quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Do Começo Ao Fim: para sonhar sem pensar

Hoje fui convidado para uma sessão fechada do filme Do Começo Ao Fim, junto com outros blogueiros e jornalistas [para conhecer a história, confira o trailer aqui]. O longa de Aluizio Abranches vem ao mundo carregando um grande peso nas costas. O público gay ficou em polvorosa desde o vazamento precoce do vídeo promocional (que foi acessado por mais de 700 pessoas em apenas duas horas) e passou a depositar nele expectativas bastante altas. Além disso, o assunto central - a relação de dois irmãos que crescem juntos e descobrem que se amam - é polêmico e merece um tratamento cuidadoso.

Para dar conta do recado, o diretor optou por um caminho fácil: focou seu olhar exclusivamente no romance entre os rapazes, isolando-os do mundo ao seu redor. Após um olhar carinhoso sobre a infância de Francisco e Tomás, a narrativa sofre um abrupto corte de 15 anos, os dois protagonistas subitamente percebem o que sentem um pelo outro, e a partir de então passam a viver numa bolha de amor. Nessa fantasia, não há espaço para dilemas ou conflitos: a relação é, no mínimo, improvável, mas não enfrenta nenhum tipo de hostilidade ou obstáculo. O fato de os dois serem irmãos parece ficar em segundo plano e não ter grande importância.

Do Começo ao Fim tem muitos predicados. É superdelicado, tem belos cenários, fotografia e trilha sonora caprichadas. Julia Lemmertz (cada vez mais bonita) está impecável como a mãe dos rapazes. Amorosa e sensível, ela nem precisa de texto para expressar sua ternura - bastam-lhe os olhos e o sorriso. A love story é contada com doçura e intensidade: a declaração de amor (picotada no trailer) que Francisco faz para Tomás é tão bonita que dá para escrever e pendurar na parede; a seqüência dos dois dançando tango nus, embora curta, é marcante. O novato João Gabriel Vasconcellos se saiu muito bem como o irmão mais velho, Francisco, e parece ter um futuro promissor como galã.

Por outro lado, alguns diálogos são sofríveis (sobretudo os da "fase infantil", que soam completamente artificiais) e, se você não for do tipo sonhador, que se deixa levar pela fantasia, talvez comece a apontar vários furos e inverossimilhanças, aqui e ali. Por sorte, sou um romântico incorrigível e meu lado menininha falou mais alto. Como uma parte de mim sempre quis ser o "filhote", sempre procurou um homem um pouco mais velho que cuidasse de mim, me desse carinho e me protegesse, eu me identifiquei com a fantasia proposta e consegui me render à delicadeza da história, deixando o senso crítico de lado. Mesmo assim, senti falta de um fecho à altura: achei que o filme terminou "meio de qualquer jeito".

Para quem simpatiza com histórias água-com-açúcar, Do Começo ao Fim certamente vale o ingresso. Pela forma limpa de mostrar o desabrochar da sexualidade, o filme será uma referência positiva para adolescentes gays, que ainda estão se descobrindo (assim como o fundamental De Repente Califórnia). Às vezes, tudo o que precisamos é de um pouco de fantasia: muitos gays encherão os olhos com a beleza dos atores, e se permitirão sonhar com Francisco e Tomás. Mas não sei se o filme conseguirá convencer um público mais amplo. Não por ter incluído os temas homossexualidade e incesto, mas por ter dado a eles um desdobramento raso, desperdiçando a chance de ser um filme muito maior. No fim das contas, passado o encanto inicial, fica a sensação de que o diretor poderia ter ido mais longe.

30 comentários:

Moacir disse...

Ai, que vontade, Thiago!! Realmente esse é o mais esperado do momento. E você me deixou com mais vontade ainda de vê-lo pois eu sou super romântico, sonhador e perdôo mole, mole as inverossimilhanças em prol da fantasia e do deleite. Já sei que vou adorar.

E se eu não fosse casado me candidatava a cuidar de você, te dar carinho e te proteger, viu? ;ˆ)

Beijo!

João disse...

Por certo que um filme com essa temática - incesto, amor entre irmãos e ainda do mesmo sexo - mereceria um aprofundamento maior. Não sei exatamente porque, mas desde que o vi o teaser na internet meses atrás tive a sensação de que a abordagem seria rasa. Aguardarei a estréia nos cinemas para tirar a prova. Anyway, boa crítica a sua! Beijos caboclos!

beto disse...

realmente temos gostos opostos no cinema! achei De Repente Califórnia péssimo, uma baboseira adolescente cor-de-rosa sem fim. Vc teria gostado se não fosse um filme com personagens gays? Só ter temática gay não é suficiente para mim. Acho que merecemos mais que isso.

nada contra filmes para nos fazer esquecer a realidade - na verdade, adoro, vou no cinema para me divertir e não para meditar sobre os problemas insolúveis do mundo.

só não gosto de filmes estilo Julia Roberts - sejam gays, com gostosões, ou com incesto no meio.

esse filme vai entrar na lista do não-vi-e-não-gostei-e-não-preciso-ver-para-ter-certeza. o trailer foi suficiente.

