Vou aproveitar o embalo do post anterior (que rendeu mais do que eu esperava!) para falar um pouco mais sobre Salvador. Desta vez, vamos a um dos meus assuntos favoritos: restaurantes! Dá pra comer muito bem na capital baiana - inclusive para quem, como eu, não vai com a cara do dendê e passa longe de acarajés, vatapás e qualquer coisa apimentada. Se os preços são bem compatíveis com os de São Paulo e Rio de Janeiro, pelo menos os frutos do mar são melhor servidos - nada de pedir camarão e receber um pratinho enfeitado com apenas três unidades. Vou organizar as dicas na forma de um passeio virtual, percorrendo os bairros da cidade. Vambora?
Começamos no Pelourinho, é claro. Meu xodó é o La Figa, na rua das Laranjeiras, um restaurante italiano especializado em massas com frutos do mar, com ótima relação custo-benefício - indico o pappardelle mare i monti, com um toque de creme de leite, vinho branco, camarões e shiitake. Se puder gastar um pouco mais, tente os pratos contemporâneos do Maria Mata Mouro. Para comida baiana, você tem o Sorriso da Dadá, a casa mais turística da famosa quituteira, e o Restaurante-Escola do SENAC, uma verdadeira aula de culinária local, em esquema bufê. No Elevador Lacerda, viciados em leite condensado (essa droga poderosa!) têm orgasmos múltiplos na doceira A Cubana, que faz um pudim supimpa [foto] e um sabor de sorvete chamado menina bonita, com leite moça e castanhas.
Pegando a Cidade Baixa e subindo a Avenida do Contorno, temos os restaurantes que mais impressionam o turista. O motivo é um só: todos se debruçam para a vista espetacular da Baía de Todos os Santos - o cenário é mais especial durante o dia, mas também enfeita um bom jantar. O baladadérrimo japonês Soho foi o primeiro a se instalar. No mesmo complexo gastronômico (chamado Bahia Marina) estão o francês Oui, a pizzaria Fiona e o Lafayette, este último com pratos criados pela Carla Pernambuco (Carlota/SP), mas que já foi bem mais gostoso. Mais para baixo em direção ao Mercado Modelo estão o Amado (tido como o melhor do pedaço depois que o saudoso Trapiche Adelaide fechou) e o 496 Grill & Bar, que acabou de abrir e está na moda.
Chegando à Vitória e Graça, bairros adjacentes que formam uma espécie de "Higienópolis de Salvador", temos a espetacular Doces Sonhos, no Corredor da Vitória, que faz os melhores bolos da cidade (as tortas salgadas de peru e camarão também são nota dez). Uma coisa de louco, morro três vezes a cada garfada! Perto dali, na Graça, o japonês moderninho Shiro, e duas delicatessens: Deli & Cia. (na Euclydes da Cunha) e Perini (na Princesa Leopoldina, a maior filial da rede de empórios gourmet, com direito a um ótimo bufê de almoço e sanduíches que você monta a peso, com ingredientes de primeira).
Apesar de ter a melhor praia urbana da cidade, a Barra é surpreendentemente capenga em termos de comida. Quando estou no Porto da Barra e bate aquela fome, vou ao natural Ramma, escondidinho na rua Lord Cochrane. A padaria DelliPorto, na Al. Antunes, faz sandubas honestos. À noite, só consigo lembrar do Pereira, bar-restaurante meio mauricinho e caro, mas com uma varanda deliciosa. Em Ondina, uma das maiores extravagâncias da cidade: o italiano classudo Alfredo di Roma, especializado em fettuccine (uma massa com camarões custa R$65, mas é de lamber o prato). Pegando a Sabino Silva e entrando no Jardim Apipema, dá pra gastar menos nos parmegianas da Cantina Volpi ou no simpático Mariposa, que serve crepes, sucos e temakis em clima praiano.
O boêmio Rio Vermelho é o bairro com mais opções. A rua Fonte do Boi, onde ficam os hotéis Ibis, Mercure e Pestana, alinha o natural Manjericão (exuberante, construído no meio do mato, bom para depois de uma prainha no Buracão), o japonês Sushi Deli, os versáteis Confraria das Ostras e Dogma, com menus bem variados (e almoço executivo), e o Ciranda Café, ponto de encontro das lésbicas da cidade. O bairro ainda tem as redondas da Companhia da Pizza e do Piola, o japa ocidentalizado Takê (com farto rodízio a R$55), o novo Sabores de Dadá, o contemporâneo Salvador Dalí e o brasileiro Dona Mariquita, que faz uma excelente feijoada de frutos do mar, sem nenhum gosto de dendê. Para a fome da madrugada, dá para escolher entre o trash McDonald's, o saudável (e demoraaaado) Suco 24 Horas Rio Vermelho ou o conjunto de botecos do Mercado do Peixe.
Mais adiante, a Pituba é um bairro que eu explorei pouco - a maior parte das comidinhas está mais afastada da orla, em direção ao Caminho das Árvores e Itaigara, que formam a "Moema local". Só penso em guloseimas proibidas: uma filial d'A Cubana, numa galeria próxima à Praça Nossa Senhora da Luz, onde dá pra degustar o tal pudim sem ser molestado pelos pedintes do Elevador Lacerda, e uma unidade maior e ainda mais pecaminosa da Doces Sonhos, na Paulo VI, para se jogar e perder a linha mesmo, afinal você está na Bahia e não no Rio de Janeiro. Seguindo a orla em direção ao norte, a praia da Armação tem três endereços muito queridos pelos nativos: os tradicionais Ki-Mukeka e Yemanjá, boas pedidas para um almoço bem típico, e a churrascaria Boi Preto, considerada a melhor da cidade pelo júri da revista VEJA. Já em Itapuã, o Mistura é craque em pescados e frutos do mar - ainda tô louco pra provar os camarões graúdos ao prosecco com risoto de amêndoas.
Por fim, dois endereços para quem não se incomoda em sair um pouco da rota: o venerado Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara no Cabula (o dono prepara moquecas exóticas com as frutas cultivadas lá mesmo; preciso conhecer sem falta da próxima vez!) e a tradicionalíssima Sorveteria da Ribeira, no bairro do mesmo nome - que parece uma vila de pescadores, e pode render uma tarde gostosa, se combinada com um pulinho na Igreja do Bonfim e um pôr-do-sol cinematográfico na Ponta do Humaitá. Bom apetite, meu rei!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Varredura gastronômica soteropolitana
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Thiago Lasco
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terça-feira, 15 de março de 2011
Carnaval de Salvador para não-iniciados
É A SUA PRAIA? Antes de embarcar, reconheço que não sabia se iria curtir. Nunca fui fã de axé e tive medo de que a experiência se resumisse a uma dança da garrafa coletiva. Mas não foi nada disso. O choque cultural foi bem menor do que eu esperava, e durou só até a segunda vodca. O importante é ir sem preconceitos: encare a coisa como "música pop" (e não é, oras?), baixe a guarda e se deixe levar. As bandas que tocam nos grandes trios são afiadas e constroem linhas de baixo rebolativas, cheias de groove, muitas vezes tão dançáveis quanto uma boa house music. Com o diferencial de que a multidão toda sabe cantar o refrão, o que produz um efeito multiplicador de alegria do qual não dá para escapar ileso. Sabe aquele clichê de "todo mundo no mesmo astral, na mesma vibe"? Não poderia ser mais verdadeiro. Na terça, saí atrás de dois blocos, num total de mais de doze horas seguidas - e fiquei triste quando acabou.
MAS O QUE TOCA AFINAL? Vou reforçar o que eu disse no item anterior. Você não vai ouvir só aqueles chicletes de gosto duvidoso, herdeiros da Dinastia Tchan, que traduzem a nossa concepção mais leiga de "axé music". Claro que eles também marcam presença: são lançados justamente nessa época, para tentar estourar no Carnaval de Salvador e, com isso, ganhar espaço nos programas de auditório da classe C pelo Brasil afora (a pérola de 2011 foi "Liga da Justiça", do Leva Nóiz, com o refrão "foge foge Mulher Maravilha, foge foge com o Superman"; você ainda vai ouvir essa música, querendo ou não). Por outro lado, o som de cantoras como Ivete Sangalo já está muito mais próximo do pop, um pop genuinamente brasileiro, do que qualquer outra coisa. Além disso, as atrações não se prendem ao seu próprio repertório: estão sempre cantando músicas de outros artistas. O momento musical mais marcante do meu Carnaval não foi nenhum desses hits mais óbvios, do tipo "na boca e na bochecha", mas uma versão de "Toda Menina Baiana", do Gilberto Gil, que Ivete apresentou em frente ao camarote do próprio, e me deixou cantando "ô-ô-ô, ah-ah-ah" por três dias seguidos. Outra bola dentro, também da fofa, foi uma releitura de "Corazón Partío" (Alejandro Sanz) - que me pegou totalmente de surpresa. Tive que me render.
QUEM VEM? Todo mundo: grupos de jovens querendo pegar geral, famílias inteiras que vêm em caravanas do sertão e superlotam apartamentos alugados, crianças, adolescentes, gente mais velha (no Nordeste as pessoas não "baixam a bola" depois de uma certa idade, como em SP), héteros e gays. Nada de guetos: aqui, o povão se mistura mesmo, e a cidade fica em polvorosa. Dentro das cordas dos trios é que rola uma (relativa) segmentação. Por isso, o lance é você fazer aquela pesquisa prévia básica, e então ir montando a sua programação de blocos. Seus critérios de escolha serão: o perfil do público (tô indo pra beijar moin-to? só quero encontrar paulista e mineiro? recebo Ogum ou seguro o Tchan?), o preço do abadá (que também é altamente relativo, como discutirei mais adiante) e, of course, a atração que puxará o bloco (caso você tenha um ladinho oculto que adooora Cláudia Leitte, por exemplo).
OSMAR OU DODÔ? Todo mundo está cansado de saber - menos você, que é tão desinformado quanto eu era: os 2 maiores circuitos são o Osmar (também conhecido como Avenida) e o Dodô (ou Barra-Ondina). Alguns blocos fazem apresentações em ambos, em dias diferentes. Mais antigo, o Osmar sai do Campo Grande, com o sol do meio-dia a pino, e percorre as tortuosas ruas do Centro; o Dodô pega a orla, do Farol da Barra até a metade de Ondina, e os blocos saem principalmente à noite. No Osmar, o calor é maior, o trajeto é mais apertado e convém redobrar os cuidados com a segurança; já o Dodô parece um sambódromo, largo, iluminado, refrescado pela brisa do mar - e amplamente televisionado para o Brasil e o mundo. Por outro lado, é mais divertido estar cercado pela multidão humilde, que interage e vibra das janelas dos cortiços puídos do Centro, do que pelo povo insípido dos camarotes da Barra, que olha tudo com cara de tédio, em meio a balões infláveis de bancos e portais de internet. O Dodô é confortável e ultracomercial, o Osmar é roots e mais autêntico. Na dúvida, vá de Dodô - mas experimente pelo menos um dia de Osmar.
