É A SUA PRAIA? Antes de embarcar, reconheço que não sabia se iria curtir. Nunca fui fã de axé e tive medo de que a experiência se resumisse a uma dança da garrafa coletiva. Mas não foi nada disso. O choque cultural foi bem menor do que eu esperava, e durou só até a segunda vodca. O importante é ir sem preconceitos: encare a coisa como "música pop" (e não é, oras?), baixe a guarda e se deixe levar. As bandas que tocam nos grandes trios são afiadas e constroem linhas de baixo rebolativas, cheias de groove, muitas vezes tão dançáveis quanto uma boa house music. Com o diferencial de que a multidão toda sabe cantar o refrão, o que produz um efeito multiplicador de alegria do qual não dá para escapar ileso. Sabe aquele clichê de "todo mundo no mesmo astral, na mesma vibe"? Não poderia ser mais verdadeiro. Na terça, saí atrás de dois blocos, num total de mais de doze horas seguidas - e fiquei triste quando acabou.
MAS O QUE TOCA AFINAL? Vou reforçar o que eu disse no item anterior. Você não vai ouvir só aqueles chicletes de gosto duvidoso, herdeiros da Dinastia Tchan, que traduzem a nossa concepção mais leiga de "axé music". Claro que eles também marcam presença: são lançados justamente nessa época, para tentar estourar no Carnaval de Salvador e, com isso, ganhar espaço nos programas de auditório da classe C pelo Brasil afora (a pérola de 2011 foi "Liga da Justiça", do Leva Nóiz, com o refrão "foge foge Mulher Maravilha, foge foge com o Superman"; você ainda vai ouvir essa música, querendo ou não). Por outro lado, o som de cantoras como Ivete Sangalo já está muito mais próximo do pop, um pop genuinamente brasileiro, do que qualquer outra coisa. Além disso, as atrações não se prendem ao seu próprio repertório: estão sempre cantando músicas de outros artistas. O momento musical mais marcante do meu Carnaval não foi nenhum desses hits mais óbvios, do tipo "na boca e na bochecha", mas uma versão de "Toda Menina Baiana", do Gilberto Gil, que Ivete apresentou em frente ao camarote do próprio, e me deixou cantando "ô-ô-ô, ah-ah-ah" por três dias seguidos. Outra bola dentro, também da fofa, foi uma releitura de "Corazón Partío" (Alejandro Sanz) - que me pegou totalmente de surpresa. Tive que me render.
QUEM VEM? Todo mundo: grupos de jovens querendo pegar geral, famílias inteiras que vêm em caravanas do sertão e superlotam apartamentos alugados, crianças, adolescentes, gente mais velha (no Nordeste as pessoas não "baixam a bola" depois de uma certa idade, como em SP), héteros e gays. Nada de guetos: aqui, o povão se mistura mesmo, e a cidade fica em polvorosa. Dentro das cordas dos trios é que rola uma (relativa) segmentação. Por isso, o lance é você fazer aquela pesquisa prévia básica, e então ir montando a sua programação de blocos. Seus critérios de escolha serão: o perfil do público (tô indo pra beijar moin-to? só quero encontrar paulista e mineiro? recebo Ogum ou seguro o Tchan?), o preço do abadá (que também é altamente relativo, como discutirei mais adiante) e, of course, a atração que puxará o bloco (caso você tenha um ladinho oculto que adooora Cláudia Leitte, por exemplo).
OSMAR OU DODÔ? Todo mundo está cansado de saber - menos você, que é tão desinformado quanto eu era: os 2 maiores circuitos são o Osmar (também conhecido como Avenida) e o Dodô (ou Barra-Ondina). Alguns blocos fazem apresentações em ambos, em dias diferentes. Mais antigo, o Osmar sai do Campo Grande, com o sol do meio-dia a pino, e percorre as tortuosas ruas do Centro; o Dodô pega a orla, do Farol da Barra até a metade de Ondina, e os blocos saem principalmente à noite. No Osmar, o calor é maior, o trajeto é mais apertado e convém redobrar os cuidados com a segurança; já o Dodô parece um sambódromo, largo, iluminado, refrescado pela brisa do mar - e amplamente televisionado para o Brasil e o mundo. Por outro lado, é mais divertido estar cercado pela multidão humilde, que interage e vibra das janelas dos cortiços puídos do Centro, do que pelo povo insípido dos camarotes da Barra, que olha tudo com cara de tédio, em meio a balões infláveis de bancos e portais de internet. O Dodô é confortável e ultracomercial, o Osmar é roots e mais autêntico. Na dúvida, vá de Dodô - mas experimente pelo menos um dia de Osmar.
APARTHEID Sim, o Carnaval de Salvador tornou-se megacomercial e esse é um caminho sem volta. Muita gente reclama que antigamente era melhor, que o sentido de festa popular se perdeu, com as pessoas divididas em castas, dentro e fora das cordas, com ou sem abadás... Confesso que tenho mixed feelings em relação a isso. Por um lado, seria lindo se todos que quisessem pudessem ter acesso. Os próprios cordeiros - os cafuçus contratados pelos trios para segurar as cordas e garantir que os penetras não entrem - pedem esmolas a você durante o percurso, fazendo você lembrar que faz parte de uma elite. É triste, e falo isso sem qualquer demagogia. Por outro lado, sem corda e sem abadá, a coisa toda se tornaria impraticável - seria tanta, mas tanta gente, que os trios não sairiam do lugar. Quem não tem bala na agulha tem que se contentar com a "pipoca" (assistir ou seguir os trios no aperto do lado de fora das cordas), ou então esperar a quarta-feira de cinzas - quando o tradicional Arrastão, sem cordas, reúne estrelas como Ivete e Timbalada.
MADRINHA DAS GUEI Acredite se quiser: Daniela Mercury não pendurou as chuteiras em 1992, após "O Canto da Cidade". Ela continua gravando discos, vende superbem na Bahia e, mais do que isso, comanda um dos blocos mais fervidos do Carnaval baiano, o Crocodilo. Enquanto nos outros blocos os gays se infiltram, aqui eles são absoluta maioria. É um verdadeiro mar de homens desfilando e se beijando em plena avenida, a céu aberto, sob os olhares dos camarotes e das câmeras de tevê. Não que o público se choque - mas várias bees de Salvador não seguram a onda de tanta exposição pública e acabam evitando esse bloco, tão notoriamente gay que o abadá em si já vem com um carimbo "SIGNIFICA". Daniela se comporta como uma verdadeira mestre-de-cerimônias: começa com um show de delicadeza, pedindo que foliões, cordeiros e pipocas respeitem-se uns aos outros, e depois conduz a massa com absoluto domínio e um repertório dançante (zum-zum-ba-ba!), que funde épocas e estilos. A noite passa voando. O Crocodilo sai entre domingo e terça, sendo que a primeira noite é a obrigatória, em que todo mundo vai, e a última também é especial pelo clima de despedida. Segunda é a noite que se convencionou pular.
MADONNA BRASILEIRA Dentro e fora do Carnaval de Salvador, poucas cantoras do universo pop brasileiro desfrutam hoje de um status tão privilegiado quanto Ivete Sangalo. Na folia soteropolitana, primeiro ela se apresenta como contratada em outros trios (Salvador na sexta, Cerveja & Cia. no sábado), depois comanda três dias no seu próprio bloco, o Coruja (domingo e terça no Osmar, segunda no Dodô). É uma reunião de fãs: diante da simples visão de Ivete no topo do trio, o público sorri abobado e completamente entregue. Sejamos justos: Ivete é linda, tem carisma e está acumulando um repertório respeitável de sucessos. E pincela umas covers bem bacanas, como eu disse mais acima. Só que ela canta no máximo uns 30% da letra: ela manda um verso, joga o microfone pro público e só vai completar o trabalho no final da estrofe seguinte. Assim, até eu faço cinco apresentações seguidas, meu bem. Fui no último dia (terça). No começo do bloco, eu via tantas meninas de rabo de cavalo que pensei que tinha caído em algum fretamento para a Disney. Aos poucos, os gays foram aparecendo, a bebida foi subindo e começaram a pipocar uns beijos aqui e ali. A pegação é mais esparsa, mas o pessoal é beeem mais bonito do que no Crocodilo.
MUITO MAIS Nessa minha primeira experiência, procurei escolher blocos que tivessem alguma presença gay e um clima mais solto. Afinal, não queria correr o risco de me sentir um peixe fora d'água. Ivete e Daniela são as duas divas, ao ponto de cada biu local ter e defender a sua preferida (uma coisa "Britney vs. Aguilera"). Mas o Carnaval de Salvador vai muito além dessa dualidade: há outras atrações tão ou mais bombadas, como Cheiro de Amor, Banda Eva, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Olodum e Timbalada. Isso sem falar do célebre afoxé Filhos de Gandhy (só Freud explica por que as mulheres têm taaaanto fetiche por aqueles homens vestidos de baiana do aracajé!), dos blocos eletrônicos (neste ano foram três: David Guetta, Will.I.Am/Skol e Liberty, um bloco tribal-GLS que foi o erro) e dos blocos menores, que desfilam sobretudo no circuito Batatinha, no Pelourinho. Da próxima vez, não vou abrir mão de um Crocodilo e um Coruja, mas pretendo dar uma diversificada.
É DIA DE FEIRA Um dos maiores inconvenientes é o preço dos abadás, especialmente dos blocos de artistas mais bombados, como Chiclete com Banana, Asa de Águia e a própria Ivete. Pelas vias oficiais (Central do Carnaval ou Axé Mix, conforme o bloco), você chega a desembolsar mais de mil reais por um único abadá, e sem direito a open bar. Para quem não é rykah de berço, o jeito é se jogar nas duas feiras de cambistas: no Jardim Brasil (atrás do Shopping Barra) e nas imediações do Aeroclube. A economia pode passar de 80%, especialmente se você comprar mais em cima da hora (afinal, depois que o trio passou, o abadá perde todo o valor). Tenha sangue frio e negocie. Como o pagamento só pode ser em cash e todos sabem que você estará com os bolsos cheios, vá em grupo e tome cuidado para não ser roubado, especialmente no Aeroclube. Vencida a batalha da compra, é só customizar seu abadá e sensualizar na avenida. Você pode recorrer a uma das inúmeras oficinas espalhadas pela cidade, ou arrasar sozinho com sua tesoura, tomando o cuidado de não cortar o nome do bloco, o logo do patrocinador e as marcas de autenticidade, o que pode inutilizar o abadá. Se estiver com preguiça, apenas passe o abadá por trás da cabeça - pagar peitinho sempre funciona.
SURVIVOR E por falar em dinheiro, se você se deparar com um caixa eletrônico que funcione, aproveite: essa poderá ser sua última chance. Se uma das máquinas for daquelas que só soltam notas de R$2 ou R$5, deixe escorrer uma lágrima de emoção e faça tantos saques quanto for possível: na avenida, dinheiro miúdo vale ouro, porque é muito difícil estender uma nota de R$20 e esperar o troco quando se está bêbado, no meio de uma multidão tomada por Iansã. O negócio é jogo rápido: com uma mão você estende a nota, com a outra pega a bebida e desaparece. Ah sim, é fun-da-men-tal andar com um daqueles porta-dólares por baixo da roupa: nele você leva seu dinheiro, sua chave e um documento velho. No bolso, não leve nada. E nos pés, um tênis velho e confortável - que ficará imprestável, portanto traga também um par sobressalente para os momentos off-bloco.
