela não tem nada a ver com a matriz. A configuração física da nova casa é diferente: enquanto a outra é quase um complexo de entretenimento, com duas pistas de dança e uma grande área externa com lounge e piscina, essa é um galpão, menor e 100% fechado, com uma única grande pista (quadrada, não retangular), dois "queijos" no meio, dois bares nos cantos e os banheiros no fundo, atrás do palco onde fica o DJ. Apesar da diferença de formato, existe um denominador comum: os longos balcões dos bares nas laterais da pista, a organização das cabines dos banheiros e a disposição da sala VIP atrás do DJ deixam claro que existe ali um "estilo The Week" de ser.
As demais diferenças entre as duas casas decorrem justamente do fato de que a TWRJ, hoje, é apenas um galpão. A pista é a única opção que a casa oferece: claro que você não é obrigado a dançar, mas não terá como escapar do ambiente escuro e fechado, onde o pancadão dos falantes eleva espíritos, mas obriga quem quer conversar a gritar. A casa de Sampa é mais versátil: quem não quiser a fritação da pista principal pode ir lá fora e dar um tempo para as pernas e os ouvidos, tomar um ar, bater papo com os amigos ou mesmo paquerar fora do clima de loucura que reina lá dentro.
Não por acaso, isso também interfere na própria freqüência da casa. As diversas possibilidades que o espaço da TWSP oferece atraem, além das barbies, mauricinhos e "pólo boys", meninas, teens que preferem dublar na pista 2 e gente que usa a casa como um lounge onde possa ver gente. Na TWRJ, passadas as primeiras semanas em que o Rio inteiro foi conhecer a novidade (incluindo héteros, globais e curiosos), o foco cada vez mais se especializa nas barbies, cuja única concepção de diversão possível é tirar a camisa, exibir os músculos e esperar o colocón bater. Para quem curte essa proposta, a TWRJ não poderia ser melhor: o sound system é potentíssimo e bem equalizado, a iluminação é escura na medida certa (a superparede de leds luminosos foi montada apenas para aquela noite especial) e os corpos não poderiam ser mais bonitos (Rio é Rio). Já quem não gosta da sensação de se estar numa X-Demente sem fim pode acabar achando a casa pouco atraente. Pelo menos por enquanto.
E eu digo isso porque o que se vê hoje ainda não é a configuração final da TWRJ. Os imóveis vizinhos também foram comprados e darão lugar à expansão da casa que, como na TWSP, promete uma área externa, com direito a lounge, piscina e tudo o mais que avalancou o sucesso da matriz. Se a própria TWSP também começou sendo um simples galpão, e foi crescendo por etapas, nada mais compreensível que nessa nova empreitada a equipe TW também fosse devagar, ao invés de gastar logo uma fortuna com um superclube que eventualmente poderia não vingar.
Na pistona carioca, o time de DJs fixos vai, aos poucos, criando uma identidade sonora para a casa, como Pacheco, João e Cecin fizeram na casa-mãe. Felipe Lira faz um som mais alegre e rebolativo, perfeito para ser o primeiro ou segundo da noite. Já Robix tem a mão bem pesada, e seus sets são mais adequados para pegar uma pista já devidamente aditivada e levá-la até o final da festa. Ao lado deles, a terceira vaga na cabine é alternada entre os paulistanos Morais e Patricinha Tribal, DJs de pegada enérgica e que vêm crescendo na cena, ou ocupada por alguma atração especial convidada - nessa noite, foi Peter Rauhofer; no próximo feriado (2/11) será o nova-iorquino Dave Morales.
Em sua terceira apresentação no Brasil em pouco mais de seis meses, Peter ainda atrai multidões, mas já não surpreende. Na TWRJ, ele tocou por pouco mais de quatro horas. O set começou muito duro e gritado e só ficou gostoso na segunda metade, com mais levada e um pouco de tech house e progressive (e minha faixa predileta dele, uma que fala "release... release...", alguém sabe o nome?). Seu som foi melhor do que o de junho/2007 (TWSP/Parada), mas pior do que o de fevereiro/2007 (E.njoy/Carnaval) e infinitamente inferior ao histórico super long set de junho/2006 na TWSP (um momento mágico de inspiração que, pelo visto, nunca mais se repetirá). Dessa vez, pelo menos ele pareceu mais humano na cabine, chegando a sorrir (!) no final do set, e mostrando que sua cara fechada é mais de timidez e concentração do que por antipatia gratuita.