APARTHEID Sim, o Carnaval de Salvador tornou-se megacomercial e esse é um caminho sem volta. Muita gente reclama que antigamente era melhor, que o sentido de festa popular se perdeu, com as pessoas divididas em castas, dentro e fora das cordas, com ou sem abadás... Confesso que tenho mixed feelings em relação a isso. Por um lado, seria lindo se todos que quisessem pudessem ter acesso. Os próprios cordeiros - os cafuçus contratados pelos trios para segurar as cordas e garantir que os penetras não entrem - pedem esmolas a você durante o percurso, fazendo você lembrar que faz parte de uma elite. É triste, e falo isso sem qualquer demagogia. Por outro lado, sem corda e sem abadá, a coisa toda se tornaria impraticável - seria tanta, mas tanta gente, que os trios não sairiam do lugar. Quem não tem bala na agulha tem que se contentar com a "pipoca" (assistir ou seguir os trios no aperto do lado de fora das cordas), ou então esperar a quarta-feira de cinzas - quando o tradicional Arrastão, sem cordas, reúne estrelas como Ivete e Timbalada.
MADRINHA DAS GUEI Acredite se quiser: Daniela Mercury não pendurou as chuteiras em 1992, após "O Canto da Cidade". Ela continua gravando discos, vende superbem na Bahia e, mais do que isso, comanda um dos blocos mais fervidos do Carnaval baiano, o Crocodilo. Enquanto nos outros blocos os gays se infiltram, aqui eles são absoluta maioria. É um verdadeiro mar de homens desfilando e se beijando em plena avenida, a céu aberto, sob os olhares dos camarotes e das câmeras de tevê. Não que o público se choque - mas várias bees de Salvador não seguram a onda de tanta exposição pública e acabam evitando esse bloco, tão notoriamente gay que o abadá em si já vem com um carimbo "SIGNIFICA". Daniela se comporta como uma verdadeira mestre-de-cerimônias: começa com um show de delicadeza, pedindo que foliões, cordeiros e pipocas respeitem-se uns aos outros, e depois conduz a massa com absoluto domínio e um repertório dançante (zum-zum-ba-ba!), que funde épocas e estilos. A noite passa voando. O Crocodilo sai entre domingo e terça, sendo que a primeira noite é a obrigatória, em que todo mundo vai, e a última também é especial pelo clima de despedida. Segunda é a noite que se convencionou pular.
MADONNA BRASILEIRA Dentro e fora do Carnaval de Salvador, poucas cantoras do universo pop brasileiro desfrutam hoje de um status tão privilegiado quanto Ivete Sangalo. Na folia soteropolitana, primeiro ela se apresenta como contratada em outros trios (Salvador na sexta, Cerveja & Cia. no sábado), depois comanda três dias no seu próprio bloco, o Coruja (domingo e terça no Osmar, segunda no Dodô). É uma reunião de fãs: diante da simples visão de Ivete no topo do trio, o público sorri abobado e completamente entregue. Sejamos justos: Ivete é linda, tem carisma e está acumulando um repertório respeitável de sucessos. E pincela umas covers bem bacanas, como eu disse mais acima. Só que ela canta no máximo uns 30% da letra: ela manda um verso, joga o microfone pro público e só vai completar o trabalho no final da estrofe seguinte. Assim, até eu faço cinco apresentações seguidas, meu bem. Fui no último dia (terça). No começo do bloco, eu via tantas meninas de rabo de cavalo que pensei que tinha caído em algum fretamento para a Disney. Aos poucos, os gays foram aparecendo, a bebida foi subindo e começaram a pipocar uns beijos aqui e ali. A pegação é mais esparsa, mas o pessoal é beeem mais bonito do que no Crocodilo.
MUITO MAIS Nessa minha primeira experiência, procurei escolher blocos que tivessem alguma presença gay e um clima mais solto. Afinal, não queria correr o risco de me sentir um peixe fora d'água. Ivete e Daniela são as duas divas, ao ponto de cada biu local ter e defender a sua preferida (uma coisa "Britney vs. Aguilera"). Mas o Carnaval de Salvador vai muito além dessa dualidade: há outras atrações tão ou mais bombadas, como Cheiro de Amor, Banda Eva, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Olodum e Timbalada. Isso sem falar do célebre afoxé Filhos de Gandhy (só Freud explica por que as mulheres têm taaaanto fetiche por aqueles homens vestidos de baiana do aracajé!), dos blocos eletrônicos (neste ano foram três: David Guetta, Will.I.Am/Skol e Liberty, um bloco tribal-GLS que foi o erro) e dos blocos menores, que desfilam sobretudo no circuito Batatinha, no Pelourinho. Da próxima vez, não vou abrir mão de um Crocodilo e um Coruja, mas pretendo dar uma diversificada.
É DIA DE FEIRA Um dos maiores inconvenientes é o preço dos abadás, especialmente dos blocos de artistas mais bombados, como Chiclete com Banana, Asa de Águia e a própria Ivete. Pelas vias oficiais (Central do Carnaval ou Axé Mix, conforme o bloco), você chega a desembolsar mais de mil reais por um único abadá, e sem direito a open bar. Para quem não é rykah de berço, o jeito é se jogar nas duas feiras de cambistas: no Jardim Brasil (atrás do Shopping Barra) e nas imediações do Aeroclube. A economia pode passar de 80%, especialmente se você comprar mais em cima da hora (afinal, depois que o trio passou, o abadá perde todo o valor). Tenha sangue frio e negocie. Como o pagamento só pode ser em cash e todos sabem que você estará com os bolsos cheios, vá em grupo e tome cuidado para não ser roubado, especialmente no Aeroclube. Vencida a batalha da compra, é só customizar seu abadá e sensualizar na avenida. Você pode recorrer a uma das inúmeras oficinas espalhadas pela cidade, ou arrasar sozinho com sua tesoura, tomando o cuidado de não cortar o nome do bloco, o logo do patrocinador e as marcas de autenticidade, o que pode inutilizar o abadá. Se estiver com preguiça, apenas passe o abadá por trás da cabeça - pagar peitinho sempre funciona.
SURVIVOR E por falar em dinheiro, se você se deparar com um caixa eletrônico que funcione, aproveite: essa poderá ser sua última chance. Se uma das máquinas for daquelas que só soltam notas de R$2 ou R$5, deixe escorrer uma lágrima de emoção e faça tantos saques quanto for possível: na avenida, dinheiro miúdo vale ouro, porque é muito difícil estender uma nota de R$20 e esperar o troco quando se está bêbado, no meio de uma multidão tomada por Iansã. O negócio é jogo rápido: com uma mão você estende a nota, com a outra pega a bebida e desaparece. Ah sim, é fun-da-men-tal andar com um daqueles porta-dólares por baixo da roupa: nele você leva seu dinheiro, sua chave e um documento velho. No bolso, não leve nada. E nos pés, um tênis velho e confortável - que ficará imprestável, portanto traga também um par sobressalente para os momentos off-bloco.
CAMAROTES Outra maneira de curtir a festa é comprar ingresso para um dos muitos camarotes que ficam dispostos ao longo do circuito Barra-Ondina, e assistir ao desfile dos blocos com mais conforto. Cada camarote é uma festa em si, com comida, bebida e música independente (a cargo de bandas e/ou DJs), o que significa que você pode passar a noite curtindo ali dentro e simplesmente abstrair os blocos, se quiser. Assim como acontece com os trios, há camarotes para todos os gostos e faixas de preço. Fatores para comparar: o tipo de público (desde celebridades até o povo da firrrrma), as atrações (bandas/DJs, que só interrompem o som quando um bloco está bem em frente ao camarote), a comida e bebida (nos mais simples, a bebida é vendida à parte; nos mais caros, all inclusive, há até sushi e comida contemporânea) e a localização (afinal, um dos grandes atrativos é a visão privilegiada que se tem da avenida, aquela multidão vista do alto é uma cena e tanto). Minha opinião sincera? Vale a pena pegar um camarote naquele dia em que você precisa fazer uma pausa e descansar. Mas, enquanto quem está no camarote assiste ao Carnaval, quem está no bloco participa, protagoniza, vive o Carnaval. Quando eu olhava lá de baixo os rostos debruçados nos camarotes, tinha a impressão de que ninguém ali estava se divertindo tanto quanto eu.
ABRIGO O melhor dos cenários, na minha opinião, seria você alugar um apartamento na Graça, meu bairro preferido: prédios antigos, apês enormes, perto o suficiente dos dois circuitos para você ir a pé, mas sem nenhum barulho ou muvuca. Caso você fique em hotel, reduza suas escolhas a três bairros: Barra, Ondina ou Rio Vermelho, cada qual com prós e contras. Na Barra, você tem fácil acesso à "largada" do circuito, mas será obrigado a respirar carnaval 24 horas, pois o bairro, que tem poucas ruas, fica tomado de gente, lixo e barulho o tempo todo. Na Ondina, onde ocorre a dispersão, o barulho noturno também pode incomodar - boa parte dos hotéis fica ao redor dos camarotes, por onde passam os trios. Pelo menos você sairá do bloco, exausto, a poucos passos da sua cama. No Rio Vermelho, você terá que se deslocar diariamente para a Barra (e pegar congestionamentos, dependendo da hora e caminho escolhidos), mas você tem a melhor estrutura de bares e restaurantes (na Barra as opções são sofríveis), além de uma rede hoteleira mais recente. Outros bairros? No Carnaval, eu só consideraria se fosse para ficar como convidado na casa de alguém.
BABADO FORTE? Aposto que tem leitor meu que só seguiu o texto até aqui porque estava esperando pela parte em que eu falo dos cafuçus. Pois é, para quem curte essa beleza bem brasileira, a Bahia é o paraíso na Terra - já declarei publicamente por aí que os baianos estão no topo da minha lista de preferências. Os braus locais ("cafuçu" é coisa de pernambucano, jamais ouse pronunciar esse termo na Bahia, eles acham pejorativo!) são mesmo de babar, colega. Além disso, a capital soteropolitana é a terra dos "héteros que fazem" - aqueles bofes que, na maior discrição, mandam ver mesmo, e nem venha você querer definir a sexualidade deles. No entanto, por incrível que pareça, o Carnaval de Salvador não é tão sexual como alguns podem imaginar. Claro que as pessoas estão ali para se permitir, mas, em sua grande maioria, o que elas querem é beijar, não necessariamente transar. É um clima muito mais puro e brincalhão, de curtir a música, sair com sua galera, beijar muito, dar risada e não ter grandes preocupações, do que um açougue da carne como em outras praças.
