Vou aproveitar o embalo do post anterior (que rendeu mais do que eu esperava!) para falar um pouco mais sobre Salvador. Desta vez, vamos a um dos meus assuntos favoritos: restaurantes! Dá pra comer muito bem na capital baiana - inclusive para quem, como eu, não vai com a cara do dendê e passa longe de acarajés, vatapás e qualquer coisa apimentada. Se os preços são bem compatíveis com os de São Paulo e Rio de Janeiro, pelo menos os frutos do mar são melhor servidos - nada de pedir camarão e receber um pratinho enfeitado com apenas três unidades. Vou organizar as dicas na forma de um passeio virtual, percorrendo os bairros da cidade. Vambora?
Começamos no Pelourinho, é claro. Meu xodó é o La Figa, na rua das Laranjeiras, um restaurante italiano especializado em massas com frutos do mar, com ótima relação custo-benefício - indico o pappardelle mare i monti, com um toque de creme de leite, vinho branco, camarões e shiitake. Se puder gastar um pouco mais, tente os pratos contemporâneos do Maria Mata Mouro. Para comida baiana, você tem o Sorriso da Dadá, a casa mais turística da famosa quituteira, e o Restaurante-Escola do SENAC, uma verdadeira aula de culinária local, em esquema bufê. No Elevador Lacerda, viciados em leite condensado (essa droga poderosa!) têm orgasmos múltiplos na doceira A Cubana, que faz um pudim supimpa [foto] e um sabor de sorvete chamado menina bonita, com leite moça e castanhas.
Pegando a Cidade Baixa e subindo a Avenida do Contorno, temos os restaurantes que mais impressionam o turista. O motivo é um só: todos se debruçam para a vista espetacular da Baía de Todos os Santos - o cenário é mais especial durante o dia, mas também enfeita um bom jantar. O baladadérrimo japonês Soho foi o primeiro a se instalar. No mesmo complexo gastronômico (chamado Bahia Marina) estão o francês Oui, a pizzaria Fiona e o Lafayette, este último com pratos criados pela Carla Pernambuco (Carlota/SP), mas que já foi bem mais gostoso. Mais para baixo em direção ao Mercado Modelo estão o Amado (tido como o melhor do pedaço depois que o saudoso Trapiche Adelaide fechou) e o 496 Grill & Bar, que acabou de abrir e está na moda.
Chegando à Vitória e Graça, bairros adjacentes que formam uma espécie de "Higienópolis de Salvador", temos a espetacular Doces Sonhos, no Corredor da Vitória, que faz os melhores bolos da cidade (as tortas salgadas de peru e camarão também são nota dez). Uma coisa de louco, morro três vezes a cada garfada! Perto dali, na Graça, o japonês moderninho Shiro, e duas delicatessens: Deli & Cia. (na Euclydes da Cunha) e Perini (na Princesa Leopoldina, a maior filial da rede de empórios gourmet, com direito a um ótimo bufê de almoço e sanduíches que você monta a peso, com ingredientes de primeira).
Apesar de ter a melhor praia urbana da cidade, a Barra é surpreendentemente capenga em termos de comida. Quando estou no Porto da Barra e bate aquela fome, vou ao natural Ramma, escondidinho na rua Lord Cochrane. A padaria DelliPorto, na Al. Antunes, faz sandubas honestos. À noite, só consigo lembrar do Pereira, bar-restaurante meio mauricinho e caro, mas com uma varanda deliciosa. Em Ondina, uma das maiores extravagâncias da cidade: o italiano classudo Alfredo di Roma, especializado em fettuccine (uma massa com camarões custa R$65, mas é de lamber o prato). Pegando a Sabino Silva e entrando no Jardim Apipema, dá pra gastar menos nos parmegianas da Cantina Volpi ou no simpático Mariposa, que serve crepes, sucos e temakis em clima praiano.
O boêmio Rio Vermelho é o bairro com mais opções. A rua Fonte do Boi, onde ficam os hotéis Ibis, Mercure e Pestana, alinha o natural Manjericão (exuberante, construído no meio do mato, bom para depois de uma prainha no Buracão), o japonês Sushi Deli, os versáteis Confraria das Ostras e Dogma, com menus bem variados (e almoço executivo), e o Ciranda Café, ponto de encontro das lésbicas da cidade. O bairro ainda tem as redondas da Companhia da Pizza e do Piola, o japa ocidentalizado Takê (com farto rodízio a R$55), o novo Sabores de Dadá, o contemporâneo Salvador Dalí e o brasileiro Dona Mariquita, que faz uma excelente feijoada de frutos do mar, sem nenhum gosto de dendê. Para a fome da madrugada, dá para escolher entre o trash McDonald's, o saudável (e demoraaaado) Suco 24 Horas Rio Vermelho ou o conjunto de botecos do Mercado do Peixe.
Mais adiante, a Pituba é um bairro que eu explorei pouco - a maior parte das comidinhas está mais afastada da orla, em direção ao Caminho das Árvores e Itaigara, que formam a "Moema local". Só penso em guloseimas proibidas: uma filial d'A Cubana, numa galeria próxima à Praça Nossa Senhora da Luz, onde dá pra degustar o tal pudim sem ser molestado pelos pedintes do Elevador Lacerda, e uma unidade maior e ainda mais pecaminosa da Doces Sonhos, na Paulo VI, para se jogar e perder a linha mesmo, afinal você está na Bahia e não no Rio de Janeiro. Seguindo a orla em direção ao norte, a praia da Armação tem três endereços muito queridos pelos nativos: os tradicionais Ki-Mukeka e Yemanjá, boas pedidas para um almoço bem típico, e a churrascaria Boi Preto, considerada a melhor da cidade pelo júri da revista VEJA. Já em Itapuã, o Mistura é craque em pescados e frutos do mar - ainda tô louco pra provar os camarões graúdos ao prosecco com risoto de amêndoas.
Por fim, dois endereços para quem não se incomoda em sair um pouco da rota: o venerado Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara no Cabula (o dono prepara moquecas exóticas com as frutas cultivadas lá mesmo; preciso conhecer sem falta da próxima vez!) e a tradicionalíssima Sorveteria da Ribeira, no bairro do mesmo nome - que parece uma vila de pescadores, e pode render uma tarde gostosa, se combinada com um pulinho na Igreja do Bonfim e um pôr-do-sol cinematográfico na Ponta do Humaitá. Bom apetite, meu rei!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Varredura gastronômica soteropolitana
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Thiago Lasco
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terça-feira, 15 de março de 2011
Carnaval de Salvador para não-iniciados
É A SUA PRAIA? Antes de embarcar, reconheço que não sabia se iria curtir. Nunca fui fã de axé e tive medo de que a experiência se resumisse a uma dança da garrafa coletiva. Mas não foi nada disso. O choque cultural foi bem menor do que eu esperava, e durou só até a segunda vodca. O importante é ir sem preconceitos: encare a coisa como "música pop" (e não é, oras?), baixe a guarda e se deixe levar. As bandas que tocam nos grandes trios são afiadas e constroem linhas de baixo rebolativas, cheias de groove, muitas vezes tão dançáveis quanto uma boa house music. Com o diferencial de que a multidão toda sabe cantar o refrão, o que produz um efeito multiplicador de alegria do qual não dá para escapar ileso. Sabe aquele clichê de "todo mundo no mesmo astral, na mesma vibe"? Não poderia ser mais verdadeiro. Na terça, saí atrás de dois blocos, num total de mais de doze horas seguidas - e fiquei triste quando acabou.
MAS O QUE TOCA AFINAL? Vou reforçar o que eu disse no item anterior. Você não vai ouvir só aqueles chicletes de gosto duvidoso, herdeiros da Dinastia Tchan, que traduzem a nossa concepção mais leiga de "axé music". Claro que eles também marcam presença: são lançados justamente nessa época, para tentar estourar no Carnaval de Salvador e, com isso, ganhar espaço nos programas de auditório da classe C pelo Brasil afora (a pérola de 2011 foi "Liga da Justiça", do Leva Nóiz, com o refrão "foge foge Mulher Maravilha, foge foge com o Superman"; você ainda vai ouvir essa música, querendo ou não). Por outro lado, o som de cantoras como Ivete Sangalo já está muito mais próximo do pop, um pop genuinamente brasileiro, do que qualquer outra coisa. Além disso, as atrações não se prendem ao seu próprio repertório: estão sempre cantando músicas de outros artistas. O momento musical mais marcante do meu Carnaval não foi nenhum desses hits mais óbvios, do tipo "na boca e na bochecha", mas uma versão de "Toda Menina Baiana", do Gilberto Gil, que Ivete apresentou em frente ao camarote do próprio, e me deixou cantando "ô-ô-ô, ah-ah-ah" por três dias seguidos. Outra bola dentro, também da fofa, foi uma releitura de "Corazón Partío" (Alejandro Sanz) - que me pegou totalmente de surpresa. Tive que me render.
QUEM VEM? Todo mundo: grupos de jovens querendo pegar geral, famílias inteiras que vêm em caravanas do sertão e superlotam apartamentos alugados, crianças, adolescentes, gente mais velha (no Nordeste as pessoas não "baixam a bola" depois de uma certa idade, como em SP), héteros e gays. Nada de guetos: aqui, o povão se mistura mesmo, e a cidade fica em polvorosa. Dentro das cordas dos trios é que rola uma (relativa) segmentação. Por isso, o lance é você fazer aquela pesquisa prévia básica, e então ir montando a sua programação de blocos. Seus critérios de escolha serão: o perfil do público (tô indo pra beijar moin-to? só quero encontrar paulista e mineiro? recebo Ogum ou seguro o Tchan?), o preço do abadá (que também é altamente relativo, como discutirei mais adiante) e, of course, a atração que puxará o bloco (caso você tenha um ladinho oculto que adooora Cláudia Leitte, por exemplo).