CAMAROTES Outra maneira de curtir a festa é comprar ingresso para um dos muitos camarotes que ficam dispostos ao longo do circuito Barra-Ondina, e assistir ao desfile dos blocos com mais conforto. Cada camarote é uma festa em si, com comida, bebida e música independente (a cargo de bandas e/ou DJs), o que significa que você pode passar a noite curtindo ali dentro e simplesmente abstrair os blocos, se quiser. Assim como acontece com os trios, há camarotes para todos os gostos e faixas de preço. Fatores para comparar: o tipo de público (desde celebridades até o povo da firrrrma), as atrações (bandas/DJs, que só interrompem o som quando um bloco está bem em frente ao camarote), a comida e bebida (nos mais simples, a bebida é vendida à parte; nos mais caros, all inclusive, há até sushi e comida contemporânea) e a localização (afinal, um dos grandes atrativos é a visão privilegiada que se tem da avenida, aquela multidão vista do alto é uma cena e tanto). Minha opinião sincera? Vale a pena pegar um camarote naquele dia em que você precisa fazer uma pausa e descansar. Mas, enquanto quem está no camarote assiste ao Carnaval, quem está no bloco participa, protagoniza, vive o Carnaval. Quando eu olhava lá de baixo os rostos debruçados nos camarotes, tinha a impressão de que ninguém ali estava se divertindo tanto quanto eu.
ABRIGO O melhor dos cenários, na minha opinião, seria você alugar um apartamento na Graça, meu bairro preferido: prédios antigos, apês enormes, perto o suficiente dos dois circuitos para você ir a pé, mas sem nenhum barulho ou muvuca. Caso você fique em hotel, reduza suas escolhas a três bairros: Barra, Ondina ou Rio Vermelho, cada qual com prós e contras. Na Barra, você tem fácil acesso à "largada" do circuito, mas será obrigado a respirar carnaval 24 horas, pois o bairro, que tem poucas ruas, fica tomado de gente, lixo e barulho o tempo todo. Na Ondina, onde ocorre a dispersão, o barulho noturno também pode incomodar - boa parte dos hotéis fica ao redor dos camarotes, por onde passam os trios. Pelo menos você sairá do bloco, exausto, a poucos passos da sua cama. No Rio Vermelho, você terá que se deslocar diariamente para a Barra (e pegar congestionamentos, dependendo da hora e caminho escolhidos), mas você tem a melhor estrutura de bares e restaurantes (na Barra as opções são sofríveis), além de uma rede hoteleira mais recente. Outros bairros? No Carnaval, eu só consideraria se fosse para ficar como convidado na casa de alguém.
BABADO FORTE? Aposto que tem leitor meu que só seguiu o texto até aqui porque estava esperando pela parte em que eu falo dos cafuçus. Pois é, para quem curte essa beleza bem brasileira, a Bahia é o paraíso na Terra - já declarei publicamente por aí que os baianos estão no topo da minha lista de preferências. Os braus locais ("cafuçu" é coisa de pernambucano, jamais ouse pronunciar esse termo na Bahia, eles acham pejorativo!) são mesmo de babar, colega. Além disso, a capital soteropolitana é a terra dos "héteros que fazem" - aqueles bofes que, na maior discrição, mandam ver mesmo, e nem venha você querer definir a sexualidade deles. No entanto, por incrível que pareça, o Carnaval de Salvador não é tão sexual como alguns podem imaginar. Claro que as pessoas estão ali para se permitir, mas, em sua grande maioria, o que elas querem é beijar, não necessariamente transar. É um clima muito mais puro e brincalhão, de curtir a música, sair com sua galera, beijar muito, dar risada e não ter grandes preocupações, do que um açougue da carne como em outras praças.
RELAXE, MEU REI Aos cri-críticos de plantão: venham vacinados para conviver com os problemas da cidade, sem deixar que eles azedem o seu bom humor. Nesses dias frenéticos, Salvador fica ainda mais suja. É preciso manter-se alerta contra os furtos (mas sem neurose! também não é tão perigoso assim). As avenidas de acesso que formam o yakissoba viário da cidade (Centenário, Garibaldi, Vasco da Gama, Cardeal da Silva, Vale do Canela) freqüentemente engarrafam - escolher o caminho mais livre é pura questão de sorte. O serviço é um dos piores do Brasil, oscilando entre a simples ineficiência e os maus tratos ao cliente. Não espere ouvir um "por favor", "com licença" ou "obrigado" - e, quando você agradecer, tampouco ouvirá resposta. Mas nada disso estraga o brilho da festa. É só você ir com o espírito preparado. Ninguém ali quer receber suas lições de civilidade. E lembre-se: na Bahia, uma hora tem 90 minutos.
COMBUSTÍVEL Salvador tem excelentes restaurantes [já falei sobre alguns no blog e voltarei ao tema no próximo post]. Nada como pedir um prato com camarão e receber camarão de verdade. Mas vá por mim: nos dias de Carnaval, você dificilmente vai querer perder tempo com grandes deslocamentos e comida que pode pesar no estômago. Se quiser usufruir da gastronomia e das atrações turísticas de Salvador, o ideal seria viajar em outra época, ou pelo menos pegar mais alguns dias antes (lembrando que a festa começa já na quinta, não no sábado!) ou depois do Carnaval. No corre-corre do circuito, você vai ter que se virar com comida rápida de barracas (salgados, pizzas etc.) e os sanduíches e vitaminas do Suco 24 Horas. Provavelmente, sua maior preocupação será o álcool (que é absolutamente essencial, diga-se de passagem). Dentro dos trios, tudo é mais caro: fora deles, se você não curte cerveja e acha as bebidas ice fraquinhas demais, terá um pouco mais de trabalho até achar uma vodca que seja confiável. Por isso, os mais espertos compram uma garrafa de Smirnoff ou Absolut, gelam em casa e levam para o trio em garrafinhas de água de 500ml, ou naquelas mochilas etílicas do tipo camelbak.
FOI BOM PRA VOCÊ? Posso afirmar com segurança que essa foi a melhor escolha que eu poderia ter feito para o Carnaval de 2011. Se eu voltarei? Não tenho a menor dúvida que sim. Todo ano? Provavelmente não, porque os preços são salgados demais para o meu bolso [nem sei como teria sido sem o apoio e a hospitalidade de meu amigo David, a quem deixo meu beijo e muito obrigado!]. E porque eu também curto o Carnaval do Rio de Janeiro e de Florianópolis, cada um do seu jeito. Salvador provavelmente vai entrar no meu rodízio com as outras duas cidades - ainda que o astral de lá seja dez vezes maior do que o da primeira e duzentas vezes maior do que o da segunda. Sem tanto carão, sem tantos guetos, conhecendo gente diferente. Na terça, quando os trios chegavam perto do fim, tocando os clássicos eternos, os foliões felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, não querendo que aquilo acabasse... aquilo foi um momento totalmente emocionante, uma sensação que eu nunca pensei que pudesse ter. Foi aí que caiu a ficha que eu tinha realmente entendido o Carnaval de Salvador.
terça-feira, 15 de março de 2011
Carnaval de Salvador para não-iniciados
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Thiago Lasco
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12:42 AM
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terça-feira, 1 de março de 2011
Baianizer
Escrevo este post na maior correria do mundo. Estou tentando dar conta das últimas pendências no trabalho, para poder sair depois do almoço e cruzar a cidade (alagada) até o aeroporto de Guarulhos. Meu Carnaval começa hoje, e dessa vez vou romper com o tradicional rodízio entre Rio de Janeiro e Florianópolis. Neste ano que está sendo marcado por tantas novas experiências, chegou minha hora de finalmente conhecer o Carnaval de Salvador. Vou cair na folia e depois dar uma descansada por lá até o dia 13.
Assim que confirmei a viagem, saí à caça de informações para poder montar minha programação. Conheço bem a cidade, mas sou totalmente leigo nesse assunto: se me pedirem o nome de três músicas de axé, vou saber dizer "Arerê", "A Dança do Vampiro", "O Canto da Cidade" e olhe lá. A festa baiana é um emaranhado de blocos e camarotes, espalhados por três circuitos diferentes, ao longo de seis dias (na Bahia, o babado começa já na quinta). É preciso pesquisar um pouco para entender as sutilezas, qual o tipo de público, se é mais friendly, se vale ou não a pena, e então tomar as decisões e comprar os respectivos abadás. Até porque é tudo caro pra cacete: para entrar na cordinha do Coruja, o bloco de Ivete Sangalo, pagam-se escorchantes R$650 por dia! E tem muita gente que compra os três dias e paga sem reclamar, jurando de pés juntos que é uma magia toda mágica, algo que não tem preço, que só vivendo para entender.
Engana-se, porém, quem pensa que o Carnaval de Salvador se resume ao axé. Existem trios com outros estilos musicais, desde as clássicas marchinhas até rock, reggae e música eletrônica - neste ano representada por nomes como Armin Van Buuren e David Guetta. Outro equívoco, reforçado pelas transmissões da televisão, é pensar que nessa festa só os héteros se dão bem. O bloco Crocodilo, capitaneado por Daniela Mercury, tem maciça presença gay. A fama do Crocodilo é tanta que muitos nativos, não querendo ter seu filme queimado numa sociedade onde as coisas acontecem por baixo do pano, acabam migrando para outros blocos, como o próprio Coruja, onde se jogam do mesmo jeito, no meio da multidão. Para quem prefere fazer a linha barbie-túrica, sábado será dia da Pool Party Salvador, com produção caprichada e Offer Nissim e Ana Paula no som - uma festa que promete não ficar devendo às similares do Sudeste, e será emendada num bloco eletrônico (Liberty) que percorrerá o circuito Barra-Ondina.
É claro que vou conferir a programação GLS, que ainda contará com o camarote Vipado, do fofo Ailton Botelho [informações aqui] e as madrugadas do repaginado clube San Sebastian, que funcionará em clima de after. Mas confesso que estou até mais curioso com os blocos não especialmente direcionados, como o de Ivete, que fazem a cabeça de verdadeiras multidões. Nunca fui muito fã do estilo, mas não ficarei admirado se, de repente, eu me pegar dançando e cantando junto, e simplesmente me deixar levar. Tudo pode acontecer. Estou embarcando nessa para me surpreender - coisa que certamente não aconteceria no Rio ou em Florianópolis, onde as mesmas festas trarão os mesmos DJs nos mesmos dias da semana dos anos anteriores, e a única novidade será tocar "Born This Way" no lugar de "Bad Romance". Bom carnaval a todos! Segurucu!
