Minha primeira missão como "foca" do Curso de Jornalismo do Estadão começou às 9h30 da manhã do último sábado, em plena Praça da Sé. Eu e meus 29 colegas encontramos um de nossos professores para um rápido giro pelo Centro - que pelo menos metade do grupo não conhecia, já que muitos alunos são de outras regiões do Brasil. Depois do tour de contato, que foi bem pouco esclarecedor, o grupo se dispersou e cada um tinha que achar sua própria pauta e produzir uma reportagem, que seria entregue por e-mail no dia seguinte. Podia ser qualquer coisa, desde que surgisse no Centro. Decidi investigar como a cidade mais cosmopolita do país estava tratando seus visitantes estrangeiros, a menos de três anos da Copa do Mundo.
Para isso, tirei partido da minha genética calabresa e me passei por um turista gringo - James Hetfield, norte-americano, nice to meet you. Saí com cara de perdido, pedindo informações básicas (onde encontro um banheiro público? como faço pra chegar na Paulista?) e, como era de se esperar, a maior parte das pessoas não conseguiu interagir comigo. Na feira de artesanato da República, eu apontava a mercadoria e o dono da barraca me mostrava o preço digitando os algarismos no telefone celular. Nas bancas de jornal ou no comércio local, não foi muito diferente. Entre os bares e restaurantes, só lugares maiores, como Almanara, O Gato Que Ri e Bar da Dona Onça tinham cardápios em inglês - e nem sempre garçons que conseguissem se comunicar em outra língua.
Ainda como falso turista, testei um dos Centros de Informação Turística oferecidos pela São Paulo Turismo. O quiosque da República era novinho e a atendente, muito solícita, tinha um inglês bastante satisfatório - com erros de tradução tipicamente brasileiros, é verdade, mas nada que comprometesse seu trabalho. Eu disse que estava caindo de paraquedas na cidade e não tinha ideia do que fazer e ela, paciente, me deu explicações por quase uma hora. Ponto para ela. Quando pedi que me recomendasse uma boa balada, ela me disse para pegar a linha 4 (amarela) do metrô e o trem da CPTM até a Vila Olímpia - "os lugares de música eletrônica estão todos nessa área", explicou, desenhando um grande quadrado no mapa. Gafe dupla: a linha 4 não opera nos fins de semana, e a Vila Olímpia deixou de ser conhecida pelas baladas há muito tempo. Imaginei como um gringo desavisado ia pastar no meu lugar, andando desenganado pelo bairro. Quando perguntei sobre restaurantes, ela se limitou a dizer "Caminhe pelos Jardins, estão todos lá". Ah, tá.
Depois disso, me despi do personagem e saí à caça de turistas gringos para entrevistar. Queria saber como estavam sentindo a recepção e também suas impressões sobre o Centro. Cruzei com gente da Espanha, Holanda, Alemanha e até Nova Zelândia. Todos reconheceram que faltava gente que falasse inglês com eles, mas boa parte já tinha se preparado psicologicamente para isso, e alguns até carregavam aqueles livrinhos de português para viagem. Apesar das falhas de comunicação, a buena onda do brasileiro acabava pesando a favor na avaliação. Em relação ao Centro, atrações como o Mercado Municipal e a Pinacoteca agradavam, mas não faltaram comentários sobre a sujeira, os mendigos e o cheiro de urina em alguns lugares. E pensar que, antes da revitalização, a coisa era muito pior...
Terminei minha apuração conversando com os funcionários de alguns hotéis da região. Eles contaram que o eixo Paulista-Jardins ainda é o preferido pelos turistas, mas o Centro também tem uma clientela cativa, pela própria posição geográfica "perto de tudo", pelo fácil acesso à rede de metrô e pelos preços mais em conta. Quando perguntei se achavam que a cidade estava preparada para receber os turistas para a Copa, ouvi críticas das mais variadas, e uma delas chamou minha atenção. "Se uma simples feira de negócios como a Couromodas esgota os leitos da cidade, e obriga os visitantes a dormir em Santo André, Guarulhos e Itaquá, como será com os milhares de torcedores que virão ver os jogos?", perguntou a recepcionista do Marabá. Pelo visto, o buraco é mais embaixo do que eu pensava - e ainda temos muita lição de casa pela frente.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Centrão, terra estrangeira
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Thiago Lasco
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terça-feira, 30 de agosto de 2011
Rapidinhas candangas
A melhor época do ano para visitar Brasília, na minha opinião, é justamente nos meses de outono e inverno. A estiagem garante dias lindíssimos, de céu aberto, como na foto acima. Para driblar o tempo seco, basta levar no bolso um bom protetor labial e passar creme hidratante no rosto antes de dormir. Para marcar meu batismo brasiliense, nada mais típico do que uma autêntica passeata do MST. Ainda bem que a Esplanada dos Ministérios tem espaço de sobra, com oito faixas - o que significa um transtorno bem menor do que o das manifestações na apertada Av. Paulista. O turismo cívico é facinho de fazer: os prédios oficiais ficam próximos uns aos outros, e alguns oferecem visitas guiadas (para quem não estiver de bermuda, é claro). A decepção fica por conta da rampa do Palácio do Planalto, menor e menos glamourosa do que se supõe pela TV. O grande barato de Brasília é mesmo o projeto urbanístico do Plano Piloto. Os prédios, todos com 3 ou 6 andares, mostram como a contenção da verticalização deixa uma cidade muito mais agradável. A organização em superquadras é, no mínimo, curiosa. Não dá pra não se sentir em uma versão king size do campus da USP. Como as quadras são em geral parecidas entre si, a sugestão para o turista é visitar a 308 Sul, que serviu de modelo para as demais. Ela é enfeitada pela Igrejinha N. Sra. de Fátima, com desenho de Oscar Niemeyer e azulejos de Athos Bulcão, que rendem um ótimo pano de fundo para retratos. Mesmo se você não for muito chegado em igrejas, não deixe de visitar a Catedral Metropolitana, também desenhada por Niemeyer, e o Santuário Dom Bosco, com seus vitrais azuis. Não confundir com a minúscula Ermida Dom Bosco, um pequeno monumento erguido num terraço às margens do Lago Paranoá, com uma bela vista. Tecnicamente falando, o Distrito Federal não contém cidades, e sim regiões administrativas. Isso quer dizer que Brasília e as cidades-satélite vizinhas não têm eleições para prefeito - seus administradores são nomeados diretamente pelo governador do DF. Ou seja, quando a população elege um governador corrupto, ela se ferra duas vezes. As cidades-satélite têm uma cara completamente diferente do Plano Piloto. O noticiário nacional destaca sempre as mais pobres, como Ceilândia e Paranoá, essa última um cenário propício para quem curte um amor bandido. Mas há algumas com expressiva classe média, caso de Águas Claras, cujo boom desordenado de prédios altíssimos lembra um Tatuapé em construção. O brasiliense médio fala com sotaque capixaba, tem conta no Banco do Brasil mesmo se não for servidor público (pois ali há 8 agências do BB para cada 2,5 da concorrência) e ficou blasé com a escolha da capital federal para receber jogos da Copa. Ele considera os goianos meio jecas e provincianos, e é tido como carudo e esnobe por eles. Se há um lugar adequado para empinar o nariz logo pela manhã, é a pâtisserie do Daniel Briand, na 104 Sul, que serve saladas, quiches e doces franceses. O truque para não se sentir lesado pelos preços é dividir entre duas pessoas um único café-da-manhã completo (Première Formule, R$29), e pedir à parte a bebida extra do seu acompanhante. Tenho que admitir que os pães são realmente incríveis. Os chefs mais badalados de Brasília são a Mara Alcamim e o Dudu Camargo, cada um com seu pequeno império gastronômico (ela comanda três casas e ele, seis). Eu estava prestes a escolher um deles para o jantar de sexta, mas meus amigos locais sopraram no meu ouvido que a comida de ambos era meio overrated e não estava à altura dos preços praticados. Não desisti deles, mas deixei para a próxima. E minha escolha não poderia ter sido melhor: Taypá, um digno representante da onda neoperuana que tem varrido o mundo. Comecei com um ceviche nikkey (salmão, abacate, leite de coco, molho de ostras e teriaki) e emendei um salmón novoandino (recheado de risoto de quinua, camarão, champignons e molho teriaki). Adorei tudo e pretendo voltar. Outra surpresa foi o Nossa Cozinha, um bistrô minúsculo, escondido no lado residencial da 402 Norte. Lugar charmoso, preços honestos, serviço atencioso (os próprios donos vêm falar com a freguesia) e uma das melhores cheesecakes que já comi. Outra guloseima digna de nota é o famoso sorvete de pistache da Saborella, com textura aveludada e sabor doce na medida. O precinho é bem brasiliense: R$11 por uma bola, R$106 por um quilo. Foi bem legal voltar ao Pontão do Lago Sul e ver aquilo fervendo em um lindo domingo de sol. O corredor gastronômico à beira do Paranoá ficou maior, com a chegada de filiais da rede carioca Devassa e do japonês ocidentalizado Soho, aquele mesmo de Salvador. Acabei conferindo o tradicional Bier Fass, que só valeu pelo cenário e pelas boas companhias: a comida, mediana, demorou inexplicáveis 80 minutos para chegar à mesa. Outras dicas: o italiano Villa Tevere, os peixes do Coco Bambu, o mexicano El Paso, o sushi do Kojima, o bife à parmegiana do Panelinha, as pizzas da Valentina, o vegetariano Naturetto, os sucos e wraps do Bendito Suco, os bolos da Casa dos Biscoitos Mineiros e, para uma extravagância maior, os menus fechados do Aquavit, que giram entre R$140 e R$192/pessoa. Quando o assunto é noite gay, o circuito brasiliense não chega a emocionar - Goiânia está bem melhor na fita. Entre os bares, o tradicional Beirute só satisfaz aquele público desencanado de boteco; já o Savana, que teoricamente seria a opção mais arrumadinha, precisa melhorar em tudo, do ambiente à cozinha. E a Blue Space, principal boate da cidade, fica num lugar simplesmente horroroso. Por isso, não é de se admirar que as label parties sejam aguardadas e vividas tão intensamente. No sábado, o fiel público da Fun! dançou até 10 da manhã, e muitos ainda continuaram a jogação em um chillout. Se a locação não contribuiu (era a Blue em si), os go-go boys eram deslumbrantes e o som me surpreendeu. Daniel Mendes fez um warm up ao mesmo tempo chique e acessível, conquistando a pista sem fazer concessões, e Grá Ferreira mostrou um som de festa totalmente seguro de si, digno de atração principal, com direito a versão de "Heart of Glass", do Blondie. As novas esperanças da noite repousam nos meninos do site Parou Tudo. Eles já abriram o Glow Lounge, um espaço multiuso que tem reunido os bonitos da cidade às quintas, e se unirão a Lili Santana, da festa que leva seu nome, para fundar um novo clube. O lugar se chamará Victoria Haus e preencherá a lacuna deixada pela Blue Space, que fechará as portas em breve, ainda bem. Quando for pedir sua vodquinha, muito cuidado: circula pela noite de Brasília um bizarro energético de garrafão que só pode ser coisa do Demo. Tomei menos de duas doses e não consegui pregar o olho por quase 24 horas. E quando o assunto é pegação, as bees brasilienses já estão plugadíssimas no aplicativo Grindr, com seus perfis mula-sem-cabeça. Se você prefere mais fibra e menos laquê, os cafuçus do cerrado frequentam uma certa sauna em Taguatinga, fica a dica. Só não vi mesmo o tal entardecer vermelho/laranja/roxo que aparecia em várias fotos de Brasília. Vai ver que isso era coisa da Embratur se jogando no Photoshop. Mas não há de ser nada. Fui tão bem recebido e conheci tantas pessoas legais, que já estou fazendo planos de voltar. E quem sabe dar uma esticadinha até Pirinópolis e mesmo Goiânia, que tem sido cada vez mais recomendada!