OSMAR OU DODÔ? Todo mundo está cansado de saber - menos você, que é tão desinformado quanto eu era: os 2 maiores circuitos são o Osmar (também conhecido como Avenida) e o Dodô (ou Barra-Ondina). Alguns blocos fazem apresentações em ambos, em dias diferentes. Mais antigo, o Osmar sai do Campo Grande, com o sol do meio-dia a pino, e percorre as tortuosas ruas do Centro; o Dodô pega a orla, do Farol da Barra até a metade de Ondina, e os blocos saem principalmente à noite. No Osmar, o calor é maior, o trajeto é mais apertado e convém redobrar os cuidados com a segurança; já o Dodô parece um sambódromo, largo, iluminado, refrescado pela brisa do mar - e amplamente televisionado para o Brasil e o mundo. Por outro lado, é mais divertido estar cercado pela multidão humilde, que interage e vibra das janelas dos cortiços puídos do Centro, do que pelo povo insípido dos camarotes da Barra, que olha tudo com cara de tédio, em meio a balões infláveis de bancos e portais de internet. O Dodô é confortável e ultracomercial, o Osmar é roots e mais autêntico. Na dúvida, vá de Dodô - mas experimente pelo menos um dia de Osmar.
APARTHEID Sim, o Carnaval de Salvador tornou-se megacomercial e esse é um caminho sem volta. Muita gente reclama que antigamente era melhor, que o sentido de festa popular se perdeu, com as pessoas divididas em castas, dentro e fora das cordas, com ou sem abadás... Confesso que tenho mixed feelings em relação a isso. Por um lado, seria lindo se todos que quisessem pudessem ter acesso. Os próprios cordeiros - os cafuçus contratados pelos trios para segurar as cordas e garantir que os penetras não entrem - pedem esmolas a você durante o percurso, fazendo você lembrar que faz parte de uma elite. É triste, e falo isso sem qualquer demagogia. Por outro lado, sem corda e sem abadá, a coisa toda se tornaria impraticável - seria tanta, mas tanta gente, que os trios não sairiam do lugar. Quem não tem bala na agulha tem que se contentar com a "pipoca" (assistir ou seguir os trios no aperto do lado de fora das cordas), ou então esperar a quarta-feira de cinzas - quando o tradicional Arrastão, sem cordas, reúne estrelas como Ivete e Timbalada.
MADRINHA DAS GUEI Acredite se quiser: Daniela Mercury não pendurou as chuteiras em 1992, após "O Canto da Cidade". Ela continua gravando discos, vende superbem na Bahia e, mais do que isso, comanda um dos blocos mais fervidos do Carnaval baiano, o Crocodilo. Enquanto nos outros blocos os gays se infiltram, aqui eles são absoluta maioria. É um verdadeiro mar de homens desfilando e se beijando em plena avenida, a céu aberto, sob os olhares dos camarotes e das câmeras de tevê. Não que o público se choque - mas várias bees de Salvador não seguram a onda de tanta exposição pública e acabam evitando esse bloco, tão notoriamente gay que o abadá em si já vem com um carimbo "SIGNIFICA". Daniela se comporta como uma verdadeira mestre-de-cerimônias: começa com um show de delicadeza, pedindo que foliões, cordeiros e pipocas respeitem-se uns aos outros, e depois conduz a massa com absoluto domínio e um repertório dançante (zum-zum-ba-ba!), que funde épocas e estilos. A noite passa voando. O Crocodilo sai entre domingo e terça, sendo que a primeira noite é a obrigatória, em que todo mundo vai, e a última também é especial pelo clima de despedida. Segunda é a noite que se convencionou pular.
MADONNA BRASILEIRA Dentro e fora do Carnaval de Salvador, poucas cantoras do universo pop brasileiro desfrutam hoje de um status tão privilegiado quanto Ivete Sangalo. Na folia soteropolitana, primeiro ela se apresenta como contratada em outros trios (Salvador na sexta, Cerveja & Cia. no sábado), depois comanda três dias no seu próprio bloco, o Coruja (domingo e terça no Osmar, segunda no Dodô). É uma reunião de fãs: diante da simples visão de Ivete no topo do trio, o público sorri abobado e completamente entregue. Sejamos justos: Ivete é linda, tem carisma e está acumulando um repertório respeitável de sucessos. E pincela umas covers bem bacanas, como eu disse mais acima. Só que ela canta no máximo uns 30% da letra: ela manda um verso, joga o microfone pro público e só vai completar o trabalho no final da estrofe seguinte. Assim, até eu faço cinco apresentações seguidas, meu bem. Fui no último dia (terça). No começo do bloco, eu via tantas meninas de rabo de cavalo que pensei que tinha caído em algum fretamento para a Disney. Aos poucos, os gays foram aparecendo, a bebida foi subindo e começaram a pipocar uns beijos aqui e ali. A pegação é mais esparsa, mas o pessoal é beeem mais bonito do que no Crocodilo.
MUITO MAIS Nessa minha primeira experiência, procurei escolher blocos que tivessem alguma presença gay e um clima mais solto. Afinal, não queria correr o risco de me sentir um peixe fora d'água. Ivete e Daniela são as duas divas, ao ponto de cada biu local ter e defender a sua preferida (uma coisa "Britney vs. Aguilera"). Mas o Carnaval de Salvador vai muito além dessa dualidade: há outras atrações tão ou mais bombadas, como Cheiro de Amor, Banda Eva, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Olodum e Timbalada. Isso sem falar do célebre afoxé Filhos de Gandhy (só Freud explica por que as mulheres têm taaaanto fetiche por aqueles homens vestidos de baiana do aracajé!), dos blocos eletrônicos (neste ano foram três: David Guetta, Will.I.Am/Skol e Liberty, um bloco tribal-GLS que foi o erro) e dos blocos menores, que desfilam sobretudo no circuito Batatinha, no Pelourinho. Da próxima vez, não vou abrir mão de um Crocodilo e um Coruja, mas pretendo dar uma diversificada.
É DIA DE FEIRA Um dos maiores inconvenientes é o preço dos abadás, especialmente dos blocos de artistas mais bombados, como Chiclete com Banana, Asa de Águia e a própria Ivete. Pelas vias oficiais (Central do Carnaval ou Axé Mix, conforme o bloco), você chega a desembolsar mais de mil reais por um único abadá, e sem direito a open bar. Para quem não é rykah de berço, o jeito é se jogar nas duas feiras de cambistas: no Jardim Brasil (atrás do Shopping Barra) e nas imediações do Aeroclube. A economia pode passar de 80%, especialmente se você comprar mais em cima da hora (afinal, depois que o trio passou, o abadá perde todo o valor). Tenha sangue frio e negocie. Como o pagamento só pode ser em cash e todos sabem que você estará com os bolsos cheios, vá em grupo e tome cuidado para não ser roubado, especialmente no Aeroclube. Vencida a batalha da compra, é só customizar seu abadá e sensualizar na avenida. Você pode recorrer a uma das inúmeras oficinas espalhadas pela cidade, ou arrasar sozinho com sua tesoura, tomando o cuidado de não cortar o nome do bloco, o logo do patrocinador e as marcas de autenticidade, o que pode inutilizar o abadá. Se estiver com preguiça, apenas passe o abadá por trás da cabeça - pagar peitinho sempre funciona.
SURVIVOR E por falar em dinheiro, se você se deparar com um caixa eletrônico que funcione, aproveite: essa poderá ser sua última chance. Se uma das máquinas for daquelas que só soltam notas de R$2 ou R$5, deixe escorrer uma lágrima de emoção e faça tantos saques quanto for possível: na avenida, dinheiro miúdo vale ouro, porque é muito difícil estender uma nota de R$20 e esperar o troco quando se está bêbado, no meio de uma multidão tomada por Iansã. O negócio é jogo rápido: com uma mão você estende a nota, com a outra pega a bebida e desaparece. Ah sim, é fun-da-men-tal andar com um daqueles porta-dólares por baixo da roupa: nele você leva seu dinheiro, sua chave e um documento velho. No bolso, não leve nada. E nos pés, um tênis velho e confortável - que ficará imprestável, portanto traga também um par sobressalente para os momentos off-bloco.
CAMAROTES Outra maneira de curtir a festa é comprar ingresso para um dos muitos camarotes que ficam dispostos ao longo do circuito Barra-Ondina, e assistir ao desfile dos blocos com mais conforto. Cada camarote é uma festa em si, com comida, bebida e música independente (a cargo de bandas e/ou DJs), o que significa que você pode passar a noite curtindo ali dentro e simplesmente abstrair os blocos, se quiser. Assim como acontece com os trios, há camarotes para todos os gostos e faixas de preço. Fatores para comparar: o tipo de público (desde celebridades até o povo da firrrrma), as atrações (bandas/DJs, que só interrompem o som quando um bloco está bem em frente ao camarote), a comida e bebida (nos mais simples, a bebida é vendida à parte; nos mais caros, all inclusive, há até sushi e comida contemporânea) e a localização (afinal, um dos grandes atrativos é a visão privilegiada que se tem da avenida, aquela multidão vista do alto é uma cena e tanto). Minha opinião sincera? Vale a pena pegar um camarote naquele dia em que você precisa fazer uma pausa e descansar. Mas, enquanto quem está no camarote assiste ao Carnaval, quem está no bloco participa, protagoniza, vive o Carnaval. Quando eu olhava lá de baixo os rostos debruçados nos camarotes, tinha a impressão de que ninguém ali estava se divertindo tanto quanto eu.
ABRIGO O melhor dos cenários, na minha opinião, seria você alugar um apartamento na Graça, meu bairro preferido: prédios antigos, apês enormes, perto o suficiente dos dois circuitos para você ir a pé, mas sem nenhum barulho ou muvuca. Caso você fique em hotel, reduza suas escolhas a três bairros: Barra, Ondina ou Rio Vermelho, cada qual com prós e contras. Na Barra, você tem fácil acesso à "largada" do circuito, mas será obrigado a respirar carnaval 24 horas, pois o bairro, que tem poucas ruas, fica tomado de gente, lixo e barulho o tempo todo. Na Ondina, onde ocorre a dispersão, o barulho noturno também pode incomodar - boa parte dos hotéis fica ao redor dos camarotes, por onde passam os trios. Pelo menos você sairá do bloco, exausto, a poucos passos da sua cama. No Rio Vermelho, você terá que se deslocar diariamente para a Barra (e pegar congestionamentos, dependendo da hora e caminho escolhidos), mas você tem a melhor estrutura de bares e restaurantes (na Barra as opções são sofríveis), além de uma rede hoteleira mais recente. Outros bairros? No Carnaval, eu só consideraria se fosse para ficar como convidado na casa de alguém.
