quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Estadão, de costas para o futuro



Para promover o seu portal na internet, o jornal O Estado de S. Paulo lançou mão de uma nova estratégia publicitária. Ao invés de alfinetar a Folha de S.Paulo, seu principal concorrente no mercado, o diário paulistano resolveu atacar os blogs. No retrato feito pela campanha, os blogs são feitos por macacos treinados, que copiam e colam conteúdos da internet, aos olhos de cientistas maravilhados com a proeza. Moral da história: “ao invés de consultar um blog, recorra à informação confiável e íntegra do portal do Estadão”.

É lógico que uma propaganda como essa não deve ser levada a sério, mas sim pelo lado do humor. No fundo, se o jornal está sendo politicamente incorreto, meio escroto até, essa é apenas uma manobra para chamar a atenção e vender seu peixe. Bancar o engraçadinho é um truque que publicitários adoram usar para criar empatia com o público, especialmente quando o produto é algo sisudo como um jornal. Isso a gente já sabe.

No entanto, se a intenção era passar uma idéia de integridade, o tiro saiu pela culatra: a imagem que acabou sendo transmitida para o público foi de pura arrogância. Desnecessário dizer que, entre os blogueiros, a deselegante campanha provocou uma rejeição generalizada e uma enxurrada de posts raivosos e inconformados – vários deles, incitando boicotes ao jornal.

Por trás da atitude aparentemente segura de si do Estadão, existem questões bastante sérias que estão tirando o sono do jornal. Com a expansão das novas mídias, o espaço particular do jornalista – até então garantido por medidas protecionistas, como a própria exigência do diploma – acabou sendo invadido por pessoas comuns, que passaram a participar ativamente da produção de informação. Para ficar num exemplo fácil: o cidadão comum que trafegava pela avenida Washington Luís, quando o avião da TAM se espatifou contra o galpão, teve a chance única de sacar do bolso seu celular com câmera e documentar a tragédia em tempo real, muito antes que a imprensa pudesse deslocar suas equipes até lá. E produziu uma informação privilegiada e importantíssima.

Com os blogs, a atividade jornalística saiu dos feudos das grandes redações e se democratizou. Qualquer pessoa com um mínimo de articulação e senso crítico passou a ter o direito de manifestar suas opiniões, dividir seus conhecimentos, produzir informação e ter seus textos lidos pelo mundo – sem ter que se submeter ao crivo e às limitações dos interesses editoriais das grandes corporações. E é nessa independência que reside uma das maiores virtudes do blog. Ao contrário do que acontece na grande imprensa, seus textos não têm que pisar em ovos para não ferir suscetibilidades. Se aquele disco, show, restaurante, filme ou destino turístico é uma porcaria, o blogueiro tem total liberdade para falar o que pensa, sem dourar a pílula, porque não deve nada a ninguém. O relato do consumidor é uma referência muito mais confiável sobre um produto do que o press release feito para vendê-lo. E as grandes empresas dos Estados Unidos já aprenderam que esse é um canal de comunicação que vale ouro e precisa ser ouvido.

Além disso, o jornal é por excelência um veículo de massa, e por conta disso o seu conteúdo tem que ser pasteurizado para atender a um senso comum de leitores médios. Não há espaço para assuntos ou abordagens que não sejam presumivelmente de interesse de uma “maioria”. Já os blogs conseguem justamente o oposto: focar em nichos, falar a públicos segmentados, abordar assuntos específicos. São espaços altamente especializados – até pelo fato de que o blogueiro escreve sobre aquilo que gosta e, em geral, mergulha de cabeça no assunto. E quem é apaixonado por um assunto pesquisa mais e se torna uma fonte muito mais completa de informação do que aquele jornalista que recebe uma pauta no colo e tem que cobri-la, mesmo sem ter um interesse específico nela.

Obviamente, existem muitos blogs ruins, em vários sentidos. Não falo nem daqueles diários adolescentes, tipo “Suellen e seus miguxos”, porque esses são inofensivos e de alcance restrito. Mas há blogs levianos, irresponsáveis, que plantam mentiras e espalham fofocas. E blogs simplesmente pobres, que chupam conteúdo alheio, dão “copy-paste” em opiniões dos outros e assinam como se fossem suas, na cara dura. Agora, não dá para generalizar da forma como o Estadão pretende. Tem muita gente boa que não está na ativa na grande imprensa e escreve em blog. Ou mesmo grandes articulistas que escrevem em jornal, mas também têm seu blog, onde produzem textos mais pessoais e com mais liberdade.