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 8 de junho de 2011
San Francisco x Nova York: meu veredito
Nova York [foto] deve ser a cidade estrangeira mais visitada pelos brasileiros, juntamente com Buenos Aires e Paris. Muita gente não só conhece, como também freqüenta a chamada "capital do mundo" e até posa de insider, cultuando seus lugares favoritos e indicando-os em roteiros para os amigos. Por outro lado, se San Francisco não chega a ser uma ilustre desconhecida para nós, não são poucos os que se contentam com a Flórida e NY e acabam deixando a Califórnia de lado. Para encerrar a série de posts sobre os Estados Unidos, faço aqui meu comparativo entre San Francisco e Nova York, as duas cidades que eu visitei nessa ida aos EUA. No final, vocês verão qual é a minha preferida.
1 BELEZA Começar assim é até covardia. Com uma fórmula de beleza campeã, San Francisco é só encanto e exuberância. Difícil encontrar quem não volte enfeitiçado com as vistas deslumbrantes do cityscape mais bonito dos Estados Unidos. Já Nova York... bem, guardadas as proporções, Nova York é basicamente São Paulo. E tenho dito. [Imagino que essa declaração vai gerar alguma polêmica, e vou desenvolver melhor o assunto no próximo post]. San Francisco 3 pontos, Nova York 1 ponto.
2 COMIDA Come-se muito bem em San Francisco. Há bons restaurantes em vários bairros da cidade, os frutos do mar são excelentes (o que são aqueles caranguejos do Pacífico?) e a diversidade étnica trazida pela imigração também se refletiu à mesa, com influências que vão da Ásia à América Latina, passando por França e Itália. Mas a cena gastronômica de Nova York é ainda maior e mais diversificada. San Francisco 2 pontos, Nova York 3 pontos.
3 CULTURA San Francisco é a capital cultural da Califórnia e tem uma oferta bem interessante de museus, como o San Francisco Museum of Modern Art (SFMoMa), o De Young Museum e o Asian Art Museum, além de galerias e espaços menores que têm suas programações paralelas. Mas o equipamento cultural de Nova York é bastante superior, não só em termos de museus, como também de shows e outros eventos. Isso sem falar na cena teatral, que conta com um grande número de espetáculos, tanto dentro como fora do circuito comercial da Broadway. San Francisco 2 pontos, Nova York 3 pontos.
4 COMPRAS San Francisco ganha de lavada. A começar pelos preços: a taxa é menor na Califórnia do que no Estado de Nova York. Enquanto em NY você precisa circular por várias partes da cidade, em SF todas as marcas que importam estão convenientemente concentradas em uma mesma área, que você percorre a pé. As lojas de departamentos também estão lá, e são melhores: a Macy's é maior, mais completa, organizada e confortável do que a de NY, onde um enxame de turistas sanguinários faz fila nos pouquíssimos provadores oferecidos. Você gosta de outlets e vai a NY só para bater cartão no Woodbury? Pois a região de SF tem quatro: Gilroy, Vacaville, Napa e Petaluma. Xeque-mate! San Francisco 3 pontos, Nova York 2 pontos.
5 TRANSPORTE Tenha a santa paciência: nas duas cidades, é dificílimo conseguir um táxi. Conte até cem, e saia de casa sempre bem antes da hora, especialmente se você fez reserva para o jantar ou está indo para o aeroporto. San Francisco leva ligeira vantagem por ter um sistema de transporte público mais eficiente e fácil de usar - o metrô de Nova York é no mínimo confuso, a começar pela dificuldade em acertar o modo correto de esfregar (sim, você leu certo, esfregar) o bilhete na leitora. Isso sem falar no charme dos bondinhos que são ícones da metrópole californiana. San Francisco 1 ponto, Nova York zero pontos.
6 VIDA GAY Os gays formam um mercado poderoso e que movimenta fortunas nos Estados Unidos, não só em roupas e produtos de beleza, mas também em lazer, com direito a uma profusão de circuit parties, cruzeiros e resorts feitos especialmente para eles. Destinos como Fort Lauderdale, Provincetown, Palm Springs e até Puerto Vallarta (México) recebem revoadas de bilus a cada temporada. Se nas férias os americanos curtem uma boa jogação, no dia-a-dia não há muito espaço para farra: a estrutura fixa de bares e clubes é acanhada, e muita gente acaba ficando em casa e se guardando para as festas, que são bem esporádicas. San Francisco ainda tem algum buxixo no Castro; já em Nova York, o choque de ordem feito pela gestão do prefeito Rudolph Giuliani passou um trator sobre a vida noturna em geral, provocando o fechamento de clubes e boates e deixando a cena gay bem fragmentada. San Francisco 1 ponto, Nova York 0 pontos.
7 TURMA DA MANU Você também tem uma quedinha por trabalhadores? Não estamos sozinhos, colega: os americanos têm o mesmo fetiche pelos rapazes da manutenção, que eles chamam de blue collar. Em NY, a calentura dos latinos dá o tom, com absoluto destaque para os chulazos da República Dominicana, que vêm a ser os melhores cafuçus já concebidos fora da Bahia. Riquísimos! Já em San Francisco, se chamar alguém para trocar o seu fusível, são grandes as chances de que você seja atendido por um rapaz chamado Kim Ho Pu, e que a chave de fenda dele seja original de Xangai. Nada contra, mas... prefiro Nova York! San Francisco 0 pontos, Nova York 2 pontos.
EM SUMA Foi um confronto bastante equilibrado: duas metrópoles com personalidade única, cada uma com estilo e vocação bem diferentes. Nova York é, sem dúvida, uma grande capital, que todos devem conhecer e tem munição para sucessivas visitas. Ali, só morre de tédio quem quer. No entanto, darei meu veredito com base em um componente altamente subjetivo. Existem algumas poucas cidades no mundo que possuem uma luz própria, uma magia especial, que as outras não têm. Incluo nessa lista Barcelona, o Rio de Janeiro... e San Francisco. Ainda que a soma dos pontos não a tivesse favorecido, ela já seria a minha favorita! San Francisco 12 pontos, Nova York 11 pontos.
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
Bits and pieces from North America's prettiest town
Mas afinal, qual a receita da beleza de San Francisco? Pense em uma cidade à beira de uma baía, emoldurada por duas pontes icônicas, com relevo todinho acidentado e arquitetura dominada por casinhas vitorianas fofas, como as da foto acima. A cada esquina, uma ladeira revela novos ângulos, e a baía reaparece ao fundo. Uma geografia deslumbrante. Para apreciar o cenário, é fundamental subir em um dos cable cars (bondinhos) que são o símbolo da cidade, e operam 3 linhas que atravessam Downtown. Nas extremidades dos trajetos há fila, mas você pode embarcar e desembarcar em vários pontos durante o percurso. Outras vistas memoráveis, você tem do alto de Twin Peaks, da Coit Tower e de Marin Headlands - uma espécie de mirante que fica do outro lado da Golden Gate Bridge, já fora da cidade. Falando nessa ponte, que é o principal cartão-postal de San Francisco, uma boa sugestão é alugar uma bicicleta no Fisherman's Wharf e cruzá-la pedalando, num lindo passeio que termina em Sausalito, a cidadezinha charmosa do outro lado da Baía. Muitos também usam a ponte como cenário para um suicídio em grande estilo - uma morte odara! O bairro hippie é Haight-Ashbury, mas o clima paz-e-amor reina em todo lugar: em San Francisco tudo é orgânico, ecológico, reciclado, sustentável, decafeinado, biodegradável, não-poluente, democrata, enfim, baixos teores. Nesse contexto, o carro-sensação da cidade só poderia ser o Toyota Prius: feio como um mango-sucking dog (cão chupando manga, em inglês), mas totalmente híbrido, sendo que o rodar com energia elétrica é macio e silencioso, como uma gueixa servil. A cidade tem um conjunto bem interessante de museus, com destaque para o SFMoMa (de arte moderna, pouco menor que o irmão de Nova York), o Asian Art Museum, o De Young Museum e a California Academy of Sciences, sendo que os dois últimos estão instalados dentro do Golden Gate Park. Esse belo parque, que só perde em tamanho para o Central Park de NY, tem várias atrações que valem a visita, como os Japanese Tea Gardens, perfeitos para um chá no meio da tarde, e o Conservatório das Flores, onde a exposição Wicked Plants ("plantas do mal"; até 30/10) incluiu até mesmo a pavorosa Euphorbia milli, nossa popular coroa-de-cristo. Há também várias praças e parques menores espalhados pela cidade - o Dolores Park é o preferido das bees para curtir um solzinho no domingo à tarde, esparramadas na grama, quando o tempo ajuda. Na região da Union Square ficam todas as compras que importam, das grandes lojas de departamento às melhores grifes, incluindo um prático shopping center, o Westfield, que tem lojas-âncora como Nordstrom e Bloomingdale's. Aliás, essa é a melhor região da cidade para você se hospedar, não só pela fartura de compras, mas também pela proximidade do posto de informação turística, pelo farto transporte e pelo fácil acesso ao Fisherman's Wharf e ao Castro. Os são-franciscanos torcem o nariz e ignoram o Fisherman's Wharf, área do porto tomada por lojas de souvenirs e restaurantes de frutos do mar, frequentados basicamente por turistas. O Pier 39, um deque de madeira que enfileira bares temáticos como o Hard Rock Cafe, resume bem o espírito do lugar. Mas ali também há alguns tesouros. Um deles é o Scoma's, restaurante escondidinho atrás do Pier 43, que serve frutos do mar fresquíssimos desde 1965. E eles não brincam em serviço. Peça Dungeness crabcakes de entrada e prossiga com os raviólis de lagosta ou caranguejo - você ainda vai me agradecer por isso. Outro é a flagship store da Boudin, padaria que é uma instituição local, com pé-direito altíssimo, café, bistrô, um empório que vende livros e utensílios de cozinha e até um museu. Aos sábados, um programa imperdível para quem gosta de comer bem é ir até o Ferry Building Marketplace, na outra extremidade do porto, em direção à Bay Bridge. Do lado de fora, o Farmer's Market tem várias barraquinhas que vendem de bagels de salmão defumado a pratos mexicanos. Dentro do prédio, difícil é escolher entre os quitutes vendidos a peso pela San Francisco Fish Company (não perca o salpicão de caranguejo), os pães finos da Acme