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domingo, 10 de abril de 2011

Jeremy e Wellington

"Lembro-me com clareza de azucrinar o garoto. Ele parecia um merdinha inofensivo. Mas nós soltamos um leão reprimido e deixamos que ele viesse com tudo". Com os versos de "Jeremy", o Pearl Jam ocupava o topo das paradas em meados de 1992. A música, terceiro single do clássico álbum Ten, conta a história de um menino solitário que sofria abusos na escola e não contava nem mesmo com o apoio dos pais. O videoclipe, um dos mais executados pela MTV naquele ano, tem seu ápice na cena final, quando Jeremy entra altivo na sala de aula e, após um corte de cena, seus colegas são mostrados petrificados, com os olhos arregalados de terror e as roupas sujas de sangue. Na história real que inspirou a banda, o garoto se suicida diante da classe, mas quem assiste ao clipe sem conhecê-la tem a impressão de que ele atirou nos colegas.

É inevitável o paralelo com o caso de Wellington Menezes de Oliveira, o rapaz que voltou à escola onde estudara, em Realengo (zona norte oeste do Rio), e abriu fogo contra vários alunos antes de se matar com o mesmo tiro na boca do Jeremy real. Como era de se esperar, a história chocou o país, teve ampla repercussão internacional (yes, nós também temos Columbine!) e a cobertura pela imprensa lançou mão dos conhecidos clichês que reforçam a comoção e alavancam a audiência. Até Dilma entrou na dança e deu uma choradinha básica em público. Longe de mim querer minimizar a tragédia, a dor diante de tantas vidas eliminadas precocemente, mas me parece que a questão não está sendo colocada no foco correto.

É muito fácil apontar o dedo para Wellington e chamá-lo de monstro. Mais difícil é ir além do óbvio e do superficial, e tentar entender o que teria havido por trás de sua atitude, quais as motivações que levaram a atos tão extremos, tão bárbaros. A luz que melhor ilumina essa questão veio da reportagem "Assassino não atirou a esmo, dizem ex-colegas", publicada ontem no jornal Folha de S. Paulo. No texto, a repórter Laura Capriglione conversa com algumas pessoas que haviam estudado com Wellington. E as revelações feitas pelos entrevistados são decisivas para o entendimento do que realmente foi esse massacre.

"A gente chorou pensando que Wellington matou as crianças em represália pelo que aconteceu quando estudávamos juntos", lembra Thiago, o porta-voz do grupo. "Estávamos na sétima série, os hormônios a milhão, e uma das meninas mais malvadas, a C., ficava pegando no Wellington, se esfregando nele e dizendo 'vem cá'. Ele ficava em pânico, gritava 'não, não, não', desesperado. Ele empurrava a C. e ela gritava cada vez mais alto que queria ficar com ele. C. sabia que zoar com o Wellington era um jeito de ficar do mesmo lado dos bonitos e dos inteligentes da classe", recorda Thiago, hoje com 23 anos.

Segundo o entrevistado, ninguém gostava de Wellington a não ser Bruno, um menino fanho e de voz fina, que era destroçado pelos demais e chamado de "bicha". Ele e Wellington eram ridicularizados o tempo todo. Quando as imagens da chacina ganharam a mídia, Thiago e seus amigos se espantaram ao perceber que as vítimas tinham semelhanças físicas gritantes com os antigos colegas que molestavam Wellington. "A gente teve certeza de que ele não matou a esmo. Ele procurou em cada vítima uma característica das pessoas com quem ele tinha rixa na escola. A L., que falava direto 'sai daí, seu feio' quando queria sentar em um lugar que ele estivesse ocupando, é idêntica a uma menina que ele matou. Outras meninas têm um olho, uma boca, um jeito que parecia muito com as meninas da nossa classe. Temos certeza de que, quando subia aquelas escadas, ele viajava no tempo, até dez anos atrás, quando estudávamos juntos. Nós é que deveríamos ter morrido, não era para ninguém ter pago por uma coisa que nós fizemos", conclui.

Não estou tentando defender Wellington ou endossar seus atos. Eu também sofri bullying na escola a minha vida toda, e nem por isso voltei ao Colégio Friburgo armado até os dentes, para promover um derramamento geral de sangue. Evidentemente, o rapaz tinha sérios distúrbios psicológicos, que sua carta de despedida só faz reforçar. Ele era, sim, um sujeito desequilibrado. As crianças que perderam suas vidas ou mesmo foram baleadas não tinham absolutamente nada a ver com os traumas passados do assassino. Tampouco suas famílias. Mas a discussão está sendo desvirtuada.

Mostra-se o caso como uma questão de segurança pública, mais um subproduto da criminalidade. Até concordo que a facilidade com que o rapaz teve acesso às armas merece preocupação das autoridades. Mas a violência de que estamos falando aqui é outra: a violência silenciosa, que acontece diariamente dentro das escolas - da qual Wellington foi, antes de tudo, uma vítima. Crianças aprendem muito cedo a ser perversas, e não conhecem limites. Wellington certamente foi humilhado e maltratado por anos, e ninguém saiu em sua defesa ou lhe estendeu a mão. Seu grito de socorro jamais foi ouvido. As escolas, ao lado dos pais, não podem se esquivar de sua responsabilidade em interferir e controlar esse grave problema chamado bullying, que pode provocar feridas permanentes, mesmo que não culminem em um massacre como o de Realengo. Depois que o estrago já foi feito, é tarde demais para que Thiago e seus colegas arrependidos venham derramar suas lágrimas de crocodilo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Colchonete carioca 2.0

O Rio de Janeiro continua lindo - e a hospedagem continua cara. Aliás, cada vez mais cara, depois que sua vitória para receber os Jogos Olímpicos de 2016 reacendeu o hype internacional em torno da cidade. Para quem tem bons amigos por lá, aquele sofá-cama ou colchonete muitas vezes é a melhor solução. Caso contrário, a alternativa para não gastar tanto é ficar num albergue. Já falei sobre algumas opções satisfatórias na Zona Sul, aqui (incluindo um com piscina!). Mas agora temos boas novas no front. A cidade está entrando na era dos design hostels, uma tendência que já rola há alguns anos em capitais como Lisboa e Praga.

São albergues que mantêm a sistemática e os preços em conta, mas ganham um "banho de loja". Decoração moderninha, área comum com cara de lounge, banheiros e roupa de cama de melhor qualidade, wi-fi e até máquina de Nespresso são alguns mimos encontrados nesses lugares, também chamados de "hostels boutique". Até Buenos Aires já entrou na dança, com o Zentrum, em Palermo. Enquanto isso, quem dava o tom por estas bandas eram aquelas típicas espeluncas com cara de navio negreiro, que só serviam para reforçar o preconceito do turista médio.

Eis que o Rio ganhou não um, mas dois albergues-boutique. Eu os descobri meio por acaso e não sei como está sendo a receptividade, mas acredito que eles têm tudo para ser um sucesso. A começar pela localização. Nada de Catete, nada de imediações do aeroporto (que só costuma ser útil para companhia aérea que tem que alojar vítima de overbooking), muito menos aquela zona erma da Praça Tiradentes onde se esconde o Formule 1. Os dois ficam em pleno Leblon. E não é perto da Cruzada São Sebastião, o favelão vertical ao lado do shopping: é no filé mignon mesmo.

Aberto em dezembro, o Z.Bra Hostel tem fachada futurista [acima] e um estilo moderninho-retrô que é tipicamente carioca. Suas camas em formato de cápsula [ao lado] poderiam estar dentro do 00, na Gávea. A localização é um biju: no final da San Martin, pertinho do Mirante do Leblon, dos restaurantes da Dias Ferreira e a apenas uma quadra da praia - justamente no trecho escolhido pelo povo mais cool que debandou do Coqueirão. Para ajudar o povo a se entrosar, eles organizam ali mesmo sessões de cinema, seguidas de festinhas com DJ. Os preços por pessoa são superiores ao dos albergues comuns, mas ainda camaradas: dormitórios coletivos entre R$60 e R$70, quartos sem banheiro entre R$90 e R$120 e suítes entre R$110 e R$135.

Já o Leblon Spot [ao lado], aberto em junho passado, está um pouco mais longe da praia. Mas há uma compensação: por estar na própria Dias Ferreira, na altura da Bartolomeu Mitre, ele tem fácil acesso a todas as comidas que importam no bairro - inclusive a torta alemã do Fellini, que está perigosamente próxima. As fotos do site sugerem que ele não é afetadamente moderninho como o Z.Bra, mas segue uma linha mais low profile, com direito a alguns móveis antigos que foram garimpados no leilão do Hotel Glória. Os preços são compatíveis com os do concorrente: dormitórios entre R$55 e R$75, quarto a R$90 e suítes entre R$100 e R$145.

O negócio é aproveitar logo, que está tudo novinho e cheiroso - e esses segredos ainda não foram descobertos pelo grande público. Se os albergues mais tradicionais da cidade - alguns deles verdadeiros pardieiros - já vivem cheios, não vai demorar para essas duas pérolas terem fila de espera. Farei um update neste texto caso eu venha a experimentar algum deles. Se você já teve a chance de conferi-los, deixe um comentário contando sua experiência para a gente.