A TWRJ, hoje, não tem mais o aspecto provisório de obra inacabada apontado por muitos que estiveram em sua inauguração; é uma casa bem amarrada e sem falhas aparentes de acabamento. O staff já aprendeu a tratar os gays com a devida naturalidade, mas ainda precisa ser melhor treinado para situações-limite, especialmente no que diz respeito à organização da entrada. O sábado com Peter foi a primeira grande prova de fogo da TWRJ, e a casa não soube segurar a onda. Todo mundo chegou ao mesmo tempo e os seguranças foram incapazes de separar a enorme multidão em portadores de ingresso, membros da lista vip e pagantes de bilheteria (que tal afixar cartazes BEM GRANDES separando as filas?). O empurra-empurra foi terrível (uma falta de civilidade que infelizmente é parte da cultura carioca, que acha que "pegar fila é coisa de otário") e teve um momento em que a bela hostess não deu conta e se descontrolou (ela ainda vai enfrentar barras muito maiores à frente da TW, então é melhor aprender rápido como a banda toca).
Pelo menos, a casa teve a sensatez de fechar as portas quando atingiu a lotação máxima (2600 pessoas), ao invés de continuar espremendo gente indefinidamente e ameaçar o conforto e a segurança do público. Claro que isso não agradou a todos: muita gente que chegou na hora errada acabou ficando para fora, incluindo alguns vips que tinham nome na lista. Outro ponto para a casa: se a entrada foi encerrada porque a casa está lotada, isso tem que valer para os demais mortais e também para os vips. É assim mesmo que tem que ser - e não deixando claro que algumas pessoas são mais bem-vindas do que outras. A TWRJ foi supercorreta (ainda que isso tenha significado barrar meu querido amigo Tony, que é vip mas sabe que não é melhor do que ninguém).
De qualquer maneira, não dá para esquecer que tudo isso que vimos ainda vai mudar bastante, e em pouco tempo - fontes me revelaram que a área externa está sendo feita a toque de caixa já para o verão. Aí sim poderemos começar a fazer comparações justas entre a TWRJ e a TWSP (inclusive sobre qual casa é mais bonita; na data de hoje, é óbvio que o galpão do RJ não consegue competir em beleza com o complexo de entretenimento de SP). No estado em que se encontra hoje, a TWRJ não deixa de ser um clube gostoso de dançar. E, mesmo sem a área externa, já significa uma baita revolução para a cena carioca, que até então ainda vivia a era do improviso (tipo colocar a pia no meio da pista, por falta de espaço no banheiro, sabe?) e ganhou um banho de profissionalismo, especialmente no jeito de tratar o consumidor. E tudo isso só tende a ficar melhor.
Por fim, em relação ao duelo com outras festas, não creio que, a partir de agora, a TWRJ vá esmagar toda e qualquer festa paralela e monopolizar a cena. A casa de André Almada elevou padrões, mas nada impede que a concorrência aprenda com isso e passe a brigar de igual para igual (é o que se espera, aliás). Assim, cada noite de confronto será decidida pelo público, conforme os atrativos (locação, DJs) que forem oferecidos aqui e ali. No sábado retrasado, sem novidades em relação a suas noites comuns, a TW foi massacrada pela BITCH; já no sábado do Peter, a casa bombou, mas isso não impediu a E.njoy de fazer uma festa bonita e movimentada (embora não tão lotada), e que agradou bastante aos que a prestigiaram. Isso mostra que existe espaço na cena para todos - pelo menos nos feriados, em que o contingente de baladeiros é bastante engrossado por paulistas, mineiros, sulistas e brasilienses.
