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domingo, 26 de junho de 2011

O melhor da festa

Uma noite feliz é o resultado de uma combinação precisa de diversas variáveis. É você conseguir achar os seus amigos numa imensidão de pessoas e cavar um espacinho para dançar com conforto. É a música estar particularmente boa, adequada ao seu gosto, ao seu momento. É o seu estado de espírito estar favorável, você estar num dia bom, e isso se reverberar em sua ondinha interior de bem-estar e felicidade. Em alguns casos, dependendo das expectativas e/ou do que estiver dentro do seu copo, é você beijar bastante - a mesma boca ou diversas bocas.

A questão é que todos esses são fatores que fogem completamente ao seu controle. Às vezes você tem sorte e tudo casa à perfeição. Mas em outras noites, essa fina sintonia simplesmente não acontece. Não é sempre que dá para ter a noite perfeita, no timing perfeito, a onda perfeita, com as companhias perfeitas, tudo ao mesmo tempo.

Essa é a principal razão pela qual uma mesma festa pode ser incrível para uma pessoa que viveu a tal sintonia rara, e ruim para outra com que a mistura desandou. A ordem dos fatores é essencial - e um erro na alquimia pode provocar combustão e até a explosão do laboratório!

Autoconhecimento é a palavra-chave. Com o tempo, aprendemos a reconhecer nossas preferências, nossas fragilidades, nossos limites, e com isso tentamos lapidar nossa experiência de noite. Sabendo de antemão onde o calo aperta, dá para tentar evitar as situações que vão provocar desgaste, os comportamentos que poderão ter um gosto amargo no dia seguinte. Às vezes a recompensa do momento é mais efêmera do que a gente gostaria. E, quando as coisas não derem tão certo, é sempre bom lembrar que, depois daquela festa tão esperada, certamente virá outra, e mais outra, e numa próxima oportunidade a mistura dos ingredientes poderá ter um resultado mais harmonioso. Melhor não se cobrar demais.

Também ajuda muito a gente estar de bem consigo, em dia com a autoestima, o corpo, o coração. Pista de dança pode ser um ótimo lugar para espairecer, se distrair e escapar dos problemas - mas se você abrir a porta errada, os esqueletos poderão cair do armário e te assombrar. O melhor é fazer a lição de casa antes - reconhecer quais são as suas carências, o que te falta, o que te faz sofrer, e ir tratando de resolver tudo isso, aos poucos - fora dali e de cara limpa. No meio da festa, não existem soluções milagrosas - não acredite se te disserem o contrário, honey.

Mas a discussão mais importante é de outra natureza. Tem a ver com os objetivos que se tem na vida. Verdadeira indústria dos sonhos, o meio gay é uma gincana frenética, extremamente competitiva, na luta pelos melhores prêmios: o corpo esculpido que todo mundo quer, o título de bunita, a chave do harém encantado, a coroa de rainha da noite. Nesse cassino, os lances e apostas costumam ser bastante altos. Vencer ali dá um trabalho enorme, custa um bom dinheiro, exige dedicação e comprometimento, inclusive da saúde. O prazer pode ser imenso, e não há nada melhor do que a gente lutar pelos sonhos e pelas coisas que a gente deseja. Mas às vezes não é possível ter tudo o que se quer. E mesmo quando você chegar lá, um dia isso fatalmente... vai passar. Ter outros projetos de vida - e um punhado de amigos leais para te acompanhar pelo caminho - é crucial para não se cair num vazio enorme depois que a festa acabar.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre a tal "mítica gay" de San Francisco

Já recebi dois comentários de leitores dizendo que tinham vontade de conhecer San Francisco por conta de sua "mítica gay" ou "referência gay", para fugir da cacofonia. Eu quis voltar - e passar tanto tempo lá - por conta da sua beleza ímpar, da geografia de desníveis dramáticos que encerram vistas maravilhosas. Mas é claro que também estava nos meus planos dar uma boa conferida na cena gay, coisa que nem passava pela minha cabeça em 1995. Não faltavam razões para criar expectativa: além de um pólo de vanguarda na pavimentação dos direitos civis LGBT no país (vide a história do ativista Harvey Milk, que rendeu aquele filme belíssimo), a cidade é sede de boa parte das produtoras de filme pornô gay que importam. Isso me fazia imaginar uma cena agitadíssima, de formato comparável ao das capitais européias, com doses cavalares de diversão, além de uma aura de fetiche, com homens gostosos esbanjando atitude e safadeza.

Vamos por partes: a parte da vanguarda é mesmo tudo o que imaginei e mais um pouco. A inserção social dos gays e lésbicas é total e irrestrita. Além de ter todas as lojas e serviços voltados ao nosso gosto, de roupas a sex shops, Castro, o "bairro gay", tem um espírito e um sentido de comunidade fantástico, do qual nós não temos sequer dimensão. E os gays não se encerram nesse gueto: moram, frequentam e ocupam todas as partes da cidade com a mesma desenvoltura e igualdade de tratamento, com direito a andar de mãos dadas e trocar selinhos de despedida sem o menor constrangimento. Em uma palavra, cidadania. Nesse sentido, San Francisco é sim um paraíso gay - e por isso continua recebendo a imigração de bilus de outros países, e mesmo de estados americanos menos arejados, especialmente os do centro-sul.

Por outro lado, em se tratando de ferveção... quem desembarcar ali com expectativas parecidas com as minhas pode cair do cavalo. As perspectivas de diversão gay estão mais para Porto Alegre do que para Londres. Para começar, não há clubes gays propriamente ditos, onde se possa dançar a noite toda, mas apenas umas poucas festas bem esporádicas. No dia-a-dia, o são-franciscano se relaciona sobretudo em bares. Em alguns deles, como o The Cafe e o Badlands, a música é mais alta e há até uma pistinha, mas boa parte das pessoas prefere apenas beber e conversar, e os que dançam arriscam passos tão desajeitados que a gente se sente num daqueles seriados da Sony dos anos 80, em que os figurantes pareciam Lango-Langos na pista de dança.

Leva algum tempo para assimilarmos a diferença de horários: tudo começa e termina muito mais cedo. Os bares abrem já no fim da tarde, e o movimento acontece em dois turnos. No primeiro, até umas 21h, a frequência é basicamente de moradores da cidade. Aí acontece uma espécie de "troca da guarda": os nativos vão embora para jantar em casa e, depois das 22h, começam a chegar os turistas, além dos moradores que já comeram e querem ir para o segundo round. À 1h15 rola a last call de bebidas e, à 1h30 em ponto, eles tiram o som da tomada, acendem as luzes e só não começam a jogar Sapólio no chão porque esse produto não existe por lá. Tchau amiguinhos, até amanhã.

Mas é na atitude geral que os brasileiros enfrentam o maior choque cultural. As pessoas mal se olham e dificilmente abordam umas às outras - se você gostou do cara, tome a iniciativa ou espere sentado. Se a conversa não fluir, não jogue a culpa no seu charme - o clima é meio travado mesmo, todos agem como se fossem garotos de 15 anos que estão entrando de penetras em uma festa de alguém que não conhecem. Se a conversa fluir e ambos se gostarem, é só chegar perto e partir pro abraço, certo? Errado. Em 95% dos casos, os americanos não se tocam em público, nem mesmo dentro de um bar gay - você vai ter que arrastar o cara para fora dali. Se você vir um casal se beijando, pode apostar que os caras são estrangeiros. E se você for um desses e beijar ali dentro, saiba que não poderá ficar com mais ninguém, pois essa atitude micareteira dos brasileiros é queimação de filme na certa (por isso, escolha muito bem quem terá a honra de receber o seu selinho do dia! depois, você terá que esperar pelo menos 24 horas!).

A coisa só rola um pouco mais solta no Powerhouse, o único bar que tem um back room. Não se trata de um quarto escuro, mas um aposento claro, nos fundos da casa e separado por uma porta, onde as pessoas vão para, digamos, se bolinar. Enquanto os demais bares apostam em música pop de videoclipe (sim, você ouviu, videoclipe, com telão e tudo! igualzinho ao TV Bar de Copacabana! no próximo post eu contarei qual foi o "hit" da viagem!), o som no Powerhouse é um pouco mais sexy, com temperinho progressive, que ajuda a criar uma atmosfera menos alegrinha e ligeiramente mais dark. Mesmo assim, à 1h30 é hora de ir para casa - ou então, se gozar é realmente preciso, fazer a xepa no Blow Buddies, um sex club que tem uma estrutura incrível (foi todinho concebido para amantes do sexo oral, vejam só que maravilha!), mas... nunca fica cheio.

Não discuto que há várias maneiras saudáveis e gratificantes de levar uma vida gay que não passam por dentro de uma boate. Eu mesmo me basto bem com uma ida por mês. Dito isso, considerando a tal mítica que envolve a cidade, achei a vida noturna de San Francisco surpreendentemente provinciana. A coisa só muda de figura (para melhor) durante sete dias do ano, na semana que termina no último domingo de setembro. É quando acontece a célebre Folsom Street Fair, que nasceu como um encontro dos amantes da cultura leather e passou a mobilizar toda a cena gay. A cidade fica em polvorosa, o clima ajuda (por incrível que pareça, é nessa época que se registram as maiores temperaturas, e não no verão, num fenômeno conhecido como indian summer) e pipocam festas e fervos, embalados pelo espírito de confraternização trazido pelo pessoal de fora. Se você sonha com uma experiência mais picante, anote essa data na agenda. Fora disso, renda-se aos encantos infinitos da cidade (infinitos!), mas não vá com muita sede ao pote. São Paulo tem uma noite bem mais agitada.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

The Society: para moços de fino trato

O empresário que pretende trabalhar com noite precisa conhecer bem seu público e ficar sempre ligado nos seus desejos, que mudam. Deve estar atento para detectar lacunas e nichos ainda não explorados, e transformá-los em oportunidades. E, acima de tudo, não pode se acomodar, sobretudo se estamos falando de uma cidade ávida por novidades como São Paulo. Enquanto em San Francisco os lugares que acontecem na cena gay já existiam há 15 anos, e provavelmente viverão outros quinze [vou falar sobre esse assunto no próximo post, que continuará minha série sobre os Estados Unidos], aqui é preciso se esforçar para manter o interesse do cliente, cuja fidelidade muitas vezes só vai até a página três.