BABADO FORTE? Aposto que tem leitor meu que só seguiu o texto até aqui porque estava esperando pela parte em que eu falo dos cafuçus. Pois é, para quem curte essa beleza bem brasileira, a Bahia é o paraíso na Terra - já declarei publicamente por aí que os baianos estão no topo da minha lista de preferências. Os braus locais ("cafuçu" é coisa de pernambucano, jamais ouse pronunciar esse termo na Bahia, eles acham pejorativo!) são mesmo de babar, colega. Além disso, a capital soteropolitana é a terra dos "héteros que fazem" - aqueles bofes que, na maior discrição, mandam ver mesmo, e nem venha você querer definir a sexualidade deles. No entanto, por incrível que pareça, o Carnaval de Salvador não é tão sexual como alguns podem imaginar. Claro que as pessoas estão ali para se permitir, mas, em sua grande maioria, o que elas querem é beijar, não necessariamente transar. É um clima muito mais puro e brincalhão, de curtir a música, sair com sua galera, beijar muito, dar risada e não ter grandes preocupações, do que um açougue da carne como em outras praças.
RELAXE, MEU REI Aos cri-críticos de plantão: venham vacinados para conviver com os problemas da cidade, sem deixar que eles azedem o seu bom humor. Nesses dias frenéticos, Salvador fica ainda mais suja. É preciso manter-se alerta contra os furtos (mas sem neurose! também não é tão perigoso assim). As avenidas de acesso que formam o yakissoba viário da cidade (Centenário, Garibaldi, Vasco da Gama, Cardeal da Silva, Vale do Canela) freqüentemente engarrafam - escolher o caminho mais livre é pura questão de sorte. O serviço é um dos piores do Brasil, oscilando entre a simples ineficiência e os maus tratos ao cliente. Não espere ouvir um "por favor", "com licença" ou "obrigado" - e, quando você agradecer, tampouco ouvirá resposta. Mas nada disso estraga o brilho da festa. É só você ir com o espírito preparado. Ninguém ali quer receber suas lições de civilidade. E lembre-se: na Bahia, uma hora tem 90 minutos.
COMBUSTÍVEL Salvador tem excelentes restaurantes [já falei sobre alguns no blog e voltarei ao tema no próximo post]. Nada como pedir um prato com camarão e receber camarão de verdade. Mas vá por mim: nos dias de Carnaval, você dificilmente vai querer perder tempo com grandes deslocamentos e comida que pode pesar no estômago. Se quiser usufruir da gastronomia e das atrações turísticas de Salvador, o ideal seria viajar em outra época, ou pelo menos pegar mais alguns dias antes (lembrando que a festa começa já na quinta, não no sábado!) ou depois do Carnaval. No corre-corre do circuito, você vai ter que se virar com comida rápida de barracas (salgados, pizzas etc.) e os sanduíches e vitaminas do Suco 24 Horas. Provavelmente, sua maior preocupação será o álcool (que é absolutamente essencial, diga-se de passagem). Dentro dos trios, tudo é mais caro: fora deles, se você não curte cerveja e acha as bebidas ice fraquinhas demais, terá um pouco mais de trabalho até achar uma vodca que seja confiável. Por isso, os mais espertos compram uma garrafa de Smirnoff ou Absolut, gelam em casa e levam para o trio em garrafinhas de água de 500ml, ou naquelas mochilas etílicas do tipo camelbak.
FOI BOM PRA VOCÊ? Posso afirmar com segurança que essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito para o Carnaval de 2011. Se eu voltarei? Não tenho a menor dúvida que sim. Todo ano? Provavelmente não, porque os preços são salgados demais para o meu bolso [nem sei como teria sido sem o apoio e a hospitalidade de meu amigo David, a quem deixo meu beijo e muito obrigado!]. E porque eu também curto o Carnaval do Rio de Janeiro e de Florianópolis, cada um do seu jeito. Salvador provavelmente vai entrar no meu rodízio com as outras duas cidades - ainda que o astral de lá seja dez vezes maior do que o da primeira e duzentas vezes maior do que o da segunda. Sem tanto carão, sem tantos guetos, conhecendo gente diferente. Na terça, quando os trios chegavam perto do fim, tocando os clássicos eternos, os foliões felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, não querendo que aquilo acabasse... aquilo foi um momento totalmente emocionante, uma sensação que eu nunca pensei que pudesse ter. Foi aí que caiu a ficha que eu tinha realmente entendido o Carnaval de Salvador.
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Thiago Lasco
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12:42 AM
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terça-feira, 1 de março de 2011
Baianizer
Escrevo este post na maior correria do mundo. Estou tentando dar conta das últimas pendências no trabalho, para poder sair depois do almoço e cruzar a cidade (alagada) até o aeroporto de Guarulhos. Meu Carnaval começa hoje, e dessa vez vou romper com o tradicional rodízio entre Rio de Janeiro e Florianópolis. Neste ano que está sendo marcado por tantas novas experiências, chegou minha hora de finalmente conhecer o Carnaval de Salvador. Vou cair na folia e depois dar uma descansada por lá até o dia 13.
Assim que confirmei a viagem, saí à caça de informações para poder montar minha programação. Conheço bem a cidade, mas sou totalmente leigo nesse assunto: se me pedirem o nome de três músicas de axé, vou saber dizer "Arerê", "A Dança do Vampiro", "O Canto da Cidade" e olhe lá. A festa baiana é um emaranhado de blocos e camarotes, espalhados por três circuitos diferentes, ao longo de seis dias (na Bahia, o babado começa já na quinta). É preciso pesquisar um pouco para entender as sutilezas, qual o tipo de público, se é mais friendly, se vale ou não a pena, e então tomar as decisões e comprar os respectivos abadás. Até porque é tudo caro pra cacete: para entrar na cordinha do Coruja, o bloco de Ivete Sangalo, pagam-se escorchantes R$650 por dia! E tem muita gente que compra os três dias e paga sem reclamar, jurando de pés juntos que é uma magia toda mágica, algo que não tem preço, que só vivendo para entender.
Engana-se, porém, quem pensa que o Carnaval de Salvador se resume ao axé. Existem trios com outros estilos musicais, desde as clássicas marchinhas até rock, reggae e música eletrônica - neste ano representada por nomes como Armin Van Buuren e David Guetta. Outro equívoco, reforçado pelas transmissões da televisão, é pensar que nessa festa só os héteros se dão bem. O bloco Crocodilo, capitaneado por Daniela Mercury, tem maciça presença gay. A fama do Crocodilo é tanta que muitos nativos, não querendo ter seu filme queimado numa sociedade onde as coisas acontecem por baixo do pano, acabam migrando para outros blocos, como o próprio Coruja, onde se jogam do mesmo jeito, no meio da multidão. Para quem prefere fazer a linha barbie-túrica, sábado será dia da Pool Party Salvador, com produção caprichada e Offer Nissim e Ana Paula no som - uma festa que promete não ficar devendo às similares do Sudeste, e será emendada num bloco eletrônico (Liberty) que percorrerá o circuito Barra-Ondina.
É claro que vou conferir a programação GLS, que ainda contará com o camarote Vipado, do fofo Ailton Botelho [informações aqui] e as madrugadas do repaginado clube San Sebastian, que funcionará em clima de after. Mas confesso que estou até mais curioso com os blocos não especialmente direcionados, como o de Ivete, que fazem a cabeça de verdadeiras multidões. Nunca fui muito fã do estilo, mas não ficarei admirado se, de repente, eu me pegar dançando e cantando junto, e simplesmente me deixar levar. Tudo pode acontecer. Estou embarcando nessa para me surpreender - coisa que certamente não aconteceria no Rio ou em Florianópolis, onde as mesmas festas trarão os mesmos DJs nos mesmos dias da semana dos anos anteriores, e a única novidade será tocar "Born This Way" no lugar de "Bad Romance". Bom carnaval a todos! Segurucu!
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Thiago Lasco
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11:35 AM
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Sauípe 2010: muito Heaven e pouco Hell
Hell & Heaven 2010. Pela segunda vez, o resort Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, hospeda um festival de música e festa para o público gay. Dois hotéis do complexo são fechados para o evento, divulgado ao longo de doze meses por meio de ações promocionais nas principais capitais e na mídia especializada, atraindo homens de vários estados brasileiros, dispostos a se jogar em festas alucinantes. "Qual é o seu pecado?", provocava o mote do H&H. Depois de anos de estrada em Carnavais, Réveillons e Paradas no eixo SP-Rio-Floripa, o que esperar e como se preparar para um trem desses? O melhor é respirar fundo, cortar os carboidratos, comprar um bom suprimento de camisinhas e já deixar o nome na fila de transplantes de fígado pelo SUS: a jogação tem tudo para ser intensa. Afinal, a fórmula é a mesma de sempre, só que dessa vez enfeitada com uns coqueiros baianos. Certo?
Pois não foi bem assim.
Para começar, o H&H não foi, nem de longe, tão pesado como eu imaginava. Pensei que seria um turbilhão nonstop das 12h de sexta às 12h de domingo, tipo "salve-se quem puder". Mas a programação do evento foi muito bem amarrada, intercalando períodos de festa e de descanso. Todo mundo pôde fazer todas as refeições (comendo apenas o necessário, já que o bufê era medíocre, com exceção do café da manhã) e também dormir, sem comprometer a farra. É lógico que dançar e tomar o sol forte do Nordeste cansam o corpo, mas cheguei em casa muito mais inteiro do que nas minhas voltas do Carnaval no Rio ou Florianópolis. E olha que, antes do Sauípe, eu já estava me jogando em Salvador havia uma semana.
