domingo, 21 de junho de 2009

Não sabendo que era impossível, fomos lá e fizemos

Cheguei à Doceira Holandesa da Vieira de Carvalho na hora combinada para encontrar meus amigos, trinta minutos antes do início da manifestação. E não vi absolutamente ninguém. Já ia pensando nas palavras que despejaria no próximo post, dizendo que "o que essa bicharada merece é comer Doritos", quando começaram a chegar as primeiras pessoas. Tímidas, elas se encolhiam na porta da doceria ou do boteco vizinho, como se fossem clientes daqueles estabelecimentos, disfarçando a verdadeira razão de estarem ali.

Repórteres começaram a filmar e fotografar e, como ainda não havia quase ninguém, minha presença foi registrada várias vezes. Não pensei em fugir ou me esconder, mas confesso que me senti desconfortável, meio sem saber onde colocar a mão. Mais uma vez, entendi por que é preciso respeitar as pessoas que não se sentem atraídas ou dispostas para a militância. Não querer se expor é um direito delas e os patrulheiros mais radicais deveriam respeitar isso. Aliás, foi pensando nessas pessoas, que não se interessam pelo movimento mas também gostariam de ser úteis, que resolvi fazer a tal cartilha ("cartilha" é apenas um jeito informal de se referir a ela, já que a ideia não é ditar regras a ninguém), que irá ao ar nesta semana.

Em questão de quinze minutos, o número de pessoas se multiplicou. O povo foi chegando, vários amigos deram as caras, gente conhecida do meio também. Algumas lideranças assumiram o microfone (inclusive o Secretário de Justiça Luiz Antônio Marrey, enviado pelo governador), e gostei de ver que os discursos não faziam exaltação a vaidades pessoais, nem tentavam vender o peixe de grupos. Sempre fui contra esse cruzamento promíscuo entre militância e interesses partidários: acho que a militância deveria estar comprometida com as nossas demandas e interesses, e não servir de alavanca para capitalizar visibilidade e votos para esse ou aquele partido. E não sou o único que pensa assim: muitos ficaram incomodados quando membros de certos partidos tomaram a frente da passeata com suas grandes bandeiras vermelhas, tentando apropriar-se da iniciativa. Felizmente, outros perceberam a jogada e fizeram com que as faixas caseiras de pessoas comuns contra a homofobia assumissem a dianteira da marcha, que foi até o Arouche.

Sem outras manifestações de rua no currículo, eu não sabia bem o que esperar, mas fiquei satisfeito com o resultado. O ato conseguiu reunir umas boas 300 pessoas. Os organizadores falaram em 500, acho que não foram tantas assim, mas o número não é o mais importante. Quando aquela pequena massa humana começou a caminhar, soprar apitos e gritar "contra a homofobia, a luta é todo dia!", fui tomado por uma sensação gostosa de união, de identificação acima de todas diferenças, e por um sincero otimismo. Não foi nenhuma falsa afetação pós-Milk, superficial e passageira, mas sim a constatação de que não é tão difícil assim dar uma forcinha e mostrar um pouco de solidariedade por uma causa que deveria ser de todos nós.
[Gustavo, Cris, eu e Isa, autores da "cartilha" junto com Jack e Daniel]

26 comentários:

BHY disse...

São LINDOS esses amigos que vou conhecer pessoalmente em breve. Ótimo texto, meu caro, pra variar. ;-)

beto disse...

como te disse, eu fiz a minha versão da prova-Doritos.
passei na Benedito ANTES da manifestação. e vi que tinha bastante gente, mas não lotada.
E disse que se tivesse menos gente no Arouche, iria perder de vez as esperanças no poder de organização, auto-defesa e de se interessar por algo que não seja balada-internet-música-colocon-moda-sexo de uma grande parcela de nós homossexuais.

No início, já tava quase separando $$ para comprar Doritos, mas aí minha percepção bateu com a sua. Não era uma multidão, mas era um número aceitável. Fiquei contente de ver gente que respondeu ao meu post numa comu do Orkut e apareceu lá. E vi muita gente, como eu, sem saber direito o que era para fazer, mas o principal era ESTAR lá, criar uma massa crítica. Muita gente com cara de virgem de protesto, e acabei saindo com uma sensação positiva.

Ao contrário do radical solitário que queria vaiar (e ninguém acompanhou) o Secretário de Segurança do Estado de SP, achei uma TREMENDA vitória o simples fato de ele estar lá e, de sua maneira, demonstrar o apoio e o engajamento no combate à violência. E agora podemos cobrar que não sejam só palavras. A presença dele no protesto indica que avançamos no reconhecimento pelo governo dos nossos direitos, enquanto homossexuais, de viver como todos os outros cidadãos.

