quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Berghain-Panorama, uma balada única

A queda do Muro de Berlim expôs ao mundo o grau de decadência em que se encontrava a Alemanha Oriental, combalida pela crise do regime comunista. Foi natural que os berlinenses do leste migrassem para a rica parte ocidental, atrás de bens de consumo e novas oportunidades. Berlin-Ost ficou jogada às traças e seus galpões abandonados ou postos para alugar a preço de banana passaram a atrair todo tipo de artistas e freaks - inclusive de fora da Alemanha. Esse processo de ocupação "alternativa" deu o tom do renascimento cultural e humano da região; hoje, é lá que está tudo o que rola de mais bacana em Berlim. Muitos dos melhores fervos são feitos em velhas fábricas e galpões reaproveitados. É num desses espaços que se esconde a balada mais incrível da minha viagem: o Berghain-Panorama, que rola dentro de uma antiga usina.

Chegar lá pode ser uma aventura para os incautos. O S-Bahn (metrô de superfície) não te deixa longe, mas o entorno do lugar é ermo como a CEAGESP. Sem sinalização alguma ("letreiro na porta"?! hahahá), você só saca que acertou quando começa a ver uma movimentação de gente em direção ao que parece ser uma grande fábrica abandonada. Entre alambrados, areia e entulho, a fila é surreal - cheguei às 5h10 de domingo e só consegui entrar às 7h20. Mas a espera é parte do ritual e uma ótima chance de se ambientar com a eclética fauna que vai dançar do seu lado. Todos os tipos e estilos possíveis estão ali, de jetsetters a ripongas, de lolitas a fortões, do modelão mais montado à roupa mais confortável... e eles interagem numa boa [algo impensável no Brasil, onde as pessoas têm a cabecinha segmentada, classificam umas às outras em rótulos, tribos, padrões e dão uma importância enorme a isso]. No fim das contas, a espera faz pessoas das mais diferentes origens e nacionalidades engatarem um animado tricô (viva a língua inglesa!), o tempo vai passando e, quando você já está perto da entrada, já fez amigos, garantiu uma rodinha na pista e, se bobear, até começou a engatilhar alguma pegação.

Vencido o leão-de-chácara (a criatura mais apavorante que já vi, um sujeito gigante com o rosto todo deformado e cara de nenhum amigo, daria um excelente agiota), você entra e percebe como o lugar é enorme. No térreo, há uma lojinha improvisada e o que eu imagino que seja um espaço para exposições ou eventos de arte. Subindo uma escadaria (total déjà vu da Fundição Progresso), chega-se à pista principal, que é a porção Berghain do clube. Com pé-direito de pelo menos 15 metros, luzes bombando e som entre a house e o techno, essa é a pista da "fritação", onde todos aqueles tipos da fila acabam formando uma massa surpreendentemente homogênea. No início, não dá para saber quem é quem na história, mas os gays logo se identificam tirando a camisa: basta tirar também para que coisinhas comecem a acontecer. À direita de quem dança olhando para o DJ, um enorme vitral iluminado por baixo separa o bar do maquinário intocado da antiga usina.

Outro lance de escadas leva ao segundo andar, a metade Panorama do espaço. O astral nesse segundo ambiente é bem diferente. A pista funciona no centro de um grande recinto quadrado, com paredes de ladrilhos brancos que lembram nossos antigos botequins. Por frestas no alto, a claridade do dia ilumina a pista, mas não mais do que o suficiente. O DJ toca num balcão baixo, totalmente ao alcance do público; do lado oposto, há um bar - e fica claro que os jovens bartenders estão na mesma vibe e se divertindo tanto quanto nós. O som - house, tech house, deep house, algum electro no caldo - é menos dark e mais alegre, mas sem ser "fofinho": tem momentos de euforia, com a pista gritando, e outros para botar o oclón e entrar numa onda introspectiva, sozinho ou acoplado com o peguete.

Mas as duas pistas são só uma parte do barato. Um passeio pelos corredores da usina vai revelando outras descobertas. Há cômodos que fazem a função de lounges, com sofás muito velhos onde o povo se esparrama, se beija, fuma um, fica abraçado de conchinha. Muito pouca luz passa pelas janelas, que são pintadas de diversas cores, dando um clima especialmente aconchegante e quase 70's ao ambiente. O mesmo clima avonts está na ante-sala de um dos banheiros, onde outro sofá serve de acampamento para um grupo fervidíssimo, que logo me inclui na próxima rodada de jägermeister (bebida escura que os alemães não se cansam de entornar e parece um Biotônico Fontoura alcóolico).