[UPDATE: Tive a chance de me hospedar no Z.Bra Hostel na Semana Santa e fiquei encantado. A preocupação que eles tiveram com os detalhes, desde uma linguagem visual supermoderna até um café da manhã caprichado, fez toda a diferença. Os dormitórios coletivos são mais confortáveis do que os de qualquer outro lugar em que me hospedei, com ar condicionado, luz individual em cada 'cápsula' e um armário bem grande. O staff é bem gentil e a área comum, cheia de bossa, fica tão fervida na madrugada que chega a disputar público com os bares do pedaço. O lugar está fazendo o maior sucesso (entre os hóspedes, só tinha gente bacana), e o dono já está procurando ponto para abrir pelo menos mais um Z.Bra na cidade. Vamos esperar!]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Rapidinhas gastronômicas

A COCOTA DO BAIRRO Esqueça o que você já ouviu sobre "restaurantes de bairro". Apesar de estar escondido no Ipiranga, fora dos holofotes da badalação, o Nico Pasta & Basta não faria feio se estivesse em plena rua Amauri. O ambiente projetado por Roberto Migotto é belíssimo, com mesas dispostas em torno de um átrio iluminado por uma espécie de clarabóia. O menu, de sotaque italiano, tem massas artesanais como o pappardelle com ragu de filé mignon (tem massa mais apetitosa do que o pappardelle?), além de risotos, polentas e carnes - o stinco de cordeiro com risoto de ervas é sensacional. Ótima sugestão para dar uma cara diferente ao seu almoço de domingo - depois, é só dar um giro pelo Parque da Independência para fazer a digestão.

ONDE A ONÇA BEBE ÁGUA Não é de hoje que a revalorização do Centro paulistano devolveu ao Edifício Copan o status de "cult". Quem tem ajudado a trazer buxixo ao sinuoso edifício de Oscar Niemeyer é o Bar da Dona Onça, que virou queridinho da crítica especializada e dos modernos ao propor releituras de pratos clássicos brasileiros, em clima de boteco estilizado (vide os motivos felinos na roupa dos garçons e no cardápio). Confesso que esperava muuuuito mais do picadinho, mas fiquei boquiaberto com o stinco de leitoa caipira com feijão tropeiro e couve refogada. Como diria meu finado pai, é "batuta"! Isso sim é comida brasileira contemporânea. De sobremesa, o pudim já entra no ranking dos melhores da cidade. Só não vá esperando fazer economia. Os preços da casa estão à altura do seu hype, com pratos de R$40 ou mais, o que significa uma conta que chega fácil a R$100 por cabeça.

MUITO ALÉM DO MIOJO No meu último post sobre comidinhas cariocas, dei a entender que o Brasil não tinha casas especializadas em macarrão oriental. Tem sim: um bom exemplo é o Lamen Kazu, um autêntico noodle bar que fica no Largo da Pólvora (Liberdade) e está sempre cheio. Uma boa pedida para quem quer ir além do sushi e explorar outros terrenos da cozinha japonesa. Outro lugar de que tenho gostado muito é o Sobaria, na Vila Mariana, uma casa dedicada à cozinha do... Mato Grosso do Sul. Isso mesmo: por conta de uma imigração maciça de japoneses da ilha de Okinawa, o sobá tornou-se a comida mais típica de Campo Grande, onde é consumida nas ruas e em todo lugar, inclusive como prato-de-resistência das bees na saída da boate. Feita de trigo sarraceno, a massa vem num reconfortante caldo de shoyu e gengibre, com cebolinha e tiras de lombo e omelete. Uma delícia - por apenas R$20 no Sobaria.

THE AMERICAN WAY Uma boa surpresa deste ano que está acabando foi o 210 Diner, em Higienópolis. Depois do francês Ici Bistrô e do italiano Tappo Trattoria, o chef Benny Novak resolveu abrir uma terceira casa, desta vez para servir especialidades da cozinha dos Estados Unidos. Não espere o clima adolescente de casas como Friday's e Outback: 0 210 é mais low profile, quase minimalista. O cardápio é variado e tem preços diferenciados (ligeiramente menores) no almoço. Entre os hambúrgueres, recomendo o piggie burger, coberto com uma saborosa costelinha de porco desfiada em molho barbecue. Se quiser algo mais leve, não perca a omelete, que põe a do Ritz no chinelo. Você escolhe os ingredientes - a combinação de cogumelos, queijo de cabra e molho pesto é simplesmente fodástica.

ÁRABE NADA CLICHÊ Até curto comer uma esfiha benfeita de vez em quando, ou mesmo fazer um pratinho saudável de kibe cru com tabule. Mas acho restaurante árabe/sírio/libanês um programa meio boring. Não me anima a ideia de gastar nisso o meu orçamento de "comer fora". No entanto, fui ao Saj e adorei. Talvez porque não se pareça com restaurante árabe. A casa fica na Vila Madalena e tem aquele "jeitão Palermo de ser" do bairro, com mesas dispostas em uma espécie de terraço interno com muita luz natural. Por uma janela, é possível ver o trabalho de preparação do pão sírio - que chega à mesa quentinho e macio e é um dos pontos altos. Já que está num lugar diferente, saia do lugar-comum e peça a fraldinha cozida na coalhada. Os cubos da carne desmancham no garfo [quer tentar fazer em casa? a receita está aqui].

PARA COMER COM AS DUAS MÃOS Na esquina da Melo Alves com Alameda Tietê, o bar Balcão vem animando os papos-cabeça do povo culturette há mais de 15 anos. Mas só recentemente fui descobrir que, no simpático balcão que serpenteia por todo o salão e dá o nome à casa, é possível comer alguns dos melhores sanduíches da cidade, num pão ciabatta macio como há muito tempo eu não via. Gostei especialmente do Vegetariano, com cogumelos frescos, tomates secos pra lá de saborosos, pesto, rúcula e mussarela de búfala (ingrediente que não consta da receita original, mas pode ser incluído). Tão bom que voltei para repetir a dose já no dia seguinte.

BÍBLIA ANUAL A revista Veja já publicou a edição 2010-2011 do seu anuário Comer & Beber, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na semana em que saem, os guias são vendidos junto com a revista Veja. Depois, algumas bancas de jornal continuam oferecendo o volume separado por algum tempo. É uma fonte de consulta obrigatória, seja pelos restaurantes (divididos por especialidades), seja pelos bares (separados por região da cidade), seja pelas comidinhas (com todas as guloseimas de que você precisava e não sabia). Outras capitais como Salvador e Curitiba também devem estar para ganhar suas edições [aliás, se algum leitor caridoso quiser me mandar os guias dessas cidades, ficarei agradecido!]. Em tempo: o Rio está vivendo sua terceira Restaurant Week, até o dia 31/10. Os cardápios, você confere aqui.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Belisquetes (cariocas) do momento

Fico admirado como o Rio de Janeiro - ou melhor, a Zona Sul - está se tornando especialista em inventar modismos gastronômicos. Não falo aqui de restaurantes, mas daqueles lugares pequenos, informais e descolados que se concentram em uma única comidinha e, sabendo vender o peixe, viram mania instantânea. Foi assim com as temakerias (que surgiram em São Paulo, mas viraram pop aqui, com a Koni Store) e com as casas de frozen yogurt (o número de imitações da Yogoberry em Ipanema já está beirando o ridículo), dois formatos que viraram febre Brasil afora. Mas outras ideias interessantes vêm pipocando pelo Leblon, como o bar de tapas Venga! (que eu já resenhei aqui), a kebaberia Yalla! (que não despertou minha curiosidade, mesmo sendo cria do tradicionalíssimo árabe Amir) e a Vezpa, que vende pizzas em pedaços com uma cara ótima, cheirinho de manjericão incluído.

No último feriado, fui para o Rio (pela 61ª vez na vida!) e, como não deu praia, tive que me contentar com as novidades gastronômicas. Primeiro fui ao Soba, que vem a ser um noodle bar, ou seja, uma casa especializada naquele macarrão oriental que serve de base ao Miojo e ao yakissoba. Eu já tinha visto um desses Barcelona (o Udon, fantástico) e torcia para ninguém levar o conceito para o Brasil antes que eu resolvesse abrir meu próprio negócio. Pedi o Osaka, que leva salmão, shiitake, nirá, gengibre e um toque de molho teriaki, e a-do-rei. Não consigo lembrar de outra comidinha de R$18 que seja tão bacana. Ótima pedida para aquele fim de semana em que você não pode gastar muito dinheiro. Além dos noodles, o cardápio tem pratos à base de gohan (aquele arroz japonês meio grudentinho) e umas entradinhas tipo dim sum. Supersimpático.

Minha segunda experiência foi o Go Wok, que se anuncia como "o primeiro restaurante casual thai do Brasil". Na verdade é uma portinha minúscula, espremida entre o Néctar e o Tô Nem Aí, em plena Farme de Amoedo. Funciona assim: você escolhe uma carne (bovina, frango, camarão, lula ou opção veggie), uma base (entre quatro tipos de macarrão e dois de arroz), um molho tailandês (ostras, tamarindo, teriaki, curry com leite de coco, chilli) e três ingredientes (shiitake, ovo, amendoim, etc.). Eles salteiam tudo na wok e te entregam num potinho de plástico com cara de Cup Noodles, pra você comer no exíguo terraço da casa, ou ir andando. É barato, não é rápido (para ser um fast food, a comida demora pra kct) e... bem, não fui muito feliz na minha escolha. O que veio de camarão e shiitake no pote inteiro não era suficiente para duas colheradas, o resto era arroz puro. Talvez se tivesse pedido com frango e uma base de noodles, eu teria pelo menos conseguido chegar ao fim do prato (joguei fora antes da metade).