Bread, os frios italianos da Boccalone, os laticínios da Cowgirl Creameries, a cozinha asiática descomplicada do Delica e os doces da Miette (gente, o que foi aquela panna cotta?). Alguns bairros têm núcleos gastronômicos bem específicos: North Beach é o epicentro da imigração italiana, Mission é a meca dos burritos e comidinhas latinas, e Chinatown é o lugar para comer dim sum, noodles e afins. Outros são mais ecléticos. Em Pacific Heights, perto do cruzamento da Fillmore com a California, o latino-contemporâneo Fresca rendeu o melhor jantar da viagem; do outro lado da rua, a pâtisserie Citizen Cake tem sete sabores de petit gâteau, entre outras delícias. Na região de Downtown/Union Square, faça uma pausa das compras e almoce no ótimo italiano Kuleto's, ou perca-se entre as mais de trinta versões de cheesecake da bombada Cheesecake Factory, no oitavo andar da Macy's. No buxixo gay do Castro, dicas certeiras são o contemporâneo 2223, os peixes do Catch, o café e os hambúrgueres do simpático Cafe Flore (meeting point das bibas a qualquer hora), a comfort food do Home (que funciona até meia-noite, uma raridade) e os deliciosos crepes e massas do Squat and Gobble (vá no domingo de manhã, pegue uma mesa externa e assista de camarote ao vaivém da homarada). Aliás, no Castro, os endereços que interessam, tanto de dia quanto à noite, estão concentrados em duas áreas: no trecho da Market entre as ruas Castro e Noe, e em torno da esquina da Castro com a 18th (é só pensar no cruzamento como um sinal de "mais"). Isso sim é globalização: você sai na noite, conhece caras de países como Laos, e descobre que eles têm muito mais em comum conosco do que você imagina (e não estou falando da camisetinha óbvia da Abercrombie). São bem esporádicas as festas para dançar (como a Fresh, que acontece mensalmente no Ruby Skye, clube hétero eletrônico que tem um quê de bufê de casamento). A balada mais comum são bares, alguns com telão exibindo videoclipes pop, caso do Badlands, o mais fervido do pedaço. Tanto é que a música do momento na noite de San Francisco é "On The Floor", a releitura genial (NOT) de Jennifer Lopez para "Chorando Se Foi", do Kaoma. (Mas o som que marcou a minha viagem foi "S&M", da Rihanna, remixado pelo craque Dave Aude). Se, como eu, você prefere música eletrônica de verdade, confira a programação dos clubes Ruby Skye, Mezzanine e Mighty no site Resident Advisor - eu tive a sorte de dançar com o top Steve Lawler, no Ruby Skye. "Mítico" e "lendário" são algumas das palavras que já foram usadas para descrever o Endup, afterhours histórico que reunia todas as tribos, em maratonas eletrônicas que avançavam pelas manhãs de sábado. Mas a molecada de 20 anos que hoje faz fila na porta não me apeteceu nadinha. Os endereços mais sexuais da cidade estão no SoMa (região ao SOuth da rua MArket): a Mr. S, megastore leather e verdadeiro templo do consumo para quem tem qualquer tipo de fetiche de A a Z, o bar Powerhouse e o sex club Blowbuddies. Mas o melhor basfond, você encontra mesmo é na Steamworks, supersauna que fica na cidade vizinha de Berkeley (dá para ir com o trem BART) e é uma espécie de "269 do futuro". San Francisco foi o paraíso da liberação sexual, das experimentações, das dorgas... e o saldo disso é que hoje em dia só tem gente DOIDA na rua. Nunca vi tanta gente desvairada, surtada, falando sozinha, gargalhando, com tiques nervosos, dos mendigos até a classe média. Chega a ser hilário. O lado menos engraçado é que a taxa de contaminação pelo vírus HIV entre a comunidade homossexual está na proporção de 1 para 4, uma das mais altas do país. O que talvez ajude a explicar por que San Francisco teve tanta gente living on the edge, se jogando como se não houvesse amanhã, é o fato de que a própria cidade vive sob a constante ameaça de um grande terremoto, que pode simplesmente destruir tudo. Se a cidade não tiver sumido do mapa (ou, pior, sido reconstruída em estilo neoclássico paulistano!), estou até pensando em pedir para jogarem um quarto das minhas cinzas do alto de Twin Peaks (os outros três quartos já têm destino certo desde sempre: Ibirapuera, Arpoador e Plaza San Martín). Eu amo San Francisco.
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 31 de março de 2011
Colchonete carioca 2.0
O Rio de Janeiro continua lindo - e a hospedagem continua cara. Aliás, cada vez mais cara, depois que sua vitória para receber os Jogos Olímpicos de 2016 reacendeu o hype internacional em torno da cidade. Para quem tem bons amigos por lá, aquele sofá-cama ou colchonete muitas vezes é a melhor solução. Caso contrário, a alternativa para não gastar tanto é ficar num albergue. Já falei sobre algumas opções satisfatórias na Zona Sul, aqui (incluindo um com piscina!). Mas agora temos boas novas no front. A cidade está entrando na era dos design hostels, uma tendência que já rola há alguns anos em capitais como Lisboa e Praga.
São albergues que mantêm a sistemática e os preços em conta, mas ganham um "banho de loja". Decoração moderninha, área comum com cara de lounge, banheiros e roupa de cama de melhor qualidade, wi-fi e até máquina de Nespresso são alguns mimos encontrados nesses lugares, também chamados de "hostels boutique". Até Buenos Aires já entrou na dança, com o Zentrum, em Palermo. Enquanto isso, quem dava o tom por estas bandas eram aquelas típicas espeluncas com cara de navio negreiro, que só serviam para reforçar o preconceito do turista médio.
Eis que o Rio ganhou não um, mas dois albergues-boutique. Eu os descobri meio por acaso e não sei como está sendo a receptividade, mas acredito que eles têm tudo para ser um sucesso. A começar pela localização. Nada de Catete, nada de imediações do aeroporto (que só costuma ser útil para companhia aérea que tem que alojar vítima de overbooking), muito menos aquela zona erma da Praça Tiradentes onde se esconde o Formule 1. Os dois ficam em pleno Leblon. E não é perto da Cruzada São Sebastião, o favelão vertical ao lado do shopping: é no filé mignon mesmo.
Aberto em dezembro, o Z.Bra Hostel tem fachada futurista [acima] e um estilo moderninho-retrô que é tipicamente carioca. Suas camas em formato de cápsula [ao lado] poderiam estar dentro do 00, na Gávea. A localização é um biju: no final da San Martin, pertinho do Mirante do Leblon, dos restaurantes da Dias Ferreira e a apenas uma quadra da praia - justamente no trecho escolhido pelo povo mais cool que debandou do Coqueirão. Para ajudar o povo a se entrosar, eles organizam ali mesmo sessões de cinema, seguidas de festinhas com DJ. Os preços por pessoa são superiores ao dos albergues comuns, mas ainda camaradas: dormitórios coletivos entre R$60 e R$70, quartos sem banheiro entre R$90 e R$120 e suítes entre R$110 e R$135.
Já o Leblon Spot [ao lado], aberto em junho passado, está um pouco mais longe da praia. Mas há uma compensação: por estar na própria Dias Ferreira, na altura da Bartolomeu Mitre, ele tem fácil acesso a todas as comidas que importam no bairro - inclusive a torta alemã do Fellini, que está perigosamente próxima. As fotos do site sugerem que ele não é afetadamente moderninho como o Z.Bra, mas segue uma linha mais low profile, com direito a alguns móveis antigos que foram garimpados no leilão do Hotel Glória. Os preços são compatíveis com os do concorrente: dormitórios entre R$55 e R$75, quarto a R$90 e suítes entre R$100 e R$145.
O negócio é aproveitar logo, que está tudo novinho e cheiroso - e esses segredos ainda não foram descobertos pelo grande público. Se os albergues mais tradicionais da cidade - alguns deles verdadeiros pardieiros - já vivem cheios, não vai demorar para essas duas pérolas terem fila de espera. Farei um update neste texto caso eu venha a experimentar algum deles. Se você já teve a chance de conferi-los, deixe um comentário contando sua experiência para a gente.
[UPDATE: Tive a chance de me hospedar no Z.Bra Hostel na Semana Santa e fiquei encantado. A preocupação que eles tiveram com os detalhes, desde uma linguagem visual supermoderna até um café da manhã caprichado, fez toda a diferença. Os dormitórios coletivos são mais confortáveis do que os de qualquer outro lugar em que me hospedei, com ar condicionado, luz individual em cada 'cápsula' e um armário bem grande. O staff é bem gentil e a área comum, cheia de bossa, fica tão fervida na madrugada que chega a disputar público com os bares do pedaço. O lugar está fazendo o maior sucesso (entre os hóspedes, só tinha gente bacana), e o dono já está procurando ponto para abrir pelo menos mais um Z.Bra na cidade. Vamos esperar!]
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 17 de março de 2011
Varredura gastronômica soteropolitana
Vou aproveitar o embalo do post anterior (que rendeu mais do que eu esperava!) para falar um pouco mais sobre Salvador. Desta vez, vamos a um dos meus assuntos favoritos: restaurantes! Dá pra comer muito bem na capital baiana - inclusive para quem, como eu, não vai com a cara do dendê e passa longe de acarajés, vatapás e qualquer coisa apimentada. Se os preços são bem compatíveis com os de São Paulo e Rio de Janeiro, pelo menos os frutos do mar são melhor servidos - nada de pedir camarão e receber um pratinho enfeitado com apenas três unidades. Vou organizar as dicas na forma de um passeio virtual, percorrendo os bairros da cidade. Vambora?
Começamos no Pelourinho, é claro. Meu xodó é o La Figa, na rua das Laranjeiras, um restaurante italiano especializado em massas com frutos do mar, com ótima relação custo-benefício - indico o pappardelle mare i monti, com um toque de creme de leite, vinho branco, camarões e shiitake. Se puder gastar um pouco mais, tente os pratos contemporâneos do Maria Mata Mouro. Para comida baiana, você tem o Sorriso da Dadá, a casa mais turística da famosa quituteira, e o Restaurante-Escola do SENAC, uma verdadeira aula de culinária local, em esquema bufê. No Elevador Lacerda, viciados em leite condensado (essa droga poderosa!) têm orgasmos múltiplos na doceira A Cubana, que faz um pudim supimpa [foto] e um sabor de sorvete chamado menina bonita, com leite moça e castanhas.
