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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Picadinho nordestino (parte 2)

Contraste social existe no Brasil inteiro, mas em Alagoas algo chama a atenção: os ricos são muito, muito, ricos. Por algum motivo que desconheço (será o calor?), a grã-finagem local usa e abusa de looks monocromáticos em bege, fazendo a linha "safári do sertão". Os alagoanos estufam o peito de orgulho ao lembrar que o cantor Djavan é de lá. Outra filha ilustre por quem eles nutrem muita simpatia é a ex-senadora (e hoje vereadora) Heloísa Helena. Já quando se fala em Renan Calheiros, eles gaguejam e tentam desconversar. E, antes que se chute o pau da barraca de vez, fazem questão de frisar que o ex-presidente Fernando Collor (que teve um romance com Leila Lopes, segundo a autobiografia deixada pela atriz, vocês viram?) é do Rio de Janeiro. As praias do Nordeste não costumam ter trechos segmentados por tribos, como Ipanema. Mas o trecho mais gostoso da Ponta Verde para ficar é entre os bares Lopana e Kanoa. Aliás, falando em Ipanema, esqueça o grito de "AAAAAAAAAAA-bacaxi!": a marca registrada de Maceió é o mantra "Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ! Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ!", repetido ad nauseam pelos falantes de um exército de carrinhos. Eu não conseguia parar de pedir o suco de abacaxi, laranja e gengibre do quiosque Guaraná Ponta Verde - tomava pelo menos três por dia. Estou longe de ser um santo e já vi diumtudo nessa vida, mas fiquei chocado com o quanto as camisetas com dizeres chulos (produto tipicamente nordestino que faz sucesso entre os turistas da classe C) estão pesadas. Coisa de tirar as crianças da sala! Onde o Brasil vai parar? Alugue um carro e passe um dia redondo no litoral norte: pegue praia em Guaxuma, depois siga até Ipioca, entre no condomínio Angra de Ipioca, almoce com os pés na areia no Hibiscu's (peça camarão ao champagne), e na volta para Maceió, tire fotos no mirante da Praia da Sereia. Já no litoral sul, a minha sugestão para quem tem pouco tempo é pegar praia no Gunga de manhã e em Barra de São Miguel à tarde (quanto mais você se afastar das barracas centrais, em direção às casas de praia, melhor). No fim da viagem, eu já estava me acostumando a ser chamado de "galego" pelos nativos. Para dar um up na vida dos filhos, há quem resolva batizá-los com nomes próprios inspirados no inglês: Kléberson, Dayane, Maicon, Rosicleide. Em Maceió, não vi muitas amostras do "estilo Creysson" - mas notei que nomes comuns recebem grafias diferenciadas, como Kaio, Karllos e Rogéryo. Morro de saudade da torta caseira de mousse de chocolate, pedaços de morango e creme de doce de leite que eu comia no Massarella, meu restaurante favorito em Maceió junto com o Takê. Aqui em São Paulo, muitos torceram o nariz para a favelização do Orkut e migraram para o Facebook - que, até o fechamento deste texto, ainda era tido como cool. No Nordeste, porém, o Orkut ainda é ferramenta de contato fundamental e necessária - todo mundo que você conhece em qualquer situação pergunta se você tem perfil e pede para te adicionar. Não existem gays em Maceió (e nem no Irã), mas, com um mínimo de perspicácia, é fácil encontrar um macho que curta uma brincadeira "na baixa". E a brincadeira que o moço quer, em 99% dos casos, é colocar a "pomba" dele no seu "boga". Mas gay é somente aquele que brinca com a pomba deles, capisce? Bom mesmo é dar risada de tudo isso, e ainda disparar a seguinte pérola, na iminência do abate: "Essa pomba gosta de um carinho?" Ah sim, e antes que perguntem: a amostragem realizada constatou que os alagoanos moram longe, bem longe. Se a liberdade de viajar sozinho e aprontar à vontade não tem preço, é duro ter que pedir para os outros nos passarem filtro solar nas costas - as alagoanas recusavam, ruborizadas: "não posso, eu sou uma mulher casada!".

sábado, 19 de dezembro de 2009

O sobe-e-desce de Maceió

Justiça seja feita: depois de um generoso post com as impressões gerais de Maceió (que foram mesmo muito positivas), chegou a hora de colocar a cidade no mesmo paredão por que já passaram Salvador e Recife. Afinal, deixando um pouco o deslumbramento de lado, sou obrigado a reconhecer que a capital alagoana tem virtudes e defeitos, e não é um destino perfeito para todo mundo (como nenhum outro é). Vamos então aos prós e contras.