Outra surpresa: as festas cumpriram seu papel, mas não foram os pontos altos do H&H. O que se fazia era simplesmente montar um palco e um telão na área da piscina de um dos hotéis (e, na festa seguinte, na piscina do outro, dando uma ideia de variedade), ligar o som e chamar os DJs. Sem qualquer refinamento (o tal selo argentino só deve ter emprestado o nome), sem aquele clima de grande produção que marca as tardes de Rosane Amaral no Rio e as noites de André Almada em SP. Nem mesmo a festa principal - a noite de sábado, trazendo o headliner Peter Rauhofer - fugiu disso. A produção poderia ter projetado luzes coloridas nos coqueiros, uma ideia simples que teria criado um efeito incrível, mas se limitou a repetir o telão e meia dúzia de luzes sobre as pessoas, que se equilibravam nos desníveis do terreno acidentado para dançar.
Um fator que contribuiu para que as festas não impressionassem tanto: o evento já mantinha um clima festivo o tempo todo. Na chegada ao resort, o público era recebido para o check in com house e tribal; depois, na piscina, mais música; chegando no salão para jantar, lá estava Offer Nissim nos falantes para dar uma animada. Por isso, quando começava uma "festa propriamente dita", não havia um incremento de emoção em relação aos períodos "sem festa": o que acontecia era uma mera mudança de cenário. Se eu senti uma diferença maior na noite de sábado, foi pelo aumento do público (os moradores de Salvador tiveram a opção de comprar o ingresso avulso para essa festa), pelo som do Peter (que deu o clima mais encorpado que a noite pedia), e também pelo fato de que aquele era, afinal, o clímax antes da despedida. (E foi mesmo especial viver o amanhecer daquele cenário, com o marzão crescendo diante dos nossos olhos ao som de um Peter inspirado).
Além disso, a pegação também ficou aquém do que se podia esperar ao se colocar um monte de homens gays, bonitos, isolados num cenário daqueles. Enquanto dava meu giro de reconhecimento pelo resort, eu imaginava o povo indo aprontar na praia de madrugada, se comendo nas moitas e matinhos que enfeitavam as áreas comuns, zanzando freneticamente pelos corredores de um quarto para o outro. Mas não vi nada disso; se chegou a acontecer, então eu estive nos lugares errados, ou na hora errada. Mesmo durante as festas, achei a beijação bem mais contida do que num bom Carnaval - sendo que estávamos no Estado brasileiro onde mais se beija nessas festas, e fiquei lúcido o suficiente para entender o que se passava ao meu redor. (Logo eu, que me fantasiara num quarto de hotel com mais três, fazendo um picante role play nordestino, sendo a rolinha de vários coroné, enfileirados para colocar a pomba no meu boga e me dar uma boa pisa... Só fiquei zen porque já tinha chegado de Salvador pra lá de saciado!)
Mas nem por isso eu deixei de gostar do Hell & Heaven. A experiência valeu a pena e eu certamente repetiria a dose! O espaço do resort é muito bacana, as áreas comuns são grandiosas e, se a praia não é particularmente bonita para os padrões baianos, é mais do que suficiente para encantar mineiros e brasilienses (esses grupos eram maioria; já baianos e pernambucanos, vi bem menos do que esperava). Meu quarto era bastante confortável, e o outro hotel oferecido era ainda melhor. Sei que não temos que buscar o gueto e sim a inserção social, e blá blá blá, mas foi sensacional ter toda a estrutura do Sauípe só para nós, gays. Isso sim eu considero o grande highlight do H&H. No café, nas piscinas, em toda parte, todo mundo tranquilo, integrado, falando a mesma língua, vivendo a mesma onda. Reconheço que no final eu já estava até meio enjoado de ver tanto viado junto, mas o evento teve a medida certa. Talvez eu colocasse um dia a mais para o povo poder curtir o resort (tivemos apenas o sábado inteiro, os outros dois dias foram de trânsito), mas não mais do que isso.
Acima de tudo, preciso reconhecer que o astral do H&H esteve lá em cima o tempo todo. As pessoas pareciam desarmadas, tranquilas. Talvez tenham cansado de seguir à risca a cartilha dos excessos e resolvido simplesmente relaxar e curtir o resort, sem maiores pretensões. O clima era tão leve, mas tão leve, que eu poderia ter gravado um vídeo compacto do evento e mandado para minha mãe. E o evento foi um sucesso: na reta final, todos os quartos acabaram vendidos, e já estão marcadas duas edições em 2011, em maio (Angra dos Reis) e novembro (Sauípe novamente). Se foi um pouco diferente do que eu imaginava, numa próxima já irei com o espírito mais preparado. No aeroporto de Salvador, na fila do check in para SP, eu continuava me surpreendendo com mais e mais homens lindos, que também voltavam no H&H e eu nem tinha visto. Todos com uma cara boa, realizados. Talvez a gente possa se reeducar para não ter que beijar todas as bocas e se atracar com todos os corpos para sentir que aproveitou, se divertiu e foi feliz.
[Foto: Genilson Coutinho/ACapa]
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Salvador: nada ficou no lugar
Sinto desapontá-los, isto dói mais em mim do que em vocês, mas Salvador não presta mais. Agora que o Bar da Ponta fechou as portas, não tenho mais nada para fazer naquele fim de mundo, então beijos e nos vemos no Rio de Janeiro. Claro que estou brincando: mesmo com a perda irreparável do meu xodó (que era tudo de bom, fiquei arrasado), o saldo da minha quinta visita à capital baiana foi bastante positivo. Mas é fato que encontrei uma cidade menos legal, já que várias de suas atrações mais bacanas simplesmente deixaram de existir. O saudoso Bar da Ponta, que Deus o tenha, foi engolido por um empreendimento imobiliário de alto padrão, junto com o bacanudo restaurante Trapiche Adelaide, do qual era anexo. Quem também deixa saudade são as megabarracas que transformavam as praias do Flamengo e Stella Maris em puro fervo. Por conta de uma quizila jurídica com a União, todas elas foram sumariamente demolidas em agosto. Isso mesmo: não existe mais Barraca do Lôro, nem Margueritta, nem Gaúcho, não existem mais drinques servidos em espreguiçadeiras rústicas-chiques, nem corpos malhados dançando house music em deques à beira-mar. O Litoral Norte de Salvador mó-rreu! Já o Porto da Barra felizmente continua o mesmo, com a água deliciosa para nadar, um pôr-do-sol mais aplaudido que o do Arpoador, e aquela mistura única de classes sociais, etnias, estilos e pegadas. E corpos babadeiríssimos ali e acolá. Aliás, sem querer ferir brios ou fomentar bairrismos, a Bahia tem os homens mais bonitos do Nordeste, né? Nos finais de semana, quando a superlotação deixa o Porto da Barra intransitável, o novo plano B da galere é o Buracão, uma prainha escondida no Rio Vermelho que só os moradores do bairro freqüentavam, e agora vem sendo adotado pelos descolados, num clima low profile. Para quem gosta de conforto, uma opção é ir até o Corredor da Vitória e tomar sol no Mahi-Mahi, bar do hotel Sol Victoria Marina que tem um píer que avança sobre a Baía. Você paga uma consumação e passa o dia comendo, bebendo e tomando banho de mar. Parece que o esquema é bem gay friendly. A Barra não tem a fartura de comidinhas pós-praia de Ipanema. Acabei adotando o Ramma, um simpático restaurante natural escondido na Rua Lord Cochrane (como será que os baianos pronunciam isso?). Depois de horas de sol nordestino, o suco de tangerina deles descia que era uma maravilha. Adoro que na Bahia essa fruta dá o ano todo, não tem época certa como aqui em São Paulo. A doceria A Cubana inaugurou uma filial na Pituba, num shoppingzinho na Praça Nossa Senhora da Luz. Isso significa que agora você pode comer o melhor pudim de leite condensado do mundo, sem ser molestado a todo instante pelos pedintes do Elevador Lacerda. Outro endereço que continua firme e forte no topo da minha lista de laricas pecaminosas é a Doces Sonhos, na Vitória. Os bolos de lá são pura felicidade cortada em pedaços. Morri três vezes a cada garfada. A vista da Baía de Todos os Santos transforma qualquer ida ao complexo gastronômico Bahia Marina em um programão. Matei a saudade do japonês Soho, que continua bem gostoso e badalado. Voltei também ao contemporâneo Lafayette - mas os pratos criados por Carla Pernambuco já não têm o mesmo brilho de antes. Acabei não conseguindo ir a nenhum restaurante especializado em frutos do mar. Da próxima, quero provar os camarões ao prosecco com risoto de amêndoas do Mistura, em Itapuã, e as moquecas mutcholocas com frutas e ingredientes naturais do Paraíso Tropical, que funciona dentro de uma chácara distante no Cabula e virou cult. Para um jantar mais informal e barato, aprovei o Mariposa, no Jardim Apipema, atrás da Ondina. Tem um longo menu de sucos, crepes e temakis, numa casa colorida bem praiana, supersimpática. O Pelourinho, que já não era minha área preferida em Salvador, está com um arzinho largado, abandonado. Parece que todo o dinheiro da região foi para o Carmo, onde a inauguração do hotel-boutique Convento do Carmo acabou dando um sopro de vida em todo o entorno. Já o MAM, que estava totalmente ao deus-dará, deu um merecido tapa em seu Jardim de Esculturas, que ainda é meu segundo lugar favorito para ver o pôr-do-sol soteropolitano (o primeiro é a Ponta do Humaitá). Com a morte de bares como Marquês (que fazia as vezes de Ritz baiano), Babalotim e Boomerangue, hoje Salvador não tem nenhum endereço gay friendly onde se possa fazer um esquenta antes de ir dançar. Ou você toma os primeiros drinques onde estiver jantando (a pizzaria Piola já foi uma opção, mas agora o hype passou e ela está às moscas), ou então aciona seus contatos e descola um chill in na casa de algum amigo local. Aliás, num desses esquentas, fui