Pegando a Cidade Baixa e subindo a Avenida do Contorno, temos os restaurantes que mais impressionam o turista. O motivo é um só: todos se debruçam para a vista espetacular da Baía de Todos os Santos - o cenário é mais especial durante o dia, mas também enfeita um bom jantar. O baladadérrimo japonês Soho foi o primeiro a se instalar. No mesmo complexo gastronômico (chamado Bahia Marina) estão o francês Oui, a pizzaria Fiona e o Lafayette, este último com pratos criados pela Carla Pernambuco (Carlota/SP), mas que já foi bem mais gostoso. Mais para baixo em direção ao Mercado Modelo estão o Amado (tido como o melhor do pedaço depois que o saudoso Trapiche Adelaide fechou) e o 496 Grill & Bar, que acabou de abrir e está na moda.
Chegando à Vitória e Graça, bairros adjacentes que formam uma espécie de "Higienópolis de Salvador", temos a espetacular Doces Sonhos, no Corredor da Vitória, que faz os melhores bolos da cidade (as tortas salgadas de peru e camarão também são nota dez). Uma coisa de louco, morro três vezes a cada garfada! Perto dali, na Graça, o japonês moderninho Shiro, e duas delicatessens: Deli & Cia. (na Euclydes da Cunha) e Perini (na Princesa Leopoldina, a maior filial da rede de empórios gourmet, com direito a um ótimo bufê de almoço e sanduíches que você monta a peso, com ingredientes de primeira).
Apesar de ter a melhor praia urbana da cidade, a Barra é surpreendentemente capenga em termos de comida. Quando estou no Porto da Barra e bate aquela fome, vou ao natural Ramma, escondidinho na rua Lord Cochrane. A padaria DelliPorto, na Al. Antunes, faz sandubas honestos. À noite, só consigo lembrar do Pereira, bar-restaurante meio mauricinho e caro, mas com uma varanda deliciosa. Em Ondina, uma das maiores extravagâncias da cidade: o italiano classudo Alfredo di Roma, especializado em fettuccine (uma massa com camarões custa R$65, mas é de lamber o prato). Pegando a Sabino Silva e entrando no Jardim Apipema, dá pra gastar menos nos parmegianas da Cantina Volpi ou no simpático Mariposa, que serve crepes, sucos e temakis em clima praiano.
O boêmio Rio Vermelho é o bairro com mais opções. A rua Fonte do Boi, onde ficam os hotéis Ibis, Mercure e Pestana, alinha o natural Manjericão (exuberante, construído no meio do mato, bom para depois de uma prainha no Buracão), o japonês Sushi Deli, os versáteis Confraria das Ostras e Dogma, com menus bem variados (e almoço executivo), e o Ciranda Café, ponto de encontro das lésbicas da cidade. O bairro ainda tem as redondas da Companhia da Pizza e do Piola, o japa ocidentalizado Takê (com farto rodízio a R$55), o novo Sabores de Dadá, o contemporâneo Salvador Dalí e o brasileiro Dona Mariquita, que faz uma excelente feijoada de frutos do mar, sem nenhum gosto de dendê. Para a fome da madrugada, dá para escolher entre o trash McDonald's, o saudável (e demoraaaado) Suco 24 Horas Rio Vermelho ou o conjunto de botecos do Mercado do Peixe.
Mais adiante, a Pituba é um bairro que eu explorei pouco - a maior parte das comidinhas está mais afastada da orla, em direção ao Caminho das Árvores e Itaigara, que formam a "Moema local". Só penso em guloseimas proibidas: uma filial d'A Cubana, numa galeria próxima à Praça Nossa Senhora da Luz, onde dá pra degustar o tal pudim sem ser molestado pelos pedintes do Elevador Lacerda, e uma unidade maior e ainda mais pecaminosa da Doces Sonhos, na Paulo VI, para se jogar e perder a linha mesmo, afinal você está na Bahia e não no Rio de Janeiro. Seguindo a orla em direção ao norte, a praia da Armação tem três endereços muito queridos pelos nativos: os tradicionais Ki-Mukeka e Yemanjá, boas pedidas para um almoço bem típico, e a churrascaria Boi Preto, considerada a melhor da cidade pelo júri da revista VEJA. Já em Itapuã, o Mistura é craque em pescados e frutos do mar - ainda tô louco pra provar os camarões graúdos ao prosecco com risoto de amêndoas.
Por fim, dois endereços para quem não se incomoda em sair um pouco da rota: o venerado Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara no Cabula (o dono prepara moquecas exóticas com as frutas cultivadas lá mesmo; preciso conhecer sem falta da próxima vez!) e a tradicionalíssima Sorveteria da Ribeira, no bairro do mesmo nome - que parece uma vila de pescadores, e pode render uma tarde gostosa, se combinada com um pulinho na Igreja do Bonfim e um pôr-do-sol cinematográfico na Ponta do Humaitá. Bom apetite, meu rei!
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Thiago Lasco
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terça-feira, 15 de março de 2011
Carnaval de Salvador para não-iniciados
É A SUA PRAIA? Antes de embarcar, reconheço que não sabia se iria curtir. Nunca fui fã de axé e tive medo de que a experiência se resumisse a uma dança da garrafa coletiva. Mas não foi nada disso. O choque cultural foi bem menor do que eu esperava, e durou só até a segunda vodca. O importante é ir sem preconceitos: encare a coisa como "música pop" (e não é, oras?), baixe a guarda e se deixe levar. As bandas que tocam nos grandes trios são afiadas e constroem linhas de baixo rebolativas, cheias de groove, muitas vezes tão dançáveis quanto uma boa house music. Com o diferencial de que a multidão toda sabe cantar o refrão, o que produz um efeito multiplicador de alegria do qual não dá para escapar ileso. Sabe aquele clichê de "todo mundo no mesmo astral, na mesma vibe"? Não poderia ser mais verdadeiro. Na terça, saí atrás de dois blocos, num total de mais de doze horas seguidas - e fiquei triste quando acabou.
MAS O QUE TOCA AFINAL? Vou reforçar o que eu disse no item anterior. Você não vai ouvir só aqueles chicletes de gosto duvidoso, herdeiros da Dinastia Tchan, que traduzem a nossa concepção mais leiga de "axé music". Claro que eles também marcam presença: são lançados justamente nessa época, para tentar estourar no Carnaval de Salvador e, com isso, ganhar espaço nos programas de auditório da classe C pelo Brasil afora (a pérola de 2011 foi "Liga da Justiça", do Leva Nóiz, com o refrão "foge foge Mulher Maravilha, foge foge com o Superman"; você ainda vai ouvir essa música, querendo ou não). Por outro lado, o som de cantoras como Ivete Sangalo já está muito mais próximo do pop, um pop genuinamente brasileiro, do que qualquer outra coisa. Além disso, as atrações não se prendem ao seu próprio repertório: estão sempre cantando músicas de outros artistas. O momento musical mais marcante do meu Carnaval não foi nenhum desses hits mais óbvios, do tipo "na boca e na bochecha", mas uma versão de "Toda Menina Baiana", do Gilberto Gil, que Ivete apresentou em frente ao camarote do próprio, e me deixou cantando "ô-ô-ô, ah-ah-ah" por três dias seguidos. Outra bola dentro, também da fofa, foi uma releitura de "Corazón Partío" (Alejandro Sanz) - que me pegou totalmente de surpresa. Tive que me render.
QUEM VEM? Todo mundo: grupos de jovens querendo pegar geral, famílias inteiras que vêm em caravanas do sertão e superlotam apartamentos alugados, crianças, adolescentes, gente mais velha (no Nordeste as pessoas não "baixam a bola" depois de uma certa idade, como em SP), héteros e gays. Nada de guetos: aqui, o povão se mistura mesmo, e a cidade fica em polvorosa. Dentro das cordas dos trios é que rola uma (relativa) segmentação. Por isso, o lance é você fazer aquela pesquisa prévia básica, e então ir montando a sua programação de blocos. Seus critérios de escolha serão: o perfil do público (tô indo pra beijar moin-to? só quero encontrar paulista e mineiro? recebo Ogum ou seguro o Tchan?), o preço do abadá (que também é altamente relativo, como discutirei mais adiante) e, of course, a atração que puxará o bloco (caso você tenha um ladinho oculto que adooora Cláudia Leitte, por exemplo).
OSMAR OU DODÔ? Todo mundo está cansado de saber - menos você, que é tão desinformado quanto eu era: os 2 maiores circuitos são o Osmar (também conhecido como Avenida) e o Dodô (ou Barra-Ondina). Alguns blocos fazem apresentações em ambos, em dias diferentes. Mais antigo, o Osmar sai do Campo Grande, com o sol do meio-dia a pino, e percorre as tortuosas ruas do Centro; o Dodô pega a orla, do Farol da Barra até a metade de Ondina, e os blocos saem principalmente à noite. No Osmar, o calor é maior, o trajeto é mais apertado e convém redobrar os cuidados com a segurança; já o Dodô parece um sambódromo, largo, iluminado, refrescado pela brisa do mar - e amplamente televisionado para o Brasil e o mundo. Por outro lado, é mais divertido estar cercado pela multidão humilde, que interage e vibra das janelas dos cortiços puídos do Centro, do que pelo povo insípido dos camarotes da Barra, que olha tudo com cara de tédio, em meio a balões infláveis de bancos e portais de internet. O Dodô é confortável e ultracomercial, o Osmar é roots e mais autêntico. Na dúvida, vá de Dodô - mas experimente pelo menos um dia de Osmar.
APARTHEID Sim, o Carnaval de Salvador tornou-se megacomercial e esse é um caminho sem volta. Muita gente reclama que antigamente era melhor, que o sentido de festa popular se perdeu, com as pessoas divididas em castas, dentro e fora das cordas, com ou sem abadás... Confesso que tenho mixed feelings em relação a isso. Por um lado, seria lindo se todos que quisessem pudessem ter acesso. Os próprios cordeiros - os cafuçus contratados pelos trios para segurar as cordas e garantir que os penetras não entrem - pedem esmolas a você durante o percurso, fazendo você lembrar que faz parte de uma elite. É triste, e falo isso sem qualquer demagogia. Por outro lado, sem corda e sem abadá, a coisa toda se tornaria impraticável - seria tanta, mas tanta gente, que os trios não sairiam do lugar. Quem não tem bala na agulha tem que se contentar com a "pipoca" (assistir ou seguir os trios no aperto do lado de fora das cordas), ou então esperar a quarta-feira de cinzas - quando o tradicional Arrastão, sem cordas, reúne estrelas como Ivete e Timbalada.