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Thiago Lasco
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11:35 AM
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Sauípe 2010: muito Heaven e pouco Hell
Hell & Heaven 2010. Pela segunda vez, o resort Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia, hospeda um festival de música e festa para o público gay. Dois hotéis do complexo são fechados para o evento, divulgado ao longo de doze meses por meio de ações promocionais nas principais capitais e na mídia especializada, atraindo homens de vários estados brasileiros, dispostos a se jogar em festas alucinantes. "Qual é o seu pecado?", provocava o mote do H&H. Depois de anos de estrada em Carnavais, Réveillons e Paradas no eixo SP-Rio-Floripa, o que esperar e como se preparar para um trem desses? O melhor é respirar fundo, cortar os carboidratos, comprar um bom suprimento de camisinhas e já deixar o nome na fila de transplantes de fígado pelo SUS: a jogação tem tudo para ser intensa. Afinal, a fórmula é a mesma de sempre, só que dessa vez enfeitada com uns coqueiros baianos. Certo?
Pois não foi bem assim.
Para começar, o H&H não foi, nem de longe, tão pesado como eu imaginava. Pensei que seria um turbilhão nonstop das 12h de sexta às 12h de domingo, tipo "salve-se quem puder". Mas a programação do evento foi muito bem amarrada, intercalando períodos de festa e de descanso. Todo mundo pôde fazer todas as refeições (comendo apenas o necessário, já que o bufê era medíocre, com exceção do café da manhã) e também dormir, sem comprometer a farra. É lógico que dançar e tomar o sol forte do Nordeste cansam o corpo, mas cheguei em casa muito mais inteiro do que nas minhas voltas do Carnaval no Rio ou Florianópolis. E olha que, antes do Sauípe, eu já estava me jogando em Salvador havia uma semana.
Outra surpresa: as festas cumpriram seu papel, mas não foram os pontos altos do H&H. O que se fazia era simplesmente montar um palco e um telão na área da piscina de um dos hotéis (e, na festa seguinte, na piscina do outro, dando uma ideia de variedade), ligar o som e chamar os DJs. Sem qualquer refinamento (o tal selo argentino só deve ter emprestado o nome), sem aquele clima de grande produção que marca as tardes de Rosane Amaral no Rio e as noites de André Almada em SP. Nem mesmo a festa principal - a noite de sábado, trazendo o headliner Peter Rauhofer - fugiu disso. A produção poderia ter projetado luzes coloridas nos coqueiros, uma ideia simples que teria criado um efeito incrível, mas se limitou a repetir o telão e meia dúzia de luzes sobre as pessoas, que se equilibravam nos desníveis do terreno acidentado para dançar.
Um fator que contribuiu para que as festas não impressionassem tanto: o evento já mantinha um clima festivo o tempo todo. Na chegada ao resort, o público era recebido para o check in com house e tribal; depois, na piscina, mais música; chegando no salão para jantar, lá estava Offer Nissim nos falantes para dar uma animada. Por isso, quando começava uma "festa propriamente dita", não havia um incremento de emoção em relação aos períodos "sem festa": o que acontecia era uma mera mudança de cenário. Se eu senti uma diferença maior na noite de sábado, foi pelo aumento do público (os moradores de Salvador tiveram a opção de comprar o ingresso avulso para essa festa), pelo som do Peter (que deu o clima mais encorpado que a noite pedia), e também pelo fato de que aquele era, afinal, o clímax antes da despedida. (E foi mesmo especial viver o amanhecer daquele cenário, com o marzão crescendo diante dos nossos olhos ao som de um Peter inspirado).
Além disso, a pegação também ficou aquém do que se podia esperar ao se colocar um monte de homens gays, bonitos, isolados num cenário daqueles. Enquanto dava meu giro de reconhecimento pelo resort, eu imaginava o povo indo aprontar na praia de madrugada, se comendo nas moitas e matinhos que enfeitavam as áreas comuns, zanzando freneticamente pelos corredores de um quarto para o outro. Mas não vi nada disso; se chegou a acontecer, então eu estive nos lugares errados, ou na hora errada. Mesmo durante as festas, achei a beijação bem mais contida do que num bom Carnaval - sendo que estávamos no Estado brasileiro onde mais se beija nessas festas, e fiquei lúcido o suficiente para entender o que se passava ao meu redor. (Logo eu, que me fantasiara num quarto de hotel com mais três, fazendo um picante role play nordestino, sendo a rolinha de vários coroné, enfileirados para colocar a pomba no meu boga e me dar uma boa pisa... Só fiquei zen porque já tinha chegado de Salvador pra lá de saciado!)
Mas nem por isso eu deixei de gostar do Hell & Heaven. A experiência valeu a pena e eu certamente repetiria a dose! O espaço do resort é muito bacana, as áreas comuns são grandiosas e, se a praia não é particularmente bonita para os padrões baianos, é mais do que suficiente para encantar mineiros e brasilienses (esses grupos eram maioria; já baianos e pernambucanos, vi bem menos do que esperava). Meu quarto era bastante confortável, e o outro hotel oferecido era ainda melhor. Sei que não temos que buscar o gueto e sim a inserção social, e blá blá blá, mas foi sensacional ter toda a estrutura do Sauípe só para nós, gays. Isso sim eu considero o grande highlight do H&H. No café, nas piscinas, em toda parte, todo mundo tranquilo, integrado, falando a mesma língua, vivendo a mesma onda. Reconheço que no final eu já estava até meio enjoado de ver tanto viado junto, mas o evento teve a medida certa. Talvez eu colocasse um dia a mais para o povo poder curtir o resort (tivemos apenas o sábado inteiro, os outros dois dias foram de trânsito), mas não mais do que isso.
Acima de tudo, preciso reconhecer que o astral do H&H esteve lá em cima o tempo todo. As pessoas pareciam desarmadas, tranquilas. Talvez tenham cansado de seguir à risca a cartilha dos excessos e resolvido simplesmente relaxar e curtir o resort, sem maiores pretensões. O clima era tão leve, mas tão leve, que eu poderia ter gravado um vídeo compacto do evento e mandado para minha mãe. E o evento foi um sucesso: na reta final, todos os quartos acabaram vendidos, e já estão marcadas duas edições em 2011, em maio (Angra dos Reis) e novembro (Sauípe novamente). Se foi um pouco diferente do que eu imaginava, numa próxima já irei com o espírito mais preparado. No aeroporto de Salvador, na fila do check in para SP, eu continuava me surpreendendo com mais e mais homens lindos, que também voltavam no H&H e eu nem tinha visto. Todos com uma cara boa, realizados. Talvez a gente possa se reeducar para não ter que beijar todas as bocas e se atracar com todos os corpos para sentir que aproveitou, se divertiu e foi feliz.
[Foto: Genilson Coutinho/ACapa]
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Thiago Lasco
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Rapidinhas cariocas
Como fiquei no Rio de 26 a 30 de dezembro, peguei dias de muito sol e um praião fantástico, e consegui dar um "up" no meu tom dourado alagoano. Aliás, eu nunca consegui entender: por que o Rio de Janeiro é sempre muito mais quente do que o Nordeste, se está mais longe da linha do Equador? Em época de balanços e melhores-do-ano, concluo que a música que deu a cara do Rio em 2009 (pelo menos pra mim) foi "Hush Hush", das Pussycat Dolls. O metrô da cidade está um desastre! A nova estação General Osório (prometida há 11 anos) ficou bonita, mas o trem chega a demorar quinze minutos para passar, e não há um único banco na plataforma inteira para os usuários sentarem e esperarem! A muvuca logo se acumula e as composições já partem abarrotadas. Se em verões anteriores o balneário parecia ter virado destino dos gringos mais bagaceiros, de 2008 pra cá um público bem bacana tem flanado pela Zona Sul. Dos hotéis trendy aos albergues-carandiru, muita gente linda na pista pra negócio. Bem bacana a nova edição limitada das Havaianas - branca, com estampa de várias fitinhas coloridas à la Bonfim, representando os desejos de ano novo - à venda por R$32 na loja própria da marca na Farme, quase em frente ao Bofetada. O tal "choque de ordem" imposto pelo prefeito Eduardo Paes para disciplinar a vida na praia desagradou muita gente. Cada barraca agora só pode oferecer 80 cadeiras - ou seja, chegue muito cedo, ou passe nas Lojas Americanas e compre a sua. O comércio ambulante foi drasticamente reduzido, e proibiram aqueles latões de mate que eram verdadeiros ícones da praia carioca. O lado bom: os folgados que distribuíam boladas nos banhistas agora só podem mais jogar frescobol e "altinho" na beira da água após as 17h. Depois de uma era em que o must era ser o mais bombado possível, a palavra de ordem deixa de ser volume e passa a ser definição. O músculo ainda impera, mas corpo inchado virou cafona: quanto mais seco e rasgado, melhor. A minha descoberta nessa viagem foi o Meza Bar, na Capitão Salomão com a Visconde Silva (ali onde era o Madame Vidal, no Humaitá). Delícia de lugar pra ir com os amigos: aconchegante e escurinho na medida, música perfeita, público bacanudo e sem afetações, comidas sofisticadas e criativas, que chegam à mesa em potinhos. Tudo de bom! Outra delícia, essa já tradicional, é assistir ao vaivém de Ipanema tomando um sorvetinho mara sentado no pequeno deck da Mil Frutas. Para quem gosta de sabores cremosos e doces, uma trinca matadora: o novo beijinho e os clássicos chocolate branco com maracujá e queijo com doce de leite. Hummm! Mais dicas de comidinhas cariocas em breve: vou postar uma versão revista e atualizada do meu roteiro gastronômico do Rio, que publiquei aqui em 2006. Sobre as festas: como voltei pra SP no dia 30, não peguei as festonas da cena barbie (eu soube que a Maxima e a R.Evolution agradaram). Mas fui conferir a edição de 5 anos da Moo, na varanda do Museu de Arte Moderna. Locação desbundante, público desencanado e bonito e música entre electro e disco house, criando um clima superfofinho. Tive minha última dose de cafuçus do ano, no quartel-general-nagô do Rio de Janeiro, o Buraco da Lacraia, que nunca decepciona e estava simplesmente bafônico. E por falar em cafuçus, já começou a votação para o Mulato do Góis 2010, concurso do jornal O Globo que elege o mais bonito entre um dream team de sambistas das escolas do Grupo Especial. Escolha o seu favorito aqui. Não tem jeito: entra ano e sai ano, com sol ou com chuva, com todas as virtudes e defeitos, a Cidade Maravilhosa continua me deixando amarradão! Se meu amor é por São Paulo, minha paixão é pelo Rio! Um beijo e feliz 2010 para os meus amigos e leitores cariocas! [Foto: Eugene Zhukovsky]
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Thiago Lasco
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2:14 PM
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Destaques do réveillon carioca 2008
Hoje começa mais um ano de batente (ainda que nosso inconsciente considere que o início oficial é só depois do Carnaval). Muitos ainda estão se recuperando do pé-na-jaca que foi o réveillon. Quem apostou no Rio de Janeiro teve que se dar por satisfeito com o famoso "sol-entre-nuvens" definido pelo Climatempo, mas desfrutou a presença maciça de machos di catiguria, que deram sopa pelas ruas da cidade e nas festas. E quanta jogação! Se eu (que só cheguei no dia primeiro) estou exausto, imagino quem chegou logo depois do Natal e engatou nove dias de cha cha cha...