RELAXE, MEU REI Aos cri-críticos de plantão: venham vacinados para conviver com os problemas da cidade, sem deixar que eles azedem o seu bom humor. Nesses dias frenéticos, Salvador fica ainda mais suja. É preciso manter-se alerta contra os furtos (mas sem neurose! também não é tão perigoso assim). As avenidas de acesso que formam o yakissoba viário da cidade (Centenário, Garibaldi, Vasco da Gama, Cardeal da Silva, Vale do Canela) freqüentemente engarrafam - escolher o caminho mais livre é pura questão de sorte. O serviço é um dos piores do Brasil, oscilando entre a simples ineficiência e os maus tratos ao cliente. Não espere ouvir um "por favor", "com licença" ou "obrigado" - e, quando você agradecer, tampouco ouvirá resposta. Mas nada disso estraga o brilho da festa. É só você ir com o espírito preparado. Ninguém ali quer receber suas lições de civilidade. E lembre-se: na Bahia, uma hora tem 90 minutos.
COMBUSTÍVEL Salvador tem excelentes restaurantes [já falei sobre alguns no blog e voltarei ao tema no próximo post]. Nada como pedir um prato com camarão e receber camarão de verdade. Mas vá por mim: nos dias de Carnaval, você dificilmente vai querer perder tempo com grandes deslocamentos e comida que pode pesar no estômago. Se quiser usufruir da gastronomia e das atrações turísticas de Salvador, o ideal seria viajar em outra época, ou pelo menos pegar mais alguns dias antes (lembrando que a festa começa já na quinta, não no sábado!) ou depois do Carnaval. No corre-corre do circuito, você vai ter que se virar com comida rápida de barracas (salgados, pizzas etc.) e os sanduíches e vitaminas do Suco 24 Horas. Provavelmente, sua maior preocupação será o álcool (que é absolutamente essencial, diga-se de passagem). Dentro dos trios, tudo é mais caro: fora deles, se você não curte cerveja e acha as bebidas ice fraquinhas demais, terá um pouco mais de trabalho até achar uma vodca que seja confiável. Por isso, os mais espertos compram uma garrafa de Smirnoff ou Absolut, gelam em casa e levam para o trio em garrafinhas de água de 500ml, ou naquelas mochilas etílicas do tipo camelbak.
FOI BOM PRA VOCÊ? Posso afirmar com segurança que essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito para o Carnaval de 2011. Se eu voltarei? Não tenho a menor dúvida que sim. Todo ano? Provavelmente não, porque os preços são salgados demais para o meu bolso [nem sei como teria sido sem o apoio e a hospitalidade de meu amigo David, a quem deixo meu beijo e muito obrigado!]. E porque eu também curto o Carnaval do Rio de Janeiro e de Florianópolis, cada um do seu jeito. Salvador provavelmente vai entrar no meu rodízio com as outras duas cidades - ainda que o astral de lá seja dez vezes maior do que o da primeira e duzentas vezes maior do que o da segunda. Sem tanto carão, sem tantos guetos, conhecendo gente diferente. Na terça, quando os trios chegavam perto do fim, tocando os clássicos eternos, os foliões felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, não querendo que aquilo acabasse... aquilo foi um momento totalmente emocionante, uma sensação que eu nunca pensei que pudesse ter. Foi aí que caiu a ficha que eu tinha realmente entendido o Carnaval de Salvador.
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Thiago Lasco
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12:42 AM
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terça-feira, 1 de março de 2011
Baianizer
Escrevo este post na maior correria do mundo. Estou tentando dar conta das últimas pendências no trabalho, para poder sair depois do almoço e cruzar a cidade (alagada) até o aeroporto de Guarulhos. Meu Carnaval começa hoje, e dessa vez vou romper com o tradicional rodízio entre Rio de Janeiro e Florianópolis. Neste ano que está sendo marcado por tantas novas experiências, chegou minha hora de finalmente conhecer o Carnaval de Salvador. Vou cair na folia e depois dar uma descansada por lá até o dia 13.
Assim que confirmei a viagem, saí à caça de informações para poder montar minha programação. Conheço bem a cidade, mas sou totalmente leigo nesse assunto: se me pedirem o nome de três músicas de axé, vou saber dizer "Arerê", "A Dança do Vampiro", "O Canto da Cidade" e olhe lá. A festa baiana é um emaranhado de blocos e camarotes, espalhados por três circuitos diferentes, ao longo de seis dias (na Bahia, o babado começa já na quinta). É preciso pesquisar um pouco para entender as sutilezas, qual o tipo de público, se é mais friendly, se vale ou não a pena, e então tomar as decisões e comprar os respectivos abadás. Até porque é tudo caro pra cacete: para entrar na cordinha do Coruja, o bloco de Ivete Sangalo, pagam-se escorchantes R$650 por dia! E tem muita gente que compra os três dias e paga sem reclamar, jurando de pés juntos que é uma magia toda mágica, algo que não tem preço, que só vivendo para entender.
Engana-se, porém, quem pensa que o Carnaval de Salvador se resume ao axé. Existem trios com outros estilos musicais, desde as clássicas marchinhas até rock, reggae e música eletrônica - neste ano representada por nomes como Armin Van Buuren e David Guetta. Outro equívoco, reforçado pelas transmissões da televisão, é pensar que nessa festa só os héteros se dão bem. O bloco Crocodilo, capitaneado por Daniela Mercury, tem maciça presença gay. A fama do Crocodilo é tanta que muitos nativos, não querendo ter seu filme queimado numa sociedade onde as coisas acontecem por baixo do pano, acabam migrando para outros blocos, como o próprio Coruja, onde se jogam do mesmo jeito, no meio da multidão. Para quem prefere fazer a linha barbie-túrica, sábado será dia da Pool Party Salvador, com produção caprichada e Offer Nissim e Ana Paula no som - uma festa que promete não ficar devendo às similares do Sudeste, e será emendada num bloco eletrônico (Liberty) que percorrerá o circuito Barra-Ondina.
É claro que vou conferir a programação GLS, que ainda contará com o camarote Vipado, do fofo Ailton Botelho [informações aqui] e as madrugadas do repaginado clube San Sebastian, que funcionará em clima de after. Mas confesso que estou até mais curioso com os blocos não especialmente direcionados, como o de Ivete, que fazem a cabeça de verdadeiras multidões. Nunca fui muito fã do estilo, mas não ficarei admirado se, de repente, eu me pegar dançando e cantando junto, e simplesmente me deixar levar. Tudo pode acontecer. Estou embarcando nessa para me surpreender - coisa que certamente não aconteceria no Rio ou em Florianópolis, onde as mesmas festas trarão os mesmos DJs nos mesmos dias da semana dos anos anteriores, e a única novidade será tocar "Born This Way" no lugar de "Bad Romance". Bom carnaval a todos! Segurucu!
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Thiago Lasco
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11:35 AM
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Sauípe 2010: muito Heaven e pouco Hell
Hell & Heaven 2010. Pela segunda vez, o resort Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, hospeda um festival de música e festa para o público gay. Dois hotéis do complexo são fechados para o evento, divulgado ao longo de doze meses por meio de ações promocionais nas principais capitais e na mídia especializada, atraindo homens de vários estados brasileiros, dispostos a se jogar em festas alucinantes. "Qual é o seu pecado?", provocava o mote do H&H. Depois de anos de estrada em Carnavais, Réveillons e Paradas no eixo SP-Rio-Floripa, o que esperar e como se preparar para um trem desses? O melhor é respirar fundo, cortar os carboidratos, comprar um bom suprimento de camisinhas e já deixar o nome na fila de transplantes de fígado pelo SUS: a jogação tem tudo para ser intensa. Afinal, a fórmula é a mesma de sempre, só que dessa vez enfeitada com uns coqueiros baianos. Certo?
Pois não foi bem assim.
Para começar, o H&H não foi, nem de longe, tão pesado como eu imaginava. Pensei que seria um turbilhão nonstop das 12h de sexta às 12h de domingo, tipo "salve-se quem puder". Mas a programação do evento foi muito bem amarrada, intercalando períodos de festa e de descanso. Todo mundo pôde fazer todas as refeições (comendo apenas o necessário, já que o bufê era medíocre, com exceção do café da manhã) e também dormir, sem comprometer a farra. É lógico que dançar e tomar o sol forte do Nordeste cansam o corpo, mas cheguei em casa muito mais inteiro do que nas minhas voltas do Carnaval no Rio ou Florianópolis. E olha que, antes do Sauípe, eu já estava me jogando em Salvador havia uma semana.
Outra surpresa: as festas cumpriram seu papel, mas não foram os pontos altos do H&H. O que se fazia era simplesmente montar um palco e um telão na área da piscina de um dos hotéis (e, na festa seguinte, na piscina do outro, dando uma ideia de variedade), ligar o som e chamar os DJs. Sem qualquer refinamento (o tal selo argentino só deve ter emprestado o nome), sem aquele clima de grande produção que marca as tardes de Rosane Amaral no Rio e as noites de André Almada em SP. Nem mesmo a festa principal - a noite de sábado, trazendo o headliner Peter Rauhofer - fugiu disso. A produção poderia ter projetado luzes coloridas nos coqueiros, uma ideia simples que teria criado um efeito incrível, mas se limitou a repetir o telão e meia dúzia de luzes sobre as pessoas, que se equilibravam nos desníveis do terreno acidentado para dançar.
Um fator que contribuiu para que as festas não impressionassem tanto: o evento já mantinha um clima festivo o tempo todo. Na chegada ao resort, o público era recebido para o check in com house e tribal; depois, na piscina, mais música; chegando no salão para jantar, lá estava Offer Nissim nos falantes para dar uma animada. Por isso, quando começava uma "festa propriamente dita", não havia um incremento de emoção em relação aos períodos "sem festa": o que acontecia era uma mera mudança de cenário. Se eu senti uma diferença maior na noite de sábado, foi pelo aumento do público (os moradores de Salvador tiveram a opção de comprar o ingresso avulso para essa festa), pelo som do Peter (que deu o clima mais encorpado que a noite pedia), e também pelo fato de que aquele era, afinal, o clímax antes da despedida. (E foi mesmo especial viver o amanhecer daquele cenário, com o marzão crescendo diante dos nossos olhos ao som de um Peter inspirado).
Além disso, a pegação também ficou aquém do que se podia esperar ao se colocar um monte de homens gays, bonitos, isolados num cenário daqueles. Enquanto dava meu giro de reconhecimento pelo resort, eu imaginava o povo indo aprontar na praia de madrugada, se comendo nas moitas e matinhos que enfeitavam as áreas comuns, zanzando freneticamente pelos corredores de um quarto para o outro. Mas não vi nada disso; se chegou a acontecer, então eu estive nos lugares errados, ou na hora errada. Mesmo durante as festas, achei a beijação bem mais contida do que num bom Carnaval - sendo que estávamos no Estado brasileiro onde mais se beija nessas festas, e fiquei lúcido o suficiente para entender o que se passava ao meu redor. (Logo eu, que me fantasiara num quarto de hotel com mais três, fazendo um picante role play nordestino, sendo a rolinha de vários coroné, enfileirados para colocar a pomba no meu boga e me dar uma boa pisa... Só fiquei zen porque já tinha chegado de Salvador pra lá de saciado!)