descobrir que as blogueiras Katylene e Cleycianne também são adoradas por lá, e estão colocando suas gírias na boca das bees. Tive a oportunidade de conhecer a bombada San Sebastian em sua última semana no antigo endereço - a casa está de mudança para outro imóvel na mesma rua. Deve existir um "jeito soteropolitano de construir boate": estreito e comprido, com andares e mezaninos, o clube me lembrou muito a primeira Off. A propósito, a Off Club, que reinou sozinha na noite por anos, perdeu o trono e se tornou a boate "do meio". Nos extremos estão a San Sebastian, para onde migrou o pessoal mais bonito, e a Tropical, opção mais popular e bagaceira. Uma pulga me contou que a dona da Off pensa até em se desfazer do negócio. Entre os DJs locais, quem mais chamou minha atenção foi o Bernardo Chez. Além de ser um gentleman e um fofo de marca maior, o loirinho-angelical está fazendo um som bem bacana, criando inclusive seus próprios bootlegs e mashups. Tem tudo para conquistar mais espaço na cena, e não só em Salvador. Na boate, depois de certa hora da noite, elas ficam bem soltinhas, e a beijação rola em esquema drive-thru, tipo assim bem solto. Vai ser bom, não foi? Cansada de quebrar louça? Pois saiba que o percentual de atividade em Salvador beira os 90% - nenhuma outra capital tem tamanho superávit! E ó, tem que levar preservativos GG na nécessaire, viu? Para os adeptos dos vapores vespertinos, a Rios continua sendo o endereço mais indicado. E quem curte um perigón na linha Uomini se refestela no Paredão, no Jardim de Alah - uma falésia que esconde encontros furtivos e sorrateiros na calada da noite. Bateu uma vontadinha de ir (ou voltar) a Salvador? Se fosse você, eu me hospedaria na Barra, para poder ir à praia a pé, e daria uma olhada nas tarifas do Sol Barra, do Grande Hotel da Barra e do Marazul, nessa ordem. Ou então ficaria no Rio Vermelho e decidiria entre o funcional-padronizado-insípido Ibis e o charmoso Catharina Paraguaçu, todos numa faixa de preço viável. As músicas que ilustram este post são "Happiness" (Dave Aude Club Mix), de Alexis Jordan, e "Empire State of Mind" (na versão que o André Garça toca) . Elas deram o tom da minha semana em Salvador e também do fim de semana no Sauípe, no festival Hell & Heaven - que será o assunto do próximo post.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
Rapidinhas diversificadas
DA JABULANI À JABIROSCA Quem não morreu de vergonha de ser brasileiro quando veio ao mundo o logotipo oficial da nossa Copa do Mundo 2014? A tosqueira tem cara de improviso - parece aqueles trabalhos que crianças de 6 anos fazem na aula de artes da pré-escola - e recebeu críticas de todos os lados, das mais embasadas às mais escrachadas. Levando a sério a máxima de que só pode criticar quem faz melhor, o blogueiro Guilherme Bandeira desenvolveu várias versões alternativas do logotipo, todas disponíveis em seu blog Olha Que Maneiro. A minha favorita ilustra este post. Realmente, era bem fácil fazer melhor.
INVERNO GRATINADO Com a frente fria violenta que varreu o Sul e o Sudeste, nosso apetite pede pratos quentes mais substanciais. Enquanto não tomo coragem para escrever outro roteiro gastronômico, vou dar duas dicas pontuais, ambas em São Paulo. Uma é o Marcel, no Brooklin, disparado o melhor endereço da cidade para comer suflês - o Maison, minha receita favorita, leva camarões, queijo e cogumelos. A outra é o Bar do Alemão, um restaurante que há várias décadas faz os paulistanos viajarem até Itu para saborearem seu gigantesco filé à parmegiana. Agora não é mais preciso pegar a estrada: a casa abriu uma filial em Moema. A versão grande do prato, com 700g de bife, alimenta até 5 paladares.
CORTINAS DE VELUDO RELOADED Último clube de sucesso no tempo em que a Consolação ainda era o epicentro da noite GLS de São Paulo, o Ultralounge viveu sua melhor época entre 2000 e 2001 - quando Sérgio Kalil já tinha fechado a B.A.S.E. e ainda não tinha aberto a Level. Com um enorme candelabro e cortinas de veludo bordô, o Ultra se pretendia pomposo e reforçava a aura convidando artistas e fashionistas para comandar as pickups no início da noite. Foi o último clube menor e intimista, antes da era dos descamisados e do colocón: ali, bacana era ir de camisa social, com atenção especial para o cabelo bem esculpido. Varrido da cena por um complô entre vizinhos e prefeitura, deixou muitos órfãos. E agora está de volta, sob a forma de um projeto que ocupará uma ou duas sextas por mês, no clube Lions. [Faltava mesmo uma noite gay no Lions, eu já tinha cantado essa pedra aqui]. A estreia é hoje, e os habituês do Ultra devem comparecer em peso. Será que o Cecin vai tocar aquele remix de "Don't Tell Me" que foi o hino absoluto dos velhos tempos?
A TRILHA DO PARAÍSO E por falar em balada, já saiu a programação das festas do Hell & Heaven, babadeiríssimo evento gay que fará sua segunda edição em novembro, na Costa do Sauípe (BA). O line up superou as minhas expectativas. Na noite do dia 4/11, a festa de boas vindas traz Cella e Rafael Calvente, em parceria com as domingayras Café Com Vodka (SP) e Duo (RJ). No dia seguinte, a abertura oficial tem Renato Ratier (D-Edge) e o francês Tristan Garner, do hit "Stomp That Shit". Sábado será a maratona suprema da jogação: de dia tem pool party com Felipe Lira, André Garça e Danny Verde, e à noite tem festona com Ana Paula e Peter Rauhofer. Já estaria de bom tamanho, mas ainda tem mais: a manhã de domingo será em ritmo de after, com Rodolfo Bravat, André Queiroz e - tcharam! - o argentino Aldo Haydar, fazendo o gran finale perfeito. Partiu Sauípe?
PLUMAS, MULLETS & MARIACHIS E ainda no embalo do post de ontem, a Secretaria de Turismo da Cidade do México anunciou que dará de presente uma viagem de lua-de-mel ao primeiro casal gay a se casar na Argentina. O mimo será uma parceria da prefeitura com a iniciativa privada: o governo municipal arcará com as passagens aéreas, enquanto hotéis e restaurantes da Cidade do México e de Cancún oferecerão hospedagem e alimentação. A ideia busca incentivar o turismo gay friendly no México, cuja capital já reconhece a união gay desde dezembro. Fofo, não?
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Rapidinhas do fim de semana
ÔLHA O PASSARRINHO Uma dica para aficcionados por fotografia é a exposição de fotos do francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) no SESC Pinheiros, dentro dos eventos do Ano da França no Brasil. Considerado um dos pais do fotojornalismo, ele fez registros belíssimos de suas andanças pelo mundo, a maioria deles usando uma antiga Leica, câmera alemã que virou objeto de culto. Seus flagras do cotidiano são uma verdadeira aula de enquadramento, composição e sensibilidade. A mostra, gratuita, se estende até meados de dezembro.
UM NEGÃO CHAMADO BASTIÃO Lembram que um passarinho verde cochichou no meu ouvido, há dois meses atrás, que Salvador estava prestes a ganhar um novo clube? A casa, chamada San Sebastian, será inaugurada amanhã, com os convidados Felipe Lira e Eric Cullemberg no som. Fica na Rua da Paciência, a poucos metros do Boomerangue e, a exemplo do já não tão concorrido vizinho, tem três andares e programação variada (apenas o sábado é gay). A novidade vem em boa hora: as bunitas da cidade já estavam enjoadas da Off e quase não saíam mais de casa, o que deixava a noite de Salvador com um certo quê de Porto Alegre. Se a casa agradar, é natural que se torne líder aos sábados, deixando para a Off o posto de melhor opção das sextas-feiras.
MARA OU MICO? E falando em Bahia, alguém aí vai se jogar no festival Heaven & Hell, na Costa do Sauípe? Sei que ainda faltam dois meses (o evento começa em 20 de novembro), mas já era para o burburinho ter começado. É claro que o evento não se destina apenas aos paulistas (até mesmo pela proximidade geográfica, faz mais sentido que Salvador e Recife estejam em polvorosa do que SP), mas a organização certamente também esperava receber muita gente destas bandas, e não estou vendo nenhum tititi em cima dele por aqui. O que vocês me dizem: decola ou não sai do chão?
NUEVOS BOLICHES Outra cidade cuja cena noturna parece estar sacodindo a poeira e dando a volta por cima é Buenos Aires. Depois que o Palacio Alsina deixou de fazer as melhores noites gays da cidade para receber apenas eventos eletrônicos, muita gente que não vive o culto aos DJs não gostou nadinha de ter que se contentar com o Amerika. Chegou aos meus ouvidos que agora há alternativas por lá. Na sexta, o que está pegando é o Rheo Bar, ali no Paseo de la Infanta, dentro dos Bosques de Palermo, onde nos anos 90 funcionava o Buenos Aires News (não entendi se é algo light tipo Sonique ou um clube mesmo). Já no sábado, o boliche gay do momento é o novíssimo Human, que fica perto do Aeroparque (o aeroporto doméstico de BsAs). O blogueiro Gurizão (que está se revelando um ótimo olheiro de beldades) foi e adorou.
A BRANCA E A MEGA Já em São Paulo, a chapa tá esquentando. Amanhã acontece a reabertura da Megga, que prometia ser o segundo grande clube gay da cidade, mas saiu misteriosamente de cena poucas semanas depois da inauguração [que eu descrevi aqui]. A casa abrirá apenas uma vez por mês, justamente para garantir a bombação e a expectativa - na pista principal, Paulo Agulhari prometeu menos bate-cabelo e mais progressive. Enquanto isso, a The Week lançará uma nova festa, Nuit Blanche, com decoração all-white e cenografia especial. Grá Ferreira, que fará seu casamento religioso na mesma noite, sairá da igreja direto para lá e se apresentará de véu e grinalda, na pista principal. No mínimo, vale pela oportunidade única de ver uma DJ tocando vestida de noiva.