UAU:

1) PONTA VERDE. Já falei das maravilhas da Ponta Verde no post anterior: uma praia linda, com coqueiros e mar verde-turquesa, que coloca no bolso as praias urbanas das outras cidades. E isso tudo, a poucos passos de você. Para quem gosta de sair pela porta do hotel, atravessar a rua e entrar no mar, duvido que exista capital melhor do que Maceió. Talvez seja esse o aspecto em que ela mais se destaca no cenário nordestino.

2) O LITORAL ALAGOANO. Fora da capital, existem belas praias para todos os gostos: com mar verde, com mar azul, com ondas, sem ondas, rústica e selvagem, com música alta e cadeiras de plástico, com famílias, com surfistas... Para conhecer todas, eu precisaria ficar pelo menos o dobro do tempo por lá. Minhas prediletas foram Barra de São Miguel (a dos bacanas locais, com belas casas de praia, areia branquinha e mar calmo e cristalino), Guaxuma (mais rústica, mar ondulado, sem muvuca) e Praia do Gunga (como o acesso a ela se faz por escuna ou atravessando uma fazenda particular, a freqüência é exclusivamente de turistas, o que dá uma vibe meio farofenta em alguns momentos; mas é uma das mais bonitas).

3) TUDO É PERTO. Maceió é uma verdadeira bênção para quem quer descomplicar a vida ao máximo nas férias. Esqueça carro, deslocamentos, trânsito. Você faz tudo a pé: vai à praia, ao quiosque de sucos, à lan house, aos restaurantes, à academia, ao point de pegação... Basta que você escolha sua hospedagem na praia da Ponta Verde. (Não, você não vai morrer se ficar no Ibis ou em algum outro hotel da vizinha Pajuçara, menos nobre - mas o entorno não é tão agradável).

4) COMIDA BOA. É bom que se diga: nesse quesito, não dá para comparar Maceió com Salvador e Recife, cidades bem maiores e que possuem uma cena gastronômica riquíssima. Mas não faltam boas comidinhas para quem gosta de repor as energias em grande estilo [aos interessados, já dei algumas dicas no post anterior]. Um diferencial é o serviço, que vai além da cordialidade protocolar, mas sem cair na falsa simpatia. Se você se encantar com algum lugar e voltar mais duas vezes, no final o pessoal da casa já estará te cobrindo de dengos e paparicos (o sushiman Leonardo, do Takê, me presenteou com várias criações fora do menu, um fofo!).

5) FACILIDADES DE CAPITAL. A vantagem de escolher uma capital é poder contar com comodidades sempre bem-vindas. Os bons hotéis têm wi-fi, dois shopping centers grandes e algumas multimarcas dão conta de suas necessidades imediatas de consumo (não que você vá sair de casa para fazer compras em Maceió), e quem não quiser perder o ritmo do corpitcho pode treinar numa academia bem bacana, a K2 Fitness, com aparelhagem novinha, todas as aulas que importam e um staff simpático, atencioso e dedicado como eu vi poucas vezes na vida (meu queixo caiu mesmo; diária a R$25, semana a R$100).

6) UMA RELATIVA SEGURANÇA. Nos comentários ao post anterior, meu amigão sótérópólitano, com os brios feridos e uma pontinha de ciúme (achei isso uma graça, João!), veio logo avisar que a amiga dele foi assaltada em Maceió. É claro que não dá para se expor desnecessariamente: ostentar jóias, deixar a câmera pendurada, ir para o mar e largar as coisas sozinhas na areia, cismar de testar a internet móvel no breu enluarado da praia à meia-noite. Não custa repetir que Alagoas é um dos estados mais pobres e desiguais do Brasil. Ainda assim, dentro do miolo turístico (Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca), a cidade me passou a impressão de ser bem mais segura do que os miolos turísticos das outras capitais (exceto Natal).

UÓ:

1) VIDA NOTURNA. Aceitemos de uma vez por todas o fato de que a riqueza de Maceió são suas as praias, e a melhor coisa a se fazer é dormir cedo depois do jantar para aproveitar bem o dia seguinte. Ser bem menor que Salvador e Recife também significa ter poucas opções de vida noturna - basicamente, alguns bares na orla, com cantores tristonhos dedilhando seus violões, e o Maikai, mistura de bar e casa de shows que é the place to be entre os héteros. Há duas boates gays, mas os partidões da cidade passam longe [ver item seguinte]. Mas quem tiver o olhar atento logo perceberá que não é preciso caçar na noite para atingir os resultados desejados.