[Foto: os "queijos", instituições cariocas, não poderiam ficar de fora da pista da TWRJ]
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Estadão, de costas para o futuro
Para promover o seu portal na internet, o jornal O Estado de S. Paulo lançou mão de uma nova estratégia publicitária. Ao invés de alfinetar a Folha de S.Paulo, seu principal concorrente no mercado, o diário paulistano resolveu atacar os blogs. No retrato feito pela campanha, os blogs são feitos por macacos treinados, que copiam e colam conteúdos da internet, aos olhos de cientistas maravilhados com a proeza. Moral da história: “ao invés de consultar um blog, recorra à informação confiável e íntegra do portal do Estadão”.
É lógico que uma propaganda como essa não deve ser levada a sério, mas sim pelo lado do humor. No fundo, se o jornal está sendo politicamente incorreto, meio escroto até, essa é apenas uma manobra para chamar a atenção e vender seu peixe. Bancar o engraçadinho é um truque que publicitários adoram usar para criar empatia com o público, especialmente quando o produto é algo sisudo como um jornal. Isso a gente já sabe.
No entanto, se a intenção era passar uma idéia de integridade, o tiro saiu pela culatra: a imagem que acabou sendo transmitida para o público foi de pura arrogância. Desnecessário dizer que, entre os blogueiros, a deselegante campanha provocou uma rejeição generalizada e uma enxurrada de posts raivosos e inconformados – vários deles, incitando boicotes ao jornal.
Por trás da atitude aparentemente segura de si do Estadão, existem questões bastante sérias que estão tirando o sono do jornal. Com a expansão das novas mídias, o espaço particular do jornalista – até então garantido por medidas protecionistas, como a própria exigência do diploma – acabou sendo invadido por pessoas comuns, que passaram a participar ativamente da produção de informação. Para ficar num exemplo fácil: o cidadão comum que trafegava pela avenida Washington Luís, quando o avião da TAM se espatifou contra o galpão, teve a chance única de sacar do bolso seu celular com câmera e documentar a tragédia em tempo real, muito antes que a imprensa pudesse deslocar suas equipes até lá. E produziu uma informação privilegiada e importantíssima.
Com os blogs, a atividade jornalística saiu dos feudos das grandes redações e se democratizou. Qualquer pessoa com um mínimo de articulação e senso crítico passou a ter o direito de manifestar suas opiniões, dividir seus conhecimentos, produzir informação e ter seus textos lidos pelo mundo – sem ter que se submeter ao crivo e às limitações dos interesses editoriais das grandes corporações. E é nessa independência que reside uma das maiores virtudes do blog. Ao contrário do que acontece na grande imprensa, seus textos não têm que pisar em ovos para não ferir suscetibilidades. Se aquele disco, show, restaurante, filme ou destino turístico é uma porcaria, o blogueiro tem total liberdade para falar o que pensa, sem dourar a pílula, porque não deve nada a ninguém. O relato do consumidor é uma referência muito mais confiável sobre um produto do que o press release feito para vendê-lo. E as grandes empresas dos Estados Unidos já aprenderam que esse é um canal de comunicação que vale ouro e precisa ser ouvido.
Além disso, o jornal é por excelência um veículo de massa, e por conta disso o seu conteúdo tem que ser pasteurizado para atender a um senso comum de leitores médios. Não há espaço para assuntos ou abordagens que não sejam presumivelmente de interesse de uma “maioria”. Já os blogs conseguem justamente o oposto: focar em nichos, falar a públicos segmentados, abordar assuntos específicos. São espaços altamente especializados – até pelo fato de que o blogueiro escreve sobre aquilo que gosta e, em geral, mergulha de cabeça no assunto. E quem é apaixonado por um assunto pesquisa mais e se torna uma fonte muito mais completa de informação do que aquele jornalista que recebe uma pauta no colo e tem que cobri-la, mesmo sem ter um interesse específico nela.