Claro que isso não quer dizer que, da noite para o dia, o jornalista virou um profissional superado e sem utilidade. Ele tem uma responsabilidade social que o blogueiro não tem: de informar e educar a sociedade, discernir o que interessa como notícia para as massas e como isso deve ser apresentado a elas. Agora, não se pode ignorar que a produção jornalística pelo cidadão comum é uma realidade que veio para ficar – e o blog é o grande expoente desse novo fenômeno. A informação, definitivamente, deixou de ser monopolizada pelos jornais.

Nesse contexto, ao perceberem que sua supremacia está com os dias contados, as velhas mídias se apavoram e fazem o possível para garantir sua sobrevivência no mercado. Afinal, enquanto os blogs proliferam, conquistam um espaço maior e uma audiência cada vez mais qualificada, as vendas dos periódicos despencam vertiginosamente, num processo sem volta que, cedo ou tarde, terminará com o formato impresso como nós o conhecemos hoje. A antipática campanha contra os blogueiros-macacos é só mais uma prova desse desespero por que passam todos os jornais. O futuro está chegando e os blogs são parte dele; já o Estadão ainda precisa encontrar um meio de garantir seu lugar ao sol. Ao achincalhar o novo protagonista do mundo da informação, o velho periódico mostra que ainda não está preparado para lidar com esse futuro.

10 comentários:

Anônimo disse...

Além dessa questão dos diferentes formatos de mídia (escrever "mídia" é tão mídia... rs), vejo também um certo dissabor por parte dos próprios jornalistas com relação à tal inclusão digital.

No fundo, a classe tem medo de se tornar obsoleta. Parece óbvio questionamento: se existem blogueiros fazendo as vezes de jornalistas, sem a respectiva formação superior e com satisfatória destreza, qual a utilidade da curso de jornalismo?

Obviamente, não estou afirmando que os blogueiros produzem com a mesma qualidade que os jornalistas, pois seria leviana uma generalização dessa natureza. Nem tampouco estou defendendo que sejam extintas as faculdades de jornalismo, mas acho que elas precisarão evoluir e reinventar a roda. Se não houver um diferencial, uma especialização (sentido amplo), algo que se torne reconhecidamente valioso, elas tendem a sumir. Ou, então, o que é pior: a perder prestígio.

O que acha isso?

Bjs!
Vítor(a.k.a. Nostradamus)

Vítor disse...

Quanto ao Estadão, é compreensível a atitude deles: demonstra medo. A Prada não vai fazer uma progaganda gongando a Renner, né?

Tony Goes disse...

Tenho um amigo que trabalha lá e me conta que a diretoria do jornal ficou em pânico com a reação negativa... bem feito, bem feito. ¡Que se jodan!

Agora, o problema de comentar os seus posts é que você expõe o assunto de maneira tão completa e clara que não tenho mais nada a acrescentar.

Então vamos mudar de assunto! Já escolheu a roupa que você vai usar no sábado? Eu não! Ai ameeego, tô tão sem roupa!

uomini disse...

Thi,
O seu texto serve como um *manifesto dos blogueiros*!
Parabéns!
Cris

Gui disse...

Que merda. Você escreve, o Tony comenta e não sobra mais nada pra dizer aqui. Nem pedir ajuda pra roupa eu posso...rs

Falando sério, adoro essa possibilidade de ler várias opiniões sobre o mesmo tema e ter diversos pontos de vista sem compromisso, e não só o que interessa ao grupo por trás do nome do jornal.

E ainda veio uma bee me dizer que eu deveria pensar antes de escrever e "respeitar" a opção dos outros em não frequentar certos lugares, como se eu não fizesse isso.
Ou seja, pra ela, não posso ter opinião, né? Nem tive o trabalho de aprovar esse tipo de comentário...

Alexandre Lucas disse...

O Estado sempre pertenceu ao passado... Desde que eu era criança.

Anônimo disse...

Hey,
Nao sou de ler jornal (adoro revistas de moda)mas nunca gostei do Estadao.
Alias, posso ajudar na escolha do modelo do sabado.
Recomendo skinny pants, short sleeves shirts.
Thi, vc jah viu a Vanity Fair de setembro com a reportagem sobre o Brazil?
Suppress
FXXXX

Ivo. disse...

Oh, dear, como gosto de ler seu blog!

Quanto ao sábado, ainda estou dividido. Quem sabe, nos vemos por lá de repente!

kento disse...

A blogosfera finalmente nos libertou da "informação" nada confiável da grande imprensa. Tomara que ela chegue ao fim.
Folha de S.Paulo. Dá pra não ler.

Estadão. Difícil entender.

Veja que mentira!

Xande Carioca disse...

Thi, você deveria mandar seu texto para a redação do Estadão. Parabéns.