Anônimo disse...

softporn?...cacaniquel?...autopromocao?....

Diógenes de Souza disse...

A cada novidade, só faz aumentar a expectativa sobre o filme. Espero que o Cinemark traga pra cá, mas acho bem improvável!

Rubem Matias Filho disse...

Sem querer ser rude tb, mas como outros dois comentários acima, pelo trailer já dava para tirar essas conclusões óbvias de que o filme seria raso, sem grandes argumentos, e ficaria a desejar mais, um pouco mais, não tanto ou tudo, mas bem mais do que já era previsível para este filme que eu só vi o trailer, mas sei sim o que me aguarda nos cinemas em breve.
Mas vou conferir sim...
Abração, garotão...

tommie disse...

Ou se é Adrian Lyne ou Bergman, não dá pra ser as duas coisas.

China disse...

Concordo em grande parte com o que disse o Beto sobre "De Repente Califórnia", não tanto por ser água com açúcar, pois de vez em quando, confesso, eu também gosto. (por mais que a gente solte um suspirinho no final ninguém leva muito a sério). Mas principalmente pelo tom maniqueísta do filme. De um lado a irmã filha da puta e do outro o príncipe que vai salvar o garoto perdido de todos os problemas como se amar e ser amado fosse tudo na vida. É, de fato, uma coisa maravilhosa, mas não é tudo.

"Do Começo ao Fim" tenho quase certeza de que não tem nada a acrescentar à vida da platéia, mas ainda acho que vale à pena ser visto, nem que seja pra "não ficar de fora"

Por fim, gostaria de dizer que o filme gay que realmente fez diferença na minha vida foi o inglês "GET REAL", que já vi traduzido de duas formas em português: "NA REAL" é a única que me lembro agora.

Eu já era bem resolvidinho na época (uns 17), mas lembro-me que depois de ter visto esse filme não apenas me senti um ser humano como qualquer outro (isso eu já sabia que era), mas também por ter me sentido especial.

"GET REAL" é realmente O FILME para assumidos, encubados, pais, héteros ou quem quer que seja. Para alguns pode ser decepicionante não ter o típico final feliz de Hollywood, mas quem pensar direitinho vai ver que o final não tem nada de amargo e abro um mundo totalmente novo de possibilidade e, consequentemente, esperança.

uomini disse...

"perdemos a chance de ter o nosso 'broke back' tropical" (frase que ouvi hoje)

Tony Goes disse...

É engraçado, concordamos em quase tudo sobre o filme (vimos juntos). Mas tem uma coisa que você adora nele e que eu achei boba demais, que é justamente o lado fantasia. Também foi por isto que eu detestei "De Repente, Califórnia". Acho que isto se deve às nossas diferenças de idade e de história de vida. Você ainda não encontrou o amor. Eu já tenho 19 anos de casado nas costas, e sei que essas fantasias são só isto, não existem na vida real. E olha que eu tenho um casamento feliz - ou talvez por isto mesmo.

"Brokeback" Tropical é óteeemo! Pena que não seja mesmo este filme, onde não existe conflito.

Don Diego De La Vega disse...

Pois mesmo sendo um conto de fadas acho que vale muito a pena e vai marcar por ser um filme brasileiro.

Quando gays foram retratados como lindos, machos, sem estereótipos, com família que os aceita e respeita numa produção nacional?
Nessa terra machista e com a imensa maioria da população formada por gente burra, ignorante e preconceituosa?

Aliás, quantos filmes nacionais tem gays como personagens que não sejam motivo de humor ou relacionados à violência?

Mesmo sendo doce, acredito que o trabalho vai ficar na memória de muita gente.

Vc acha q é um filme pra gente levar as mães?

Mas não consigo parar de pensar no quanto a gente tem q se preparar para ler/ouvir argumentos asquerosos de religiosos para boicotar o projeto...

CriCo disse...

Já eu adoro um romance "água com açúcar"... a la Meg Ryan, Julia Roberts antes de Closer... e também sempre tive um lado filhote gritante (40's é a faixa etária que mais estou consumindo ultimamente... hehehe). A vida já é tão real, cheia de conflitos e tal... não custa nada sonhar com o príncipe encantado... mesmo que ele fique só nos sonhos... e nas telonas... snif... :~

Rui disse...

acho que deve valer só pela júlia lemmertz. já vi o trailer umas 5 vezes e na parte em que ela começa falando eu choro sem-pre.
toda mãe devia ser assim.
toda futura mãe devia ver o trailer e pensar "tou preparada pra isso?"
se não tá, não seja mãe.
e a música é linda, vc sabe quem é o compositor? me lembrou yann tiersen antes de ser tão comercial... muito bonita mesmo.
obrigado pela crítica. fiquei com muita inveja de vc. :)
abraço!