Obviamente, existem muitos blogs ruins, em vários sentidos. Não falo nem daqueles diários adolescentes, tipo “Suellen e seus miguxos”, porque esses são inofensivos e de alcance restrito. Mas há blogs levianos, irresponsáveis, que plantam mentiras e espalham fofocas. E blogs simplesmente pobres, que chupam conteúdo alheio, dão “copy-paste” em opiniões dos outros e assinam como se fossem suas, na cara dura. Agora, não dá para generalizar da forma como o Estadão pretende. Tem muita gente boa que não está na ativa na grande imprensa e escreve em blog. Ou mesmo grandes articulistas que escrevem em jornal, mas também têm seu blog, onde produzem textos mais pessoais e com mais liberdade.
Claro que isso não quer dizer que, da noite para o dia, o jornalista virou um profissional superado e sem utilidade. Ele tem uma responsabilidade social que o blogueiro não tem: de informar e educar a sociedade, discernir o que interessa como notícia para as massas e como isso deve ser apresentado a elas. Agora, não se pode ignorar que a produção jornalística pelo cidadão comum é uma realidade que veio para ficar – e o blog é o grande expoente desse novo fenômeno. A informação, definitivamente, deixou de ser monopolizada pelos jornais.
Nesse contexto, ao perceberem que sua supremacia está com os dias contados, as velhas mídias se apavoram e fazem o possível para garantir sua sobrevivência no mercado. Afinal, enquanto os blogs proliferam, conquistam um espaço maior e uma audiência cada vez mais qualificada, as vendas dos periódicos despencam vertiginosamente, num processo sem volta que, cedo ou tarde, terminará com o formato impresso como nós o conhecemos hoje. A antipática campanha contra os blogueiros-macacos é só mais uma prova desse desespero por que passam todos os jornais. O futuro está chegando e os blogs são parte dele; já o Estadão ainda precisa encontrar um meio de garantir seu lugar ao sol. Ao achincalhar o novo protagonista do mundo da informação, o velho periódico mostra que ainda não está preparado para lidar com esse futuro.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 10 de abril de 2007
Rio de Janeiro, nós vamos invadir sua mesa
Tenho observado que está rolando um intercâmbio gastronômico bastante intenso entre São Paulo e Rio de Janeiro - mais precisamente, de restaurantes paulistanos inaugurando endereços em solo carioca. Os pioneiros dessa leva foram a chef Carla Pernambuco, que montou um Carlota na charmosa Rua Dias Ferreira, no Leblon, e o restauranteur Rogério Fasano, que abriu em Ipanema dois endereços badalados, o classudo Gero e a moderninha Forneria - ambos repetindo o bom desempenho das casas-mãe em São Paulo.
Mais recentemente, três outras casas que são sucesso de bilheteria em Sampa resolveram abrir seus braços sobre a Cidade Maravilhosa. O Ráscal, cria chique da rede Viena, levou seu ravioli Ráscal e sua deliciosa mesa de saladas e antepastos para o novo Shopping Leblon. O japa ocidentalizado Nakombi abriu uma filial cheia de bossa no Jardim Botânico, na Rua Maria Angélica (o corredor gastronômico do momento, com o badalado chinês Mr. Lam, a venerada pizzaria Capricciosa e o eterno hit Gula Gula). E amanhã, no mesmo quarteirão do Nakombi, será parido o primeiro filho carioca da rede de pizzarias Bráz.
A julgar pela calorosa acolhida que os outros visitantes de fora tiveram, a Bráz tem tudo para ser sucesso. O Nakombi está sempre movimentado; no Ráscal, é praticamente impossível comer nos fins de semana, tamanha a fila de espera que se forma. Com todo esse novo fervo em torno do Jardim Botânico, a Bráz não tem como errar - basta não esquecer de comprar alguns vidros de catchup, para os cariocas salpicarem por cima das redondas... (desculpem, não resisti!)
Se os pratos de São Paulo estão "causando" no Rio, é curioso lembrar que a contrapartida normalmente não acontece. Pesos-pesados da gastronomia carioca deram as caras por aqui e foram recebidos com indiferença, fechando as portas em pouco tempo.