MADRINHA DAS GUEI Acredite se quiser: Daniela Mercury não pendurou as chuteiras em 1992, após "O Canto da Cidade". Ela continua gravando discos, vende superbem na Bahia e, mais do que isso, comanda um dos blocos mais fervidos do Carnaval baiano, o Crocodilo. Enquanto nos outros blocos os gays se infiltram, aqui eles são absoluta maioria. É um verdadeiro mar de homens desfilando e se beijando em plena avenida, a céu aberto, sob os olhares dos camarotes e das câmeras de tevê. Não que o público se choque - mas várias bees de Salvador não seguram a onda de tanta exposição pública e acabam evitando esse bloco, tão notoriamente gay que o abadá em si já vem com um carimbo "SIGNIFICA". Daniela se comporta como uma verdadeira mestre-de-cerimônias: começa com um show de delicadeza, pedindo que foliões, cordeiros e pipocas respeitem-se uns aos outros, e depois conduz a massa com absoluto domínio e um repertório dançante (zum-zum-ba-ba!), que funde épocas e estilos. A noite passa voando. O Crocodilo sai entre domingo e terça, sendo que a primeira noite é a obrigatória, em que todo mundo vai, e a última também é especial pelo clima de despedida. Segunda é a noite que se convencionou pular.
MADONNA BRASILEIRA Dentro e fora do Carnaval de Salvador, poucas cantoras do universo pop brasileiro desfrutam hoje de um status tão privilegiado quanto Ivete Sangalo. Na folia soteropolitana, primeiro ela se apresenta como contratada em outros trios (Salvador na sexta, Cerveja & Cia. no sábado), depois comanda três dias no seu próprio bloco, o Coruja (domingo e terça no Osmar, segunda no Dodô). É uma reunião de fãs: diante da simples visão de Ivete no topo do trio, o público sorri abobado e completamente entregue. Sejamos justos: Ivete é linda, tem carisma e está acumulando um repertório respeitável de sucessos. E pincela umas covers bem bacanas, como eu disse mais acima. Só que ela canta no máximo uns 30% da letra: ela manda um verso, joga o microfone pro público e só vai completar o trabalho no final da estrofe seguinte. Assim, até eu faço cinco apresentações seguidas, meu bem. Fui no último dia (terça). No começo do bloco, eu via tantas meninas de rabo de cavalo que pensei que tinha caído em algum fretamento para a Disney. Aos poucos, os gays foram aparecendo, a bebida foi subindo e começaram a pipocar uns beijos aqui e ali. A pegação é mais esparsa, mas o pessoal é beeem mais bonito do que no Crocodilo.
MUITO MAIS Nessa minha primeira experiência, procurei escolher blocos que tivessem alguma presença gay e um clima mais solto. Afinal, não queria correr o risco de me sentir um peixe fora d'água. Ivete e Daniela são as duas divas, ao ponto de cada biu local ter e defender a sua preferida (uma coisa "Britney vs. Aguilera"). Mas o Carnaval de Salvador vai muito além dessa dualidade: há outras atrações tão ou mais bombadas, como Cheiro de Amor, Banda Eva, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Olodum e Timbalada. Isso sem falar do célebre afoxé Filhos de Gandhy (só Freud explica por que as mulheres têm taaaanto fetiche por aqueles homens vestidos de baiana do aracajé!), dos blocos eletrônicos (neste ano foram três: David Guetta, Will.I.Am/Skol e Liberty, um bloco tribal-GLS que foi o erro) e dos blocos menores, que desfilam sobretudo no circuito Batatinha, no Pelourinho. Da próxima vez, não vou abrir mão de um Crocodilo e um Coruja, mas pretendo dar uma diversificada.
É DIA DE FEIRA Um dos maiores inconvenientes é o preço dos abadás, especialmente dos blocos de artistas mais bombados, como Chiclete com Banana, Asa de Águia e a própria Ivete. Pelas vias oficiais (Central do Carnaval ou Axé Mix, conforme o bloco), você chega a desembolsar mais de mil reais por um único abadá, e sem direito a open bar. Para quem não é rykah de berço, o jeito é se jogar nas duas feiras de cambistas: no Jardim Brasil (atrás do Shopping Barra) e nas imediações do Aeroclube. A economia pode passar de 80%, especialmente se você comprar mais em cima da hora (afinal, depois que o trio passou, o abadá perde todo o valor). Tenha sangue frio e negocie. Como o pagamento só pode ser em cash e todos sabem que você estará com os bolsos cheios, vá em grupo e tome cuidado para não ser roubado, especialmente no Aeroclube. Vencida a batalha da compra, é só customizar seu abadá e sensualizar na avenida. Você pode recorrer a uma das inúmeras oficinas espalhadas pela cidade, ou arrasar sozinho com sua tesoura, tomando o cuidado de não cortar o nome do bloco, o logo do patrocinador e as marcas de autenticidade, o que pode inutilizar o abadá. Se estiver com preguiça, apenas passe o abadá por trás da cabeça - pagar peitinho sempre funciona.
SURVIVOR E por falar em dinheiro, se você se deparar com um caixa eletrônico que funcione, aproveite: essa poderá ser sua última chance. Se uma das máquinas for daquelas que só soltam notas de R$2 ou R$5, deixe escorrer uma lágrima de emoção e faça tantos saques quanto for possível: na avenida, dinheiro miúdo vale ouro, porque é muito difícil estender uma nota de R$20 e esperar o troco quando se está bêbado, no meio de uma multidão tomada por Iansã. O negócio é jogo rápido: com uma mão você estende a nota, com a outra pega a bebida e desaparece. Ah sim, é fun-da-men-tal andar com um daqueles porta-dólares por baixo da roupa: nele você leva seu dinheiro, sua chave e um documento velho. No bolso, não leve nada. E nos pés, um tênis velho e confortável - que ficará imprestável, portanto traga também um par sobressalente para os momentos off-bloco.
CAMAROTES Outra maneira de curtir a festa é comprar ingresso para um dos muitos camarotes que ficam dispostos ao longo do circuito Barra-Ondina, e assistir ao desfile dos blocos com mais conforto. Cada camarote é uma festa em si, com comida, bebida e música independente (a cargo de bandas e/ou DJs), o que significa que você pode passar a noite curtindo ali dentro e simplesmente abstrair os blocos, se quiser. Assim como acontece com os trios, há camarotes para todos os gostos e faixas de preço. Fatores para comparar: o tipo de público (desde celebridades até o povo da firrrrma), as atrações (bandas/DJs, que só interrompem o som quando um bloco está bem em frente ao camarote), a comida e bebida (nos mais simples, a bebida é vendida à parte; nos mais caros, all inclusive, há até sushi e comida contemporânea) e a localização (afinal, um dos grandes atrativos é a visão privilegiada que se tem da avenida, aquela multidão vista do alto é uma cena e tanto). Minha opinião sincera? Vale a pena pegar um camarote naquele dia em que você precisa fazer uma pausa e descansar. Mas, enquanto quem está no camarote assiste ao Carnaval, quem está no bloco participa, protagoniza, vive o Carnaval. Quando eu olhava lá de baixo os rostos debruçados nos camarotes, tinha a impressão de que ninguém ali estava se divertindo tanto quanto eu.
ABRIGO O melhor dos cenários, na minha opinião, seria você alugar um apartamento na Graça, meu bairro preferido: prédios antigos, apês enormes, perto o suficiente dos dois circuitos para você ir a pé, mas sem nenhum barulho ou muvuca. Caso você fique em hotel, reduza suas escolhas a três bairros: Barra, Ondina ou Rio Vermelho, cada qual com prós e contras. Na Barra, você tem fácil acesso à "largada" do circuito, mas será obrigado a respirar carnaval 24 horas, pois o bairro, que tem poucas ruas, fica tomado de gente, lixo e barulho o tempo todo. Na Ondina, onde ocorre a dispersão, o barulho noturno também pode incomodar - boa parte dos hotéis fica ao redor dos camarotes, por onde passam os trios. Pelo menos você sairá do bloco, exausto, a poucos passos da sua cama. No Rio Vermelho, você terá que se deslocar diariamente para a Barra (e pegar congestionamentos, dependendo da hora e caminho escolhidos), mas você tem a melhor estrutura de bares e restaurantes (na Barra as opções são sofríveis), além de uma rede hoteleira mais recente. Outros bairros? No Carnaval, eu só consideraria se fosse para ficar como convidado na casa de alguém.
BABADO FORTE? Aposto que tem leitor meu que só seguiu o texto até aqui porque estava esperando pela parte em que eu falo dos cafuçus. Pois é, para quem curte essa beleza bem brasileira, a Bahia é o paraíso na Terra - já declarei publicamente por aí que os baianos estão no topo da minha lista de preferências. Os braus locais ("cafuçu" é coisa de pernambucano, jamais ouse pronunciar esse termo na Bahia, eles acham pejorativo!) são mesmo de babar, colega. Além disso, a capital soteropolitana é a terra dos "héteros que fazem" - aqueles bofes que, na maior discrição, mandam ver mesmo, e nem venha você querer definir a sexualidade deles. No entanto, por incrível que pareça, o Carnaval de Salvador não é tão sexual como alguns podem imaginar. Claro que as pessoas estão ali para se permitir, mas, em sua grande maioria, o que elas querem é beijar, não necessariamente transar. É um clima muito mais puro e brincalhão, de curtir a música, sair com sua galera, beijar muito, dar risada e não ter grandes preocupações, do que um açougue da carne como em outras praças.
RELAXE, MEU REI Aos cri-críticos de plantão: venham vacinados para conviver com os problemas da cidade, sem deixar que eles azedem o seu bom humor. Nesses dias frenéticos, Salvador fica ainda mais suja. É preciso manter-se alerta contra os furtos (mas sem neurose! também não é tão perigoso assim). As avenidas de acesso que formam o yakissoba viário da cidade (Centenário, Garibaldi, Vasco da Gama, Cardeal da Silva, Vale do Canela) freqüentemente engarrafam - escolher o caminho mais livre é pura questão de sorte. O serviço é um dos piores do Brasil, oscilando entre a simples ineficiência e os maus tratos ao cliente. Não espere ouvir um "por favor", "com licença" ou "obrigado" - e, quando você agradecer, tampouco ouvirá resposta. Mas nada disso estraga o brilho da festa. É só você ir com o espírito preparado. Ninguém ali quer receber suas lições de civilidade. E lembre-se: na Bahia, uma hora tem 90 minutos.