Diego Silva disse...

Na expectativa pela estreia no circuito nacional. Queria ter a honra de assistir assim como vc, uma sessão fechada...hehehe.
Quem sabe o diretor não fez o fim do filme com a intenção de promover um outro com a história dos netos dos protagonistas...hehehe

Um forte abraço!

Renato disse...

E ae Thiago, blz? Fiquei curioso para perguntar sua opinião no final de sessão mas tinha certeza que vc faria um post a respeito.

Bem, tb publiquei sobre o filme no meu blog e deixo o link.

http://unstextos.blogspot.com/2009/11/filme-do-comeco-ao-fim.html

Abs. R ;-)

Tony Goes disse...

Rui, a trilha do trailer é mesmo um remix do Yann Tiersen.

Mas a trilha do filme é do André Abujamra.

David® disse...

filmes, livros, canções são coisas que sempre servirão de inspiração para as pessoas.

Q esse filme faça parte do nosso acervo e q sirva, não de modelo, mas de referencia para uma juventude gay q está em desvantagem e não consegue se ver nos HSM, Malhação, etc

Too-Tsie disse...

Certeza que eu vou chorar na sessão, choro até em videoclip!

Isadora disse...

acho que o tema do incesto não permite desdobramento raso... pena.

alguns comentários aqui falaram de um filme "gay" leve. você achou que os caras vivem uma relação "gay" ou que são "gays" ou que o que eles vivem é alguma outra coisa? quando vi o trailer, achei que havia uma ambiguidade aí. acho que é difícil classificar relações como essas dentro de identidades como a de gay? o que vc achou?
beijo!
(credo, ando com meu lado intelectual atacado, hehehe)

Juliano disse...

Oi, Thiago!

Eu penso da mesma forma que você. O trailer deixou muita gente com uma expectativa a respeito do filme. Não sei se isso é bom ou ruim. Pelo menos para a divulgação do mesmo é indiscutivelmente eficiente.

Ainda não o assisti e estou curioso para ver o resultado deste trabalho. Quanto à porção conto de fada, Este é um fator bastante relativo. Tenho certeza de que a forma utilizada pelo diretor para abordar este tema foi bastante delicada e acho que um conto de fada é válido se não for raso.

Acho que ele consegue passar uma mensagem, pelo menos foi o que senti ao assistir o trailer e isto é muito bom. Sei que é incomum uma família como a retratada no filme, assim como as "bolhas" citadas, mas não impossíveis. Algumas pessoas realmente sortudas têm a chance de nascer numa família que as deixem viver plenamente e que as apóiem e protejam.

De qualquer forma, pelo seu comentário, o filme não busca forçar a barra ao se utilizar da relação entre irmãos apenas para ser visto. Polêmica pelo simples fato de ser polêmica é a mesma coisa que alguém ser famoso por ser apenas conhecido, como tem acontecido bastante no meio midiático.

Espero pelo prazer de assistir esta obra com olhos críticos, mas também com os olhos do coração. Um pouco de doçura e delicadeza manejadas de maneira correta só fazem bem à nossa vida.

Um abraço!

Leandro K. disse...

cinema nacional ainda não pode exigir muito do público - não vi, mas sei que o brasileiro está acostumado com o surficial que é característico dos americânicos e há uma dificuldade em estabelecer um elo com a platéia.

verei. =)

Binho disse...

Assisti "Get Real", nao gostei.

Pra mim o melhor filme com temática GLS é Antonio, um filme Filipino com final surpreendente:
http://gaythemedmovies.blog.hr/2009/02/1625958000/antonios-secret.html

;)

Alberto Pereira Jr. disse...

Thi, acho que Aluísio podia ter ido milhas mais longe..

Por mais que eu seja romântico e adore um viveram felizes para sempre.. "Do Começo ao Fim" não conseguiu despertar minha sensibilidade. Sim, a fotografia é linda.. Julia Lemmertz É ÍNCRÍVEL! (adoooro), os rapazes são belos e interpretam bem (com destaque para João Gabriel)... mas faltou história.´

O diretor esqueceu que falava de um amor gay, entre meio-irmãos... não ficou em segundo plano, ficou na inexistência. O início "propaganda de margarina" me fez esperar uma ruptura muito grande.. ou um drama forte para contrabalancear.. mas o filme passou, chegou ao final e não veio...