Como para frente é que se anda - e, no fundo, tudo o que rolou não deixa de ser uma repetição do que já conhecemos muito bem, com mínimas variações - vou destacar apenas aquilo que considerei melhor. Coberturas mais detalhadas vocês encontram nos blogs amigos (que, pelo que andei presenciando, terão muito o que contar). Let 2009 begin!
A PRAIA: COQUEIRÃO. O êxodo começou tímido, há dois ou três anos atrás, quando uma discreta parcela de bees cansou do gueto da Farme e foi atrás de novos ares. Neste verão, o que era um hype entre poucos atingiu um público bem maior, e a presença gay no trecho em frente ao tal Coqueirão tornou-se muito mais visível, com direito a mãos dadas e beijo na boca. E os héteros do pedaço parecem estar levando tudo na boa. Claro que a Farme continua líder quando o assunto é quantidade (e os gringos em geral continuam indo lá); já no quesito beleza humana, ela já era bastante irregular e agora sofreu um duro golpe, porque as bunitas estão todas apostando no Coqueirão. Que é novidade, não tem favelização na areia e, de quebra, tem também um monte de hétero bonito para se olhar.
A LARICA: LÍQUIDO. Enquanto alguns (como eu) são capazes de cruzar a cidade atrás do que querem comer, muita gente prefere andar o mínimo possível para matar a fome pós-praia. Com o deslocamento para o Coqueirão, os preguiçosos podem aposentar os manjadíssimos New Natural, Cafeína e Frontera e descobrir novos lugares. Meu novo queridinho é o Líquido, na Barão da Torre 398, entre Joana Angélica e Maria Quitéria (ou seja, exatamente na altura do Coqueirão). Moderno, com cadeiras coloridas dispostas em um deck agradável, o lugar investe em culinária saudável e serve sucos deliciosos, saladas, sanduíches e alguns pratos mais elaborados. Destaco os excelentes dosas, crepes indianos feitos com farinha de arroz integral e recheios como frango ao curry com espinafre e passas, mais um molhinho esperto para acompanhar (há vários tipos de chutney a escolher). O cardápio é criativo o suficiente para você ir várias vezes sem enjoar e os preços são bastante justos para Ipanema.
A FESTA: POOL PARTY @ ESTAÇÃO DO CORPO. Para quem pagou R$120 de entrada, é inadmissível que os banheiros (químicos) sejam tão poucos e tão nauseabundos (às 19h, já estavam sem condições de uso, e a festa só foi acabar às 3h). Também não dá para aceitar um serviço de bar tão despreparado, sem um mínimo de treinamento e cortesia, que não atende quem chegou primeiro, faz tudo de cara feia e não sabe o que é Red Bull (tive que refazer o pedido: "um energético"). Mas esses defeitos não conseguiram estragar o brilho da festa, que se deve principalmente à escolha acertada da locação. A Estação do Corpo é maravilhosa e quem esteve lá pôde entender por quê as famosas pool parties de 2006 ficaram na memória (afinal, até a decoração era a mesma). Nenhuma festa da temporada teve um astral tão incrível e Rosane Amaral tem todas as razões para comemorar o sucesso. Pena que ela leve o ditado "em time que está ganhando, não se mexe" tão ao pé da letra.
O DJ: RAFA ARIZA. Não costumo falar daquilo que não conheço (muito menos elogiar). Mas, entre todos os amigos que consultei - gente que tem senso crítico e presta atenção no som que escuta - o espanhol Rafa Ariza foi uma unanimidade. Pertencente ao clã da Matinée Group, o DJ foi trazido pela The Week e tocou nos dias 29 e 31, quando arrancou mais elogios do que o próprio Peter Rauhofer, atração principal da noite da virada. Entre os DJs que vi e ouvi, a vertente sonora das festas da Rosane não é do meu gosto pessoal (o que foi o momento fogos de artifício com "Amigos Para Siempre"?!), mas achei o Flávio Lima bem honesto. E tenho que elogiar o set do João Neto na noite do dia 3, na The Week. Mais instrumental do que vocal, foi pesado na medida certa para bombar uma pista que mal conseguia se mexer, tamanha a lotação da casa.
A SURPRESA: TÔ NEM AÍ. Por melhores que sejam os clubes e as festas, é ótimo ter lugares em que você não paga nada e pode conhecer gente e se divertir, indo e vindo de forma descompromissada, justamente porque não existe a barreira do ingresso. As praias cumprem esse papel; na falta delas, em São Paulo temos a Praça Benedito Calixto. No Rio, o Bofetada foi por muitos anos um ponto de encontro certo; depois, decaiu até o completo esquecimento (só no Carnaval é que lembram dele). Neste verão, o povo que não quis se montar para ir ao Felice passou a se reunir na frente do Tô Nem Aí. Na última sexta, sem grandes festas e com a Combo e o Galeria absolutamente inviáveis, fiquei boquiaberto com a quantidade de homens bonitos muvucando a esquina da Farme com a Visconde até altas horas da madrugada. Tô Nem Aí is the new Bofetada, só que muito melhor.
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Thiago Lasco
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terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Rio versus Floripa, versão 2008
Dez dias antes do Carnaval 2007, fiz um post colocando na balança as propostas do Rio de Janeiro e de Florianópolis. Neste ano, faz sentido reescrever o texto: bastante coisa mudou nas duas cidades, especialmente na cena noturna. De repente, o mundo acordou para Floripa, que vive um boom inédito de investimentos, com clubes e festas eletrônicas para gays e héteros (e um mar de turistas interessados em conferir as novidades de perto). O Rio também não é mais o mesmo: elogios e críticas à parte, a chegada da The Week mudou completamente o cenário das festas cariocas. Aqui vão alguns prós e contras das duas opções.
CINCO RAZÕES PORQUE VOCÊ DEVERIA ESCOLHER FLORIPA:
1) AS FESTAS GAYS. A programação pode ser a mesma nas duas cidades, mas o cenário do Praia Mole Eco Village, em meio a uma área verde e com vista para a Lagoa da Conceição, certamente garantirá um astral bem mais leve para as festas da The Week do que o do clube fechado e escuro da Saúde. Para os amantes de Offer Nissim, a mesma TW Floripa promete uma pista bem mais selecionada do que a B.I.T.C.H. carioca (que em 2007 deixou todo mundo espremido na Leopoldina, e desta vez lotará o anfiteatro da Fundição Progresso). Deixando a TW de lado, em Floripa os gays ainda têm a Sunrise, uma festona à bordo de um barco que fará um lindo passeio ao redor da ilha, a E-Joy, com o convidado Chris Cox, e a bagaceira animada do clube Concorde; já o Rio será praticamente um déjà vu do último réveillon, com Rosane Amaral promovendo festas nas mesmas locações, mas com DJs piores, e Le Boy e Cine Ideal na lanterninha fazendo a linha popular.
2) AS PRAIAS DE FLORIPA. Florianópolis tem muita coisa boa a oferecer nesse quesito - e são poucos os turistas que realmente aproveitam. Eterna campeã de freqüência, a Praia Mole é muito maior do que o cantinho onde os gays se concentram em torno do precário Bar do Deca. A linda Galheta é um paraíso de paz e sossego, perfeita para alguns momentos curtindo a própria companhia. Pegando o carro, dá para fazer uma porção de passeios legais: Ribeirão da Ilha, com casinhas açorianas e um ótimo restaurante (Ostradamus) onde os garçons vestem farda de marinheiro, Baía dos Golfinhos, Ilha do Campeche... Enquanto isso, no Rio, nossa amada Ipanema estará cheia de corpos belos, mas mais suja do que nunca, parecendo um cortiço com tanto lixo deixado por cariocas e turistas.
3) O NOVO LUXO PRAIANO DE JURERÊ INTERNACIONAL. As finas que torcem o nariz para a maloca do Bar do Deca encontraram sua salvação no El Divino Beach e no P12, que oferecem um mar de gente bonita e estrutura de praia européia, com limpeza, conforto e comidinhas. Para os jetsetters convictos, o Taikô e o Café de La Musique vão ainda mais fundo na proposta - é comum ver beldades se esbaldando em sushis e entornando garrafas de champagne em plena praia. Parece afetação demais para você? Pois saiba que o número de homens - gays - bonitos que resolveram trocar a Mole por Jurerê cresce a cada ano. E, à noite, o El Divino Club receberá Fatboy Slim, David Guetta e Tiësto.
4) A PRAIA BRAVA DE ITAJAÍ. A apenas 80km de Florianópolis (uma esticada perfeitamente viável, portanto), a Praia Brava de Itajaí não tem nada a ver com a farofada aborrecente da vizinha Balneário Camboriú (e só é acessível de carro, o que ajuda a peneirar os freqüentadores). Se a mauricinha Jurerê Internacional é para quem, em Ibiza, pega praia em Salinas e vai dançar no Pacha, este é o lugar de quem ferve em Playa d'en Bossa e se joga no terraço da Space: gente linda, sorridente e festeira. Aqui estão o superclube Warung, espécie de Sirena em estilo balinês, que deve fazer as noites mais incríveis do carnaval catarinense (é claro que estarei lá!), e o Kiwi, que de dia faz festas bombadas na praia e à noite recebe o público em suas instalações de extremo bom-gosto.
5) TODOS OS AMIGOS LÁ. Mais do que em qualquer outro carnaval, neste ano um monte de gente resolveu apostar suas fichas em Floripa. E, para muitos, o melhor Carnaval é sempre aquele em que os amigos estão. Em São Paulo, a adesão foi maciça; mesmo em outros estados do Sudeste (RJ inclusive), o número de adeptos da idéia de "um carnaval diferente do de sempre" cresceu bastante. Alguns fatores depõem contra o Rio: é perto o suficiente para ir a qualquer hora (não precisa ser Carnaval), muitos acharam que as festas do réveillon carioca ficaram abaixo das expectativas, e o curto espaço de tempo entre os dois feriados (apenas 32 dias) não ajuda as pessoas a "desenjoar" e querer repetir o prato.
CINCO RAZÕES PORQUE VOCÊ DEVERIA ESCOLHER O RIO:
1) FÁCIL ACESSO. A menos que você seja gaúcho ou curitibano, o Rio é muito mais perto e fácil de se chegar do que Florianópolis. Se as festas que mais chamaram a sua atenção foram as da The Week, você pode ver todas as mesmas atrações gastando menos dinheiro com passagem, ou evitando o perrengue que é dirigir até Santa Catarina (especialmente o trecho entre São Paulo e Curitiba). E já que falei em festas, só aqui é que existem pool parties de verdade (as da Rosane Amaral, já que chamar aquele lava-pés da TW Rio de piscina é um pouco demais) e carnaval de verdade (os desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, a Banda de Ipanema, os blocos de rua).