COMBUSTÍVEL Salvador tem excelentes restaurantes [já falei sobre alguns no blog e voltarei ao tema no próximo post]. Nada como pedir um prato com camarão e receber camarão de verdade. Mas vá por mim: nos dias de Carnaval, você dificilmente vai querer perder tempo com grandes deslocamentos e comida que pode pesar no estômago. Se quiser usufruir da gastronomia e das atrações turísticas de Salvador, o ideal seria viajar em outra época, ou pelo menos pegar mais alguns dias antes (lembrando que a festa começa já na quinta, não no sábado!) ou depois do Carnaval. No corre-corre do circuito, você vai ter que se virar com comida rápida de barracas (salgados, pizzas etc.) e os sanduíches e vitaminas do Suco 24 Horas. Provavelmente, sua maior preocupação será o álcool (que é absolutamente essencial, diga-se de passagem). Dentro dos trios, tudo é mais caro: fora deles, se você não curte cerveja e acha as bebidas ice fraquinhas demais, terá um pouco mais de trabalho até achar uma vodca que seja confiável. Por isso, os mais espertos compram uma garrafa de Smirnoff ou Absolut, gelam em casa e levam para o trio em garrafinhas de água de 500ml, ou naquelas mochilas etílicas do tipo camelbak.
FOI BOM PRA VOCÊ? Posso afirmar com segurança que essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito para o Carnaval de 2011. Se eu voltarei? Não tenho a menor dúvida que sim. Todo ano? Provavelmente não, porque os preços são salgados demais para o meu bolso [nem sei como teria sido sem o apoio e a hospitalidade de meu amigo David, a quem deixo meu beijo e muito obrigado!]. E porque eu também curto o Carnaval do Rio de Janeiro e de Florianópolis, cada um do seu jeito. Salvador provavelmente vai entrar no meu rodízio com as outras duas cidades - ainda que o astral de lá seja dez vezes maior do que o da primeira e duzentas vezes maior do que o da segunda. Sem tanto carão, sem tantos guetos, conhecendo gente diferente. Na terça, quando os trios chegavam perto do fim, tocando os clássicos eternos, os foliões felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, não querendo que aquilo acabasse... aquilo foi um momento totalmente emocionante, uma sensação que eu nunca pensei que pudesse ter. Foi aí que caiu a ficha que eu tinha realmente entendido o Carnaval de Salvador.
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Thiago Lasco
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Dicas de hospedagem barata em São Paulo
São Paulo é uma das cidades mais caras do mundo, e quem resolve passear aqui deve vir preparado para abrir a carteira. Para quem está podendo, templos da boa vida como Emiliano, Fasano, Unique e Renaissance oferecem paparicos de nível internacional. Já para os demais mortais, é preciso garimpar um pouco para achar hospedagem que não pese no bolso, especialmente para os viajantes desacompanhados. Aqui vão algumas dicas.
1) FORMULE 1 - A rede francesa que inaugurou o filão da hotelaria supereconômica no Brasil já foi bem mais barata, mas o preço (R$129 por um quarto triplo) continua em conta, especialmente se o beliche em cima da cama de casal for ocupado por um terceiro hóspede. Rigorosamente padronizados, os quartos são funcionais, embora algo espartanos. Das cinco filiais, duas têm localização excelente (Paulista e Paraíso) e outra (9 de Julho), também aceitável. A total ausência de controle na porta acaba sendo providencial na hora de arrastar alguém de fora para o quarto. Reservar é fundamental - afinal, o "Fórmula 1" é pop.
2) HOTEL SAN GABRIEL - Depois que o Formule 1 abriu caminho, era natural que a concorrência aprimorasse o conceito. Por preços compatíveis, o San Gabriel oferece muito mais conforto e flexibilidade - há várias opções de quarto, incluindo até mesmo pequenos apartamentos duplex, ideais para grupos maiores. Para quem viaja sozinho, o quarto executivo individual sai a R$110. Estando no epicentro do fervo da rua Frei Caneca, não era de se admirar que o hotel fosse invadido pelos gays - na semana da Parada, só falta botarem uma vending machine de camisinhas no corredor.
3) 155 HOTEL - Outro discípulo da fórmula supereconômica, oferece quartos para 1 ou 2 pessoas com diária a R$135. Sua proposta original, a de ser um hotel direcionado ao público GLS, não vingou. Talvez tenha sido por absoluta falta de divulgação (pouquíssima gente conhece o 155), ou pela localização não tão privilegiada. Que não chega a ser ruim: entre a Augusta e o Centro, é fácil chegar a qualquer lugar de táxi ou mesmo ônibus. Quem sabe o hotel não comece a bombar depois que sair no meu blog? ;)
4) POUSADA DONA ZILAH - Numa faixa de preço ligeiramente superior (quartos individuais, duplos e triplos a partir de R$162, R$210 e R$255, respectivamente), essa pousada é o mais próximo que chegamos do formato bed & breakfast, comum no Exterior. Charmosa e acolhedora, tem café da manhã farto e um pequeno bistrô anexo. A cereja do bolo é a localização: no finalzinho da Alameda Franca, você está no coração dos Jardins, com fácil acesso às compras na Oscar Freire e aos drinks noturnos no Ritz e Bar da Dida. Ao mesmo tempo, o quarteirão é bem tranquilo.
5) CASA CLUB - Para quem viaja só, não faz questão de luxo e quer conhecer gente nova, os hostels podem ser uma ótima pedida. No Casa Club, boa parte dos hóspedes é estrangeira, sinal de que os brasileiros ainda veem os albergues com um pé atrás. Se você não abre mão da privacidade, há algumas suítes: a de R$108 acolhe até 2 pessoas e a de R$240 tem capacidade para seis. Localizado na rua Mourato Coelho, é excelente para quem quer explorar os bares, restaurantes e ateliês da Vila Madalena. Até rola ir à Paulista e Jardins sem usar táxi, mas dá um pouco de trabalho.
6) GOL BACKPACKERS - Um dos mais novos albergues da cidade, o Gol usa o futebol como tema de toda a decoração. Na sala de TV, bolas gigantes fazem as vezes de pufes, enquanto em cada quarto a roupa de cama recebe o símbolo de um time paulista. Neste caso, não dá para fugir do esquema "navio negreiro": todas as acomodações são em dormitórios coletivos, com diárias entre R$35 a R$45. Para compensar, a localização é campeã, a apenas uma quadra da Paulista, em frente ao Maksoud Plaza.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Salvador: nada ficou no lugar
Sinto desapontá-los, isto dói mais em mim do que em vocês, mas Salvador não presta mais. Agora que o Bar da Ponta fechou as portas, não tenho mais nada para fazer naquele fim de mundo, então beijos e nos vemos no Rio de Janeiro. Claro que estou brincando: mesmo com a perda irreparável do meu xodó (que era tudo de bom, fiquei arrasado), o saldo da minha quinta visita à capital baiana foi bastante positivo. Mas é fato que encontrei uma cidade menos legal, já que várias de suas atrações mais bacanas simplesmente deixaram de existir. O saudoso Bar da Ponta, que Deus o tenha, foi engolido por um empreendimento imobiliário de alto padrão, junto com o bacanudo restaurante Trapiche Adelaide, do qual era anexo. Quem também deixa saudade são as megabarracas que transformavam as praias do Flamengo e Stella Maris em puro fervo. Por conta de uma quizila jurídica com a União, todas elas foram sumariamente demolidas em agosto. Isso mesmo: não existe mais Barraca do Lôro, nem Margueritta, nem Gaúcho, não existem mais drinques servidos em espreguiçadeiras rústicas-chiques, nem corpos malhados dançando house music em deques à beira-mar. O Litoral Norte de Salvador mó-rreu! Já o Porto da Barra felizmente continua o mesmo, com a água deliciosa para nadar, um pôr-do-sol mais aplaudido que o do Arpoador, e aquela mistura única de classes sociais, etnias, estilos e pegadas. E corpos babadeiríssimos ali e acolá. Aliás, sem querer ferir brios ou fomentar bairrismos, a Bahia tem os homens mais bonitos do Nordeste, né? Nos finais de semana, quando a superlotação deixa o Porto da Barra intransitável, o novo plano B da galere é o Buracão, uma prainha escondida no Rio Vermelho que só os moradores do bairro freqüentavam, e agora vem sendo adotado pelos descolados, num clima low profile. Para quem gosta de conforto, uma opção é ir até o Corredor da Vitória e tomar sol no Mahi-Mahi, bar do hotel Sol Victoria Marina que tem um píer que avança sobre a Baía. Você paga uma consumação e passa o dia comendo, bebendo e tomando banho de mar. Parece que o esquema é bem gay friendly. A Barra não tem a fartura de comidinhas pós-praia de Ipanema. Acabei adotando o Ramma, um simpático restaurante natural escondido na Rua Lord Cochrane (como será que os baianos pronunciam isso?). Depois de horas de sol nordestino, o suco de tangerina deles descia que era uma maravilha. Adoro que na Bahia essa fruta dá o ano todo, não tem época certa como aqui em São Paulo. A doceria A Cubana inaugurou uma filial na Pituba, num shoppingzinho na Praça Nossa Senhora da Luz. Isso significa que agora você pode comer o melhor pudim de leite condensado do mundo, sem ser molestado a todo instante pelos pedintes do Elevador Lacerda. Outro endereço que continua firme e forte no topo da minha lista de laricas pecaminosas é a Doces Sonhos, na Vitória. Os bolos de lá são pura felicidade cortada em pedaços. Morri três vezes a cada garfada. A vista da Baía de Todos os Santos transforma qualquer ida ao complexo gastronômico Bahia Marina em um programão. Matei a saudade do japonês Soho, que continua bem gostoso e badalado. Voltei também ao contemporâneo Lafayette - mas os pratos criados por Carla Pernambuco já não têm o mesmo brilho de antes. Acabei não conseguindo ir a nenhum restaurante especializado em frutos do mar. Da próxima, quero provar os camarões ao prosecco com risoto de amêndoas do Mistura, em Itapuã, e as moquecas mutcholocas com frutas e ingredientes naturais do Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara distante no Cabula e virou cult. Para um jantar mais informal e barato, aprovei o Mariposa, no Jardim Apipema, atrás da Ondina. Tem um longo menu de sucos, crepes e temakis, numa casa colorida bem praiana, supersimpática. O Pelourinho, que já não era minha área preferida em Salvador, está com um arzinho largado, abandonado. Parece que todo o dinheiro da região foi para o Carmo, onde a inauguração do hotel-boutique Convento do Carmo acabou dando um sopro de vida em todo o entorno. Já o MAM, que estava totalmente ao deus-dará, deu um merecido tapa em seu Jardim de Esculturas, que ainda é meu segundo lugar favorito para ver o pôr-do-sol soteropolitano (o primeiro é a Ponta do Humaitá). Com a morte de bares como Marquês (que fazia as vezes de Ritz baiano), Babalotim e Boomerangue, hoje Salvador não tem nenhum endereço gay friendly onde se possa fazer um esquenta antes de ir dançar. Ou