Mas nem por isso eu deixei de gostar do Hell & Heaven. A experiência valeu a pena e eu certamente repetiria a dose! O espaço do resort é muito bacana, as áreas comuns são grandiosas e, se a praia não é particularmente bonita para os padrões baianos, é mais do que suficiente para encantar mineiros e brasilienses (esses grupos eram maioria; já baianos e pernambucanos, vi bem menos do que esperava). Meu quarto era bastante confortável, e o outro hotel oferecido era ainda melhor. Sei que não temos que buscar o gueto e sim a inserção social, e blá blá blá, mas foi sensacional ter toda a estrutura do Sauípe só para nós, gays. Isso sim eu considero o grande highlight do H&H. No café, nas piscinas, em toda parte, todo mundo tranquilo, integrado, falando a mesma língua, vivendo a mesma onda. Reconheço que no final eu já estava até meio enjoado de ver tanto viado junto, mas o evento teve a medida certa. Talvez eu colocasse um dia a mais para o povo poder curtir o resort (tivemos apenas o sábado inteiro, os outros dois dias foram de trânsito), mas não mais do que isso.
Acima de tudo, preciso reconhecer que o astral do H&H esteve lá em cima o tempo todo. As pessoas pareciam desarmadas, tranquilas. Talvez tenham cansado de seguir à risca a cartilha dos excessos e resolvido simplesmente relaxar e curtir o resort, sem maiores pretensões. O clima era tão leve, mas tão leve, que eu poderia ter gravado um vídeo compacto do evento e mandado para minha mãe. E o evento foi um sucesso: na reta final, todos os quartos acabaram vendidos, e já estão marcadas duas edições em 2011, em maio (Angra dos Reis) e novembro (Sauípe novamente). Se foi um pouco diferente do que eu imaginava, numa próxima já irei com o espírito mais preparado. No aeroporto de Salvador, na fila do check in para SP, eu continuava me surpreendendo com mais e mais homens lindos, que também voltavam no H&H e eu nem tinha visto. Todos com uma cara boa, realizados. Talvez a gente possa se reeducar para não ter que beijar todas as bocas e se atracar com todos os corpos para sentir que aproveitou, se divertiu e foi feliz.
[Foto: Genilson Coutinho/ACapa]
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Salvador: nada ficou no lugar
Sinto desapontá-los, isto dói mais em mim do que em vocês, mas Salvador não presta mais. Agora que o Bar da Ponta fechou as portas, não tenho mais nada para fazer naquele fim de mundo, então beijos e nos vemos no Rio de Janeiro. Claro que estou brincando: mesmo com a perda irreparável do meu xodó (que era tudo de bom, fiquei arrasado), o saldo da minha quinta visita à capital baiana foi bastante positivo. Mas é fato que encontrei uma cidade menos legal, já que várias de suas atrações mais bacanas simplesmente deixaram de existir. O saudoso Bar da Ponta, que Deus o tenha, foi engolido por um empreendimento imobiliário de alto padrão, junto com o bacanudo restaurante Trapiche Adelaide, do qual era anexo. Quem também deixa saudade são as megabarracas que transformavam as praias do Flamengo e Stella Maris em puro fervo. Por conta de uma quizila jurídica com a União, todas elas foram sumariamente demolidas em agosto. Isso mesmo: não existe mais Barraca do Lôro, nem Margueritta, nem Gaúcho, não existem mais drinques servidos em espreguiçadeiras rústicas-chiques, nem corpos malhados dançando house music em deques à beira-mar. O Litoral Norte de Salvador mó-rreu! Já o Porto da Barra felizmente continua o mesmo, com a água deliciosa para nadar, um pôr-do-sol mais aplaudido que o do Arpoador, e aquela mistura única de classes sociais, etnias, estilos e pegadas. E corpos babadeiríssimos ali e acolá. Aliás, sem querer ferir brios ou fomentar bairrismos, a Bahia tem os homens mais bonitos do Nordeste, né? Nos finais de semana, quando a superlotação deixa o Porto da Barra intransitável, o novo plano B da galere é o Buracão, uma prainha escondida no Rio Vermelho que só os moradores do bairro freqüentavam, e agora vem sendo adotado pelos descolados, num clima low profile. Para quem gosta de conforto, uma opção é ir até o Corredor da Vitória e tomar sol no Mahi-Mahi, bar do hotel Sol Victoria Marina que tem um píer que avança sobre a Baía. Você paga uma consumação e passa o dia comendo, bebendo e tomando banho de mar. Parece que o esquema é bem gay friendly. A Barra não tem a fartura de comidinhas pós-praia de Ipanema. Acabei adotando o Ramma, um simpático restaurante natural escondido na Rua Lord Cochrane (como será que os baianos pronunciam isso?). Depois de horas de sol nordestino, o suco de tangerina deles descia que era uma maravilha. Adoro que na Bahia essa fruta dá o ano todo, não tem época certa como aqui em São Paulo. A doceria A Cubana inaugurou uma filial na Pituba, num shoppingzinho na Praça Nossa Senhora da Luz. Isso significa que agora você pode comer o melhor pudim de leite condensado do mundo, sem ser molestado a todo instante pelos pedintes do Elevador Lacerda. Outro endereço que continua firme e forte no topo da minha lista de laricas pecaminosas é a Doces Sonhos, na Vitória. Os bolos de lá são pura felicidade cortada em pedaços. Morri três vezes a cada garfada. A vista da Baía de Todos os Santos transforma qualquer ida ao complexo gastronômico Bahia Marina em um programão. Matei a saudade do japonês Soho, que continua bem gostoso e badalado. Voltei também ao contemporâneo Lafayette - mas os pratos criados por Carla Pernambuco já não têm o mesmo brilho de antes. Acabei não conseguindo ir a nenhum restaurante especializado em frutos do mar. Da próxima, quero provar os camarões ao prosecco com risoto de amêndoas do Mistura, em Itapuã, e as moquecas mutcholocas com frutas e ingredientes naturais do Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara distante no Cabula e virou cult. Para um jantar mais informal e barato, aprovei o Mariposa, no Jardim Apipema, atrás da Ondina. Tem um longo menu de sucos, crepes e temakis, numa casa colorida bem praiana, supersimpática. O Pelourinho, que já não era minha área preferida em Salvador, está com um arzinho largado, abandonado. Parece que todo o dinheiro da região foi para o Carmo, onde a inauguração do hotel-boutique Convento do Carmo acabou dando um sopro de vida em todo o entorno. Já o MAM, que estava totalmente ao deus-dará, deu um merecido tapa em seu Jardim de Esculturas, que ainda é meu segundo lugar favorito para ver o pôr-do-sol soteropolitano (o primeiro é a Ponta do Humaitá). Com a morte de bares como Marquês (que fazia as vezes de Ritz baiano), Babalotim e Boomerangue, hoje Salvador não tem nenhum endereço gay friendly onde se possa fazer um esquenta antes de ir dançar. Ou você toma os primeiros drinques onde estiver jantando (a pizzaria Piola já foi uma opção, mas agora o hype passou e ela está às moscas), ou então aciona seus contatos e descola um chill in na casa de algum amigo local. Aliás, num desses esquentas, fui descobrir que as blogueiras Katylene e Cleycianne também são adoradas por lá, e estão colocando suas gírias na boca das bees. Tive a oportunidade de conhecer a bombada San Sebastian em sua última semana no antigo endereço - a casa está de mudança para outro imóvel na mesma rua. Deve existir um "jeito soteropolitano de construir boate": estreito e comprido, com andares e mezaninos, o clube me lembrou muito a primeira Off. A propósito, a Off Club, que reinou sozinha na noite por anos, perdeu o trono e se tornou a boate "do meio". Nos extremos estão a San Sebastian, para onde migrou o pessoal mais bonito, e a Tropical, opção mais popular e bagaceira. Uma pulga me contou que a dona da Off pensa até em se desfazer do negócio. Entre os DJs locais, quem mais chamou minha atenção foi o Bernardo Chez. Além de ser um gentleman e um fofo de marca maior, o loirinho-angelical está fazendo um som bem bacana, criando inclusive seus próprios bootlegs e mashups. Tem tudo para conquistar mais espaço na cena, e não só em Salvador. Na boate, depois de certa hora da noite, elas ficam bem soltinhas, e a beijação rola em esquema drive-thru, tipo assim bem solto. Vai ser bom, não foi? Cansada de quebrar louça? Pois saiba que o percentual de atividade em Salvador beira os 90% - nenhuma outra capital tem tamanho superávit! E ó, tem que levar preservativos GG na nécessaire, viu? Para os adeptos dos vapores vespertinos, a Rios continua sendo o endereço mais indicado. E quem curte um perigón na linha Uomini se refestela no Paredão, no Jardim de Alah - uma falésia que esconde encontros furtivos e sorrateiros na calada da noite. Bateu uma vontadinha de ir (ou voltar) a Salvador? Se fosse você, eu me hospedaria na Barra, para poder ir à praia a pé, e daria uma olhada nas tarifas do Sol Barra, do Grande Hotel da Barra e do Marazul, nessa ordem. Ou então ficaria no Rio Vermelho e decidiria entre o funcional-padronizado-insípido Ibis e o charmoso Catharina Paraguaçu, todos numa faixa de preço viável. As músicas que ilustram este post são "Happiness" (Dave Aude Club Mix), de Alexis Jordan, e "Empire State of Mind" (na versão que o André Garça toca) . Elas deram o tom da minha semana em Salvador e também do fim de semana no Sauípe, no festival Hell & Heaven - que será o assunto do próximo post.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Restaurant Week terá 12 edições em 2010
O festival gastronômico Restaurant Week já divulgou sua agenda para 2010. Assim como nos anos anteriores, os restaurantes participantes oferecerão menus completos, com entrada, prato e sobremesa, por R$27,50 no almoço e R$39 no jantar. Couvert e bebidas são cobrados à parte, assim como a doação (opcional) de R$1 por pessoa, repassada a entidades beneficentes.