2) ESTRUTURA. Floripa com chuva pifa. Se São Pedro fica de mal da região Sul do País (que é a primeira a receber as frentes frias da Argentina!) e o tempo fecha, não há o que fazer, não há plano B. Para quem está acostumado às comodidades de cidades maiores, Floripa não tem estrutura, não tem gastronomia de ponta, não tem cultura, não tem nada. Até o número de salas de cinema é pífio. Já no Rio... os humores também azedam quando o tempo fecha, mas dá pra escapar do fracasso de diversas maneiras. Restaurantes incríveis, centros de compras completos, um bom circuito cultural e, por que não, duas saunas movimentadas garantem ocupação enquanto as festas da noite não chegam.
3) CIRCULAÇÃO. Em Florianópolis, você precisa de carro para tudo. Como a ilha não foi planejada para receber tantos turistas, o trânsito chega a ser desesperador, especialmente na volta da praia: o engarrafamento começa no final da Mole, dá a volta na Lagoa da Conceição e se prolonga em direção ao Centro. "Bem capaz, tá tudo trancado!", exclamam os gaúchos. Já no Rio, se quiser você pode fazer tudo a pé o tempo todo: ir à praia, almoçar, fazer pegação, quem sabe alguma comprinha de última hora... No máximo, você pega um ônibus (rapidinho) para voltar para casa, se estiver hospedado no começo de Copacabana. Táxi, só na hora de ir para a festa, e sem drama: são muitos (em Floripa, quase não existem) e muito mais baratos.
4) OS MELHORES CORPOS. Com o aumento da procura, Floripa deve receber mais caras sarados - e as barbies gaúchas, habituées de lá, têm a vantagem de combinar corpo bom com rosto bonito. Ainda assim, se seu negócio é corpão acima de tudo, seu lugar é e sempre será o Rio. Quem olha os corpos cariocas tem a impressão de que eles nasceram tomando mamadeira com baixa lactose, cresceram fazendo esportes no calçadão e comendo barrinha de cereal e aprenderam cedo a perder o medo da seringa. Tanta oferta de carne acaba atraindo fortões de todas as partes do Brasil e do mundo, e o que se vê é um festival de músculos de todas as cores e tamanhos: tem corpão galã, corpão camarão, corpão cafuçu, corpão diva, corpão poliglota, corpão michelle.... E o melhor: todos esses corpos já chegam na cidade com vontade de pecar.
5) VERSATILIDADE. A cena gay carioca pode ser focada nas barbies, mas seu Carnaval também tem opções para as outras tribos e é o mais completo para atender a todos. As barbies batem cartão na Farme e na The Week Rio, os modernos evitam o sol e encontram seus pares no ótimo projeto Fase/Moo e nos clubes Dama de Ferro, Fosfobox e 69, e quem prefere uma diversão mais bagaceira se esbalda no pós-praia do Bofetada, na sempre lotada Le Boy e nos babadeiríssimos bailes do Elite, onde rola de tudo (de tudo meeesmo: barba, cabelo e bigode !). E você ainda pode transitar entre esses universos, combinando os ingredientes à sua maneira e montando um roteiro pessoal rico e único - coisa que a cena totalmente mainstream de Floripa jamais poderá te dar.
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Thiago Lasco
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domingo, 6 de janeiro de 2008
O sobe-e-desce do réveillon carioca 2007
Foi um réveillon de contrastes. Os dias não poderiam ter sido mais leves: tempo maravilhoso (um milagre para a época), praias cheias, turistas felizes e alto astral em todo lugar. Isso sem falar naquele desfile de corpos dourados que é de enlouquecer (o Ministério da Saúde deveria advertir: o Rio de Janeiro provoca torcicolos). Já as noites foram surpreendentemente pesadas, com lotação além da conta, excesso de colocón e som nem sempre bom - isso sem falar nos furtos. Ao mesmo tempo em que se profissionaliza, o circuitão carioca, que já nos deu noites inesquecíveis, parece estar perdendo uma parte do encanto e do astral de antigamente. Uma pena.
UAU:
1) O VERÃO QUE A GENTE MERECE. Enquanto o réveillon passado teve chuva ininterrupta por quinze dias (e deixou os turistas estrangeiros tiriricas de raiva), desta vez o Rio foi agraciado com dias de sonho: céu de brigadeiro, sem uma nuvem sequer, e um solzão ardido que embelezava os pontos turísticos e mergulhava no mar como uma bola de fogo - um espetáculo que não devia nada aos famosos sunsets de Ibiza, e ainda com direito a aplausos na praia. E mais: em meus oito verões na cidade, eu nunca tinha visto a água tão gostosa e calma para nadar - nem sinal daquele mar gelado e revolto que puxava os banhistas de Ipanema para o fundo e os tragava numa furiosa arrebentação.
2) THE WEEK: OS MELHORES CORPOS. Com apenas seis meses de idade e vivendo seu primeiro verão, a filial carioca do maior clube gay do país já se consagrou como o endereço definitivo dos corpos mais bonitos da cidade, desbancando o posto que, por muito tempo, foi ocupado pela festa X-Demente. A concorrência luta pelo seu espaço, contrata DJs gringos e investe em locações bem mais interessantes, mas nada disso impede o clube de André Almada de bombar sistematicamente em todas as noites (às vezes, até demais). O apreço dos fãs é tanto que eles não deixam de ir à casa nem quando há alguma outra grande festa: não foram poucos os que prestigiaram a R.Evolution nos dias 29 e 31 e, mesmo assim, foram terminar sua noite na TW.
3) ROSANE: A MELHOR VIBE. Com a The Week estabelecendo um novo padrão de qualidade na noite carioca, as festas de Rosane Amaral de repente já não parecem tão bem feitas - e soluções caseiras como usar chuveiro de vestiário como mictório ficam ainda mais toscas. Ainda assim, a produtora tem como trunfo a beleza de suas locações - especialmente o Clube de Remo do Flamengo, à beira da Lagoa, com um visual tão lindo que até compensou a produção com cara de quermesse e o tribal jurássico dos DJs escalados. Além disso, talvez até mesmo por serem ao ar livre, suas festas têm uma vibe muito mais leve e feliz: as pessoas conversam umas com as outras e parecem realmente se divertir. Com todos esses ingredientes (e mais o carinho de seus seguidores), Rosane não deixou de fazer festas bastante movimentadas - sendo que sua Original Pool Party, no dia 1º, foi a mais gostosa de toda a temporada (mesmo enfrentando a concorrência de outra day party abarrotada na TW).
4) RIO G SPA. Finalmente alguém teve a iniciativa de abrir algo que fazia muita falta no Rio: um lugar prático e seguro onde você pode ir transar com aquele gostosão que acabou de conhecer na praia de Ipanema, sem os riscos de trazer um desconhecido para o hotel ou a casa dos seus anfitriões cariocas. Novinho e limpinho, o Rio G Spa tem saunas seca e a vapor, café, internet, tratamentos de beleza e um bom número de cabines, muito melhores que as da sauna 64 (que vai perder os clientes se não investir em reformas rapidinho). O melhor: você pode pedir uma pulseira e voltar quantas vezes quiser no mesmo dia - ideal para os que estão com o diabo no corpo, ou mesmo para aproveitar e fazer uma sauninha e tomar um bom banho depois da praia.
5) O PROJETO FASE E O NOVO CLUBE 69. Com o gongo da festa de réveillon Hotel Carnival, a Fase, projeto conjunto do clã da Moo e dos clubes D-Edge e Vegas (SP), foi o que fez valer o fim de ano dos modernos no Rio. Com uma linda fachada, espaço para dançar em vários andares, bares e banheiros eficientes e uma simpática parede de leds atrás do DJ, as Casas Franklin bombaram até as nove da manhã - e todo mundo que foi saiu satisfeito, seja pelo som, seja pela qualidade do público. Outro destaque da temporada é o 69, novo clubinho eletrônico de Ipanema. Muti Randolph agora inventou uma pista iluminada por um painel de persianas gigantes, que recebem grafismos coloridos emitidos por um retroprojetor e refletidos em um espelho. Simples, barato e muito cool. O clube acertou a mão em tudo: tem o tamanho certo, o clima ideal para festinhas de house e um DNA genuinamente carioca (não, não é um clone do nosso D-Edge).
UÓ:
1) SER ROUBADO NA THE WEEK. Sempre vi a The Week como um clube "de Primeiro Mundo" e confesso que, na época em que circulavam rumores sobre roubos, furtos e extorsões na matriz paulistana, cheguei a pensar que tudo não passava de intriga da oposição. Tanto que mencionei o fator "segurança" ao destacar a TW como uma das melhores opções para o réveillon do Rio. Pois bem, paguei minha língua: levaram exatos R$150 do meu bolso. Eu adoraria ter meu prejuízo ressarcido, mas gostaria mais ainda de saber, um dia, que a casa voltou a ser um clube seguro e recomendável. O incidente foi um grande balde de água fria no meu fim de ano e, confesso, me deixou com um certo bode de voltar na casa do Rio.
2) O ENTERRO DA X-DEMENTE. A X-Demente foi um divisor de águas na minha vida. Foi lá que comecei a ter interesse por música eletrônica e acabei aprendendo a enxergar a noite gay de uma maneira completamente diferente. Um novo mundo se descortinava diante dos meus olhos. Na Fundição Progresso, vivi momentos que me marcaram e vão ficar pra sempre na minha memória: tenho um enorme carinho pelo lugar e pela festa. Por tudo isso, foi com um certo pesar que eu constatei: a X-Demente passou. Depois do sopro de vida na Parada Gay de SP, a produção voltou a dormir no ponto, demorou horrores para bolar tudo e, quando soltou as informações, ninguém mais estava interessado: a festa foi olimpicamente ignorada. Para descobrir alguém que tivesse ido à X e saber como foi, tive que perguntar para o amigo do amigo do amigo.
3) CHRIS COX @ COSMOPOLITAN. Sei que alguns vão discordar: muitos consideraram esta a melhor noite da temporada de réveillon. Saio de casa decidido a me divertir (e não botar defeito em tudo), mas desta vez realmente não consegui. A The Week estava insuportavelmente lotada, tanto que foi obrigada a liberar a circulação na área vip (mas depois, de uma hora para outra, voltou a proibir; com isso, quem estava com os amigos e foi dar uma volta não pôde mais reencontrá-los). O som do Chris Cox era muito chato (não entendi o hype em cima do fofucho). A iluminação excessivamente escura em todos os ambientes e a falta de uma área externa que desse uma aliviada no clima (como em São Paulo) deixaram tudo ainda mais deprê. Enfim, nada a ver com tantas festas bonitas que a The Week já fez em seus mais de três anos.
4) O GONGO DA HOTEL CARNIVAL. Os moradores de Santa Teresa bateram o pé, fizeram abaixo-assinado, chamaram a polícia e a prefeitura e conseguiram impedir a festa que prometia ser o melhor réveillon moderno de todos os tempos. Foi um verdadeiro anti-clímax para algo que estava sendo preparado com carinho e prometia reunir só as pessoas mais legais. Pelo visto não é só em São Paulo que a música eletrônica e a diversão são malvistas por certas camadas da sociedade. E olha que dessa vez nem era uma "festa rave"...