Em um território livre como esse, é fácil conhecer pessoas. No Panorama, as pessoas socializam na pista, fervem, o clima é totalmente "pra cima". Conheci ainda mais gente e dei os parabéns para uma DJ chilena que tocava um som incrível [seu nome é Dinky e ela toca ali uma vez por mês]. Já nas profundezas do Berghain, com os ânimos mais exaltados, os contatos são de outra natureza, e não raro acabam em algum dos dois grandes cômodos completamente escuros à esquerda da pista, onde os descamisados e todo o resto da Arca de Noé se lançam ao universo das experimentações físicas.

Lá pelas tantas, comecinho da tarde, depois de aproveitar de diversas maneiras, fiquei com um alemão na pista do Panorama. Ficamos curtindo lá e, num dado momento, ele me pegou pelo braço e me levou para fora. Eu já ia protestar dizendo que não queria ir embora, quando vi que tinham aberto uma terceira pista no jardim. Era uma espécie de "terraço da Space" improvisado, com a pista coberta por aquela mesma trama de frufrus entrelaçados que filtra uma parte da luz do sol. Todas as bees tinham ido para lá e o clima era quase o de uma pool party: a cada 5 minutos, alguém do clube abria uma mangueira para o alto e os respingos de água que chuviscavam na pista refrescavam a todos nós, que dançávamos felizes como se estivéssemos no Bora Bora de Ibiza ou na piscina da The Week. Tinha até trava dando close. Enfim, só arredei pé de lá às 15h30, e porque meu corpo exigiu. Meus amigos da fila da entrada ainda me chamaram para o after do after, mas colocar qualquer coisa depois daquele lugar seria como fechar um jantar divino com uma concha de sopa Knorr.

Saí de lá maravilhado. Aquela usina maluca tem um astral muito especial e o povo festeiro, de espírito livre e desencanado, é uma atração à parte. Na Space de Ibiza, que considero meu clube preferido, o público pode ser "variado" (héteros e gays, vários países etc.), mas ainda assim dentro de um certo padrão que freqüenta Ibiza: gente bem de vida, houseira, antenada, consumista, que usa oclón de grife, meio jetsetter. Ou seja, você já sabe mais ou menos o que esperar e que tipo de papo vai ter. Já no Berghain-Panorama não: lá tem de tudo mesmo, você realmente se surpreende ao conhecer as pessoas mais diferentes. É muito bacana ver que um povo tão heterogêneo pode dar uma liga tão boa. Muito mais legal do que ir a uma festa 100% barbie ou 100% muderrrna ou 100% emo. Não pude registrar nada (eu já sabia que o staff confiscava todas as câmeras e até celulares, porque não quer que a proposta da casa seja imitada), mas sei que não precisarei de fotos para lembrar da experiência.

12 comentários:

Rob disse...

Valeu pelas dicas espero ter energias suficientes pra aguentar Berlin depois de Ibiza...mas com certeza irei nesse club ...qual seria o melhor horario pra ir entao?

Abracao Beto

Jack disse...

Quando você foi tinha um lance de abrir as janelas por um breve instante e deixar a luz do sol entrar? Nossa, achei muito louco aquilo! E me deu uma vontade louca de tomar agora um jägermeister ou uma africola, que eu só vi lá!

Anônimo disse...

bafo do bafo do avesso do bafo... deixei parte do meu coração em berlim e devo isso a você pela dica e à Berghain-Panorama!

abs,
Fernando, depois respondo o email!

poor guy fashion victim disse...

Olá,

Que bom que gostou e se divertiu na Europa. Fico feliz por si e como Europeu pelas coisas simpáticas que disse.

Ibiza foi para mim, uma vez mais, mágica.

O matinée no space, este ano perdeu um pouco da magia por acontecer durante a noite, mas continua a ser uma das minhas festas preferidas na Europa. Em breve falarei disso no meu blog.

As poolparties (privadas) em Ibiza, continuam a ser algo de mágico.

Bom regresso e um abraço.

http://poorguyfashionvictim.blogspot.com/

introspective disse...

Rob: O melhor horário é esse mesmo, chegar lá depois das 4 da manhã e ficar atéééé... Ah sim, e ir somente de sábado para domingo - na noite de sexta, o lugar abre, mas só funciona o Panorama, ou seja, você teria apenas metade da experiência. Deixe sexta para o Lab.oratory... ;^)

Jack: Olha, que eu me lembre, não! E olha que eu me esforcei ao máximo para reconstituir aquela manhã no texto...