Agora, gostei mesmo foi da Prima Bruschetteria, que nem é tão nova assim, mas eu não tinha ido conhecer. Outra ideia óbvia que ninguém teve antes: um lugar só de bruschettas (bem, se pão italiano não é a sua praia, tem uns 2 ou 3 risotos também). São vinte e tantas opções, algumas incríveis, como a de camarões, tomate italiano e pesto (perfeita!) e as invenções da semana, escritas numa lousa (comi uma de creme de gorgonzola, maçãs caramelizadas e nozes que era uma cô-de-lô, tomara que entre no meno fixo!). O lugar é uma graça, com pegada de bar e motivos quadriculados nas paredes, nas mesas e nas boinas dos garçons. E o sucesso estrondoso se repete quase todas as noites, quando uma multidão toma conta da calçada e come em pé ali mesmo, tomando uma taça de vinho, sem esquentar a cabeça (viva a informalidade carioca). Mas dá para fugir da muvuca, indo em horários alternativos (eles abrem às 10h, com bruschettas especiais de café-da-manhã) e até pagando menos (há combos promocionais no almoço e no lanche da tarde).

quarta-feira, 9 de junho de 2010

E la nave va...

::: Pois é, a Parada dobrou a esquina e passou (e foi bem melhor do que as edições anteriores), o feriado acabou e a vida segue. Quem passou semanas ou meses criando expectativas e se preparando para a data (como várias pessoas que eu conheço) se vê agora em uma espécie de vácuo: e agora, o que fazer? Parar um pouco de sair e pagar as contas? Pode relaxar a dieta e comer o que quiser? Pode pular a academia por causa do frio? Dar um tempo na galinhagem e arranjar um namorado? Ou já pensar na próxima festa do calendário e continuar se preparando?

::: O assunto da semana é o novo vídeo de Lady Gaga, "Alejandro". Vai ficando cada vez mais difícil para ela causar impacto. O clipe é uma repetição de fórmulas; a música, com alguma reminiscência de Abba, Ace of Base e subprodutos teens do pop europeu, não tem pegada (e vai dar um trabalhão para os DJs remixarem, como observou o Daniel). Agora a cantora quer posar para a Playboy norte-americana: ela vê no ensaio uma "nova forma de expressão" e a possibilidade de "crescer como artista", fazendo algo inédito na história da revista. Se ela é a vanguarda em pessoa ou totalmente overrated, não sei. Mas lembro do recente fiasco que a Playboy daqui amargou quando uma mulher "de atitude" tentou fazer "algo inédito", e pergunto: quem pagaria para ver Lady Gaga nua?

::: E por falar em montação, a geração hipster promete baixar em peso no Lions, na sexta, para a terceira edição da festa carioca Buati (aquela em que tive que pagar R$8 por uma água, e dancei música velha de festinha de prédio). Essa não me pega mais, mas um outro projeto carioca - que ainda não chegou a São Paulo - chamou minha atenção. É a Bootie, uma festa só de mashups (aquelas colagens absurdas feitas com duas músicas nada-a-ver, gerando um resultado surpreendente). A segunda edição rola também na sexta, no simpático Fosfobox (Copa), e traz o DJ Faroff, um craque que cria pérolas como esta. O jornalista Ronald Villardo foi à estreia da festa e escreveu uma resenha ultraempolgada. Ele achou incrível que ali "os pagantes são tratados como VIPs", ou seja, quem paga ingresso entra primeiro. Ué, não deveria ser sempre assim?

::: Assinei a TV a cabo bem depois dos demais mortais, e com isso acabei não criando o hábito de acompanhar os seriados que a maioria dos meus amigos segue, comenta e compra. De todos eles, o que me despertava maior curiosidade é Sex And The City, indicado por 10 entre 10 amigos: "você tem que ver, são quatro mulheres mas é totalmente gay, somos nós retratados ali!". Até decidi não assistir aos filmes antes de conferir a série em DVD. Mas confesso que levei um tremendo banho de água fria quando li este texto, muito bem escrito pelo Diego. Será SATC mais uma referência gay à qual eu serei imune, depois do house tribal?

::: E o frrrrrio que está fazendo em São Paulo parece ter vindo para ficar. No fim de semana, a temperatura promete chegar a trincantes 7ºC. Com um tempo desses, só consigo pensar em programas light: dormir cedo, ver bons filmes (no cinema ou em casa) e, é claro, comer! Será uma boa oportunidade para postar aqui um roteiro com os restaurantes paulistanos que fui conhecer nos últimos meses. Outra ideia em pauta, sugerida por um leitor, é um miniguia só de cafés. Aguardem.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Meu guia gastronômico do Rio 2010 - parte 2

A parte 1, você encontra aqui.

BELISCOS E GULOSEIMAS

O Cafeína (de novo ele!) é uma espécie de coringa: tem cafeteria, salgados, doces, sanduíches e até refeições mais substanciosas. Cada vez mais pop, tornou-se a primeira lembrança de muitos quando bate aquela fome da tarde - afinal, é prático encontrar tudo num lugar só. Mas meus preferidos são outros. Os melhores salgados são os da delicatessen The Bakers, em Copacabana - a quiche Provol'onionz, de queijo provolone com cebola, é um arraso. Para sanduíches, difícil superar o Talho Capixaba, no Leblon: com algum talento, você monta um lanche incrível, escolhendo pães, frios, pastas e outros recheios em uma lista gigantesca de ingredientes. No Centro da cidade, sou louco pelo Ateliê Culinário, anexo ao Cine Odeon, que manda bem tanto nas quiches e salgados como em pratos quentes. E se para você comida é uma preocupação secundária, sente-se em uma das mesas externas da Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana e admire a vista espetacular - é ela que ficará em sua memória, não os quitutes de lá.

Bateu aquela vontade de comer doce? A tentadora mesa do quilo Fellini tem uma torta alemã com calda de chocolate morno que é de comer de joelhos. Para rivalizar com ela, só mesmo a torta maravilha (de morango ou banana) da Torta & Cia., no Humaitá e no Leblon. Os bolos da Doce Delícia também não decepcionam. Em termos de sorvete, o Rio me agrada até mais do que São Paulo. Fãs de sabores cremosos na linha La Basque têm orgasmos na rede Itália - o sorvete de torta alemã é algo! Para paladares mais refinados, a Mil Frutas é um programa imperdível: entre sabores de fruta e cremosos, há mais de 180 opções, e a casa não cansa de surpreender com novidades. É cara como Haagen-Dazs, mas vale cada centavo.

Ipanema lança novos modismos a cada verão, e isso também vale para comidinhas. Primeiro vieram as temakerias; depois, as lojinhas de frozen yogurt; no verão passado, surgiu ali uma estranha mania de comer kebab, o famoso churrasco grego, em versão desestigmatizada. Em todos os casos, uma casa lança a ideia, faz sucesso e, na semana seguinte, dezenas de imitações já se espalharam pelos quarteirões. Melhor ficar com os pioneiros: os temakis da Koni Store e o frozen yogurt da Yogoberry. Confesso que não tenho a menor vontade de provar um kebab carioca: se a ideia é um petisco étnico, me apetecem mais as tapas espanholas do Venga!, ou as bruschettas da Prima Bruschetteria.

JANTAR

Comer fora também é programa de carioca, como não? Com direito às mesmas esperas intermináveis que eles acham ruins quando vêm passear em São Paulo, é bom dizer. Nos restaurantes mais buxixados, como o japonês Sushi Leblon, a distração de quem fica plantado esperando mesa é ver e ser visto (alguém pensou no Spot?) e dar de cara com alguma celebridade. Outros japas de responsa são o Ten Kai, em Ipanema, o Manekineko, para quem curte invencionismos ocidentais, e o Azumi, que é o extremo oposto de todos os anteriores: tradicional, purista e frequentado por "japoneses de verdade". Agora eu quero conhecer o Nao, no Fashion Mall, que serve esqueminhas (menus-degustação) criados por Nao Hara, o sushiman do elogiado Shin Miura.

A cozinha contemporânea tem vários representantes dignos na cidade. Meu favorito é o Zazá Bistrô Tropical, um sobrado colorido, de cardápio bem criativo - o curry de frango e o rosbife de cordeiro são simplesmente matadores. No andar superior, você tira os sapatos e come em mesas baixas, jogado em almofadões, à luz de velas. O Bar d'Hôtel, no primeiro andar do Marina All Suites, serve pratos de inspiração francesa, na linha do nosso Ruella (cuja chef já foi sócia do BDH). No Miam Miam [foto], a proposta é comfort food: receitas caseiras, que tragam conforto e lembranças de infância, relidas de forma moderna. O lugar é charmoso e bem retrô, como uma casa de avó. Vários amigos meus adoram o Zuka, mas o cardápio de lá não me atrai tanto; o Bazzar, por outro lado, tem um menu bem amplo e versátil. Uma dica que muitos me deram e ainda não conferi é o restaurante da Roberta Sudbrack, primeira mulher a comandar a cozinha no Palácio do Planalto. Não há cardápio: você embarca numa viagem de vários pratos servidos em esquema degustação pela chef.