O festival, que reproduz um formato criado em Nova York, terá doze edições brasileiras neste ano, e fará sua estreia em lugares como Vitória e Fernando de Noronha. As datas são as seguintes:
25/1 a 7/2 - Brasília
1/3 a 14/3 - São Paulo; Vitória; Olinda, Fernando de Noronha, Porto de Galinhas, Jaboatão dos Guararapes e Gravatá (PE)
10/5 a 23/5 - Rio de Janeiro
31/5 a 13/6 - Curitiba
19/7 a 1/8 - Brasília
9/8 a 22/8 - Recife
30/8 a 12/9 - São Paulo
18/10 a 31/10 - Rio de Janeiro
Datas a definir - Porto Alegre e Belo Horizonte [atualizarei o post quando forem divulgadas]
Quando os restaurantes de São Paulo publicarem os menus no site do festival (que ainda não foi atualizado), farei um post selecionando algumas sugestões.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Picadinho nordestino (parte 2)
Contraste social existe no Brasil inteiro, mas em Alagoas algo chama a atenção: os ricos são muito, muito, ricos. Por algum motivo que desconheço (será o calor?), a grã-finagem local usa e abusa de looks monocromáticos em bege, fazendo a linha "safári do sertão". Os alagoanos estufam o peito de orgulho ao lembrar que o cantor Djavan é de lá. Outra filha ilustre por quem eles nutrem muita simpatia é a ex-senadora (e hoje vereadora) Heloísa Helena. Já quando se fala em Renan Calheiros, eles gaguejam e tentam desconversar. E, antes que se chute o pau da barraca de vez, fazem questão de frisar que o ex-presidente Fernando Collor (que teve um romance com Leila Lopes, segundo a autobiografia deixada pela atriz, vocês viram?) é do Rio de Janeiro. As praias do Nordeste não costumam ter trechos segmentados por tribos, como Ipanema. Mas o trecho mais gostoso da Ponta Verde para ficar é entre os bares Lopana e Kanoa. Aliás, falando em Ipanema, esqueça o grito de "AAAAAAAAAAA-bacaxi!": a marca registrada de Maceió é o mantra "Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ! Pi-co-lé e-sor-ve-te CAI-CÓ!", repetido ad nauseam pelos falantes de um exército de carrinhos. Eu não conseguia parar de pedir o suco de abacaxi, laranja e gengibre do quiosque Guaraná Ponta Verde - tomava pelo menos três por dia. Estou longe de ser um santo e já vi diumtudo nessa vida, mas fiquei chocado com o quanto as camisetas com dizeres chulos (produto tipicamente nordestino que faz sucesso entre os turistas da classe C) estão pesadas. Coisa de tirar as crianças da sala! Onde o Brasil vai parar? Alugue um carro e passe um dia redondo no litoral norte: pegue praia em Guaxuma, depois siga até Ipioca, entre no condomínio Angra de Ipioca, almoce com os pés na areia no Hibiscu's (peça camarão ao champagne), e na volta para Maceió, tire fotos no mirante da Praia da Sereia. Já no litoral sul, a minha sugestão para quem tem pouco tempo é pegar praia no Gunga de manhã e em Barra de São Miguel à tarde (quanto mais você se afastar das barracas centrais, em direção às casas de praia, melhor). No fim da viagem, eu já estava me acostumando a ser chamado de "galego" pelos nativos. Para dar um up na vida dos filhos, há quem resolva batizá-los com nomes próprios inspirados no inglês: Kléberson, Dayane, Maicon, Rosicleide. Em Maceió, não vi muitas amostras do "estilo Creysson" - mas notei que nomes comuns recebem grafias diferenciadas, como Kaio, Karllos e Rogéryo. Morro de saudade da torta caseira de mousse de chocolate, pedaços de morango e creme de doce de leite que eu comia no Massarella, meu restaurante favorito em Maceió junto com o Takê. Aqui em São Paulo, muitos torceram o nariz para a favelização do Orkut e migraram para o Facebook - que, até o fechamento deste texto, ainda era tido como cool. No Nordeste, porém, o Orkut ainda é ferramenta de contato fundamental e necessária - todo mundo que você conhece em qualquer situação pergunta se você tem perfil e pede para te adicionar. Não existem gays em Maceió (e nem no Irã), mas, com um mínimo de perspicácia, é fácil encontrar um macho que curta uma brincadeira "na baixa". E a brincadeira que o moço quer, em 99% dos casos, é colocar a "pomba" dele no seu "boga". Mas gay é somente aquele que brinca com a pomba deles, capisce? Bom mesmo é dar risada de tudo isso, e ainda disparar a seguinte pérola, na iminência do abate: "Essa pomba gosta de um carinho?" Ah sim, e antes que perguntem: a amostragem realizada constatou que os alagoanos moram longe, bem longe. Se a liberdade de viajar sozinho e aprontar à vontade não tem preço, é duro ter que pedir para os outros nos passarem filtro solar nas costas - as alagoanas recusavam, ruborizadas: "não posso, eu sou uma mulher casada!".
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Thiago Lasco
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sábado, 19 de dezembro de 2009
O sobe-e-desce de Maceió
Justiça seja feita: depois de um generoso post com as impressões gerais de Maceió (que foram mesmo muito positivas), chegou a hora de colocar a cidade no mesmo paredão por que já passaram Salvador e Recife. Afinal, deixando um pouco o deslumbramento de lado, sou obrigado a reconhecer que a capital alagoana tem virtudes e defeitos, e não é um destino perfeito para todo mundo (como nenhum outro é). Vamos então aos prós e contras.
UAU:
1) PONTA VERDE. Já falei das maravilhas da Ponta Verde no post anterior: uma praia linda, com coqueiros e mar verde-turquesa, que coloca no bolso as praias urbanas das outras cidades. E isso tudo, a poucos passos de você. Para quem gosta de sair pela porta do hotel, atravessar a rua e entrar no mar, duvido que exista capital melhor do que Maceió. Talvez seja esse o aspecto em que ela mais se destaca no cenário nordestino.
2) O LITORAL ALAGOANO. Fora da capital, existem belas praias para todos os gostos: com mar verde, com mar azul, com ondas, sem ondas, rústica e selvagem, com música alta e cadeiras de plástico, com famílias, com surfistas... Para conhecer todas, eu precisaria ficar pelo menos o dobro do tempo por lá. Minhas prediletas foram Barra de São Miguel (a dos bacanas locais, com belas casas de praia, areia branquinha e mar calmo e cristalino), Guaxuma (mais rústica, mar ondulado, sem muvuca) e Praia do Gunga (como o acesso a ela se faz por escuna ou atravessando uma fazenda particular, a freqüência é exclusivamente de turistas, o que dá uma vibe meio farofenta em alguns momentos; mas é uma das mais bonitas).
3) TUDO É PERTO. Maceió é uma verdadeira bênção para quem quer descomplicar a vida ao máximo nas férias. Esqueça carro, deslocamentos, trânsito. Você faz tudo a pé: vai à praia, ao quiosque de sucos, à lan house, aos restaurantes, à academia, ao point de pegação... Basta que você escolha sua hospedagem na praia da Ponta Verde. (Não, você não vai morrer se ficar no Ibis ou em algum outro hotel da vizinha Pajuçara, menos nobre - mas o entorno não é tão agradável).
4) COMIDA BOA. É bom que se diga: nesse quesito, não dá para comparar Maceió com Salvador e Recife, cidades bem maiores e que possuem uma cena gastronômica riquíssima. Mas não faltam boas comidinhas para quem gosta de repor as energias em grande estilo [aos interessados, já dei algumas dicas no post anterior]. Um diferencial é o serviço, que vai além da cordialidade protocolar, mas sem cair na falsa simpatia. Se você se encantar com algum lugar e voltar mais duas vezes, no final o pessoal da casa já estará te cobrindo de dengos e paparicos (o sushiman Leonardo, do Takê, me presenteou com várias criações fora do menu, um fofo!).
5) FACILIDADES DE CAPITAL. A vantagem de escolher uma capital é poder contar com comodidades sempre bem-vindas. Os bons hotéis têm wi-fi, dois shopping centers grandes e algumas multimarcas dão conta de suas necessidades imediatas de consumo (não que você vá sair de casa para fazer compras em Maceió), e quem não quiser perder o ritmo do corpitcho pode treinar numa academia bem bacana, a K2 Fitness, com aparelhagem novinha, todas as aulas que importam e um staff simpático, atencioso e dedicado como eu vi poucas vezes na vida (meu queixo caiu mesmo; diária a R$25, semana a R$100).
6) UMA RELATIVA SEGURANÇA. Nos comentários ao post anterior, meu amigão sótérópólitano, com os brios feridos e uma pontinha de ciúme (achei isso uma graça, João!), veio logo avisar que a amiga dele foi assaltada em Maceió. É claro que não dá para se expor desnecessariamente: ostentar jóias, deixar a câmera pendurada, ir para o mar e largar as coisas sozinhas na areia, cismar de testar a internet móvel no breu enluarado da praia à meia-noite. Não custa repetir que Alagoas é um dos estados mais pobres e desiguais do Brasil. Ainda assim, dentro do miolo turístico (Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca), a cidade me passou a impressão de ser bem mais segura do que os miolos turísticos das outras capitais (exceto Natal).
UÓ:
1) VIDA NOTURNA. Aceitemos de uma vez por todas o fato de que a riqueza de Maceió são suas as praias, e a melhor coisa a se fazer é dormir cedo depois do jantar para aproveitar bem o dia seguinte. Ser bem menor que Salvador e Recife também significa ter poucas opções de vida noturna - basicamente, alguns bares na orla, com cantores tristonhos dedilhando seus violões, e o Maikai, mistura de bar e casa de shows que é the place to be entre os héteros. Há duas boates gays, mas os partidões da cidade passam longe [ver item seguinte]. Mas quem tiver o olhar atento logo perceberá que não é preciso caçar na noite para atingir os resultados desejados.
2) O ARMÁRIO COLETIVO. Saindo das metrópoles maiores, lembramos que o Nordeste não é lá muito tolerante com a homossexualidade. Os machos de Maceió são bem mais calientes e menos travados que os de Natal, mas há um agravante: no estado onde tudo se resolve com jagunços, se o pai do erê descobrir que o filho não é cabra-macho, ele pode mandar capar você. Assim, só pisam em boate gay aquelas bichas que não têm mais nada a perder. O que não significa que você não possa gozar de sua estadia: na própria Ponta Verde, em se plantando tudo dá, basta saber procurar (não vou dar o mapa da mina, que isto aqui não é o Uomini). De qualquer forma, não se trata de um destino gay friendly: melhor vir desencanado, ou trazer o namorado. Vida gay ativa, você acha em Salvador, Recife e Fortaleza.
3) A FALTA DE UM PLANO B. Não se engane: Maceió não tem absolutamente nada pra fazer a não ser praia, praia e praia. Ao contrário de outras capitais nordestinas, ali não há um patrimônio histórico relevante, nem um circuito de opções culturais. Por isso, vá fora da época de chuvas (maio a agosto) - ou corra o risco de acabar flanando entre o shopping, a lan house e a feirinha de artesanato. E se praia não é a sua praia, melhor escolher outro lugar. Vá para Salvador, que tem tantas facetas para se explorar que a praia acaba nem sendo a atração principal. Ou permita-se descobrir Recife - mas fique hospedado em Olinda.
4) LUGAR "DE TURISTA". Você é aquele viajante que gosta de ser diferente, evitar as massas e descobrir lugares off the beaten track, que fogem do lugar-comum? Em suma, você é um turista que não gosta de estar com turistas? Xiii... Maceió pode não ter se tornado tão manjada quanto Porto de Galinhas, mas está longe de ser um destino inusitado ou underground. A cidade recebe uma fauna bem democrática, incrementada pelos pacotes da CVC, e não tem um circuito descolado, como Salvador ou Trancoso. Você sempre pode ir a praias menos óbvias, que só os alagoanos conhecem - mas a própria juventude dourada da cidade prefere freqüentar a Praia do Francês, onde as barracas tocam música alta e o fluxo de turistas é constante. Para aproveitar melhor, agende sua viagem para março ou abril, ou entre setembro e o começo de dezembro - o tempo está ótimo, há menos muvuca e os preços são mais baixos.