Dono de um tino empresarial admirável, André Almada não veio ao mundo a passeio. A The Week fez dele o principal nome da noite gay do país e virou uma marca de projeção internacional. Sete anos depois, a joia está cada vez mais lapidada, e a lotação das duas pistas do clube em um sábado comum é a maior prova de seu sucesso. No entanto, depois de tanto tempo, certa parte da freguesia - o gay bonito e de melhor poder aquisitivo, que sempre foi o público-alvo da casa - já vinha dando sinais de cansaço: alguns passaram a aparecer somente nas festas especiais. Existia uma demanda por um formato de diversão menos hardcore e mais intimista, como eu já havia comentado aqui. Além disso, para quem busca a sensação de exclusividade, a chegada de pessoas sem o mesmo pedigree, fruto das listas de desconto que passaram a formar longas filas na entrada lateral antes da 1 da manhã, foi um balde de água fria. Esperto, e sabendo que precisava evitar a perda de sua melhor clientela, Almada concebeu um novo clube, uma alternativa para aqueles que estavam cansados da The Week.

A nova empreitada atende pelo nome de The Society e veio ao mundo nesta semana, em três noites de inauguração. A localização é estratégica, na esquina da Augusta com a Marquês de Paranaguá, a uma quadra da Frei Caneca. O casarão, tombado, tem dois andares e o projeto de decoração, assinado por Sig Bergamin, recria "a residência de um aristocrata boêmio do século XIX, que recebe os amigos para festas", segundo li por aí. No térreo fica a pista, com o DJ tocando em um palco emoldurado por luzinhas amarelas de camarim, numa referência meio Moulin Rouge. Não é permitido ficar sem camisa, nem mesmo usar regata: a proposta aqui é outra, sem a jogação pesada do galpão da Lapa. Uma escadaria leva ao piso superior, um lounge com muitos tapetes, quadros, cortinas de veludo e móveis de época. Como sempre, o capricho nos detalhes é visível - a cereja do bolo é o aposento onde ficam os caixas, lindamente decorado como um escritório-biblioteca. No terraço que serve de fumódromo, uma bandeja de prata com bem-casados não destoaria em nada do estilo, que tem algo de bufê. Até os barmen-cafuçus do staff ganharam borrifos de nobreza, com camisa e gravata.

Na minha opinião, é justamente no andar de cima que está o maior potencial da casa. Nossa cena tem diversas boates que chovem no molhado, com a mesma proposta de sempre, mas não tinha bons lugares para sentar e conversar. O finado Café com Vodka foi uma iniciativa válida, mas no Sonique as pessoas ficavam em pé o tempo todo e o ambiente, claro e com concreto aparente, não propiciava o aconchego necessário. No The Society, o conforto e a luz baixa do lounge convidam a uma noite regada a bons drink, sempre sem desarrumar o penteado, suar a camisa ou perder o celular. Os preços - R$8 por um suco e R$22 por um drinque com aguardente nacional - filtram um público mais sofisticado, assim como a decisão de não aproveitar o sistema de cartões White e Black da TW.

Num primeiro momento, quando voltei ao Brasil e os amigos me contaram da novidade, pensei que a ideia era revidar o ataque do Lions, que vinha roubando parte dos polo boys da TW. Depois de conhecer o novo clube, entendo que são propostas diferentes, ainda que possam atingir o mesmo público. Ambas as casas têm algumas referências estéticas parecidas, mas o Lions é mais clube e o The Society, mais lounge. A imponência rococó da casa de André Almada contrasta com o clima mais informal da varandona do Lions. Os cardápios sonoros também não se confundem, já que a pegada do Lions é mais eletrônica, enquanto o próprio Almada me contou que seus DJs não vão fugir do padrão usual na nova casa. Por fim, o The Society funcionará na quinta, na sexta e no domingo, dando ao público inúmeras possibilidades - inclusive a de também continuar frequentando o Lions e a The Week.

[Foto: Alê Macedo/Vipado - Ayltom, se você quiser eu removo a imagem do blog, ok?]

segunda-feira, 21 de março de 2011

As it-biscas

Que as mulheres hétero descobriram a noite gay, não é nenhuma novidade. Lá se vão uns bons dez anos desde que elas perceberam que poderiam se divertir horrores no meio das bees - sem serem importunadas pelos bofes ugabuga das outras baladas, que as pegavam pelo braço com cantadas baratas e inconvenientes. As criaturas que habitavam aquele admirável mundo novo causaram nelas todo um encantamento: tão simpáticos, tão desenvoltos, tão bem cuidados, tão atléticos. Tudo o que elas gostariam de encontrar em um namorado! Não demorou muito para que essas figuras femininas (chamadas em inglês de fag hags) se incorporassem ao cenário, e hoje sua presença nas pistas já não causa nenhuma curiosidade.

Eis que os anos se passaram, e a seleção natural produziu a evolução das fag hags. Trata-se de uma nova espécie, ainda não catalogada, que vou chamar carinhosamente de it-bisca. As it-biscas chegaram de mansinho e hoje já dominam certos espaços, como o fundão da pista principal da The Week e os afters, que certamente não teriam o mesmo colorido sem a sua participação. Mas como detectar uma it-bisca, sem confundi-la com a fag hag clássica?

As diferenças começam já pela apresentação. A fag hag chegou ao mundinho com aquela ideia preconcebida de que os gays eram puro glamour e, portanto, ela deveria estar à altura para ser aceita. Certa de que iria causar, a fofa se montava com vestidos cintilantes, brincos vistosos, quilos de maquiagem e sapatos caros, como se estivesse indo para uma festa de arromba. Com as it-biscas, saem os brilhos e boás e entra um vestuário mais, digamos, direto ao ponto. Os shortinhos e microssaias têm um comprimento ínfimo e são quase ginecológicos de tão agarrados; plantadas em saltos-agulha altíssimos, as pernocas ficam ainda mais em evidência. A parte de cima não deixa por menos - com decotes generosos que mal conseguem conter os seios turbinados, e a barriga de fora já garantindo que o material é bom e não haverá nenhuma surpresa indesejável na hora H.

As fag hags primeiro se encantavam com a beleza dos rapazes, ainda com uma pontinha de esperança de que sobrasse uma casquinha para elas; depois, quando percebiam que não ia rolar, contentavam-se em ser as best friends forever, chegando até mesmo a servir como cupidos, e dando um suspiro de resignação quando suas paixões sublimadas trocavam o primeiro beijo com os caras escolhidos. Com as it-biscas, a pegada é outra. Se, à primeira vista, naquela balada toda Coca-Cola é Fanta, elas sabem que ali também existe uma porção de machos com quem podem se dar bem. Seu alvo preferencial são os gogo-boys e os bombadões que se parecem com eles. Mas elas sabem que essas presas são muito disputadas e, para garantir o leitinho de cada dia, espreitam todo o staff hétero da boate - a cadeia alimentar de uma it-bisca que se preza também contempla DJs, seguranças e barmen. Espertos, os caras sabem que nenhuma mão boba será castigada - o único risco que correm é, eventualmente, encontrar uma torneirinha no meio do caminho, dada a semelhança que algumas it-biscas acabam adquirindo com as colegas travas.

O modus operandi das duas espécies na noite também é diferente. A fag hag clássica nunca deixa de ser uma menina comportada, e compartilha os vícios e tentações da noite apenas até certo ponto, sem se envolver de verdade. Depois, é hora de se despedir das ameegas e voltar para seu castelo de princesa. A it-bisca se joga de cabeça e mete os dois pés na jaca, numa via-crúcis que começa no esquenta, passa pelo clube e vai até o final do after - isso se ainda não rolar um chill out depois. Dos bastidores da área VIP às festinhas do cabide, seu acesso é geral e irrestrito. Ela está familiarizada com todos os recursos que podem dar um jeito no seu corpo e maximizar suas experiências - uns mililitros de silicone aqui, umas ampolinhas ali, uns aditivos acolá. Sabem onde se acham as coisas, fazem correria para as ameegas, viram clientes Platinum e, às vezes, até mudam de lado no balcão - coisas com que a fag hag jamais sonhou ou sonhará.

Mas o que sugere que essa nova espécie é mais evoluída do que a anterior é sua longevidade. A fag hag tem uma vida útil relativamente curta: depois de viver sua época de fascínio, ela acaba se cansando de terminar a noite sempre sozinha, abandona a cena gay, arranja um bofe hétero bem normalzinho (mas que não tenha preconceitos, afinal ela é "moderna"!) e convida o melhor amigo da boate para ser padrinho do casamento. A it-bisca é uma espécie ainda recente, mas os estudos sugerem que ela consegue desenvolver um ciclo vital bem mais longo. Não é difícil imaginar que, dali a dez anos, elas continuarão ali, na pista da boate, requebrando até o chão e se esforçando para manter o mesmo corpo, o mesmo rosto e a mesma barriga. Assim como a musculosa barbie, com quem também tem parentesco evolutivo, uma it-bisca não envelhece jamais.

terça-feira, 1 de março de 2011

Baianizer

Escrevo este post na maior correria do mundo. Estou tentando dar conta das últimas pendências no trabalho, para poder sair depois do almoço e cruzar a cidade (alagada) até o aeroporto de Guarulhos. Meu Carnaval começa hoje, e dessa vez vou romper com o tradicional rodízio entre Rio de Janeiro e Florianópolis. Neste ano que está sendo marcado por tantas novas experiências, chegou minha hora de finalmente conhecer o Carnaval de Salvador. Vou cair na folia e depois dar uma descansada por lá até o dia 13.

Assim que confirmei a viagem, saí à caça de informações para poder montar minha programação. Conheço bem a cidade, mas sou totalmente leigo nesse assunto: se me pedirem o nome de três músicas de axé, vou saber dizer "Arerê", "A Dança do Vampiro", "O Canto da Cidade" e olhe lá. A festa baiana é um emaranhado de blocos e camarotes, espalhados por três circuitos diferentes, ao longo de seis dias (na Bahia, o babado começa já na quinta). É preciso pesquisar um pouco para entender as sutilezas, qual o tipo de público, se é mais friendly, se vale ou não a pena, e então tomar as decisões e comprar os respectivos abadás. Até porque é tudo caro pra cacete: para entrar na cordinha do Coruja, o bloco de Ivete Sangalo, pagam-se escorchantes R$650 por dia! E tem muita gente que compra os três dias e paga sem reclamar, jurando de pés juntos que é uma magia toda mágica, algo que não tem preço, que só vivendo para entender.