Para um jantarzinho a dois, algumas sugestões são o Copa Café, super intimista, que prepara hambúrgueres sofisticados no prato (criados pelo chef do nosso B&B Burger Bistrot), o Juice & Co., que faz a linha saudável, com receitas mais leves e uma carta de 60 sucos, e o Nam Thai, um tailandês fantástico - melhor até que o Sawasdee, o thai da moda. Os paulistanos Carlota e Le Vin também têm filiais no Rio. Se, por outro lado, a ideia é badalar, boas pedidas são os já citados Sushi Leblon e Bar d'Hôtel, além do despretensioso Via Sete e do Felice, unanimidade absoluta entre o público gay.

E, para desfazer certos mitos, vale avisar que no Rio também se comem ótimas pizzas. É verdade que a pizzaria da moda é a paulistaníssima Bráz, que já tem duas filiais cariocas. Mas há outras boas opções, como a Stravaganze, de ambiente moderno, a Capricciosa, pizzaria de grife, considerada por muitos como a melhor da cidade, e, numa linha mais informal, os discos fininhos e crocantes da Pizza Park (Cobal do Humaitá e Cobal do Leblon) e da pizzaria do supermercado Zona Sul. Carioca colocando catchup na pizza, eu só vi mesmo no Pizza Park, que tem cara de bar...

FOME DA MADRUGADA

Até aqui eu vinha dizendo que o Rio não ficava devendo a SP em nenhum aspecto. Pensando melhor, fica sim: a oferta de comida na madrugada é bastante inferior. Mesmo sem bons restaurantes ou padarias 24 horas, porém, há vários lugares que podem quebrar o galho. Dá para tomar um bom lanche em lojas de suco como Kicê (até 2h; até 3h no fds), Bibi (até 2h; até 3h no fds) e BB Lanches (até 3h; 5h no fds), ou comer um temaki na Koni Store da Farme (até 3h; qui./sáb., até 6h). Se um salgado for suficiente, a Fornalha tem três lojas que funcionam 24h.

No clássico Cervantes (até 4h; até 6h no fds), os sanduíches de pernil ou filé com abacaxi (equivalentes em fama ao nosso sanduíche de pernil do Estadão) abastecem a eclética fauna noturna de Copacabana há 55 anos. No Jobi, um dos mais importantes botequins do Rio, a saideira vai até 4h (5h no finde) e pode incluir pratos quentes. Se estiver pela Lapa, o também tradicional restaurante Nova Capela fecha às 5h todos os dias - mas não é qualquer um que consegue traçar um cabrito com arroz de brócolis de madrugada. Só não me peça para recomendar a Pizzaria Guanabara (até 7h): o lugar pode ser fervido e cheio de histórias (Cazuza e seus amigos sempre terminavam a noite ali), mas a pizza é intragável.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Meu guia gastronômico do Rio - parte 1

Por incrível que pareça, ainda há gente desinformada que imagina que no Rio de Janeiro se come mal, pode? Os cariocas podem até não ter a mesma devoção pela boa mesa dos paulistanos (até porque ali a devoção pelo corpo fala mais alto), mas seu circuito gastronômico é riquíssimo e capaz de satisfazer qualquer tipo de paladar - e surpreender. Sempre chego ao Rio com uma lista de lugares para conhecer, e volto para casa sem ter conseguido conferir nem metade.

Numa cultura que preza a informalidade, quem dá o colorido local são os célebres botequins, imitados Brasil afora, e as casas de suco, que não existem em nenhum outro lugar. Mas nem só de baixa gastronomia vive o Rio: há excelentes restaurantes por lá. Em comparação com São Paulo, há bem menos franceses e italianos; por outro lado, há mais casas de frutos do mar, portugueses e, se bobear, até japoneses (a disputa é dura). Às vezes, tenho também a impressão de que há mais cafés por lá (ainda que isso combine mais com o nosso clima que com o deles).

Já fazia tempo que eu estava devendo uma re-edição do meu roteiro carioca: vira e mexe dou alguma dica solta em Rapidinhas, mas um miniguia de verdade eu só postei em 2006. O gancho que me levou a atualizá-lo agora é a segunda edição da Rio Restaurant Week, que está acontecendo por lá até o dia 23/5 (mas a seleção deste guia não necessariamente coincide com as casas participantes). Desta vez, optei por indicar mais lugares e fazer descrições menos detalhadas. Os endereços, vocês conferem nos links.

CAFÉ DA MANHÃ

Para ver e ser visto já no começo do dia, não há lugar melhor que o Cafeína da Rua Farme de Amoedo, em Ipanema. Sentado em uma das disputadas mesas externas, você poderá assistir de camarote ao vaivém de cariocas e turistas indo e vindo da praia. Como os preços não são lá muito camaradas, há quem consiga fazer um simples espresso render por horas... Se a varanda estiver lotada, o vizinho Colher de Pau é uma alternativa. O cardápio não faz feio, e os valores são mais justos: dá para tomar um café da manhã digníssimo, com bebida quente, suco de laranja, cestinha de pães, manteiga ou requeijão, peito de peru e um delicioso queijo fresco caseiro, por apenas R$12.

Se quiser tirar onda de carioca da gema, vá fazer seu desjejum no supermercado Zona Sul. O café da manhã é servido até as 11h em um bufê por peso, com grande variedade de pães, frios, bolos, geléias e uma ótima relação custo-benefício. Atente que nem todos os endereços da rede servem café: nos arredores do fervo de Ipanema, as filiais mais próximas são a da Praça General Osório e a da Rua Francisco Sá (já em Copacabana, no Posto 6).

Se o dia nublou ou sua fissura de praia passou, dirija-se ao Parque Lage, nas imediações do Jardim Botânico, e renda-se ao charme do Café du Lage. O café é servido no pátio interno da casa que abriga a Escola de Artes Visuais do parque, à beira da piscina e aos pés do Cristo Redentor, num cenário encantador. Não muito longe dali, a Escola do Pão pilota, aos sábados e domingos, uma verdadeira orgia alimentar, daquelas que inviabilizam não só o almoço como a praia do dia.

ALMOÇO

A praia deixou você faminto? A Zona Sul tem ótimos restaurantes por quilo (no Rio se diz "a" quilo), alguns deles com receitas elaboradas, dignas dos melhores cardápios. É o caso do disputado Couve-Flor, no Jardim Botânico, do Fellini (meu predileto, no Leblon; o que é aquela torta alemã com calda?) e do Da Silva, dentro do Rio Design - esse é a versão quilo do estrelado português Antiquarius, ou seja, vá preparado para comer bacalhau da silva, arroz de pato e siricaia de sobremesa (hummm!). Se não quiser sair de Ipanema, nem andar muito, tente o Fazendola (os pratos quentes decaíram muito, mas os sushis continuam bem corretos), o Frontera (para encontrar o viadeiro em peso e se esbaldar no brigadeirão) ou o Papa Fina, mais low profile, na Vinícius. Ou se jogue no rodízio japonês do Nik Sushi, um dos melhores da cidade.

Para quem prefere almoço à la carte, há restaurantes agradáveis e bem versáteis. O Gula Gula é um clássico carioca - as saladas estilo salpicão e os picadinhos do dia são marca registrada da casa - mas a espera por uma mesa pode ser cruel. O Doce Delícia tem saladas, tortas doces e pratos quentes excelentes (indico o Frango Delícia e o Filé Normandie) e foi inteiro repaginado, ficou uma graça. No Alessandro & Frederico, todo mundo quer sentar na varanda e acompanhar o movimento da Rua Garcia D'Ávila. Dentro da übercool Livraria da Travessa de Ipanema, o Bazzar Café é o restaurante onde Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda almoçariam se o seriado Sex & The City se passasse no Rio.

Numa linha mais saudável, casas de suco como Bibi, BB Lanches e Polis Sucos preparam boas vitaminas e sanduíches (por que não existe um lugar em SP que faça uma pasta de ricota decente, meu Deus?); o Bibi ainda serve crepes substanciais e um ótimo strogonoff. Marombeiros radicais não arredam pé do New Natural, um quilo excessivamente natureba, que era unanimidade entre as barbies até que o Frontera abocanhasse parte desse público. Os moderninhos adoram o Market [eu escrevi recentemente sobre ele, aqui] e o Líquido, na Praça N. Sra. da Paz. Nesse último, os carros-chefe são as dosas, levíssimas crepes de massa de farinhas de arroz e lentilha, com recheios e chutneys a combinar, mas ali eu prefiro pedir o Sesame Líquido (atum semicru com molho teriaki, risoto de parmesão e macadâmia, tomate confit e azeite trufado).

