terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mochilando no Rio

O Rio de Janeiro sempre foi o primeiro cartão de visitas do Brasil para o mundo. Essa visibilidade internacional é muito bem-vinda, mas tem um efeito colateral: os preços da hospedagem, feitos para gringos, são salgados para bolsos brasileiros. A impressão que dá é que os hotéis da Zona Sul formaram um cartel para segurar as diárias lá em cima, e qualquer intruso que tente furar o cerco é banido. O grupo francês Accor, dono das competitivas bandeiras Ibis e Formule 1, teve que instalar seus hotéis bem longe dali: perto do Santos Dumont e na Praça Tiradentes, no Centro. Lugares bons para quem vem trabalhar, mas não para passear.

Para quem tem amigos na cidade, muitas vezes um sofá-cama ou colchonete básico pode resolver o problema. Mas ficar na casa dos outros exige tato e sensibilidade. Por um lado, é preciso não ocupar espaço demais e respeitar a liberdade dos donos da casa; por outro, não dá para ser aquele hóspede que fica tão solto e à vontade que mal dá as caras e só aparece para dormir. Além disso, a disponibilidade dos anfitriões pode não coincidir com a data em que você decidiu viajar; dizer/ouvir um 'não' faz parte e não pode ser constrangedor para nenhuma das partes.

A dois dias da minha última escapada carioca (que terminou ontem), a amiga que iria me receber avisou que tinha resolvido viajar, e meus outros amigos já tinham hóspedes. Como eu já tinha comprado as passagens, o jeito era procurar um hotel. Mas quatro fatores tornavam a ideia ainda mais cara. Eu estava indo sozinho; num feriado; reservando em cima da hora; e a lufada de autoestima do Rio 2016 parecia ter gerado uma espécie de ágio pré-olímpico nos preços. Acabei resolvendo ficar num albergue.

Quem anda distraidamente pelo Rio não imagina que a cidade tenha tantos hostels. Só entre Copacabana e Ipanema, são quase quarenta (tem uma ótima lista aqui). A maioria funciona em sobrados adaptados, muitos deles dentro de vilas, o que os torna ainda mais discretos (só na Barão da Torre, por exemplo, uma única vila tem nada menos que seis albergues). Existe também a opção de ficar em outros bairros, como Botafogo e Santa Teresa. Como eu já estava economizando no conforto, investi na localização e escolhi Ipanema. Todos os outros bairros têm seus prós e contras, mas Ipanema ainda é o mais gostoso e conveniente para o turista, que pode fazer praticamente tudo a pé.

A opção mais barata para o viajante é pegar uma cama em um dormitório coletivo. Conforme o lugar, dormem de 4 a 10 pessoas no mesmo quarto. Nesse esquema, gasta-se cerca de R$40 por dia (com café da manhã e roupa de cama incluídos; as toalhas costumam ser cobradas à parte). Para quem viaja acompanhado, compensa pegar um quarto duplo, com diárias entre R$120 e R$150: você tem a privacidade de um hotel, pela metade do preço. O que não impede que você também socialize com os outros hóspedes do albergue (aliás, um dos baratos da experiência é justamente a chance de conhecer gente nova, de vários lugares do mundo e de meios diferentes do seu).

Para escolher entre tantos hostels, o jeito é visitar as páginas na internet e fazer uma peneira. Fiquei no Rio Hostel Ipanema, um sobrado de vila na rua Caning. A casa não é muito grande, mas soube aproveitar o espaço, com soluções criativas. A laje foi transformada num agradável terraço, com redes, almofadas e um lounge praiano improvisado; ali, é servido um honesto café da manhã, com pães e frios (havia uma sanduicheira à disposição), frutas, sucos e bolo. O banho era ótimo (aliás, chuveiro a gás é uma das coisas de que mais gosto no Rio!). Os hóspedes tinham entre 20 e trinta e poucos anos e eram umas graças: simpáticos e falantes, mas ao mesmo tempo sabiam respeitar o sossego alheio.

Minha escolha se revelou ainda mais acertada quando, por curiosidade, fui visitar um outro albergue, o Terrasse Hostel. A localização era privilegiada (Farme com Prudente, em frente ao Devassa e ao lado do Cafeína e Colher de Pau), mas as instalações... quanta diferença! Os aposentos eram escuros e apertados. Um deles tinha cheiro de mofo; outro, todo forrado de madeira, com teto baixo e oito camas, era a perfeita tradução de um navio negreiro; e um terceiro não tinha sequer janelas. A cara dos hóspedes também não apetecia. Enfim, um muquifo.