5) O DE SEMPRE. A cidade fica superlotada, com trânsito caótico em todas as principais vias de circulação da Zona Sul, a qualquer hora do dia. Para quem vem de carro, estacionar é desesperador: não há vagas, nem estacionamentos, e quem vai para Ipanema ou Copacabana pode ter que parar o carro em Botafogo e ir de táxi. Os cariocas aumentam artificialmente os preços de tudo para explorar os turistas - o quilo Frontera, por exemplo, passou a cobrar inacreditáveis R$59,90/kg só porque era fim de ano. Isso sem falar que a multidão de banhistas deixa tanto lixo na praia que chega uma hora em que você fica com nojo de pisar na areia. Não tem jeito, todo ano é assim - mas a gente sabe, e não consegue deixar de voltar.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
As comidinhas do próximo verão, parte 1
Mal começou dezembro e já surgem as primeiras apostas para o verão 2008: qual festa/clube vai bombar mais, que trecho da praia de Ipanema será a bola da vez, qual a sunga certa, qual o hit que vai embalar as pistas. É o tipo de especulação totalmente inútil - e, por isso mesmo, muito divertida de fazer. Estive no Rio no fim-de-semana e arriscarei alguns palpites dentro da minha área favorita: as comidinhas que devem marcar o verão carioca.
Minha aposta: este será o verão das temakerias. Em São Paulo, elas fazem parte da paisagem há uns bons três anos; conquistaram os baladeiros (abrem até tarde e são uma opção rápida e barata), mas, ao contrário do que aconteceu com o Burger King, não chegaram a comover grandes multidões. Talvez porque muitas, como a Temaki Express, fazem temakis horrorosos, com alga ruim, peixe congelado e uma salmon skin que mais parece um pano de prato queimado (até hoje, só conheci uma casa que prestasse, a Ícone).
No Rio, na falta de uma, duas temakerias chegaram com tudo, em plena Rua Farme de Amoedo: a Yiá!, minúscula, fofa e "temática" (a identidade visual é toda inspirada na cultura pop japonesa), e a Koni Store, com um interior modernoso em tons de laranja (que transportou minha mente para o finado Fork, saudoso restaurantinho que funcionou em 2000-2001 em frente ao Galeria Café).
Leves, fresquinhos, saudáveis e baratos, os temakis tinham tudo para estourar no Rio. Primeiro, são uma excelente opção para antes ou depois da praia (as duas casas, espertas, instalaram seus pontos a apenas duas quadras da orla). Depois, como já estamos cansados de saber por aqui, são ótimos quebra-galhos para a larica noturna - ao contrário de SP, o Rio sempre foi muito capenga quando o assunto era comida de madrugada: as únicas opções eram o Cervantes, o BB Lanches, a Fornalha do Humaitá e a Pizzaria Guanabara (que eu pessoalmente abomino).
Não por acaso, as duas temakerias estão vendendo feito água - especialmente a Koni Store, que também tem lojas na Praça Nossa Senhora da Paz (a mais concorrida), no Leblon e na Barra. Dos básicos aos incrementados, os cariocas agora só querem saber de "cone" (é assim que eles falam) - e, com certeza, em questão de semanas a turistada que virá engrossar o contingente das festas vai aderir também. Como é que ninguém pensou nisso antes?
A outra febre do momento atende pelo nome de Yogoberry e fica na Visconde de Pirajá, duas casas antes da Letras & Expressões (ou seja, entre Joana e Vinícius). A casa faz o segundo melhor frozen yogurt que já provei (bate fácil o do America e perde apenas para o da Leo Dolci aqui de SP). Você escolhe entre a versão básica e o surpreendente sabor de chá verde (!) e ainda pode acrescentar coberturas "sólidas", como frutas frescas picadinhas (morango, kiwi, melão, entre outras), pedacinhos de chocolate preto ou branco e até sucrilhos. A casa é inteira branca, com cadeiras de acrílico verde transparente e luminárias laranjas com fios plásticos dependurados, imitando águas-vivas. Bem estilosa. Um funcionário distribui microcopinhos do sorvete na calçada, o movimento na loja vai crescendo - e assim nasce mais um hit de Ipanema.
No próximo post, vou concluir minhas apostas com alguns palpites sobre lugares que devem ferver na hora do jantar.
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Thiago Lasco
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
10 dicas para o carnaval no Rio
Amanhã o povo começa a debandar de São Paulo para o Carnaval que escolheu. O meu será no Rio de Janeiro mesmo. Aproveito a deixa para dar aqui alguns conselhos e dicas para quem escolheu o mesmo destino que eu (a maioria já é "macaco velho", mas tenho pelo menos três amigos que estão perdendo a virgindade de carnaval carioca, então esse post é dedicado a eles).
1. Vai de ônibus ? Se chegar de dia, vá para a Zona Sul usando o "frescão" (ônibus de turismo com ar condicionado) - o ponto dele fica na calçada, atrás da fila de táxis que você verá do saguão de desembarque. Se chegar de noite, não pegue táxi comum na rua (você pode entrar numa roubada), nem os especiais dos guichês do saguão interno da rodoviária. Use o do guichê que fica do lado de fora do saguão, no canto direito - é uma cooperativa bem mais barata e você paga a corrida no próprio balcão (o preço é fechado por bairro).
2. Por melhores que te pareçam as festas, não deixe de viver também o dia, aproveite a praia em Ipanema. Mas leve o mínimo de coisas necessário: a areia fica extremamente lotada e é muito difícil tomar conta das coisas - os furtos comem soltos nessa época. Melhor uma bermuda com bolsos do que uma mochila, e nada de iPod ou câmera digital largados dando sopa. Não descuide.
3. Se for se jogar na Banda de Ipanema, muito cuidado: no meio do empurra-empurra, sempre tem uma molecada do mal que se mete no meio da muvuca e enfia a mão nos bolsos dos desavisados na maior cara-de-pau. Todo ano é a mesma coisa - e tem gente que não aprende e continua levando prejuízo.
4. Dizem por aí que os pitboys voltarão a atacar as bees nas imediações da Farme e Bofetada. Pode ser boato mas, pelo sim pelo não, abra o olho. E, independentemente dessa ameaça, que tal sair um pouco do pombal e dar uma variada ? As areias do Coqueirão (entre Joana Angélica e Maria Quitéria) estão cheias de gente bonita. Se você não quer ficar tão longe do fervo, vá apenas alguns metros em direção à Vinícius de Moraes - essa área já se estabeleceu como uma "zona de transição semigay", uma espécie de Faixa de Gaza.
5. Bateu o olho e gostou ? Fique esperto com quem você arrasta pro seu hotel. Boa Noite Cinderela não é lenda urbana e não é só gringo que cai no golpe. Muitos hotéis nem deixam hóspedes trazerem gente de fora. E se você estiver hospedado na casa de amigos, nem pensar em arrastar uma pessoa completamente desconhecida pra lá, certo ? Pulgueiros de alta rotatividade existem pra isso, em Copa mesmo tem.
6. Ih, deu chuva ? Vá conhecer o novo Shopping Leblon e veja a vista da Lagoa a partir da praça de alimentação. Passe uma tarde agradável enfurnado na übercool Livraria da Travessa (tem uma filial dela nesse shopping, mas a original é na Visconde de Pirajá 572). Ou, se seu negócio é basfond nonstop, jogue-se com fé nos vapores da célebre 64.
7. Não deixe de se alimentar direito, senão a jogação vai te derrubar. E não precisa ficar comendo naquele Natural decrépito todo santo dia, né ? Na Farme mesmo tem o Cafeína e o Colher de Pau, e a poucos passos há quilos de qualidade como o Frontera (na Visconde) e o Fazendola (na praça General Osório). Andando um pouco mais, ainda em Ipanema, aposte no rango gostoso e descomplicado do Delírio Tropical, esbalde-se com os peixes fresquinhos do Nik Sushi e as saladas encorpadas do Gula Gula. E, se encarar um almocinho no Leblon, o Bibi Sucos e o quilo Fellini são só algumas das muitas boas opções que você tem.
8. Não comprou seu convite antecipado ? Então chegue cedo nas festas - o preço de porta vai subindo vertiginosamente com o passar das horas. E, se anunciaram que até meia-noite será xis, se você chegar às 23h45 pagará 2 xis, porque a produção espertamente liberará a fila bem devagar para não dar tempo de todo mundo entrar. Ah sim, e se você acha que há o risco de querer usar o banheiro no meio da festa, leve de casa um pouco de papel higiênico dobrado no bolso - com toda a certeza não vai ter na hora, e você passará por maus bocados, especialmente na X-Demente da Fundição.
9. Vai para a Sapucaí assistir aos desfiles ou sair na avenida ? Vai se jogar na gafieira abusada do Elite ? Use o metrô para ir (nas noites de Carnaval, o serviço funciona excepcionalmente durante a madrugada, e os vagões ficam cheios de foliões fantasiados; desça na estação Central). Mas volte de táxi, a menos que você esteja num grupo bem grande.
10. Quer dar um tempo da função e da muvuca ? Lembre-se de que você está numa das cidades mais lindas do mundo - e não é preciso ir muito longe para relaxar. Vá dar uma volta pela Lagoa. Pegue o 511 na Visconde de Pirajá e vá passear na Urca. Visite o Jardim Botânico e o vizinho Parque Lage. Faça um passeio de bicicleta pelo Aterro do Flamengo. Ou, se quiser uma praia mais sossegada (e tiver carona), vá para a Reserva, ou mesmo para Itacoatiara, em Niterói. Só não invente de ir para Búzios nessa época - lá com certeza você vai se estressar ainda mais do que no Rio.
Um excelente Carnaval para todos !!!
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Hit parade do verão nordestino
Foram dezoito dias entre Salvador e Recife, com direito a muita praia (do Porto da Barra à Aleluia, de Boa Viagem a Porto de Galinhas) e também festinhas aqui e ali (em boates e até em uma escuna). Nessas andanças, deu pra fazer um hit parade com os 5 principais hinos que marcaram o verão 2007 nas duas maiores capitais do Nordeste. Lá vai:
1) Shakira feat. Wyclef Jean: "Hips Don't Lie" - Aquelas cornetas inconfundíveis que evocam Miami tocaram em todo lugar. Finalmente um hit de alcance mundial na carreira dessa colombiana cada vez mais parecida com a Elba Ramalho (só falta um moreno gostosão 20 anos mais novo a tiracolo).
2) Bob Sinclair: "World Hold On" - É aquela velha história: descer o nível para fazer sucesso. Nem dá pra acreditar que esse lixo é do mesmo produtor da pérola "I Feel For You", de 2000. Será que alguém ainda agüenta aquele assobio irritante ? Os baianos e pernambucanos pelo jeito sim.