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quarta-feira, 29 de julho de 2009
La Figa: o velho La Lupa é bem melhor
Como pimenta e dendê são dois ingredientes que eu abomino, o meu restaurante preferido em Salvador tinha que ser um... italiano. O La Lupa era uma simpática cantina no final da Rua das Laranjeiras, numa parte menos muvucada do Pelourinho. Como a especialidade da cozinha eram as massas com frutos do mar, de uma certa forma eu estava aproveitando as riquezas locais. Em São Paulo, você paga uma fortuna por um prato com míseros dois ou três camarões - isso quando eles não usam aquele sete-barbas fajuto com gosto de esponja descongelada. Na Bahia, não: vem camarão "CAMARÃO", e vem bastante - pelo mesmo preço que você pagaria num prato de carne.
Na minha penúltima visita, em julho de 2007, vi que a casinha com mesas do lado de fora tinha mudado de nome para La Figa. Perguntei sobre a novidade e o garçom me contou que a cozinha continuava a mesma, e uma nova casa com o nome La Lupa seria aberta na Barra. Desta vez, tive a chance de voltar ao La Figa e também conhecer o novo La Lupa.
No La Figa, tudo como antes no reino de Abrantes: as massas artesanais do cardápio continuam deliciosas e com os mesmos preços justos do passado. Não fiz por menos e me esbaldei no velho Pappardelle Mare i Monti de sempre: com um toque de creme de leite, vinho branco, camarão e shiitake [foto]. A porção individual me custou honestos R$20; para dois, sairia a R$35. Comi devagarzinho, saboreando cada garfada, cercado por aquela mistura divertida de escandinavos e mulatos que só o Pelourinho tem.
Já na casa nova, não vi a menor graça. O La Lupa mudou-se para o térreo de um prédio em plena Ladeira da Barra. E quem arca com o IPTU é o cliente: por um prato individual de massa, eles cobram salgados R$45 e entregam uma porção menor do que a do Pelô. Alguns vão dizer que, pela varanda envidraçada, você vê o mar. E eu vou responder que, pelo valor de uma conta no La Lupa, você tem ambientes muito mais caprichados (o La Lupa não deixa de parecer um restaurante de flat), com vistas muito mais embasbacantes da Baía de Todos os Santos: Soho, Amado, Lafayette, Trapiche Adelaide, Porto Gourmet. Moral da história: na hora de comer, continuo fazendo figa e não abro.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
Viva a fé-dé-ração só-té-ró-pó-litana
A Lei de Murphy é mesmo implacável. Fazia quase um ano que minha audiência em Salvador estava para ser marcada. Poderia ter sido em qualquer um dos oito meses em que a cidade é puro sol, mas não: tinha que cair justo no auge do inverno, quando o tempo fica invariavelmente chuvoso. Já cheguei preparado para o pior, mas até tive um pouco de sorte. Entre um toró e outro, peguei algumas horinhas de praia e consegui ver um pôr-do-sol [foto acima] logo antes de voltar para o aeroporto.
Além de cumprir minha agenda de trabalho, matei a saudade dos amigos só-té-ró-pó-litanos e me atualizei sobre o que mudou na capital baiana de 2007 para cá. Nos dias nublados, as bees vão bater perna no novo Salvador Shopping (não fui conhecer; por fora, ele é todo bonitão e imponente). Antes da balada, o esquenta oficial é o bar Marquês, um charmoso casarão antigo na Barra, com detalhes em estilo art nouveau. Há poucas mesas e o povo toma seus drinks em pé mesmo, mais ou menos como no nosso Ritz, ao som de uns electros fofos e divertidos. A luz baixa e o clima bem informal favorecem os contatos com gente nova.
Depois, o destino ainda é o mesmo de sempre: a Off Club. Mas a boate sofreu uma maxi-reforma e ficou irreconhecível. O espaço físico da casa está bem melhor aproveitado. Agora a pista é só no térreo; o mezanino não tem mais aqueles cantinhos abusados onde a gente levava fio-terra e papanicolau. As cabines acolchoadas embutidas na parede ficaram ótimas. No sábado, o clube hiperlotou para ouvir um DJ novinho do Rio de Janeiro, de cujo nome não me recordo (só sei que ele dublava todas as músicas na cabine, tipo o Offer Nissim, mandava beijos e acenos, e marcava a virada das músicas com inusitados golpes de karatê). Um passarinho verde me contou que Salvador ganhará um novo clube gay dentro de 2 ou 3 meses.
Na barraca Marguerita, na Praia do Flamengo, os bofes continuam bons (e as tatuagens, cada vez mais medonhas). Encontrei um casal amigo de São Paulo e fomos jantar no classudo Trapiche Adelaide, o primeiro dos restaurantes bacanudos do Contorno, com aquela vista incrível da Baía de Todos os Santos. A comida estava apenas OK - só o carpaccio de polvo era realmente especial. Nem sempre as melhores refeições em Salvador são as mais caras: o melhor pudim de leite condensado do mundo, por exemplo, continua custando módicos R$2 na Cubana, ali no Elevador Lacerda. Também fui conhecer o novo La Lupa (de que falarei num post separado) e perdi a linha (como sempre!) na Doces Sonhos da Vitória. Morram comigo: duas camadas de pão-de-ló com uma camada de pudim de leite condensado no meio, cobertura de doce de leite condensado e morangos fatiados! Pena que o bolo sai de cena no dia 27, quando termina o Festival do Morango.
Com quatro visitas no currículo, ainda acho dificílimo entender o yakissoba viário que é Salvador, com suas avenidas sinuosas e idênticas (a Centenário é igual à Garibaldi, que é igual à Vasco da Gama, e por aí vai). Ao mesmo tempo, me sinto cada vez mais familiarizado com as pessoas e os lugares de que gosto. Vira e mexe, eu me pego pensando quando é que finalmente irei conhecer o Carnaval de lá. Por um lado, me atraem o alto astral e a possibilidade de beijar o maior número de morenos dourados que já vi na vida. Por outro, depois do desconforto da última Parada Gay de São Paulo, não sei se estou disposto a encarar grandes aglomerações de rua, sem conforto e segurança. Isso sem falar que a Parada de SP dura cinco horas - e o Carnaval baiano, cinco dias. Vamos ver o que eu decido até lá.
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quarta-feira, 22 de abril de 2009
Trabalhador vítima de preconceito conquista direito a uma indenização milionária
Ao entrar em uma agência do Bradesco na Av. Antônio Carlos Magalhães, uma das principais da cidade de Salvador, o gerente Antônio Ferreira dos Santos, que completava 20 anos de carreira no banco em 2004, foi surpreendido por uma carta: "O senhor está demitido por justa causa por motivo de desídia, indisciplina e ato de improbidade". Indignado, recorreu à Justiça, o que resultou na maior indenização trabalhista envolvendo uma vítima de assédio moral já concedida pela Justiça brasileira, e na primeira condenação do Tribunal Superior do Trabalho (TST) por uma demissão imotivada envolvendo preconceito por conta da orientação sexual do trabalhador.
Os ministros da segunda turma do Tribunal garantiram a Santos uma indenização de R$ 1,3 milhão. Até então, a maior indenização por assédio moral de que se tinha notícia no país havia sido de R$ 1 milhão, contra a Ambev, mas em uma ação civil pública em benefício de vários trabalhadores, e que foi resolvida por acordo nas instâncias inferiores, sem chegar ao TST.
Na Justiça do Trabalho, o assédio moral é caracterizado por atos repetidos de violência moral e tortura psíquica e pela intenção de degradar as condições de trabalho do empregado. Os motivos vão desde a pressão pelo cumprimento de metas, especialmente na área de vendas, até humilhações constantes pela opção política do empregado ou por ser portador do vírus HIV, por exemplo. Geralmente, os valores das indenizações em processos individuais variam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil, majorados conforme o tempo do contrato de trabalho em questão.
No caso julgado agora pelo TST, o gerente do banco começou sua carreira no Baneb, incorporado em 1999 pelo Bradesco, e estava na instituição há 20 anos. Segundo ele, o assédio moral ocorreu durante os últimos cinco anos de trabalho na agência, até 2004, ano em que a ação foi ajuizada. "Foram os piores anos da minha vida", diz Santos. O gerente relatou à 24ª Vara do Trabalho de Salvador diversos episódios de preconceito sofridos por conta da atitude de um diretor regional do Bradesco que, segundo ele, frequentemente o expunha a constrangimentos públicos - por exemplo, sugerindo que ele utilizasse o banheiro feminino da agência ou dizendo, em público, que o banco "não era lugar de viado".
Após ouvir três testemunhas, a primeira instância considerou que foi colocado em prática um ato típico da Inquisição, que a história já conhece e abomina, e que a empresa deveria arcar com as consequências. Caracterizado o assédio, foi fixada uma indenização de R$ 916 mil, por danos morais (pela humilhação) e materiais (porque, ao ter sido dispensado por justa causa por improbidade administrativa, o trabalhador teve dificuldade de conseguir novo emprego). "A justa causa foi uma forma de camuflar o preconceito", diz o advogado Bruno Galiano, do escritório Cedraz & Tourinho Dantas, que defende o trabalhador.
O Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (Bahia) concluiu que a demissão foi discriminatória, mas reduziu o valor da indenização para R$ 200 mil. A disputa chegou ao TST em 2006, cabendo aos ministros decidir se a Lei nº 9.029/95, que quantifica o valor das indenizações em razão de demissões arbitrárias, poderia ser utilizada no caso. Essa lei prevê indenização no caso de preconceito por "sexo" e até então só havia sido usada em casos de discriminação de mulheres no trabalho. Para o ministro Renato de Lacerda Paiva, a lei não surgiu para limitar os motivos da discriminação: outros motivos, como o preconceito por antecedentes criminais, falta de boa aparência e opção política não estão nas normas, e não deixam de ser discriminação.