Mas o Rio não é só a Zona Sul. O bairro "alternativo" de Santa Teresa tem um charme pitoresco e bons restaurantes, como o Aprazível, que serve comida brasileira atualizada em gostosas mesas ao ar livre, algumas com direito a uma vista fantástica da cidade. No Centro, minha dica é o Cais do Oriente, casarão histórico escondido numa ruela atrás do Centro Cultural Banco do Brasil, com menu que mescla ocidente e oriente. E para quem está pelos lados da Zona Oeste, a região de Guaratiba, bem depois da Barra e Recreio, tem alguns dos melhores restaurantes de frutos do mar da cidade, como o Tia Palmira (o pioneiro), o Bira (do filho dela) e o 476. Mas não posso recomendá-los, porque nunca me atrevi a ir tão longe...


[Foto: Confeitaria Colombo @ Forte de Copacabana]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Rapidinhas cariocas

ÓPIO DO POVO Tirei o fim de semana para mais um giro pelo Rio de Janeiro, e aproveitei para conferir alguns lugares que estavam na minha lista. Um deles era o Opium, restaurante asiático no térreo do hotel Ipanema Plaza, com uma gostosa varanda aberta para a rua. O cardápio tem umas vinte páginas, com uma parte de sushi e outra de pratos que citam Tailândia, China e Vietnã. Eu e meus amigos começamos com um mix de 10 pares de dim sum; depois, pedimos dois peixes em estilo thai, com curry e leite de coco, e um pato cantonês, com molho agridoce. Os pratos não desapontaram, mas também não chegaram a impressionar. Até porque a concorrência é forte: a comida do Nam Thai é muito superior e, mesmo se a ideia é apenas badalar, o Sawasdee é bem mais fervido.

PASSAGEM SECRETA Gostei mesmo foi do Market, o destaque gastronômico dessa visita. Um corredorzinho escondido na Visconde de Pirajá conduz a um pátio aberto, com plantas, mesas e cadeiras coloridas, que casam bem com a culinária leve e saudável proposta pelo lugar. Se o menu segue a mesma lógica grelhado+acompanhamento de que tantas casas cariocas são reféns, pelo menos aqui o trivial ganha uma pitada de bossa. Uma prosaica carne assada sai do lugar-comum na companhia de um surpreendente purê de grão-de-bico e manjericão, enquanto o creme de milho que acompanha o frango leva um toque de erva doce. Além dos pratos, há sanduíches, saladas e, para beber, sucos, smoothies e uma extensa seleção de chás verdes e pretos, servidos quentes ou gelados. Ótima pedida para o pós-praia, sem a lotação do Delírio, nem o carão sem cabimento dos garçons do Líquido.

SUCOLÉ, SACUALÉ? Fui educado desde cedo para passar bem longe de alimentos vendidos por ambulantes ou em carrinhos de rua, como os clássicos hot dogs (com salsicha recheada de jornal velho, diziam as mães nos anos 80), os camarões fritos de praia (condenados por 10 entre 10 nutricionistas) ou os recentes yakissobas da Paulista. Por isso, nesses dez anos de idas ao Rio (59 ao todo), sempre relutei em comer qualquer coisa oferecida nas areias de Ipanema. Mas meus amigos locais recomendaram o Sucolé do Claudinho com tanta ênfase que decidi fazer o sinal da cruz e me jogar. Para os não-iniciados, trata-se de uma espécie de picolé feito e congelado dentro de um saquinho plástico (em alguns estados, o nome é "chup-chup"). Tenho que admitir: o de mousse de maracujá é simplesmente in-crí-vel. Depois fiquei sabendo que o tal Claudinho comanda um exército de vendedores, gerou várias imitações e foi parar no programa do Jô Soares, onde chorou em rede nacional contando sua história de vida.

QUITUTES UNGIDOS Outra velha dívida do meu roteiro pessoal que saldei foi o bar Chico & Alaíde, aberto por um barman e uma cozinheira que ajudaram a dar fama ao lendário boteco Bracarense. O chamariz da casa são os célebres quitutes de Alaíde, como o famoso bolinho de mandioca, ops, aipim com camarão e catupiry. O "totivendo", uma espécie de escondidinho turbinado de camarão, é de comer de joelhos. Desta vez, porém, não vou exagerar nos elogios: consta que Chico dirigiu-se a um casal gay que havia trocado um beijo dentro do bar, pediu que os moços parassem ou se retirassem, e depois ainda explicou ao jornal O Globo que "este é um bar de família" (oi?). Agora que já matei minha curiosidade, talvez seja o caso de passar a prestigiar os salgadinhos do Bracarense original.

SESSÃO DA TARDE Veterano na noite gay carioca, o Galeria Café sempre foi o destino certo dos rapazes mais comportados, alheios a modismos, que destoam do binômio "ditadura do corpo + drogas sintéticas" que dominou as festas e clubes maiores. É um lugar querido por muitos: além de tolerante à diversidade de estilos e faixas etárias, tem fama de ser bom para arranjar namorado. Eis que um novo bar-com-pistinha abriu para atender esse mesmo nicho de público: o TV Bar, no Cassino Atlântico, em Copa. Instalado onde um dia funcionou a sede da extinta TV Rio, o lugar tem decoração colorida, inspirada na história da televisão. Na pista, o VJ Greg (que cuidava do som do antigo The Copa) exibe DVDs com hinos pop, enquanto o povo dança, canta (horrores!) e assiste às imagens no telão. Uma opção divertida para quem cansou das caras e bocas do circuitão, ou se sente velho demais para ele.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

No próximo bloco...

O Carnaval já está batendo à porta e, como de costume, vou deixar algumas dicas para os leitores que vão se jogar nos principais destinos gays, Rio de Janeiro e Florianópolis (quem sabe num futuro próximo eu não possa dar dicas para o Carnaval de Salvador também?).

A essa altura do campeonato, todo mundo está com transporte e acomodação reservados e já conferiu o calendário das festas (eu postei a programação de Santa Catarina aqui; a agenda carioca, vocês conferem aqui). Em relação a Floripa, eu já postei algumas dicas mais gerais aqui e aqui; quem está indo pela primeira vez pode ler meu balanço do Carnaval 2008, ter uma ideia de como a coisa rola por lá - e depois comparar o texto com 2010, para ver se todo ano é sempre igual. O Rio de Janeiro dispensa maiores apresentações, né? Em todo caso, aqui vão algumas dicas que escrevi para o Carnaval de 2007, quando este blog era bem menos conhecido.

Do que falta falar então? De comida, ora - um assunto importante, mas que muitas vezes acaba negligenciado nessas viagens, por falta de informação e preguiça de correr atrás. Vou montar roteiros de boas comidinhas no Rio e em Floripa. Já indiquei os meus restaurantes prediletos do Rio, mas o texto, de 2006, merece uma boa atualizada. Para as dicas de Floripa, como tenho muito menos vivência ali, pedi uma ajudinha para os guris do Destemperados, um blog gaúcho fofíssimo que disseca as melhores mesas de todo o Sul. Aguardem os próximos posts.

[UPDATE 7/2/10: Hoje, meu avô faleceu, depois de oito meses de muito sofrimento no hospital. Sei que ele está melhor agora e a morte não deixa de ser um alívio e uma libertação, mas não sei se terei cabeça para cumprir a promessa deste post e montar os roteiros gastronômicos a tempo. Conto com a compreensão de todos.]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Restaurant Week terá 12 edições em 2010

O festival gastronômico Restaurant Week já divulgou sua agenda para 2010. Assim como nos anos anteriores, os restaurantes participantes oferecerão menus completos, com entrada, prato e sobremesa, por R$27,50 no almoço e R$39 no jantar. Couvert e bebidas são cobrados à parte, assim como a doação (opcional) de R$1 por pessoa, repassada a entidades beneficentes.

O festival, que reproduz um formato criado em Nova York, terá doze edições brasileiras neste ano, e fará sua estreia em lugares como Vitória e Fernando de Noronha. As datas são as seguintes:
25/1 a 7/2 - Brasília
1/3 a 14/3 - São Paulo; Vitória; Olinda, Fernando de Noronha, Porto de Galinhas, Jaboatão dos Guararapes e Gravatá (PE)
10/5 a 23/5 - Rio de Janeiro
31/5 a 13/6 - Curitiba
19/7 a 1/8 - Brasília
9/8 a 22/8 - Recife
30/8 a 12/9 - São Paulo
18/10 a 31/10 - Rio de Janeiro
Datas a definir - Porto Alegre e Belo Horizonte [atualizarei o post quando forem divulgadas]

Quando os restaurantes de São Paulo publicarem os menus no site do festival (que ainda não foi atualizado), farei um post selecionando algumas sugestões.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Rapidinhas cariocas