3) Mason: "Exceeder" - Um dos hits do último verão europeu, esse electrinho chegou de leve no Brasil e, inesperadamente, já aportou no Nordeste. Tocou na festa da escuna que reuniu o crème de la crème das barbies de Salvador; esteve no set do Fatboy Slim em sua apresentação em Recife, no Marco Zero da cidade; e foi citada com destaque pela Jovem Pan FM recifense, em seu programa de novidades. Biscoito fino.
4) Vanessa da Mata: "Ai Ai Ai" - Uma peculiaridade das pistas nordestinas: elas não têm absolutamente nenhum preconceito com músicas em português - diferentemente do Sudeste, que torce o nariz para isso. O "banho de chuva" em versão remixada era garantia de animação em qualquer festa - moderninha ou bagaceira, gay ou hétero, dos finos ou do povão.
5) Os Kamaradas: "Não Me Chame Não Que Eu Vou" - Essa leva o troféu de grude insuportável do ano. O refrão "venha! venha! venha! venha! / venha! venha! venha! venha!" faz você pensar em mil jeitos cruéis de assassinar o maldito camelô do MP3, que toca a desgraçada faixa no repeat o dia inteiro, sob o sol escaldante dos trópicos. Ninguém merece.
Isso sem contar algumas esquisitices locais. A pista da Metrópole, a principal boate GLS de Recife, bomba mesmo é com o remix altamente farofoso de "Another Brick In The Wall" do Pink Floyd. E a praia de Boa Viagem tem um hino disco informal: "Dance Little Lady Dance", hit de 1976 da Tina Charles que todos os camelôs de MP3 do pedaço (que ficam passeando pelas areias com carrinhos) tocam todo santo dia.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
Rio ou Floripa ? O meu veredito
E vamos logo escrever aquele post com o meu ponto de vista sobre o dilema do Carnaval 2007 (Rio x Floripa), antes que a polêmica fique velha.
Não vou puxar a sardinha para o lado do Rio ou de Floripa, mas sim colocar alguns fatores que levariam a cada uma das opções, e deixar que cada um faça sua escolha. Acho isso mais bacana do que fazer propaganda unilateral de um destino. Já passei vários carnavais nas duas cidades e acho que tenho know how para opinar.
Antes disso, tenho 3 considerações a fazer:
i) A cena carioca pode ter escorregado feio nas festas de réveillon, mas isso não chega a ofuscar o Rio como um destino de carnaval. Há que se lembrar que existe todo um contigente de pessoas que curte outros tipos de festa (desfilar na Sapucaí, por exemplo) e vai continuar indo pro Rio como sempre foi, e um enorme exército de gringos que está alheio a novas modinhas internas e vai continuar considerando apenas a Cidade Maravilhosa como opção. O Rio não vai ficar morno da noite pro dia.
ii) Muitos usam os investimentos da The Week como pretexto para alegar que Floripa é the new place to be e o Rio é passado. Eu discordo. Na minha opinião, se André Almada está jogando pesado em Santa Catarina, é porque sabe que no Rio ele teria que enfrentar uma briga de foice com Fábio, Rosane, Téo & cia., com resultados no mínimo incertos, enquanto que na ilha ele encontrará um mercado de noite muito mais capenga e por isso mesmo mais receptivo, que dará todo o espaço para a The Week brilhar e sair bonita na fita. A TW não investe no Rio porque no Rio não há espaço pra ela, só isso.
iii) É muito saudável que exista uma migração de pessoas do Rio para Floripa, e que se consolide a ilha como uma segunda cena de carnaval forte. Se podemos ter vários destinos bombando, isso é sinal de que o mercado está crescendo, e isso é legal pra todo mundo. É muito mais chato ter só uma opção realmente boa.
CINCO RAZÕES PORQUE VOCÊ DEVERIA ESCOLHER FLORIPA:
1) DEMOCRACIA E DIVERSIDADE. No Rio de Janeiro você é absolutamente invisível se não tiver bração, peitão e tanquinho (e isso não vale só para o meio gay; ser ostensivamente sarado é um requisito de aceitação em todos os ambientes cariocas). Já em Floripa o apreço pela beleza física continua dentro do limite saudável - não existe essa "ditadura barbie", há espaço para outros tipos de beleza, todos encontram um lugar ao sol (incluindo aí as próprias barbies).
2) PRAIAS. Floripa dá de dez nesse quesito. Se as praias urbanas do Rio já perdem a briga em outras épocas, no Carnaval elas ficam imundas, tanto a areia como a água. A Farme em particular fica parecendo um cortiço à beira-mar, dá nojo pisar lá. Já na ilha o babado rola num cenário muito mais bonito - a Praia Mole - com opção de dar alguns passos e acabar num verdadeiro paraíso - a Galheta - onde pode rolar basfond ou não (a escolha é sua). Sendo que, se for o caso de pegar o carro e fugir do pombal, só na ilha você tem mais de quarenta praias a escolher. O Rio tem a Barra, a Reserva e, quando muito, Itacoatiara (mas você iria até Niterói ?! sei !).
3) SEGURANÇA. Nem preciso falar que de modo geral há muito mais violência no Rio (o que não quer dizer que Floripa seja um oásis de calmaria; nessa época não faltam ladrões sazonais querendo uma fatia do patrimônio dos turistas). Mas a situação do Rio é ainda pior: além dos bandidos de sempre, consta que aqueles velhos pitboys de Ipanema estão saindo de suas tumbas (do armário eles não saem...) para promover a volta dos coiós e do terror homofóbico sobre o público da Farme.
4) NOVIDADE. Bem ou mal, o Rio tem sido por muito tempo o principal destino de todo mundo. É bom variar. As festas do réveillon carioca foram todas meio caídas, um claro sinal de que a cena de lá precisa de renovação. Nem a pool party da Rosane (que no carnaval 2006 era apontada como "o futuro da cena carioca") se sobressaiu: a locação que ela conseguiu infelizmente não chega nem aos pés da saudosa Estação do Corpo. O público quer novidades, e o Rio ainda não se mexeu o suficiente para isso. E vamos combinar: o Rio a gente freqüenta o ano todo, é fácil de ir em qualquer fim de semana. Não precisa ser Carnaval... já Floripa pede uma ocasião especial, e é essa a melhor hora para se visitar a ilha, pelo menos para quem quer ferver.
5) AMIGOS. Para muitos, o melhor Carnaval é aquele em que seus amigos estarão. E, seja pelo "bode" de Rio, seja pelo chamariz da The Week, seja pela simples vontade de arriscar, muita gente está apostando em Floripa neste ano - não só os habituais paulistas e sulistas, mas brasilienses, mineiros e até alguns cariocas. Por isso, se seus amigos resolveram descer para Santa Catarina, você tem mais um motivo para ir também.
CINCO RAZÕES PORQUE VOCÊ DEVERIA ESCOLHER O RIO:
1) ESTRUTURA. Floripa com chuva pifa. Se São Pedro fica de mal da região Sul do País (que é a primeira a receber as frentes frias da Argentina !) e o tempo fecha, não há o que fazer, não há plano B. Floripa não tem estrutura, não tem gastronomia, não tem cultura, não tem nada. Até o número de salas de cinema é pífio. Já no Rio... os humores também azedam quando o tempo fecha, mas dá pra escapar do fracasso de diversas maneiras. Bons restaurantes, bons centros de compras, um bom circuito cultural e, por que não, uma sauna movimentadíssima garantem ocupação enquanto as festas da noite não chegam.
2) CIRCULAÇÃO. Em Floripa você precisará de carro para tudo, e só Deus que vê tudo lá de cima sabe como o trânsito em Floripa é uma merda. A hora da saída da praia é um horror: o engarrafamento começa no final da Mole, dá a volta na Lagoa da Conceição e se prolonga em direção ao Centro. No Rio, você faz praticamente tudo a pé o tempo todo (quando muito, num ônibus rapidíssimo se você está hospedado no começo de Copa) e só vai pegar um táxi (baratinho, se comparando com os pouquíssimos da ilha) na hora de ir para a festa.
3) CORPOS. Já falei sobre isso mais acima, mas o que pode ser inconveniente para alguns é certamente muito bem-vindo para outros. Se seu negócio é corpão acima de tudo, seu lugar é e sempre será o Rio. Tem corpão galã (sim, daqueles lindos de morrer), corpão camarão (corta-se a cabeça e come-se o resto), corpão cafuçu (rústico e viril), corpão frutinha (que às vezes só se revela como tal na hora H), corpão michelle (vem com taxímetro acoplado), corpão poliglota (pencas de gringos que fazem as circuit parties mundo afora) e corpão semi-analfabeto (que, não raro, acaba se engraçando pelos corpões da categoria anterior). De todas as cores e tamanhos.
4) VERSATILIDADE. O Rio pode até focar demais nas barbies, mas seu Carnaval também tem opções para as outras tribos e é o mais completo para atender a todos. As barbies batem cartão na Farme e nas festas dirigidas a elas (X-Demente, Pool Party etc.), os modernos encontram seus pares nos clubes Dama de Ferro e Fosfobox e em festinhas de electro, e quem prefere uma diversão mais, digamos, bagaceira se esbalda no pós-praia do Bofetada, na sempre lotada Le Boy e nos babadeiríssimos bailes do Elite, onde rola de tudo (de tudo meeesmo: barba, cabelo & bigode !). E você ainda pode transitar entre esses universos, combinando os ingredientes à sua maneira e montando um roteiro pessoal rico e único - coisa que Floripa jamais poderá te dar.
5) MÚSICA BOA E VARIADA. Em Floripa, 110% das festas e projetos para esse carnaval é de house tribal, e, mais ainda, de qualidade variada - não são poucas as chances de você acabar dublando "Alone" mais de uma vez no seu Carnaval. Já o pacote Rio de Janeiro dá de brinde um time considerável de bons DJs gringos de vários estilos diferentes. Tem DJ Hell na sexta, Deep Dish no sábado e, dizem, Peter Rauhofer na segunda e na terça. Ah sim, e se a sua praia é house tribal mesmo, ainda tem Tony Moran, Offer Nissin, e a inevitável overdose de Ana Paula nas duas X-Dementes. Musicalmente, é Rio mesmo e não tem pra mais ninguém.
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Thiago Lasco
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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Outros ares
Eu continuo viajando, tenho mais alguns dias de férias pela frente e ainda não estou pronto para redigir aqui as minhas impressões das cenas de Salvador e Recife. Mas já posso dizer que, como eu havia adiantado no post anterior, aqui tem muito fervo gay sim. Fervo como era antigamente: conhecer pessoas, dar risada, beijar na boca, fazer sexo. Não esse 'fervo' pseudomoderno do eixo Rio-SP, em que todos se entopem de substâncias sintéticas de todos os tipos, para ficarem belíssimos e colocadíssimos, e terminam sempre sozinhos.
Nós que vivemos no tal eixo Rio-SP nos achamos os mais antenados com tudo, mas não percebemos que muitas vezes acabamos vivendo em um mundinho ainda menor e mais estreito do que os habitantes de outros Estados que consideramos "atrasados". Paulistanos e cariocas podem até ter acesso a mais informações (especialmente do Exterior), mas olham demais para seus umbigos "superiores" e cultivam gostos e preferências muito limitados, enquanto os baianos e pernambucanos são muito menos preconceituosos e mais receptivos a coisas novas, culturas novas. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive.