Pra quem é mais novo, é bom lembrar que não faz muito tempo, qualquer reivindicação nossa seria ignorada como coisa de "viado, sapatão e travesti".
Saí do Arouche no domingo um pouco menos azedo e cético com os Doritos da vida.

Regina disse...

Thiago, sou a amiga do Beto que tbm não fez o curso de manifestante mas que como vcs, sentiu-se no dever cumprido de ir até lá e mostrar que não podemos mais agir como 'ah não vou fazer nada pq nada vai mudar'. Qdo falei pro Beto que ia, o meu pensamento foi: 'se só tiver meia dúzia lá, eu e vc vamos fazer o número aumentar pra oito'

e ainda saí com mais um ponto positivo: descobrir teu blog e não parar de ler!

Daniel disse...

engraçado como os números de SP são os do Rio multiplicados por 3. Parada do Rio dá 1 milhão? a de Sp dá 3. Manifestação contra homofobia do Rio deu 100 pessoas? Em SP dá 300.

bom, acho que estamos no lucro, né?

CARIOCA VIRTUAL disse...

Nem comento esta necessidade da Associação de contar numeros, mas confesso que este seu sentimento tb me dominou. Não sei se por culpa da minha falta de experiência com este tipo de movimento ou se por estar muito sensivel, mas fiquei feliz de ter ido e estar num momento importante da nossa Historia. As grandes historias nascem assim. Rezo pra que td isto se reflita ano que vem e sempre... estou otimista, sou otimista... sempre! ou tento ser.

Paulo A. disse...

Eu fui ao protesto e minha análise é outra. Achei o número de participantes ridículo, considerando que a Parada foi há uma semana e que o protesto era um "reflexo" dela. Cadê o poder mobilizador e conscientizador dela? Também tinha pouca gente, considerando o número de críticos que dizem que a Parada não é política. Pois bem, tivemos um evento unicamente político e cadê as pessoas? No fim, a conclusão é que nós temos o que merecemos. Achei o protesto vazio inclusive quanto ao conteúdo: que história é essa de se vitimizar, de dizer "a Vieira é nossa e não vamos deixá-los tomá-la da gente"? Por favor, né... Uma caminhada até a sede do PR, partido do ultrahomofóbico senador Magno Malta, teria sido mais valiosa do ponto de vista políico.

Paulo A. disse...

No mais, concordo contigo: ninguém é obrigado a se expor. Mas precisamos saber que sem exposição não há conquistas. É uma questão de fazer as contas e ver o que vale mais, analisar se compensa manter a discrição mas continuar sendo tratado como um cidadão de segunda categoria. O que eu acho fundamental é os gays entendermos que os direitos civis que nos são negados não virão de mão beijada. Ou a gente luta por eles ou vamos continuar sendo espancados nas ruas e tendo que lutar na justiça por um direito que os heterossexuais têm assegurado por lei.

Introspective disse...

Paulo, eu já esperava que o número de participantes não seria enorme. Todos sabem que boa parte dos críticos da Parada só se articulam com o mouse e o teclado, no conforto das suas poltronas. Eu, sinceramente, esperava 50 pessoas. Por isso, acho que 300 foi sim um número ok, o que não significa, evidentemente, que o ato tenha atingido plenamente as finalidades a que se propôs.

João disse...

Deu vontade de ter estado lá! Pena que tinha de trabalhar. Uma abraço, João.

André Mans disse...

sinto orgulho de que isso ocorreu
não fui, mas senti a importancia que esse ato teve
essas 300 ou 500 pessoas foram muito mais importantes que as 3 milhões na Parada Gay

isso é militância
parabéns!!

Mariposo-L disse...

Isso parece que foi bem serio e talvez com muito mais retorno do que aquela muvuCAGAY, ops parada gay :)

Paulo Braccini disse...

parabéns ... isto sim é militância ... o número não importa ... tudo isto é um processo de educação e de conscientização ... estive lá em espírito já que moro em BH ... parabéns amigo ...

;-)

Diógenes de Souza disse...

Antes 300 que dão a cara pra bater e são realmente comprometidas com o propósito de fazer algo, do que 3 milhões que acrescentam muito pouco.

Gustavo Miranda botadentro@ymail.com disse...

Antes de mais nada, foi muito bom ter conhecido vocês três pessoalmente e mais alguns do movimento com quem a gente tem contato via email, comentário deixado em blog, e tudo o mais. Foi bastante positiva a manifestação de sábado. Se não éramos muitos, éramos o que tinha nas mãos, os que podiam gritar "Contra homofobia, a luta é todo dia", os que podiam mostrar a cara e pedir respeito, dizer quye existimos, que somos o "guy next door". E somos. E estamos. E acreditamos em um mundo melhor. Até a próxima decepção, até o próximo renascimento, como a fênix. E por aí vai. Bjão!