Engana-se, porém, quem pensa que o Carnaval de Salvador se resume ao axé. Existem trios com outros estilos musicais, desde as clássicas marchinhas até rock, reggae e música eletrônica - neste ano representada por nomes como Armin Van Buuren e David Guetta. Outro equívoco, reforçado pelas transmissões da televisão, é pensar que nessa festa só os héteros se dão bem. O bloco Crocodilo, capitaneado por Daniela Mercury, tem maciça presença gay. A fama do Crocodilo é tanta que muitos nativos, não querendo ter seu filme queimado numa sociedade onde as coisas acontecem por baixo do pano, acabam migrando para outros blocos, como o próprio Coruja, onde se jogam do mesmo jeito, no meio da multidão. Para quem prefere fazer a linha barbie-túrica, sábado será dia da Pool Party Salvador, com produção caprichada e Offer Nissim e Ana Paula no som - uma festa que promete não ficar devendo às similares do Sudeste, e será emendada num bloco eletrônico (Liberty) que percorrerá o circuito Barra-Ondina.

É claro que vou conferir a programação GLS, que ainda contará com o camarote Vipado, do fofo Ailton Botelho [informações aqui] e as madrugadas do repaginado clube San Sebastian, que funcionará em clima de after. Mas confesso que estou até mais curioso com os blocos não especialmente direcionados, como o de Ivete, que fazem a cabeça de verdadeiras multidões. Nunca fui muito fã do estilo, mas não ficarei admirado se, de repente, eu me pegar dançando e cantando junto, e simplesmente me deixar levar. Tudo pode acontecer. Estou embarcando nessa para me surpreender - coisa que certamente não aconteceria no Rio ou em Florianópolis, onde as mesmas festas trarão os mesmos DJs nos mesmos dias da semana dos anos anteriores, e a única novidade será tocar "Born This Way" no lugar de "Bad Romance". Bom carnaval a todos! Segurucu!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Code, o after picante

Os afters gays estão bombando como nunca. Depois de um período de recesso, em que a bola da vez eram as pool parties, eles voltaram com força para agitar a cena. São quatro projetos diferentes: Mary Pop, Code Club, Energy e After du Caju. A cada domingo, apenas um deles funciona - uma sábia estratégia que garante pista cheia, já que não haveria público suficiente se todos abrissem ao mesmo tempo. Vários amigos meus vinham dizendo que o Code era diferente dos outros e "de longe, o melhor de São Paulo". Ontem deixei de passar um domingo ensolarado à beira da piscina e fui tirar a prova.

Cheguei às onze e meia da manhã e o lugar estava lo-ta-do [melhor assim: se tivesse chegado às nove, teria amargado uma fila enorme na porta, sob um sol escaldante]. O ambiente principal é um amplo galpão; o DJ fica à esquerda, no canto de um palco onde go-go-dancers se apresentam, emoldurados por um telão. O bar ao fundo tem seu longo balcão transformado em "queijo" por rapazes fervidíssimos, que dão close como se estivessem numa passarela. À direita, camarotes com acesso reservado a quem recebeu uma pulseirinha - sem esse acessório, não se faz mais noite gay em São Paulo. No poste colocado bem no meio do salão, algumas loucas fazem um curioso pole dancing invertido: penduram-se na parte superior e vão descendo de ponta-cabeça, com as pernas para o ar. Se eu não estivesse lúcido, juraria que a viagem foi minha.

Na pista, escura na medida certa para um after, o clima é bem animado. Como nos outros afters e pools, o público é aquela mistura de barbies, cafuçus e casais héteros-super-simpatizantes que formam a ala menos pheena da TW (aliás, vi mais meninas do que esperava). Nos falantes, como não poderia deixar de ser, muito tribal e hard house - começando bem vocal e pesando mais com o passar das horas. Todos já sabem que esse gênero não faz a minha cabeça, então digo apenas que o som do after é cumpridor e coerente com o que se espera. Se alguma alma corajosa ousasse uma direção musical diferente, as bichas provavelmente torceriam o nariz, e as casas preferem embolsar dinheiro fácil a correr riscos. E para alguns, a música nem faz tanta diferença assim.

Mas por que esse não é um after qualquer? Por causa da locação. Quando não abriga o after, o Code Club é uma casa hétero "para casais liberais", dessas que barram solteiros na entrada, entenderam? Um corredor lateral conduz ao segundo ambiente, onde há várias cabines para quem quiser mandar ver ali mesmo. As fendas e glory holes nas paredes permitem não só o voyeurismo como também a interação com os vizinhos. Em outro recinto, uma carcaça aberta de Kombi com faróis vermelhos e uma cama coletiva no meio recebe quem precisa dar uns malhos, ou apenas esperar o pileque passar. No fim das contas, esse hardware erótico da casa é mais do que bem-vindo para um after, onde a conjunção de músculos suados e espíritos exaltados muitas vezes faz a temperatura esquentar. Ou seja, o Code acaba tendo aquela pimentinha extra que nenhum outro projeto tem.

Sob uma perspectiva mais "poliana", os afters podem ser vistos como uma alternativa até mais saudável de diversão. Afinal, em tese não é preciso comprometer o organismo virando a noite sem dormir. Cheguei ao Code descansado, de banho tomado e com duas gotas de Kenzo atrás da orelha; depois de me divertir por algumas horinhas, ainda passei o resto da tarde na piscina. Mas algo me diz que essa está longe de ser a preocupação da maioria. Discretos e praticamente isentos de fiscalização, os afters proporcionam o clima de permissividade que os grandes clubes e as raves perderam. O clima de vale-tudo é o maior chamariz para quem gosta de se jogar de verdade e deixar as preocupações lá fora, ainda que por algumas horas. E isso, o Code tem de sobra.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sauípe 2010: muito Heaven e pouco Hell

Hell & Heaven 2010. Pela segunda vez, o resort Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, hospeda um festival de música e festa para o público gay. Dois hotéis do complexo são fechados para o evento, divulgado ao longo de doze meses por meio de ações promocionais nas principais capitais e na mídia especializada, atraindo homens de vários estados brasileiros, dispostos a se jogar em festas alucinantes. "Qual é o seu pecado?", provocava o mote do H&H. Depois de anos de estrada em Carnavais, Réveillons e Paradas no eixo SP-Rio-Floripa, o que esperar e como se preparar para um trem desses? O melhor é respirar fundo, cortar os carboidratos, comprar um bom suprimento de camisinhas e já deixar o nome na fila de transplantes de fígado pelo SUS: a jogação tem tudo para ser intensa. Afinal, a fórmula é a mesma de sempre, só que dessa vez enfeitada com uns coqueiros baianos. Certo?

Pois não foi bem assim.

Para começar, o H&H não foi, nem de longe, tão pesado como eu imaginava. Pensei que seria um turbilhão nonstop das 12h de sexta às 12h de domingo, tipo "salve-se quem puder". Mas a programação do evento foi muito bem amarrada, intercalando períodos de festa e de descanso. Todo mundo pôde fazer todas as refeições (comendo apenas o necessário, já que o bufê era medíocre, com exceção do café da manhã) e também dormir, sem comprometer a farra. É lógico que dançar e tomar o sol forte do Nordeste cansam o corpo, mas cheguei em casa muito mais inteiro do que nas minhas voltas do Carnaval no Rio ou Florianópolis. E olha que, antes do Sauípe, eu já estava me jogando em Salvador havia uma semana.

Outra surpresa: as festas cumpriram seu papel, mas não foram os pontos altos do H&H. O que se fazia era simplesmente montar um palco e um telão na área da piscina de um dos hotéis (e, na festa seguinte, na piscina do outro, dando uma ideia de variedade), ligar o som e chamar os DJs. Sem qualquer refinamento (o tal selo argentino só deve ter emprestado o nome), sem aquele clima de grande produção que marca as tardes de Rosane Amaral no Rio e as noites de André Almada em SP. Nem mesmo a festa principal - a noite de sábado, trazendo o headliner Peter Rauhofer - fugiu disso. A produção poderia ter projetado luzes coloridas nos coqueiros, uma ideia simples que teria criado um efeito incrível, mas se limitou a repetir o telão e meia dúzia de luzes sobre as pessoas, que se equilibravam nos desníveis do terreno acidentado para dançar.

Um fator que contribuiu para que as festas não impressionassem tanto: o evento já mantinha um clima festivo o tempo todo. Na chegada ao resort, o público era recebido para o check in com house e tribal; depois, na piscina, mais música; chegando no salão para jantar, lá estava Offer Nissim nos falantes para dar uma animada. Por isso, quando começava uma "festa propriamente dita", não havia um incremento de emoção em relação aos períodos "sem festa": o que acontecia era uma mera mudança de cenário. Se eu senti uma diferença maior na noite de sábado, foi pelo aumento do público (os moradores de Salvador tiveram a opção de comprar o ingresso avulso para essa festa), pelo som do Peter (que deu o clima mais encorpado que a noite pedia), e também pelo fato de que aquele era, afinal, o clímax antes da despedida. (E foi mesmo especial viver o amanhecer daquele cenário, com o marzão crescendo diante dos nossos olhos ao som de um Peter inspirado).

Além disso, a pegação também ficou aquém do que se podia esperar ao se colocar um monte de homens gays, bonitos, isolados num cenário daqueles. Enquanto dava meu giro de reconhecimento pelo resort, eu imaginava o povo indo aprontar na praia de madrugada, se comendo nas moitas e matinhos que enfeitavam as áreas comuns, zanzando freneticamente pelos corredores de um quarto para o outro. Mas não vi nada disso; se chegou a acontecer, então eu estive nos lugares errados, ou na hora errada. Mesmo durante as festas, achei a beijação bem mais contida do que num bom Carnaval - sendo que estávamos no Estado brasileiro onde mais se beija nessas festas, e fiquei lúcido o suficiente para entender o que se passava ao meu redor. (Logo eu, que me fantasiara num quarto de hotel com mais três, fazendo um picante role play nordestino, sendo a rolinha de vários coroné, enfileirados para colocar a pomba no meu boga e me dar uma boa pisa... Só fiquei zen porque já tinha chegado de Salvador pra lá de saciado!)