O melhor exemplo disso é o Gula Gula, verdadeira instituição do Rio, famoso por suas saladas estilo salpicão, tortas e grelhados. Nem tendo escolhido a badalada Rua Amauri para abrir seu ponto, a casa conseguiu vingar. O Doce Delícia, outro queridinho dos cariocas e responsável pelos melhores bolos da cidade, saiu do Morumbi Shopping da mesma forma que chegou: com uma mão na frente e a outra atrás. Mesmo o Joe & Leo's, eleito o melhor hambúrguer do Rio de Janeiro por vários anos consecutivos, ainda sobrevive por aqui, mas não despertou a curiosidade dos paladares paulistanos. A única exceção de sucesso recente nesse mundo de bolas fora foi o bar Devassa, que abriu na Alameda Lorena e vai muito bem, obrigado - consagrou-se como uma das melhores happy hours dos Jardins.
Por que os paulistanos fazem sucesso tão fácil no Rio e os cariocas têm mais dificuldade de emplacar em São Paulo ? Explicações bairristas ("paulista entende de comida, carioca não sabe comer") não satisfazem: a verdade é que as duas cidades têm características e vivem momentos diferentes. Na Zona Sul carioca, os lugares "objeto de desejo" estão concentrados estrategicamente, em poucas ruas - vide Ipanema, onde a pé você consegue ir a todos os lugares que importam no bairro. E a cidade parece viver um momento de euforia, está ávida por novidades, lugares novos não param de pipocar. Já São Paulo tem uma cena gastronômica tão gigantesca e tão dispersa que é preciso chegar com estardalhaço e ser simplesmente espetacular para chamar a atenção do paulistano - tão exigente, tão acostumado ao melhor e, por isso mesmo, tão blasé.
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Thiago Lasco
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10:58 AM
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sábado, 17 de março de 2007
The Week: só para as "tops", meu bem
"Mesmo com uma freqüência menor, faturamos mais. Quem entrou, consumiu. Não queremos bibas truqueiras que pegam garrafa vazia no chão para tomar água na torneira do banheiro ou tumultuam a fila para entrar como VIP sem ser". Com essas palavras, que teriam sido ditas por André Almada ao jornalista Sérgio Ripardo, da Folha de S.Paulo, a The Week justificou sua nova política de preços, que incluiu aumentos substanciais no valor da entrada. O preço da lista de descontos foi para R$ 40 e, na porta, agora paga-se R$ 50 para entrar. Para pagar menos - R$ 30 - é preciso já ter sido cadastrado e recebido um cartão-fidelidade pelo correio. E tudo isso em noites normais, em que tocam apenas os DJs residentes. Como era de se esperar, essas declarações provocaram o maior bafafá no mundinho.
Quem conhece o meio gay sabe bem que tem um monte de verdades ditas aí. Afinal, se há uma coisa que as bichas adoram fazer, é comer sardinha e arrotar caviar. Daí vem a gíria "truqueira": que dá o truque, quer enganar, fingir ser o que não é. Não faltam exemplos de gays que fazem verdadeiros malabarismos para sustentar ícones de status (o jeans da Diesel é um clássico) que são pouco compatíveis com seu real padrão de vida. A conseqüência é sabida por todos: para compensar a ostentação aqui, é preciso apertar ali, e isso inclui mendigar a entrada grátis na boate, numa verdadeira gincana de caça e puxa-saquismo de quem controla a lista vip - no caso da The Week, a hostess Grá Ferreira [mas, com a nova estratégia, justamente para acabar com esse assédio, a lista foi extinta e agora só entra de graça o "verdadeiro vip", que recebe um cartão especial pelo correio]. Até aí, tudo bem, nenhuma novidade.
No entanto, é certo que algumas verdades não devem ser ditas, especialmente para a imprensa. Muito menos por quem ocupa a posição de André Almada. Se ele realmente disse isso, suas palavras foram, no mínimo, de uma deselegância atroz. Sem perceber, o frontman da The Week se pôs exatamente no mesmo nível das tais bibas "penosas" tidas como malditas pela casa. Confesso que fiquei chocado com a matéria, especialmente porque uma das características que sempre me chamaram a atenção no André foi seu extremo tato e gentileza com todos. Ele sempre soube ser muito político - mesmo quando a saia era justa.
