domingo, 5 de outubro de 2008

Folha de S. Paulo tem bola de cristal

Chique mesmo é estar na frente e enxergar longe. A Folha de S. Paulo tem esse dom: já sabia o resultado do primeiro turno das eleições em São Paulo antes de todos nós. Às 22h00 de sábado - portanto, dez horas antes que a votação tivesse início na cidade - a prestigiosa publicação diária finalizava a edição de domingo, com a seguinte manchete estampada: "Marta e Kassab vão disputar 2° turno".

Não é a primeira vez que o "jornalismo adivinhativo" dá as caras por aqui. Exemplo recente foi a capa da revista Veja de 23 de abril deste ano, que selou o destino dos pais da pequena Isabella, atirada da janela de um prédio na Zona Norte. "Foram eles", sentenciava a manchete, adiantando-se às investigações e promovendo a condenação do casal por conta própria, em flagrante violação ao princípio constitucional da presunção de inocência ("ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória").

O que fazer diante da inusitada vocação futuróloga da Folha? Aproveitar, é claro. Afinal, há uma série de incertezas que nos afligem e que já devem ter sido dissipadas pela bola de cristal do jornal. Já me pus a escrever um e-mail para a equipe com algumas perguntas: e nos EUA, vai dar Obama? Qual será a data mais vantajosa para eu comprar meus pesos argentinos? Que música a Madonna vai usar para fechar o primeiro show em São Paulo? Ela vai cantar "Secret", minha predileta? Quais os números sorteados no próximo concurso da MegaSena?

Só quem fosse além da manchete e continuasse lendo o texto da notícia saberia que o "furo" do resultado foi apenas a conclusão de uma pesquisa do instituto Datafolha. Assim como a Veja colocou, nas entrelinhas, que a certeza de que "foram eles" era da polícia e não dela. Não pode. Na ânsia de provocar impacto e vendas, atitudes irresponsáveis como essas manipulam a opinião pública de toda a população. A Folha jamais poderia ter dado essa manchete. Não hoje. Deveria ter feito como o Estadão, que se saiu muito melhor: "Marta com 35% e Kassab com 27% disputam segundo turno, diz Ibope". Essas duas palavrinhas no final fazem toda a diferença entre a ética e a falta dela.

12 comentários:

Anônimo disse...

não seria a Veja, se fosse diferente. Acabou-se a verdade verdadeira, era uma vez ... a ideologia... Cansei de ficar pasmo com a mídia desse país, que já se vendeu faz tempo. Daí fica assim, pessoas como vc... escrevem ma verdade aqui, outra alí, até que um dia... Não não, eu ainda acredito, é preciso ser romântico eu acho, esquerdo sei lá... não de esquerda... mas esquerdo. Parabéns.

Jôka P. disse...

Aqui no Rio o Gabeira parece estar no segundo turno e o bispo correndo pra escanteio. Acho que estou sonhando... me belisca !
;)
Abç!

Celso Dossi disse...

A capa "FORAM ELES" com sub-título minúsculo foi ridícula.
E o pequeno caixão do filho da Scheila Carvalho na capa da Caras, tava boa?
O inferno deve ser um lugar onde só se chega Caras.

Alexandre Lucas disse...

Eu curto jornalismo de opinião. A Veja exagerou, ao meu ver, na matéria que você citou. Mas o pior é que a Folha, como vimos, acertou. E a Veja eu desconfio que também.

Tiago Pavinatto disse...

Paradoxal. A Folha adivinha, mas tem, em maioria, péssimos profissionais, que se precipitam em falar sobre qualquer assunto de qualquer jeito. Assino o Estado, que, pra mim, é o menos pior.

Alexandre Lucas disse...

Tiago (Pavinatto): a Folha não adivinhou, ela usou os dados de uma pesquisa recentíssima, só isso. Pessoalmente eu acho o Estado um tanto avesso à comunidade LGBT. Nunca publicam uma nota sequer sobre a Parada, ou qualquer coisa que o valha. A Folha até guia faz. Quanto à qualidade, lembro do saudoso Vitor Civita num programa de TV (se não me engano Roda Viva) quando perguntado porque a Veja não tinha textos de melhor qualidade. Ele respondeu com uma franqueza incrível: porque não teria leitores suficientes para sustentar a revista. Triste, mas verdadeiro.

whateveeer disse...

Tiago, eu acho justamente o contrário. O que falta aqui no Brasil é um jornalismo investigativo e agressivo - como lá fora.

Cabe a população parar de ler só manchetes e se ater a todo conteúdo.

uomini disse...

E pra piorar a Folha de São Saulo é o jornal que mais solta tinta nas mãos do leitor (rsrsrsrs). Falando sério: como já desisti da Folha há um tempo (só compro o Estadão) não passo mais por esses sustos! Ótimo texto. Cris.

Anônimo disse...

O impacto das vendas faz parte do mundo real, do jornalismo-negocio, que vc deve ter ouvido falar muitas vezes na faculdade. A credibilidade da Folha esteve a a prova por uma noticia que eles bancaram. Bancar informacao, meu caro, e por a credibilidade a a prova. Sobrevivem os responsaveis, nao os aventureiros.

Anônimo disse...

A imprensa brasileira é imunda!! E a burra classe média se acha informada por essa lixo. Certos estão os pobres...são os que votam mais conscientemente hoje em dia. Votam em quem fez algo por eles, melhorou a vida deles. Enquando a "esperta" classe média vota em quem a Folha ou Veja mandam eles votar.

Anônimo disse...

Estudei numa faculdade de comunicação um tanto elitizada e pareciam todos robôs seguindo fielmente as "lições" deste lixo chamado Veja.

Ainda bem que temos a internet e podemos nos informar de dezenas de fontes ao mesmo tempo. Nunca mais nem vi a capa desse lixo.

Anônimo disse...

oi tudo bem
me add ai
demetriothebest@hotmail.com