você toma os primeiros drinques onde estiver jantando (a pizzaria Piola já foi uma opção, mas agora o hype passou e ela está às moscas), ou então aciona seus contatos e descola um chill in na casa de algum amigo local. Aliás, num desses esquentas, fui descobrir que as blogueiras Katylene e Cleycianne também são adoradas por lá, e estão colocando suas gírias na boca das bees. Tive a oportunidade de conhecer a bombada San Sebastian em sua última semana no antigo endereço - a casa está de mudança para outro imóvel na mesma rua. Deve existir um "jeito soteropolitano de construir boate": estreito e comprido, com andares e mezaninos, o clube me lembrou muito a primeira Off. A propósito, a Off Club, que reinou sozinha na noite por anos, perdeu o trono e se tornou a boate "do meio". Nos extremos estão a San Sebastian, para onde migrou o pessoal mais bonito, e a Tropical, opção mais popular e bagaceira. Uma pulga me contou que a dona da Off pensa até em se desfazer do negócio. Entre os DJs locais, quem mais chamou minha atenção foi o Bernardo Chez. Além de ser um gentleman e um fofo de marca maior, o loirinho-angelical está fazendo um som bem bacana, criando inclusive seus próprios bootlegs e mashups. Tem tudo para conquistar mais espaço na cena, e não só em Salvador. Na boate, depois de certa hora da noite, elas ficam bem soltinhas, e a beijação rola em esquema drive-thru, tipo assim bem solto. Vai ser bom, não foi? Cansada de quebrar louça? Pois saiba que o percentual de atividade em Salvador beira os 90% - nenhuma outra capital tem tamanho superávit! E ó, tem que levar preservativos GG na nécessaire, viu? Para os adeptos dos vapores vespertinos, a Rios continua sendo o endereço mais indicado. E quem curte um perigón na linha Uomini se refestela no Paredão, no Jardim de Alah - uma falésia que esconde encontros furtivos e sorrateiros na calada da noite. Bateu uma vontadinha de ir (ou voltar) a Salvador? Se fosse você, eu me hospedaria na Barra, para poder ir à praia a pé, e daria uma olhada nas tarifas do Sol Barra, do Grande Hotel da Barra e do Marazul, nessa ordem. Ou então ficaria no Rio Vermelho e decidiria entre o funcional-padronizado-insípido Ibis e o charmoso Catharina Paraguaçu, todos numa faixa de preço viável. As músicas que ilustram este post são "Happiness" (Dave Aude Club Mix), de Alexis Jordan, e "Empire State of Mind" (na versão que o André Garça toca) . Elas deram o tom da minha semana em Salvador e também do fim de semana no Sauípe, no festival Hell & Heaven - que será o assunto do próximo post.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010
13 dicas para um refresh gastronômico em SP
MARAKUTHAI [foto]
Esse lugar foi meu vício no verão passado e continua sendo meu queridinho. A chef Renata Vanzetto é uma menina-prodígio: com apenas 17 anos, ela já comandava a matriz da casa, em Ilhabela. A filial paulistana veio três anos depois e repetiu o sucesso, propondo uma culinária tailandesa moderna, com ênfase em frutos do mar. O ambiente, de extremo bom gosto, mistura plantas, móveis e objetos de épocas diferentes, num resultado meio praia, meio brechó e totalmente girlie. Perfeito para um almoço de sábado com os amigos. Eu indico: as tirinhas de mignon com molho de curry vermelho levemente adocicado (peça para vir com cuscuz marroquino no lugar da farofa de dendê) e o mix de lula e camarões com molho de leite de coco, alho poró, tomate e limão. Eu também recomendaria o atum selado com molho de queijo de cabra e damasco, não fosse o preço tão salgado (R$74). Onde: Al. Itu, 1618, Jardins.
SAL GASTRONOMIA
Já citei o Sal outras vezes no blog, mas nunca cheguei a resenhá-lo. Escondido atrás da Galeria Vermelho, tem ambiente clean e moderno, mas sem afetação. As mesas são dispostas ao longo de um corredor, com vista para a cozinha envidraçada, de onde se vê o trabalho de Henrique Fogaça e seus ajudantes (todos carecas, fortões e tatuados como ele). Fetiches à parte, os bofes servem pratos contemporâneos bem executados, com ocasional presença de ingredientes brasileiros. Eu indico: o lombo de cordeiro com purê de dois queijos, shitake e molho de jabuticaba. Ou o atum em crosta de gergelim ao molho teriyaki, com arroz negro, pupunha e cubos de tomate, caso você precise exibir o corpinho depois da sobremesa. Onde: Rua Minas Gerais, 350, Higienópolis.
LAS FAVAS CONTADAS
Com pouco mais de um mês de vida, o caçula do meu roteiro está sendo descoberto aos poucos. Numa discreta ruela da Vila Madalena, tem apenas 50 lugares e um clima intimista e aconchegante, típico do bairro. O chef Caio Henri já pilotou caçarolas em lugares tão diversos quanto a Febem e o Palácio do Planalto - mas é do Carlota, onde ele cozinhou por três anos, que vêm as influências mais marcantes do cardápio. Várias receitas célebres de Carla Pernambuco estão lá, como a panelinha de cogumelos shiitake e o filé ao vinho do Porto com risoto de figos. Aos poucos, porém, a casa está introduzindo pratos novos e construindo uma identidade própria. Os preços são convidativos. Eu indico: o tempura de badejo ao molho curry com arroz de coco e laranja, um grande acerto que não veio do Carlota. E o petit gateau de doce de leite, para fechar com chave de ouro. Onde: Rua Patizal, 72, Vila Madalena.
MADUREIRA SUCOS
Quem volta do Rio de Janeiro sentindo falta do Bibi Sucos precisa descobrir este tesouro. O cardápio faz um inventário completo da alimentação saudável. Açaí, cremes na tigela, salgados assados, omeletes, tortas, saladas, sopas, grelhados, sandubas com pasta de ricota, tem de tudo aqui. Os sucos são criativos: tangerina com kiwi, maçã com uva e blueberry, cenoura com tangerina e maracujá, framboesa com ameixa e gengibre e muitos outros, vários deles com propriedades funcionais. Para sentar, há um balcão com banquetas no piso térreo, e mesas em uma varanda no primeiro andar. O charme fica por conta dos ladrilhos verdes e rosa que revestem as paredes e dão um toque lúdico ao lugar. Eu indico: A substancial torta de galinha com milho, com cinco dedos de altura e um recheio bem úmido. Onde: Rua João Cachoeira, 217, Itaim.
KAÁ
Vamos logo ao que interessa: o ambiente do Kaá é tão bonito que já ganhou dois prêmios internacionais, como o restaurante de melhor design de São Paulo. De fato, a combinação de pé-direito altíssimo, jardim vertical grandioso, tons de marrom e pitadas de inspiração indígena gerou um efeito espetacular, como se pode ver no próprio site da casa. É o tipo de lugar que nem as pessoas mais blasé resistem a fotografar. A personalidade forte do ambiente, porém, não se repete na cozinha: trata-se da mesma mistura franco-italiana sem ousadia que tantas outras casas servem por aí. Tudo correto, sem dúvida, mas aposto que você contará pros amigos que foi almoçar "num lugar lindo", e não que comeu "uma comida incrível". Mesmo assim, a beleza sem igual torna o Kaá uma excelente pedida para comemorar um aniversário ou levar turistas e mostrar a eles "o poder de São Paulo". Eu indico: o fettuccine com ragu de pato. Onde: Av. Juscelino Kubitschek, 279, Itaim.
LA MAR
A culinária peruana é o resultado do cruzamento de várias influências: a cultura inca (diversas variedades de batata e milho), a colonização espanhola (sopas e guisados) e as cozinhas asiáticas (peixes crus e pratos salteados na wok). Essa rica mistura é uma das febres gastronômicas do momento e chegou a São Paulo no ano passado pelas mãos de várias casas. Uma delas é o La Mar, uma franquia que o chef peruano Gastón Acurio levou a outros cinco países. Na parte de petiscos, há os famosos cebiches e tiraditos (porções de peixes em cubos ou fatias, marinados em caldos cítricos, com temperos como cebola roxa e pimenta ají), e as menos conhecidas causas (bolinhos de batata com recheios de peixe ou camarão). Já entre os pratos quentes, massas, arrozes e pratos salteados na wok, sempre com muitos frutos do mar - os mais interessantes são os de acento asiático, como o salteado nikkei. Eu indico: a didática degustação de 4 cebiches (o de atum com leche de tigre ao tamarindo é o meu favorito) e a pasta negra ao chupe thai de camarões. Onde: Rua Tabapuã, 1410, Itaim.
DUI
Mais um restaurante contemporâneo que joga no caldeirão influências de várias partes do mundo. Nas entradas, tapas com sotaque espanhol; nos pratos, costelinhas de porco brasileiríssimas, carré de cordeiro francês, peixe com acento asiático, e por aí vai. O ambiente é uma atração à parte. O espaço do antigo Empório Siriúba foi completamente repaginado e se transformou num restaurante vistoso e exuberante, com pé-direito altíssimo e um jardim de inverno pra lá de romântico, ideal para aquele jantarzinho tête-à-tête. É bom avisar: não é um lugar barato. Eu indico: não me preocupei em anotar o que comi, pensando que poderia olhar depois na internet, mas o site da casa não mostra o menu... Onde: Al. Franca, 1590, Jardins.
AK DELICATESSEN
Num dos bairros com maior concentração de judeus em São Paulo, a casa da simpática Andrea Kaufmann propõe uma releitura moderna dos clássicos da cozinha judaica. O lugar é meio apertado, com mesas muito próximas uma das outras, mas ainda assim charmoso. E a comida é bem caprichada. Eu indico: as delicadas varenikes, típicas massinhas de batata com recheio de cebola confit, rabada ou creme de haddock, o medalhão de mignon envolto em pastrami com queijo brie e mix de cogumelos e a cheesecake com coulis de frutas vermelhas. Onde: Rua Mato Grosso, 450, Higienópolis.
PING PONG
Filial de uma rede inglesa, o Ping Pong é um bar especializado em dim sum, faceta da culinária chinesa pouco conhecida no Brasil. Simplificando grosseiramente, é uma versão ching-ling das tapas espanholas: pequenas porções de bolinhos recheados de carne de porco, legumes ou frutos do mar, que podem ser assados, fritos ou cozidos no vapor. Como são 3 unidades por porção, o ideal é ir num grupo de três amigos e ir provando várias - você vai marcando as que deseja em um formulário. Dois cuidados: coma antes que esfriem (especialmente as massinhas feitas no vapor, que ficam grudentas) e tente não perder a noção de quando está gastando, para não levar um susto. O lugar tem aquela dose de pretensão bem típica do Itaim (que este texto retratou de uma forma divertidíssima), mas isso não chega a incomodar. Eu indico: pork puff (massa folhada com recheio de mignon suíno, cebolas caramelizadas e mel), seafood dumpling (massinha de cenoura no vapor com recheio de caranguejo, camarão e vieiras), crispy prawn ball (camarões fatiados com cebolinha em macarrão de fios de ovos e molho agridoce) e o refrescante drink não-alcoólico de goji berries, manga e hortelã. Onde: Rua Lopes Neto, 15, Itaim.