Como estabelecimento comercial voltado ao lucro, a The Week pode fazer o que bem entender. A casa é mesmo incrível, colocou São Paulo em posição de destaque entre as principais capitais do mundo quando o assunto é boate gay. E é claro que, com tantos predicados, ela passa a atrair mais e mais gente, a tendência é justamente o público se ampliar, num processo de democratização inevitável que toda casa vive quando começa a chamar a atenção. Com essa ampliação, a freqüência se diversifica e às vezes a casa acaba perdendo o foco do início. Aos poucos, a The Week estava mesmo se tornando um "balaio de gatos" e, numa cena em que os preconceitos são muitos, nem todos acham bem-vinda essa pluralidade. Se o público-alvo da casa é o gay de elite, rico e bonito, a solução mais fácil para recuperar o foco é justamente subir os preços e fazer uma peneira forçada.
Mesmo assim, por mais que a The Week tenha um objetivo claro e esteja lutando por ele, ela não deveria deixar de ter um pé na realidade - sob pena de acabar dando um tiro no pé. André Almada está convicto de que, mesmo com uma freqüência menor, a casa vai faturar mais. Que ela se garante com os que passarem na peneira dos preços. Mas... será que a cena gay de São Paulo tem tanta "top" assim ? Não digo as ditas "tops" que, por questões estratégicas variadas, são "vipadas" pela casa e nada pagam, mas sim as "tops" de verdade, que efetivamente pagam a entrada cheia de R$ 50, consomem bem e bancam sozinhas a casa. Bancam mesmo ? São Paulo tem uma fartura de bibas afortunadas, capazes de fazer bombar aquele espaço enorme ?
Meu singelo palpite é que não.
O que vai acontecer agora é uma incógnita. Muita gente achou a nova postura da The Week extremamente antipática, e com razão. E não só as tais "penosas" que, reza o folclore, pegavam três conduções para chegar e foram excluídas. Mas gente que tem dinheiro (e também senso crítico) começa a questionar se a The Week realmente vale tudo isso. Afinal, até mesmo por ter chegado a uma fórmula vitoriosa, a casa já não se esforça tanto para agradar como no começo. Essa é a deixa perfeita para que a concorrência finalmente ouse colocar as asas pra fora. Sérgio Kalil, por exemplo. Não que os gays descolados ainda se atraiam pelo seu gosto irremediavelmente cafona e datado (para ele, os anos 90 ainda não acabaram...) - mas, repito, o mundo gay não é feito só de "tops". Quem acha que é e pensa assim são aquelas eternas sonhadoras, que colocam em sites de encontros anúncios exigindo um homem perfeito que simplesmente não existe.
domingo, 11 de março de 2007
Héteros que parecem gays... que parecem héteros

Na edição da Folha de S. Paulo de hoje, a colunista Mônica Bergamo falou sobre um assunto que eu já venho comentando há muito tempo: os homens héteros estão cada vez mais parecidos com os gays. Seus corpos supersarados, esculpidos com muita bomba e depiladíssimos, enfeitados com adornos como correntes de prata, parecem ter saído diretamente das pistas gays descamisadas. Até as grifes são as mesmas: óculos Prada, cintos e acessórios Dolce & Gabbana, cuecas Calvin Klein. Ou seja: está cada vez mais difícil dizer quem é quem, a confusão é geral.
Eu comecei a constatar isso há uns três anos, no Rio de Janeiro, a consagrada capital dos anabolizantes no Hemisfério Sul. Indo a festas héteros, comecei a ver um monte de caras que pela aparência tinham um enorme “potencial gay”, mas simplesmente não eram. O meu olhar, afiado de tanto freqüentar X-Dementes e outras festas gays, fazia meu radar apitar a toda hora – mas eram, em sua grande maioria, alarmes falsos. Os códigos das barbies gays estavam todos ali, mas eles gostavam era de mulher. Mais tarde, fui percebendo esse mesmo fenômeno também na pista do clube Sirena, em Maresias, e no cada vez maior número de raves, onde a aproximação das tribos em torno da música eletrônica acabava facilitando essa apropriação de referências.