Tchynna disse...

eu fico muito feliz ler seu texto. o seu blog e o do cris são sempre os primeiro que eu leio todos os dias. confesso que as vezes me irrito com algumas colocações suas, mas sempre volto pq me delicio com as experiências que você aqui relata.

porém, hoje, é diferente. ver vcs nessa foto é a certeza que não nos contemos em usufruir dos nossos beneficios diários e pessoais. é ver que há uma inquetação e um não conformismo com a realidade que é bem diferente daquela que podemos controlar de casa, com os nossos laptops.

hoje, mais do que nunca sinto orgulho de ser leitora do Introspective.

Beijos lindo!

isadora disse...

Fiquei feliz de ter encontrado vocês todos por lá. E que bom que foi uma primeira experiência bacana! Você sabe que não acredito em militância chata e que envolve sacrifícios: essa manifestação mostrou que dá pra todo mundo fazer o que está ao seu alcance e que política não precisa ser só uma tortura de chatice (embora esses momentos façam parte). Realmente, foi emocionante estar lá e muito agradável estar lá com vocês.
Beijo!

guto disse...

parece que até que enfim são paulo fez sua primeira parada gay né... diferente do carnaval de sexo e drogas que o "país da pizza" transformou a outra. por q afinal a parada original não surgiu para comemorar mas sim para protestar?pena q um tenha q ter morrido pra isso acontecer.

Gilson disse...

Se estivesse em São Paulo teria ido, com certeza.....Fiquei emocionado com os relatos e com vontade de participar e de poder fazer a minha parte também.

Tony Goes disse...

Queria tanto ter estado lá com vocês! E que bonitinho, vocês todos virgens de protestos e manifestações... O véio aqui é veterano da campanha pelas Diretas Já. Numa das passeatas, desci a Brigadeiro segurando um dos paus de uma imensa faixa, com a multidão atrás de mim. Pensei: "se atirarem, sou o primeiro a cair..." Hahahaha, quanta pretensão.

Tenho a sensação de que, apesar de mais de uma década de Parada, é só agora que o movimento gay está começando no Brasil. Não quero desemerecer o trabalho dos miltantes que vieram antes, muito pleo contrário: todos os aplausos e agradecimentos a eles, que se expuseram numa época em que a barra era muitíssimo mais pesada. Mas o triste fato é que temos pouquíssimos direitos conquistados. Por outro lado, sinto algo diferente no ar, e é tudo culpa da internet. Os sites e os blogs estão mudando a cara da militância, e os números também.

Que a morte do rapaz tenha sido nosso Stonewall. Ainda somos poucos, mas seremos mais, e muitos.

David® disse...

ouvi a seguinte frase outro dia "palavras são palavras. só acredito em atitudes". acho que vcs mostraram que são bons tanto com palavras quanto com atitudes.
é isso ae!

PS: Não rola uma prévia da "cartilha"? eu não tenho noção do que devo escrever pra tentar colaborar com vcs? um direcionaento sempre ajuda né

Marco de BH disse...

Querido Thiago, o bárbaro espancamento e assassinato do "Pan" (apelido do cozinheiro MARCELO CAMPOS BARROS) foi um crime de intolerância dupla, pois ele era GAY e NEGRO. Triste, deprimente (seu prenome e sua profissão só me fizeram sentir e sofrer ainda mais). Percebi como estamos todos vulneráveis. Como o MAL está perto! Qualquer hora e pode ser um amigo, nós mesmos, ou nosso amor! O menino era supertranquilo, centrado, trabalhador e voltava de um churrasco... revoltante! Precisamos realmente nos organizar (e concordo com o que o David disse acima). Infelizmente não deu para estar ai com vocês na manifestação; o jeito foi mandar SMS de apoio e de carinho, no sábado pontualmente as 19 horas! Espero que tenham recebido! Grande abraço. Saudade (acabou que nos vimos e nos falamos tão pouco né?)

M.I.M.B. disse...

O melhor é a cara de quem não acredita no que está ouvindo da Ana Hickman...

R. paschoal disse...

Parabéns pela luta! Sempre!

Marcos Freitas disse...

Fui um protesto memorável e só agora percebi que você estava ao meu lado e não fomos apresentados formalmente, que pena.

Klero disse...

Confesso que o assunto está me atormentando - antes de escrever meu post, dei uma lida no seu pelo meu reader e repensei um pouco... conversei com amigos que moram em outros países...

No fundo, continuo vendo um marasmo.

Welton Trindade disse...

Também fui ao protesto. Ele é claramente menos importante que a parada do orgulho LGBT, mas ele compõe nossa luta por cidadania também.