2) O ARMÁRIO COLETIVO. Saindo das metrópoles maiores, lembramos que o Nordeste não é lá muito tolerante com a homossexualidade. Os machos de Maceió são bem mais calientes e menos travados que os de Natal, mas há um agravante: no estado onde tudo se resolve com jagunços, se o pai do erê descobrir que o filho não é cabra-macho, ele pode mandar capar você. Assim, só pisam em boate gay aquelas bichas que não têm mais nada a perder. O que não significa que você não possa gozar de sua estadia: na própria Ponta Verde, em se plantando tudo dá, basta saber procurar (não vou dar o mapa da mina, que isto aqui não é o Uomini). De qualquer forma, não se trata de um destino gay friendly: melhor vir desencanado, ou trazer o namorado. Vida gay ativa, você acha em Salvador, Recife e Fortaleza.

3) A FALTA DE UM PLANO B. Não se engane: Maceió não tem absolutamente nada pra fazer a não ser praia, praia e praia. Ao contrário de outras capitais nordestinas, ali não há um patrimônio histórico relevante, nem um circuito de opções culturais. Por isso, vá fora da época de chuvas (maio a agosto) - ou corra o risco de acabar flanando entre o shopping, a lan house e a feirinha de artesanato. E se praia não é a sua praia, melhor escolher outro lugar. Vá para Salvador, que tem tantas facetas para se explorar que a praia acaba nem sendo a atração principal. Ou permita-se descobrir Recife - mas fique hospedado em Olinda.

4) LUGAR "DE TURISTA". Você é aquele viajante que gosta de ser diferente, evitar as massas e descobrir lugares off the beaten track, que fogem do lugar-comum? Em suma, você é um turista que não gosta de estar com turistas? Xiii... Maceió pode não ter se tornado tão manjada quanto Porto de Galinhas, mas está longe de ser um destino inusitado ou underground. A cidade recebe uma fauna bem democrática, incrementada pelos pacotes da CVC, e não tem um circuito descolado, como Salvador ou Trancoso. Você sempre pode ir a praias menos óbvias, que só os alagoanos conhecem - mas a própria juventude dourada da cidade prefere freqüentar a Praia do Francês, onde as barracas tocam música alta e o fluxo de turistas é constante. Para aproveitar melhor, agende sua viagem para março ou abril, ou entre setembro e o começo de dezembro - o tempo está ótimo, há menos muvuca e os preços são mais baixos.

5) PASSIENÇA CAS CRIANSSA REMELENTA GRITÂNU. Ser uma cidade relativamente pequena e tranqüila e ter águas mornas e calmas para banho garantem a Maceió uma inabalável vocação de destino familiar. E família, vocês sabem, quer dizer... criança. Criança apostando corrida pelos corredores do shopping, berrando no restaurante, chorando dentro do avião... Como os pais modernos são cada vez mais incapazes de colocar limites nos rebentos, quem está em volta tem de pagar o pato e contar até cem. Se você, como eu, marcaria "kids: I like them at the zoos" no seu perfil no Orkut, esteja preparado. Para fugir da pirralhada, uma solução é preferir as praias de mar menos dócil, como Guaxuma.

6) POR TRÁS DOS TAPUMES, A REALIDADE. Ao longo da orla, Maceió é linda e fotogênica. Mas é só dirigir alguns minutos para longe da praia que o pano cai, revelando uma cidade pobre e sem encantos (o centro é bem feio), castigada pela desigualdade e com direito a bairros barra-pesada (se o cafuçu-delícia quiser te arrastar para a casa dele em Jacintinho ou Benedito Bentes, agradeça educadamente, mas não vá). Evidentemente, o contraste entre a bolha mágica da zona turística e o mundo-cão do resto da cidade não é privilégio de Maceió: Recife, Salvador, Fortaleza, SP e até mesmo a Cidade Maravilhosa estão aí para não me deixar mentir.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Maceió, a usurpadora

Quando penso em Nordeste, a imagem que vem à minha cabeça é a de uma praia de beleza rara, com águas cristalinas contrastando com um céu muito azul, e ornada por uma fileira de coqueiros bem altos. Corpos morenos, sotaques carregados, caipiroskas, simplicidade, preguiça e hedonismo à beira-mar. Pode até ser que essa visão seja um reducionismo tipicamente sudestino, mas é isso que eu espero encontrar quando resolvo embarcar numa viagem para aquela região. Ao mesmo tempo em que eu busco um refúgio tropical, também gosto de ter certas comodidades urbanas - especialmente bons restaurantes, para terminar meus dias de praia com uma comidinha especial. É por isso que meu olhar explorador começou pelas capitais.