A reportagem do jornal conversou com vários exemplares dessa nova onda de bofes-barbie (inclusive em Ipanema, como era de se esperar). E apontou todos os ingredientes de que falei acima: os corpos bombados e depilados, as correntes prateadas, as tatuagens e o apego às grifes. Tirou fotos de vários (e também de barbies gays, para mostrar as semelhanças) e colheu depoimentos até interessantes, como o de um hétero que diz que na verdade são os gays que estão imitando os héteros bombados, inspirados no sucesso que esses fazem com as mulheres. (A-ham...)
Essa onda de adesão heterossexual a uma estética gay não chega a surpreender. Afinal, os gays sempre anteciparam tendências mesmo, isso é um fato histórico. Só para ficar em um exemplo bobo, se em meados dos anos 90 os tricôs finos ganharam as araras de lojas como VR e Crawford, foi porque anos antes eles foram usados e consagrados entre o público fashion (e gay) de lojas como Zoomp e Iódice.
Se os gays estão sempre à frente, é porque são destemidos, ousam mais e experimentam sem medo, não se podam tanto como os héteros. Por serem acostumados a viver à margem, eles aprendem a não dar tanto ouvido para as opiniões alheias, a se bastar sozinhos e dar de ombros às eventuais críticas. E é essa mistura de coragem e criatividade que gera novas idéias, novas estéticas e novos comportamentos que, depois de testados e aprovados no mundinho, aos poucos ganham o mundão, ainda que numa versão diluída.
A reportagem da Mônica Bergamo fez um retrato bem fidedigno dos héteros que levaram um banho de X-Demente, mas não explorou o outro lado da moeda, e que eu sempre venho comentando com meus amigos. Muitos gays também estão com um visual cada vez mais hétero. E isso não por aquela preocupação de parecer insuspeito, de não dar pinta, de fugir do preconceito, e sim por livre escolha, uma questão de preferência pessoal, de estilo mesmo.
O primeiro exemplo que me vem à cabeça é a crescente adesão dos gays a códigos e marcas de streetwear e surfwear, como Quiksilver e Rip Curl. E tome bermudões lá embaixo, moletons de zíper e capuz, bonés de skatista. É verdade que as passarelas andaram promovendo uma fashionização da roupa esportiva (vide Cavalera, Sommer, Triton), mas não é a isso que eu me refiro, e sim a uma adoção do legítimo sportwear – aquele que se encontra nas lojas da Galeria River (no Rio) ou nas dezenas de multimarcas do Shopping Metrô Tatuapé (em SP). Depois de começar com a Osklen e a Blue Man, os gays foram aos poucos pesquisando outras marcas e compondo looks cada vez mais bofes.
Outro item providencial no guarda-roupa do “gay com cara de hétero” é a calça de capoeira. A onda começou na academia, onde alguns poucos faziam capoeira e depois colocavam uma camiseta por cima para treinar musculação. Depois, essa combinação acabou ganhando as ruas – e outros adeptos que passam bem longe do esporte. É um visual confortável, de certa forma estiloso, e que passa uma atitude autêntica - de bofe.
Para terminar, não posso deixar de mencionar uma das marcas de roupa mais cobiçadas pelas próprias barbies (as barbies gays mesmo, não essas “neobarbies HT”): a americana Abercrombie & Fitch. Em todas as suas coleções, não há absolutamente nenhuma referência ao universo gay, nenhum detalhezinho fashion, nada. É uma estética completamente neutra nesse sentido, 100% heterossexual. E a marca tornou-se objeto de desejo justamente onde ? Dentro da boate gay.
E o que eu acho disso tudo ? Eu não acho nada. Aliás, acho ótimo. Tem mais é que miscigenar mesmo, misturar referências e derrubar rótulos. As pessoas precisam se prender menos a códigos e ser mais criativas, transitar livremente e compor uma individualidade própria. E outra: com essa ambigüidade cada vez maior, as pessoas vão passar a fazer menos julgamentos e presunções pré-concebidos a partir da aparência das outras, e olhar mais para o lado de dentro delas. E verão que, no fundo, roupa pode dizer muito, mas não deixa de ser só um detalhe.
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Thiago Lasco
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