Mas nem por isso eu deixei de gostar do Hell & Heaven. A experiência valeu a pena e eu certamente repetiria a dose! O espaço do resort é muito bacana, as áreas comuns são grandiosas e, se a praia não é particularmente bonita para os padrões baianos, é mais do que suficiente para encantar mineiros e brasilienses (esses grupos eram maioria; já baianos e pernambucanos, vi bem menos do que esperava). Meu quarto era bastante confortável, e o outro hotel oferecido era ainda melhor. Sei que não temos que buscar o gueto e sim a inserção social, e blá blá blá, mas foi sensacional ter toda a estrutura do Sauípe só para nós, gays. Isso sim eu considero o grande highlight do H&H. No café, nas piscinas, em toda parte, todo mundo tranquilo, integrado, falando a mesma língua, vivendo a mesma onda. Reconheço que no final eu já estava até meio enjoado de ver tanto viado junto, mas o evento teve a medida certa. Talvez eu colocasse um dia a mais para o povo poder curtir o resort (tivemos apenas o sábado inteiro, os outros dois dias foram de trânsito), mas não mais do que isso.

Acima de tudo, preciso reconhecer que o astral do H&H esteve lá em cima o tempo todo. As pessoas pareciam desarmadas, tranquilas. Talvez tenham cansado de seguir à risca a cartilha dos excessos e resolvido simplesmente relaxar e curtir o resort, sem maiores pretensões. O clima era tão leve, mas tão leve, que eu poderia ter gravado um vídeo compacto do evento e mandado para minha mãe. E o evento foi um sucesso: na reta final, todos os quartos acabaram vendidos, e já estão marcadas duas edições em 2011, em maio (Angra dos Reis) e novembro (Sauípe novamente). Se foi um pouco diferente do que eu imaginava, numa próxima já irei com o espírito mais preparado. No aeroporto de Salvador, na fila do check in para SP, eu continuava me surpreendendo com mais e mais homens lindos, que também voltavam no H&H e eu nem tinha visto. Todos com uma cara boa, realizados. Talvez a gente possa se reeducar para não ter que beijar todas as bocas e se atracar com todos os corpos para sentir que aproveitou, se divertiu e foi feliz.

[Foto: Genilson Coutinho/ACapa]

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jogações à vista


Curte uma boa jogação? Prepare o corpo e o bolso, pois este segundo semestre de 2010 está beeem animado, com uma série de bons shows pela frente e muitos, muitos festivais. O site rraurl.com fez um guia indispensável com informações e line ups detalhados. Tem muita coisa boa, e não só na música eletrônica, e não só em São Paulo.

Entre os shows, eu até gostaria de ver o AIR, sou apaixonado pelo duo francês, mas a apresentação deles no festival da Natura, em outubro, terá apenas 60 minutos. Talvez valha mais a pena ir vê-los em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, caso eles se apresentem sozinhos nessas cidades. Eu também consideraria ver Hot Chip, Mika e Smashing Pumpkins no festival Planeta Terra, em novembro, e o Scissor Sisters, no Clash.

No capítulo de DJs, nada me comoveu tanto quanto o festival SWU, que vai rolar durante três dias de outubro (no feriado) na Fazenda Maeda, em Itu (SP). Um dos dias vai reunir Nick Warren, Sander Kleinenberg, Sharam (Deep Dish), Markus Schulz, Roger Sanchez e Life is a Loop, um line up que não fica devendo nada às boas edições do Creamfields de Buenos Aires. Outro festival que promete é o Ultra Music Festival, com Fatboy Slim, Groove Armada, Moby, Kaskade, Above & Beyond e Carl Cox. Mas esse eu vou perder, pois estarei curtindo o Hell & Heaven, na Costa do Sauípe (BA).

Isso sem falar nas festas menores. Aqui em São Paulo, está rolando o Prestonight Week, espécie de Restaurant Week das baladas: você compra uma pulseira e pode entrar livremente em mais de cem casas, durante o finde ou a semana inteira. Eu não encararia essa, mas estou bastante tentado a terminar logo este post, tomar um banho e ir ao D-Edge, ver o japonês Satoshi Tomiie, outro DJ que eu adoro. Quer dizer, isso se eu conseguir espantar o cansaço acumulado. Alguém tem um supositório de wasabi?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Uma pitadinha de Sazón

Bate-cabelo vira house music. Chilli Beans vira Prada Eyewear. Carão vira atitude. Barra Funda vira Higienópolis. Conhecida-de-vista vira íntima-de-oliveira. Empurrão vira com-licença-por-favor. Pulseira VIP vira bracelete de ouro. Semianalfabeto vira poliglota. Sorrisos falsos viram receptividade. Passivo versátil vira ativo liberal. Banco traseiro vira suíte master. Camarão vira símbolo sexual. Parasitismo vira amizade. Metido a besta vira übercool. Cecília vira Chanel. Mati vira odara. Gongativo vira bem-humorado. Pneus viram curvas. Egípcia vira distraída. Stalker vira biggest fan. Panelinha fechada vira portas abertas. Falta de educação vira espontaneidade. Elza vira mão boba. Inconveniente vira espirituoso. Proletário vira democrático. Michê vira Don Juan e até husband material. Farmácia de plantão vira boa genética & disciplina. Grosseria vira masculinidade. Tombo vira coreografia. Solidão vira autossuficiência. Herpes vira pinta charmosa. Coma vira soneca. Fatalidades do destino viram ossos do ofício. Comprimido azul vira fogo insaciável. Amigo-da-onça vira best friend forever. Cheque especial vira salário de cinco dígitos. Jogo de aparências vira boa reputação. Colar de coquinho vira bijoux étnica. Egocentrismo vira vaidade saudável. Sol na laje vira férias em Trancoso. Lista de desconto vira sou amigo do dono. Financiamento com agiota vira empréstimo camarada. Floresta dos sussurros vira canavial das paixões. Turvação vira good vibe. Fracos viram heróis. Sonhos viram possibilidades. Todo-cuidado-é-pouco vira lavou-tá-novo. As mais precavidas já aprenderam: uma pitadinha de Sazón pode salvar a sua noite. Não saia de casa sem ele!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Rapidinhas diversificadas

DA JABULANI À JABIROSCA Quem não morreu de vergonha de ser brasileiro quando veio ao mundo o logotipo oficial da nossa Copa do Mundo 2014? A tosqueira tem cara de improviso - parece aqueles trabalhos que crianças de 6 anos fazem na aula de artes da pré-escola - e recebeu críticas de todos os lados, das mais embasadas às mais escrachadas. Levando a sério a máxima de que só pode criticar quem faz melhor, o blogueiro Guilherme Bandeira desenvolveu várias versões alternativas do logotipo, todas disponíveis em seu blog Olha Que Maneiro. A minha favorita ilustra este post. Realmente, era bem fácil fazer melhor.

INVERNO GRATINADO Com a frente fria violenta que varreu o Sul e o Sudeste, nosso apetite pede pratos quentes mais substanciais. Enquanto não tomo coragem para escrever outro roteiro gastronômico, vou dar duas dicas pontuais, ambas em São Paulo. Uma é o Marcel, no Brooklin, disparado o melhor endereço da cidade para comer suflês - o Maison, minha receita favorita, leva camarões, queijo e cogumelos. A outra é o Bar do Alemão, um restaurante que há várias décadas faz os paulistanos viajarem até Itu para saborearem seu gigantesco filé à parmegiana. Agora não é mais preciso pegar a estrada: a casa abriu uma filial em Moema. A versão grande do prato, com 700g de bife, alimenta até 5 paladares.

CORTINAS DE VELUDO RELOADED Último clube de sucesso no tempo em que a Consolação ainda era o epicentro da noite GLS de São Paulo, o Ultralounge viveu sua melhor época entre 2000 e 2001 - quando Sérgio Kalil já tinha fechado a B.A.S.E. e ainda não tinha aberto a Level. Com um enorme candelabro e cortinas de veludo bordô, o Ultra se pretendia pomposo e reforçava a aura convidando artistas e fashionistas para comandar as pickups no início da noite. Foi o último clube menor e intimista, antes da era dos descamisados e do colocón: ali, bacana era ir de camisa social, com atenção especial para o cabelo bem esculpido. Varrido da cena por um complô entre vizinhos e prefeitura, deixou muitos órfãos. E agora está de volta, sob a forma de um projeto que ocupará uma ou duas sextas por mês, no clube Lions. [Faltava mesmo uma noite gay no Lions, eu já tinha cantado essa pedra aqui]. A estreia é hoje, e os habituês do Ultra devem comparecer em peso. Será que o Cecin vai tocar aquele remix de "Don't Tell Me" que foi o hino absoluto dos velhos tempos?

A TRILHA DO PARAÍSO E por falar em balada, já saiu a programação das festas do Hell & Heaven, babadeiríssimo evento gay que fará sua segunda edição em novembro, na Costa do Sauípe (BA). O line up superou as minhas expectativas. Na noite do dia 4/11, a festa de boas vindas traz Cella e Rafael Calvente, em parceria com as domingayras Café Com Vodka (SP) e Duo (RJ). No dia seguinte, a abertura oficial tem Renato Ratier (D-Edge) e o francês Tristan Garner, do hit "Stomp That Shit". Sábado será a maratona suprema da jogação: de dia tem pool party com Felipe Lira, André Garça e Danny Verde, e à noite tem festona com Ana Paula e Peter Rauhofer. Já estaria de bom tamanho, mas ainda tem mais: a manhã de domingo será em ritmo de after, com Rodolfo Bravat, André Queiroz e - tcharam! - o argentino Aldo Haydar, fazendo o gran finale perfeito. Partiu Sauípe?

PLUMAS, MULLETS & MARIACHIS E ainda no embalo do post de ontem, a Secretaria de Turismo da Cidade do México anunciou que dará de presente uma viagem de lua-de-mel ao primeiro casal gay a se casar na Argentina. O mimo será uma parceria da prefeitura com a iniciativa privada: o governo municipal arcará com as passagens aéreas, enquanto hotéis e restaurantes da Cidade do México e de Cancún oferecerão hospedagem e alimentação. A ideia busca incentivar o turismo gay friendly no México, cuja capital já reconhece a união gay desde dezembro. Fofo, não?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

E la nave va...

::: Pois é, a Parada dobrou a esquina e passou (e foi bem melhor do que as edições anteriores), o feriado acabou e a vida segue. Quem passou semanas ou meses criando expectativas e se preparando para a data (como várias pessoas que eu conheço) se vê agora em uma espécie de vácuo: e agora, o que fazer? Parar um pouco de sair e pagar as contas? Pode relaxar a dieta e comer o que quiser? Pode pular a academia por causa do frio? Dar um tempo na galinhagem e arranjar um namorado? Ou já pensar na próxima festa do calendário e continuar se preparando?