5) PASSIENÇA CAS CRIANSSA REMELENTA GRITÂNU. Ser uma cidade relativamente pequena e tranqüila e ter águas mornas e calmas para banho garantem a Maceió uma inabalável vocação de destino familiar. E família, vocês sabem, quer dizer... criança. Criança apostando corrida pelos corredores do shopping, berrando no restaurante, chorando dentro do avião... Como os pais modernos são cada vez mais incapazes de colocar limites nos rebentos, quem está em volta tem de pagar o pato e contar até cem. Se você, como eu, marcaria "kids: I like them at the zoos" no seu perfil no Orkut, esteja preparado. Para fugir da pirralhada, uma solução é preferir as praias de mar menos dócil, como Guaxuma.
6) POR TRÁS DOS TAPUMES, A REALIDADE. Ao longo da orla, Maceió é linda e fotogênica. Mas é só dirigir alguns minutos para longe da praia que o pano cai, revelando uma cidade pobre e sem encantos (o centro é bem feio), castigada pela desigualdade e com direito a bairros barra-pesada (se o cafuçu-delícia quiser te arrastar para a casa dele em Jacintinho ou Benedito Bentes, agradeça educadamente, mas não vá). Evidentemente, o contraste entre a bolha mágica da zona turística e o mundo-cão do resto da cidade não é privilégio de Maceió: Recife, Salvador, Fortaleza, SP e até mesmo a Cidade Maravilhosa estão aí para não me deixar mentir.
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Thiago Lasco
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3:45 PM
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Maceió, a usurpadora
Quando penso em Nordeste, a imagem que vem à minha cabeça é a de uma praia de beleza rara, com águas cristalinas contrastando com um céu muito azul, e ornada por uma fileira de coqueiros bem altos. Corpos morenos, sotaques carregados, caipiroskas, simplicidade, preguiça e hedonismo à beira-mar. Pode até ser que essa visão seja um reducionismo tipicamente sudestino, mas é isso que eu espero encontrar quando resolvo embarcar numa viagem para aquela região. Ao mesmo tempo em que eu busco um refúgio tropical, também gosto de ter certas comodidades urbanas - especialmente bons restaurantes, para terminar meus dias de praia com uma comidinha especial. É por isso que meu olhar explorador começou pelas capitais.
Em
viagens anteriores, Salvador, Recife e Natal mostraram seus encantos, cada qual à sua maneira. Mas todas elas perderam um pouco do brilho depois que fui conhecer Maceió. Quando o assunto é praia urbana, a capital de Alagoas dá de dez. O mar de Ponta Verde tem uma tonalidade turquesa que eu só achava possível no Caribe. Não bastasse isso, são águas tranquilas (bem diferentes do Walita-Master-Super-ligado-no-Créu-5 que é Ipanema) e em temperatura realmente agradável para o banho (incomodava ficava a sua avó, que tremia de frio em Floripa). O calçadão é todo novinho, recortado por jardins e uma ciclovia que percorre toda sua extensão, revelando lindos panoramas. Mesmo sendo urbana, a praia tem trechos muvucados e outros mais tranquilos, sempre enfeitados por coqueiros. É tudo tão mais bonito que cheguei a ficar com pena das outras capitais.
Claro que toda "trip Nordeste" que se preza inclui cruzar os limites da capital e explorar as praias mais afastadas. Salvador é ponto de partida para várias (Morro de São Paulo, Praia do Forte, Imbassaí, Barra Grande, Boipeba), Natal tem Pipa e Galinhos, Recife foi praticamente engolida por Porto de Galinhas. O litoral alagoano tem muitas opções, com um bem-vindo diferencial: a praticidade. Tudo é muito mais fácil, perto e rápido do que nas outras capitais. Está viajando sozinho e não quer gastar mais de R$100 por dia com carro alugado? Dá para explorar os litorais norte (Guaxuma, Ipioca) e sul (Francês, Barra de São Miguel) usando ônibus urbano, por apenas R$2,50. Se preferir mais conforto, passeios em grupo saem a módicos R$20 por pessoa (a praia do Gunga, por mais mainstream que seja, é de uma beleza ímpar). Dá para passar a semana conhecendo uma praia diferente por dia, sem enjoar.
Depois de um dia de muito sol e deliciosos mergulhos, nada como repor as energias com um bom jantar. Como capital que é, Maceió não decepciona, com excelentes restaurantes, que vão do brasileiro e regional (Bodega do Sertão, Divina Gula, Canto da Boca) ao cosmopolita (o italiano Massarella, o japa-cool Takê e o buxixado contemporâneo Wanchako, que já causava auê com seus ceviches muito antes do hype peruano chegar a São Paulo). A digestão, você faz com uma agradável caminhada pelo calçadão da Ponta Verde, sentindo a brisa do mar e vendo o vaivém de nativos e turistas - que passeiam, tomam sorvete e bebericam nos bares, numa gostosa celebração do espaço público que já se tornou inviável em cidades maiores.
Aí está outra vantagem de Maceió: oferecer as facilidades urbanas básicas sem perder um certo ar pacato, interiorano. A região onde o turista circula é pequena, gostosa e segura. Esqueça o trânsito, os deslocamentos e as preocupações das outras capitais: ali você faz tudo a pé e realmente entra no clima de férias. Apesar de Alagoas ser um dos estados mais pobres e desiguais do país, o turista não sofre o assédio infernal de pedintes, vendedores e malandros que empesteiam Salvador. Dá para andar na praia à noite, ver as estrelas e até se engraçar com alguém ali mesmo, sem grilos. Como nem tudo é perfeito, Maceió fica devendo em termos de baladas [vou analisar melhor os prós e contras no Sobe-e-Desce de Maceió, um dos próximos posts] mas, com tanta praia bacana e um belo amanhecer às 4h40, é melhor negócio levar uma vida diurna e deixar para cair na jogação em casa.
No fim das contas, Maceió superou todas as expectativas e fechou minhas aventuras com chave de ouro, como a melhor viagem de 2009. Pretendo passar pelo menos uma semaninha por ano ali. Até porque Alagoas tem muito mais a se explorar: não só praias menos manjadas (Coruripe, Carro Quebrado, Porto das Pedras) como outros tipos de passeio (a cidade histórica de Penedo, a foz do Rio São Francisco). Ainda vou conhecer o Ceará antes de dar meu veredito final, mas Fortaleza vai ter que rebolar muito se quiser levar o troféu. As outras capitais têm predicados indiscutíveis, mas, por enquanto, Maceió é meu novo destino preferido do Nordeste.
[FOTOS: (1) o mar turquesa de Ponta Verde, impensável para uma praia urbana; (2) o sol nascendo às 4h40 da manhã; (3) praia do Gunga, passeio que mais chama a atenção dos turistas; (4) sushizinho esperto do Takê; (5) água cristalina em Barra de São Miguel; (6) uma simpática maria-farinha no fim de tarde em Ipioca]
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Picadinho nordestino (parte 1)
Os homens pernambucanos ainda têm o sotaque mais gostoso do Nordeste. A Praça da República pegou emprestado algumas medusas luminosas da Rosane Amaral para fazer sua decoração de Natal. Brasília Teimosa era imbatível na categoria "bairros com nome bizarro"; agora o nome mudou para Brasília Formosa, coisa mais sem-graça. Na gíria recifense, menino é "boyzinho". E menina? É "boyzinha", ora! A sinalização nas estações do metrô de Recife segue a mesma identidade visual do metrô paulistano - a linha Centro tem fontes e cores idênticas às da nossa linha 3-Vermelha (eu me senti no Carrão!). Aliás, eu ainda fico espantado com a devoção que os recifenses nutrem pela cidade de São Paulo. As incansáveis carrocinhas de CD pirata, que fazem a trilha sonora compulsória da praia, adoram desenterrar alguma música do além e transformá-la em hit do verão. Em 2007, foi o hino disco "Dance Little Lady Dance", da Tina Charles (1976); agora é a vez de "Muito Estranho", que fez a fama do cantor Dalto nos idos de 1982 ("cuida bem de mim! então misture tudo... dentro de nós!"). No quesito gente bonita, o trecho em frente ao Edifício Acaiaca continua sendo pura propaganda enganosa. E o mais gostoso para ficar é aquela clareira tranqüila que sempre se forma entre a muvuca do Acaiaca (número 3232) e a concentração gay-penosa na altura do finado Hotel Savaroni (3772). Tomei uma caipiroska de uva incrível no Clássico Cozinha Afetiva, novíssimo restaurante que serve pratos de comfort food assinados pelo famosinho Douglas Van Der Ley. Aliás, também é dele o cardápio do It, que funciona dentro da bacanérrima multimarcas DonaSanta e é a opção mais cool para almoçar em Boa Viagem (adorei a mesona coletiva, com tentáculos que se espalham por todo o salão). Fui me dar mal justamente no meu restaurante predileto, o Oficina do Sabor, em Olinda. Quis inventar moda e pedi um camarão com creme de gengibre uó - o molho levou o troféu Xuca da Silva. Não tem jeito: lá o negócio é pedir o bom e velho Jerimum Frevoé! Engraçado que Las Bibas From Vizcaya são idolatradas aqui em SP, mas lá em Recife ninguém fala nelas. O buxixo da Galeria Joana D'Arc deu uma reanimada, mas está menos gay. É sempre difícil escolher entre os 57623 crepes do cardápio da Anjo Solto. O Marquinhos, que acessa meu blog todo dia e reclama quando não tem post novo, é muuuuuito fofo! Os pernambucanos que foram ao Sauípe se jogar no Heaven & Hell estão falando bem do festival até agora. Quando o assunto é qualidade de som e público, a nova New Misty é bem melhor que a veterana Metrópole. Mas eu me divirto mesmo é com a mundiça do MKB ("Meu Kaso Bar", que tal?), que pra mim continua sendo, de longe, a melhor balada de Recife. Ainda acho que a Thermas Boa Vista, que dá de 10 na nossa 269, é a melhor sauna gay do Brasil (OK, ainda preciso conhecer a tal Dragon, de Fortaleza). Mas o público era melhor e mais jovem em 2007. Esqueça os melindres semânticos dos baianos: em Recife, você pode chamar os cafuçus de cafuçus sem medo, porque eles têm orgulho de ser cafuçus. Viva os cafuçus!!! [Quer ler Recife 2007? Clique aqui].
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
72 horas em Natal
EM FASE DE CRESCIMENTO
Pequena, limpa e segura (especialmente em comparação com Salvador e Recife), Natal ainda é pouco verticalizada e não tem cara de metrópole, mas de "cidade de praia". Tem apenas 800 mil habitantes e vive do turismo - que chega ao auge em dezembro, com o Carnatal, maior micareta do país. Deve crescer bastante nos próximos anos, com um incipiente boom imobiliário e investimentos para a Copa de 2014, que incluem a construção do maior aeroporto da América Latina. O sol nasce e se põe cedo: às 6h, já dá para ir à praia, e pouco depois das 17h já está completamente escuro e a lua brilha no céu (!). Como a cidade é espalhada e cortada por grandes avenidas, o turista precisa de carro o tempo todo - especialmente se ficar hospedado na Via Costeira, que alinha os hotéis mais novos e de maior porte.