Em viagens anteriores, Salvador, Recife e Natal mostraram seus encantos, cada qual à sua maneira. Mas todas elas perderam um pouco do brilho depois que fui conhecer Maceió. Quando o assunto é praia urbana, a capital de Alagoas dá de dez. O mar de Ponta Verde tem uma tonalidade turquesa que eu só achava possível no Caribe. Não bastasse isso, são águas tranquilas (bem diferentes do Walita-Master-Super-ligado-no-Créu-5 que é Ipanema) e em temperatura realmente agradável para o banho (incomodava ficava a sua avó, que tremia de frio em Floripa). O calçadão é todo novinho, recortado por jardins e uma ciclovia que percorre toda sua extensão, revelando lindos panoramas. Mesmo sendo urbana, a praia tem trechos muvucados e outros mais tranquilos, sempre enfeitados por coqueiros. É tudo tão mais bonito que cheguei a ficar com pena das outras capitais.

Claro que toda "trip Nordeste" que se preza inclui cruzar os limites da capital e explorar as praias mais afastadas. Salvador é ponto de partida para várias (Morro de São Paulo, Praia do Forte, Imbassaí, Barra Grande, Boipeba), Natal tem Pipa e Galinhos, Recife foi praticamente engolida por Porto de Galinhas. O litoral alagoano tem muitas opções, com um bem-vindo diferencial: a praticidade. Tudo é muito mais fácil, perto e rápido do que nas outras capitais. Está viajando sozinho e não quer gastar mais de R$100 por dia com carro alugado? Dá para explorar os litorais norte (Guaxuma, Ipioca) e sul (Francês, Barra de São Miguel) usando ônibus urbano, por apenas R$2,50. Se preferir mais conforto, passeios em grupo saem a módicos R$20 por pessoa (a praia do Gunga, por mais mainstream que seja, é de uma beleza ímpar). Dá para passar a semana conhecendo uma praia diferente por dia, sem enjoar.

Depois de um dia de muito sol e deliciosos mergulhos, nada como repor as energias com um bom jantar. Como capital que é, Maceió não decepciona, com excelentes restaurantes, que vão do brasileiro e regional (Bodega do Sertão, Divina Gula, Canto da Boca) ao cosmopolita (o italiano Massarella, o japa-cool Takê e o buxixado contemporâneo Wanchako, que já causava auê com seus ceviches muito antes do hype peruano chegar a São Paulo). A digestão, você faz com uma agradável caminhada pelo calçadão da Ponta Verde, sentindo a brisa do mar e vendo o vaivém de nativos e turistas - que passeiam, tomam sorvete e bebericam nos bares, numa gostosa celebração do espaço público que já se tornou inviável em cidades maiores.

Aí está outra vantagem de Maceió: oferecer as facilidades urbanas básicas sem perder um certo ar pacato, interiorano. A região onde o turista circula é pequena, gostosa e segura. Esqueça o trânsito, os deslocamentos e as preocupações das outras capitais: ali você faz tudo a pé e realmente entra no clima de férias. Apesar de Alagoas ser um dos estados mais pobres e desiguais do país, o turista não sofre o assédio infernal de pedintes, vendedores e malandros que empesteiam Salvador. Dá para andar na praia à noite, ver as estrelas e até se engraçar com alguém ali mesmo, sem grilos. Como nem tudo é perfeito, Maceió fica devendo em termos de baladas [vou analisar melhor os prós e contras no Sobe-e-Desce de Maceió, um dos próximos posts] mas, com tanta praia bacana e um belo amanhecer às 4h40, é melhor negócio levar uma vida diurna e deixar para cair na jogação em casa.

No fim das contas, Maceió superou todas as expectativas e fechou minhas aventuras com chave de ouro, como a melhor viagem de 2009. Pretendo passar pelo menos uma semaninha por ano ali. Até porque Alagoas tem muito mais a se explorar: não só praias menos manjadas (Coruripe, Carro Quebrado, Porto das Pedras) como outros tipos de passeio (a cidade histórica de Penedo, a foz do Rio São Francisco). Ainda vou conhecer o Ceará antes de dar meu veredito final, mas Fortaleza vai ter que rebolar muito se quiser levar o troféu. As outras capitais têm predicados indiscutíveis, mas, por enquanto, Maceió é meu novo destino preferido do Nordeste.

[FOTOS: (1) o mar turquesa de Ponta Verde, impensável para uma praia urbana; (2) o sol nascendo às 4h40 da manhã; (3) praia do Gunga, passeio que mais chama a atenção dos turistas; (4) sushizinho esperto do Takê; (5) água cristalina em Barra de São Miguel; (6) uma simpática maria-farinha no fim de tarde em Ipioca]