Como fiquei no Rio de 26 a 30 de dezembro, peguei dias de muito sol e um praião fantástico, e consegui dar um "up" no meu tom dourado alagoano. Aliás, eu nunca consegui entender: por que o Rio de Janeiro é sempre muito mais quente do que o Nordeste, se está mais longe da linha do Equador? Em época de balanços e melhores-do-ano, concluo que a música que deu a cara do Rio em 2009 (pelo menos pra mim) foi "Hush Hush", das Pussycat Dolls. O metrô da cidade está um desastre! A nova estação General Osório (prometida há 11 anos) ficou bonita, mas o trem chega a demorar quinze minutos para passar, e não há um único banco na plataforma inteira para os usuários sentarem e esperarem! A muvuca logo se acumula e as composições partem abarrotadas. Se em verões anteriores o balneário parecia ter virado destino dos gringos mais bagaceiros, de 2008 pra cá um público bem bacana tem flanado pela Zona Sul. Dos hotéis trendy aos albergues-carandiru, muita gente linda na pista pra negócio. Bem bacana a nova edição limitada das Havaianas - branca, com estampa de várias fitinhas coloridas à la Bonfim, representando os desejos de ano novo - à venda por R$32 na loja própria da marca na Farme, quase em frente ao Bofetada. O tal "choque de ordem" imposto pelo prefeito Eduardo Paes para disciplinar a vida na praia desagradou muita gente. Cada barraca agora só pode oferecer 80 cadeiras - ou seja, chegue muito cedo, ou passe nas Lojas Americanas e compre a sua. O comércio ambulante foi drasticamente reduzido, e proibiram aqueles latões de mate que eram verdadeiros ícones da praia carioca. O lado bom: os folgados que distribuíam boladas nos banhistas agora só podem mais jogar frescobol e "altinho" na beira da água após as 17h. Depois de uma era em que o must era ser o mais bombado possível, a palavra de ordem deixa de ser volume e passa a ser definição. O músculo ainda impera, mas corpo inchado virou cafona: quanto mais seco e rasgado, melhor. A minha descoberta nessa viagem foi o Meza Bar, na Capitão Salomão com a Visconde Silva (ali onde era o Madame Vidal, no Humaitá). Delícia de lugar pra ir com os amigos: aconchegante e escurinho na medida, música perfeita, público bacanudo e sem afetações, comidas sofisticadas e criativas, que chegam à mesa em potinhos. Tudo de bom! Outra delícia, essa já tradicional, é assistir ao vaivém de Ipanema tomando um sorvetinho mara sentado no pequeno deck da Mil Frutas. Para quem gosta de sabores cremosos e doces, uma trinca matadora: o novo beijinho e os clássicos chocolate branco com maracujá e queijo com doce de leite. Hummm! Mais dicas de comidinhas cariocas em breve: vou postar uma versão revista e atualizada do meu roteiro gastronômico do Rio, que publiquei aqui em 2006. Sobre as festas: como voltei pra SP no dia 30, não peguei as festonas da cena barbie (eu soube que a Maxima e a R.Evolution agradaram). Mas fui conferir a edição de 5 anos da Moo, na varanda do Museu de Arte Moderna. Locação desbundante, público desencanado e bonito e música entre electro e disco house, criando um clima superfofinho. Tive minha última dose de cafuçus do ano, no quartel-general-nagô do Rio de Janeiro, o Buraco da Lacraia, que nunca decepciona e estava simplesmente bafônico. E por falar em cafuçus, já começou a votação para o Mulato do Góis 2010, concurso do jornal O Globo que elege o mais bonito entre um dream team de sambistas das escolas do Grupo Especial. Escolha o seu favorito aqui. Não tem jeito: entra ano e sai ano, com sol ou com chuva, com todas as virtudes e defeitos, a Cidade Maravilhosa continua me deixando amarradão! Se meu amor é por São Paulo, minha paixão é pelo Rio! Um beijo e feliz 2010 para os meus amigos e leitores cariocas! [Foto: Eugene Zhukovsky]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Entre tapas e beliscos

Quando fui conhecer o Venga!, primeiro bar de tapas do Rio de Janeiro, aberto recentemente, a pergunta que fiz foi: "Como é que ninguém aqui pensou nisso antes?" Afinal, esse delicioso hábito espanhol - encher uma mesa com pequenas porções de petiscos variados, e passar uma tarde preguiçosa de verão beliscando e jogando conversa fora - tem tudo a ver com a terra dos Jobis e Bracarenses, que traz a cultura de botequim em seu DNA.

Mas estamos na Dias Ferreira, corredor gastronômico do Leblon onde paparazzi se engalfinham para fotografar celebridades globais, e um prato de salada chega a custar o equivalente a US$45 por quilo (no Celeiro, provavelmente o quilo mais caro do país). Assim, não bastaria que o Venga! fosse mais um pé-sujo despojado e com bons acepipes, como tantos outros da cidade. A casa soube criar um ambiente vistoso e aconchegante (apesar de apertado, algo inevitável numa região onde o espaço é tão caro), com umas poucas mesas altas na parte da frente e mais algumas cadeiras ao longo de um balcão.

Vamos às tapas, então. As porções são pequenas, justamente para que se possam provar vários tipos de iguaria. As croquetas são vendidas por unidade - a camarão é boa, mas é a de jamón serrano e queijo emmenthal que rouba a cena. Aliás, para quem é adorador dos presuntos espanhóis, o menu inclui o célebre Pata Negra, tido como o melhor do mundo (a um preço correspondente). Eu e meu amigo pedimos também uma porção de calamari (finos aros de lula empanados), um par de bombas (bolinhos de batata recheados de filé picante), uma porção de patatas bravas (levemente condimentadas, com um dip de maionese) e um par de pintxos (primos espanhóis das bruschettas) de presunto cru com queijo manchego (de leite de ovelha).

O que gostamos de verdade foi dos pintxos e das croquetas de jamón. Achamos as patatas bravas meio sem graça, e as tais bombas dá para encontrar em qualquer padaria que tenha uma boa estufa de salgadinhos. Mas vimos outras tapas que pareciam interessantes, como pintxos de tartar de salmão e uma porção de pulpos (pedacinhos de polvo temperados) que a mesa ao lado comia com gosto. Só não provamos porque a conta já estava ficando salgada.

Aliás, o lado inconveniente da história está justamente na dinâmica das pequenas quantidades. Como os preços individuais não chegam a assustar, uma porção puxa a outra, e perde-se facilmente a noção da conta. Nossa brincadeira espanhola acabou saindo por uns R$90, sem bebidas alcóolicas - e ficou uma certa sensação de que gastamos o dinheiro de um jantar apenas para comer um punhado de salgadinhos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mochilando no Rio

O Rio de Janeiro sempre foi o primeiro cartão de visitas do Brasil para o mundo. Essa visibilidade internacional é muito bem-vinda, mas tem um efeito colateral: os preços da hospedagem, feitos para gringos, são salgados para bolsos brasileiros. A impressão que dá é que os hotéis da Zona Sul formaram um cartel para segurar as diárias lá em cima, e qualquer intruso que tente furar o cerco é banido. O grupo francês Accor, dono das competitivas bandeiras Ibis e Formule 1, teve que instalar seus hotéis bem longe dali: perto do Santos Dumont e na Praça Tiradentes, no Centro. Lugares bons para quem vem trabalhar, mas não para passear.

Para quem tem amigos na cidade, muitas vezes um sofá-cama ou colchonete básico pode resolver o problema. Mas ficar na casa dos outros exige tato e sensibilidade. Por um lado, é preciso não ocupar espaço demais e respeitar a liberdade dos donos da casa; por outro, não dá para ser aquele hóspede que fica tão solto e à vontade que mal dá as caras e só aparece para dormir. Além disso, a disponibilidade dos anfitriões pode não coincidir com a data em que você decidiu viajar; dizer/ouvir um 'não' faz parte e não pode ser constrangedor para nenhuma das partes.

A dois dias da minha última escapada carioca (que terminou ontem), a amiga que iria me receber avisou que tinha resolvido viajar, e meus outros amigos já tinham hóspedes. Como eu já tinha comprado as passagens, o jeito era procurar um hotel. Mas quatro fatores tornavam a ideia ainda mais cara. Eu estava indo sozinho; num feriado; reservando em cima da hora; e a lufada de autoestima do Rio 2016 parecia ter gerado uma espécie de ágio pré-olímpico nos preços. Acabei resolvendo ficar num albergue.

Quem anda distraidamente pelo Rio não imagina que a cidade tenha tantos hostels. Só entre Copacabana e Ipanema, são quase quarenta (tem uma ótima lista aqui). A maioria funciona em sobrados adaptados, muitos deles dentro de vilas, o que os torna ainda mais discretos (só na Barão da Torre, por exemplo, uma única vila tem nada menos que seis albergues). Existe também a opção de ficar em outros bairros, como Botafogo e Santa Teresa. Como eu já estava economizando no conforto, investi na localização e escolhi Ipanema. Todos os outros bairros têm seus prós e contras, mas Ipanema ainda é o mais gostoso e conveniente para o turista, que pode fazer praticamente tudo a pé.

A opção mais barata para o viajante é pegar uma cama em um dormitório coletivo. Conforme o lugar, dormem de 4 a 10 pessoas no mesmo quarto. Nesse esquema, gasta-se cerca de R$40 por dia (com café da manhã e roupa de cama incluídos; as toalhas costumam ser cobradas à parte). Para quem viaja acompanhado, compensa pegar um quarto duplo, com diárias entre R$120 e R$150: você tem a privacidade de um hotel, pela metade do preço. O que não impede que você também socialize com os outros hóspedes do albergue (aliás, um dos baratos da experiência é justamente a chance de conhecer gente nova, de vários lugares do mundo e de meios diferentes do seu).