::: O assunto da semana é o novo vídeo de Lady Gaga, "Alejandro". Vai ficando cada vez mais difícil para ela causar impacto. O clipe é uma repetição de fórmulas; a música, com alguma reminiscência de Abba, Ace of Base e subprodutos teens do pop europeu, não tem pegada (e vai dar um trabalhão para os DJs remixarem, como observou o Daniel). Agora a cantora quer posar para a Playboy norte-americana: ela vê no ensaio uma "nova forma de expressão" e a possibilidade de "crescer como artista", fazendo algo inédito na história da revista. Se ela é a vanguarda em pessoa ou totalmente overrated, não sei. Mas lembro do recente fiasco que a Playboy daqui amargou quando uma mulher "de atitude" tentou fazer "algo inédito", e pergunto: quem pagaria para ver Lady Gaga nua?

::: E por falar em montação, a geração hipster promete baixar em peso no Lions, na sexta, para a terceira edição da festa carioca Buati (aquela em que tive que pagar R$8 por uma água, e dancei música velha de festinha de prédio). Essa não me pega mais, mas um outro projeto carioca - que ainda não chegou a São Paulo - chamou minha atenção. É a Bootie, uma festa só de mashups (aquelas colagens absurdas feitas com duas músicas nada-a-ver, gerando um resultado surpreendente). A segunda edição rola também na sexta, no simpático Fosfobox (Copa), e traz o DJ Faroff, um craque que cria pérolas como esta. O jornalista Ronald Villardo foi à estreia da festa e escreveu uma resenha ultraempolgada. Ele achou incrível que ali "os pagantes são tratados como VIPs", ou seja, quem paga ingresso entra primeiro. Ué, não deveria ser sempre assim?

::: Assinei a TV a cabo bem depois dos demais mortais, e com isso acabei não criando o hábito de acompanhar os seriados que a maioria dos meus amigos segue, comenta e compra. De todos eles, o que me despertava maior curiosidade é Sex And The City, indicado por 10 entre 10 amigos: "você tem que ver, são quatro mulheres mas é totalmente gay, somos nós retratados ali!". Até decidi não assistir aos filmes antes de conferir a série em DVD. Mas confesso que levei um tremendo banho de água fria quando li este texto, muito bem escrito pelo Diego. Será SATC mais uma referência gay à qual eu serei imune, depois do house tribal?

::: E o frrrrrio que está fazendo em São Paulo parece ter vindo para ficar. No fim de semana, a temperatura promete chegar a trincantes 7ºC. Com um tempo desses, só consigo pensar em programas light: dormir cedo, ver bons filmes (no cinema ou em casa) e, é claro, comer! Será uma boa oportunidade para postar aqui um roteiro com os restaurantes paulistanos que fui conhecer nos últimos meses. Outra ideia em pauta, sugerida por um leitor, é um miniguia só de cafés. Aguardem.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Declínio ou entressafra?

Quando foi dada a largada para os festejos da Semana do Orgulho Gay, o comentário que se ouvia nas rodinhas era um só: havia menos gente do que o usual, e muitos rostos conhecidos de fora não deram as caras. Se em 2008 o Pride paulistano quebrou todos os recordes e a cidade viveu cinco dias de delírio coletivo, desta vez tudo foi menas, bem menas, desde o buxixo diurno na região da Paulista e Jardins até as festas em si. Enquanto nos áureos tempos sobrava público para lotar todas as noites, em 2010 faltou gás em vários lugares: na quinta, o Café Com Vodka teve que dispensar DJs e a Maxima não atraiu mais do que 400 pessoas, deixando metade da pista da Megga vazia.

Mesmo nas festas que puderam se considerar bem sucedidas, como as produzidas pela The Week, o movimento ficou aquém do que se habituou a esperar nessa época. Tanto que o preço do ingresso na porta foi no máximo R$20 superior ao valor do primeiro lote - um dado bastante sintomático, que revela uma procura abaixo do esperado. Na sexta, o movimento da TW foi suficiente apenas para encher a pista 1, algo comparável a um bom sábado normal da casa. O clube só decolou de verdade no sábado, com a tradicional maratona pilotada por Peter Rauhofer - e, mesmo assim, sem a superlotação dramática dos anos anteriores, quando não havia espaço nem nos corredores externos.

A GiraSol de sábado à tarde manteve o título de melhor festa da Parada. A equipe de André Almada conseguiu transpor para o Clube Nacional o mesmo feeling alegre que marcou a história do projeto no Clube de Regatas Tietê - o espaço menor da locação nova ajudou a disfarçar a redução do público. O palco estava enfeitado por uma escadaria de belíssimos dançarinos, idêntica à da pool party do Circuit Festival 2008, em Barcelona. Contrariando todas as previsões, não caiu uma única gota da chuva que estava prometida para todo o dia. Não foram poucos os que escolheram a GiraSol como sua única jogação em 2010, o que mostra que esse projeto se tornou a vitrine mais importante da grade de festas da TW. Não há festa melhor para encontrar os amigos: todo mundo que veio ou ficou em SP estava lá. O repeteco no domingo encheu menos, mas brindou o público com o melhor momento musical da temporada, no set inspirado de Russell Small (Freemasons).

Sempre tento não me limitar às festas e prestigiar outros eventos, até para dar uma variada nos ambientes e tipos de público. Na quinta, fui novamente ao Vale do Anhangabaú para conferir a Feira Cultural, mas desta vez não consegui ficar mais do que meia hora. Eu adorava o clima das primeiras edições, na época do Largo do Arouche, mas hoje sinto que o evento não me agrada mais. Nada ou ninguém ali tem a ver comigo, e acho que estou vivendo um momento mais prático, em que prefiro investir em afinidades do que em diferenças. Esse bode me fez abortar o Gay Day do Playcenter e a própria Parada no domingo - eu me contentei em acompanhá-la pela excelente cobertura feita pelo Mix Brasil (que, convenhamos, já escrevia twittando muitos anos antes de o Twitter ter sido inventado) e soube que o evento foi rapidíssimo, tipo DisParada mesmo. Mas bem mais tranquilo e seguro que as edições anteriores.

Nas conversas com amigos, ouvi algumas possíveis explicações para a queda de público desta Semana da Parada, mas nenhuma delas me convenceu. I. disse que muita gente de fora resolveu pular a temporada paulistana para economizar dinheiro e ir à Europa em julho e/ou ao Sauípe em novembro; até enxergo que isso tenha acontecido em casos isolados, mas não que isso chegue a explicar o fenômeno como um todo. L.A. acredita que hoje a cena gay passou a fazer festonas com maior freqüência e isso diluiu o impacto da Parada ("toda hora tem festa!"); eu discordo, acho que as festas ao longo do ano não competem nem com Carnaval, nem com Parada. C. colocou a culpa nas atrações repetidas, mas, sinceramente? A maioria não dá a mínima para quem será o DJ e, no fim das contas, considerando o quanto o público gay é careta e conservador, trazer os mesmos "medalhões" mais atrai do que afugenta.

É fato que não tivemos aqui a mesma "eletricidade no ar" de outros anos, para usar as palavras do Tony. De qualquer forma, acho precipitado falar em uma mudança de comportamento apenas a partir do que vimos neste ano; essa pode ter sido uma queda isolada, uma entressafra passageira. Se o formato das maxijogações estivesse mesmo dando sinais de cansaço, os próprios Carnavais teriam sofrido um baque, o que não aconteceu. Se em 2011 tivermos outra parada morna, aí sim aceitarei que o buraco é mais embaixo e estamos, afinal, vivendo uma mudança de paradigma. E, para terminar, verdade seja dita: se a cena encolheu um pouco e as festas não repetiram a lotação dos outros anos, o fato é que ninguém ali se divertiu menos por causa disso.

[UPDATE: Já vieram me perguntar qual foi "a" música desta temporada. Não tivemos nenhum grande hino em 2010 - já adianto que Lady Gaga tocou muito mais na Parada em si do que nas festas. Mas a música que ficou na minha cabeça foi esta aqui, um momento marcante do set do Peter].

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Mais Café e menos Red Bull?

Mais uma Semana da Parada está chegando e os principais clubes paulistanos já anunciaram sua programação. No geral, tudo será parecido com os anos anteriores: são festas pensadas para receber o grande número de turistas que desembarcam na cidade. É o nosso Carnaval gay fora de época. Tudo é mega por definição, e não dá para ser de outro jeito. Nas noites cotidianas, porém, vem se esboçando uma mudança de comportamento. O formato de megaclube, que deu o tom da cena dos últimos anos, ainda dá um bom caldo, mas está crescendo uma demanda por algo diferente.

Quem encarna o paradigma vigente e o representa da melhor maneira é a The Week, que segue firme como o maior clube do país. André Almada e seus sócios não tiveram uma ideia nova - o padrão foi apropriado da finada festa carioca X-Demente, que, por sua vez, bebeu na fonte das circuit parties norte-americanas - mas lapidaram o conceito, incorporando um nível de conforto e profissionalismo que deram grande visibilidade à marca, fazendo dela uma referência em todo o Brasil e até mesmo lá fora. Não é exagero dizer que todas as casas gays do Brasil hoje querem ser a The Week, da Black Box de Curitiba à Vogue de Natal.

O espaço da rua Guaicurus continua a todo vapor, e nem mesmo a abertura de outros dois clubes - de porte similar, na mesma região e teoricamente voltados ao mesmo nicho - abalou o movimento da casa. Mas, se o sucesso da TW atraiu rostos novos e até tribos novas (os héteros chegaram como paraquedistas eventuais e hoje são uma realidade, muitos são clientes cativos), há frequentadores da "velha guarda" que deixaram de dar as caras por lá. É que, com tudo de bom e mágico que existe no autodeclarado Universo Perfeito, divertir-se nele pode dar um trabalho danado.

O ritual começa com a preparação do corpo, que deve estar esculpido dentro de rígidos padrões impostos e descansado para enfrentar uma verdadeira maratona, para a qual toda ajudinha etílica ou sintética será válida. Depois, é preciso ter paciência e espírito esportivo para enfrentar a fila do estacionamento, do bar e do banheiro, assim como a lotação da pista, em meio a pessoas nos mais variados estados de espírito e consciência. E sempre correndo o risco de ter pertences subtraídos sorrateiramente, prática difícil de coibir na multidão.