Os ministros consideraram ainda determinações das convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e princípios constitucionais de igualdade e dignidade. A possibilidade de uso da Lei nº 9.029 aumentou a indenização. Isso porque a norma oferece duas opções ao trabalhador demitido por discriminação: a reintegração no cargo ou a condenação da empresa ao pagamento do dobro de seu salário desde o ajuizamento da ação até o trânsito em julgado da sentença, com correção monetária. No caso de Santos, que recebia em torno de R$ 5 mil, a quantia total da indenização por danos somada à condenação pela Lei nº 9.029 já alcança R$ 1,3 milhão. Ainda cabem recursos ao próprio TST e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, se o banco recorrer e perder, o retardamento do processo pode levar a uma indenização ainda maior.
[Matéria publicada hoje no Valor Econômico; a autora é Luiza de Carvalho. Postei aqui porque acho que essas vitórias merecem ser comemoradas e divulgadas!]
terça-feira, 8 de julho de 2008
Rapidicas
SÃO PAULO Vai jantar com os amigos, mas não está podendo com a espera do Spot e do Mestiço? Uma nova alternativa na mesma região é o Boutique Bistrot, na própria Fernando de Albuquerque, já bem próximo da rua Augusta. O menu curto é ótimo para os indecisos: tem uma carne, um peixe, um frango, um risoto, um sanduíche, uma salada - e só. Gostei do peito de frango recheado de cogumelos com risoto de abóbora, bem servido e por um preço honesto. O ambiente, colorido e com luz baixa, tem jeitão de bar (os drinks são ótimos) e até um pequeno pátio interno (que deve ficar mais gostoso quando o tempo esquentar). Se o povo descobrir e adotar, tem tudo para ser o novo L'Open. Por enquanto, as coisas ainda estão calmas por lá.
RIO DE JANEIRO O bom filho, à casa torna. Meu lugar preferido para jantar no Rio de Janeiro, o Zazá Bistrô, recebeu de volta seu antigo chef, o boliviano Checho González, e está com pratos novos no cardápio. Mas eles não são loucos de tirar do menu os campeões de audiência, como o curry de frango ao leite de coco com legumes orientais, capim limão, gengibre e banana, arroz basmati com damasco e amêndoas (que, salvo engano, foi uma criação do próprio Checho). A simpática casinha verde cheia de plantas fica em Ipanema, na esquina da Joana Angélica com a Prudente, e no andar de cima você come em mesas baixas, sentado em almofadões à luz de velas.
BUENOS AIRES Velho conhecido dos viajantes experientes, o Te Mataré Ramirez não é um lugar qualquer, a começar pelo nome, pra lá de espirituoso. É um misto de restaurante contemporâneo, bar e teatro, e serve comida contemporânea afrodisíaca. Os pratos atendem por nomes impagáveis como "Acariciate, quiero mirarte, acaricia tu sexo señor amado mio" e "Los golpes dentro de mi, esa dulce violencia". Mantendo o bom humor, a programação tem shows de cabaré, monólogos eróticos e até um safado teatrinho com sexo explícito entre bonecos. O lugar deu um upgrade na localização e mudou-se para Palermo Viejo: agora fica na calle Gorriti, 5054.
SALVADOR Não é difícil se divertir na capital baiana:
é tudo questão de descobrir qual "o lugar certo" para ir naquela noite. E o fervo do momento entre os só-té-ró-pó-litanos atende pelo nome de Marquês. Instalado num casarão preservado do início do século XX, serve drinks, quiches e comidinhas num ambiente superfofo [foto ao lado]. O povo pede os tragos no balcão, amontoa-se entre as mesas (pensou no nosso Ritz? eu também) ou vai tomar um ar fresco na varanda. DJs cuidam do som eletrônico. Festinhas especiais têm rolado por lá, como a Cocktail, que superlotou a casa no Dia dos Namorados. O Marquês fica na Rua Marquês de Caravelas, 148, na Barra. [Ao meu querido amigo João Figuer, o baiano mais bem-relacionado depois de ACM, Gil e Caetano, obrigado pela dica!]
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sábado, 5 de abril de 2008
Black is beautiful
Quem me conhece bem sabe que não resisto a uma boa pele morena. Fico doidinho, acho que um pouco de melanina a mais dá um senhor sex appeal a qualquer homem. Deve ser porque sou branquíssimo (quase fluorescente) e os opostos se atraem...
Depois de ficar babando com as fotos de um tal jogador Adriano, do São Paulo, que encheu as páginas dos jornais dessa semana, quase caí para trás com a capa da última Vogue norte-americana. Ela mostra nossa musa Gisele Bünchen ao lado de um verdadeiro deus grego da raça negra, o jogador de basquete LeBron James, do Cleveland Cavaliers. Que cara de mau! Que bração! Vejam só que sortuda a Gisele sendo pega pela cintura por ele...
Na falta dos States, temos Salvador - que é logo ali, bem mais barata e cheia de negros lindos, com muito amor pra dar e com uma ginga e um tempero que só os baianos têm. Até 11 de abril acontece por lá a mostra de cinema gay Possíveis Sexualidades, no Instituto Cervantes, ali na Ladeira da Barra. A programação tem longa-metragens e documentários brasileiros e estrangeiros - entre eles, o argentino XXY (sobre um jovem hermafrodita), o brasileiro Onde Andará Dulce Veiga? (com Patrícia Pillar) e o fofíssimo espanhol Filhote (prato cheio para quem curte bears gostosões). Depois, dá para dar aquela pinta básica no Porto da Barra e, com sorte, cair nos braços de algum "brau". Ou apostar na boate Off, que foi reformada em 2007 e continua dando um bom caldo.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 31 de julho de 2007
O sobe-e-desce de Salvador
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Muitos só pensam em Salvador como destino de Carnaval: um lugar para se colocar um abadá, encher a cara de cerveja e sair beijando loucamente, sob o sol a pino, por cinco dias seguidos. Mas os encantos da cidade vão muito além da folia do circuito Barra-Ondina - e quem vem nessa época acaba não conhecendo Salvador, mas apenas o Carnaval de Salvador. A capital baiana tem história, cultura, gastronomia, praias e um povo bonito, simpático e de altíssimo astral. Se quem procura a beleza das praias tem opções melhores (Jericoacoara, Porto de Galinhas, Maceió e mesmo outros trechos do litoral baiano), para quem não vive sem um pouco de vida urbana poucas cidades do Nordeste são tão completas quanto Salvador. Aqui vai um resumo do que eu andei gostando e desgostando nas minhas três visitas...
UAU:
1) A CENA GASTRONÔMICA DO CONTORNO. Quando o arquiteto David Bastos transformou o primeiro galpão abandonado em restaurante, não podia imaginar que estava dando o pontapé inicial na formação de um corredor gastronômico concorridíssimo. Hoje, a Av. do Contorno concentra um punhado de restaurantes incríveis, com construções arrojadas que usam e abusam da vista espetacular da Baía de Todos os Santos. O Trapiche Adelaide, pioneiro, ainda é considerado um dos melhores da cidade; no excelente japonês Soho, campeão de badalação, o piso transparente da varanda deixa ver as águas verdes lá embaixo; e os mais recentes Amado e Lafayette caíram rápido nas graças dos baianos com seus pratos contemporâneos - os do Lafayette levam a assinatura de Carla Pernambuco (Carlota/SP). Com boa comida e visual deslumbrante, é difícil não adorar comer no Contorno.
2) O CONVENTO DO CARMO. Em um investimento pra lá de ousado, um grupo hoteleiro português restaurou um convento carmelita do século 16, transformando-o no primeiro hotel de luxo histórico do Brasil. O resultado: um palácio suntuoso, faraônico, cheio de obras de arte e com direito a uma charmosa piscina redonda bem no meio do pátio central. Hospedar-se lá é para o bico de muito poucos, mas uma visitinha rápida à área comum do hotel é um programa indispensável quando você estiver batendo perna no Pelourinho.
3) O BAR DA PONTA. Se em Ibiza tem o Café Del Mar, Salvador tem o Bar da Ponta, que é muito mais cool. Moderno, estiloso e inteiro envidraçado, ele avança como um píer sobre a Baía de Todos os Santos - e você assiste de camarote ao pôr-do-sol enquanto come beliscos deliciosos como a porção de nirá com lula e o mix de bruschettas, com Bebel Gilberto sussurrando nos seus ouvidos. Também dá pra jantar (já que o menu também tem pratos e o bar abre das 17h30 à meia-noite), mas o bacana é ir no fim da tarde. O Spot e o 00 dariam o mundo para ter o visual embasbacante do Bar da Ponta.
4) AS TARDES NO PORTO DA BARRA. A melhor praia da zona central de Salvador cabe dentro de um quarteirão. Mas esse pequeno trecho de areia, emoldurado por dois fortes, é especial. Primeiro, porque é uma delícia mergulhar em suas águas mornas, calminhas e limpas - melhor do que isso, só voltando para o útero materno. Segundo, porque durante a semana é ali que se forma a babel humana mais absurda e divertida (e o canto direito da praia é maciçamente gay). E terceiro, porque no fim do dia o sol se põe dentro do mar, sempre que o céu está limpo.
5) AS MIL MANEIRAS DE VER O PÔR-DO-SOL. Toda cidade tem um bom lugar para se apreciar o pôr-do-sol: o Rio tem a Pedra do Arpoador, Porto Alegre tem o Guaíba, Curitiba tem o Parque Barigüí, Olinda tem o Alto da Sé... Agora, poucas cidades possuem TANTOS lugares incríveis para se ver esse espetáculo da natureza como Salvador. Você pode assistir aos belos sunsets soteropolitanos da muralha do Farol da Barra, da praia do Porto da Barra, do píer do Solar do Unhão, do alto do Parque do MAM, do terraço do Elevador Lacerda, de uma das mesas do Bar da Ponta, do mirante da Ponta do Humaitá, sentado em uma pedra em Itapuã... são diversas as possibilidades, uma mais linda do que a outra.