AL MARE
Ponta Negra é a praia urbana mais famosa de Natal. No canto direito (emoldurado pelo Morro do Careca), existe um centrinho urbano meio bagaceiro, que lembra o Porto da Barra, em Salvador; ali, a presença gringa é constante. No canto esquerdo, a orla é menos muvucada e mais residencial; a moçada fica na altura dos quiosques 20 e 21, em frente ao Manary (hotel charmoso e friendly, com um ótimo restaurante). Ponta Negra é essencialmente uma praia de turistas: o natalense (que é bem menos praieiro do que os nordestinos de outros Estados) prefere ir para Redinha, na zona norte, ou para Cotovelo, Pirangi e Búzios, que ficam fora de Natal, no caminho para Pipa.
HAPPY PIPA
Aliás, uma esticada até Pipa, vila charmosinha uns 80km ao sul de Natal, vale muito a pena. A praia do centro é meio farofa: o belo visual é poluído por uma profusão de mesas e cadeiras de plástico, ocupadas por famílias em pacotes turísticos. Prefira a Praia do Amor, à direita (dá para ir andando, se a maré não estiver cheia): mais rústica, com espreguiçadeiras, reúne o povo jovem e bonito do pedaço. Para quem quiser ficar em Pipa (e estiver com o orçamento folgado), duas dicas top são a pousada Toca da Coruja e o restaurante Camamo, nova casa do chef do fantástico Beijupirá, de Porto de Galinhas. Se, por outro lado, você preferir relaxar em uma praia realmente low profile, troque Pipa por Galinhos, 150km ao norte de Natal.
BUGUE-WOOGIE
O passeio mais típico é feito a bordo de um bugue e toma um dia quase inteiro. O circuito começa nas lindas dunas de Genipabu (onde os mais empolgados fazem passeios de dromedário, com direito a turbante na cabeça e foto-recordação). O toque de aventura fica por conta do bugueiro, que sobe e desce as dunas em alta velocidade, fazendo manobras bruscas, especialmente se o turista pediu o passeio "com emoção". Nas próximas paradas, mais esportes radicais: esquibunda (descer uma longa duna sentado em uma prancha, caindo na água) e aerobunda (aqui, você despenca na água a partir de um teleférico improvisado). Antes de voltar para Natal, escala para almoço num desses restaurantes industriais para o turismo de massa. A real: as dunas são lindas e os 'esportes' são divertidos, mas... o que na primeira vez é novidade, numa segunda já se tornaria um programa de índio.
ENCHENDO O BUCHO
Tive excelentes surpresas no capítulo gastronomia: restaurantes grandes, vistosos e com preços camaradas, transitando entre o regional e o internacional. O que mais me impressionou foi o Camarões Potiguar, tão bom que visitei duas vezes (em apenas três dias de estada). Os pratos de camarão custam R$55 e servem duas pessoas; entre tantas opções, o Creme Shiitake e o Fondue são imperdíveis. Outro que não pode ficar de fora é o Mangai, um bufê regional gigantesco, divino, que coloca o Parraxaxá de Recife no chinelo. A carne de sol com natas é deliciosa, e a mesa de doces é uma afronta. Na churrascaria Tábua de Carne, você come um macio filé mignon de sol com acompanhamentos típicos e ganha de brinde uma bela vista panorâmica. Para algo menos típico, duas pedidas são o badalado Temaki Lounge, que investe nos sushis com toques fusion, e o versátil Guinza, que serve culinária japonesa e internacional. Os sucos do Mangaboo e os doces da Daguia Tortas Finas estão entre os melhores da cidade.
PUSSYCAT FORRÓ
Sabe qual é a música típica de Natal? Beyoncé, Pussycat Dolls... em versões forró, é claro. O hit da hora é uma versão de "Angel", do Jon Secada, que toca a cada cinco minutos; acho que cheguei a ouvir "Halo" (Beyoncé) com duas letras diferentes. Na balada, saem os DJs e entram as bandas: são elas as atrações das casas mais concorridas da cidade, como o Decky e o Sargent Pepper's (que tem programação na linha pop-rock e é tido como um dos melhores "esquentas" de Natal). Mesmo na principal boate gay, Vogue Natal, a pista de tribal-bate-cabelo (mal equalizado, distorcido, de agredir os ouvidos) é menos animada do que o ambiente com música ao vivo. A Vogue divide as bees com o Feitiço, outro espaço para shows dominado pelo público GLS. O único endereço que aparentemente tinha uma proposta mais eletrônica, o incrementado Crystal Club, acabou fechando as portas. O jeito é aprender a cantar "Halo" em português.
O LADO RUIM
Como nem tudo são flores, quem quiser se engraçar com os nativos precisa de muita paciência. Se em todo o Nordeste a cultura machista/ patriarcal deixa os gays acuados, em Natal o problema se agrava, porque todo mundo se conhece e morre de medo de se expor. Caçar pelo Disponível ou Manhunt? Choverão mensagens (sempre te chamando de "brother"!), mas 99,9% dos perfis mostram só o pipi e o popô - e marcar encontro com uma mula-sem-cabeça local pode gerar grandes sustos. Na balada, não é menos complicado: os caras te olham por horas, mas nunca tomam uma atitude; você faz a abordagem, o cara fica sem jeito e, meia hora de papo depois, você vê que a coisa não deslancha nunca. Isso se algum conhecido seu não vier te cumprimentar e o cara praticamente sair correndo, branco como papel, porque você conhecia alguém ali. Ou você fica com algum outro turista, ou faz a linha marginal e cai no perigón da pegação noturna de Ponta Negra, ou se contenta em provar os sabores da culinária.
[FOTOS: Morro do Careca, em Ponta Negra, símbolo de Natal; Praia do Amor, em Pipa]
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Rapidinhas do fim de semana
ÔLHA O PASSARRINHO Uma dica para aficcionados por fotografia é a exposição de fotos do francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) no SESC Pinheiros, dentro dos eventos do Ano da França no Brasil. Considerado um dos pais do fotojornalismo, ele fez registros belíssimos de suas andanças pelo mundo, a maioria deles usando uma antiga Leica, câmera alemã que virou objeto de culto. Seus flagras do cotidiano são uma verdadeira aula de enquadramento, composição e sensibilidade. A mostra, gratuita, se estende até meados de dezembro.
UM NEGÃO CHAMADO BASTIÃO Lembram que um passarinho verde cochichou no meu ouvido, há dois meses atrás, que Salvador estava prestes a ganhar um novo clube? A casa, chamada San Sebastian, será inaugurada amanhã, com os convidados Felipe Lira e Eric Cullemberg no som. Fica na Rua da Paciência, a poucos metros do Boomerangue e, a exemplo do já não tão concorrido vizinho, tem três andares e programação variada (apenas o sábado é gay). A novidade vem em boa hora: as bunitas da cidade já estavam enjoadas da Off e quase não saíam mais de casa, o que deixava a noite de Salvador com um certo quê de Porto Alegre. Se a casa agradar, é natural que se torne líder aos sábados, deixando para a Off o posto de melhor opção das sextas-feiras.
MARA OU MICO? E falando em Bahia, alguém aí vai se jogar no festival Heaven & Hell, na Costa do Sauípe? Sei que ainda faltam dois meses (o evento começa em 20 de novembro), mas já era para o burburinho ter começado. É claro que o evento não se destina apenas aos paulistas (até mesmo pela proximidade geográfica, faz mais sentido que Salvador e Recife estejam em polvorosa do que SP), mas a organização certamente também esperava receber muita gente destas bandas, e não estou vendo nenhum tititi em cima dele por aqui. O que vocês me dizem: decola ou não sai do chão?
NUEVOS BOLICHES Outra cidade cuja cena noturna parece estar sacodindo a poeira e dando a volta por cima é Buenos Aires. Depois que o Palacio Alsina deixou de fazer as melhores noites gays da cidade para receber apenas eventos eletrônicos, muita gente que não vive o culto aos DJs não gostou nadinha de ter que se contentar com o Amerika. Chegou aos meus ouvidos que agora há alternativas por lá. Na sexta, o que está pegando é o Rheo Bar, ali no Paseo de la Infanta, dentro dos Bosques de Palermo, onde nos anos 90 funcionava o Buenos Aires News (não entendi se é algo light tipo Sonique ou um clube mesmo). Já no sábado, o boliche gay do momento é o novíssimo Human, que fica perto do Aeroparque (o aeroporto doméstico de BsAs). O blogueiro Gurizão (que está se revelando um ótimo olheiro de beldades) foi e adorou.
A BRANCA E A MEGA Já em São Paulo, a chapa tá esquentando. Amanhã acontece a reabertura da Megga, que prometia ser o segundo grande clube gay da cidade, mas saiu misteriosamente de cena poucas semanas depois da inauguração [que eu descrevi aqui]. A casa abrirá apenas uma vez por mês, justamente para garantir a bombação e a expectativa - na pista principal, Paulo Agulhari prometeu menos bate-cabelo e mais progressive. Enquanto isso, a The Week lançará uma nova festa, Nuit Blanche, com decoração all-white e cenografia especial. Grá Ferreira, que fará seu casamento religioso na mesma noite, sairá da igreja direto para lá e se apresentará de véu e grinalda, na pista principal. No mínimo, vale pela oportunidade única de ver uma DJ tocando vestida de noiva.
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Thiago Lasco
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sábado, 5 de abril de 2008
Black is beautiful
Quem me conhece bem sabe que não resisto a uma boa pele morena. Fico doidinho, acho que um pouco de melanina a mais dá um senhor sex appeal a qualquer homem. Deve ser porque sou branquíssimo (quase fluorescente) e os opostos se atraem...
Depois de ficar babando com as fotos de um tal jogador Adriano, do São Paulo, que encheu as páginas dos jornais dessa semana, quase caí para trás com a capa da última Vogue norte-americana. Ela mostra nossa musa Gisele Bünchen ao lado de um verdadeiro deus grego da raça negra, o jogador de basquete LeBron James, do Cleveland Cavaliers. Que cara de mau! Que bração! Vejam só que sortuda a Gisele sendo pega pela cintura por ele...