Por essas e outras, algumas pessoas não chegaram a pendurar as chuteiras, mas sentiram que aquele modelo de jogação já não as satisfazia completamente. Até porque lá se vão mais de cinco anos repetindo a mesma brincadeira. Para elas, ainda pode ser legal ir a um clube grande e ter uma noite grande, pesada, superlativa, mas às vezes tudo o que querem é algo menor, mais simples, mais intimista. Um lugar para ver gente, encontrar os amigos e conhecer pessoas - tendo espaço para conversar, fazer contato visual, flertar. Como antigamente. Como às vezes se torna difícil fazer nos megaclubes.

Nesse contexto, meio que por acidente, um novo player da cena atirou onde viu e acertou onde não viu. Sim, estou falando do Duda Hering e seu Café Com Vodka que, à sua maneira, tornou-se um case de sucesso na noite gay paulistana. No espaço reduzido do Sonique, o CCV consegue entregar justamente o que falta num clube grande: a possibilidade de conversar e interagir (ainda que não dê pra chamar o projeto de "descontraído" nem "despretensioso"), sem ter que afundar os dois pés na jaca. Não é preciso nem perder a noite de sono.

Uma outra questão importante é a própria segregação interna do meio gay, muito mais imerso em preconceitos do que deveria. As bunitas buscam a sensação de exclusividade, querem um microcosmo irreal e sem diferenças, e o sucesso de um megaclube de predicados estelares leva inevitavelmente à popularização. Hoje, a TW é uma atração turística de São Paulo. Para ela, todo dinheiro que entra é dinheiro (e devem ser rios de dinheiro), mas, para quem aspira ao público dito "AAA", o risco de ver o "nível" da pista cair é um verdadeiro fantasma. Que Deus livre a TW de um dia se tornar uma Flexx: um clube aberto por uma bunita, que vive lotado, mas não é prestigiado justamente pelas bunitas amigas do dono.

Como o Café com Vodka é pequeno, nasceu e se organizou em torno de uma panelinha, é muito mais fácil controlar a procedência das mercadorias expostas na prateleira. Duda é esperto, bem relacionado e aciona a colaboração dos seus amigos mais próximos para que estes emprestem sua estampa ao Café e confiram uma cara própria ao projeto. As recentes brincadeiras de recrutar os fiéis soldados da casa para brincarem de garçons ou se apresentarem vestidos de mulher são exemplos totalmentes ilustrativos, e muito menos ingênuos e desinteressados do que podem parecer. Gerou-se um frisson, um marketing direcionado e eficiente, que circulou apenas nos Facebooks de quem interessa, reforçando a imagem de reduto de bunitas. Talvez um dia essa fama atraia paraquedistas e dilua a tão perseguida sensação de exclusividade - mas o apelo do Sonique à massa é muito menor do que o das instalações espetaculares da TW.

No frigir dos ovos, não se trata de anunciar a superação do paradigma do grande clube. A TW continua imbatível dentro da proposta dela. Recentemente, depois de repaginar a pista 2, colocou deliciosos sofás em volta da piscina, deslocou o fumódromo e conseguiu melhorar o que já era incrível. Mas já cresceu e inventou tanto, que vai ficando cada vez mais difícil surpreender o público. Por outro lado, a demanda por outros perfis e formatos de diversão é uma realidade, e explica o sucesso de iniciativas como o TV Bar no Rio e o próprio Café Com Vodka em SP. É ótimo que haja opções para todos os gostos e vontades e, por mais que a cena gay paulistana seja a maior do Brasil, ainda existem lacunas a se explorar. Temos três (!) megaclubes e pelo menos outra meia dúzia de boates médias, mas nem mesmo um único bar gay bacana. O Piaf veio cheio de boas intenções, mas não decolou. Quem vai ter essa ideia?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Rapidinhas cariocas

ÓPIO DO POVO Tirei o fim de semana para mais um giro pelo Rio de Janeiro, e aproveitei para conferir alguns lugares que estavam na minha lista. Um deles era o Opium, restaurante asiático no térreo do hotel Ipanema Plaza, com uma gostosa varanda aberta para a rua. O cardápio tem umas vinte páginas, com uma parte de sushi e outra de pratos que citam Tailândia, China e Vietnã. Eu e meus amigos começamos com um mix de 10 pares de dim sum; depois, pedimos dois peixes em estilo thai, com curry e leite de coco, e um pato cantonês, com molho agridoce. Os pratos não desapontaram, mas também não chegaram a impressionar. Até porque a concorrência é forte: a comida do Nam Thai é muito superior e, mesmo se a ideia é apenas badalar, o Sawasdee é bem mais fervido.

PASSAGEM SECRETA Gostei mesmo foi do Market, o destaque gastronômico dessa visita. Um corredorzinho escondido na Visconde de Pirajá conduz a um pátio aberto, com plantas, mesas e cadeiras coloridas, que casam bem com a culinária leve e saudável proposta pelo lugar. Se o menu segue a mesma lógica grelhado+acompanhamento de que tantas casas cariocas são reféns, pelo menos aqui o trivial ganha uma pitada de bossa. Uma prosaica carne assada sai do lugar-comum na companhia de um surpreendente purê de grão-de-bico e manjericão, enquanto o creme de milho que acompanha o frango leva um toque de erva doce. Além dos pratos, há sanduíches, saladas e, para beber, sucos, smoothies e uma extensa seleção de chás verdes e pretos, servidos quentes ou gelados. Ótima pedida para o pós-praia, sem a lotação do Delírio, nem o carão sem cabimento dos garçons do Líquido.

SUCOLÉ, SACUALÉ? Fui educado desde cedo para passar bem longe de alimentos vendidos por ambulantes ou em carrinhos de rua, como os clássicos hot dogs (com salsicha recheada de jornal velho, diziam as mães nos anos 80), os camarões fritos de praia (condenados por 10 entre 10 nutricionistas) ou os recentes yakissobas da Paulista. Por isso, nesses dez anos de idas ao Rio (59 ao todo), sempre relutei em comer qualquer coisa oferecida nas areias de Ipanema. Mas meus amigos locais recomendaram o Sucolé do Claudinho com tanta ênfase que decidi fazer o sinal da cruz e me jogar. Para os não-iniciados, trata-se de uma espécie de picolé feito e congelado dentro de um saquinho plástico (em alguns estados, o nome é "chup-chup"). Tenho que admitir: o de mousse de maracujá é simplesmente in-crí-vel. Depois fiquei sabendo que o tal Claudinho comanda um exército de vendedores, gerou várias imitações e foi parar no programa do Jô Soares, onde chorou em rede nacional contando sua história de vida.

QUITUTES UNGIDOS Outra velha dívida do meu roteiro pessoal que saldei foi o bar Chico & Alaíde, aberto por um barman e uma cozinheira que ajudaram a dar fama ao lendário boteco Bracarense. O chamariz da casa são os célebres quitutes de Alaíde, como o famoso bolinho de mandioca, ops, aipim com camarão e catupiry. O "totivendo", uma espécie de escondidinho turbinado de camarão, é de comer de joelhos. Desta vez, porém, não vou exagerar nos elogios: consta que Chico dirigiu-se a um casal gay que havia trocado um beijo dentro do bar, pediu que os moços parassem ou se retirassem, e depois ainda explicou ao jornal O Globo que "este é um bar de família" (oi?). Agora que já matei minha curiosidade, talvez seja o caso de passar a prestigiar os salgadinhos do Bracarense original.

SESSÃO DA TARDE Veterano na noite gay carioca, o Galeria Café sempre foi o destino certo dos rapazes mais comportados, alheios a modismos, que destoam do binômio "ditadura do corpo + drogas sintéticas" que dominou as festas e clubes maiores. É um lugar querido por muitos: além de tolerante à diversidade de estilos e faixas etárias, tem fama de ser bom para arranjar namorado. Eis que um novo bar-com-pistinha abriu para atender esse mesmo nicho de público: o TV Bar, no Cassino Atlântico, em Copa. Instalado onde um dia funcionou a sede da extinta TV Rio, o lugar tem decoração colorida, inspirada na história da televisão. Na pista, o VJ Greg (que cuidava do som do antigo The Copa) exibe DVDs com hinos pop, enquanto o povo dança, canta (horrores!) e assiste às imagens no telão. Uma opção divertida para quem cansou das caras e bocas do circuitão, ou se sente velho demais para ele.