Moral da história: é preciso ter olho crítico para separar o joio do trigo e fugir das roubadas. Se o site der muito mais destaque para as belezas da cidade do que para o próprio albergue, desconfie: é mau sinal. Com um pouco de paciência, porém, dá para garimpar tesouros como o jeitosinho Bamboo, que fica numa travessa tranqüila da Rua Santa Clara (Copa), ao pé de uma montanha, e o Ipanema Beach House, que tem uma área externa com piscina, algo raro no bairro. Duas alternativas para se hospedar de forma independente sem sucumbir aos preços dos grandes hotéis.

23 comentários:

Anônimo disse...

A pergunta que não quer calar.....
Como estavam as filas no balneário?

Introspective disse...

Anônimo: No Café com Vodka do domingo no 00, quando cheguei havia fila na porta, mas ela andou direitinho. Fiquei uns 10-15 minutos e já entrei! :) Quando fui embora, lá pela meia-noite e tanto, a fila quase saía do planetário. Aí não fiquei pra ver...

Anônimo disse...

....ADORO SEU BLOG E SEU JEITO DE SER...MORO NO LEBLON...TERIA O MAIOR PRAZER EM TE RECEBER...NO MAIOR RESPEITO E AMIZADE...UM QUARTO SO PRA VOCE COM CAFE DA MANHA...
BEMVINDO SEMPRE AO RIO
MARIO

David disse...

Otimas dicas! Valeu! rs bjão

Cassio disse...

melhor frase do post: "Enfim, um muquifo."
sempre tive receio sobre albergues mas depois do seu post acho que vou tentar.recomenda algum bom em florianopolis? obrigado pelas dicas.

Daniel disse...

Bom, a rede Accor tem um hotel da marca Mercure no Arpoador, mas quem se dispõe a ficar num Mercure não está ligando muito para preço, creio eu.

Alexandre Peixoto disse...

Cheguei essa semana de viagem. Fui 6a.f no Lab.oratory. Sem comentários (ou MUITOS comentários).
Aqui na zona sul do Rio não há ESPAÇO FÍSICO para construção de muitos hotéis. Acho que não se trata de cartel. É a lei da oferta e procura. O Accor tem um hotel no Leblon e 2 ou 3 no início de Ipanema. Daí também os preços dos apartamentos serem muito maiores do que em SP. Quando vou a SP fico agora sempre em hotéis. A oferta é enorme e sempre tem promoções no final de semana. Fica bem barato e não incomodo ninguém.

Fiquei também bem impressionado com a falta de posts dos blogs paulistas quanto a realização das Olimpíadas no Rio. Vi muito, mas MUITO mais entusiasmo em Berlin do que dos compatriotas. Mas enfim, né? Já era esperado. Pena...
(Leio vários blogs. Em todos sempre há um jeitinho de dizer que se há algo errado na sua cidade pode comparar com fato semelhante que acontece no Rio. Ai... acho que tá virando doença).

uomini disse...

Post muito bem escrito e com informações preciosas! Também achei o hostel com piscina uma graça. Parabéns, Thi.

beto disse...

concordo com o comentário aí em cima. A zona sul, em especial ipa/leblon são MUITO pequenos, uma nesga de terra entre a Lagoa e o mar. Não tem espaço físico sobrando para nada! Para por algo novo, tem que sair algo já existente.

Não descartaria os hotéis da Accor no Centro, mesmo se for para passeio. Lembre-se que táxi no Rio é mais barato que em SP e as distâncias para onde turistas circulam nem são tão grandes. Sem contar que, para os tribalzeiros, se já estiver no Centro, tá bem perto da TW e do Cais do Porto, onde rolam muitas festas.

Albergue é para um público bem específico: quem não se incomoda em dividir quarto e banheiro com estranhos totais. Depois de uma certa idade, não rola mesmo! E no carnaval de 2009 os albergues viraram alvo de quadrilhas de assaltantes, já que não tem a infra de segurança de hotéis.

semdestino disse...

Thiago,

muito bom o seu post, e obrigado por citar a minha lista de albergues. É bom ler os comentários de quem não é da cidade e se hospedou por aqui... me ajuda na hora de indicar, ou não, algo para os meus leitores.

Aliás, adorei o blog como um todo e, no caso da fila, lembro que em Barcelona fui barrado em diversas boites que adotam aquele velho esquema de te olhar de cima abaixo e decidir se você é `good enough`para entrar.

Acho o nosso esquema aqui no Brasil melhor, pois não depende dos critérios subjetivos de um troglodita de terno... o foda é que todo mundo é VIP (ainda mais aqui no Rio de Janeiro, que é uma vila onde todo mundo se conhece). Minha solução é: se a fila está grande, eu nem tento entrar. Tenho mais o que fazer. Todas as noites em que eu tocava por aqui (00, Dama de Ferro, Fosfobox e tal) os VIPs também entravam na fila, e eu nunca tive que largar os toca-discos para colocar ninguém para dentro. A única diferença para os mortais é que não pagavam entrada. Agora, se você for em noite de playboy (baronetti e afins), aí a viparada reina.