Na falta dos States, temos Salvador - que é logo ali, bem mais barata e cheia de negros lindos, com muito amor pra dar e com uma ginga e um tempero que só os baianos têm. Até 11 de abril acontece por lá a mostra de cinema gay Possíveis Sexualidades, no Instituto Cervantes, ali na Ladeira da Barra. A programação tem longa-metragens e documentários brasileiros e estrangeiros - entre eles, o argentino XXY (sobre um jovem hermafrodita), o brasileiro Onde Andará Dulce Veiga? (com Patrícia Pillar) e o fofíssimo espanhol Filhote (prato cheio para quem curte bears gostosões). Depois, dá para dar aquela pinta básica no Porto da Barra e, com sorte, cair nos braços de algum "brau". Ou apostar na boate Off, que foi reformada em 2007 e continua dando um bom caldo.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 14 de agosto de 2007
O sobe-e-desce de Recife
Quando o assunto é viajar para o Nordeste, quantos de vocês pensam em Recife? Vários outros lugares vêm à nossa cabeça primeiro. Parte disso se deve ao próprio descaso do governo pernambucano com a promoção do turismo no Estado, e mais ainda na capital. Enquanto Bahia e Ceará souberam vender seu peixe e hoje riem sozinhos com o dinheiro dos visitantes, Pernambuco vê seu turismo ficar cada vez mais restrito à vila de Porto de Galinhas (Fernando de Noronha é um caso à parte) e não faz nada. Mas a capital pernambucana também tem seus atrativos. Sem falar que a proximidade com a charmosa Olinda (e a "usurpadora" Porto de Galinhas, claro) faz de Recife um destino turístico bastante completo. Afinal, você leva história, vida urbana, cultura, gastronomia e praias paradisíacas no mesmo pacote. Eu embarquei nessa viagem em fevereiro e deixo aqui algumas impressões.
UAU:
1) PORTO DE GALINHAS. Quem visita esse lugar, logo entende porque ele ofuscou rapidamente todos os outros pontos turísticos do Estado e tornou-se um dos destinos de praia mais cobiçados do Brasil. O mar, todo transparente em tons de azul e turquesa, é realmente lindo e você nada com os peixes nas piscinas naturais. Poucos lugares são tão versáteis e polivalentes: Porto é boa para famílias com crianças (que contam com praias de águas calminhas e ótimos resorts), para casais (que podem ir a praias mais sossegadas e jantar à luz de velas) e para a moçada (que cai na azaração surfista de Maracaípe, a Maresias pernambucana). Além disso, a vila já tem confortos desejáveis (bons restaurantes como o sensacional Beijupirá, Gelateria Parmalat, lojinhas tipo Chilli Beans e Blue Man) sem ter virado uma Porto Seguro ou Guarujá. Com essa fórmula de sucesso, Porto de Galinhas é campeã.
2) OFICINA DO SABOR. Nesse concorrido restaurante que foi a sensação gastronômica da minha viagem a Pernambuco, camarões graúdos e suculentos e peixes macios são preparados em saborosos cremes de maracujá, manga, coco ou gengibre e servidos à mesa dentro de uma abóbora gigante, o jerimum. É de comer de joelhos, de tão bom. Tudo isso num ambiente pra lá de agradável, especialmente nas mesas da varanda, com vista panorâmica de Olinda e Recife. Para completar seu dia perfeito em Olinda, suba as ladeiras cheias de casinhas coloniais coloridas, coma uma tapioca no Alto da Sé e espere pelo melhor pôr-do-sol da cidade.
3) THERMAS BOA VISTA. Eu não colocaria uma sauna gay com tanto destaque no meu roteiro se ela não fosse realmente incrível. Mas a TBV consegue surpreender mesmo os usuários mais exigentes. Primeiro, porque ela tem uma estrutura faraônica e irretocável, que eu só consigo imaginar em alguns poucos países de Primeiro Mundo. Segundo, porque sua limpeza, sua ampla gama de opções de lazer e seu bom astral quebram todos os estigmas negativos normalmente associados a casas do gênero (ela é praticamente um clube social, um verdadeiro complexo de entretenimento gay). E terceiro, porque ela tem uma freqüência ótima, que é o que mais importa no final. Esqueçam tudo o que vocês já viram antes - e depois, voltem para as outras saunas, se puderem. Mais detalhes, eu conto neste post.
4) CREPERIA ANJO SOLTO. Situada num gostoso pátio nos fundos da Galeria Joanna D'Arc (que nasceu com pretensões de Galeria Ouro Fino, mas depois foi perdendo seus pontos descolados), a Anjo Solto é o melhor lugar para saber qual é a boa da noite, tomar os primeiros tragos e, claro paquerar. A confluência de gente bonita de várias tribos, o serviço atencioso, as caipiroskas equilibradas e os crepes pra lá de criativos fazem de lá um dos melhores programas noturnos de Recife. Sabe quando você pergunta "onde as bonitas se esconderam?". Se não achá-las lá mesmo, ao menos você descobrirá a resposta.
5) O CIRCUITO CAFUÇU. Sabe aquela beleza masculina bem brasileira, com pele morena, corpo bem-feito, mãos viris e feições rústicas? Se teu negócio é cafuçu, Salvador está ligeiramente melhor, mas foi em Recife que o termo nasceu (e a Lindinalva só começou a usá-lo depois que eu voltei de Recife com os meus relatos!). O bafão rola mesmo é no domingo. Comece no Ponto G - que não é sex shop como em São Paulo, mas sim um "pagode de família", com bandas ao vivo, muita cerveja e corpos dourados, descamisados e cheios de amor pra dar. E, se você não sair de lá casado, vá conhecer a verdadeira emoção da noite recifense: o excitante, impagável, maravilhoso MKB ("Meu Kaso Bar"), uma mistura de Danger (SP), bordel de Tieta e quermesse de Caruaru, onde tudo pode acontecer (e acontece mesmo! é ba-ba-do). House-pancadão na pistona preta, hilárias músicas de corno no salão brega, shows na área externa, sexo hardcore no quarto escuro... e as figuras mais improváveis, desde a bichinha de blusa tomara-que-caia, rosa na cabeça e leque espanhol até o estivador rude, malvado e saradíssimo que abre garrafa com o dente e traça qualquer coisa com curvas. Ui!
6) O TAPETE VERMELHO AOS PAULISTANOS. Os cariocas nos esculacham, os baianos nos olham com pena porque não sabemos descansar, os gaúchos juram que são mais evoluídos que nós - e o povo dos outros Estados simplesmente nos despreza, porque acredita que paulistano é "tudo metido mesmo". Mas em Recife você terá, finalmente, o bom tratamento que merece. O recifense adoooora o paulistano e, mais ainda, é íntimo-de-oliveira de São Paulo. Vive vindo pra cá, conhece tudo daqui, ama a cidade de paixão - e vive igualzinho a gente (ande pela Agamenon de Magalhães e tente não se sentir em SP). Enquanto o resto do Brasil só idolatra o Rio de Janeiro, é bom saber que tem alguém que também gosta da gente.
UÓ:
1) O CALOR SENEGALÊS. É claro que faz calor em Recife (se eu quisesse passar frio, escolheria Gramado). Mas tem alguma coisa muito errada com o clima de lá, e até os nativos estão se queixando. O sol é insuportável - e não só aquele famoso sol do meio-dia, não. Como bom habitué das areias de Ipanema, você estica sua canga na praia, deita - e, em cinco minutos, a sua canga começa a queimar você. Sim, eu disse queimar. O jeito é passar o dia encolhido embaixo de um guarda-sol, enquando camelôs cruzam a sua frente com aqueles carrinhos de CD pirata do Largo 13/Uruguaiana tocando no último volume o que há de pior no gosto popular. Mas não se queixe: eles estão apenas "alegrando" a praia.
2) O ACAIACA. Assim como Copacabana e Ipanema, a extensa praia urbana de Boa Viagem, a principal da cidade, também tem sua divisão territorial por tribos. E o beautiful people de Recife fica todo em frente ao Edifício Acaiaca, prédio modernista dos anos 50 inconfundível em meio aos seus vizinhos com cara de Moema. Falaram tanto do Acaiaca, que eu cheguei sedento para ver um mar de beldades de sotaque arrastado. Mas vi só o sotaque arrastado - o tal "Posto 9 de Recife" deixa muito a desejar em termos de beleza humana. Eu, que tinha visto tanto pernambucano bonito no eixo Rio-SP, concluí que os melhores migraram pra lá mesmo. Ou foram ganhar a vida na Europa...
3) METRÓPOLE, "A MELHOR BOATE DO NORDESTE". Repito o que eu disse no post sobre Salvador: não se trata de esperar o nível de São Paulo. O segredo é aprender a apreciar a graça e a riqueza de cada lugar. Mesmo assim, a Metrópole, principal boate gay da cidade, decepciona. Especialmente porque tem a pretensão de ser uma boate legal, com muitos ambientes e tal. Mas a decoração é simplesmente cafona (excesso de pretensão?), o som não é sequer divertido e o público... só aquelas poc-poc bem novinhas e suas amigas fag hags (as rachas que acham suuuuper moderno ferver em boate gay). A Off de Salvador dá de dez. Em Recife, melhor ir dançar boa música eletrônica com os héteros na Nox e deixar a pegação para o circuito cafuçu ou a TBV (vide acima), onde pelo menos tem homem de verdade.
4) O LADO RUIM DE SÃO PAULO. Como bons alunos aplicados que são, os recifenses assimilaram o modo de vida paulistano nos mínimos detalhes - incluindo, infelizmente, os problemas que vieram no pacote. Chama a atenção, em especial, a falta de segurança, que coloca Recife na liderança do ranking de capitais mais violentas do País. E não é folclore não: eu mesmo quase fui assaltado - e olha que não estava na periferia atrás de algum cafuçu, mas sim flanando pelas imediações da Rua do Bom Jesus, coração turístico do Recife Antigo. Tudo bem que Salvador também é trash nesse aspecto, São Paulo e Rio nem se fala... mas Recife consegue passar uma sensação pior. Quem viu o fatídico show aberto de Ivete Sangalo em Boa Viagem ser transformado em um arrastão coletivo sabe bem do que eu estou falando.
5) BRENNANDS DE TÁXI. Os dois centros culturais mais importantes de Recife são a Oficina Cerâmica Francisco Brennand (onde o artista Francisco expõe suas impressionantes criações em cerâmica) e o Instituto Ricardo Brennand (um castelo onde o colecionador Ricardo expõe relíquias medievais como armas e tapetes). Se essas atrações não chegam a ser o motivo de sua viagem a Recife, elas podem salvar a pátria quando o dia não der praia. O problema é que os dois museus estão tão longe, mas tão longe de tudo, que só o que você gastará de táxi para ir e voltar já seria suficiente para você levar seu amor para jantar em SP com tudo o que tem direito - e pagar a conta sozinho. Isso faz o passeio deixar de valer a pena.
6) OS ATAQUES DE TUBARÕES. Não dava pra deixar isso de fora: as praias de Recife são alvo de ataque de tubarões. Mas não foi sempre assim: o problema começou depois que o governo pernambucano, para construir um porto, destruiu os manguezais onde esses peixes tinham seus filhotes e se alimentavam, no sul do Estado. A solução encontrada pelos fofuchos foi migrar para Recife e dar pinta em Boa Viagem, onde a água é quente e rica em tira-gostos (com duas pernas e dois braços, mas alguns são até bem carnudinhos). Assim, os banhistas têm que enxergar na maré baixa onde estão os rochedos (os tais arrecifes, que funcionam como barreira) ou então molhar os pés só até o joelho. Mas lembra do calor senegalês?
[Foto: Boa Viagem, principal praia e epicentro do turismo em Recife]
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Thiago Lasco
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