sábado, 10 de abril de 2010

Atualizando Buenos Aires, parte 3: quando a noite cai

Por conta de uma lei nova que está em vigor em Buenos Aires, bebidas alcoólicas só podem ser vendidas até as 5 da manhã e consumidas até 5h30. E nenhum estabelecimento pode continuar aberto depois das 7. Com isso, aqueles after hours inesquecíveis que Aldo Haydar e sua trupe pilotavam no Caix até o começo da tarde de domingo viraram história do passado. Quem não viveu, não vive mais. Para os que ficaram inconsoláveis, nem tudo está perdido: agora Aldo comanda uma concorrida domingueira no Palacio Alsina, das 18h à 1h. Na prática, o que era after virou matinê - e o cenário passou de um terraço à beira do Rio da Prata para um clube imponente, com ares de catedral. Aliás, o Palacio Alsina as we knew it (como lugar gay) agora só rola uma sexta-feira por mês, em festas bombadas - recentemente, João Neto tocou em uma delas. Se não tiver festa ali, o destino das bunitas na sexta é o Rheo Bar, que ocupa um anexo do megaclube Crobar, no Paseo de La Infanta. Já no sábado, a balada gay do momento é a Human, que acontece no clube Mandarine (o antigo Mint, na Costanera Norte). Quando você perguntar a algum portenho sobre o Rheo e a Human e ele responder que nesses lugares todas son histericas, não pense em uma Gaiola das Loucas: histerico, na gíria local, é quem faz carão. O Amerika continua sendo um coringa. Na quinta o som é ligeiramente mais eletrônico, sexta e sábado são noites de canilla libre (bebida grátis, imaginem o resultado), e no domingo ele acaba sendo o destino oficial depois do Palacio. Durante a semana, o clube eletrônico Bahrein ainda é uma ótima pedida, sendo que as quartas e sextas estão bem mais gays. Quinta, como sempre, é dia de ir ao bar-com-pistinha Glam, se você for gay, ou à clássica festa Club 69 (que voltou ao Niceto Club), se você quiser dançar house e electro em meio a performances extravagantes, quase circenses, que os gringos adoram. Falando em extravagância, Lady Gaga não virou febre em Buenos Aires - ali, ela deve ser menos popular que a Shakira. Se você adora dançar n'A Lôca e/ou é fã da Trash 80's, então há duas festas que você não pode perder: Plop! (na sexta) e Ambar La Fox (no sábado), ambas no Teatro Roxy. Você vai se sentir em casa. Modernos, hipsters e afins devem dar uma olhada no que está rolando no lounge El Living e no novíssimo Salon Real. E quem leva música eletrônica a sério pode começar com uns drinks no The Shamrock; depois, é só descer as escadas e dançar ali mesmo, no Basement Club. Ou pegar um táxi até o Cocoliche, o mais underground dos clubes, que costumava funcionar até altas horas (antes da lei nova) e só não abre às segundas. Agora, se o seu negócio é progressive house (totalmente a minha praia!), o Pacha continua trazendo grandes nomes da cena - vale a pena consultar o site do clube antes de escolher a data de sua viagem. Fui ver o Martín García e tive uma noite sen-sa-cio-nal. O próximo sábado (17/4) também promete ser fodástico, com o trio holandês 16 Bit Lollitas. Os portenhos continuam umas graças, mas Buenos Aires parece cada vez menos sexual. Não é se de admirar que eles cheguem ao Rio de Janeiro e fiquem loucos feito perras no cio. Na happy hour ou na xepa pós-clube, é constante o entra-e-sai das cabines nos cruising bars Tom's e Zoom. No capítulo saunas, a Nagasaki é a "269 portenha" e chegou com a missão de desbancar a tradicional Buenos Aires A Full (não conheço nenhuma das duas). Abriu também um clube de sexo, que atende pelo nome de Kadu (é sério). Nas sextas, o fervo é por invitación, dedicado a novilhos selecionados de 18 a 37 anos, enquanto os sábados são dedicados ao leather e festas temáticas. Ah sim, os portenhos gostam mesmo é de um bom cunete. Pronto, o roteiro de Buenos Aires já está devidamente atualizado! Buen provecho!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Por que adorei conhecer o Hot Hot ontem

1) Pelo interessante efeito "yakissoba incandescente" criado pelos grafismos que revestem as paredes e o piso do lounge.

2) Pela iluminação da pista - pode ser a enésima cópia brasileira do Watergate de Berlim, mas dessa vez as placas são grandonas e dá pra fazer diversos desenhos com os leds, o resultado fica bem bacana.

3) Pelo climinha bem avonts do projeto Danceteria (e do próprio clube, que não é nada pretensioso), leve mesmo. Muitos encontros inesperados, o povo se falando e se divertindo, e um som até bem pop (o Goldfrapp já começa a ser descoberto pelo nosso mainstream), mas sem ser óbvio.

4) Como a pista e o lounge são em andares diferentes, no lounge dá pra conversar na boa e ver bem as pessoas (o que, aliás, não acontece na pista).

5) Pelo sistema de comanda pré-paga, que permite que você carregue créditos e gaste-os como quiser, inclusive guardando para outras noites, e cruze a porta da saída linda & loira quando resolver ir embora, sem drama de pegar fila para pagar.

6) Pelos drinks incríveis, especialmente o Cha Cha Cha, que leva vodka, um monte de frutas (vou ficar devendo a descrição exata, sorry), gengibre e um picolé de tangerina Rochinha inteiro mergulhado no copo.

Sejamos justos: em termos de noite, quem mora em São Paulo não tem mesmo do que reclamar. Entre clubes gays e outros eletrônicos com público mais eclético, a gente tem opções à beça aqui, e só cai na rotina quem quer. Dá muito bem para diversificar, mudar de ares e ver gente nova: é só romper com o piloto automático e ousar explorar melhor a cidade.

Sinto que a noite paulistana está saindo de uma fase meio chata e voltando a ser bacana, divertida. Claro que tem momentos em que bate um cansaço geral, uma preguiça máster de certas situações e pessoas... mas aí é só dar um tempinho off e fazer outras coisas, que logo o bode passa. Noite é apenas um departamento da nossa vida, né? Pelo menos eu penso assim.

Para quem se animou com o Hot Hot, a casa abre de quinta a sábado, mas as noites
mais gays são as de quinta (projeto Danceteria). Quinta é uma noite meio inconveniente para quem leva uma vidinha responsável e precisa trabalhar na sexta; como hoje é feriado, ontem muita gente que também não conhecia a casa aproveitou para ir conferir. O lugar bombou, muitos caras bonitos (não sei se normalmente é assim ou ontem foi uma noite especialmente feliz). A dica para entrar com tranquilidade é chegar tipo 0h30 (muita gente chega cedo pra evitar a filona, e é gostoso tomar um drink no lounge), ou então só depois das 2h, quando a hora do rush já passou.

[A foto que ilustra o post foi a melhorzinha que consegui no Google. Quem aparece aí é a performer Renata Bastos, que ontem estava encarnando uma abusada coelhinha da Páscoa]

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Uma noite no Lions, novo clube eletrônico de SP

O circuito eletrônico de São Paulo acaba de ganhar um novo endereço. O Lions Nightclub, parceria entre sócios dos clubes Vegas, Clash e Royal, abriu as portas na última quarta-feira, em uma localização tão charmosa quanto improvável: o número 277 da Brigadeiro, quase na esquina com Maria Paula, já no Centrão (a Praça da Sé fica a apenas 100 metros). A casa ocupa o primeiro andar de um prédio dos anos 50, e o projeto valoriza referências estéticas dessa época. Pé-direito altíssimo, pesadas cortinas de veludo, paredes ornadas por azulejos (de Anita Malfatti, segundo li por aí), sofás de couro, piso de tacos e até animais empalhados dão o tom e recriam a atmosfera dos antigos clubes fechados para cavalheiros, inspiração declarada do sócio Facundo Guerra nesse novo empreendimento. O resultado é de um requinte antiquado, escurinho e intimista – mal comparando, é como se jogassem no mesmo liquidificador o clube Vegas, o edifício Copan, a lanchonete Frevo e o finado restaurante Pandoro.

O bar ocupa o centro do salão principal, dividindo-o em dois ambientes: um deles é uma área “social”, para conversar em pé, e o outro é o lobby, que funciona como uma pista secundária de dança e tem um janelão envidraçado com vista para os prédios do Centro. A tal área social tem ainda dois camarotes vips, construídos sobre pequenos tablados, com sofás de veludo e os tais azulejos de época para enfeitar. Em uma das extremidades, uma porta giratória conduz à pista principal, isolada acusticamente, com projeções sobre os espelhos das paredes, emulando uma espécie de efeito 3D. A parte mais bacana da casa, porém, é a enorme varanda que se acessa pelo lobby, e que revela uma linda vista da região, incluindo a cúpula da Catedral da Sé e as copas das árvores que margeiam a 23 de Maio, avenida que passa ali embaixo.

O conceito de clube de cavalheiros não orienta apenas a decoração. Seguindo o exemplo de antigas casas como o Gallery paulistano, o Lions é um clube para sócios. Mil pessoas estão sendo escolhidas pela casa (“as pessoas mais bacanas da noite, moda, cultura, arte, rock e música eletrônica, entre DJs, promoters, agitadores culturais, travestis, gays, héteros, playboys e undergrounds”, segundo Facundo) para receber um cartão de sócio, que as dispensará do pagamento de entrada e consumação e permitirá que convidem quatro amigos por mês, com a mesma isenção de custo. O acesso a quem não for contemplado com a tal carteirinha não é totalmente fechado: a casa permitirá a entrada de 100 não-sócios por noite, impondo uma consumação mínima entre R$80 e R$120. Quem conseguir colocar o nome na lista de algum DJ amigo pode garfar um descontinho.

Na programação, as quintas-feiras ficam por conta do núcleo de festas Chocolate, com black, funk, soul e afins; as sextas seguem a sistemática do Vegas e alternam vários projetos – incluindo MOO e Buati, as festas que têm feito a cabeça dos modernos do Rio de Janeiro; já os sábados são de responsabilidade da 3Plus, maior agência de DJs do país, que tem em seu casting nomes como Mau Mau, Marky e Renato Cohen. Para surpreender o público, os DJs serão convidados a inovar, tocando estilos que fujam de suas especialidades – Marky, lenda do drum n’bass, pode fazer um set de house, por exemplo.

Fui conferir o Lions anteontem. Magal e Márcio Vermelho recebiam o inglês Tim Sweeney (do selo DFA, o mesmo do Hot Chip e LCD Soundsystem), mais os DJs da festa carioca Moo. Clube novinho em folha, inauguração hypada pela imprensa, cardápio musical de qualidade: fui preparado para uma noite de flashes, brilhos e muita lotação, com direito a drama na porta. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com um clube tranquilo e até meio morno – a casa devia estar operando com uns 30% de sua capacidade, quando muito. A maior parte das pessoas ficou dançando na pista secundária do lobby ou conversando na varanda, e a pista principal foi fechada na metade da noite, após ter recebido não mais do que vinte pessoas. Foi uma noite agradável, sem dúvida, mas eu esperava mais – no mínimo, um clube cheio e bombante, animado pelo frisson da novidade.

Talvez meu raciocínio tenha sido condicionado pela minha experiência clubber recente, vivida quase exclusivamente na noite gay, que é muito mais polarizada. Ali, as pessoas devoram as novidades loucamente, e aderem com paixão aos seus clubes do coração – theweekeiros e bubuzeiros são tão fiéis às bandeiras que carregam como corintianos ou palmeirenses o são com seus times. Na noite moderna, isso não acontece tanto: as pessoas transitam mais entre lugares diferentes, e escolhem sua noite muito mais com base nas atrações convidadas do que pelo clube em si. Nesse sentido, o Lions não veio para ameaçar ou desbancar os outros clubes – ele é apenas mais uma opção no circuito, mais uma casa em que bons nomes da eletrônica poderão se apresentar, um lugar para ir dançar ocasionalmente.