SAKÊ
Se você não consegue pensar em sushi sem cream cheese e adora enrolados flambados, de preferência com um pouco de molho tarê por cima, aqui vai mais um japa ocidentalizado para a sua lista. Trata-se da estreia em solo paulistano de um restaurante muito conhecido em Vitória [sobre o qual eu já falei aqui, quando escrevi sobre a capital capixaba]. Os combinados mais sofisticados trazem criações que fogem do trivial, com direito a arriscadas misturas de salgado com doce. Tanta ousadia nem sempre dá certo: na degustação de sashimis, por exemplo, a combinação de haddock e molho de maracujá é bem esquisita. Já nos sushis, o Sakê apresenta resultados bem melhores, embora ainda inferiores aos do Mori Sushi. Eu indico: o combinado mix show (cuenda o nome pintoso!), uma amostra bem completa de todas as invencionices da casa. Onde: Rua Dr. Mário Ferraz, 37, Jardim Europa.
GABRIEL
Tem jeitão de lounge, com muitas almofadas, paredes cobertas de badulaques e luz baixa no jantar. O público não destoa do que se poderia esperar em um restaurante em plena Gabriel Monteiro da Silva: casais balzaquianos, famílias de classe média alta, rapazes bem apessoados em camisetas de gola pólo. O menu é variado, mas com acentuada influência francesa: entrecôte ao molho béarnaise, confit de pato, steak tartar, crepe de laranja. Eu indico: o delicioso penne oriental, que leva camarões, shiitake, aspargos e um toque de curry. Onde: Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1424, Jardim Paulistano.
LE FRENCH BAZAR
Uma improvável esquina de Pinheiros abriga esse charmoso restaurante francês, com pratos clássicos de bistrô e algumas receitas mais modernas, sempre com apresentação impecável. Há algumas mesas na calçada, mas o melhor é sentar lá dentro, onde as paredes forradas por um curioso papel florido azul-turquesa ajudam a criar um clima aconchegante e intimista. Simplesmente uma graça! E a cozinha faz bonito também. Eu indico: o confit de pato ao molho de vinho do Porto, com risoto de grãos bem cremosinho, a rabada à Bourguignonne e o ótimo fondant de chocolate com creme inglês. Onde: Rua Fradique Coutinho, 179, Pinheiros.
LA FORCHETTA
Para contrastar com tantas casas moderninhas, eis um restaurante old fashioned: as preparações levam sofisticados molhos à base de creme de leite, às vezes finalizados num réchaud à mesa, aos olhos do cliente. A casa fez fama nos anos 80 como Forchetta D'Oro, na rua Haddock Lobo, um dos restaurantes bacanudos da minha infância, ao lado do Leonardo's e do Tatini. Depois, mudou-se para a Vila Nova Conceição, e agora ocupa o térreo de um flat na Bela Cintra, a poucos metros do Sonique. Difícil é escolher entre tantas delícias. Só não venham em época de Restaurant Week, pois os pratos promocionais são medíocres - levei um grupo de amigos e quase morri de vergonha. Eu indico: o chateau tobruk (filé alto tipo chateaubriand, molho à base de manteiga, molho roti, mostarda, champignon, alho, uva passa, cebolinha, com arroz puxado no próprio molho) e o casuncelli (massa com recheio de vitela, presunto cru, uva passa e amaretto, servida com molho de funghi). Onde: Rua Bela Cintra, 521, Consolação.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
Meu guia gastronômico do Rio 2010 - parte 2
A parte 1, você encontra aqui.
BELISCOS E GULOSEIMAS
O Cafeína (de novo ele!) é uma espécie de coringa: tem cafeteria, salgados, doces, sanduíches e até refeições mais substanciosas. Cada vez mais pop, tornou-se a primeira lembrança de muitos quando bate aquela fome da tarde - afinal, é prático encontrar tudo num lugar só. Mas meus preferidos são outros. Os melhores salgados são os da delicatessen The Bakers, em Copacabana - a quiche Provol'onionz, de queijo provolone com cebola, é um arraso. Para sanduíches, difícil superar o Talho Capixaba, no Leblon: com algum talento, você monta um lanche incrível, escolhendo pães, frios, pastas e outros recheios em uma lista gigantesca de ingredientes. No Centro da cidade, sou louco pelo Ateliê Culinário, anexo ao Cine Odeon, que manda bem tanto nas quiches e salgados como em pratos quentes. E se para você comida é uma preocupação secundária, sente-se em uma das mesas externas da Confeitaria Colombo do Forte de Copacabana e admire a vista espetacular - é ela que ficará em sua memória, não os quitutes de lá.
Bateu aquela vontade de comer doce? A tentadora mesa do quilo Fellini tem uma torta alemã com calda de chocolate morno que é de comer de joelhos. Para rivalizar com ela, só mesmo a torta maravilha (de morango ou banana) da Torta & Cia., no Humaitá e no Leblon. Os bolos da Doce Delícia também não decepcionam. Em termos de sorvete, o Rio me agrada até mais do que São Paulo. Fãs de sabores cremosos na linha La Basque têm orgasmos na rede Itália - o sorvete de torta alemã é algo! Para paladares mais refinados, a Mil Frutas é um programa imperdível: entre sabores de fruta e cremosos, há mais de 180 opções, e a casa não cansa de surpreender com novidades. É cara como Haagen-Dazs, mas vale cada centavo.
Ipanema lança novos modismos a cada verão, e isso também vale para comidinhas. Primeiro vieram as temakerias; depois, as lojinhas de frozen yogurt; no verão passado, surgiu ali uma estranha mania de comer kebab, o famoso churrasco grego, em versão desestigmatizada. Em todos os casos, uma casa lança a ideia, faz sucesso e, na semana seguinte, dezenas de imitações já se espalharam pelos quarteirões. Melhor ficar com os pioneiros: os temakis da Koni Store e o frozen yogurt da Yogoberry. Confesso que não tenho a menor vontade de provar um kebab carioca: se a ideia é um petisco étnico, me apetecem mais as tapas espanholas do Venga!, ou as bruschettas da Prima Bruschetteria.
JANTAR
Comer fora também é programa de carioca, como não? Com direito às mesmas esperas intermináveis que eles acham ruins quando vêm passear em São Paulo, é bom dizer. Nos restaurantes mais buxixados, como o japonês Sushi Leblon, a distração de quem fica plantado esperando mesa é ver e ser visto (alguém pensou no Spot?) e dar de cara com alguma celebridade. Outros japas de responsa são o Ten Kai, em Ipanema, o Manekineko, para quem curte invencionismos ocidentais, e o Azumi, que é o extremo oposto de todos os anteriores: tradicional, purista e frequentado por "japoneses de verdade". Agora eu quero conhecer o Nao, no Fashion Mall, que serve esqueminhas (menus-degustação) criados por Nao Hara, o sushiman do elogiado Shin Miura.
A cozinha contemporânea tem vários representantes dignos na cidade. Meu favorito é o Zazá Bistrô Tropical, um sobrado colorido, de cardápio bem criativo - o curry de frango e o rosbife de cordeiro são simplesmente matadores. No andar superior, você tira os sapatos e come em mesas baixas, jogado em almofadões, à luz de velas. O Bar d'Hôtel, no primeiro andar do Marina All Suites, serve pratos de inspiração francesa, na linha do nosso Ruella (cuja chef já foi sócia do BDH). No Miam Miam [foto], a proposta é comfort food: receitas caseiras, que tragam conforto e lembranças de infância, relidas de forma moderna. O lugar é charmoso e bem retrô, como uma casa de avó. Vários amigos meus adoram o Zuka, mas o cardápio de lá não me atrai tanto; o Bazzar, por outro lado, tem um menu bem amplo e versátil. Uma dica que muitos me deram e ainda não conferi é o restaurante da Roberta Sudbrack, primeira mulher a comandar a cozinha no Palácio do Planalto. Não há cardápio: você embarca numa viagem de vários pratos servidos em esquema degustação pela chef.
Para um jantarzinho a dois, algumas sugestões são o Copa Café, super intimista, que prepara hambúrgueres sofisticados no prato (criados pelo chef do nosso B&B Burger Bistrot), o Juice & Co., que faz a linha saudável, com receitas mais leves e uma carta de 60 sucos, e o Nam Thai, um tailandês fantástico - melhor até que o Sawasdee, o thai da moda. Os paulistanos Carlota e Le Vin também têm filiais no Rio. Se, por outro lado, a ideia é badalar, boas pedidas são os já citados Sushi Leblon e Bar d'Hôtel, além do despretensioso Via Sete e do Felice, unanimidade absoluta entre o público gay.
E, para desfazer certos mitos, vale avisar que no Rio também se comem ótimas pizzas. É verdade que a pizzaria da moda é a paulistaníssima Bráz, que já tem duas filiais cariocas. Mas há outras boas opções, como a Stravaganze, de ambiente moderno, a Capricciosa, pizzaria de grife, considerada por muitos como a melhor da cidade, e, numa linha mais informal, os discos fininhos e crocantes da Pizza Park (Cobal do Humaitá e Cobal do Leblon) e da pizzaria do supermercado Zona Sul. Carioca colocando catchup na pizza, eu só vi mesmo no Pizza Park, que tem cara de bar...
FOME DA MADRUGADA
Até aqui eu vinha dizendo que o Rio não ficava devendo a SP em nenhum aspecto. Pensando melhor, fica sim: a oferta de comida na madrugada é bastante inferior. Mesmo sem bons restaurantes ou padarias 24 horas, porém, há vários lugares que podem quebrar o galho. Dá para tomar um bom lanche em lojas de suco como Kicê (até 2h; até 3h no fds), Bibi (até 2h; até 3h no fds) e BB Lanches (até 3h; 5h no fds), ou comer um temaki na Koni Store da Farme (até 3h; qui./sáb., até 6h). Se um salgado for suficiente, a Fornalha tem três lojas que funcionam 24h.
No clássico Cervantes (até 4h; até 6h no fds), os sanduíches de pernil ou filé com abacaxi (equivalentes em fama ao nosso sanduíche de pernil do Estadão) abastecem a eclética fauna noturna de Copacabana há 55 anos. No Jobi, um dos mais importantes botequins do Rio, a saideira vai até 4h (5h no finde) e pode incluir pratos quentes. Se estiver pela Lapa, o também tradicional restaurante Nova Capela fecha às 5h todos os dias - mas não é qualquer um que consegue traçar um cabrito com arroz de brócolis de madrugada. Só não me peça para recomendar a Pizzaria Guanabara (até 7h): o lugar pode ser fervido e cheio de histórias (Cazuza e seus amigos sempre terminavam a noite ali), mas a pizza é intragável.
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Thiago Lasco
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