Fernando: Que bom, fico feliz de verdade! Adoro me sentir co-responsável pela felicidade dos outros... rs... Aguardo seu email!

PGFV: Posso imaginar como foi. Podem falar que Ibiza é comercial, coisa e tal, mas ainda acho a Space incrível. Você fala em festas "mágicas", sei perfeitamente do que está falando! pena que nem todos tenham a oportunidade de viver e entender isso, acham que somos nós os deslumbrados... ;^)

Antonio disse...

O thiago vivendo novas experiências e abusaaaaaaaando do eufemismo!! Adoooooroo!!
Boa dica! (sempre..)

Pegante disse...

excelente o post, como sempre.
vc vai ter que ganhar comissão da Embratur de Berlim, rsrsrs, pois vai encher de gay brasileiro lá.
(bom, michê brasileiro já tem aos montes, mas isso é outra história e não é só em berlim!).

adorei a comparação com o entorno do CEAGESP. E, acredite ou não, ficou BEM mais fácil de achar que a primeira vez que fui.
Em junho agora já tinham calçado algumas ruas que não existiam, antes era tudo um descampado. Na primeira vez que fui com um francês, ficamos dando volta no meio da escuridão por uns 40 minutos até achar. E a gente ouvia aquele barulho surdo típico de balada mas não conseguia ver a entrada rs.
O francês já tava se cagando de medo de estar naquele lugar ermo, mas, eu, como brasileiro, acho Berlim a cidade mais segura do mundo, eheheh.
Finalmente vimos um povo andando no meio do nada e fomos seguindo.

Não sei se vc esqueceu de comentar ou se isso não aconteceu com vc... mas vi MUITA gente ser barrada na entrada. Eu cheguei meio cedo e já tinha uma boa fila e não entendia porque volta e meia tinha gente voltando. Eu pensava "esse povo aí deve dormir cedo".
Inocência minha. Foi chegar perto do começo da fila e vi o "host" implacavelmente falar pra algumas pessoas que não iam entrar. Sem choro nem vela, era: "próximo".
Bem na minha frente tinha um grupo de uns 6 espanhóis, nao sei se eram gay ou não, mas faziam a linha mauricinho e foram todos sumariamente barrados.
Depois soube por um rolo israelense (bem estilo nerd) que ele e seus amigos tb foram barrados lá.

p.s. sobre a "rotina": talvez o título tenha sido meio falho. rotina mesmo é só a primeira parte, rsrs. a segunda parte é uma coisa nova. nessa última 5a teve a segunda parte de novo. estou para por lá o relato.

introspective disse...

Antonio: Não quero que esse blog seja reclassificado como impróprio pelo Ministério da Justiça ;)

Pegante: Mas Berlim É a cidade mais segura do mundo! rs... Eu vi sim algumas pessoas sendo barradas na porta do Berghain, e perguntei pro meu novo-melhor-amigo do que se tratava. Parece que, em alguns dias, o host está meio atacado e resolve filtrar umas pessoas que claramente não têm nada a ver com a proposta da casa (ultramauricinhos, nerds demais; o que contradiz totalmente a política de tolerância e apreço à individualidade imperante, pois se eu posso ser o que eu quiser numa boa, eu tb posso ser nerd, concorda?). Mas em geral são pessoas que furaram a fila. Não sei como, mas eles conseguem descobrir, e barram mesmo. E quando aquele monstro diz "não. próximo!", com certeza não dá para discutir, né... rs...

Clebs disse...

Acho que tomei esse bebida escura em Amstedam, não sei...o lugar todo estava escuro na verdade...Mas parecia mesmo Biotônico Fontora.

Depois deste post, este lugar é destino certo para quem vai para Berlim.

poor guy fashion victim disse...

E Pronto, terminei por este ano Ibiza a falar do Space. saiu tudo do lado emotivo e muito pouco do raccional lógica cartesiana.

Abraço

Roni disse...

Adorei seu blog e suas dicas sobre Berlin, foi um amigo meu que mora nos USA, quem em passou o link...

Estou indo pra Munique, Praga, Berlin e depois Amsterdã, gostaria muito de algumas dicas das melhores baladas ou pelo menos por onde começar o fervo e se jogar.... embarco dia 16/09/08 e volto dia 15/10/08 vou ficar uma semana em cada lugar.... Parabéns mais uma vez e desde já obrigado....
Ass: Ross

Ricardo disse...

O mais legal é curtir os clubes europeus livre de fumaça de cigarro.