E o público? As meninas vieram vestidas de periguete-dos-anos-80, com maquiagem daquela época e cabelo repicado ou com penteado poodle; entre os homens, muito bigodinho de líder sindical, alguns de gravata fininha com All Star e outros tantos com pólos listradas à la marinheiro, tipo aquelas roupas da Staroup e US Top que eu via nas araras da Mesbla quando era pequeno. OK, brincadeiras à parte, na segunda noite de funcionamento após a inauguração, ainda é cedo para traçar um perfil dos frequentadores da casa. Mas achei o público menos gay e carudo que o do D-Edge, menos flashy e fashionista do que o do Glória, menos teenager que o do Clash e, sem dúvida, muito menos despojado que o do Vegas.

Também, com os preços praticados pela casa, não poderia ser diferente: por um suco de uva, cobram-se R$9. Os drinques, preparados por barmen engomadinhos em camisas de listras finas, não são nada generosos e custam a partir de R$24 – além de coquetéis clássicos como Cosmopolitan, Bellini e Kir Royal, há poucas invenções, como o cremoso Saphari (vodka, abacaxi e lima), a R$28. A vodka mais barata, com energético, custa R$29. Não convém exagerar, já que é preciso estar sóbrio na hora de conferir a conta – tive bebidas cobradas em duplicidade e precisei reclamar com a gerência. E eles ainda cobram mais 10% de serviço.

O Lions é uma novidade bem-vinda na cena eletrônica paulistana, que acabou de ganhar o Hot Hot e em breve terá também a expansão do D-Edge. O próprio Facundo Guerra abrirá um segundo clube no Centro, o Pan Am, que terá perfil menos elitista e receberá os projetos remanescentes do Vegas (que fechará as portas). Essa política de clube para sócios com preços salgados será um entrave para a popularização da casa, mas, pelo visto, a proposta é justamente essa: ser um espaço mais exclusivo e para um público mais velho, bem diferente da bombação do D-Edge e das filas nonsense do Hot Hot. Muitas pessoas certamente apreciarão esse diferencial, sobretudo os clubbers da Velha Guarda.

Sabem o que eu acharia realmente incrível? Se alguém alugasse o espaço do Lions para uma festa gay na semana da Parada. Ideal seria um grande after (o clima decadente do Centro e a luz baixa do ambiente dão ao clube uma inegável vocação de inferninho), ou mesmo uma day party de inverno, tipo das 9h às 19h. As bichas ficariam deslumbradas com o espaço, o terraço seria palco de momentos inesquecíveis, e nós teríamos uma dessas raras festas que entram para a história. Fica a dica para os produtores que leem este blog...[Lions Nightclub na noite de inauguração - foto de Paulo Otero]

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Bloco do Eu Sozinho

"Excesso de informações, conexões, expectativas, demandas, novidades... como lidar com isso e administrar o tempo enquanto não aumentam as horas do dia?". Essa linha-fina antecipa o conteúdo do ensaio "Era da Moderação", de Ronaldo Bressane, publicado pela Livraria Cultura na Revista da Cultura de janeiro. O autor explica que vivemos uma era em que o mundo virtual nos bombardeia com uma quantidade monstruosa de informação e cultura. A digitalização da produção e distribuição dessa informação permite que nós tenhamos acesso a tantos livros, vídeos, jornais, músicas e revistas quanto quisermos. Por outro lado, paradoxalmente, usufruímos cada vez menos de tudo isso: descartamos as coisas muito rápido, pois a velocidade com que a informação nos é oferecida não deixa que a gente se concentre e se detenha por muito tempo nela, antes que venha o próximo bombardeio. São discos que baixamos pela internet e deixamos de lado sem antes tê-los ouvido por inteiro, por exemplo.

Diz o pensador de cultura digital Gustavo Bittencourt, citado no ensaio: "Temos uma vasta oferta e uma fome interminável, porém uma capacidade cada vez mais limitada de prestar atenção e investir tempo no consumo de todo esse manancial a nós ofertado. Estamos à frente de um banquete, beliscando rapidamente um pedacinho de tudo que nos põem à frente, maravilhados com a variedade e quantidade de sabores, mas perigando perder lentamente a noção de desfrute". Outra fonte ouvida por Bressane, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, faz uma comparação parecida. "O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos, que nem o mais dedicado comensal poderia esperar provar de todos. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso, e não da falta de escolha: será que utilizei os meios à minha disposição da melhor maneira possível?".

Pois bem, sabem onde fui sentir isso na carne? Justamente no Carnaval de Florianópolis, tema do post anterior, e ao qual hoje volto com mais sobriedade, agora que o pileque de vodka passou e a volta à vida real se impôs.

A cena se monta como o bufê desenhado por Bauman. Milhares de homens belíssimos, vindos de várias partes do Brasil e até do Exterior, depois de dedicar meses (anos) a dietas e treinos intermináveis na academia, e comprar os óculos e sungas da hora, chegam sedentos à Ilha da Magia, dispostos a viver uma maxiexperiência hedonista carnavalesca. Compram logo o "combo" que dá direito a frequentar todas as festas, ainda que isso implique passar cinco dias seguidos dormindo e comendo pouco ou nada. E se jogam, com fé e força. Para onde quer que você olhe, na praia ou no clube, são tantos, mas tantos. Um mais bonito e sarado que o outro. É difícil mesmo fixar o olhar em alguém, porque logo passa um melhor, e mais outro. Parece mesmo o paraíso.

Eu também me preparei para o Carnaval, física e psicologicamente. À minha maneira, acho que cumpri minha missão a contento, pois cheguei pronto para o melhor, sentindo-me bem, com a autoestima em dia, louco para matar a saudade dos cenários, rever os amigos de fora e conhecer pessoas novas. Quando pisei ali, não consegui conter o deslumbramento: uau! Os dias foram passando, estive nos lugares certos nas horas certas. E me diverti, sim. Mas, estranhamente, com tanta gente linda em volta, não vi surgir ali nenhum casinho, nenhuma historinha gostosa. Apenas algumas pegações pra lá de fugazes (não raro, anônimas), e olhe lá. Voltei pra casa satisfeito pela metade: eu não tinha ido a Floripa para procurar namorado, ou mesmo me prender a alguém, mas achei que poderia ter vivido pelo menos uns momentos mais significativos, e nada aconteceu.

Eu já estava começando a pensar que talvez meu poder de fogo não estivesse tão bom assim, e eu deveria me preparar melhor para 2011, quando comecei a falar com outras pessoas que também haviam ido para lá. E fui descobrindo que com eles havia acontecido a mesma coisa. Pouquíssimos haviam voltado para casa com histórias para contar. A maioria não tinha ficado com ninguém - incluindo algumas pessoas de quem não se esperaria isso, como C., um personal trainer que tem o tipo de corpo que todas as bilus querem pegar. Ficou todo mundo tão apalermado com a quantidade de oferta no bufê, que ninguém conseguiu se servir. Ficaram ali se olhando, se olhando, e só. Mesmo os que ficaram com alguém viram a coisa evaporar antes que pudessem dizer "rama-ramama-ah, gaga-oh-la-la".

Talvez eu não devesse ter me surpreendido tanto com o saldo do Carnaval. Afinal, não é de hoje que as relações sociais que se constroem no nosso meio vem sendo empobrecidas pela ânsia do imediato e do descartável. Que encontra um símbolo apropriado nas redes sociais virtuais: eu canso de receber pedidos de "add", no Facebook e Orkut, de pessoas que não me conhecem, e nem estão efetivamente interessadas a me conhecer. Assim como outros tantos "amigos" que engordam meu círculo virtual são pessoas que podem passar por mim ou mesmo estar ao meu lado na boate sem sequer me cumprimentarem (esses, eu periodicamente deleto da minha rede, mas faxina virtual é o tipo de coisa que a gente só tem saco de fazer quando está realmente ocioso).

Aliás, na boate, o interesse nasce, evolui para beijos e agarros e dura somente o tempo em que os aditivos agem no corpo. Passada a onda, tudo se esfarela, um (ou o outro) mira um ponto no horizonte, sai de fininho e desaparece. Valeu. Entre um drink e outro, meu amigo L.A. me diz que "essa sua geração parece ter vindo de fábrica sem o chip para relacionamentos". M., num papo animado ao telefone, divide comigo sua última lição: aprendeu que o approach na balada tem que ser minimalista. Oi, tudo bem? Tá tudo essa festa, quero pegar você, crau. Qualquer palavrinha a mais, tipo perguntar coisas básicas sobre o cara, querer saber algo sobre ele, é papo de "gente que quer arranjar namorado", ihhh, mela tudo na hora. Então tá, lição anotada.

E olha que nem precisamos entrar na velha e cansada discussão de "namoro versus aversão a compromisso". Até a sacanagem pura e simples está sendo prejudicada pela síndrome do fast-eject. Vejam o caso de B., um sujeito bastante prático, que não tem paciência para se relacionar com ninguém, e assume sem pudores ou rodeios seu interesse exclusivo pela putaria. Pois bem: no começo do mês, B. foi a uma dessas festas-do-cabide onde se pratica a fagocitose múltipla por atacado (ou seja, uma suruba). Machos fogosos, luz baixa, zero inibições, estrutura e conforto necessários para arranjos acrobáticos típicos de molécula química complexa. Pois bem, disse ele que chegou disposto, brincou com uns vinte e cinco e... gozou litros, saiu com o bilau esfolado e ficou três dias sem sentar? Não: foi embora pra casa sem gozar. "Cada brincadeira não durava mais do que dois minutos. Quando a coisa começava a ficar boa, o cara se dispersava, ia trepar com outro, depois outro". Sair sem gozar de uma suruba é, decididamente, sinal de que alguma coisa está fora da ordem, não acham?

Enfim, parece que nosso universo gay está tão super-mega-hiper que ficamos prostrados diante de tantas opções, protagonistas de um videogame coletivo em que tudo é descartável e ninguém chega feliz ao final. O texto de Bressane sugere que cada um encontre seu jeito para desacelerar, cavar brechas na loucura e escapar da pressão dos estímulos, simplificando a vida. Talvez a própria noite gay seja uma ciranda da qual às vezes é preciso dar um tempo para a cabeça. Passado o Carnaval, as atenções começam a se voltar para a próxima big thing: as festas da Parada de São Paulo, em junho. Por incrível que pareça, já tem amigo meu planejando os preparativos até lá. Sempre aguardei essa época do ano com muita alegria. Agora, começo a pensar que o bufê que não mata a fome irá apenas mudar de lugar.