Para escolher entre tantos hostels, o jeito é visitar as páginas na internet e fazer uma peneira. Fiquei no Rio Hostel Ipanema, um sobrado de vila na rua Caning. A casa não é muito grande, mas soube aproveitar o espaço, com soluções criativas. A laje foi transformada num agradável terraço, com redes, almofadas e um lounge praiano improvisado; ali, é servido um honesto café da manhã, com pães e frios (havia uma sanduicheira à disposição), frutas, sucos e bolo. O banho era ótimo (aliás, chuveiro a gás é uma das coisas de que mais gosto no Rio!). Os hóspedes tinham entre 20 e trinta e poucos anos e eram umas graças: simpáticos e falantes, mas ao mesmo tempo sabiam respeitar o sossego alheio.

Minha escolha se revelou ainda mais acertada quando, por curiosidade, fui visitar um outro albergue, o Terrasse Hostel. A localização era privilegiada (Farme com Prudente, em frente ao Devassa e ao lado do Cafeína e Colher de Pau), mas as instalações... quanta diferença! Os aposentos eram escuros e apertados. Um deles tinha cheiro de mofo; outro, todo forrado de madeira, com teto baixo e oito camas, era a perfeita tradução de um navio negreiro; e um terceiro não tinha sequer janelas. A cara dos hóspedes também não apetecia. Enfim, um muquifo.

Moral da história: é preciso ter olho crítico para separar o joio do trigo e fugir das roubadas. Se o site der muito mais destaque para as belezas da cidade do que para o próprio albergue, desconfie: é mau sinal. Com um pouco de paciência, porém, dá para garimpar tesouros como o jeitosinho Bamboo, que fica numa travessa tranqüila da Rua Santa Clara (Copa), ao pé de uma montanha, e o Ipanema Beach House, que tem uma área externa com piscina, algo raro no bairro. Duas alternativas para se hospedar de forma independente sem sucumbir aos preços dos grandes hotéis.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A redenção da Koni Store

As temakerias chegaram a São Paulo em 2004, três anos antes de virarem febre Brasil afora. A primeira grande rede, Temaki Express, conquistou os baladeiros como uma opção leve, rápida e barata de lanche na madrugada - mas o arroz era ruim, o peixe tinha gosto de congelado e o salmon skin estava mais para "assolan skin", pois parecia uma palha de aço. Dois anos depois, surgiu no Itaim uma temakeria chamada Ícone, e nela finalmente me encontrei, elegendo o temaki do chef (salmão, shimeji e cream cheese) como meu preferido.

No verão 2007/2008, a mania dos cones chegou ao Rio de Janeiro. A rede Koni Store começou a espalhar suas lojinhas laranjas pela Zona Sul e fui conferir. Achei a qualidade da comida bastante irregular e acabei preferindo os temakis da Yiá!, que disputava o público da Farme. Mas o céu acabou caindo sobre a cabeça deles: a fachada da lanchonete vizinha desabou, colocando um fim precoce à simpática lojinha, que era toda decorada com mangás.

Como eu tinha ficado com um certo bode da Koni Store, mantive-a na geladeira por um bom tempo. No domingo passado, decidi dar uma segunda chance a ela. Saí da praia apressado para o aeroporto e entrei na loja da Farme para pedir dois temakis de salmão com shiitake para viagem. Tive uma impressão bem melhor: os cones eram caprichados, com o peixe fresquinho e as lascas do cogumelo bem macias, e vieram recheados até a base. Gostei tanto que ontem, depois da aula, resolvi ir conhecer a bonita filial que a rede abriu na Joaquim Floriano. Dessa vez, provei uns temakis meio diferentões. E não me arrependi.

Primeiro chamei um Roast Tuna, com rosbife de atum crocante ao shoyu e mel. Novamente muito bem recheado, com o toque suave do mel nos muitos cubos do peixe. Depois, seguindo a dica da simpática Keila, escolhi o Hot Steel, temaki mais pedido do cardápio. No recheio, cubos de truta-da-patagônia envoltos numa finíssima e crocante massinha de harumaki e, para dar o arremate, cream cheese e uma inusitada palha de alho-poró. Gamei: a combinação é mesmo muito boa, e o resultado fica ainda melhor com um reforcinho extra de cream cheese (politicamente incorreto, eu sei!) e da tal palha de alho-poró. Bye bye, Ícone: agora já tenho meu novo temaki favorito.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

All you can eat

"Que bom que você me procurou", disse-me o rapaz do Flamengo, cujo perfil eu havia visto em um desses sites de encontros, tipo Disponível. "Confesso que pensei que você não fosse ligar quando estivesse aqui no Rio". Estranhei: eu não tinha dado nenhum sinal de que fosse um daqueles enroladores que não ousam sair do virtual. E ele não era o tipo de cara que alguém em sã consciência colocaria na geladeira - gostoso, másculo, não havia mentido em nada no perfil e parecia ainda mais atraente ao vivo. Por que eu não ligaria, então?

"É que os caras de fora em geral nunca ligam. Quando combinam a coisa virtualmente, eles até acham que vão te ligar. Mas aí eles chegam aqui no Rio e ficam loucos com tanta oferta, e então simplesmente colocam você de lado, esquecem mesmo". Ele explicou que já estava acostumado com isso, mesmo quando o papo virtual era promissor e sugeria afinidades dentro e fora da cama. Apesar dos freqüentes desencontros, insistia na internet. Estava cansado desse jogo de consumo imediato do qual ele mesmo já participara tanto, e tinha a esperança de que ali pudesse encontrar pessoas que não o descartassem tão rápido.

Botar as asas para fora e tirar uma casquinha dos sabores locais é um prazer que faz parte da aventura de sair de casa e visitar um lugar novo - negar esse desejo é pura hipocrisia. No Rio de Janeiro, a cidade mais sacana do mundo, onde a carne é de primeira e o radar sexual das pessoas funciona 24 horas por dia, esse comportamento parece ainda mais justificável. Não estou aqui para ditar o "certo" ou condenar o "errado", em tom moralizador, mas parei e pensei nas pessoas que devoram todos os homens que aparecem pelo caminho, tudo ao mesmo tempo agora, mesmo quando não estão na pele do turista.

De fato, muitos encontram nesse tipo de atitude um caminho de realização plena - livre, saudável, bem resolvido e sem culpas. Mas outros tantos são o tipo de gente que não liga para o moreno do Flamengo, mas depois vive se queixando da solidão, sem se dar conta das chances que desperdiça a todo momento. Ao atirar para todos os lados e se empanturrar no bufê all you can eat, que fome é essa que eles estão tentando aplacar e não conseguem? Talvez nem eles saibam a resposta.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Delícia carioca

Difícil ficar indiferente ao rapagão da foto acima. Com um sorriso perfeito e um corpo todo trabalhado na farmácia, o personal trainer Bruno Spinelli é a personificação da beleza masculina carioca. Claro que não se pode generalizar, nem todo mundo no Rio curte homens como ele, mas não dá para negar que esse é o padrão vigente e perseguido nas areias de Ipanema. E nas boates gays, claro. Uma escolha acertada para estampar a última edição de ACapa, simpática revistinha de bolso distribuída em points gays de São Paulo, Rio, Floripa e, a partir deste mês, BH e Curitiba.

Para quem achou Bruno uma coisa e já está com a cabecinha cheia de fantasias, uma dica: o fortão [o Mix Brasil decidiu que não se pode mais falar "barbie", que é demodê - anotaram, bees?] de 29 anos fez um ensaio ainda mais bonito para o site Eles Para Elas. São 50 fotos distribuídas em cinco séries, seguindo uma estética parecida com a do site The Boy. Confira os links de cada galeria: 1, 2, 3, 4 e 5.

E se você prefere gostosuras cariocas mais fáceis de comer, o festival gastronômico Restaurant Week está fazendo sua primeira edição no Rio, até o próximo domingo (24/5). O esquema é o mesmo: menus com entrada, prato principal e sobremesa, a R$25 (almoço) ou R$39 (jantar). Os pratos costumam ser menores e evitam ingredientes caros, mas dá para garimpar no site alguns cardápios bem interessantes (todos têm descrição e fotos). Se eu estivesse solto pela Guanabara, escolheria (em ordem decrescente) os menus do Emporium Pax, Geisha Hi-Tech, Bar d'Hôtel, Rio Scenarium, Esch Café e Madame Butterfly.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Chorinho carioca (a pedido do Uomini)