Só posso dizer que estou achando ótimo dar esse tempo aqui pelo Nordeste. Não deixei pra trás, da noite para o dia, todos os interesses que eu tinha. Mas tive uma consciência maior de como o mundinho gay do Sudeste anda chato, com suas preocupações cada vez mais repetitivas... Rosane Amaral ou Fábio Monteiro ? Deca ou Dura ? E ou G ? Cera espanhola ou escova progressiva ? Na boa, pra mim já chega... e quando penso que, no Rio ou em Floripa, serão esses os únicos valores reinantes, me dá até uma vontade de adiar minha volta e ficar por aqui mesmo. Tenho certeza de que basfond não ia faltar.
Mas o fato é que na data prevista eu volto, e ainda antes do Carnaval redijo aquele prometido post comparando as propostas de Carnaval do Rio e de Floripa, para cada um tirar suas próprias conclusões.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2007
O sobe-e-desce do réveillon carioca 2006
Estamos em cinco de janeiro e ainda há muita água para rolar aqui na Guanabara. Mas, com a passagem do réveillon, já dá pra ter uma idéia de alguns hypes e bolas fora e fazer um termômetro do verão carioca 2007, ainda que essa seja apenas uma prévia parcial. Então aqui vai um pouco do que está por cima e por baixo por estas bandas...
UAU:
ROSANE AMARAL. A produtora deve estar exausta, mas rindo sozinha até agora. Todas as suas festas foram sucesso absoluto de público, alavancadas pela venda do esperto pacote promocional para as três datas - R.Evolution do Cais do Porto (30/12), R.Evolution do Sky Lounge (31/12) e Pool Party (1°/01). A produção das locações foi apenas OK - nem a esperada Pool Party conseguiu repetir o impacto das mágicas edições de 2006 na Estação do Corpo - e os DJs em geral não surpreenderam (exceção feita para o colírio chipriota Angelos Styliano, que pesou legal e acertou a mão na segunda metade de seu set no dia 30), mas a verdade é que todo mundo prestigiou os eventos dessa mulher. Inclusive o público fiel da X-Demente.
SHOPPING LEBLON. O novo centro de compras da Zona Sul já chegou arrebentando e com toda vocação para ser o hit deste verão. Os trunfos: uma boa oferta de lojas de alto padrão, para pisar no calo do Fashion Mall (Armani Exchange, Jeans Hall, pencas e pencas de óticas de luxo), uma Livraria da Travessa ci-ne-ma-to-grá-fi-ca (com direito inclusive a um Bazzar Café no mezanino, recriando o clima Sex And The City da livraria de Ipanema), oferta de gastronomia enxuta mas selecionada (do carioquíssima Bibi ao paulistaníssimo Ráscal - o primeiro do Rio - passando pelo sempre bem recebido Outback Steakhouse), cinemas by Kinoplex e, para dar o arremate final, uma praça de alimentação emoldurada por nada menos que a vista da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tá???
GRINGOS LINDOS. Como em outros verões, a gringolândia desceu em peso, mas desta vez com muito mais qualidade. Esqueça aquelas tias velhas sem senso de ridículo com fio-dental verde-limão: o que se vê pelas ruas e cafés de Ipanema são belíssimos exemplares de macho, que parecem ter saído ora das capas da Men's Health, ora dos catálogos da Abercrombie & Fitch. Não há dúvidas de que o nível das beldades (que andava meio bagaceiro, diga-se) aumentou muito (para a alegria das caçadoras especializadas, que já são parte do folclore carioca). E as procedências são as mais variadas: ainda tem muito americano, mas cada vez mais gente de outras paragens, como Escandinávia, Austrália, África do Sul e Leste Europeu. Até os argentinos estão bonitos!
00. O bar-restaurante-clube da Gávea, já mais do que consagrado entre os descolados da cidade, está vivendo uma temporada de glória, com noites sistematicamente lotadas (e um verdadeiro caos na hora de pagar a comanda), e se firmou mais uma vez como o destino certo para encontrar as pessoas mais bonitas possíveis, com todos os sotaques imagináveis. O lounge ao ar livre recebeu um bom trato no visu, a ovulante pistinha está com ar condicionado bombando, o sushi bar despacha enrolados sem demora - e, para quem ainda se lembra da tal cozinha contemporânea que dá nome ao lugar, vale conferir os "belisquetes" (acho tão fofo esse carioquismo!) e a releitura que eles fazem do cachorro quente - aqui, com lingüicinha temperada, queijo gruyère derretido e um punhado de onion rings. O 00 está com tudo e não está prosa.
CAFEÍNA E DEVASSA DA FARME. O Cafeína da Farme já vinha se superando em quantidade de público desde o meio do ano, e recebendo uma freqüência cada vez mais gay - a essas alturas, as outrora simplórias atendentes da casa já estão todas familiarizadas com os fervos e gongos do mundinho. E a novíssima filial do Devassa (bar de grife que vai bem inclusive em São Paulo), na esquina com a Prudente, vive com sua varanda apinhada de gente interessante, beneficiada pelo aporte de gringos da alta que se hospedam no Ipanema Plaza, do outro lado da rua, e pelo fluxo natural de banhistas saídos da praia. Cada um com sua proposta, esses dois endereços são as vitrines do momento em Ipanema.
UÓ:
GUERRA DAS MILÍCIAS. OK, este blogueiro sabe bem que o Rio não é tão perigoso como parece e os fuzuês são bem sazonais. Mas não tem jeito: quando acontece uma barbárie como esse ataque ao ônibus da Itapemirim na Av. Brasil, com 18 turistas mortos carbonizados, não dá pra não ficar perplexo e pensar que o Rio de Janeiro infelizmente não tem força suficiente diante do poder paralelo. O que mais me apavora é pensar que, diferentemente das mortes que costumam acontecer em lugares perdidos como o Complexo da Maré, nesse caso poderia ter sido comigo - eu vivo voltando de ônibus pra São Paulo e, com um bom Dramin na cabeça para viajar sonhando com os anjos, eu provavelmente não conseguiria ter escapado da morte no incêndio.
SÃO PEDRO DE MAL DO RIO. Em termos de metereologia, esse foi um dos piores réveillons de todos os tempos. Desta vez não é só aquela trovoada de fim de tarde, e sim dias e dias a fio de céu fechado e tempo chuvoso. Só peguei praia um único dia desde que cheguei, e depois de amanhã já volto pra casa, provavelmente ainda branquelo e com aquela baita cara de derrotado de quem teve a praia micada. Pior ainda é a situação dos estrangeiros, que desembolsaram uma boa grana pra vir pra cá e constataram o que nós paulistanos já sabíamos faz tempo: quando o tempo fecha, no Rio realmente não tem nada pra se fazer. Pelo menos eu estou aproveitando para escrever um post no blog, coisa que em outras condições eu jamais estaria fazendo, em plena Visconde de Pirajá...
RÉVEILLON EM IPANEMA. A virada na praia prometia, com dois grandes eventos de massa - um da Nokia, estrelado pelo show do Black Eyed Peas (que em português quer dizer "feijão fradinho", sabiam ?), e outro patrocinado pelo Guaraná Antarctica, com uma salada eletrônica de ingredientes bem contrastantes, como Infected Mushrooms e Patricinha Tribal (!). A realidade é que Ipanema acabou sendo o pior destino possível na noite do dia 31: a babel de tipos variados que desembarcou por lá viveu cenas de pura selvageria, com muito empurra-empurra, brigas a rodo, os inevitáveis roubos e furtos e uma chuvinha pentelha que insistia em castigar quem teimasse em não fugir dali correndo, na esperança de que depois a festa melhorasse.
SUNGAS ESTAMPADAS. A partir de 2002/2003, a conhecida "moda praia alternativa" de Ipanema começou a soltar sungas irreverentes e coloridíssimas, com as estampas mais diversas, do camuflado-militar ao op-art. Depois de anos de caretice, em que tudo o que existia eram as monótonas listas laterais da Blue Man, a novidade foi muito bem recebida - e os camelôs da Farme venderam que nem água. Mas a idéia já deu o que tinha que dar, virou cafona, e o que era um diferencial bacanudo passou a cansar visualmente, deixando o banhista com aquele ar de 'bissinha da Farme'. Agora, menos é mais - que venham as sungas lisas, vermelhas (salva-vidas é um eterno fetiche !), pretas, azuis e, se a morenice permitir, brancas. E as estampadas da Aussiebum ? Sim, são cafonas também - a marca foi hypada de um jeito tão rápido e tão errado que em questão de semanas já virou carne-de-vaca e brega - quem não comprou pela internet ganhou de brinde, em ações mal-direcionadas promovidas pelo marketing da marca australiana no Brasil.
FÁBIO MONTEIRO. Quem diria, a dinastia X-Demente parece mesmo ter sido posta a nocaute. Depois de anos e anos vivendo da fama de suas festas (merecidamente conquistada, é verdade) e deitando e rolando em cima do público, investindo o mínimo e lucrando o máximo, o antigo sultão da noite carioca perdeu feio a briga para Rosane Amaral. E olha que nesse fim de ano o som dele estava bem melhor do que o dela: o americano Eddie X caprichou no caldeirão, e o terraço só tinha pérolas da finesse brazuca - Mr. Spacely, Pareto, Breno Ung. Ainda assim, o público resolveu deixar Fábio de castigo, e mesmo seus freqüentadores mais assíduos escolheram a R.Evolution. Nem tudo está perdido para ele: o cara tem know how de sobra, e o nome da X ainda ecoa pelo mundo afora. Mas ele precisa reconquistar a confiança e o respeito de uma parcela grande do público, que não tem rabo preso nem ganha vip, e migrou para a concorrência em busca de um tratamento melhor (entrada sem filas, seguranças não truculentos, banheiros em condições mínimas de uso, bar com água suficiente para a noite toda) e, especialmente, de novidades. Como dar a volta por cima ? Voltando a investir em produção e decoração, erradicando os problemas apontados (que são velhos conhecidos de todos !) e, especialmente, caprichando mais no line up. OK, há quem enxergue qualidade na residente Ana Paula, mas os gringos convidados têm sido sempre da vertente mais pobre e manjada do tribal americano. Fábio tem que se empenhar mais - e para isso nem precisa bookar gente caríssima tipo Peter Rauhofer. Tem um monte de DJs fodões, talentosos e renomados lá fora, como o argentino Aldo Haydar (Caix/Buenos Aires) e o espanhol Ismael Rivas (Space of Sound/Madrid), que tocam uma house muito mais rica e agradam em cheio ao público gay de seus países - inclusive as barbies colocadas que Fábio Monteiro tanto corteja. Um bom começo seria trazer de volta o DJ espanhol Oliver, que fez um set sensacional na Marina da Glória no carnaval do ano passado, a única bola dentro que a X-Demente deu em anos. Ficam aí as minhas dicas para ele (a X merece voltar a brilhar e, na boa, a concorrência nem está tão boa assim).
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Thiago Lasco
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