6) OS BAIANOS. Se a Bahia hoje ocupa posição de destaque no mercado turístico brasileiro, muito disso se deve ao enorme carisma de seus habitantes. Os baianos têm uma luz própria que nenhum outro povo do Brasil possui. Donos de um sorriso generoso e uma alegria de viver sincera, são sociáveis sem serem invasivos, simpáticos sem forçar a barra e craques em deixar o visitante extremamente à vontade. Para completar, são muito bonitos e donos de uma sensualidade natural, espontânea e nada vulgar. Resista se puder!
UÓ:
1) SALVADOR NO INVERNO. Quer viajar nas férias de inverno? Vá para o Ceará, único Estado brasileiro que faz jus à imagem de "sol o ano inteiro" que as operadoras turísticas tentam vender para todo o Nordeste. O tempo em Salvador nessa época é perigosamente imprevisível - não pense em chuvinhas chatas, mas em verdadeiras tempestades, daquelas que te prendem embaixo da cama enquanto a casa está inteira batendo. Para completar, muitos lugares aproveitam para fazer reformas para o verão - enquanto escrevo estas linhas, estão fechados o Trapiche Adelaide (restaurante top da cidade), a Off Club (a principal boate gay) e até o Aeroclube (centro de diversões a céu aberto no estilo dos open malls da Barra da Tijuca).
2) O ASSÉDIO AO TURISTA. Não tem jeito: assim que der os primeiros passos no Centro Histórico, você será abordado por um incansável exército de pedintes e vendedores (se você tiver a pele clarinha, como eu, será devorado vivo). Os pedintes vão querer a sua esmola, a sua bebida ou o seu lanche; os vendedores tentarão a todo custo te empurrar lembrancinhas, amuletos e, claro, as famosas fitinhas coloridas do Senhor do Bonfim, que você amarra no pulso ou na canela, fazendo três pedidos. O pior é que as tais fitinhas não são mais feitas de algodão e sim de náilon - ou seja, elas NUNCA se desfazem (e com isso seus pedidos nunca se realizam). A minha, laranja, é de fevereiro de 2005...
3) O COMPLETO ABANDONO DO PARQUE DO MAM. O Museu de Arte Moderna da Bahia fica num dos mais bonitos pontos turísticos de Salvador, o Solar do Unhão. E o parque do museu, com sua vista incrível da Baía de Todos os Santos, tem um dos mais agradáveis fins de tarde da cidade, que termina com um lindo pôr-do-sol. Um lugar assim não pode ficar abandonado da maneira como está. As pastilhas coloridas dos bancos caíram (ou foram arrancadas), deixando buracos horrorosos; e a passarela que margeia a água, com várias tábuas de madeira podres e as grades de arame arrebentadas, foi interditada. É um absurdo que o descaso dos responsáveis tenha estragado um passeio tão bonito. Em janeiro o parque já estava nesse estado, e nada foi feito até hoje.
4) AS PRAIAS URBANAS. Se o seu negócio é sair do hotel, andar duas quadras, cruzar a avenida da orla e estar na praia, pode continuar indo pro Rio de Janeiro mesmo. O perímetro urbano de Salvador é recortado por várias praias, mas todas elas são feias, sem graça e pouco freqüentadas (com exceção do Porto da Barra). As praias legais mesmo ficam afastadas do centro, a quase uma hora de carro (ou mais, com o trânsito do fim-de-semana). Stella Maris e Flamengo/Aleluia têm areia boa, mar aberto e bastante agito em torno de suas barracas bem estruturadas, com todas as comodidades que você merece (a do Loro, na Aleluia, é a melhor para os héteros e a do Gaúcho, em Stella Maris, para os gays).
5) A FALTA DE OPÇÕES DA NOITE GAY/MODERNA. Não se trata nem de comparar com SP ou RJ, mas sim de considerar que Salvador tem 3 milhões de habitantes e um grande fluxo de turistas. Tudo girava em torno da Off Club; com o fechamento da boate para reforma, os gays ficaram sem chão. Se não tiver nenhuma festa rolando, o jeito é fazer o esquenta no bar Babalotim e depois se jogar no Boomerangue, um "bar dançante" de programação eclética, que faz algumas noites mixed. Ou então arriscar o circuito cafuçu, com o inferninho Tropical no sábado e o pagodão Originalis no domingo. Com tanta gente bonita e festeira, a cidade merecia muito mais do que isso.
6) O SERVIÇO. Clichês como o do "paulistano estressado" e o do "carioca malandro" podem até ter algum fundamento, mas devem ser vistos com ressalvas - senão, você se prende à generalização e deixa de conhecer um povo como ele é de verdade. No caso dos baianos, a lerdeza deles já virou folclore, mas você vai senti-la na pele quando estiver sentado num bar ou restaurante, esperando ser servido. Tudo chega com uma demora injustificável - o cardápio, as bebidas, os pratos, a conta. O baiano já aprendeu a ser amável com o turista, mas ainda está a anos-luz de qualquer noção de eficiência. Portanto, não se estresse (você está de férias, lembra?) e não programe nada com horários apertados - as chances de seu esquema original furar são enormes.
[Foto: artesanato típico à venda nas lojas do Pelourinho]
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Hit parade do verão nordestino
Foram dezoito dias entre Salvador e Recife, com direito a muita praia (do Porto da Barra à Aleluia, de Boa Viagem a Porto de Galinhas) e também festinhas aqui e ali (em boates e até em uma escuna). Nessas andanças, deu pra fazer um hit parade com os 5 principais hinos que marcaram o verão 2007 nas duas maiores capitais do Nordeste. Lá vai:
1) Shakira feat. Wyclef Jean: "Hips Don't Lie" - Aquelas cornetas inconfundíveis que evocam Miami tocaram em todo lugar. Finalmente um hit de alcance mundial na carreira dessa colombiana cada vez mais parecida com a Elba Ramalho (só falta um moreno gostosão 20 anos mais novo a tiracolo).
2) Bob Sinclair: "World Hold On" - É aquela velha história: descer o nível para fazer sucesso. Nem dá pra acreditar que esse lixo é do mesmo produtor da pérola "I Feel For You", de 2000. Será que alguém ainda agüenta aquele assobio irritante ? Os baianos e pernambucanos pelo jeito sim.
3) Mason: "Exceeder" - Um dos hits do último verão europeu, esse electrinho chegou de leve no Brasil e, inesperadamente, já aportou no Nordeste. Tocou na festa da escuna que reuniu o crème de la crème das barbies de Salvador; esteve no set do Fatboy Slim em sua apresentação em Recife, no Marco Zero da cidade; e foi citada com destaque pela Jovem Pan FM recifense, em seu programa de novidades. Biscoito fino.
4) Vanessa da Mata: "Ai Ai Ai" - Uma peculiaridade das pistas nordestinas: elas não têm absolutamente nenhum preconceito com músicas em português - diferentemente do Sudeste, que torce o nariz para isso. O "banho de chuva" em versão remixada era garantia de animação em qualquer festa - moderninha ou bagaceira, gay ou hétero, dos finos ou do povão.
5) Os Kamaradas: "Não Me Chame Não Que Eu Vou" - Essa leva o troféu de grude insuportável do ano. O refrão "venha! venha! venha! venha! / venha! venha! venha! venha!" faz você pensar em mil jeitos cruéis de assassinar o maldito camelô do MP3, que toca a desgraçada faixa no repeat o dia inteiro, sob o sol escaldante dos trópicos. Ninguém merece.
Isso sem contar algumas esquisitices locais. A pista da Metrópole, a principal boate GLS de Recife, bomba mesmo é com o remix altamente farofoso de "Another Brick In The Wall" do Pink Floyd. E a praia de Boa Viagem tem um hino disco informal: "Dance Little Lady Dance", hit de 1976 da Tina Charles que todos os camelôs de MP3 do pedaço (que ficam passeando pelas areias com carrinhos) tocam todo santo dia.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Outros ares
Eu continuo viajando, tenho mais alguns dias de férias pela frente e ainda não estou pronto para redigir aqui as minhas impressões das cenas de Salvador e Recife. Mas já posso dizer que, como eu havia adiantado no post anterior, aqui tem muito fervo gay sim. Fervo como era antigamente: conhecer pessoas, dar risada, beijar na boca, fazer sexo. Não esse 'fervo' pseudomoderno do eixo Rio-SP, em que todos se entopem de substâncias sintéticas de todos os tipos, para ficarem belíssimos e colocadíssimos, e terminam sempre sozinhos.
Nós que vivemos no tal eixo Rio-SP nos achamos os mais antenados com tudo, mas não percebemos que muitas vezes acabamos vivendo em um mundinho ainda menor e mais estreito do que os habitantes de outros Estados que consideramos "atrasados". Paulistanos e cariocas podem até ter acesso a mais informações (especialmente do Exterior), mas olham demais para seus umbigos "superiores" e cultivam gostos e preferências muito limitados, enquanto os baianos e pernambucanos são muito menos preconceituosos e mais receptivos a coisas novas, culturas novas. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive.
Só posso dizer que estou achando ótimo dar esse tempo aqui pelo Nordeste. Não deixei pra trás, da noite para o dia, todos os interesses que eu tinha. Mas tive uma consciência maior de como o mundinho gay do Sudeste anda chato, com suas preocupações cada vez mais repetitivas... Rosane Amaral ou Fábio Monteiro ? Deca ou Dura ? E ou G ? Cera espanhola ou escova progressiva ? Na boa, pra mim já chega... e quando penso que, no Rio ou em Floripa, serão esses os únicos valores reinantes, me dá até uma vontade de adiar minha volta e ficar por aqui mesmo. Tenho certeza de que basfond não ia faltar.
Mas o fato é que na data prevista eu volto, e ainda antes do Carnaval redijo aquele prometido post comparando as propostas de Carnaval do Rio e de Floripa, para cada um tirar suas próprias conclusões.