Com tanta coisa pra fazer, infelizmente não consegui ir ao Forte de Copacabana conhecer a roda gigante (e dar uma pinta ouvindo balearic house no Café Del Mar instalado lá). O Papa Fina, um dos melhores quilos de Ipanema, ficou lindo reformado. As mesas no deck lembram o saudoso Gula Gula da Aníbal e já nascem hit. Terapia de regressão na pool: um plantava bananeira na piscina, enquanto os outros brincavam com uma enorme bola de plástico. Já fui pro Rio __ vezes [depois atualizo com o número exato], e ainda assim fiquei espantado com a quantidade de homem bonito na cidade. Tinha um bofe na Ataulfo com a Antero de Quental que era tão lindo, mas tão lindo, que quase me arrisquei a levar coió, só pra me declarar a ele (mas meu superego não deixou). Não é só a gente que perde a linha: uma vovó fervida declarou ao RJTV que estava virada havia vários dias, só se jogando entre um bloco a outro. Perdi a conta de quantas pessoas tiveram celulares furtados na muvuca dos blocos (esse povo não aprende nunca?). Mas chato mesmo eram os playboys embriagados tocando o terror nos ônibus, cantando alto, batucando e sacaneando as pessoas. E uma vadiazinha que espremia uma bisnaga de catchup nos outros passageiros (!), porque sabia que ninguém ia meter a mão na cara de uma menina. A Lapa estava a própria torre de babel, gente de tudo quanto é tipo, uma bagunça bem divertida. Mas, na terça, o cheiro de cinco noites de mijo acumulado estava quase dando onda de colocón. Falando em colocón, perguntei pros socorristas do posto médico da Pool Party o que fazer quando um amigo passa mal, e eles se limitaram a responder: simplesmente não tomem nada nunca! Dã. Como em todos os anos, a porta do Elite continua sendo o destino certo para encontrar os melhores cafuçus. E sabe que a República Dominicana também tem cafuçus, e com uma pegada ó-ti-ma? Putos ficaram os amigos que compraram ingresso pra B.I.T.C.H. pela internet, chegaram na Fundição e o guichê já estava fechado. Rosane Amaral finalmente melhorou os bares da Pool; bem que ela podia fazer mais umas duas edições por ano. E a The Week Rio fica bem mais agradável quando não está tão lotada e convida um DJ que foge do tribal. Fiquei devendo o 00 de domingo, mas, quando você está exausto, melhor descansar do que ir pra night com cara de bunda. Nunca gostei de samba, mas agora estou até considerando ir ver os desfiles na Sapucaí no ano que vem. Os salgados da The Bakers continuam imbatíveis. Diálogo bairrista (afffe, ainda isso?) no Bibi de Copa: "Paulista deixa de ir à academia para ir ao shopping". "E carioca deixa de ir à escola para ir à academia". Tô cada vez mais carioca: tenho uma linha de celular 021, comprei um cartão pré-pago de metrô e agora finalmente aprendi a mijar no mar! E o sol continua a pino, ai que vontade de voltar hoje mesmo pra lá...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Um Carnaval à prova de urucas

"O quêêêêê, você vai pro RIO?!?!?! Mas comooooo??? Não vai ter ninguém lá, vai todo mundo para Floripa!!! Tem certeza? Troca essa passagem, gato!" Tive que explicar que ia pro Rio mesmo, e parecia que eu estava dizendo que ia passar o Carnaval em Cuiabá. De uma hora para outra, a Cidade Maravilhosa, que sempre foi a referência número 1 em termos de carnaval gay, era reduzida a um mero prêmio de consolação pelas bilus paulistanas, ávidas por mais um ano de Bar do Deca, certas de que iriam participar de um momento histórico na Ilha da Magia.

Eu adoro Florianópolis, passei três carnavais incríveis por lá (o último deles, em 2008, eu comentei aqui), sabia que em 2009 a bombação seria ainda maior, mas desta vez preferi investir no Rio. E não me arrependi nem um pouco. Gastei um terço (ou até menos) do que teria gasto em SC e me diverti muito mais do que eu pensava - foi um dos melhores Carnavais que passei. Fiz um planejamento menos rígido e, surpreendentemente, as coisas fluíram melhor: meus dias ficaram mais redondos, amigos e peguetes foram aparecendo no meu caminho, e no final tudo se encaixou numa boa.

Pra começar, não dá pra não achar graça no tamanho da pretensão de quem pensa que o Carnaval carioca precisa do aval dos paulistas para decolar. "Não vai ter ninguém"?! A cidade estava lotada - e, antes que retruquem que quantidade não é sinônimo de qualidade, esclareço que os homens estavam de enlouquecer. A quantidade de machos bonitos de todas as facções possíveis (garotos dourados da Zona Sul, gringos boa-praça, barbies for export, surfistas, santateresófilos, cafuçus-delícia) era uma coisa de louco, era de bater com a cabeça na parede. Tanto na praia (o hype do Coqueirão já está mais do que confirmado; a Farme continua intransitável) quanto pelas ruas, nos bares e nos blocos.

Aliás, uma característica marcante deste Carnaval foi a explosão dos blocos de rua. Eles sempre existiram, é verdade, mas parece que neste ano eles se multiplicaram e cresceram muito mais. Os mais conhecidos, como o Boitatá e o Bola Preta, juntaram multidões enormes, mas aconteceram muitos outros, grandes e pequenos, em todas as partes. É impressionante como os cariocas têm uma vocação genuína para a folia: eles fazem festa até dentro de elevador quebrado. Famílias inteiras se montam e saem às ruas brincando feito crianças, imbuídas de um espírito carnavalesco que não se vê mais aqui em São Paulo. É no mínimo curioso ver homens héteros vestindo-se de mulher e até arriscando algumas experiências novas, sem que sofram qualquer tipo de censura ou cobrança por causa disso: o Carnaval perdoa tudo.

Com dias perfeitos de céu azul e nenhuma chuva (o sol era mais ardido de manhã e mais ameno no decorrer da tarde), era um prazer curtir o Rio ao ar livre. Depois da praia, a muvuca na rua Farme de Amoedo parecia melhor do que nos outros anos: com o quarteirão entre Visconde e Prudente também fechado, o Tô Nem Aí juntou um pessoal mais bonito, enquanto a porta do Bofetada manteve a pegada popular, com axé e samba. Ótimo poder sair um pouco daquela função "clubes fechados" e curtir uma noite gostosa e descompromissada, indo e vindo à vontade, encontrando os amigos e beijando muito.

Para quem queria se jogar, tinha muita coisa rolando. Na cena barbie-tribal, a The Week não estava tão insuportavelmente lotada quanto no Réveillon (o Seamus Haji destruiu, mostrou que dá para tocar para gay sem ser bagaceiro!) e as pool parties da Rosane foram um repeteco do que todo mundo já conhece e gosta (a de domingo estava bem tranqüila, uma delícia). Ainda no domingo, teve festinha de house no 69 (com Pareto, Márcio Vermelho, Tatá, MM e Serge) e um 00 bombando de gente linda (segundo uma fonte confiável, pois não consegui ir). No circuito eletrônico, o Rio Music Conference trouxe DJs fodões (Sven Vath, Pete Tong, Erick Morillo etc.), mas desanimei quando vi os ingressos (antecipados!) a R$180. Uma boa alternativa era a festa na bolha gigante do Aterro do Flamengo, com o top John Digweed (entre R$30 e R$80). Ah sim, a Lapa também bombou (um povo bem misturado, com direito a beijação gay na frente do Lapa Mix) e a gafieira do Elite reuniu os melhores cafuçus do pedaço.

Enfim, o Rio continua tendo o Carnaval mais completo do Brasil. Fiz só metade do que poderia ter feito, e voltei pra casa pra lá de satisfeito. Se o Rio ficou devendo em algum quesito, só consigo pensar em um: a presença de paulistas. De fato, não vi nem sinal das figurinhas carimbadas que vejo o tempo todo (acho que até a tia da limpeza da The Week foi conferir o hype de Floripa). Mas posso garantir que o Rio não sentiu falta e passou muito bem sem eles. Não duvido que o fervo em Floripa tenha sido ótimo (eu ainda não falei com ninguém que foi), mas também tenho certeza de que nosso mercado, hoje, comporta pelo menos dois Carnavais incríveis ao mesmo tempo. Que bom!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Beijos que abrem portas

Quando você sai à noite, pode acabar cavando oportunidades, se beijar as pessoas certas.

Pode conhecer alguém que acabou de voltar de um giro na Europa e te coloca por dentro dos últimos babados da noite de Londres.

Pode acabar descolando um "teste do sofá" e, com alguma sorte, até mesmo um papel na próxima novela das sete.

Pode ser incluído na guest list de uma festa fechada disputadíssima, dessas em que os convites valem uma fortuna no mercado paralelo.

Ou pode conhecer alguém que faz armários e cozinhas sob medida e baratinho - e te entrega um simpático cartão oferecendo orçamento grátis.

A noite é uma caixa de surpresas :)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Mulato do Gois: a coroação dos cafuçus diliça

Você é daqueles que, digam o que disserem, não resiste aos encantos rústicos e à beleza bem brasileira de um bom cafuçu? Já se viu em boates, festas, ensaios e outros fervos que não têm nada a ver com o seu gosto habitual, só para estar perto dessas beldades nagô e eventualmente tirar uma boa casquinha? Fica com o pescoço torto sempre que vai a Salvador? Então este post é para você, mulatólatra. Todos os anos, nas semanas que antecedem o Carnaval, a coluna de Ancelmo Góis no jornal carioca O Globo organiza um concurso para que os leitores escolham a mulata e o mulato mais bonitos das escolas de samba do Rio de Janeiro. A votação já está no ar na página do concurso na internet. O rapaz acima é Ricardo Portela, o preferido do meu amigo Juliano, do blog Made In Brazil. Também gostei dele, mas, se pudesse escolher um brau para uma boa cafungada no cangote, eu pegaria o Jair Azevedo, da Grande Rio. Êêêê, lá em casa!