Bom, se deixar escrevo um monte... parabéns pelo blog, muito bom.

Fernando disse...

Oi Thiago,

Hostel com piscina foi um achado, hein? :) A ZS do Rio realmente terá esse problema eterno de espaco - alguém já sacou que na regiao Leblon-Ipanema-Copacabana nao existe mais posto de gasolina? (!)

Com relacao a história da fila, ser barrado, ser VIP e temas relacionados, sinceramente... acho o esquema "olhar de cima a baixo e decidir se voce é good enough para entrar" BEM mais justo: a boate monta a noite que interessa a ela, sem deixar as pessoas mofando na fila, e sem utilizar o critério VIP para facilitar a entrada de "amigos de amigos". Em Estocolmo, além do row selection na entrada ainda rolava uma outra selecao para a area VIP - e isso sim eu acho justo. Mas enfim, complicado, complicado.

Blog ótimo, btw.

Abs,
Fer.

Tony Goes disse...

Ibis e Formule 1 são marcas da Accor voltadas não a turistas, mas a viajantes de negócios dispostos a pagar o mínimo. Por isto, nunca estão em localizações turísticas, mas em regiões de escritórios.

E quem gosta de chuveiro a gás é porque nunca morou numa casa que tem um...

Guy Franco disse...

ah, também acho. chuveiro a gás provoca pânico em algumas partes do meu corpo (não todas). mas o sofá cama que tenho no Rio não tem isso não.

Celso Dossi disse...

Reveillón no Rio é mais caro do que viajar pra longe.
#nuncapensei

Introspective disse...

Nem me fale, Celso! E Carnaval é ainda pior. Sabe quanto está o pacote de 5 diárias no quarto duplo do albergue Rio Hostel, para o Carnaval? Três mil reais! Algo como 1700 dólares, ou 1200 euros!

Gustavo M. disse...

Bom saber destes albergues... estive no Rio em setembro e nesta vez fiquei num flat em ipanema, paguei 230 reais a diária, tive que pedir papel higienico, minha rinite atacou, foi um fds ótimo com praia corrida açai e tdo que o Rio pode oferecer... mas os serviços de hospedagem deixam muito a desejar. Sempre fiquei com amigos e realmente é a melhor opção para o Rio.

Ronaldo disse...

Thiago, obrigado por prestigiar nossa cidade. É uma honra ter um visitante tão simpático, íntegro e inteligente. Que o Rio e os cariocas sempre façam jus ao seu carinho, apesar dos pesares inerentes a qualquer metrópole.

CriCo disse...

Tô indo a Londres em dezembro e tô procurando albergues por lá, pois é super caro e super necessito dar uma economizada na hospedagem para bater perna e me divertir legal por lá. Alguém me indica algum BBB, Bom, Bonito e Barato?

Douglas Mendez- O Homem é um ilha disse...

Bem, vamos por partes (rs): realmente morar no Rio é dizer não pros amigos sem ofender é uma coisa séria, aqui em casa tivemos q criar uma regra bem específica. Eu ainda fico chocado com o valor dos alugueis pra ano novo e carnaval, mas dá pra alugar apto em copacabana, por um preço mais justo, é só juntar um amigos e acampar no apto. Fora dessas datas, concordo q dá pra usar os hoteis do centro numa boa; mas nelas o trânsito fica um caos e os taxistas querem extorquir, então é ipanema ou copa mesmo.
Tem sempre uns duros q alugam quartos em casa nessas datas, se for por indicação pode ser uma boa ( Já ouviu aquela piada: dorme em pé mas mora em Ipanema?). Eu adoro chuveiro a gás.

Isadora disse...

Adorei a dica, Thi! Vou registrar. Ótima a localização. Normalmente, fico na casa de amigos mesmo. Teve uma vez que fiquei num hotel um tanto mequetrefe na Glória, mas funcionou bem. Dividir quarto, não rola, mas gostei da opção para casal. Para dividir, prefiro não viajar, só se realmente precisar e não tiver dinheiro.
Beijo!

Rubem Matias Filho disse...

Eu sempre que preciso e a situação exige viajo de boa pelos albergues da vida e muito sem problema ou constrangimentos como muitos...

Achei super show de bola as dicas Thiago, olha que eu conhecia quase todos, mas esse com piscina eu não conhecia e na minha cidade...falha!

Bom ver que vc sempre está por essas bandas...

Abração.

Marcio Aurelio Lima disse...

caraca q buxixo essa parada da fila..como sou desligado,rsrs...adorei te ver aqui no Rio,bjs

disse...

Adorei as dicas dos albergues, no meio de tanta opção é façinho se perder. Valeu pelo serviço de utilidade publica !! rs ..

By the way, adorei seu blog, parabens !!