Quando crianças, eles nem sequer tiveram o despertar sexual.. os adultos viram muito mais do que de fato acontecia.. e de repente, eles cresceram e transam a cada cinco minutos.. As perdas dos pais passa batida e não tem o conflito da identidade sexual nem do incesto..

Está tudo OK.. e ele ssofrem pq um tem que morar longe por um tempo?
tudo muito apressado e preguiçoso...

acho que o longa fará um relativo sucesso, afinal a sinopse mostra um tema tabu (que foi esquecido nos guiões da montagem da produção).. e tem nomes conhecidos como Fábio Assunção.. mas só.. como produção cinematográfica, eu, que não sou expert (muito longe disso), considero bem fraco

Anônimo disse...

Galera, acabei de assistir a pre estreia... nao vou falar muito, vale a pena assistir, mas baixem um pouco as expectativas. Acho que eu esperei muito ansiosamente, e por isso sai um pouco decepcionado. concordo com os demais que ele foi demasiadamente superficial...

Anônimo disse...

Conheço pessoalmente um caso desses de amor entr dois irmãos gemeos. A realidade existe.

r5 disse...

como disse no tony, imho, acho q qdo se analisa um filme, assim como qquer outra obra de arte, deve-se levar em consideração a época em que foi feita a tal obra e o momento histórico no qual ela se insere. atualmente, os gays são considerados cidadãos de segunda classe, que sequer têm o direito no brasil de ver sua união reconhecida.

entidades como a glaad dos eua mostram estatisticamente que na esmagadora maioria de representações de homossexuais em filmes ou novelas essas pessoas são caricatas, ou infelizes, ou têm um final trágico.

em vista dessas circunstâncias, quando um filme gay tem um final sabrina, é uma obra que quebra com o padrão heterocêntrico da sociedade e propõem um novo destino para um casal homossexual. um casal feliz, ajustado, com amor correspondido e com final feliz.

o abranches foi muito feliz em realizar o mais lindo comercial de doriana versão gay em longa metragem, incluindo pessoas e uma situação aspiracionais (casa design, mãe médica e independente, pai arquiteto, o outro rico) e mostrar uma situação hipotética, mas que seria maravilhosa se existisse. que bom se filhos não fossem expulsos de casa por serem gays, que bom se o fato de ser gay não gerasse um conflito enorme.

o filme, como obra de arte, colocou na tela o que seria desejado: você poder viver um amor gay sem conflitos. o golpe de mestre do abranches foi colocar meio-irmãos para aumentar a polêmica, e levar mais gente ao cine.

o filme foi bem sacado não perdendo tempo com conflitos por causa da sexualidade ou da situação de incesto e mostrando o amor que os protagonistas tinham um pelo outro. a atuação do ator de barba foi maravilhosa. criou empatia e emocionou a platéia. ele sentiu muito fundo a falta que o irmão fez quando viajou. desta forma, grandes platéias podem finalmente entender que existe amor entre gays sim, não é só sexo, pegação e colocação.

não se perdeu tempo com conflito. usou-se o tempo do filme para mostrar que o amor homossexual também existe e é válido, assim como o amor hetero.

isso é muito diferente de qualquer romance sabrina, que acho improvável que alguma vez tenha trazido um romance homossexual.

tudo bem, os diálogos na fase infantil são bem ruinzinhos e soam no mínimo falsos. mas isso não estraga o comercial de doriana.

o filme merece ser assistido. sinto muito que o tony tenha diminuído a quantidade de espectadores do “do começo ao fim” fazendo uma avaliação tão baixa num veículo de alcance como a folha.

Anônimo disse...

Não vi. Um amigo disse que o filme é raso e cansativo. Tenho a impressão de que o diretor acha que ser gay é, por si só, um tema interessante o bastante para sustentar um filme. Isso é preconceito às avessas.

Ainda espero pelo filme em que o gay não seja mais nem menos do que um mero personagem. Não um filme-panfleto, com esse furor fetichista que os gays adoram causar pelo mundo, mas um filme do qual o gay simplesmente faça parte.

Alex disse...

Por que cansativo? Como cita nosso amigo anônimo anteriormente, faça como eu assista e tire suas conclusões, pois, no final do filme as pessoas reclamaram que havia terminado, queriam mais, as vezes vc fica meio sem entender mas depois vem as respostas para nossas dúvidas e o brasileiro não está acostumado com isso ele quer entender logo o que está acontecendo, fora isso muito bonita a fotografia, os atores, os corpos,como diz Júlia L. ne pré-estréia da Mix, são fantasticom. Espero que não demorem muito para lançarem em DVD, para evitarem a pirataria.

LUKAS disse...

alguem conhece ou sabe o nome do livro que o ator le em uma das cenas?

Mr. Di Netto disse...

Cartas de Um Sedutor (Hilda Hilst)